quarta-feira, fevereiro 27, 2008

TOLINHO & BESTINHA



V

Quando Bestinha se vê enrolado num namorico de virar idílio estopolongado

Luiz Alberto Machado

Bote fé: lavou, tá novo!
Bestinha num se continha na folgança da nova residência, crescendo e livrando-se do disse-me-disse - coisa mais chata essa de ficarem associando o presepeiro a uma mancebia sodomita, nossa, agora, ufa! cada vez mais distante da memória, mas que, vez por outra, acende sua cólera só a cada lembrada do bicho bufar por horas com o quengo zonzo. Agora mais não, já se sentia incólume, ali ninguém, com certeza, conhecia suas maloqueragens.
Ôxe, estava solto, pisando no ar. Novas amizades, novas estripulias formando futuras mangações, novas proezas, novo universo por explorar. Delito ficara como a casa antiga: nem recordações. Passara esponja no passado e ofegava com a vida nova. Não demorou muito. A mangação, ao que parece, fazia parte de sua sina.
Como crescera e já se espigava adolescente, chegou a hora de arrumar a primeira namorada. Ih! Lá vem de volta os aperreios.
Pois bem, Lindalina era a fofurinha mais fascinante dali e todo macambúzio deitava olhadela aguda pras bandas dela. Num havia quem não quisesse agraciá-la com os galanteios mais sentimentais, granjeando-lhe a simpatia. Era um batalhão enorme flertando com a debutante.
Não sei porque cargas d´água achou Bestinha de logo se embeiçar pela beldade, a ponto de se entregar enfermo na mais crônica paixonite aguda do cabra zoar tonto por vários dias, semanas e meses. Lindalina nem aí. E o cabra fazia de tudo para chamar-lhe atenção: piruetas, bangueladas, amostramentos e trupicadas.
Quando teve a oportunidade de se aproximar e trocar um dedinho de prosa com a vítima, vendeu-lhe a imagem mais altissonante, de tratar-se por um fazendeiro dono da maior extensão de terra que se imaginasse e que possuía aviões graúdos, fortunas invejáveis, posses exorbitantes, meio mundo de abestalhado para servir-lhe o mando e que era o cão chupando manga no que fosse inimaginável. Eita! Foi mesmo: arrotou grandeza, bafejou onipresença, até que se engasgou com uma chacota da moça:
- Cuma é qui tu é tão rico, fica perdendo tempo numa maloqueragem mais chué como essa? Parece mai um santo de pau-ôco!
O mundo arrebentou-se todo, despencou todo na testa do rapaz, destronando o melepeiro em dois segundos: o cabra não tinha onde se socar com a descompostura.
Foi aí que lhe deu aquela aguda necessidade de tornar-se acometido do complexo de ema, de caçar canto para esconder a cara lisa e corada, morto de vergonha. Tentou sair da saia justa, balbuciou, enrolou a língua, esgasgou-se, tossiu, e não viu saída na sua sandice. E a retrucante só se rindo do vexame dele. Não teve jeito, só enfiar o rabinho entre as pernas e sair na pontinha dos pés pela lateral.
Distante dela, abufelou-se, meteu o quengo umas trezentas vezes na parede, flagelou-se, maldisse a si próprio, imolou-se até não suportar mais nada e cair, arrebentado de desgosto, na cama.
- Toma, Zé-buceta! -, ingrisiou um amigo -, tu vais logo querendo sê o rola-grossa, cheio-das-pregas, porra! Tome! Isso é pra aprendê, viu? Arreie o badalo, fulustreco, assim tu se estrepa!
Quanto mais se lembrava do inoportuno acontecimento, mais seu coração caía no chão, sua barriga gelava, o espinhaço arrepiava-se dum jeito do cabra num querer nem botar a cara na porta para não morrer de vergonha. Fechou pra balanço. Tome! Um dia, dois, três, uma semana, encruado dentro de casa, trancado. Lamuriava-se sozinho, escondido, a dor da sua desventura sentimental, consolado ao som das maiores roedeiras da dor de cotovelo. Ficava horas uivando como um cão-sem-dono, tadinho.
Mais de mês depois, estufou o peito e criou coragem. Pisava forte, marchando soberba, era outra pessoa agora, confiante de si.
Ôxe, a risadagem comia no centro.
- Vem cá, Boca-quente! -, gracejavam.
- Esse aí é o embucetado-do-sétimo-livro!
- O quêêêêê? Nãooooo. É o Pica-grossa? Héhéhé!
- É o dito Satanás-de-rabo, meu! O Roliúde! Héhéhé!
- O faroso! Héhéhé.
Mal dera conta da fuleragem, arrependeu-se desde o dia em que nasceu de ter saído de casa. Cada escárnio cabeludo era uma fundura que se pronunciava no seu desgosto. Verdade, meninas, cá pra nós, o cabra enlutara-se dentro de si.
Foi quando percebeu então que Lindalina era linda e era o sestro da sua mofinice. Deus meu, como esse apaideguado sofreu!
- Isso é uma bexiga-lixa! Desgraça é feito catinga de cu: num se acaba nunca! Será o Benedito? Essa é a boba limoeiro: é a pior que tem! Deu na casa-grande comeu até a mão de pilão! Será a tibuvana da tribufu?
Era ele se remoendo até quando Lindalina achegou-se perto dele e sapecou surpresa:
- Quéis namorá cum eu?
Vote, o cabra nem acreditou.
- Quéis ou num quéis? -, insistiu ela enquanto ele atarantado.
Bestinha engoliu seco, apertou-se por dentro, fez um esforço da gota, até que, num aguentando mais, deixou escapulir um peido fedorento.
- Vote, vai cuidá da alma que o corpo tá podre! -, reclamou Lindalina.
- Num é isso não, pelamordedeus, quero namorá com ôce, sim, por favor! -, suplicou-lhe genuflexo.
- Deus qui me livre namorá com um peidão desse?
- Pelamordedeus!!!
- Nem morta!
- Eu juro qui serei o home mais feliz da terra e farei vosmicê a mulé ais feliz do praneta!!!
- Nem que a vaca tussa!
- Vosmicê verá qui sou o home mais apaixonado do mundo!
- Lálálálálálálá...
- Qui inté hoji cê nunca viu home mais dedicado ao seu amô qui eu...
- Peidando desse jeito??
- Foi a emoção!
- Vôte!
- Eu juro: meu coração deu uma tremedeira de mexer cum tudo dentro deu!
- Ôxe?
- Juro, pelas alma consagradas qui foi isso que remexeu pru dento deu!
- Tá bem, tá bem, basta! Mindinho no mindinho, assim, para selar nosso namoro. Agora, cuide das tripas que eu num vô tá aguentando podridão perto de mim, não, viu?
O cabra ficou nas nuvens, encantado, nem triscando no chão de tão ancho.
- Vai que é chimbra, Taffarel! -, caçoavam os desafetos.
Ele nem ai, só amostramentos. Flutuava sozinho no seu idílio nem se dando conta do que ocorria ao seu redor. Tomou-se de uma afeição pela namorada, de não enxergar outra coisa senão ela. Uma verdadeira veneração que lhe causou arranhões e cicatrizes várias, vez que ele se esquecia que estava numa bicicleta, causando os maiores transtornos. Já tava todo cheio de samboques que viraram perebas proeminentes por todo corpo. O cabra estava tão ouriçado de chega ter uma ejaculação precoce a cada pedalada que dava. Isso causando um sem número de encontrões os mais cabeludos.
- Gozou com o relado do cu no celim? É viadagem -, definiam.
- Não meu, só no esforço, em pé -, justificava-se desnecessariamente.
Quem acreditaria nisso? Eu, hem! Pois bem, quando deu fé, ao cabo de uns seis ou oito meses, sei lá, depois, estava mais corneado de se enganchar nos fios de eletricidade. Quase morre tostado pelas gaias. Baixou hospital num sei quantas vezes com queimaduras de quarto a quinto graus. Em carne viva. Deu-se de expectorar suas lamentações em tons os mais desafinados impossíveis, tentando espantar seus males. Foi daí que nasceu o tresloucado sonho de tornar-se croner-de-pensão-do-baixo-meretrício, cantor das putas que sonham com um príncipe encantado de pau duro e enorme que salvassee sua desgraça.
- Vai gostar de lubrificar gaia assim na casa da puta-que-lhe-pariu, corno!
Nossa, o cabra amocegava o destoamento da cornice naqueles plangorosos hits da cornagem alheia, chega deixava ensopado o salão de lágrimas abundantes.
O sujeito se infincava intoleravelmente na sua lamúria de parecer mais disco arranhado de tanto se repetir na dose. Isso, claro, para recheio das mais arrepiadas das zorras. E quando Lindalina aparecia, o mondrongo se engasgava de baixar enfermaria. Maior problema de então.
O seo Bimbo-João, tomando pé da situação sob aconselhamento gasguito de sua madame, dona Bebé, foi instado para dar umas lamboradas boas no toitiço do abestalhado a fim dele tomar jeito na vida. Menos trepidante, o pai resolveu, depois de muita lengalenga, mudar-se de moradia, novamente. Juntou a catrevagem toda e foi se arranchar noutro arruado distante.
Pronto, Bestinha escapou novamente de tornar-se o astro das gaitadas mais insolentes. Pode? Ora.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.




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