quarta-feira, fevereiro 13, 2008

BAUDELAIRE, ALCÂNTARA MACHADO, FEUERBACH, MATISSE, MIRCEA ELIADE, QUESTÃO AGRÁRIA & TOLINHO & BESTINHA




A arte do pintor francês Henri Matisse (1869-1954).


TOLINHO & BESTINHA - IV - Quando a lei do semideus é cachaça, tapa e gaia - Tolinho nunca foi de na hora agá do pega-pra-capar dar uma de ré-pra-trás, tá doido? Farrapar não fazia parte do seu glossário, podendo, no máximo, tapiar, enrolar, mas abrir-da-vela, ôxe, nem morto. Ele sempre foi do tipo de se atolar cobrindo até o cardan numa areia movediça, dando um boi para não se meter em bronca e uma boiada quando fosse compelido a se enfincar nela, num saindo sem antes fazer imensuráveis estragos na reputação dos envolvidos. Daí dizer que ele já cagou-fora-do-caco, nem mesmo o seu primo, o Lombreta-boca-de-frô, desde os tempos fagueiros da infância, seria capaz de conferir por elucidação. Agora, excetuando-se o pipôco de arrancar um colhão e a fuga de medo da feiosa, até então Tolinho nunca desfez palavra de rei. Tinha lá suas pacutias, mas dissesse o dito, tava feito. - Quando deus dé bom tempo e vergonha nos homens, eu indireito o rumo da venta na minha vida! -, arremedava todo azuretado. O Lombreta mesmo se ria e dava a maior corda para as pabulagens do alesado de quando vitimado dalgum enredo desproposital de abelhudo funesto, desbragava-se na maior das gargalhadas mangadeiras. Este testemunhou tantos infortúnios quanto presepadas malévolas que o fuleiro impunha aos de sua convivência de quase pocar o tampo do bucho de tão risível que resultava. É que Tolinho, quer queira, quer não, apesar de tudo, tinha lá seus códigos de honra um tanto reprováveis pela conduta usual. E enumerava um a um arrotando probidade: - Pirôbo é raça que mereci arrespeito, num inxeste na face da terra coiteiros meiores pra se fazer boi-de-fogo! Qué encrenca? Boate pra eles quaiquer enredo que o negoço fica dum jeito que o diabo gosta. Adispois, é só esperá a parma da mão e o couro ficar quente numa bravata! Outra? Muié é a meiór e a pió coisa que inxeste no mundo! A de casa é feito galinha de granja: insossa, chêrosinha e cheia de bronca; as da rua, feito galinha de capoeira: come merda, nojenta e tem uma carne boa, suculenta e tome-lá-dê-cá. Família? só presta pra tirar retrato, se der trela se mete até onde num é chamado e cheio de direito, tudo sócio nas benesses e pinoteiros na hora do vamos ver. Home só se tem dois tipos: os amigos pra gente caçoar, tirar proveito e tratar por camarada; e os inimigos, pra gente esfolar o gogó até num prestar mais pra nada num descarte. Pelo visto, o bicho era ineivado, viesse do jeito que fosse ele traçava no peito e na raça. Lombreta lá, só atocaiando o desfecho. Isso tudo Tolinho aprendera na escola da vida e no meio da safadeza até a metade do ginasial, vez que ele abominava o inventor de estudo, coisa que ele achava a mais sem graça de todas as coisas inventadas, desinventadas e por inventar na face da terra. - Estudá pra quê? A vida é a maior escola pra dar folgança na costela de quaiquer vivente! E nessa escola deu-se de enganchar as pernas nas coxudas insones mais desditosas das paragens. Era uma macacada triste a chavecada do sujeito no juízo das mariposas. Ôxe, parecia mais o Don Juan senão Casanova de sustância irrepreensível. Num tinha dia dele num bater umas três bronhas e ainda deixar umas cinco sedentas pulando de gôzo com a mão na cabeça, sem contar os pederastas destrambelhados que dormiam com o aro do bozó dilatado. Era. Tinha ocasião até dele se amigar com umas seis ao mesmo tempo, dando conta do recado sem pestanejar. E avalie que o cara era rancôlho, imagine se... Certa feita, a tuia de mocréias deu uma reviravolta na sua vida, uma ingrisiou com a outra, ficaram de mal, juraram desforra e ele costurando tudo na conversa. Nem diga: as seis, mais trombudas que barangas injuriadas, se juntaram num motim e, armadas de penico, bobes, lancheiras, tamancos, frasqueiras, prochetes, berilos, atacas, tarraxas, flandres, pinças, frascos, brebotes e tranqueiras, deixaram-no no canto da parede, exangue e com os olhos prontos para pular fora de tanto medo, findando entrincheirado a todo tipo de beliscada e sapecada de utensílios no quengo, do cara endoidar-se e aboletar-se numa maca hospitalar compulsoriamente por breves oito meses, estatelado. Sofreu na pele a desforra delas, jurando num querer vê-las nem pintadas em noite de correr bicho. Mas essa não foi a primeira e nem seria a única a desandar na sua vida. Ainda hoje o bicho anda enovelado com umas broncas assim de arrepender-se desde o dia que nasceu macho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui


PENSAMENTO DO DIA – [...] O homem cria Deus à sua imagem e semelhança. [...] O homem – este é o mistério da religião – projeta seu próprio ser fora de si e depois se faz objeto deste ser metamorfoseado em pessoa; pensa a si mesmo, porém como objeto do pensamento de outro ser, e este ser é Deus. [...]. Pensamentos extraídos da obra Essência do cristianismo (Vozes, 2003), do filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), efetuando uma crítica da religião como alienação, sendo considerada uma obra clássica do humanismo e o mognum opus do seu autor. Veja mais aqui e aqui.

O MITOO mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do tempo, ab initio (desde o início). Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um Mistério, porque as personagens do mito na são seres humanos: são Deuses ou Heróis civilizadores, e por razão as suas gesta (ações memoráveis) constituem Mistérios: o homem não poderia conhecê-los se lhos não revelassem. O mito é, pois,a história do que se passou in illo tempore (naquele tempo), a narração daquilo que os Deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. "dizer" um mito é proclamar o que se passou ab origine (desde a origem). Uma vez 'dito', quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta. 'É assim, porque foi dito assim', declaram os Eskimo netsilik (tribo de esquimós) a fim de justificarem a validade da sua história sagrada e de suas tradições religiosas. [...]. Trecho extraído da obra O sagrado e o profano: a essência das religiões (Martins Fontes, 1992), do filósofo, professor, cientista das religiões, mitólogo e romancista romeno Mircea Eliade (1997-1986), estudando a situação do homem em um mundo saturado de valores religiosos, tornando-se, por isso, numa introdução à história das religiões, um balanço dos conhecimentos nesse campo. Veja mais aqui.

O QUE É A QUESTÃO AGRÁRIA – [...] E enquanto milhões de hectares de terras férteis e bem localizadas são retidos improdutivamente, outros milhões são apropriados à custa de trambiques e violência, por grandes empresas capitalistas que, como já destacamos não são mais apenas os “velhos latifúndios”, mas também os bancos e as empresas multinacionais. Como resultado disso são expulsas do campo, a cada ano que passa, milhares de famílias, que não têm para onde se dirigir a não ser às favelas das periferias das cidades. Ë por isso que a reforma agrária aparece hoje como a única solução democrática possível para a questão agrária [...]. Extraído da obra O que é questão agrária (Brasiliense, 1980), de José Graziano, aborda aspectos gerais do desenvolvimento da agricultura brasileira recente, mostrando as principais características da questão agrária dos últimos anos e discutindo a retomada da reforma agrária como possível solução para a crise agrícola e agrária. Apresenta, ainda, as diferentes categorias de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, suas reivindicações e sua organização social.

A MULHER SELVAGEM E A PEQUENA AMANTE - Francamente, minha querida, você me cansa sem limites e sem piedade; dir-se-ia que, ao ouvi-la suspirar, você sofre mais do que as colhedoras sexagenárias ou as velhas mendigas que juntam as crostas de pão na porta dos cabarés. Se, pelo menos, seus suspiros exprimissem remorsos, eles lhe fariam alguma honra; mas eles só traduzem a saciedade do bem-estar e a indolência do repouso. E, depois, você não cessa de repetir-se em palavras inúteis: ‘Ame-me muito! Preciso tanto. Console-me aqui e acarinhe-me ali. Escute, eu quero tentar curá-la, nós acharemos, talvez, um modo por dois tostões, no meio de uma festa e sem ir muito longe. Consideremos, eu lhe peço, esta sólida jaula de ferro atrás da qual se agita, gritando como um louco, segurando as barras como um orangotango exasperado pelo exílio, imitando, com perfeição, ora os saltos circulares de um tigre ora os bamboleios estúpidos de um urso branco, esse monstro peludo cujas formas imitam vagamente as suas. Esse monstro é um desses animais a que chamamos geralmente de ‘Meu anjo’, isto é, uma mulher. O outro monstro, o que grita ensurdecedoramente, com um porrete na mão, é um marido. Ele prendeu a mulher legítima como uma fera e a exibe nos subúrbios nos dias de feira, com permissão dos magistrados, é óbvio. Atente bem! Veja com que voracidade (talvez não simulada) ela dilacera os coelhos vivos e as galinhas pipiladoras que lhe joga seu domador. ‘Vamos, não precisa comer todo o seu patrimônio num único dia’, e, com estas sábias palavras, arranca-lhe, cruelmente, a presa cujos intestinos desenrolados ficam pendurados nos dentes da besta feroz, da mulher, quero dizer. Vamos! Agora umas boas porretadas para acalmar! Pois ela fixa os terríveis olhos cobiçosos sobre a comida retirada. Grande Deus! O porrete não é um pau de comédia, você não ouviu o som das pancadas na carne, apesar dos pêlos postiços? Também, agora, os olhos saltam fora das órbitas, ela urra mais naturalmente. Em seu ódio, ela cintila toda por inteiro, como o ferro batido. Tais são os costumes conjugais desses dois descendentes de Adão e Eva, obras de suas mãos, ó Deus! Essa mulher é incontestavelmente infeliz, embora, depois de tudo, os prazeres tiritantes da glória não lhe sejam desconhecidos. Existem infelicidades mais irremediáveis e sem compensação. Mas no mundo onde ela foi jogada jamais pôde crer que a mulher merecesse outro destino, Agora, nós dois, cara preciosa! Ao ver os infernos que povoam o mundo, o que você quer que eu pense de seu inferno bonitinho, você que não repousa senão sobre tão macias almofadas quanto a sua pele, você que só come carne cozida e para quem uma criada hábil cuida de trinchar os pedaços? O que podem significar para mim todos esses pequenos suspiros que enchem seu peito perfumado, robusta coquete? E todas estas afetações aprendidas nos livros e essa infatigável melancolia, feitas para inspirar no espectador nenhum outro sentimento que não seja o de piedade? Em verdade, às vezes tenho vontade de lhe ensinar o que é a verdadeira infelicidade. Ao vê-Ia assim, minha bela delicada, com os pés na lama e os olhos voltados para o céu, como a lhe pedir um rei, dir-se-ia que se tratava de uma jovem rã que invocaria um ideal. Se você despreza o pequeno suporte (o que eu sou no momento, como você bem sabe) cuide do grou que a devorará, engolirá e a matará quando quiser. Mesmo sendo eu poeta, não sou um tolo, como você crê, e se você me cansar sempre e muito com suas preciosas choradeiras, eu a tratarei como mulher selvagem, ou a jogarei pela janela como uma garrafa vazia. Extraído da obra O esplim de Paris: pequenos poemas em prosa (Martin Claret, 2010), do escritor, tradutor, crítico de arte e poeta francês, Charles Baudelaire (1821 - 1867). Veja mais aqui e aqui.

É PRECISO OLHAR A VIDA COM OS OLHOS DE CRIANÇA - Criar é próprio do artista - onde não há criação,não existe arte. Mas seria um engano atribuir esse poder a um dom inato. Em matéria de arte, o autêntico criador não é apenas um ser dotado, é um homem que soube ordenar em vista de seus fins todo um feixe de atividades, cujo resultado é a obra de arte. É por isso que a criação, para o artista, começa pela visão. Ver já é uma operação criativa e que exige esforço. Tudo o que vemos na vida corrente sofre maior ou menor deformação gerada pelos hábitos adquiridos, e esse fato talvez seja mais sensível numa época como a nossa, em que o cinema, a publicidade e as grandes lojas nos impõem diariamente um fluxo de imagens prontas, que, em certa medida, são para a visão aquilo que o preconceito é para a inteligência. O esforço necessário para se libertar delas exige uma espécie de coragem; e essa coragem é indispensável ao artista, que deve ver a vida toda como quando criança; e a perda dessa possibilidade lhe tira a oportunidade de se exprimir de maneira original, isto é, pessoal. [...] Criar é exprimir o que temos dentro de nós. Todo esforço de criação autêntico é interior. Temos também de alimentar nosso sentimento, o que se faz com o auxílio dos elementos que tiramos do mundo exterior. Aqui intervém o trabalho, por meio do qual o artista incorpora, assimila gradualmente o mundo exterior até que o tema que está desenhando se torne como uma parte de si mesmo, até que ele tenha o tema dentro de si e possa projeta-lo sobre a tela como sua própria criação. [...] É preciso um grande amor, capaz de inspirar e de sustentar o esforço continuo em direção á verdade, a generosidade conjunto e o despojamento profundo que implica a gênese de toda obra de arte. Mas o amor não está na origem de toda a criação? Trecho de Il faut regarder toute La vie avec dês yeux d’efants, extraído de Écrits et propôs sur l’art (Herman, 1972), do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). Veja mais aqui e aqui.

APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA - O trenzinho recebeu em Magoarí o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro. Trem misterioso. Noite fora, noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam : — Vai pisar no inferno! Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando. O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito. Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Magoarí. Porém, aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão dera um concerto em Bragança. Parara em Magoarí. Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. 0 taioca guia dele só dava uma forga no bocejo para cuspir. Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo, vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do Trovador. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz: — O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial? O rapaz respondeu: — Não sei: nós estamos no escuro. — No escuro? — É. Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo: — Não tem luz? Bocejo. — Não tem. Cuspada. Matutou mais um pouco. Perguntou de novo: — 0 vagão está no escuro? — Está. De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim: — Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior dom da natureza! Luz! Luz! Luz! E a luz não foi feita. Continuou berrando: — Luz! Luz! Luz! Só a escuridão respondia. Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite: — Que é que há? Baiano velho trovejou: — Não tem luz! Vozes concordaram: — Pois não tem mesmo. Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo. Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou: — Ele é pobre como a gente. Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos. — Foguetes também? — Foguetes também. — Be-le-za! Mas João Virgulino observou: — Isso custa dinheiro. — Que é que se vai fazer então? Ninguém sabia. Isto é: João Virgulino sabia. Magafere-chefe do matadouro de Magoarí, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse: — Dois quilos de lombo! Cortou outro e disse: — Quilo e meio de toicinho! Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas. — Quantas reses, Zé Bento? — Eu estou na quarta, Zé Bento! Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando. — Que é isso? Que é isso? É por causa da luz? Baiano velho respondeu : — É por causa das trevas! O chefe do trem suplicava: — Calma ! Calma ! Eu arranjo umas velinhas. João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos. — Aqui ainda tem uns três quilos de colchão mole! 0 chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava a armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às armas cidadãos! 0 taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão. Tocando a sineta o trem de Magoarí fundou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe, muito pálido. Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Magoarí amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante da Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou: — Qual a causa verdadeira do motim? O homem respondeu: — A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões. O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: — Quem encabeçou o movimento? Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou: — Quem encabeçou o movimento foi um cego! Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca. Extraído da obra Laranja da China (Civilização Brasileira, 1957), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

 A arte do pintor francês Henri Matisse (1869-1954).


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