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segunda-feira, janeiro 16, 2023

RAQUEL LANSEROS, HALINA POŚWIATOWSKA, ADELA CORTINA, DONA DUDA DA CIRANDA & ANA DAS CARRANCAS

 

 Ao som dos álbuns Eternity and a Day (ECM 1998), Trojan Women (ECM 2001) e Tous des Oiseaux (ECM 2019), da compositora grega Eleni Karaindrou.

 

TRÍPTICO DQP: - Um dia e a eternidade... Chovia bastante e a cidade foi engolida como se roubasse o meu almoço e sequer soubesse no que me tornei. Uma criança estranha me dizia da vida como se eu cumprisse o roteiro na pele do Alexander de Theo Angelopoulos, recitando versos de Dionýsios Solomós: ... eu tenho medo \ Dos Mortos possam despertá-lo \ Silêncio, meu filho, os mortos \ seguram firmes em suas lápides!... Deu-me uma carta dos dias felizes e eu carregando o fardo de quantos janeiros pelos caminhos de Byron e o conselho de Goethe: entregar definitivamente a alma ao demônio. E já. Lá ia eu pela itinerância sem saber qual hospital me esperava nos olhos de Sêneca: ...mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar... Era o meu confinamento e a eternidade se esgotava em um único dia, tudo estava suspenso na minha diegese como no verso de Raquel Lanseros: Quisera ter sido o horto do poeta... Só que muitas vezes a vontade não basta... O tempo também para mesmo quando passa inadvertidamente pelo presente nebuloso de todos os passados reconectados pelos olhares, gestos e sombras, dores e angústias. Lugar algum seria, sem praia, nem praça, nem pedestre na faixa de domingo – o ermo da existência... cedo ou tarde, eu sei, tudo termina.

 


Manhã de domingo... - Hora de voltar e eu sabia que a maldição do Horla de Maupassant me esperava em casa depois que enlouqueceu generais e golpistas com a mentalidade da turba na aporofobia de Adela Cortina: Os pobres não podem aspirar à felicidade... Naquele dia um comboio passou e ninguém se deu conta ou não se quis notá-lo. A passagem era escandalosa e escondia o terror enlouquecido: a epidemia da loucura. O alarido era ensurdecedor, repetiam não serem terroristas, sonâmbulos de drogas Z, seguindo os conselhos do marido da Marcela. Acontece que depois de tudo o que aquela criatura fantasmagórica queria era só me atormentar e “... fazer com o homem o que fizemos com o cavalo e o boi: sua coisa, seu servidor e seu alimento”. Já sabia que viera apenas para domar a humanidade, bebendo a vida das pessoas que definhavam febris pela noite dos pesadelos, e agora seguiam hipnotizados, vampirizados. Eu nunca fui um cavalheiro da Normandia e li a carta de primeira porque servia pro diário inacabado. Diante do espelho não vi o meu rosto, a jarra vazia era o incêndio da minha alma com toda a minha vida nas lembranças mortas.

 


Caminho do Leste... - Como me socorrer era nada mais restar. Quando sozinho havia o ermo e tudo podia acontecer. Sim. De repente Baubo chegou de uma fábrica estalar, montada num javali alado, com ramos de murta às mãos. Fez o divertimento e levantou a saia para mostrar o caminho na sua genitália. Glória! Um brinde das taças do kykeon. Tocou sua harpa primaveril na fonte do Rheitoi para me ensinar segredos órficos e eleusinos. E me fez dormir em paz sobre seu corpo divino com sonhos pelas constelações. Ao despertar ela trouxe Iambe com sua nudez para me oferecer um gole do sagrado vinho de cevada e juntas me ensinaram a viver alegria, morrer sem medo e ser no ciclo da terra. E me ensinaram a triunfar no pó e no vento com o Hino a Deméter e acabar definitivamente com a seca do sertão. E me embalaram com Dona Duda da Ciranda e me presentearam a arte de Ana das Carrancas. Já anoitecia quando Baubo me levou ao ponto nemo como se fosse Lea Massari com gestos de solidão, enquanto me recitava os versos de Halina Poświatowska: Procuro-te no pelo macio do gato \ em pingos de chuva \ numa cerca de estacas \ e, encostado no amável poste, \ obscurecido pela luz do sol \ - uma mosca numa teia de aranha - \ espero... Chegamos ao Telesterion e lá me mostrou que tudo passará, as muitas hestórias nas estações do ano em La Rinconada, onde me deitou na fogueira da imortalidade e me deu sementes de romã para que eu pudesse um dia segui-la pela caverna Plutoniana com a tocha dos hierofantes: o juramento da jornada da alma, o segredo, libações e as coisas mostradas do deiknymena pela Nebulosa do Cone. Eu mais que sabia: a partir dali tudo poderia ser desfeito, o que aprendi da solitude e o Sol pela estrada do Leste. Até mais ver.

Vem aí o PGM TTTTT. Veja mais aqui.

 


domingo, setembro 11, 2022

MARIAN KEYES, JOANNA BAILLIE, HILDA DOOLITTLE, MICHEL BARLOW & PINTANDO XEXÉU

 

 Ao som dos álbuns Living Room Songs (2011), For Now I Am Winter (2013) e Island Songs (2016), do multi-instrumentista islandês Ólafur Arnalds.

 

TRÍPTICO DQP: - O olhar e o ignoto... - Do lado de cá, o quintal dos milagres; do lado de lá, o mundo. Entre ambos o brejo que mais se parecia um riacho de tão cheio. O pitu chega passava avexado, aos montes pelos tantos de cardumes. Deixei de lado as proezas na cacimba porque havia explorado muitas invencionices na goiabeira, ou pelas bananeiras e matagal. Queria era voar pro outro lado, poder desse tivesse. Luz na ideia e por que não, ora, encarei a fundura, escalei aos escorregões a íngreme margem oposta, fiz força e ganhei acolá. Era tudo muito vasto, como o tanto dos meus sonhos de olhos abertos. Vasculhei a redondeza e dei de cara com uma oliveira carregada de azeitona: Ô coisa mais boa de se aproveitar. Na sombra estava... Ah, era Platero de Jimenez às gargalhadas lambendo os cascos do que sobrou do jenipapo e foi logo me contando d’A raposa e as uvas de Esopo. A cada relincho outra hestória: O lobo e o cordeiro de Fedro; depois O asno de ouro de Apuleio; ô bicho tagarela esse, meu, ganhou pra mim na tomada de água de chocalho: falava pelos cotovelos que nem o homem da cobra. Confesso que morri de rir quando me disse saborear o araticum cagão. O quê? Ao buscá-lo quase pisa no cochilo do sapo Aderbal. Eita, desculpe! Sai pra lá, jumento! Olhe você me respeite senão não tem festa no céu procê! Sai pra lá, ô jegue fidumégua! Foi aí que o asno se enrolou com uma cana e, por engano, pegou foi um ingá do brejo! O cururu vingou-se: Vai ser burro assim no raio que o parta, desgraçado! As rãs assanhadas do fã clube do anuro se riram da leseira deles: Cadê a mula? E instigavam enquanto torciam pelas pazes entre a invejosa lagarta que não sabia para onde ia e peiticava com a vaidosa borboleta que não sabia como veio. O zoadeiro ficava por conta da saparia afoita açoitando a arenga: Foi! Não foi! De repente as lavadeiras fugiam saias pela cabeça às carreiras por causa duma cobra voadora que era uma criança atacada pelas abelhas de Cupira e efígie ofídica se tornara porque amaldiçoada pela mãe logo que esta foi abandonada pelo marido. Como é que é? E logo apareceu o lobisomem zonzo dizendo fugir da barata Gregor gigante que queria pegá-lo e quem não conseguia fugir subia pelos coqueiros ou era pé na bunda mata adentro. Eu não sabia o que fazer quando dei de cara com o Minotauro bufando tal qual a Esfinge do Édipo: Decifra-me ou te devoro! E agora? Paralisado diante daquele terror, apareceu do nada Marian Keyes que me deu o Fio de Ariadne: A vida não respeita circunstâncias... A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade! Desde então pelos labirintos noitedias e dias&noites, tenho muita hestória pra contar.

 


Pintando Xexéu... - Era feriado e a independência de quem no Fecamepa. O que valeu a manhã ensolarar o risonho prefeito aos braçabraços em cada um da multidão solícita, ao passo que a linda senhora vice distribuía afetos e saudações. A Ipiranga valia no tom garboso da sonoridade matutina para que a festa tomasse corpo nas cores e traços dos artistas presentes e o poeta secretário não deixasse nada passar em branco. Divisão foi logo mote glosado por Leo Luna, Ana Paula e Durán, quando este ao final encarou uma espanhola exuberante que sumiu e ele avexou-se e foi junto, ora. Alexandre Freitas foi pelo arruado, ao mesmo tempo em que Profeta seguia noutra nebulosa e Fábio Santos construía a sua igreja. Robertson pegou a canoa e foi pelas águas de não sei onde e Márcia Gomes passava pela ponte dos seus sonhos para ver o xexéu brilhar com João Brito e Alexandre Lima, enquanto Zed Melo dava as caras pra Carlos Daniel, Erick e Míssila no meio da estudantada, ouvindo atentos as narrações livreiras de Rute Costa, para tudo ser registrado pela adorável bibliotecária Sueli na foto geral de exposição na Semed. Valeu mais o abraço de Gel Love & Rogério. Por isso e muito mais, a cada dia canto & sou xexéu. (Veja fotos e evento aqui).

 


O fio de Bastet... – Imagem do designer gráfico, ilustrador, videoartista e artista multi-gênero japonês Keiichi Tanaami. – Anoiteceu e voltei ao convívio das trevas, umbrais solitude, o trâmite da solidão. Lá fora está tão irrespirável até não sei quando; aqui dentro, pelo menos, ouso viver. Não fosse Bastet aparecer-me como se fosse um eclipse solar, não teria nada o que fazer então. Insinuando-se tal qual gata de Nise, com seu olhar felino graciosamente faminto na boca sedenta para me dar o sistro com a mão direita e a efígie com cabeça de leoa coroada pelo disco solar e serpente uraues com a outra, a levar-me pelas pirâmides dos seus segredos, não sei nem o que diga de tanta errância. Mas ela disse-me com tom de Battaile: Nada é mais necessário ou mais forte em nós do que a rebelião... Acredito que a verdade tem apenas uma face: a de uma contradição violenta... Eu sabia que a filha de Rá temia ter que passar de novo por Gata Borralheira. Ora, nem podia, afinal era uma deusa votiva e poderia, com um simples estalar de dedos, mudar o que quisesse e se não o fez é porque não quis. De repente sussurrou misteriosa Joanna Baillie: O tirano agora não confia em homens: todas as noites em seu quarto o cão de guarda guarda seu leito, o único amigo em quem agora ousa confiar. Virou-se e me tratou como Anúbis no meio da madrugada, trazendo-me o mais perto possível a sofreguidão do seu hálito. Foi aí que ela desteceu os enredos do meu canto aniquilado de ave migratória na angústia de desgarrado por triunfar no pó e no vento, para me dizer de Goethe: para ser poeta é preciso entregar-se ao demônio. Ou foi Byron quem disse isso e mais britanicamente: O diabo foi o primeiro democrata... Na solidão é quando estamos menos sós. Nada escrevi que prestasse até que comecei a amar. Meu epitáfio será meu nome, nada mais... Quem disse, o que foi ou não, o que se acusa e se envergonha, pouco importa. Aconchegada a mim se fez Hilda Doolittle: Nenhuma fantasia poética / Mas uma realidade biológica, um fato: eu sou uma entidade como pássaro, inseto, planta ou célula vegetal do mar; / Eu vivo; / Eu estou viva... E em mim a festa dela detonou meus logogrifos e logomaquias, a perdoar as minhas derrotas e o que viveu em mim e o que nunca vi, nem mais nem menos. Já não era insignificante no auge do meu cansaço e nenhum entusiasmo, ela me dava de presente o outro lado do brejo no quintal da infância. Até mais ver.

 


[...] a escola não é menos povoada de mitos e de ritos [...] Mas podemos observar, desde já, que a ação educativa, menos do que qualquer outra, não poderia escapar ao império do sonho e do imaginário. Por definição, poderíamos dizer: artífice do futuro para os jovens que lhe são confiados, a educação teria como única tarefa despertar o desejo, dar corpo ao sonho? Em face do adulto responsável por ela, a criança – ou o adolescente – é esperança frágil e expectativa, para si mesma e para seus próximos, e a ação educativa não teria outra meta a não ser ajudar a realizar essas promessas... Essas ou outras, aliás! [...] De fato, em última instância, a própria criança é o ator de sua educação: ninguém pode crescer, evoluir, aprender em seu lugar! O educador é apenas um catalisador. [...].

Trechos extraídos da obra Avaliação escolar: mitos e realidades (Artmed, 2006), do filósofo e educador francês  Michel Barlow. Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...