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quinta-feira, setembro 23, 2021

CORDEL REPENTEANDO, LUA, UNGARETTI, BRÁULIO TAVARES & SALLIE NICHOLS

 

 

TRÍPTICO DQP – Popoesialar... - Ao som da vinheta Tataritaritatá. - Poesia Popular? Eita! Ah, era quando ia com mãe ou vó pra feira e lá dava de cara com dois repentistas com seu trabalho feito e descascando cada qual a honra e a feiúra um do outro, morria de rir, a ponto de ser arrastado pra casa, de nem poder vê-los rapar a viola. Coisa boa de ver, visse? Ou quando via aquela figura gigantesca do Ascenso cantando das suas, umas e outras, para lá e para cá, chega dava gosto! Lá em casa era pai achegado no meio das suas estantes. Ele até cometia uns sonetos bissextos, enrolado com as lições do Bilac, sapecando uns solos ao violão e a me falar noutras horas do romanceiro dos cordelistas, do cancioneiro popular. Eu que já era de ficar entretido com os trava-línguas, parlendas, pastoris e quadrinhas, ouvia dele coisas de Leandro Gomes de Barros, do Pavão Mysterioso, de Zé da Luz e doutros causos e graças das Literaturas ditas de Cordel. Era galope, martelo, oitava e mourão; era décima, ligeira, sextilha, parcela e quadrão. Era gabinete, toada, gemedeira e rojão pernambucano, quando uma dupla com bandeiro no coco da embolada, quando não outros com dez de adivinhação. Olhos grandes e todo espalhado. Se aprendia? Só Deus sabe o que eu não sei. Até que um dia, no meio da itinerância, lá fui eu noutras voltas, cheio de nó pelas costas a recitar outras Severinas do João Cabral.

 


Lunário perpétuo... – Ao som de Abusão. - De primeira foi assim: inadvertidamente dei de cara com um livrão, sabia lá o que era o Non plus ultra do lunário e prognostico perpetuo, geral e particular para todos os reinos e províncias. Vôte! Nunca tinha visto, apareceu assim do nada sobre a mesa. Estava lá, misterioso. Cá comigo: Que droga é nove? Não era só um livro. Bastou abri-lo assim do nada, logo dele, isso mesmo, das páginas dele uma coisa assim que meio evaporou e fez volume esfumaçado no ar. Só depois de muito tempo é que pude ver que era Vivagina – explico: era como se fosse aquela cabeluda de Bráulio Tavares e a da porteira de Courbet, entende? Pois é. Não demorou muito e a coisa foi ficando mais perturbadora. Logo ouvi a voz de Sallie Nichols: Todas as noites, a Senhora Lua reúne todas as lembranças jogadas fora e todos os sonhos esquecidos da humanidade, guardando-os em sua taça de prata até o despontar da aurora. A seguir, aos primeiros albores, continua a história, todos os sonhos esquecidos e todas as lembranças desprezadas são devolvidas à Terra como seiva da Lua ou orvalho. Misturado às lacrimae lunae, o orvalho nutre e retempera toda a vida sobre a Terra. Graças ao desvelo compassivo da deusa, nada de valor se perde para o homem. Além de precavido, estava cada vez mais curioso. Foi, então, que uma voz de um vulto que emergia do ventre, agigantando-se. E começou a falar de Plutarco: É a morada dos homens bons de sua morte. Levam aí uma vida que não é nem divina, nem feliz, mas, contudo, isenta de preocupação, até a sua segunda morte. Porque o homem deve morrer duas vezes. Danou-se! Procurava entender quando ouvi um poema de Giuseppe Ungaretti: Que estás fazendo, Terra, no / céu? / Diz-me, que estás fazendo, silenciosa / Terra? Entendia patavina! Pensei comigo: melhor fugir. Não deu, algo me trancava naquilo e ouvi do poeta árabe Ibn al-Mottaz (861-908): Olha a beleza do crescente que, acabando de aparecer, rasga as trevas com seus raios de luz. Como uma foice de prata que, entre as flores brilhando na obscuridade, colhe narcisos. A primeira lembrança que ocorre, quando se deseja descrever algo excessivamente belo e mostrar sua extrema perfeição, é dizer: uma face semelhante à Lua. Quanta doidice duma vez só! Era como se a imagem me dissesse tudo isso lido das páginas daquele volume misterioso. De repente a imagem foi ficando mais nítida, a ponto de identificar duas torres, um lago azul e nada mais que conseguisse distinguir no meio da névoa onírica que imperava no ambiente. E era Tales mencionando o corpo sem luz própria que apenas refletia a luz solar. Era Demócrito dizendo que ali era um mundo de montanhas e vales. Era Aristóteles falando das fases lunares. Eram Arisparco de Alexandria e Hiparco medindo a distância entre a Terra e a Lua. Era Newton descobrindo a relação gravitacional. Era Galileu com seu Siderius Nuncius, confirmando Demócrito. E tudo me assustava, nada entendia, impedido de retroceder. Cada vez mais visíveis as duas torres de ouro sedutoras, havia um caminho escuro, não sei se antes alguém já havia passado por isso, acho que sim. O caminho dava numa encruzilhada e eu precisei domar a besta fera que havia em mim – um lobo uivador, nada encoleirado -, e percebia que de um lado estava o dia claro e, do outro, o umbral das horas feiticeiras da noite. Uma imagem de mulher se insinuou mais nítida: em silêncio ela me contemplava – não alcancei suas fases, mas quando a vi, parecia ser a deusa da Lua na Noite Terrível, a me dar sonhos de mistérios ocultos. Só podia ser. Duma feita, ela era Ixchel, a deusa com seus quatrocentos coelhos astecas, a filha de Tialoc. Doutra, uma desconhecida irreconhecível que me mostrava a festa de Heng-Ugo, enquanto me falava que a noite era uma rocha que escondia a história patética dos ritmos da vida e que eu havia de descobrir a iluminação das profundezas, no Mapa da Jornada. Foi neste exato momento que me apareceram os tártaros de Altay, para me contar que ali se escondia um velho canibal que foi raptado da Terra pelos deuses, para poupar a humanidade: eu estaria na boca do lobo. Onde estou? Nem se deram ao trabalho de me responder. Um deles disse: O vir-a-ser - as águas, a chuva, a fertilidade, a vegetação, a fecundidade, os destinos humanos sob a lei da variação periódica. No meio disso, emergiu a raposa Yurugu dos dogons, que me trouxe a primeira palavra divina num sonho iniciático. Foi quando de uma das torres apareceu Ártemis, envolvida por um colar de arco-íris a me apontar o escaravelho e era como se ela dissesse que ele iria me devorar para regeneração moral. Na verdade, pelo que pude adivinhar, ela queria mesmo era me castigar com sua virgindade, a me fazer Hipólito destemido diante de seus cães devoradores, para depois me supliciar. Pensei no seu intento e me surpreendeu ao se tornar Selênia: mostrou-se ciumenta e dominadora, e que eu tinha que pagar pelo que fiz à rainha Artemisa. Eu? Ela tão pálida e fria quanto inconstante, com todo recato virginal, vingava-se sem que eu sentisse por alguma coisa que não sei nem jamais saberia. E ao perceber meu amedrontamento, tomou bruscamente a minha mão e voamos numa revolução elíptica por vinte e sete dias. E me contou da rotação de Domenico Casini, da órbita kepleriana, da carta de Riccioli, da selenografia de Ibn Al-Haytham e Leonardo da Vinci, até a alunissagem, quando me levou pela face oculta até me mostrar os onze mares dali. E me apontou para a outra torre que resplandecia. Sim, eu vi, estava cada vez mais viva e brilhante. Ao me voltar para ela, desaparecia como se morresse na passagem da vida pra noite e vice-versa. O que me esperava, sequer imaginava. Da outra torre, veio-me Hécate: era a Noite Negra da Alma – a Jornada Noturna do Mar. A deusa poderosa sobre o céu e a terra, pareceu-me mais amigável. Não era, engano meu: uma tocha em cada mão e acompanhada de fantasmas e sortilégios, o inferno vivo. Quando olhei pros lados buscando saída, ela mais se agitou e me sequestrou por vinte e oito dias e, ao final, me deu o Nirvana, para que os brâmanes me levassem pelos vinte e oito estados paradisíacos. Ao retornar, ela me abraçou, beijou-me e nos possuímos longa e demoradamente: ela estava insaciável. No horizonte a claridade dava sinal de que eu não havia morrido, prestes ao próximo dia. Foi quando ela me concedeu a propriedade material, o dom da eloquência, e a vitória no jogo e nas batalhas. Presenteou-me com tudo isso, um beijo demorado e voou. Vi-me sozinho, fechei o livro. Tudo desapareceu. Sabia lá que aquilo estava entre Los libros malditos (Edaf Antilhas, 2005), da historiadora Mar Rey Bueno, que, aproveitou o ensejo, e me mostrou o Malleus Maleficarum, o Necronomicon de Abdul Alhazred por Lovecraft de Cthulhu, o Código de Voynich da Lei de Zipf que ninguém conseguiu ler, e eu lá queria saber, dissimulando feliz pela exposição daquelas publicações. Ofereceu-me todos e mais outros volumes que nem tive tempo de sacar quais eram e se foi com um adeus para sempre.

 


Repenteando... – Ao som do cordel Tataritaritatá - Foi aí que tomei pé da situação, depois das muitas e tantas leituras e revivescências, me danei a afinar a viola sem saber direito se cebolinha, cebolão, quatro pontos ou oitavado, qual? Dei aperto na canotilha, ajustei a toeira, dei um grau na turina, já comparando com a requinta, para chegar na prima e me ajeitar pro melhor dedilhado. E fui logo de Manuel Bandeira: Como qualquer violeiro / bom cantador do sertão, / a todos os quais, humilde, / mando minha saudação. E saí repenteando até com um olho só! Isso no embalo da vida, embolando solto, mandando ver na enrolação. Pudesse vir quem quisesse e de qualquer jeito sapecando mote preu glosar de leixa-prem: Não sei se fico ou se corro. Se corro ou se fico. Não sei se fico aqui ou se corro prali. Assim começava, recomeçava e nada de findar. Tudo só para ganhar a simpatia de Iaravi, com coisas impossíveis de Sol e de Lua, presenteando um repente da mulher. Só queria era ver o sorrido dela, coisa mais linda! Afinal, o que é um peido para quem está cagado, hem? Por isso, vou de repente qualquer jeito para ver como é que fica. E feito xexéu: no ano passado eu morri, mas este ano eu não morro. Solto na buraqueira, Cantador no desnorteio & tatataritaritatá! Aí vou contando desde menino que tomou água de chocalho na beira do rio, do que viu da Mãe da Lua e do Urutau, do Lunário Perpétuo e da sua autoria, do que vi e não vi, do que fiz e não fiz, só de uma coisa eu sei: só a poesia torna a vida suportável. Até mais ver.

 

Neste sábado, dia 25, às 16hs, estarei no Ciclo de Poesia Brasileira do Bacellartes, comandado pela Renata Barcellos, contando ainda com a presença da professora e poeta Marcia Ruth Kanitz, do Severino Honorato da Caravana Tin Tin Alves, da pesquisadora Arusha Kelly Carvalho e da doutora Lia Testa.

 

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segunda-feira, junho 23, 2014

SHERRY TURKLE, JANICE REBIBO, MURIEL SPARK, AYN RAND & ELZA SOARES

 


ALEGRIA DE POBRE DURA MUITO POUCO... – Doro andava nas nuvens, maior folga. Parecia mais que a coisa ia dar certo definitivamente daquela vez, mesmo. Pois é. Marcialita, a sua pegajosa cônjuge, virou de vez beata de todos os dias. Isso era um prêmio. Contudo, suspeitas precavidas fizeram-no conferir no amiudado. Furtivo, foi lá na paróquia, de soslaio. Aliviou-se: um vestuto pároco ministrando o evangelho pra regozijo dela, acompanhada da escadinha dos cabelinhos de milho. Dos oito bruguelos, até a caçula pirrototinha de mãos postas, prostrada, acompanhando as orações da mãe. Para onde ela ia, a mundiça deles atrás. Por perto, o melhor: nenhum aventureiro ameaçando sua prole nem cornice. Tudo nos conformes até ele botar o pé fora da paróquia e dar de cara com Delicídia requisitando-o aflita. Pensou consigo: uma frochosa dessa dando mole, tô dentro! E foi: botou a cara pro perigo e a zebra que endoide! Não perderia uma dessa jamais. Levado à residência da distinta, de cara cheio de pernas e sem saber onde botar as ventas. Mas logo aprumou a coisa e consertou o troço que deu na TV dela, justo na hora da novela. Uma tragédia pra coitada, não perdia um capítulo. Enquanto dava jeito naquilo com todo cabedal de zis experiências de faz-tudo, aproveitou para tirar uma brechada nas intimidades da gostesuda e, ao mesmo tempo, ardilosamente já programar outras visitas, detectando defeitos nisso e naquilo. A reboculosa mais que assustada foi caindo na lábia dele: as antevisões problemáticas do distinto, deixou-la mais rendida que presa fácil coagida, tornando-se dali por diante a pessoa mais grata, principalmente quando perguntou quanto seria o conserto e ele, mais que categórico, sapecou: Nada não. Como? Ele enrolou no papo e reiterou que o serviço seria gratuito e, se ela quisesse, na noite seguinte voltaria para fazer as caranhas necessárias nos utensílios que ele, visivelmente afetado, antecipou problema a vista. Tudo grátis! Ela até esqueceu a novela e ficou acompanhando o ar doutoral do sujeito sobre as instalações elétricas e hidráluicas, o funcionamento deste e daquele equipamento, a forma inadequada de utilização dos ventiladores, o ar condicionado com vestígios de sujeiras e que ela tivesse cuidado com o uso de tais recursos. Oxe! Estava no papo! Olhos arregalhados, não deu outra. Ela mais alarmada que atenta, já o contratou para começar o serviço ali mesmo e ele saiu desparafuzando coisas, martelando outras, sempre com uma explicação na ponta da língua pela má utilização de tais coisas. Testou tudo, funcionava. E o melhor: Quanto é? Nada. Como assim? A senhora é só me chamar e estarei aqui pronto pra consertar o que precisar. Ela ficou boquiaberta de olhos esbugalhados com a presteza do rapaz em consertar as coisas que logo dedicou toda atenção aos seus conselhos: É de um homem desse que preciso aqui em casa! Não diga? Meu marido me deixou por uma mais jovem. Sujeito traste, hem? Conversa vai, papo vem, era hora do ardiloso puxar o carro e sair fora para deixar a porta aberta, antes que fizesse uma besteira, como de costume. Precavido, orientou da melhor maneira possível e já deixou apalavrado que na noite seguinte voltaria. Daí pras noites seguintes misturando pernas e beijos nos lençóis da beldade, o cabra só no regalo da mancebia, foi em cheio: acertou na mosca. Nunca foi tão fácil na vida dele. Marcialiata que nunca desconfiasse, inferno pronto. Passaram-se meses e uma dia lá, era de manhã, ele resolveu passar pela casa da já dada por ele como amásia. Ele sabia que ela não estaria, pois era funcionária pública e, àquela hora, estava dando expediente. Na veneta, passou por sei lá cargas d’água e qual não foi a surpresa: Florizita atendeu-lo e com todo requinte de visitante assíduo à residência. Você me conhece? Ora, se. Nunca tinha visto aquela boniteza por ali. Logo viu-se dono da casa tomando ciência de que se tratava da doméstica que deixava tudo nos trinques pra visita dele à noite. Uau! Ela nunca falou nessa pessoa, ora! Pensou ele: Empregada dessa é acertar na loteria! Caraminholas no quengo enquanto conferia os glúteos proeminentes que rebolavam ritmadamente na sua frente para providência de sucos e outros quitutes pro seu bel prazer, no bem bom. Encarou firme o par de seios no decote da moça, conferiu as curvas onduladas da jovem e gelou lívido quando flagrou a graciosa acompanhando seus olhares e lambidas de beiços. O senhor deseja mais alguma coisa? Ele endoidou e não teve como esconder a sobressalência que se fazia notar na sua região púbica. Ela não se fez de rogada: O senhor tá de pau duro? Ele procurou um buraco no chão pra se socar, aliviando-se porque a bonitona logo avançou a mão e começou a alisar seu membro incontrolável. Ele abriu os olhos e viu-se surpreendentemente aliviado: Ah, assim tá. Bocas, sexo, coxas, abraços, tudo misturado ali na hora. Não olvidou, partiu pra cima e fez barba, cabelo e bigode nos trabalhos de cama, mesa e banho dela. Era o que precisava! Mais sortudo que nunca, meses na melhor gestão da vida: apascentando Marcialita, de noite lavando a jega na Delicídia com todos os requintes de campeão e, durante o dia, usufruindo das providentes gentilezas da égua no cio, Florizita. Queria mais o quê? Todo dia e o dia todo ele lá, seis ou sete meses depois a bomba: a empregada estava prenha dele e o pipoco com estilhaços além dos limites territoriais. Pense num estouro, perto disso bomba atômica era pinto! O que teve de gente para zoar em seus ouvidos não estava no gibi: padre, juiz, promotor, conselho tutelar, polícia e tudo o mais no seu juízo noite e dia. Florizita era de menor. Fodeu. E bucho já à mostra. Lascou-se. Pensou várias vezes em dar um tiro no pingulin pra ver se resolvia. Melhor logo um suicidio, pronto. Peraí. Pensou melhor: merda por bosta, melhor que ser capado por mim mesmo, pagar a pena é o de menos. Bronca safada, problema mesmo só presta quando esfola e enraba o sujeito de fodê-lo a alma sem saída. Simbora nos peitos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Você se sente miseravelmente desamparado e quer se rebelar? Rebele-se contra as ideias de seus professores. O amor é a nossa resposta aos nossos valores mais elevados – e não pode ser outra coisa. Deus… um ser cuja única definição é que ele está sozinho com o poder da compreensão humana. Pensamento da escritora, dramaturga, roteirista e filósofa estadunidense Ayn Rand (1905-1982). Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Nunca peça desculpas, nunca explique. Se você vai fazer algo, você deve fazê-lo minuciosamente... Pensamento da dramaturga e poeta britânica Muriel Spark (2918-2006). Veja mais aqui e aqui.

 

JUNTOS SOZINHOS – [...] Bizarramente, quanto mais conectado você está, mais você está isolado. [...] Esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros. [...] A tecnologia é sedutora quando o que ela oferece atende às nossas vulnerabilidades humanas. E acontece que somos realmente muito vulneráveis. Estamos sozinhos, mas com medo da intimidade. As conexões digitais e o robô sociável podem oferecer a ilusão de companheirismo sem as exigências da amizade. Nossa vida em rede permite que nos escondamos uns dos outros, mesmo quando estamos amarrados uns aos outros. Preferimos enviar mensagens de texto do que conversar. [...] As mensagens de texto oferecem a quantidade certa de acesso, a quantidade certa de controle. Ela é uma Cachinhos Dourados modernos: para ela, enviar mensagens de texto coloca as pessoas não muito perto, nem muito longe, mas na distância certa. O mundo agora está cheio de Cachinhos Dourados modernos, pessoas que se confortam em estar em contato com muitas pessoas que também mantêm afastadas. [...] As pessoas estão sozinhas. A rede é sedutora. Mas se estivermos sempre ligados, podemos negar a nós mesmos as recompensas da solidão. [...]. Trechos extraídos da obra Alone Together – Why We Expect More From Technology and Less From Each Other (Basic, 2012), da socióloga e psicóloga estadunidense Sherry Turkle, autora que expressa: As relações humanas são ricas, confusas e exigentes. E nós os limpamos com tecnologia. Enviar mensagens de texto, enviar e-mails, postar, todas essas coisas nos permitem apresentar a nós mesmos como queremos ser. Podemos editar, e isso significa que podemos excluir, e isso significa que podemos retocar o rosto, a voz, a carne, o corpo - nem muito pouco, nem muito, na medida certa.

 

ABASTECENDO-SEO que estou perdendo? \ Uma porta de banheiro,\ uma vidraça\ na porta do banheiro,\ uma haste de cortina de chuveiro,\ a janela entre minha cozinha e a varanda de serviço,\ uma lâmpada fluorescente,\ painéis solares,\ um terço\ do controle deslizante da varanda frontal\ , um apêndice e duas amígdalas – uma história antiga\ (verificação do útero)\ ( e dois seios)\ um carinho\ as crianças\ descontam\ um cartão de crédito…\a grade enfeita\ minha antena\ minha tampa de combustível. Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015).

 

OUTROS DITOS INAUDITOS!

 

Ouvindo o Concerto para piano nº 3, do compositor alemão Carl Reinecke (1824-1910)


O BRASIL E A COPA DO MUNDO
– Perguntaram-me o que eu achava da seleção brasileira nessa copa do mundo. Respondi prontamente: - Torço todo dia e o dia todo por um Brasil melhor paratodos. 


ELZA SOARES – Um furacão! Foi como apareceu Elza Soares, a filha dum operário tocador de guitarra e duma lavadeira, nos meus ouvidos que não despregavam do radiozinho de pilha quando eu ainda era um menino peralta da beira do rio. Oxe! Quando ouvia sua voz cantando “Se acaso você chegasse” e, depois, “Mas que nada”, nossa! Ela acendia a minha libido e haja mão! Viajava eu por todas as galáxias possíveis e inimagináveis embalados por sua voz. Essa pioneira puxadora de samba enredo cativou meu coração, mesmo quando houve até o escândalo com Garrincha, o anjo das pernas tortas da torcida brasileira. Pra quem segurou a barra, cantou de peito aberto e corpo voluptuoso de todas as entregas, é uma dádiva ouvi-la cantando com Chico Buarque “Façamos (Vamos amaaaaaaaar – uma graciosíssima versão do Carlos Rennó pra canção do Cole Porter)”, bãoooooooo demais. Hoje eu festejo o aniversário dela: parabéns, Elza.

PENSAMENTO DO DIA: Já dizia o Salomâo (antes ou depois dos Cânticos dos Cânticos?): O caminho do orgulho é o caminho que leva à desventura. Aquele que confia nas suas riquezas está destinado a sucumbir”. Veja mais aqui.

NALDINHO FREIRE – Conheci o músico-educador, compositor e pesquisador paraibano Naldinho Freire alguns anos atrás, com quem tive a oportunidade e o prazer de conviver e dividir experiências. Virei fã do seu projeto musical Raízes: traços contemporâneos, resultado de uma primorosa pesquisa realizada por ele acerca da arte e cultura nordestina. Parabéns, Naldinho, hoje é seu aniversário! Muita música, paz, saúde & sucesso procê.

PRAS CHICÓLATRAS – Um dia lá, eu conversava sobre músicas com um professor amigo meu de faculdade, quando ele destemperou: - Sabe, Luiz, eu odeio um tal de Chico Buarque! -, confesso gente que na hora fiquei estarrecido, claro, mas disfarcei falando de antipatias (pra não dizer outra palavra) gratuitas que a gente compra na vida. Não sabe ele, coitado, que no show desse rapaz, eu vi ao vivo e em cores, além de muita poesia, palmas duplas (de mãos e bocetas – é que a mulherada bate palma pegando um lado da boceta e batendo na outra com orgasmos múltiplos perenes! Ah, que inveja! Assumo. Por isso Vivagina aqui).

O QUE SÃO AS COINCIDÊNCIAS – Em 1992, no dia de hoje o presidente Fernandinho Ventaloca desmentia que queria renunciar. Quatro anos mais tarde, no mesmo dia, o tesoureiro dele, PC Farinha, era assassinado com Suzana Marcolino. Quando as coincidências não batem, as aparências não enganam não.

HAVERÁ AMOR? – De um verso da poeta acmeísta russa Anna Akhmatova (1889-1966 – pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko): “[...] Segunda- feira. É noite! No escuro uns contornos de cidade. Algum vagabundo escreveu que na terra pode haver amor.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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segunda-feira, dezembro 03, 2007

BLAISE CENDRARS, GUSTAVE COURBET, GINOFAGIA & TATARITARITATÁ!!!!!



Imagem de Amadeo Modigliani.

BLAISE CENDRARS, GUSTAVE COURBET, GINOFAGIA & TATARITARITATÁ.

Gentamiga do meu Brasil véio, arrevirado e de porteira escancarada!

Tive a oportunidade de ler um livro: Morravagin, de Blaise Cendrars. Por esta razão, convido você a sacar as ideías do escritor expressas nesse livro:

“(...) As máquinas mais complicadas e as sinfonias de Beethoven se movem segundo as mesmas leis, progridem aritmeticamente, são regidas por uma necessidade de simetria que decompõem seus movimentos numa série de medidas minúsculas, ínfimas, e que se equivalem. O baixo-cifrado corresponde àquela engrenagem que, infinitamente repetida, desencadeia, com um mínimo de esforço (desgaste), o máximo de estética (força utilizável). O resultado é a construção de um mundo paradoxal, artificial, convencional, que a razão pode demonstrar e tornar a montar à vontade (paralelismo dinâmico: um sábio físico vienense não se deu ao trabalho de traçar todas as figuras geométricas projetadas pela Quinta Sinfonia e, recentemente, um sapientíssimo inglês não traduziu em vibrações coloridas as vibrações sonoras dessa mesma sinfonia? Esse paralelismo se aplica a todas as “artes” e, portanto, a todas as estéticas (...) No princípio era o ritmo, e o ritmo fez-se carne”.

A ciência não passa de uma história supersticiosamente adaptada ao gosto do momento”.

Mulier tota in utero, dizia Paracelso, por isso é que todas as mulheres são masoquistas. O amor, para elas, começa com o rebentar de uma membrana para terminar na total laceração do ser na hora do parto. (...) O homem e a mulher não foram feitos para entenderem-se, amarem-se, fundirem-se e confundirem-se. Pelo contrário, detestam-se e dilaceram-se mutuamente; e nessa luta que tem o nome de amor a mulher passa por eterna vítima, na verdade o homem é que é morto e outra vez morto. Pois o macho é o inimigo, um inimigo desajeitado, hábil, especializado demais. A mulher é todo-poderosa, mais bem assentada na vida, possui vários centros erotógenos, sabe então sofrer melhor, possui mais resistência, sua libido lhe dá peso, ela émais forte. O homem é seu escravo, ele se rende, se estende aos seus pés, abdica passivamente. (...) A mulher é maléfica (...) Pois a mulher triunfa de todas as abstrações. Nenhuma civilização jamais escapou da apologética da muilher, salvo algumas raras sociedades de jovens machos guerreiros e ardentes, cuja apoteose e declinio foram tão rapidos quanto breves, como as civilizações pederásticas dos ninivitas e dos babilônios, antes consumidoras que criadoras, que não conheciam nenhum freio para a sua atividade febril, nenhum limite para o seu enorme apetite, nenhum termo para as suas necessidades e que, por assim dizer, devoram-se a si mesmas, desaparecendo sem deixar rastro, como morrem todas as civilizações parasitárias, arrastando com elas um mundo inteiro. Amo demais a mulher para não ser misógeno

Trinta anos! Era o prazo que tinha me dado para me suicidar, outrora, quando acreditava no gênio da juventude. Hoje, não acredito em mais nada, a vida não me enche mais de horror do que a morte, e vice-e-versa. Não quero mais saber do cerebralismo, dos estetas, dos literatos militantes, das rivalidades entre pequenas e grandes panelinhas, da maledicência profissional, nem da vaidade que corrói os autores e os infla, nem do seu arrivismo nojento”.

BLAISE CENDRARS é o pseudônimo do novelista e poeta suiço Frédéric Louis Sauser (1887-1961), um dos mais importantes representantes das vanguardas artísticas do começo do século passado. Em 1912, publicou em Paris a obra Les Hommes Nouveaux. No mesmo ano publica Les Pâques à New York. Em 1915 perde a mão direita na guerra e, dois anos depois, amputam-lhe todo o braço. A vida de Blaise Cendrars foi uma constante aventura, com viagens pelas sete partes do mundo e outras tantas ocupações para ganhar a vida. Fortemente influenciado pelos primeiros ventos futuristas, Cendrars alistou-se como voluntário na Legião Estrangeira durante a Primeira Guerra. Foi enviado ao front e, em 1915, perdeu o braço direito no campo de batalha. No começo dos anos 20, Cendrars veio ao Brasil e travou amizade com os modernistas Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Identificou-se imediatamente com as contradições dos trópicos a ponto de dizer que o país era a sua "pátria espiritual". Foi condecorado com a Légion d’Honneur por André Malraux, no ano de 1958, E faleceu em 1961 na sequência de vários ataques. O seu livro Morravagin: Fim do Mundo Filmado Pelo Anjo Notre-Dame, foi escrito em 1926. O livro é uma biografia de um monstro. O personagem é a encarnação do século XX, com sua vertigem da violência e sua compulsão à guerra. A edição também traz a delirante narrativa "O fim do mundo filmado pelo anjo Notre-Dame", cuja autoria o escritor atribuía ao personagem Morravagin que é a encarnação da doença do século XX, com sua vertigem da violência e sua compulsão à guerra em escala internacional. Parte do romance Morravagin foi escrita no Brasil, por onde o poeta passou em 1926, ano de lançamento do livro. Como escreve Carlos Augusto Calil na orelha do romance, "a saga de Morravagin é a ilustração de um percurso sinistro da história recente, em que a guerra se torna aceitável, lógica, necessária e profilática".

Ao ler o livro, escrevi “DE MORRAVAGIN DE CENDRARS PARA VIVAGIBRA! (VIVAGINA!)


Foi com uma surpresa enorme que tive acesso ao livro de Blaise Cendrars, “Morravagin”, escrito entre 1913 e 1925, onde o leitor logo se depara com a biografia de um monstro misógino que encarna o século XX, com sua vertigem de violência e compulsão à guerra.
O poeta de origem suíça Frédéric Louis Sausser (1887-1961) adotara o pseudônimo de Blaise Cendrars, segundo suas próprias definições, por causa de brasa e cinzas, parecendo que o autor queria referenciar a sua pátria espiritual, o Brasil, onde esteve por algumas vezes participando do movimento Pau Brasil na pintura e na poesia, realizando conferências e que muito bem se identificou com o seu temperamento plural e despojado, virando, inclusive, cenário de algumas passagens de suas obras.
Como a matéria-prima do poeta era a realidade e o Brasil com toda sua rica fabulária, conseguiu levá-lo para encantamentos que viraram páginas literárias das mais aprazíveis, reconhecidas, inclusive, pela imprensa especializada como um dos maiores romances franceses do século recém passado.
Curiosamente o título misógino leva à escatológica expressão: “Morra vagina”. E na recente edição lançada pela Companhia das Letras, com coordenação editorial, notas e posfácio de Carlos Augusto Calil, reúne, também, “O fim do mundo filmado pelo anjo Notre-Dame”. O livro é imperdível, assevero.
Com uma expressão indubitavelmente incrível, Blaise Cendrars chega, em certa parte do livro, a vociferar: “O amor é masoquista. Esses gritos, lamentos, doces sustos, esse estado de angústia dos amantes, esse estado de espera, esse sofrimento latente, subentendido, mal-e-mal expresso, essas mil inquietações acerca da ausência do ser amado, essa fuga do tempo, essas suscetibilidades, essas variações de humor, esses devaneios, essas criancices (...) O amor para elas, começa com o rebentar de uma membrana para terminar na total laceração do ser na hora do parto. (...) O amor não tem outro objetivo e, sendo o amor a única motivação da natureza, a única lei do universo é o masoquisto. (...) O homem e a mulher não foram feitos para entenderem-se, amarem-se, fundirem-se e confundirem-se. (...) A mulher é todo-poderosa, mais bem assentada na vida, possui vários centros erógenos, sabe então sofrer melhor, possui mais resistência, sua libido lhe dá peso, ela é a mais forte. (...) pois a mulher triunfa de todas as abstrações”.
Mais adiante ele assinala: “Só o que pode admitir, afirmar, a única síntese, é o absurdo do ser, do universo, da vida. (...) E o universo não passa, no caso mais otimista, da digestão de Deus. (...) A maior desgraça que pode acontecer a um homem, e não é tanto um desastre moral como um sinal de velhice prematura, é levar a mulher a sério. A mulher é um briquedo”.
Não vou aqui ter a petulância de resenhar o livro, muito menos de cogitar um ensaio a respeito, mas atrevidamente reportar que tais colocações me levaram a escrever “Vivagibra!” que depois virou “Vivagina!”. Ou seja, levado pela adoração de Blaise Cendrars pelo Brasil e sua misoginia em “Morravagin”, reiterada, segundo Carlos Augusto Calil no pós-posfácio desta, que no seu “O homem fulminado”, de 1945, assinalou “Amo demais a mulher para não ser misógino”, reuni a idéia de criação do mundo retirada do versículo I do “Evangelho segundo padre Bidião”, que foi inspirado no quadro homônimo de Gustave Courbet, além da constatação de que o Brasil, com nome oriundo de um sem número de significações, dentre elas fervências e quenturas extremas só encontradas no coito, enfim, na expressão geográfica do país como um isósceles invertido, seria, assim, uma vagina, o que me enche de tentação e brasilidade.
E não me faço de rogado e sapeco:

Não meiar mais desamores.
Ozoras, ningum assopra demudências:
Sobranças de amoridades perspetinas
A quem nasceclodiu navidavaga
Brasilva flancanhoto nordesatino:
Vivagibra! Vivagibra!

Assim sendo, revelo minha filoginia, ou melhor, ginofagia considerando o Brasil, este país de doidos, desvalidos e desembestados, a pátria amada na simbologia da vagina escancarada da mulher, onde me sinto sempre muito bem acomodado, gozando das delícias e sempre dentro: Vivagibra!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Daí, inspirado na misoginia de Morravagin e no maravilhamento doido pelo Brasil do autor, trago aqui o meu poema VIVAGINA na íntegra.

Imagem: L’origine du monde, de Gustave Courbet. Veja mais aqui e aqui.

VIVAGINA!


Viva, vivagina! Vivâncias: não meiar mais desamores. Ozoras, ningum assopra demudências: sobranças de amoridades nas perspertinas que nasceclodiram-me navidavaga brasilva nordesatino, flancanhoto, anatemático. Do olhamapá ao arroio-chué, verbundante mortevida: videfemurosa, mortimorata, remorrente... Brasilabril na vivabrasilva e eu, do que me resta, nadamente alémdalém das gostosuras fodelícias nas bocetígradas & falâncias minhas remorrendo estertorinhas de brasilvagamundo de mulher, encantopando no seu delito de ser a maravilha benfazejaseja do bem kanteano da lindeza nua pro meu ufanotívago bem do bem-querer e não o eufescenino das pusilanimidades nem o subterfúgio da cretinicisse dos timoratos porque sou de mim o que me faz o corpo nu e lindo da mulher amadadada como toda a floresta que a faz Manaus sedutora nos meus olhos que nem sei mais se ávido Galvez pelos seringais de Xapuri ou rumo ao Cruzeiro do Sul, ou onde começa tudo e vai pra floresta equatorial de Roraima, ou segue os minérios de Macapá, ou se pelas chapadas de Guaporé que dá no matagal de Rondônia, ou se vai pela Chapada dos Guimarães ao longo dos vales beirando Bolívia e Paraguai para dar no Pantanal ou em Tocantins na direção da Serra do Estrondo de Goiás, pela Belém-Brasília onde o Norte, Nordeste & Sudeste se encontram e confluem a mim pro Distrito Federal com todos os candangos de sempre. Brasilva eu sei que vou por seu corpo nu de maravilha alada escancarada que me afoga caudalosa Amazonas do prazer no encontro de nossa alma Solimões/Rio Negro a se desmanchar nos igarapés sob o manto da floresta que cresce por planícies, terraços até terra firme de Parintins pra Ver-o-peso em Belém do Grão-Pará & sacar da castanha descendo manha pela Serra do Tiracambu, indo da civilização do babaçu até a ilha de São Luís do Maranhão e depois folgazão chegar pro limítrofe piauiense onde as Sete Cidades do inconsciente dormem para a avença dos carnaubais e sai nos levando por aiais encantados pela Curva da Jurema onde a fêmea nua não deixa que eu não seja vela solitária na tarde de Mucuripe nem retardária que relembre as dores de antanho carregadas sempre na luta de hoje e nem quero esquecer de dias melhores e mais justos em meu país. Brasilva chega aqui e nua e linda vamos singrar planícies e chapadas do sertão até o mar quando chega Pirangi e sou sal potiguar ali pra lá de Mossoró e eu zoró na sua carne de mar do paraíso de Cabedelo & chegar o desmantelo na depressão da chapada da Borborema onde sou mais que Paraíba e você poema do meu Pernambuco, raiz da minha alma de mameluco, carne do meu sangue que se estende ao rés-do-chão para sobrepujar a paradisíaca Maceió do ninho de cobras de Ledo e oh de todas as práticas ilícitas que são costumeiras desde que Pinzón fincou pé por toda América Latina com todos os criminosos embaixo das asas do santo lusitano da peneira furada & da auréola negra de nojo dos ibéricos e carcamanos que serão peças de cabrunco no xadrez do tabuleiro da capital sergipana, onde a Atalaia Velha nos servirá crustáceos & ufanismo no jenipapo para que a gente possa depois se esbaldar na Baía de Todos os Santos & soteropolitanamente transcender até a Chapada Diamantina onde a mulher linda e nua se faz menina para correr livre até os gerais das Minas do Rio das Velhas, das Mortes e dos Caetés e das Matas, Campos e Sertões das veredas de Rosa & menina-moça toda prosa nua embalada mulher que se quer maior linda & nua qual sol excitado na serra dos Aimorés onde lascivamente alcançamos a Vitória de amar demais sob a bênção pagã capixaba & comemoramos com sua fulgurante sedução que se faz mulata nua reboladeira no cio da minha noite carioca & sobre o meu ibirapitanga a brincar pelos penhascos dos meus desejos até se deitar na baía de Guanabara onde a vida renasce rara e feita & fazemos sexo e festa sem nexo no rumo pros campos de Piratininga & de todas as serras da Mantiqueira que venha Cantareira pra dar na metrópole do concreto que roça a pele na garoa que molha a boa encruzilhada que vai dar de lá para Mato Grosso do Sul ou se arrear pela Paranapiacaba ou no azul destino dos tropeiros para os campos gerais de seu corpo nu que me aquece insone na noite fria curitibana de Trevisan dos sonhos levam pra zona de Canoinhas, onde nua e toda minha desce pela Bacia do Itajaí até chegar no arquipélago catarinense e daí a me banhar no atlântico sobejo de sua farta delícia corporal a pegar reta pela serra Geral para gozar além da conta de todos os músculos, sede, vazões nos domínios da sua maravilha gaúcha dos pampas e serões & seguindo a risca da trajetória do seu corpo que mergulho no Oiapoque e sou feliz por suas entranhas, revolvendo seus porões, valetas, submundos, para explodir de gozo no Chuí da sua volúpia a me certificar que por trás de toda riqueza dos mandões furiosos desta Nação dormente muitos crimes impunes repousam na nossa crédula boa-fé por garantia do aparato legislativo patrimonialista que sempre legaliza a nociva ganância dos surrupiadores sabidos desde que imaginaram ser aqui o Cabo de Santo Agostinho ou as falésias que deram em Porto Seguro e em detrimento da nossa mais legítima esperança equânime, só para saber de verdade que por trás de toda riqueza existe um crime, um crime dos muitos crimes que só no seu corpo sou choro, sou prazer, sou a dor de poder ser brasileiro e me redimo e me saro da repulsa por essas injustiças, mentiras forjadas, desigualdades gritantes, contradições terríveis, fraudes exorbitantes sepultadas sob o manto da lei vigente que diviniza a propriedade dos que se locupletam da vida como a confirmar o versículo bíblico de que o que mais tem mais se lhe dará, enquanto ao que não tem, até o que tem lhe será tomado. Por isso eu bebo, brasilvamente, tomo brasilvamente, como e me refaço em tudo que é do seu corpo nu na límpida vida do amor, onde dedetizo as nojeiras dos fantasmas do executivo dos interesses alienígenas, a fedentina do legislativo dos estranhos ariscos e a podridão do judiciário dos que se curvam cagando na vela dos que dominam fodendo tudo, enquanto eu vigilante de deus e do universo do amor fodo você mulher linda e nua no ápice do nosso prazer & vou diligente por suas curvas, manhas, sanhas, andanças, reentrâncias, convexidades com as botas impávidas do querer no mormaço da tarde pelo asfalto de 7 de setembro, onde uma canção de independência chora a nossa preterida agonia de liberdade & carrega as marcas da trajetória de nossa esperança impressa na palma da mão com a revanche de que o gozo seja inteiro com todos os fuzis do desejo, com o pelotão dos meus quereres mais ternos, com todos os tanques, aviões, navios de guerra das minhas carícias por essa vagina gostosa que é o meu Brasil colossal na zênite de nosso ardoroso prazer, o Brasil de verdade que é a minha guarida e realização de homem e o meu país seria outro escandalosamente feliz se valesse essa loucura de amar feita de luz no corpo nu da mulher amada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Crônica de Amor por Ela. Veja aqui + Ginofagia, os estudos bundológicos, abundâncias fabísticas e outras bundas do Tataritaritatá.



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