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segunda-feira, março 18, 2024

JUDITH BUTLER, EDA AHI, EVA GARCÍA SÁENZ, DAMA DO TEATRO & EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

A música contemporânea possui uma ligação intrínseca com a música do passado; muitas vezes, um passado muito distante. Como um processo contínuo que nunca se rompeu completamente... Toquem, gravem e divulguem obras de compositoras, de compositores, de grupos étnicos não privilegiados pela mídia...

Ao som de O porto e outros portos (2020), Pêndulo (2021) e Canção de outono (USP-Filarmônica, 2023), da compositora Silvia Berg, que também é regente, professora e pesquisadora da USP.

 

SALVE A MÚTUA LOQUACIDADE DOS ENTROCAMENTOS ESCATOLÓGICOS... - Um passo, tal uma jogada: não atravessará impune o tabuleiro, ninguém. Uma tuia de imprevisibilidades no ar e por um triz. Livre-se ou passe bem. Pode-se, de qualquer forma, a tentativa de burlar pelo ileísmo e levar como se fosse fulano escapando de gaslighting, síndrome de juvenoia e outras sindêmicas calamidades dessa doida pós-modernidade. Lá ou cá, há quem sofra de abstinência financeira e do paradoxo de Salomão, quando menos mal: se o terraço caiu, logo logo não sobrará nada além do quintal devastado. Isso poderia ser o caos, para dizer o mínimo. O que não é nada para quem nunca teve moderação com gastos e cois&tal. Na vera, melhor seguir Ariana Harwicz: Devemos parecer entusiasmados, devemos mostrar aos outros que aproveitamos a vida... Mesmo que saiba que ninguém está isento de lapadas tidas por injustificáveis na vida, dizer asneiras ou blasfêmias será sempre como se aliviando na privada. Ato falho que seja é sempre ofensa e todo mundo vive de véspera: quando chega o grande dia já não tem a menor graça. E se não tiver uma panelinha agitando todo coreto, o resto é tudo do contra: todos são cúmplices até que se prove qualquer inocência. Vale o que disse Olive Schriner: Sem sonhos e fantasmas o homem não pode existir... Então, mãos à obra! Faz tempo que a estupidez chegou aqui pra ficar e isso há uns 500 anos... hoje quem não é estúpido na entrada, deixa o rastro fedorento na saída. Nem ligue se tudo parecia com as risadagens aos peidos de festa do Mozart - no cânone em si bemol maior, Leck mich im Arsch, para seis vozes em uma rodada de três partes, K231 (K.382c). Maior alarido. Acha pouco? Na verdade, a insegurança já faz parte do pacote! Não esquenta! Se o fim está próximo na ebulição global, com o negacionismo geral do alpinismo social das cantilenas daqueloutros tribalistas qua andam feito carros blindados nas nonsenses pirotécnicas espalhafatosas de sua Planolância: ars moriend! Já dizia Carla Porta Musa: O que conta, digo a mim mesmo, é o minuto claro... O outro pertence ao passado... Sim, porque o melhor mesmo seria ficar de bocaberta e papo pro ar diante duma Anjana da Cantábria, querendo fazer de mim o seu báculo. Seria uma cosmovisão viandante, maior regalo! Resta somente começar, recomeçar e de novo tudo outra vez e novamente. Do zero e, daí, sobreviver: luto e luta. Salvemo-nos, terrabolistas! Até mais ver.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

INVERNO NO LESTE - o inverno respira pela janela mais uma vez, \ telhados vazam e seu nariz pinga,\ já vem pontificando:\ e aí, inverno, o fim de todos é igual:\ austero, frio e escuro como neblina.\ algumas terras não estão cobertas por um manto de neve, \ mas uma mortalha funerária genuína.\ a luz desenha sulcos e a água congela nos canos.\ Fevereiro se estende como um sorriso amargo.\ mas na adega, como maçãs de inverno\ (nem tão rosado),\ as pessoas se guardam\ então eles podem durar até a primavera.\ alguém mais os está preservando?

AULAS DE DANÇA COM GRAVIDADE - eles dançam com você, gravidade, todo mundo. \ mas só os corajosos sabem os passos que devem tomar. \ você tem aquela característica cruel, mas equalizadora: \ tanto a pedra quanto a pena são atraídas por você.\ usando sua coroa que desce em direção ao chão, \ eu caminho obedientemente para onde você me guia. \ Eu te amo muito, querida gravidade, \ e não trocaria você, nem por asas.

Poemas da poeta, diplomata e tradutora estoniana Eda Ahi, autora de obras como Maskiball (2012), Sadam (2018) e Sõda ja rahutus (2019).

 

O SILÊNCIO DA CIDADE BRANCA - [...] Às vezes, a memória enfia tachinhas em momentos triviais do passado e os fixa para sempre, mesmo que “para sempre” pareça muito tempo. [...] Entendi que a dor também une as pessoas, talvez mais do que as alegrias, porque, como as pessoas boas e ingratas que todos somos, logo nos esquecemos delas. [...] Pessoas feridas são perigosas porque sabem que podem sobreviver. [...] Às vezes o tempo no calendário não tem nada a ver com o tempo mental ou emocional que cada pessoa vive dentro de si. [...] Tem gente que sabe receber golpes, aprende a recebê-los de novo e de novo, essa é a sua força. Mas não sabem fugir, a mera ideia de um mundo desconhecido os paralisa. [...] Estou cansado de esperar que as circunstâncias sejam perfeitas, elas nunca são. [...] Ele não precisava de palavras para estar certo, geralmente estava. A razão do sensato. [...]. Trechos extraídos da obra El silencio de la ciudad blanca: Trilogia de la Ciudad Blanca (Planeta, 2016), da escritora espanhola Eva García Sáenz de Urturi. Veja mais aqui.

 

A FORÇA DA NÃO-VIOLÊNCIA - [...] O fato de os esforços políticos de dissidência e crítica serem frequentemente rotulados como “violentos” pelas próprias autoridades estatais que são ameaçadas por esses esforços não é motivo para desesperar no uso da linguagem. Significa apenas que temos de expandir e refinar o vocabulário político para pensar sobre a violência e a resistência à violência, tendo em conta como esse vocabulário é distorcido e utilizado para proteger as autoridades violentas contra a crítica e a oposição. Quando as críticas à continuação da violência colonial são consideradas violentas (Palestina), quando uma petição pela paz é reformulada como um acto de guerra (Turquia), quando as lutas pela igualdade e pela liberdade são construídas como ameaças violentas à segurança do Estado (Black Lives Matter), ou quando o “género” é retratado como um arsenal nuclear dirigido contra a família (ideologia anti-género), então estamos a operar no meio de formas de fantasmagoria com consequências políticas. [...] Por que uma petição pela paz é chamada de ato “violento”? Por que uma barricada humana que impede a polícia é chamada de ato de agressão “violenta”? Em que condições e em que enquadramentos ocorre a inversão da violência e da não-violência? Não há como praticar a não-violência sem primeiro interpretar a violência e a não-violência, especialmente num mundo em que a violência é cada vez mais justificada em nome da segurança, do nacionalismo e do neofascismo. O Estado monopoliza a violência ao chamar os seus críticos de “violentos”: sabemos disso através de Max Weber, Antonio Gramsci e de Benjamin. Portanto, devemos ser cautelosos com aqueles que afirmam que a violência é necessária para conter ou controlar a violência; aqueles que elogiam as forças da lei, incluindo a polícia e as prisões, como árbitros finais. Opor-se à violência é compreender que a violência nem sempre assume a forma do golpe [...] Não há como nomear algo como violência ou não-violência sem invocar imediatamente o quadro em que essa designação faz sentido. Isto pode parecer uma forma de relativismo – o que vocês chamam de violência, eu não chamo de violência, e assim por diante – mas é algo bem diferente. Na opinião de Benjamin, a violência legal renomeia regularmente o seu próprio carácter violento como coerção justificável ou força legítima, higienizando assim a violência em jogo. Benjamin documenta o que acontece com termos como “violência” e “não-violência”, uma vez que compreendemos que os quadros dentro dos quais estas definições são asseguradas estão oscilando. Ele observa que um regime jurídico que procura monopolizar a violência deve chamar cada ameaça ou desafio a esse regime de “violento”. Portanto, pode renomear a sua própria violência como força necessária ou obrigatória, até mesmo como coerção justificável, e porque funciona através da lei, como a lei, é legal e, portanto, justificada. [...] Embora eu não siga inteiramente Benjamin até à sua conclusão anarquista, concordo com a sua afirmação de que não podemos simplesmente assumir uma definição de violência e depois começar os nossos debates morais sobre a justificação sem primeiro examinar criticamente como a violência foi circunscrita e qual a versão que se presume. no debate em questão. Um procedimento crítico perguntaria também sobre o próprio esquema justificativo em funcionamento num tal debate, as suas origens históricas, os seus pressupostos e execuções. A razão pela qual não podemos começar por afirmar que tipo de violência é justificada e o que não o é é que a “violência” é desde o início definida dentro de certos enquadramentos e chega até nós sempre já interpretada, “elaborada” pelo seu enquadramento. Dificilmente podemos ser a favor ou contra algo cuja própria definição nos escapa, ou que aparece de formas contraditórias que não temos explicação. [...] A tarefa passa, assim, a ser rastrear as formas padronizadas que a violência procura nomear como violento aquilo que lhe resiste, e como o carácter violento de um regime jurídico é exposto à medida que reprime à força a dissidência, pune os trabalhadores que recusam os termos exploratórios dos contratos, sequestra minorias , aprisiona seus críticos e expulsa seus potenciais rivais [...] Se a proibição de matar permanecer na presunção de que todas as vidas são valiosas – que têm valor como vidas, em seu estatuto como seres vivos – então a universalidade da afirmação só se mantém na condição de que o valor se estenda igualmente a todos os seres vivos. Isto significa que temos que pensar não apenas nas pessoas, mas também nos animais; e não apenas sobre criaturas vivas, mas sobre processos vivos, sistemas e formas de vida. [...] A questão seria repensar a relacionalidade da vida regularmente coberta por tipologias que distinguem formas de vida. Nessa relacionalidade, eu incluiria conceitos de interdependência, e não apenas aqueles entre criaturas humanas vivas – pois as criaturas humanas que vivem em algum lugar, necessitando de solo e água para a continuação da vida, também vivem num mundo onde as reivindicações das criaturas não-humanas à vida se sobrepõe claramente à reivindicação humana, e onde os não-humanos e os humanos são também, por vezes, bastante dependentes uns dos outros para a vida. Essas zonas de vida (ou vivência) sobrepostas devem ser pensadas como relacionais e processuais, mas também, cada uma delas, como exigindo condições para a salvaguarda da vida. [...]. Trechos extraídos da obra The Force of Nonviolence: An Ethico-Political Bind (Penguin Random House, 2020), da filósofa pós-estruturalista estadunidense Judith Butler. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

 

A DAMA DO TEATRO GENINHA DA ROSA BORGES

[...] É preciso sonhar, ousar e trabalhar. Assim os sonhos se realizam. [...]

Pra matar fome de vida \ só sendo atriz como sou: \ já fui pobre, já fui rica \ já fui freira e fui mendiga \ já fui branca e já fui negra \ casada, solteira, amante \ cadela gritando sexo \ e mãe também extremosa \ mas o que nunca pensei \ nessa carreira enfrentar \ foi viver a personagem \ Putain de Taperoá.

Pensamento e versos da premiadíssima atriz Geninha da Rosa Borges (1922-2022) – a Grande Dama do Teatro Pernambucano, num volume organizado por Márcia Botto. Veja mais aqui e aqui.

&

EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA

[...] propor a criticidade na educação básica deve vir acompanhada do ensino da língua pela língua, o que nos levara a trabalhar de novas formas, com novas propostas, que não as estabelecidas normativamente. Isso pode querer dizer, por exemplo, fazer uso da língua materna em determinados momentos. [...]

Trecho do estudo Educação linguística, pós-memória e mudança: repensando aulas de língua inglesa na escola e na formação docente, desenvolvido e publicado pelos professores João Paulo de Souza Araújo e Samara Braga Jorge, extraído da obra Discussões sobre educação linguística e formação docente do e com o GEELLE – Grupo de Estudos sobre Educação Linguística em Línguas Estrangeiras - Serie GEELLE USP, Volume 1 (Pimenta Cultural, 2024), organizado por Daniel de Mello Ferraz e Luciana Carvalho Fonseca. Veja mais aqui e aqui.

 

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segunda-feira, junho 23, 2014

SHERRY TURKLE, JANICE REBIBO, MURIEL SPARK, AYN RAND & ELZA SOARES

 


ALEGRIA DE POBRE DURA MUITO POUCO... – Doro andava nas nuvens, maior folga. Parecia mais que a coisa ia dar certo definitivamente daquela vez, mesmo. Pois é. Marcialita, a sua pegajosa cônjuge, virou de vez beata de todos os dias. Isso era um prêmio. Contudo, suspeitas precavidas fizeram-no conferir no amiudado. Furtivo, foi lá na paróquia, de soslaio. Aliviou-se: um vestuto pároco ministrando o evangelho pra regozijo dela, acompanhada da escadinha dos cabelinhos de milho. Dos oito bruguelos, até a caçula pirrototinha de mãos postas, prostrada, acompanhando as orações da mãe. Para onde ela ia, a mundiça deles atrás. Por perto, o melhor: nenhum aventureiro ameaçando sua prole nem cornice. Tudo nos conformes até ele botar o pé fora da paróquia e dar de cara com Delicídia requisitando-o aflita. Pensou consigo: uma frochosa dessa dando mole, tô dentro! E foi: botou a cara pro perigo e a zebra que endoide! Não perderia uma dessa jamais. Levado à residência da distinta, de cara cheio de pernas e sem saber onde botar as ventas. Mas logo aprumou a coisa e consertou o troço que deu na TV dela, justo na hora da novela. Uma tragédia pra coitada, não perdia um capítulo. Enquanto dava jeito naquilo com todo cabedal de zis experiências de faz-tudo, aproveitou para tirar uma brechada nas intimidades da gostesuda e, ao mesmo tempo, ardilosamente já programar outras visitas, detectando defeitos nisso e naquilo. A reboculosa mais que assustada foi caindo na lábia dele: as antevisões problemáticas do distinto, deixou-la mais rendida que presa fácil coagida, tornando-se dali por diante a pessoa mais grata, principalmente quando perguntou quanto seria o conserto e ele, mais que categórico, sapecou: Nada não. Como? Ele enrolou no papo e reiterou que o serviço seria gratuito e, se ela quisesse, na noite seguinte voltaria para fazer as caranhas necessárias nos utensílios que ele, visivelmente afetado, antecipou problema a vista. Tudo grátis! Ela até esqueceu a novela e ficou acompanhando o ar doutoral do sujeito sobre as instalações elétricas e hidráluicas, o funcionamento deste e daquele equipamento, a forma inadequada de utilização dos ventiladores, o ar condicionado com vestígios de sujeiras e que ela tivesse cuidado com o uso de tais recursos. Oxe! Estava no papo! Olhos arregalhados, não deu outra. Ela mais alarmada que atenta, já o contratou para começar o serviço ali mesmo e ele saiu desparafuzando coisas, martelando outras, sempre com uma explicação na ponta da língua pela má utilização de tais coisas. Testou tudo, funcionava. E o melhor: Quanto é? Nada. Como assim? A senhora é só me chamar e estarei aqui pronto pra consertar o que precisar. Ela ficou boquiaberta de olhos esbugalhados com a presteza do rapaz em consertar as coisas que logo dedicou toda atenção aos seus conselhos: É de um homem desse que preciso aqui em casa! Não diga? Meu marido me deixou por uma mais jovem. Sujeito traste, hem? Conversa vai, papo vem, era hora do ardiloso puxar o carro e sair fora para deixar a porta aberta, antes que fizesse uma besteira, como de costume. Precavido, orientou da melhor maneira possível e já deixou apalavrado que na noite seguinte voltaria. Daí pras noites seguintes misturando pernas e beijos nos lençóis da beldade, o cabra só no regalo da mancebia, foi em cheio: acertou na mosca. Nunca foi tão fácil na vida dele. Marcialiata que nunca desconfiasse, inferno pronto. Passaram-se meses e uma dia lá, era de manhã, ele resolveu passar pela casa da já dada por ele como amásia. Ele sabia que ela não estaria, pois era funcionária pública e, àquela hora, estava dando expediente. Na veneta, passou por sei lá cargas d’água e qual não foi a surpresa: Florizita atendeu-lo e com todo requinte de visitante assíduo à residência. Você me conhece? Ora, se. Nunca tinha visto aquela boniteza por ali. Logo viu-se dono da casa tomando ciência de que se tratava da doméstica que deixava tudo nos trinques pra visita dele à noite. Uau! Ela nunca falou nessa pessoa, ora! Pensou ele: Empregada dessa é acertar na loteria! Caraminholas no quengo enquanto conferia os glúteos proeminentes que rebolavam ritmadamente na sua frente para providência de sucos e outros quitutes pro seu bel prazer, no bem bom. Encarou firme o par de seios no decote da moça, conferiu as curvas onduladas da jovem e gelou lívido quando flagrou a graciosa acompanhando seus olhares e lambidas de beiços. O senhor deseja mais alguma coisa? Ele endoidou e não teve como esconder a sobressalência que se fazia notar na sua região púbica. Ela não se fez de rogada: O senhor tá de pau duro? Ele procurou um buraco no chão pra se socar, aliviando-se porque a bonitona logo avançou a mão e começou a alisar seu membro incontrolável. Ele abriu os olhos e viu-se surpreendentemente aliviado: Ah, assim tá. Bocas, sexo, coxas, abraços, tudo misturado ali na hora. Não olvidou, partiu pra cima e fez barba, cabelo e bigode nos trabalhos de cama, mesa e banho dela. Era o que precisava! Mais sortudo que nunca, meses na melhor gestão da vida: apascentando Marcialita, de noite lavando a jega na Delicídia com todos os requintes de campeão e, durante o dia, usufruindo das providentes gentilezas da égua no cio, Florizita. Queria mais o quê? Todo dia e o dia todo ele lá, seis ou sete meses depois a bomba: a empregada estava prenha dele e o pipoco com estilhaços além dos limites territoriais. Pense num estouro, perto disso bomba atômica era pinto! O que teve de gente para zoar em seus ouvidos não estava no gibi: padre, juiz, promotor, conselho tutelar, polícia e tudo o mais no seu juízo noite e dia. Florizita era de menor. Fodeu. E bucho já à mostra. Lascou-se. Pensou várias vezes em dar um tiro no pingulin pra ver se resolvia. Melhor logo um suicidio, pronto. Peraí. Pensou melhor: merda por bosta, melhor que ser capado por mim mesmo, pagar a pena é o de menos. Bronca safada, problema mesmo só presta quando esfola e enraba o sujeito de fodê-lo a alma sem saída. Simbora nos peitos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Você se sente miseravelmente desamparado e quer se rebelar? Rebele-se contra as ideias de seus professores. O amor é a nossa resposta aos nossos valores mais elevados – e não pode ser outra coisa. Deus… um ser cuja única definição é que ele está sozinho com o poder da compreensão humana. Pensamento da escritora, dramaturga, roteirista e filósofa estadunidense Ayn Rand (1905-1982). Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Nunca peça desculpas, nunca explique. Se você vai fazer algo, você deve fazê-lo minuciosamente... Pensamento da dramaturga e poeta britânica Muriel Spark (2918-2006). Veja mais aqui e aqui.

 

JUNTOS SOZINHOS – [...] Bizarramente, quanto mais conectado você está, mais você está isolado. [...] Esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros. [...] A tecnologia é sedutora quando o que ela oferece atende às nossas vulnerabilidades humanas. E acontece que somos realmente muito vulneráveis. Estamos sozinhos, mas com medo da intimidade. As conexões digitais e o robô sociável podem oferecer a ilusão de companheirismo sem as exigências da amizade. Nossa vida em rede permite que nos escondamos uns dos outros, mesmo quando estamos amarrados uns aos outros. Preferimos enviar mensagens de texto do que conversar. [...] As mensagens de texto oferecem a quantidade certa de acesso, a quantidade certa de controle. Ela é uma Cachinhos Dourados modernos: para ela, enviar mensagens de texto coloca as pessoas não muito perto, nem muito longe, mas na distância certa. O mundo agora está cheio de Cachinhos Dourados modernos, pessoas que se confortam em estar em contato com muitas pessoas que também mantêm afastadas. [...] As pessoas estão sozinhas. A rede é sedutora. Mas se estivermos sempre ligados, podemos negar a nós mesmos as recompensas da solidão. [...]. Trechos extraídos da obra Alone Together – Why We Expect More From Technology and Less From Each Other (Basic, 2012), da socióloga e psicóloga estadunidense Sherry Turkle, autora que expressa: As relações humanas são ricas, confusas e exigentes. E nós os limpamos com tecnologia. Enviar mensagens de texto, enviar e-mails, postar, todas essas coisas nos permitem apresentar a nós mesmos como queremos ser. Podemos editar, e isso significa que podemos excluir, e isso significa que podemos retocar o rosto, a voz, a carne, o corpo - nem muito pouco, nem muito, na medida certa.

 

ABASTECENDO-SEO que estou perdendo? \ Uma porta de banheiro,\ uma vidraça\ na porta do banheiro,\ uma haste de cortina de chuveiro,\ a janela entre minha cozinha e a varanda de serviço,\ uma lâmpada fluorescente,\ painéis solares,\ um terço\ do controle deslizante da varanda frontal\ , um apêndice e duas amígdalas – uma história antiga\ (verificação do útero)\ ( e dois seios)\ um carinho\ as crianças\ descontam\ um cartão de crédito…\a grade enfeita\ minha antena\ minha tampa de combustível. Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015).

 

OUTROS DITOS INAUDITOS!

 

Ouvindo o Concerto para piano nº 3, do compositor alemão Carl Reinecke (1824-1910)


O BRASIL E A COPA DO MUNDO
– Perguntaram-me o que eu achava da seleção brasileira nessa copa do mundo. Respondi prontamente: - Torço todo dia e o dia todo por um Brasil melhor paratodos. 


ELZA SOARES – Um furacão! Foi como apareceu Elza Soares, a filha dum operário tocador de guitarra e duma lavadeira, nos meus ouvidos que não despregavam do radiozinho de pilha quando eu ainda era um menino peralta da beira do rio. Oxe! Quando ouvia sua voz cantando “Se acaso você chegasse” e, depois, “Mas que nada”, nossa! Ela acendia a minha libido e haja mão! Viajava eu por todas as galáxias possíveis e inimagináveis embalados por sua voz. Essa pioneira puxadora de samba enredo cativou meu coração, mesmo quando houve até o escândalo com Garrincha, o anjo das pernas tortas da torcida brasileira. Pra quem segurou a barra, cantou de peito aberto e corpo voluptuoso de todas as entregas, é uma dádiva ouvi-la cantando com Chico Buarque “Façamos (Vamos amaaaaaaaar – uma graciosíssima versão do Carlos Rennó pra canção do Cole Porter)”, bãoooooooo demais. Hoje eu festejo o aniversário dela: parabéns, Elza.

PENSAMENTO DO DIA: Já dizia o Salomâo (antes ou depois dos Cânticos dos Cânticos?): O caminho do orgulho é o caminho que leva à desventura. Aquele que confia nas suas riquezas está destinado a sucumbir”. Veja mais aqui.

NALDINHO FREIRE – Conheci o músico-educador, compositor e pesquisador paraibano Naldinho Freire alguns anos atrás, com quem tive a oportunidade e o prazer de conviver e dividir experiências. Virei fã do seu projeto musical Raízes: traços contemporâneos, resultado de uma primorosa pesquisa realizada por ele acerca da arte e cultura nordestina. Parabéns, Naldinho, hoje é seu aniversário! Muita música, paz, saúde & sucesso procê.

PRAS CHICÓLATRAS – Um dia lá, eu conversava sobre músicas com um professor amigo meu de faculdade, quando ele destemperou: - Sabe, Luiz, eu odeio um tal de Chico Buarque! -, confesso gente que na hora fiquei estarrecido, claro, mas disfarcei falando de antipatias (pra não dizer outra palavra) gratuitas que a gente compra na vida. Não sabe ele, coitado, que no show desse rapaz, eu vi ao vivo e em cores, além de muita poesia, palmas duplas (de mãos e bocetas – é que a mulherada bate palma pegando um lado da boceta e batendo na outra com orgasmos múltiplos perenes! Ah, que inveja! Assumo. Por isso Vivagina aqui).

O QUE SÃO AS COINCIDÊNCIAS – Em 1992, no dia de hoje o presidente Fernandinho Ventaloca desmentia que queria renunciar. Quatro anos mais tarde, no mesmo dia, o tesoureiro dele, PC Farinha, era assassinado com Suzana Marcolino. Quando as coincidências não batem, as aparências não enganam não.

HAVERÁ AMOR? – De um verso da poeta acmeísta russa Anna Akhmatova (1889-1966 – pseudônimo de Anna Andreevna Gorenko): “[...] Segunda- feira. É noite! No escuro uns contornos de cidade. Algum vagabundo escreveu que na terra pode haver amor.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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quarta-feira, abril 25, 2012

SUBIRATS, GRABRIELA LEITE, HOFFMANN, CLEVANE PESSOA, VÂNIA DINIZ, LITERÓTICA & DORO NA CAIXA DO FECAMEPA

 

O GOSTO DA ÚLTIMA VEZ – Imagem: Lady with Lotus, art by Unnati S Khare - “Quem é esta que aparece / como a alva do dia, / formosa como a lua, / pura como o sol..." (Cânticos de Salomão, 6, 10). ... A falta que Pomona me fazia ao coração, levou-me a loucuras sentimentais estabanadas. E enamorei por paixões carnais, tanto em contatos imediatos de quarto grau, quanto em devaneios exacerbados. Foram desfilando no cenário da minha retina mulheres várias, ternas e inescrupulosas, enredeiras e pin-ups, caras-metades e linguarudas, deusas e profanas, lívidas e resolvidas. Era Diana, a deusa latina da lua que lavava seu corpo virginal na água espumejante da fonte como Artêmis para um sujeito selenito como eu. Era Íris, a deusa do arco-íris, a raínha dos deuses; era a árabe Amália, abelha do lar; era a grega Cora, virgem; a hebraica Ana, graciosa; a latina Celestina, vinda do céu; era Cleópatra, a glória da terra; a Amanda, digna do amor; a Vênus, Afrodite, com o seu cinto bordado que tinha o poder de inspirar o amor; ou Hero, sacerdotisa de Vênus, amada por Leandro; ou Dânae da torre de bronze onde seu pai a havia aprisionado; Calíope com a poesia épica; Euterpe, com a poesia lírica; Melpômene, com a sua tragédia; Terpsícore, com a dança e o canto; Érato e sua poesia erótica; Polínia e a sacralização poética; Urânia e a astronomia; Talita e a comédia; a teia de Penélope; a solidão de Ariadne; Dafne que fora o primeiro amor de Apolo; Prócris, a amada de Céfalo; Coatlicue com o seu manto feito de serpentes entrelaçadas; ou Xochiquetzal, a deusa do amor, mentora das volúpias sexuais, protetora das prostitutas e dos hermafroditas, reinando sobre todos os prazeres terrestres e sobre as flores; Sila, a linda donzela favorita das ninfas da água, caminhando ao longo da praia à procura de um ponto tranqüilo; Shiva, a terceira pessoa da divindade hindu; Antígona, uma frágil jovem de vontade indomável; e aquelas que os tempos se ocuparam de escorrer pelas minhas mãos. Nas minhas andanças em busca de Pomona, o magistrado Armstrong me dissera um alerta que se a mulher possuir olhos francos e vivos, ou se tiver ímpeto felino, deve fugir dela; se for do tipo que está sempre querendo que o marido vá com ela aos bailes, esteja cansado ou não, fuja enquanto for tempo; se for pouco inteligente por mais atraente que seja, dá sempre errado, além dos filhos correrem o risco de nascerem bestas quadradas; e, finalmente, se forem santas, cuidado, é muito difícil para um pecador dividir existência com uma santa. Nisso, eis que aparece Kisagotami procurando uma semente de mostarda. Eu senti a dor do seu sofrimento. Queria salvar o filho morto procurando a semente da mostarda em casa que não tivesse morrido ninguém. O Buda assim exigira para a ressurreição. Eu chorei com ela, vez que em todas as residências choravam os mortos de suas reminiscências. Ela deixou-me tonto até que me recolhi num ambiente amigo. Desfeito o sonho esbarro com a realidade. David saíra para fotocopiar uns textos que eu fizera, deixando-me à vontade em seu apartamento, bisbilhotando umas partituras. Ouvi o barulho de que alguém chegara por ali. Olhei em volta, certo que seria David que retornara. Não fora. O barulho se repetia, embora ninguém aparecesse, nenhum sinal de vida. Investigando, não havia ninguém por ali, nem no sanitário, ninguém em qualquer cômodo do apartamento, senão teria visto quem deveria ser. Aquele bulício me incomodava, onde era? Investiguei tudo com o olhar e constatei que não havia vivalma ali. A minha curiosidade se acentuava. Vôte! Quem roubava meus sentidos? Algum fantasma, encosto, duendes, lêmures, flibusteiros, assombração, não acreditara nisso nunca. Depois de muita curiosidade descobri uma pequena fresta no piso de madeira e fui levado a verificar o que se passava, lembrando do tempo em que me punha por curioso menino nas fechaduras de mulheres alheias. Não, não era aqui isso. Agachei-me e vi pelo buraco no chão: era ela, linda e faceira se desnudando, jogando suas vestes com calma, alisando seu corpo branquinho e liso. Era ela, meu, eu que perseguia seu jeito dia a dia, me excitava a cada peça do seu vestuário arrancada, parecia um streep tease só para mim. Logo eu que a desejava muitas e tantas vezes quando cruzávamos nas visitas imprevisíveis que fazíamos ao David, para que pudéssemos exercitar nossos instrumentos, visando maior virtuose durante a execução de nossos modestos concertos. Líamos partituras com o fito de decorá-las e executarmos com maior sentimento após a compreensão de suas notas e contornos musicais. Ele, o meu amigo, morava ali, no sótão da casa do pastor, um apartamento modesto mas acolhedor. Morava sozinho, viera de Paulo Afonso, quinhentos e tantos quilômetros daqui, para ser o pianista da igreja. Eu, um ateu convicto, ali no sótão da casa de um pastor batista. Prendi a respiração para não ser notado, nada poderia atrapalhar aquele espetáculo exclusivo. A mulher do pastor estava ali embaixo, nua, linda, no meu tope, cabelos negros, olhos pretos, lábios carnudos, carinha bem desenhada, corpinho roliço e sensual, pernas bem torneadas, toda uma elegância de forma combinada com sua vozinha sensual e mansa. A pele branca, lívida e casta para minha loucura, se sobressaía nas vestimentas em cores escuras e discretas, sempre se vestindo de tons sombrios, dando-lhe um ar senhorial, uma transparência de idade maior do que na verdade possuía, contudo, bem aquinhoada na composição corporal. Vendo-a ali imaginava mil peripécias sexuais explorando sua branquitude no menir do amor. Eu bailaria com ela por imensidões infinitas, estrelas candentes, planetas inabitáveis, galáxias vindouras. Era a promessa do amor, secreto. Ela depois desapareceu nua, não sei para onde, recompondo-me, então, para não ser flagrado ali. Acomodei-me na cadeira, não antes, de vez em quando, voltar curioso, para a fresta aguardando seu retorno para aquele palco exclusivo e íntimo. Não, demorou muito e David já estava de volta exigindo-me concentração na papelada. E assim ficamos na empreitada. Certa tarde depois, eu e David estávamos ensaiando uma sonata que eu havia composto às escondidas para ela, quando o seu vulto aproximou-se de nós. Empalideci com a surpresa, o sangue sumira da minha tez. Eu nada dissera ao amigo, nunca diria, nunca revelaria nem com uma espada na goela, tá doido? - Que bonito! -, elogiou-me, flertando meu coração, ela sem saber disso. - Obrigado. -, agradeci meio que cheio de pernas, vermelho da febre de timidez. Reunindo todas as forças que ainda restariam em meu ser, tentei mais algumas sílabas em sua direção e fiz convite oportuno para a apresentação da peça no próximo final de semana. Eu que ensaiara palavra por parágrafo, ordenando frases sintaticamente corretas no quengo, tudo certinho para quando ela aparecesse faceira, assim, mas, não tinha jeito, uma confusão explodia na minha cabeça, eu não sabia mais nada, tartamudeava, pisando na bola, enrolando a língua, dando nó na idéia, pára! - É mesmo? -, respondia ela provocando-me as entranhas. - É sim, será no teatro e melhor ainda se a senhora se fizer presente -, enrolei-me e fiz o maior esforço para concatenar as idéias, continuando: - Eu e David apresentaremos umas novas canções que compus, dentre elas, essa sonata que eu... - Que bom, vou ver a agenda do meu marido para ver se a gente pode ir, você sabe, a gente tem culto no final de semana. - O concerto só começa depois das vinte e uma horas, depois, claro, do culto. -, interrompi, temendo sua recusa: - Podem ir, eu esperarei ansioso por vocês. - Tudo bem. Vou ver se dá, tá bom? - Tá. Sangue de Cristo tem poder! Notei lá no fundo que ela estava trêmula, não sei. Eu, pelo menos, estava por um fio. Disfarcei o máximo. David nem notara, creio. Ela saiu e nós continuamos a ensaiar a tarde inteira, noite adentro até quase de madrugada. Trabalhamos mais no dia seguinte, no outro, três dias depois, ela nada de aparecer, até que resolvemos descansar para o show de sábado. Por volta das dezenove horas eu, David e os músicos, passávamos a afinação, corrigindo algumas dúvidas até acertarmos que eu faria, naquela sonata que virara balada, um momento solo. Isso, ela não me saía da cabeça. Encerramos o ensaio geral e liberamos todos para se aprontarem. Fui para o camarim visando relaxar, tomei um banho e deitei no divã, folheando uma revista que levara para dissipar a tensão nervosa. A figura dela ocupava minha mente, não conseguia me desvencilhar de sua imagem. Cochilei com um sonho, finalmente juntos e sozinhos, ninguém por perto e não dizíamos qualquer palavra. Fitávamos um ao outro, irresistivelmente. Líamos em nosso olhar que também mexera com as suas estruturas, éramos cúmplices de um idílio impossível. Ela estava mais linda que nunca e o sol iluminara a sua beleza celestial, sentindo que dos pés à cabeça, seu corpo me imantava, seu lábio me necessitava, tudo me depusera a sua disposição. Não nos tocávamos, não precisávamos, pois que nosso abraço espiritual era suficiente, comungávamos nosso deleite acima das necessidades corporais num acasalamento de sentimentos recíprocos. Abruptamente o sonho se espatifara, era meu secretário que me retirava daquele espasmo, avisando-me que eu devia me aprontar para o início do espetáculo. Calmamente me recompus sob a exigência de pressa, concentrei-me e abri o peito no palco. Esgoelei o tempo inteiro sem encontrar sua presença na platéia. Desfilei canções oriundas do coração. E lá para as tantas chegou o momento xis, os músicos depuseram seus instrumentos e foram para o camarim. Sozinho, fui até o piano e recitei algumas palavras sobre este amor impossível que me envolvia por dentro naquele momento. Dedilhei os acordes iniciais da balada e interpretei o meu poema de amor, entregue por inteiro. Ao término da minha façanha os aplausos me afagaram o ego, levantei-me e fui até o proscênio onde agradeci a todos os presentes. Eita! Ela estava na terceira fila, vi-lhe, sozinha, aplaudindo e com os olhos brilhantes. Uh, ru! Aí sim, a banda retornou e continuamos o show até o seu término. Ao final atendemos bis, depois outro e encerramos as atividades numa jam session apoteótica. Fora a minha catarse. Um bando de gente veio parabenizar pelo feito no corredor que dava para os camarins. Fotos, entrevistas, autógrafos e abraços muitos. Tudo muito efusivo. Eu não tinha nem onde me escorar com tanta receptividade, os dentes no coarador. No meio dessa maratona eis que ela me apareceu timidamente, me lançou um olhar de grata e com um ar de quem sabia o que se sucedia comigo, leu-me a alma. Fiquei empulhado. Será que a minha canção tocara-lhe o coração? E no meio daquela multidão fez menção de falar ao meu ouvido e me beijou a face, sussurrando... "o seu falar é muitíssimo doce; / sim, ele é totalmente desejável." (Cântico, 5,16) E que me amava e partiu imediatamente. O seu sussurro: - Te amo! -, nossa! Fiquei cheio de uma alegria imensurável, estava vitorioso, feliz, alcançara a graça de ouvir de seus lábios singelos uma declaração voraz. Ninguém notara a cena, acredito, havia muita gente no recinto, contudo meu ímpeto estava flagrante. Viajei minha ilusão. No dia seguinte aquilo não me saía da cabeça, inventei uma maneira de ir até à casa do David resolver alguma pendência. O quê? Sei lá! Qualquer coisa, inventa aí, meu, qualquer propósito, vai, arruma na hora um motivo qualquer. E fui. Contornei o templo e fui ao portão lateral que dava na casa do pastor, abri a fechadura com certo barulho para que fosse notada a minha presença ali e me encaminhei ao cubículo para pegar a escada que dava para o aposento do David. Ao passar pela porta da residência em direção à escada ela me interpelou. Que susto! Ela, justo ela! Surpresa mais que agradável. Minha cabeça rodou, rodou. Sua mão sobre o músculo do meu braço me aplacara a caminhada. Nada dissera, olhávamos um para o outro, de repente, fiz menção de beijá-la, rejeitou-me, entretanto, segurou minha mão. Eu disse... "Arrebataste-me o coração com um dos / teus olhares;" (Cântico, 4,9) Olhou dos lados e me puxara até outra dependência onde se instalara a biblioteca. Disse-me... "De noite no meu leito, busquei / amado de minha alma!" (Cântico, 3,1) Lá, avidamente, me beijou, senti seus lábios, sua língua, enamorado no enleio da paixão profunda. Ela arrematou: "...Que desfaleço de amor." (Cântico, 5,8 ) Demoramos não sei quanto tempo até que ela se assustou e me empurrou porta afora, recompondo-me até a saída dali. Na rua meu coração era verdadeiro espalhafato a dar cambalhotas doidas. Liguei o carro e saí sem direção, até que divisei um bar e lá ancorei numa mesa, sozinho com meus pensamentos, ingerindo uma cerveja gelada, fumando um cigarro atrás do outro. Passei por rabiscar um poema no guardanapo, solfejando cada verso como numa canção... e guardei ao bolso: Ao prever o amor afinal / Em meu peito desabrochou / Toda gula da sedução / Toda opção na avidez do querer / Quando o truque do amor dominou / Foi capaz de ter emoção / Assustando o meu coração / Sem ter razão prá se defender... Fiquei imaginando como seria possível aquilo acontecer outra vez. De novo? Claro, a sanha acesa. O pior é que não via qualquer possibilidade, já que era casada e, por sinal, muito bem casada, de vida resolvida e equilibrada, possuindo seus afazeres religiosos e, na certa, cumpriria à risca os mandamentos. Se parecia até com um casal feliz, feito Filemon e Baucis, os bem casados. Ou mesmo Adah, deus do raio e da tempestade com seu touro; ou Ishtar, deusa da fecundidade e também da guerra, com o leão e a pomba. Ou aqueles cônjuges de Hanra-roa, quando ela não quis deixar seu marido que estava leproso, acompanhando-o no leprosário onde também contraiu a terrível doença. Não haveria espaço para mim, sabia. Morria a esperança, sabia que aquilo era impossível, jamais ela trocaria uma vida ajustada por uma aventura estabanada com um reles compositor maluco que ainda não havia resolvido nada de sua vida, ateu, perdulário, descompromissado com tudo e todos e sem direção na venta, guiado pelo devaneio, de embarcação onde o vento levar. Era trocar o certo pelo duvidoso. Eu sei, a cara do pastor não era lá das boas, não me parecia de boa feição, havia, inclusive, a minha predisposição em odiá-lo porque não cria em nada do que ele pregava, rótulo de um charlatão, a exemplo do que pensava de padres e mensageiros estúpidos que se diziam discípulos de uma mentira inventada para enganar incautos e prosperar deslavados sobre as dúvidas dos desmiolados. Era a vida dela, isso sim. Será que eu poderia invadir com meu despudor desestabilizando tudo com o meu egoísmo? Será que eu mereceria ter aquela a quem endoidara meu coração com sua santa inocência? Era pouco provável que aquele episódio se repetisse. Teria de lutar para ter-lhe de novo. E todos os dias eu inventava o que fazer no sótão, falando alto para que me escutasse e já me desencantando pelas repetidas vezes sem sucesso. Mais de mês se passara, eu morrendo por dentro, me matando, cumprindo a minha própria pena de ser solto, heterodoxo e poeta, inventei de viajar, avisei ao David que iria, no dia seguinte, até à capital alagoana, tentar desaparecer daquilo e me despedi. Ao descer a escada me assustei, o pastor. Meu coração foi nos pés, será que ele descobrira alguma coisa? Será que ele iria me proibir de ir ali ou mesmo tirar alguma satisfação comigo? Que terá sido? Fui descendo a escada de cabeça baixa, nunca trocara qualquer palavra sequer com ele e não seria agora que trocaria, justo agora que era meu algoz. Fiz apenas um aceno com a cabeça e segui meu caminho quando me chamou pelo nome. - Pois não? -, disse-lhe. - Você está indo para Maceió? -, perguntou-me. - Sim, por que? -, respondi desconfiado. - É que Idalice está precisando de resolver umas pendências minhas lá, será que você poderia dar uma carona para ela, isto é, se tiver vaga no seu carro, claro? Puta-que-o-pariu! -, pensei comigo, estourando de alegria, esbugalhei os olhos e disse: - Claro! Tem vaga sim. - Então, que horas você vai? - Vou sair cedo, umas sete e meia, tá bom? - Idalice, Idalice! Ele vai lá pelas sete e meia, fique pronta, onde ela espera o senhor? - Não se incomode, passo aqui e apanho. - Oh! quanta gentileza sua! - Nada, passo aqui sim! - Não será incômodo? - Que é isso? Pelo contrário, será um prazer! - Muito grato. - Até amanhã. - Até amanhã! Porra, meu! Meu coração estufou de alegria, nossa! Saí doidinho dali sem saber nem para onde ir, inventei uma viagem sem nem esperar para quê, quando já desistia daquele affair e a coisa cai do céu assim, sem mais nem menos, será obra do acaso? O acaso não existe, sim, será predestinação? Ôrra, meu, que coisa! Saí dali e fui logo abastecer o veículo. Depois em casa arrumei as coisas que tinha por fazer, na verdade não tinha nada, inventaria qualquer coisa, o mais importante é que ela iria comigo e sozinha e se ela não quisesse ir sozinha comigo? Eu arrasto assim mesmo, digo que vou pegar algumas pessoas e depois dou umas rodadas e faço então que as outras desistiram de viajar. E assim foi, nem dormi direito, passei a noite em claro. Às sete e meia estava eu na sua porta, ela pronta já, sozinha, me esperando. Veio até o carro, abri-lhe a porta e assentou, seguindo viagem. Nada dissera. Eu tremia, nem acreditava; As coisas faziam confusão na minha cabeça, davam reviravoltas e não conseguia concatenar as idéias. Estava perdido, completamente néscio, quando lembrei do som, empurrei um cd e a música rolou. Adivinhei: Debussy, nada mais encantador. - Isso é lindo -, dissera ela. - Mais linda é você! -, dissera eu. Enrubescera e nada dissera. Pra que eu disse isso? Condenei-me. Tinha que dizer, não agüentava mais o escalpelo. Já estávamos na BR 101, um silêncio devastador. - Você vai para que bairro em Maceió? -, tentei abrir um diálogo depois de horas e horas de confusão na minha cabeça. - Vou para a Jatiúca, mas não se atrapalhe por mim, pode me deixar em qualquer lugar que eu pego um táxi e vou. - Que é isso? deixarei você lá, tranqüilamente. E a que horas você pretende voltar? - Não se atrapalhe por mim, pode resolver suas coisas que eu volto de ônibus hoje mesmo. -, frisou rispidamente. - Eu também volto hoje, posso passar lá e lhe apanhar. - Não se embrome por mim, vou resolver umas coisas e volto logo -, sentenciou sem querer dar trela nem abrir espaço para a minha ousadia. Friamente respondia e nem sequer olhava para mim, eu quase grito com tanta indiferença. E aquele beijo? Foi de graça? Não havia nada, será? Pensei já me aborrecendo com a atitude fria dela, tentando me recompor. - Que nada, será um prazer, eu também tenho pouca coisa para fazer, aliás, para ser mais sincero, eu não tenho nada que fazer em Maceió, foi só um pretexto para lhe ver ou conseguir alguma reação sua depois daquele beijo, agora que já estamos em Ribeirão indo para Maceió, vou levá-la até lá e trazê-la de volta quando quiser, na hora que achar por bem sua conveniência, estando, portanto, meu coração e eu à sua inteira disposição. Peço desculpas por essa ardilosa situação, é que eu não agüentava mais... Pôxa, danei-me a falar que quase não paro mais, abri o jogo, que coisa! Agora eu quem estava avermelhado, tímido do jeito que eu sou, falando assim, ela viu, finalmente, olhou pra mim e pôs a sua mão sobre a minha. Encostei o veículo no acostamento e fitei fundo seu jeitinho manso. Aos poucos fui me aproximando. Senti-lhe a respiração. Encostei bem devagar meus lábios nos seus. Ela nem ofereceu resistência. Lentamente fui me aproximando, a respiração, o aroma do batom, a sua face trêmula, seus lábios carnudos, me apoderei de sua alma indefesa e fechei os olhos ante o labirinto do amor. Nos beijamos longamente. Assustados, ficamos com a velocidade dos caminhões que passavam e nos recompomos do mergulho fundo nas águas violentas da paixão. Agora poderíamos falar mais abertamente, ela repousou sua mão sobre a minha coxa e meu pênis já forçava para sair da calça, não havia como evitar a saliência, ela já notara, tinha certeza, assim deixei, repousei a minha mão sobre a sua, alisei; ela apertava a minha perna, pôrra, por que não coloquei meu caralho do lado direito, se ali estivesse ela estaria a mílimetros da minha glande. Mas do outro lado, que distância, essa mania de guardar a rola do lado esquerdo é estranha. O que faço? A mão dela sobre a minha coxa, apertando-a carinhosamente e eu alisando-a com maior furor, não me continha de tanta satisfação, quando busquei seus dedos e entrelaçamos os meus nos seus, de mãos dadas prosseguimos. Mais na frente estacionei novamente no acostamento e me agarrei aos seus cabelos, sedento, minhas mãos buliçosas contornavam seus seios, seu ventre, lambuzei-lhe a face, ela ofegante; busquei suas pernas, levantei-lhe a saia e alcancei-lhe o ventre, estava úmida, investi um dos dedos entre a calcinha e com o indicador acariciei sua vagina, quase desmaia, respirando fundo pela boca, senti seu hálito, deitei minha cabeça sobre suas pernas e beijei suas entranhas e lambi sua vulva. Desfaleceu, arrancando-me ferozmente dali. Abaixou a cabeça e ficou com a mão direita sustentando a testa como que se auto-reprovando daquilo, da minha atitude, silente, arfante, descontrolada. Virei as chaves do veículo, debreei e continuei a viagem. Estava em chamas, tudo queimava dentro de mim. Ela, após um bom pedaço de tempo, permaneceu imóvel, alisei sua mão esquerda que descansava agora sobre a sua coxa, acariciei e novamente entrelaçamos os dedos. Ela parecia rezar. Trouxe-lhe então sua mão para a minha coxa e fiquei massageando sua palma, o seu braço, emborquei e toquei suas unhas, seus dedos e aos poucos a cada vez que passava a minha sobre a sua, puxava-a um pouquinho em direção ao meu ventre, aos poucos e com muito cuidado, lentamente, meu caralho ereto quase fazendo buraco na calça, pronto para desabar cueca e zíper, pulando fora doido, quando consegui, finalmente, remover sua mão até ele, atos imobilizados, apertou carinhosamente, alisou, quase morro, e assim ficamos, sozinha me bolinando, me punhetando, soltei o botão da calça, arriei o zíper até embaixo e trouxe-o de dentro para fora da cueca e sua mão afagou-o com determinação. Ao mesmo tempo rocei-lhe as pernas, incendiei sua alma e, a certa altura da ida, divisei um motel e fiz que ia entrar. - Podemos? - O quê? - Podemos parar um pouco aqui? - O que é? - É um lugar aprazível, ninguém por perto para que a gente possa se conhecer melhor. - Não, por favor, tenho hora para chegar ao compromisso. Obediente, segui em frente. Coloquei um cd de Egberto Gismonti no som, trouxe sua mão de volta às carícias anteriores e rumei para Maceió. Ouvimos entre carícias Keith Jarret, Edson Natale, Kitaro, Duofel. Uma hora e meia depois estávamos próximos do lugar que ela ficaria e, preocupado com a volta, marquei às treze e trinta da tarde para apanhá-la e podermos almoçar. Acertamos tudo, ela me pediu que não lhe beijasse ali, se recompôs e desceu para os seus acertos pessoais. Fiquei zanzando: Ponta Verde, Jatiuca, Mangabeiras, Pajuçara, Cruz das Almas, Jacarecica, Guaxuma, Sonho Verde, Ipioca, Riacho Doce, quase indo pelo litoral norte ao som de Djavan, de Hermeto Pascoal, o Mirante da Sereia, Ilha da C'roa, Paripueira, Barra de Santo Antonio, os poemas de Arriete Vilela, até me debruçar numa mesa dum bar da orla belíssima dali. Era como se estivesse no meio da criação de Jorge de Lima, de Graciliano Ramos, Ledo Ivo, ou num poema erótico de Marcos Farias Costa. Um calor brabo naquelas paragens, apesar do vento da praia. Falaram do litoral sul, Francês, Barra de São Miguel, Jequiá da Praia, o Gunga, Lagoa Azeda, Miaí, Lagoa do Pau, Pontal de Coruripe, Pontal do Peba onde o São Francisco se encontra com o Atlântico. Lia poemas de Arriete Vilela, Ari Lins Pedrosa, Sidney Wanderley. Uma e meia, suado que só pelo álcool ingerido, estava eu aguardando a sua chegada. Atrasou-se. Duas e meia, uma hora depois, esbaforida chegou.. - Desculpe, foi que eu tive que pagar uma conta num banco do centro e demorei muito lá na fila, alem de ter de trazer o comprovante do pagamento para o escritório daqui, mil desculpas. - Não precisa se desculpar. Podemos almoçar? Se não for incômodo. - Claro que não. - Vou escolher um restaurante ideal ou prefere um local discreto, eu mesmo precisaria tomar um banho, este calor me deixou bastante suado. - Você é quem sabe -, disse-me. Ora, acionei o motor e segui rumo a Jacarecica. Lá chegando adentrei num motel e pedi nosso almoço com uma garrafa de vinho. Ela estranhou o local, olhava os quatro cantos, a cama, os vidros, os espelhos, deixei que se aclimatasse, fitando toda sua feitura grácil. O vinho chegara, apanhei duas taças e servi, degustou com classe e, finalmente, brindamos. Ela sorriu com a minha atitude. Recitara-me, sussurrando, novamente, parte do Cântico dos Cânticos de Salomão. "Beija-me com os beijos de tua boca." (Cântico 1,2) Aproximei-me com cuidado e beijei-lhe ardentemente. Levantamos e sai conduzindo-a até a cama onde estatelou-se. Agachei, beijei-lhe os pés, as pernas, as coxas, a vulva, ela gemeu horas e horas, contorcendo-se toda e gritando. Entoei-lhe: "Como és formosa, querida minha, / como és formosa!" (Cântico, 4,1)  - Não aguento mais! Não aguento mais! -, gritou-me ao ouvido e prosseguiu: "o meu amado é para mim / um sequitel de mirra, / posto entre os meus seios..." (Cântico, 1,13) E mais eu enfiava minha língua no seu alçapão, alcançando seu clitóris, "manancial recluso, fonte selada." (Cântico, 4, 12) ela jogando a cabeça de um lado pro outro, gemendo, gritando, até que puxou-me pelos cabelos e me beijou ardentemente, "a sua mão esquerda esteja debaixo / da minha cabeça, e a direita / me abrace..." (Cântico, 2,6) reabri a calça, livrei-me da cueca e introduzi-me todo em sua buceta molhada, dando-lhe estocadas violentas. Oh! que méquia! "Às éguas dos carros de Faraó / te comparo, ó querida minha!" (Cântico, 1,9) - Meu amor! Meu amor! -, gritava ela: - eu te amo! Te amo! Cheguei ao ápice, o mundo rodando num bailado frenético, faíscas, relâmpagos, girava a valsa eterna do prazer e gozamos juntos. "Os meneios dos teus quadris são como / colares trabalhados por mãos de artista." (Cântico, 7,1). O oxigênio era pouco para os nossos corações disparados. Fiquei um tempão jogado em cima dela, beijando-lhe os lábios, as faces, os olhos, o pescoço, minha bimba lá dentro presa, ela apertava-me de forma de não poder retirar meu caralho de suas entranhas. "O meu amado meteu a mão por / uma fresta, e o meu coração / se comoveu por amor dele!" (Cântico 5,4) Depois de um tempão, descontraída, deixou que deslizasse pro seu lado, encolhendo-se toda, esfregando-se em mim. "O teu ventre é monte de trigo, / cercado de lírios!" (Cântico, 7,2) Mirávamo-nos, ela entregue à minha sanha. Passamos muito tempo assim. Levantei-me e fui ao banho. Seguiu-me, ficando em pé na porta do box, fiscalizando a me molhar. "Desejo muito a sua sombra / e debaixo dela me sento, / e o seu fruto é doce ao meu paladar." (Cântico, 2,3) Veio então de mansinho, passeando seu tato levemente por todo meu corpo, segurou firme meu caralho, esfregou-o, ensabuou-o, alisou-o, até que ficasse enrijecido novamente; de cócoras deu-lhe um beijo... mais outro... até que sua língua chegou a tocá-lo... "os teus lábios são como um fio / de escarlate, e tua boca é formosa!" (Cântico, 4,3) ...a glande engulida, o aguaceiro da ducha molhando-lhe, ela chupando-me. Que doçura! Ronronei: "Mel e leite se acham debaixo da tua língua!" (Cântico, 4,11) Excitação total, mais rápido, aninhei meus dedos entre os seus cabelos prendendo-os mais e mais, eu louco, virando o globo ocular, já não agüentando mais sua perícia, ejaculei na sua boca vertiginosa, largando-me no seu terreno abissal. Enguliu tudo e continuou com sisifismo na felação, como se fosse um doce predileto, devaneios múltiplos, quimeras mil, loucuras extremas, ah! Ahhhh! Estava vencido, dominado, entregue, reconfortado, rendido, oh! quanta ebulição. Por fim, concluindo o banho, almoçamos com os olhos pregados no olhar do outro. Beijamo-nos ininterruptamente, prova do amor e do carinho que nos dedicávamos. "Quão formosa e quão aprazível és, / ó amor em delícias!" (Cântico, 7,6) Saímos dali, eu mais ancho que de costume, retornamos da viagem e ao chegarmos deixei-lhe em sua casa e parti para os meus aposentos. Durante toda noite sonhei com aquele bailado inesquecível. Ela já estava toda por dentro do arcabouço do meu corpo. Ela era tudo em mim, minhas veias, meu sangue, meus pensamentos, minha vontade, meu desejo, tudo. No dia seguinte fui visitar David com o intuito de vê-la. Ao passar pela passagem lateral de lá, notei a porta do templo aberta, entrei e olhei, lá estava sozinha, ajoelhada, rezando. Me viu e abriu um sorriso lindo. "Vem depressa, amado meu, / faze-te semelhante ao gamo / ou ao filho da gazela, / que saltam sobre montes aromáticos!" (Cântico, 8,l4) Não me contive, fui até seu encontro, abracei seu corpo e beijei com fervor. Nada falamos. "dar-te-ei ali o meu amor!" (Cântico, 7,12) Ali mesmo, ensandecido, levantei seu vestido negro, encostei seu corpo no púlpito e me servi: "os teus beijos são como o bom vinho!" (Cânticos, 7,9) Amei demais. Ejaculei. Ainda gozando empurrou-me, fiz força para agarrá-la, rejeitou-me violentamente e tive de sair até a rua. Havia o gosto da última vez. Nunca mais sequer dedicara qualquer palavra a mim, estava sempre com o seu marido, no sacrossanto reino do lar. Algumas vezes o telefone tocava e quando atendia uma voz sussurrava: eu te amo! E desligava imediatamente. Três a quatro vezes ao dia o trinado do telefone me sacudia, às vezes nem falava, ouvia só a respiração. Era ela, tinha certeza. Aproveitava o silêncio e a respiração e recitava poemas tórridos de amor, declamava loucuras mil, solicitava sua presença, exigia, intimava, enlouquecia e o sussurro no fim: eu te amo! Era ela. Eu marcava encontros, ela não ia. Ensaiava ir buscá-la, ousava invadir sua residência e estuprá-la lá mesmo, nada, ninguém. Só o sussurro mais nada, como na Cantilena: ...Sacudiu a vida em mim / Coloriu como a um jardim / Foi depressa foi sem pena / Rebuscou na cantilena / Toda fúria do que quis / Não previu todo embaraço / Veio com estardalhaço / Pra me fazer feliz. / Tão aguda, tão insana / Percebi que essa fulana / Era a deusa do meu sim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992). ©Luiz Alberto Machado. Direitos reservados do autor. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOSA gratidão é a memória do coração. A riqueza e a pobreza das pessoas encontram-se não em seus bens imóveis, mas em seus corações. Os corvos devoram os mortos e os aduladores devoram os vivos. A ciência mais difícil é desaprender o mal. Pensamento do filósofo grego fundador da filosofia cínica Antístenes (445-365aC). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: A barbárie dura séculos. Parece que seja ela o nosso elemento: a razão e o bom gosto não fazem senão passar... Extraído do Discours preliminaire de lEncyclopédie, do filósofo, matemático e físico francês Jean le Rond d'Alembert (1717-1783).

 

ALGUÉM FALOU DE NOVO: Dar conselhos a um homem culto é supérfluo; aconselhar um ignorante é inútil. Pensamento do tragediógrafo e filósofo estoico latino Lúcio Aneu Sêneca (4ac-65). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

A PENÚLTIMA VISÃO DO PARAÍSO – [...] Restaurar a memória das origens como primeiro passo para a construção artística de uma sociedade radicalmente renovada. Essa foi a experiência intelectual que atravessou a aventura antropofágica brasileira de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, a poética do Pau-Brasil e a posterior Revista de Antropofagia e, enfim, a novela épica de Mário de Andrade: Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Talvez seja também a experiência que anima outros muitos marcos da cultura brasileira, desde a arquitetura da Pampulha aos filmes de Glauber Rocha, sem esquecer as magníficas expressões populares em sua música, dança, expressões plásticas, tradições orais e festas, até os dias de hoje. [...] A oposição entre razão e barbárie é muito mais um preconceito teológico e epistemológico da colonização européia. A perspectiva oswaldiana, ao contrário, punha em evidência a irracionalidade de uma civilização que, em nome da Razão, destruiu o Paraíso. [...] Trechos extraídos da obra A penúltima visão do paraíso: ensaios sobre memória e globalização (Studio Nobel, 2001), do filósofo espanhol itinerante Eduardo Subirats. Veja mais aqui.

 

OS DEZ MANDAMENTOS DA PUTAPrimeiro mandamento da puta: serás discreta. Jamais apontarás um homem na rua e dirás que ele é teu cliente. Segundo mandamento: não beijarás na boca. Beijo na boca é afetivo, só o darás a quem quiseres. Terceiro mandamento: não terás cafetão. Não cairás nesta cilada, sob pena de acabares na sarjeta. Quarto mandamento: não revelarás a fantasia do próximo. A fantasia do teu cliente é secreta e sua identidade jamais poderá ser violada. Quinto e mais importante de todos os mandamentos: não te apaixonarás pelo teu cliente. Sexto mandamento: não sairás da zona para morar com o cliente, sob pena de na primeira briga ele jogar na tua cara: “fui eu que te tirei da vida!” e tu voltarás para a zona com o rabinho entre as pernas. Sétimo mandamento: terás ética. Nunca misturarás diversão e trabalho, mas deverás desfrutar das duas coisas. Oitavo mandamento: cobrarás. Dentro da zona jamais poderás receber um cliente sem que ele pague por teus serviços. Nono mandamento: desconfiarás da cafetina. Por mais que a dona da casa seja boazinha, não poderás ficar na mão dela. Terás que mostrar, com educação, que tu também és esperta. Décimo mandamento: terás orgulho da tua profissão e usarás camisinha. Extraído da obra Filha, Mãe, Avó e Puta A história de uma mulher que decidiu ser prostituta (Objetiva, 2009), da ativista Grabriela Leite (1951-2013), também autora da obra Sem vergonha de ser puta (Beijo da Rua, 2002), da qual destaco os trechos: Sintam que palavra linda, sonora e importante. Puta que é o nome da nossa atividade e também um grande palavrão, uma grande ofensa. […] Quer dizer também que nossos filhos são nada mais, nada menos, que filhos da puta. Percebem? Nossos filhos nunca, se assumirmos nossa identidade, se sentirão ofendidos se forem chamados de filhos da puta. E um dia, que tenho certeza chegará, ser filho da puta haverá de ser um elogio, e não uma ofensa. Mas isso depende de nós, putas. Se continuarmos a ter vergonha de ser chamadas de putas e continuarmos a inventar nomes babacas para a nossa atividade profissional, não só os nossos filhos continuarão a ter vergonha de nós, como o preconceito com relação ao que fazemos continuará forte. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

O HOMEM DE AREIA – [...] Algo tremendo penetrou na minha vida... Obscuros presságios de um horrível destino que me ameaça se estendem como as sombras de negras nuvens, impenetráveis a qualquer amável raio de sol. Era eu Nathanael dizendo para minha noiva Clara... [...]. Trecho extraído do conto Der Sandmann (Insel Verlag, 1967), do escritor, compositor, desenhista e jurista alemão Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (1776-1822). Veja mais aqui.

 

EU TE AMO, MEU POETAEu te amo meu poeta, e leio teu nome compulsivamente em meus pensamentos a cada segundo de minha vida, como se o sol ou a lua, todos os mistérios dependessem do meu amor. Como se nada pudesse existir sem ele. Eu te amo nos dias claros e amenos, na agitação das ruas, no equilíbrio do planeta ou nas tempestades devastadoras. Eu te amo, meu poeta, cada segundo mais intensamente, e já não importa todo o resto, se existem ódios ou incompreensões, se já não posso apreciar o mar ou as estrelas porque tudo se resume em ti. Eu te amo e sinto tuas mãos em meu corpo a aturdir-me, teu olhar a dominar-me excitante, teu corpo a cobrir-me e penetrar-me soberbo, enquanto já nada existe senão a tua presença. Eu te amo, meu poeta e fascinada acompanho teu desejo que se mistura num desvario com o meu metamorfoseando nossa vidas em uma avalanche de prazeres e paixão sublimes e imorredouras. Eu te amo, nos momentos de harmonia plena, de conflitos, seriedade ou diversões, quando nossos risos enfeitam pedaços da vida ou quando lágrimas escorrem lentas e cheias de emoção. Eu te amo, meu poeta, quando a aflição do desejo encontra em teus braços o alívio e quando retorna cada vez mais urgente procurando o tesouro que penetras entre gemidos de prazer. Eu te amo, meu poeta, quando pressuroso compreendes meus momentos de dor e me abraças apertando-me no teu corpo quente e tão amado ou nas alegrias brilhantes em que teu peito transborda da minha felicidade. Eu te amo, meu poeta, quando comemoro contigo ou te consolo, quando me procuras indefeso ou possessivo, nas horas de suavidade ou rigidez, e quando já nem sei como cabe esse sentimento desmesurado a compartilhar desse amor cada vez maior e mais devastador. Eu te amo, meu poeta quando te procuro mimada e dengosa, faceira ou frágil e encontro na tua paixão a força para enfrentar as seqüelas da vida, o sol que tudo inebria ou o crepitante anseio de minha alma apaixonada. Eu te amo meu poeta, quando no delírio nada mais vejo, em transe de prazer e de loucura a sentir teu corpo, a aspirar tua respiração, a vibrar no teu beijo, encontrando a vida somente na tua, morrendo por ti e revivendo por teu amor. Eu te amo, meu amado poeta... Poema da escritora Vânia Moreira Diniz. Veja mais aqui.

 

PALAVRAS SOLIDÁRIASSua trajetória é de uma vida dedicada à arte musica literatura mas sobretudo dedicada a dar lugar a tantos! Você faz parte de minha história, em seus espaços... Minha Poesia,lembrando aqui sua chamada há anos para versos sobre o Rio São Francisco,quando publicou meu ' "Velho Chico"...do espaço dado à Poiesis de meu livro " Erotíssima-", à chamada para a Antologia " Habemus Papa',de cordel,onde publiquei minha própria estilística e da qual cada autor recebeu sem custos,vinte volumes...Amizade antiga,a nossa,estar com você em Pedezinho, com nossos textos para crianças,uma de suas vertentes,nas edições de PD,quando encantei- me com sua dedicação à infância...Abrir e- mais e encontrar sua voz e violão,que alegria para mim e seus seguidores !...E por aí vão as múltiplas lembranças e meus sempiternos e eternais agradecimentos...Hoje muita gente tenta fazer o que você sempre fez...Amo esse seu desprendimento responsável,sem deixar de cuidar da própria carreira ...Tenho muito orgulho em ser sua amiga,sua seguidora e amos estar em todos os espaços que você nos oferece há tantos anos!!! Abraço Cordifraternal ,Luiz Alberto Machado!Parabéns pelo expressivo e raro número de seguidores... Ouça aí meus aplausos!!! Texto da escritora, psicóloga, ilustradora, conferencista e consultora Clevane Pessoa de Araújo Lopes. Veja mais aqui e aqui.

 

DORO NA CAIXA DO FECAMEPA – Por causa duns biscates que o Doro – o cara que se diz candidato e futuro presidente do Brasil – ajuntou uma mixaria de nada e para recebê-la teria que abrir uma conta na Caixa Economica Federal. Exigência do contratante. E lá foi Doro. Lá para entrar teve que se desfazer do aparelho celular, do guarda chuva, do chaveiro, dum relógio de algibeira presente do seu bisavô, duma caneta niquelada, dos sapatos que possuíam fivela, do cinturão, do isqueiro de prata, da agulha de crochê, do extrator de grampos, da lupa de metal, da fita métrica metálica, do relógio Mido que usava só para se amostrar e nem funcionava, duma chave-de-fenda que carregava entre seus brebotes, resolvendo deixar logo a bolsa toda enganchada lá no depósito de pertences metálicos e na hora que foi passar na porta giratória peeeeemmmm! Tiveram que revistá-lo. Era que nas calças dele comprada quando fora em São Paulo tinham ums frisos metálicos, não antes haver lhe passado as mãos nas intimidades todas, possuídos e despossuídos, por fim, deixaram-no entrar com as calças seguradas. Pronto, respirou aliviado e foi reunir sua tranqueira toda na bolsa.
Dirigiu-se até a recepcionista que lhe dispensou uma senha: ECO36. O expediente mal começara e já estava naquilo? Pensou consigo mesmo. Nossa.
Quando se dirigiu para o local de atendimento não havia onde se arranchar de tão entupido de gente que estava. Aí, ficou por ali como galinha quando quer pôr.
Lá ia, lá vinha, ECO001. Eita, agora que foi o primeiro. Uma hora depois, ECO 006. Duas horas depois, ECO016. Tres horas depois, ECO030, mas a moça que atendia saiu para almoçar, só dali mais uma hora. E lá ficou coarando, descançando nos cambitos, ora se acocorando, ora se esticando, mas não dava para fazer muito movimento não senão esbarrava noutro.
Lá pelas três e pouca da tarde ali: ECO036. Ele animou-se e foi até a moça que estava com um decote maravilhoso para animar suas vistas. Ela bastante sorridente pediu-lhe os documentos exigidos: RG, CIC, comprovante de endereço e fotocópia de tudo isso. Fotocópia? Não se aperreou, como sempre estava cavando trampo, estava com tudo às mãos e repassou para a moça. Ai começou a conferência dos originais com as cópias levadas. E a moça só: - Hummmmm. CIC, beleza. Comprovante de endereço estava no nome do dono da casa, como ele morava de aluguel, ela pediu outro comprovante. Ele fez um ar de ironia e tascou da bolsa um comprovante de pagamento da loja no nome dele no endereço que ele havia indicado. Ela conferiu, olhou e pediu fotocópia. A-há! Ele, prontamente, entregou a referida cópia fotostática. Estava atualizada, sem problemas. Mas o RG estava com problema. Na fotocópia não dava para ler a data de emissão da mesma, o que a moça se levantou e tentou ela mesma tirar uma fotocópia na máquina da instituição. E voltou pra conferência. Realmente constatou a não visibilidade da data de emissão do RG na cópia retirada. Pediu-lhe, então, outro documento. Não tinha ali disponível. Disse ela: - Infelizmente com esse documento não haverá possibilidade de abrir nem uma poupança pro senhor. Precisa trazer outro documento.
O Doro ficou olhando pra moça que já passara para a senha ECO037 e de lá não se aboletou.
- Meu senhor, por gentileza, pode se levantar para eu atender ao outro cliente?
- Mas dona moça minina num tem um jeitinho de me atender não?
- Meu senhor, já lhe expliquei, traga a carteira de trabalho que abro sua conta, com a identificade que o senhor apresentou não dá.
- Mas dona moça minina....
- Infelizmente, meu senhor, não insista, o próximo!
- Mas...
O cara que estava esperando logo deu-lhe uns bregue com um puxavanque e disse:
- A moça já disse que traga outro documento que ela abre e saia que quero ser atendido, meu, tô aqui há mais de três horas e quero ser atendido, pode ser?
Doro murchou o rabinho entre as pernas e saiu caladinho bem de mansinho, mas completamente injuriado de mandar a Caixa pra casa de caixa pregos! E muito arretado disse ao passar a porta: - Anda vô sê prisidenti e consertu isso, vocêis vão ver!!!!





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