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quarta-feira, dezembro 06, 2017

AGOSTINHO DA SILVA, MARCIA TIBURI, ALCÂNTARA MACHADO, ANTÔNIO MENESES, RICARDO CORONA, ALINA IBRAGIMOVA, LUCINDA LYONS, RESILIÊNCIA & PESQUEIRA

A VIDA É MUITO MAIS - Imagem: arte da pintora inglesa Lucinda Lyons. - A vida é plena e o sonho é grande além dos sentidos. Para quem sabe a miudeza dos que se arvoram donos do saber e nada sentem nem vivem, valho-me do discernimento, vou entre Esfinges, Pinóquios e Franksteins com seus narizes fálicos assombrados com seus monstros e maravilhas traduzidas e explicadsa por seus próprios erros e julgamentos. Deles me chega algaravias dos vultos forjados na discórdia dos que mandam e saltam das páginas dos livretros para ganharem vidas prórpias e fazem de tudo para todos o que querem e em nome de seus interesses vendem ilusões e mentem, enganam, traem o propósito real e original que não sabem, para se sentarem ao lado dos que ignoram as máscaras do embuste da ignorância atávica, ocultando atrás das portas as intenções além das abstrações inalcançáveis. A mim chegam engalanados e mimosos, e os revelo da boca para o ouvido e logo se extinguem entre as muitas dimensões ao meu redor, porque sei do incompreensível e paradoxal, e cuido da minha vida e não interfiro no alheio. O Verbo sou galáxias inteiras e muitas pela espiral ascendente dos muitos níveis da evolução com o Fogo Purificador e a legislação moral do Livro da Revelação, e persigo pelos cento e vinte e cinco degraus que levam ao Criador, a me dar a capacidade infinita de ser outras tantas e muitas formas e os muitos níveis de compreensão, porque me mantenho entre os doze iniciados da Kabash, e o Zohar e a Hermética, os seiscentos e treze manifestos da Torá, as trinta e duas vias da sabedoria no Livro da Formação, os vinte e dois livros do Explendor para a Sabedoria da Verdade, o Livro da Iluminação, das Emanações, as dez propriedades divinas e suas vinte e duas letras, quando sou semente única em comunhão com todas as outras, a seguir a luz no alto a desfazer mistérios. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais 

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o violoncelista Antônio Meneses no Concert Chello Elga & a violinista russa Alina Ibragimova interpretando o Concert to the memorian on the Angel Berg & Violin Bach. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] No político distingo dois momentos, o do presente e do futuro. Principiando pelo segundo, desejo o desaparecimento do Estado, da Economia, da Educação, da Sociedade e da Metafísica; quero que cada indivíduo se governe por si próprio, sendo sempre o melhor do que é, que tudo seja de todos, repousando toda a produção, por uma lado, no , por outro lado, na fábrica automática; que a criança cresça naturalmente segundo as suas apetências, sem as várias formas de cópia e do ditado que têm sido nas escolas, publicas e de casa; que o social com as suas regras, entraves e objectivos dê lugar ao grupo humano que tenha por meta fundamental viver na liberdade, e que todos em vez de terem metafísica, religiosa ou não, sejam metafísica. Tudo virá, porém, gradualmente, já que toda a revolução não é mais do que um precipitar de fases que não tiveram tempo de ser. Por agora, para o geral, democracia directa, economia comunitarista, educação pela experiência da liberdade criativa, sociedade de cooperação e respeito pelo diferente, metafísica que não discrimine quaisquer outras, mesmo as que pareçam antimetafísicas. Mas, fora do geral, para qualquer indivíduo, o viver, posto que no presente, já quanto possível no futuro; eliminando o supérfluo, cooperando, aceitando o que lhe não é idêntico – e muito crítico quanto a este -, não querendo educar, mas apenas proporcionando ambiente e estímulo, e procurando tão largo pensamento que todos os outros nele caibam. Se o futuro é a vida, vivamo-la já, que o tempo é pouco; que a Morte nos colha e não, como é hábito, já meio mortos, aliás, suicidados. [...]. Trecho da obra Textos e ensaios filosóficos (Âncora, 2000), do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994). Veja mais aqui.

PESQUEIRA – O município de Pesqueira compreende administrativamente os distritos sede, Cimbres, Mimoso, Mutuca, Papagaio e Salobro, e os povoados Ipanema, Cajueiro, Beira Mar, Capim de Planta, Papagaio de Cima, Marimbas, Pacheco e Cacimbão. Está inserido na unidade geoambiental das encostas ocidentais do Planalto da Borborema, destacando-se as serras do Mimoso e do Ororubá. Na Serra do Ororubá vivem os índios Xukuru, em 24 aldeias, consolidando o município como o maior reduto indígena do Nordeste. A terra indígena, homologada em 2001, ocupa uma área de 27,5 mil hectares, onde os índios desenvolvem atividades agrícolas e bordados tipo renascença. Além disto, no núcleo urbano habitam aproximadamente 200 famílias indígenas, sobretudo no bairro Xukurus. A tribo dos Paratiós foi extinta e dela quase não há registros. A sua história começa em fins dos anos 1659/1660 com a fundação de uma missão da Congregação do Oratório, fundada junto à tribo cariri de nome Xujuru, que habitava a serra. O local foi batizado de Monte Alegre, depois se tornou Cimbres e fora elevada à categoria de vila em 3 de abril de 1762. Antes disso, segundo carta de sesmaria datada de 24 de janeiro de 1691, o lugar já era sede da Capitania de Ararobá. Ao que parece, a dita capitania foi transferida para os Campos dos Garanhuns por volta de 1727. A capitania voltaria para Monte Alegre em 1762, com a elevação da povoação à categoria de vila e sede de município. A partir de 1800, uma fazenda começou a ser instalada, de nome de "Poço Pesqueiro" (ou "da Pesqueira", como também se encontra nos registros mais antigos) e começou a progredir com rapidez. Tanto que a 13 de maio de 1836, Poço Pesqueiro já era uma povoação vistosa e fora elevada a vila com o simplório nome de "Pesqueira". Junto com a elevação a vila, Pesqueira recebeu a sede do Município de Cimbres (que no alto da serra, já não era tão viável para assuntos políticos e o comércio). Em 1880 a vila foi elevada a cidade com o nome de "Santa Águeda de Pesqueira", que não vingou e recebeu o nome de "Pesqueira". A vila de Cimbres foi a ela anexada e, juntas, Cimbres e Pesqueira formaram o município de Cimbres até 1913, quando "Pesqueira" passou definitivamente a ser o nome do Município, passando a antiga sede a mero distrito. O município encontra-se inserido nos domínios das bacias hidrográficas dos rios Ipanema e Ipojuca, e seus principais tributários são: o Rio Ipojuca, além dos riachos: dos Pebas, Cana-Brava, do Boi, Santana, Gravatá, Ceguinha, da Atravessada, do Guerra, Quebra-Roça, do Bálsamo, Baraúnas, Liberal, Papagaio, do Belo e Salobro. Veja mais aqui.

NEOFUNDAMENTALISMO & CRENÇA ÚTIL– [...] o neofundamentalista cultua a mais bruta ignorância, a que despreza o conhecimento. Se lembrarmos de Walter Benjamin definindo o capitalismo como religião, o neofundamentalismo analogamente corresponderia à ignorância como religião. [...] A ignorância é, assim, o próprio fundamento [...] é sempre desonesta. Não importa se ele acredita ou não no que diz. Ele está em busca de efeitos e causando efeitos para ter resultados traduzíveis em lucros: dinheiro, audiência, votos. Em última instância: poder. Daí que seja fácil fundar igrejas ou shoppings em um mundo em que Deus – que ocuparia o lugar da verdade nas religiões – se confunde com mercadorias, em um mundo em que a Indústria Cultural da religião embota toda a relação com a transcendência. Diferente do simples crente para quem a verdade é o cerne de uma crença capaz de orientar pensamento e atos, o fundamentalista usa sua crença, na qual, a propósito, não pode ter certeza de que ele realmente creia. Ao usar a crença, o fundamentalista desrespeta não apenas a crença alheia, mas a própria crença em nome da qual age. [...] Ele odeia a verdade que finge amar, assim no campo religioso, odeia um deus que ele não possa explicar. [...] Como um desesperado, sem um Deus em quem possa confiar, ele se autodenuncia em sua descrença. O fundamentalista é a prova de que Deus, mesmo que possa existir, não existe. Trechos do artigo Neofundamentalismo: culto da ignorância e crença útil (Cult, outubro 2014), da filósofa, escritora, professora universitária e artista plástica gaúcha Marcia Tiburi. Veja mais aqui e aqui.

RESILIÊNCIA – [...] O grau de resiliência pode ser alterado pela educação e é assim possível injetar confiabilidade, segurança e esquemas de organização mesmo em pessoas ou comunidades aparentemente apáticas. A pessoa ou organização resiliente necessita ser ágil, apresentar facilidade em acolher a diversidade, contextualizar o conhecimento e sua cíclica transtormação, revelar poder sistêmico e criar solidariedade, sabendo dar a volta por cima, reajustar-se rapidamente após perturbações, choques ou frustrações e, sobretudo, achar saídas. Saber explicar-se, possuir autoconfiança, sentido da efemeridade e da importyancia da biodiversidade, e construindo-se permanentemente realizam julgamentos éticos. O grau de resiliência de uma pessoa pode até ilustrar seu potencial de inteligência, considerando que a inteleigencia é a capacidade de resolver problemas e criar produtos de valor social. [...]. Trecho extraído da obra A construção de uma nova pedagogia para uma escola pública de qualidade (Vozes, 2009), do educador Celso Antunes. Veja mais aqui.

APÓLOGO BRASILEIRO SEM VÉU DE ALEGORIA – [...] Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Maguari amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do Teatro da Paz houve um conflito sangrento entre populares. Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito par aapurar as responsabilidades. Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delehado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa, menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Biblia no bolso. O delegado perguntou: - Qual da causa do motim? O homem respondeu: - A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões. O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou: - Quem encabeçou o movimento. Em meio da ansiosa expectativa dos presentes, o homem revelou: - Quem encabeçou o movimento foi um cego! Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com autoridade não se brinca. Trecho do conto extraído da obra Novelas paulistanas (José Olympio, 1961), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui & aqui.

ONDAS NA LUA CHEIA (POEMA SOB INFLUÊNCIA)A lua que tudo assiste / agora incide / O mar / — sob efeito — / ergue-se / crispado de ondas espumantes / Sua língua de sal / lambe e provoca / as escrituras da areia firme / Ondas deslizantes / redesenham / onde outras ondas ainda / desredesenharão, / fluindo / no fluxo / da influência / Sob efeito lunar / o mar muda / e a lua, / antes toda, / agora, mínima / e quem com ela muda?). Poema extraído da obra Ladrão de fogo (Medusa, 1999), do poeta, tradutor, editor e performer Ricardo Corona.

ARTE & PERFORMANCE
Corpo Política – performance  Almoço sobre a relva, de Natasha de Albuquerque & Conceito contra conceito, de Maria Eugência Matricardi. .Fotos: Pamela Guimarães.

Veja mais:
O pensamento de Rose Marie Muraro aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora inglesa Lucinda Lyons.
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sexta-feira, setembro 08, 2017

SHELDRAKE, ALCÂNTARA MACHADO, DVOŘÁK, EDWARD WILSON, PACO DE LUCÍA, BLUMENTAU, FERNANDA ABREU, PAULO JOSÉ DOS SANTOS & BIBLIOTECA FENELON

OS IMPREVISTOS DE CADA COISA – Imagem: arte do fotógrafo estadunidense Ansel Adams (1902-1984). - A cada passo em cada rua ouço os sussurros que evaporam das histórias proibidas de cada lar, misturando as minhas pisadas com seus resmungos, meus pensamentos e suas infâmias, minhas lembranças e seus castigos, minhas divagações e suas dissimulações, choros, arrependimentos, projeções. Em cada uma das casas os seus desfechos e vigências nas corrosivas relações com suas anomalias extraordinárias, invadindo minhas ideias e sinto que só há coisa de sofrer e sonhar, como a que vejo, lar ideal, o pai trabalhador com afinco só pensa em ganhar dinheiro e do muito pro sonho do carro novo, a reforma da casa, a vida boa pra ser o primeiro em todas as vitórias e conquistas e poder na missa domingueira agradecer pelas bênçãos recebidas por ser salvo da miséria e das desgraças da pobreza, às portas do céu enquanto pisa todos que lhe aparecem pela frente durante a semana na sua travessia laboral, pé na goela, língua de fora, sem saber quase nada da família, nem da mulher, nem do filho desmunhecando na esquina pro seu colapso nervoso, nem da filha dando uns tapas no braquearo pra perder a virgindade com o professor que é seu príncipe encantado e pra desastre de sua segunda ponte de safena, sem saber da esposa, mãe zelosa rezadeira noitedia com o terço na mão a pedir de joelhos pros filhos que o pai ignora e ela não sabe o que fazer porque cresceram e se tornaram indomáveis de geração diferente da sua, sem respeitar mais ninguém e o marido só dedicado ao trabalho vai culpá-la por não ter feito a sua parte e a coisa vai ficar feia porque ela sabe que ele já caiu nas graças da secretária que é muito mais nova, é muito mais bonita, é muito mais tudo que ela que ficará na rua da amargura sem saber o que fazer, já que não sabe mais nada, está perdida, sem saber segurar o marido nem cuidar dos filhos, à beira do suicídio, com remédios tantos e dietas exageradas para não engordar e reconquistar o marido que não quer saber dela nem de nada de casa, só do trabalho e vencer na vida, o que será a perda total dela e dos filhos, justo eles, o casal bem sucedido, invejado por todos do bairro, dos familiares, os bem casados, quase trinta anos, eles ainda poderiam ser felizes, mas ela não sabe, nem ele sabe o que se passa, nem seus filhos estão nem aí pro que está acontecendo e tudo está ruindo e precisam ser felizes sem saber como fadados ao mais clamoroso fracasso que não aprendem e um dia acordam estranhos cada qual no seu lugar, saudades um do outro, lembranças de infância e o mundo continua a rodar apesar dos pesares pros que estão vivos e pros que já se foram dessa pra melhor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Romance para piano & violino op.11, Piano Works & The Best do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904); Valsas de Chopin, Concert de Clementi C Major & Concerto p. 17 de Paderewsky com da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908-1991); o guitarrista espanhol de flamenco, compositor, produtor e violonista Paco de Lucía (1947-2014) no Festival Jazz Montreux, no Burghausen 2004 e interpretando o Concierto di Aranjuez; e os álbuns Raio X, MTV ao Vivo & Da Lata da cantora, compositora, instrumentista, bailarina e escritora Fernanda Abreu. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A DIVERSIDADE DA VIDA – Na bacia amazônica, a maior violência às vezes começa como uma luz vacilante além do horizonte. Lá, na redoma perfeita do céu noturno, sem o menor vestígio de luz produzida por fonte humana, uma tempestade lança seus sinais premonitórios e inicia uma lenta jornada até o observador, que pensa: o mundo está prestes a mudar. [...] alguns tipos de plantas e animais são dominantes, proliferando novas espécies e disseminando-se por extensas regiões do mundo. Outros acabam acuados até se tornarem raros e ameaçados de extinção. existiria uma única fórmula para essas diferenças biogeográficas entre os vários tipos de organismos? Esse processo, devidamente expresso, seria uma lei — ou pelo menos um princípio — de sucessão dinástica na evolução. [...] No meio do caos, algo ao meu lado chamou-me a atenção. Os raios pareciam luzes estroboscópicas iluminando a orla da floresta tropical. a cada intervalo eu podia vislumbrar a sua estrutura estratificada: a abóbada superior a trinta metros do solo, árvores médias espalhadas irregularmente um pouco abaixo e, mais embaixo ainda, uma profusão de arbustos e pequenas árvores. a floresta permaneceu emoldurada por alguns instantes nessa ambiência teatral. sua imagem se tornou surrealista, projetada na selva ilimitada da imaginação humana, lançada de volta no tempo cerca de 10 mil anos. ali nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura estavam voando em meio à coroa das árvores em busca de frutos, víboras arborícolas enrolavam-se nas raízes de orquídeas, prontas para dar o bote, jaguares caminhavam pelas margens do rio. em torno deles, oitocentas espécies de árvores, mais do que todas as nativas da América do Norte, e mil espécies de borboletas, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer. [...] Os mistérios ainda insolúveis da floresta pluvial tropical são informes e sedutores. são como ilhas sem nome escondidas nos espaços vazios dos mapas antigos, como formas obscuras vislumbradas ao se descer a parede extrema de um recife até as profundezas abissais. Eles nos instigam e provocam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável depois de um único bocado. esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo. rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escuridão. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, é um dos últimos repositórios na Terra desse sonho imemorial. [...]. Trechos extraídos da obra Diversidade da vida (Companhia das Letras, 2012), do entomologista e biológico estadunidense Edward Osborne Wilson, renomado cientista reconhecido por seu trabalho nas áreas de ecologia, evolução e sociobiologia.

DAS GALÁXIAS ÀS CÉLULAS: A TEORIA DOS CAMPOS MORFOGENÉTICOS - [...] Os campos morfogenéticos ou campos mórficos são campos que levam informações, não energia, e são utilizáveis através do espaço e do tempo sem perda alguma de intensidade depois de ter sido criado. Eles são campos não físicos que exercem influência sobre sistemas que apresentam algum tipo de organização inerente. […] centrada em como as coisas tomam formas ou padrões de organização. Deste modo cobre a formação das galáxias, átomos, cristais, moléculas, plantas, animais, células, sociedades. Cobre todas as coisas que têm formas e padrões, estruturas ou propriedades auto-organizativas. [...] Todas estas coisas são organizadas por si mesmas. Um átomo não tem que ser criado por algum agente externo, ele se organiza só. Uma molécula e um cristal não são organizados pelos seres humanos peça por peça se não que cristalizam espontaneamente. Os animais crescem espontaneamente. Todas estas coisas são diferentes das máquinas que são artificialmente montadas pelos seres humanos. [...] Esta teoria trata sistemas naturais auto-organizados e a origem das formas. E eu assumo que a causa das formas é a influência de campos organizacionais, campos formativos que eu chamo de campos mórficos. A característica principal é que a forma das sociedades, idéias, cristais e moléculas dependem do modo em que tipos semelhantes foram organizados no passado. Há uma espécie de memória integrada nos campos mórficos de cada coisa organizada. Eu concebo as regularidades da natureza como hábitos mais que por coisas governadas por leis matemáticas eternas que existem de algum modo fora da natureza. [...]. Trechos extraídos da obra Uma nova ciência da vida: a hipótese da causação formativa e os problemas não resolvidos da Biologia (Cultrix, 2014), do biólogo, bioquímico e escritor britânico Rupert Sheldrake.

MANA MARIA – [...] ouvindo os gracejos que dirigiam para a italianinha, para a vagabunda. Ela não ouviu nenhum. E o mais esquisito é que quando mana Maria se aproximava muitas vezes os gracejos dirigidos à italianinha ou à mulatinha cessavam. Por respeito dela, mana Maria. Isso lhe dava um amargor e ao mesmo tempo um orgulho indefiníveis. Era respeitada. Não era desejada. [...] Dobrou a esquina. Ninguém. É bom surpreender assim as ruas desertas no silêncio noturno. De dia a atenção se perde no bonde que passa, na casca de banana, no pregão dos vendedores ambulantes, nuns olhos, num palavrão, num anúncio. A gente vê perto e vê baixo. Das casas só tem importância a vitrina das de comércio, o número das de moradia. De noite, tudo muda. Não há perigo de esbarros, de atropelamentos. A vista se alonga desembaraçada. É possível parar, erguer a cabeça, embasbacar, cismar, examinar, não há respeito humano. E a rua: postes, árvores, jardins. fachadas. Os homens dormem: a rua vela. Ele não saberia exprimir (não era literato, graças a Deus) a sensação gostosa que lhe davam essas voltas a pé para casa noite alta. Mas era evidente que se sentia mais forte, mais homem, o único homem. De dia se anulava na multidão, era ninguém. De noite ganhava outro relevo na sua solidão, uma certeza mais grata de sua realidade. Ouvia os próprios passos, via a própria sombra. Dobrou a esquina. Ninguém. Era como se a rua dissesse: - Pode passar, trânsito livre. Depois na noite vazia, silenciosa, o cheiro dos jardins é mais forte, a feitura das casas mais branda, as calçadas mais largas, as esquinas mais misteriosas. A imaginação tem campo livre. Os homens são prisioneiros das casas, tranca na porta, cadeado no portão. Está reintegrada a rua na posse de si mesma, no gozo de sua liberdade. Tal como é e não como a fazem e sujam os homens, a desfiguram os homens de dia. Deserta a cena, vive o cenário. Através das venezianas no terceiro andar da casa de apartamento se escoa uma luz vermelha. Se ele fosse ver a Zoraide? Quase uma hora. Tarde demais. Dobrou a esquina. Alguém. Ainda distante, na mesma calçada, cambaleando. Embriagado. Melhor atravessar a rua. Detestava bêbados, tinha pavor de bêbados. O vulto colou-se à árvore. Depois se equilibrou na guia do passeio, pesadamente desceu ao leito da rua. Joaquim resolveu não mudar de calçada. Agora o bêbado olhava o céu. Lua cheia. Tirou a palheta. Era o Platão de Castro. Joaquim apressou o passo. [...]. O homem agradeceu (quem pagaria para tratarem o túmulo quando ela morresse?), mana Maria foi andando devagar. Olhou o relógio: 11 horas. Na área principal deu com um enterro que chegava. Atrás do caixão um velho caminhava, o lenço nos olhos, amparado por dois moços também chorosos. O padre com o livro de orações protegia a vista contra o sol forte. Pouca gente. O sino da capela tocou. Mana Maria deu 400 réis para a negra velha. Não costumava dar esmolas não. Mas sentiu que ali devia dar. Estava um pouquinho comovida. No enterro dela não viria ninguém. Era capaz até de faltar gente para carregar o caixão. Morreria num hospital. Para não dar trabalho para ninguém. Foi descendo a Rua da Consolação ao longo do muro do cemitério. Na frente dela duas meninas de sandália carregavam uma cesta de lavadeira. Como um caixão. Uma de cada lado segurando na alça. Apressou o passo, na esquina tomou um táxi. Do automóvel ainda viu as meninas que haviam pousado a cesta na calçada, descansavam alegres. Trechos extraídos da obra Mana Maria (Nova Alexandria, 2002), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

STORYTELLING: HISTÓRIAS PROIBIDAS – O drama-comédia Storytelling (2001), dirigido pelo cineasta Todd Solondz,, é composto de duas partes, a primeira ficção, trata de um grupo de estudantes universitários em uma sala de aula de um professor que se prepara para usar e abusar de suas alunas brancas; a segunda, não-ficção trata de um jovem que abandona tudo na vida para seguir seu sonho e enfrenta o fracasso. Há que se observar que o termo Storytelling é relacionado com uma narrativa e significa  a capacidade de contar histórias relevantes, consistindo num método que utiliza palavras ou recursos audiovisuais para transmitir uma história que pode ser contada de improviso ou polida e trabalhada, sendo muito usado no contexto da aprendizagem e na forma de transmissão de elementos culturais como regras e valores éticos. Veja mais a respeito do filme aqui.

BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL FENELON BARRETO
Corpo funcional da Biblioteca, comandada pelo diretor João Paulo Araújo. Veja a história, missão, ações e eventos aqui.

Veja mais:
A música de Antonín Dvořák aqui.
A arte da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

RIO UNA
Meu Rio Una, eu já vi,
Teu nome bonito e franco,
Que não vem do homem branco,
Mas vem da língua Tupi
Quem entende o guarani
Sabia te pronunciar
Ficava a te olhar
Dia e noite estava vendo
As tuas águas correndo
Porque não pode parar.
Meu Rio Una nasceu
No agreste capoeira
Pouquinha água ligeira
Correndo no leito seu
Mas contente desceu
Se uniu ao Rio Riachão
Cajazeira Boqueirão
Bravo, Mandrágua, Taquara
E lá águas limpas e claras
Correndo no nosso chão.
Passa por Cachoeirinha
Cachoeira Grande e Altinho,
Ruma pro sul baixinho
Igual canta a andorinha
Banha-se da vizinha
Com sua amizade ingrata
A esquerda recebe o Rio Prata
As direitas o Rio Mentiroso
O seu afeto amoroso
De sua margem sem frata
O Una não banha Catende,
Porém  banha Batateiras
Pouquinha água ligeira
Correndo no nosso chão
No riacho do sertão
Que mearim faz terra da cana
É nossa terra bacana
Correndo no nosso chão
Quando chega em Palmares
Recebe o Rio Verdinho
Recebe o Camevozinho
Que abastece os nossos lares
Indo com vizinho intermediário
Das terras do Mulungu
Tiraram a água do Prata Para Caruaru
E deixaram de ir pra Palmares
Quando chega na Barra do Una
Endireita o seu leito
Fazendo um curso perfeito
Como já é de costume
De observar os cardumes
Do peixe que vai pro mar.
Poema do poeta popular Paulo José dos Santos, autor dos cordéis Por causa da carestia o mundo não presta mais, Nessa era em que estamos, Interpretação de Trombetas, Palmares eu prezo ser seu filho, entre outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, dezembro 14, 2015

FONTE, BOFF, JOHN MILTON, ALCÂNTARA MACHADO, ARTUR AZEVEDO, NÁ OZZETTI, LUCIAH LOPEZ & MUITO MAIS!




VAMOS APRUMAR A CONVERSA? FONTE – A HISTÓRIA DA CANÇÃO - Foi na surpresa de uma manhã na segunda metade dos anos 1980, quando ela chegou na minha timidez: - Eu amo você! E não previa tal fato no meio do passeio público, transeuntes em volta, a vida agitada correndo louca e tascou-me um beijo tão possessivo quanto verdadeiro que jamais pude esquecer. Senti seus ávidos lábios salientes a dar-me com prazer o que a solidão me negava a todo momento e nos fizemos juntos por dentro da tarde até saber-lhe os segredos possíveis da primeira vez. No segundo encontro ela deu-me a alma e a calcinha: - É tudo seu. E me deu seu corpo com todas as vestes de suas encarnações. Eu já me tinha embalado em versos a solfejar a querer que ela viesse nua de manhã plantar a luz do sol com sua fonte a minar e em mim se escorrer... e se escorreu e toda manhã ela abria os braços e me guardava no refúgio de sua intimidade mais secreta até ter-lhe o âmago inteiro desvelado sobre a minha cupidez. E aguando com ternura a nossa emoção para lá de cobiçada, nascemos e renascemos todos os dias um no outro para que o amor nos desse a vida plena para amar. E beijei-lhe o ventre e ela se lambuzou no meu, como se mergulhássemos no gozo do rio pro orgasmo do mar. E nos fizemos ondas a rolar os dias e todas as nossas sensações. E foi demais na alma, no corpo, no sexo e nos beijos de todos os afagos e delícias. O tempo ruía pra nós como se tudo desexistisse enquanto ela me prendia entre as pernas, sexo no sexo, exigindo que eu lhe fizesse um poema em canção, uma poesia no seu corpo, um canto na sua alma. – Faça! E quanto mais usufruía dos seus encantos, todas as palavras se soltavam e saltavam do prazer dela para me fazer poeta da sua canção, escritor da sua alma, o cantor da sua vida. E nos incendiávamos de gozo a misturar a voz com os grunhidos de sua aflição para superar a foz que nos desse por limite o sedento de infinito pra diluir-se em flor e quando eu chegava ao ápice ela se fazia mãe com todos acalantos que eu nem sabia, pra me fazer menino na sua púbis e a me beijar até que da próxima vez não fosse o fim e que pudéssemos ir além do já fomos para sermos maiores e superiores que tudo que possa existir. E beijava meus olhos e lambia minhas mãos, tórax, língua na minha pele e por toda carne para ter em si meu gosto e eu o seu querer. Ah, era tudo demais. Muito demais. E a noite era dia e o dia a tarde e a tarde o mundo e o universo todo no seu corpo. E isso foi todas as manhãs, todas as tardes e todas as noites por anos seguidos. Nunca me senti tão poderoso, tão dono do pedaço com sua servidão que me fez senhor de tudo pela primeira vez. Ela era o meu cajado e nela tudo era possível desde as mais priscas eras até o mais remoto futuro. Ela se fez meu violão para dela tirar todas as notas e acordes e me deu uma canção pronta que exalou do seu corpo e me fez cantá-la sexualmente todas as manhãs, tardes e noites no seu voluptuoso prazer. E me fez menino por seus mimos no meu sexo, por seus beijos e carícias, e me fez amante pras suas caprichosas encenações de poderio querendo mais do que imaginava poder lhe dar. E me fez homem adulto como quem quisera uma segurança de guerreiro viril; e me fez seu escravo nas horas de se entregar para me dar o prazer até então nunca sentido. E foi assim por anos. A sua entrega além do silêncio até o meu domínio por completo e o seu gozo mais que desesperante e satisfatório. Chamei-lhe Raoom, dei-lhe uma canção e lhe escrevi a Paixão Legendária. Não só tenho história pra contar, eu vivi e amei. Veja o clipe da canção aqui ou aqui. E mais aquiaqui, aqui e aqui.


Imagem: After The Bath, da artista plástica estadunidense Mary Minifie.


Curtindo o álbum Embalar (Circus Produções, 2013), décimo disco da cantora e compositora Ná Ozzetti.

A ÁGUIA E A GALINHA – O livro A águia e a galinha – a metáfora da condição humana (Vozes, 1997), do escritor, teólogo e professor universitário Leonardo Boff, está dividido em sete capítulos contando a história de uma águia criada como uma galinha, questionando em como equilibrar essas duas dimensões e como impedir que a cultura da homogeneização afogue a águia dentro de nós e nos impeça de voar. Da obra destaco o trecho Todo ponto de vista é a vista de um ponto: Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para . entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. Sendo assim, fica evidente que cada leitor é co-autor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita. Com estes pressupostos vamos contar a história de uma águia, criada como galinha. Essa história será lida e compreendida como uma metáfora da condição humana. Cada um lerá e relerá conforme forem seus olhos. Compreenderá e interpretará conforme for o chão que seus pés pisam. Os antigos bem diziam: habent sua fata libelli, os livros têm seu próprio destino. Tinham razão, porque o destino dos livros está ligado ao destino dos leitores. E aí entram em cena a águia e a galinha, carregadas de significação, como veremos ao longo de nossa história. Esperamos que para você a águia e a galinha se transformem também em símbolos e sacramentos da busca humana por integração e por equilíbrio dinâmico. Desejamos que a águia sepultada desperte e voe, ganhando altura e ampliando os horizontes de sua releitura e compreensão de você mesmo e do mundo. Convidamos você a fazer-se, junto com as forças diretivas do universo, criadora/co-criadora do mundo criado e por criar. Veja mais aqui e aqui.

MANA MARIA – O livro Mana Maria (José Olympio, 1936), é um romance inacabado do escritor Alcântara Machado (1901-1937), do qual destaco o trecho do capítulo I: - Vá perguntar pra mana Maria. Era assim desde que a mãe morrera. Era assim a propósito de tudo. Mana Maria é que resolvia, mandava, punha e dispunha, fazia, desfazia. E Ana Teresa obedecia. Quando Dona Purezinha morreu, deixou Ana Teresa com dez anos. Tinha duas tranças compridas e com uma delas quis enxugar as lágrimas diante do cadáver da mãe. E foi ai que sentiu pela primeira vez a nova autoridade. Mana Maria deu um puxão na trança e lhe pôs um lenço na mão: - Enxugue com o lenço. Lenço seco. De fato a coragem de mana Maria foi uma coisa que admirou toda a gente. Não derramou uma lágrima. Não teve um gesto, uma expressão de sofrimento. Ninguém esperava tanta fortaleza de ânimo num corpo tão franzino. Dona Purezinha agonizou seis meses com um cancro no piloro. Era gorda, foi ficando magrinha. Também era boa, paciente, e foi ficando má, impertinente. Parecia que tudo nela morria, menos os olhos que enxergavam uma sombra de poeira na cômoda e os ouvidos que percebiam lá longe, na cozinha, o bater de um prato na pia. Em torno dela foi se fazendo um silêncio que já era de túmulo. Primeiro se suprimiu o piano de Ana Teresa. Para ela foi uma alegria. Mesmo a aula de Português, Aritmética, Geografia, História do Brasil, Religião, Desenho e Caligrafia, tudo ensinado por Dona Mercedes, passou para o porão. No porão vivia. Subia para almoçar, lanchar, jantar, dormir. Fora disso, mal punha os pés na escada que conduzia â copa, uma criada, a irmã, o pai, alguém falava: - Não venha que mamãe está doente. Era o estribilho. Pegava no voador, rodava dez metros no cimento do jardim, uma janela se abria: - Não faça barulho! Mamãe está doente! Na mesa, não queria sopa ou queria pão com manteiga e açúcar: - Seja boazinha. Olhe que mamãe está doente. Aos poucos se habituou. Ficava no quarto grande do porão horas e horas vendo a arrumadeira passar roupa. Também ia visitar o galinho garnisé. Corria atrás dele, ele não se deixava pegar, ela dizia: - Não faça barulho que mamãe está doente. Até que chegou também o dia do garnisé. O canto dele incomodava Dona Purezinha. Foi para a faca. E Ana Teresa nem direito de chorar teve porque mamãe estava doente. Já era sossegada de natureza, ficou uma santinha na opinião da cozinheira. Parecia gente grande. Amorteceram com algodão a campainha da entrada, a campainha do telefone. Todos se entendiam por gestos. Joaquim Pereira pensou até em imitar o vizinho senador que quando a mulher esteve para morrer arranjou uns grilos que não deixavam os choferes tocarem cláxon nas imediações. Mas desprovido de qualquer influência política desistiu da ideia. Ana Teresa passou a fazer parte do silêncio: se perturbava quando falavam perto dela. Quase no ouvido da professora segredava as capitais dos Estados do Brasil. E ficou com o hábito de responder movendo a cabeça, sacudindo os ombros, movendo as mãos. A boniteza dela não entristeceu: ficou indiferente, perdeu a vivacidade, ficou distante. Uma madrugada mana Maria acordou Ana Teresa. Como estava, de camisola e descalça, foi levada até o quarto de Dona Purezinha. O pai a ergueu nos braços, molhou de lágrimas o rosto dela, abraçou forte, beijou muito a filha. Depois falou: - Venha beijar sua mãezinha que foi pro céu. No quarto estavam um padre, o médico, a enfermeira, tio Laerte e a mulher dele, tia Carlota. Ana Teresa sacudida pelo choro agarrou na mão da morta, deu um beijo. Porém silencioso. Alguém falou: - "Pobrezinha". Com certeza tia Carlota que a tirou do quarto. Ana Teresa viu no fundo do corredor uma vela acesa nas mãos de mana Maria. Teve medo, dobrou o braço no rosto. Voltou carregada pro seu quarto. Ainda ouviu mana Maria falar: - É bom que tio Laerte vá encomendar o caixão. Na hora do enterro é que mana Maria não a deixou enxugar os olhos com a trança. Foi o primeiro gesto de mando. E por isso Ana Teresa nunca mais esqueceu dele. Era um quadro que ela via sempre. Sobretudo de noite, no escuro, de olhos fechados, na cama: a sala repleta, o caixão muito alto e florido, a cara barbuda do pai, o jeito duro com que mana Maria lhe puxou a trança, lhe deu o lenço. Lenço seco. E três dias depois, logo de manhã cedo, Ana Teresa teve a revelação física de mana Maria. Até então nunca reparara direito na irmã. Quer dizer: reparara sim, mas sem compreender. Nessa manhã ela principiou a compreender. Pela primeira vez a viu de óculos. E isso já foi uma surpresa. Nunca suspeitara da existência daqueles óculos de aros de tartaruga. Nunca, nunca mana Maria pusera os óculos na presença dela. Pois mana Maria a recebeu assim, de óculos. Estava com a costureira e mandara chamar Ana Teresa para tomar as medidas. Ana Teresa ficou em pé, no meio do quarto, imóvel, com os olhos nos óculos. A arrumadeira entrou, Ana Teresa olhou para ela e viu também nos olhos dela a mesma surpresa dos óculos. Nunca, nunca mana Maria aparecera de óculos para ninguém. Ana Teresa se deixou dominar por aqueles vidros redondos, aqueles aros de tartaruga manchada. Sentiu a autoridade daqueles óculos. Aumentou nela o respeito que já tinha pela irmã mais velha e que a levava instintivamente a chamá-la mana Maria. Não Maria simplesmente. A irmã, quinze anos mais velha, impôs-se desde logo ao respeito de Ana Teresa. E esse respeito se exprimiu como de regra por um título: mana Maria valia por Doutora Maria, Excelentíssima Senhora Baronesa Maria, Sua Majestade a Rainha Maria. Sempre a chamou assim. [...] Veja mais aqui.

PARAÍSO PERDIDO – A obra poética do século XVII, Paraíso perdido (Paradise Lost, 1667), do poeta, polemista e intelectual inglês John Milton (1608-1674), foi construída em dez cantos e, posteriormente, em doze cantos em memória à Eneida de Virgilio, descrevendo a história cristã da queda do homem, através da tentação de Adão e Eva por Lúcifer e a sua expulsão do Jardim do Éden. Da obra destaco o trecho do Livro I: Proposição do assunto do poema: a desobediência do homem, resultando-lhe daqui a perda do Paraíso em que fora colocado; a Serpente, ou antes Satã dentro da Serpente, motivou esta desgraça, depois que ele, revoltando-se contra Deus, e metendo em seu partido muitas legiões de anjos, foi expulso do Céu e arrojado ao Inferno com toda essa multidão por ordem de Deus. Depois lança-se logo o poema para o meio do assunto, e mostra Satã com seus anjos dentro do Inferno, descrito não no centro da criação (porque Céu e Terra devem então supor-se ainda não feitos), mas nas trevas exteriores mais propriamente chamadas Caos. Ali Satã, boiando com seu exército num mar de fogo, crestados todos pelos raios e perdido o tino, afinal torna a si como de um letargo, chama pelo que era o seu imediato em dignidade e poder, e que ali perto jazia; conferem ambos acerca de sua miserável queda. Satã brada por todas as suas legiões que até então se conservavam na mesma confusão e letargo: levantam-se elas; mostra-se o seu número e ordem de batalha; dizem-se os nomes de seus principais chefes que correspondem aos ídolos conhecidos depois em Canaã e países adjacentes. Satã dirige-lhes a palavra, anima-os com a esperança de ainda reconquistarem o Céu, e ultimamente noticia-lhes que vão ser criados um novo mundo e nova qualidade de criaturas, atendendo a uma antiga profecia ou rumor em voga pelo Céu (pois que, segundo a opinião de muitos antigos Padres, existiam os anjos muito antes da criação visível). Para achar a verdade desta profecia e o que se há de fazer depois, ele convoca uma plena assembleia. Procedimento de seus sócios. O Pandemônio, palácio de Satã, ergue-se subitamente construído no Inferno; os pares infernais ali se assentam em conselho. Do homem primeiro canta, empírea Musa, A rebeldia — e o fruto, que, vedado, Com seu mortal sabor nos trouxe ao Mundo A morte e todo o mal na perda do Éden, Até que Homem maior pôde remir-nos E a dita celestial dar-nos de novo. Do Orebe ou do Sinai no oculto cimo Estarás tu, que ali auxílios deste Ao pastor que primeiro aos escolhidos Ensinou como do confuso Caos Se ergueram no princípio o Céu e a Terra? Ou mais te agrada Sião e a clara Siloé Que mana ao pé do oráculo do Eterno? Lá donde estás, invoco o teu socorro Para este canto meu que hoje aventuro, Decidido a galgar com vôo inteiro Muito por cima da montanha Aônia, De assuntos ocupado que inda o Mundo Tratados não ouviu em prosa ou verso. E tu mais que ela, Espírito inefável, Que aos templos mais magníficos preferes Morar num coração singelo e justo, Instrui-me porque nada se te encobre. Desde o princípio a tudo estás presente: Qual pomba, abrindo as asas poderosas, Pairaste sobre a vastidão do Abismo E com almo portento o fecundaste: Da minha mente a escuridão dissipa, Minha fraqueza eleva, ampara, esteia, Para eu poder, de tal assunto ao nível, Justificar o proceder do Eterno E demonstrar a Providência aos homens. Dize primeiro, tu que observas tudo No Céu sublime, no profundo Inferno, Dize primeiro a causa irresistível Que mover pôde os pais da prole humana, Em tão próspera sina, ao Céu tão caros, A apostatar de Deus que o ser lhes dera E a transgredir a lei que lhes ditara, Sendo só num objeto restringidos, No mais senhores do universo Mundo: Quem lhes urdiu a sedução malvada Que os lançou em tão feia rebeldia? O Dragão infernal. Com torpe engano, Por inveja e vinganças instigado, Ele iludiu a mãe da humana prole, Lá depois que seu ímpeto soberbo O expulsara dos Céus coa imensa turba Dos rebelados anjos, seus consócios. Confiado num exército tamanho, Aspirando no Empíreo a ter assento De seus iguais acima, destinara Ombrear com Deus, se Deus se lhe opusesse, E com tal ambição, com tal insânia, Do Onipotente contra o Império e trono Fez audaz e ímpio guerra, deu batalhas. Mas da altura da abóbada celeste Deus, coa mão cheia de fulmíneos dardos, O arrojou de cabeça ao fundo Abismo, Mar lúgubre de ruínas insondável, A fim que atormentado ali vivesse Com grilhões de diamante e intenso fogo O que ousou desafiar em campo o Eterno. Pelo espaço que abrange no orbe humano Nove vezes o dia e nove a noite, Ele com sua multidão horrenda, A cair estiveram derrotados Apesar de imortais, e confundidos Rolaram nos cachões de um mar de fogo. Sua condenação, porém, o guarda Para mais fero horror: e vendo agora Perdida a glória, perenal a pena, Este duplo prospecto na alma o punge. Lança em roda ele então os tristes olhos Que imensa dor e desalento atestam, Soberba empedernida, ódio constante: Eis quando de improviso vê, contempla, Tão longe como os anjos ver costumam, A terrível mansão, torva, espantosa, Prisão de horror que imensa se arredonda Ardendo como amplíssima fornalha. Mas luz nenhuma dessas flamas se ergue; Vertem somente escuridão visível Que baste a pôr patente o hórrido quadro Destas regiões de dor, medonhas trevas Onde o repouso e a paz morar não podem, Onde a esperança, que preside a tudo, Nem sequer se lobriga: os desgraçados Interminável aflição lacera E de fogo um dilúvio alimentado De enxofre abrasador, inconsumptível. A justiça eternal tinha disposto Para aqueles rebeldes este sítio: Ali foram nas trevas exteriores Seu cárcere e recinto colocados, Longe do excelso Deus, da luz empírea, Distância tripla da que os homens julgam Do centro do orbe à abóbada estrelada. Oh! como esse lugar, onde ora penam, É diverso do Céu donde caíram! Logo o monstro descobre a turba vasta Dos tristes que na queda tem por sócios Arfando em tempestuosos torvelinos Do undoso lume que hórrido os flagela. Próximo dele ali coas vagas luta O anjo, imediato seu em mando e crimes, Que foi chamado nas vindouras eras Belzebu, nome à Palestina grato. Então o arqu’inimigo, que no Empíreo Foi chamado Satã desde esse tempo, O silêncio horroroso enfim quebrando, Nesta frase arrogante assim lhe fala: “És tu, arcanjo herói! Mas em que abismo Te puderam lançar! Como diferes Do que eras lá da luz nos faustos reinos, Onde, sobre miríades brilhantes, Em posto tão subido fulguravas! Mútua liga, conselhos, planos mútuos, Esperanças iguais, iguais perigos Uniram-nos na empresa de alta glória; Mas agora a desgraça nos ajunta Deste horrível estrago nos tormentos! Caídos de que altura e em qual abismo Nos achamos aqui tão derrotados! Co’os raios tanto pôde o que é mais forte. Té’gora quem sabia ou suspeitava Dessas armas cruéis a valentia? Mas nem por elas, nem por quanta raiva Possa infligir-me o Vencedor potente, Não me arrependo, de tenção não mudo, Posto mudado estar meu brilho externo. Rancor extremo tenho imerso n’alma Pela alta injúria feita a meu heroísmo: Ele impeliu-me a combater o Eterno, E trouxe logo às férvidas batalhas Inúmera aluvião de armados Gênios Que dele o império aborrecer ousaram, E, a mim me preferindo, opor quiseram [...]. Veja mais aqui.

MAMBEMBE – Na burleta em três atos e doze quadros O Mambembe (1904), do dramaturgo, escritor e jornalista Artur Azevedo (1855-1908), destaco o quadro I do ato primeiro: Sala de um plano só em casa de dona Rita. Ao fundo, duas janelas pintadas. Porta à esquerda dando para a rua, e porta à direita dando para interior da casa. CENA I MALAQUIAS, moleque, depois EDUARDO. (Ao levantar o pano, a cena está vazia. Batem à porta da esquerda.) MALAQUIAS (Entrando da direita.) — Quem será tão cedo? Ainda não deu oito horas! (Vai abrir a porta da esquerda.) Ah! é seu Eduardo! EDUARDO (Entrando pela esquerda.) —Adeus, Malaquias. Quedê dona Rita? Já está levantada? MALAQUIAS — Tá lá dentro, sim, sinhô. EDUARDO — E dona Laudelina? MALAQUIAS — Inda tá drumindo, sim, sínhô. EDUARDO — Vai dizer a dona Rita que eu quero falar com ela. MALAQUIAS — Sim, sinhô. (Puxando conversa.) Seu Eduardo onte tava bom memo! EDUARDO — Tu assististe ao espetáculo? MALAQUIAS — Ora, eu não falho! Siá dona Rita não me leva, mas eu fujo e vou. Fico no fundo espiando só! EDUARDO — Gostas do teatro, hein? MALAQUIAS — Quem é que não gosta do que é bão? Que coisa bonita quando seu Eduardo fingia que morreu quase no fim! Xi! Parecia que tava morrendo memo. Só se via o branco do olho! E dona Laudelina ajoelhada, abraçando seu Eduardo! Seu Eduardo tava morrendo, mas tava gostando, não é, seu Eduardo? EDUARDO — Gostando, por quê? Cala-te! MALAQUIAS — Então Malaquia não sabe que seu Eduardo gosta de dona Laudelina? EDUARDO — E ela?... Gosta de mim? MALAQUIAS — Eu acho que gosta... pelo meno não gosta de outro... eu sou fino; se ela tivesse outro namorado, eu via logo. Aquele moço que mora ali no chalé azu, que diz que é guarda-livro, outro dia quis se engraçá com ela e ela bateu coa jinela na cara dele: pá... eu gostei memo porque gosto de seu Eduardo, e sei que seu Eduardo gosta dela! EDUARDO — Toma lá quinhentos réis. MALAQUIAS — Ih! Obrigado, seu Eduardo. (Vai a sair pela direita. Entra dona Rita.) DONA RITA — Que ficaste fazendo aqui, moleque? MALAQUIAS — Nada, não, senhora; fui abri a porta a seu Eduardo e ia dizê a vosmecê que ele tava ai. DONA RITA — Vai acabar de lavar a louça, mas vê lá se me quebras alguma coisa. (A Eduardo.) Não se passa um dia que este capeta não me quebra um prato... um copo... uma xícara... Vai! MALAQUIAS — Sim, senhora. (Sai pela direita.) [...]. Veja mais aqui e aqui.

LA MUJER SIN CABEZA – O filme La mujer sin cabeza (A mulher sem cabeça, 2008), da premiada cineasta argentina Lucrecia Martel, é um drama e mistério que conta a história de uma mulher que comete um acidente atropelando alguém na estrada, pelo qual ela se envolve de preocupações até achar ter esse mau momento acabado quando surge a notícia de uma descoberta macabra que revive todos os seus temores. Trata-se de um encantador filme realizado por uma cineasta que é meritória de aplausos reconhecidos pelos prêmios arrebatados. Veja mais aqui.


ENTREVISTA, VERSOS & BLOGS – (Imagem: Fotos do acervo de Luciah Lopez) Conheci a poeta e blogueira paranaense Luciah Lopez já faz um bom tempo, inclusive destacando seu trabalho poético nas minhas páginas. Costumo sempre visitar um de seus blogs, o Arquétipo, do qual destaco inicialmente o poema Mulher: Eu sou Aquela que você não vê / ___a que caminha sobre a Água e sobre o Fogo / e não teme o Vento que levanta as ondas / nem os Raios que acordam os medos / Sou a Hora dos dos teus Delírios / e dos teus Anseios de mais querer ____ sou endiabrado Ser que te persegue / Mulher de Ouro e Prata / de Fogo e gema preciosa____ sempre nas mãos os cabelos / à tecer o teu destino / (emaranhado, enovelado) preso no tear dos / fios e dos cílios de olhares enviesados / Eu sou a boca que te sorri / sou a Redenção da pele em Espasmo / sou a metade da tua Sombra e o Sal / do teu suor / Eu sou o Sono que espera o Sonho / sou o Caminho dos teus Pés / Sou o Tempo ante o tempo que te persegue. Também o delicioso poema Orgasmo: teu falo e teu falar / incendeiam o meu corpo / em ondas ora mansas ora tormentas à me embalar num possuir sem fim... / Teu falo / teu ferro em brasa; / tua marca na minha pele arde e dói enquanto me faz submissa à beijar te os pés... / Teu falo / me fala e deságua gametas em profusão / na fusão do gozo / orgasmo que é só meu. Por fim, o seu poema Vem, não demora: _________com o olhar percorro a distância / quilômetros de ansiedade a eriçar-me os pelos / e ferver o sangue / nas corredeiras sob a pele. / Meu corpo tenso__meu ventre em fogo / arde! / Te quero! / Vem, / ajuda-me a saciar a fome da sua pele / a sede do teu suor na minha língua / a minha boca engolindo a sua. / Não demora! / Vem, / traga o seu desejo / o seu sexo / a sua força / o seu corpo sobre o meu. / Traga a sua loucura / se deite com a minha insanidade / deixa as suas mãos me rasgando a carne / e sua boca balbuciando obscenidades / _______desrespeite a minha pureza! / Me segure / me bate / me morde / me lambe / não deixe nada no lugar / ...e antes que a noite termine, ; adormeça-me no teu peito nu. Depois desses deliciosos versos, ela me concedeu uma entrevista e pude reunir alguns de seus belos poemas selecionados por ela mesma. Veja a entrevista aqui.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz e cantora inglesa Jane Birkin. Veja mais aqui e mais aqui, aqui e aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à atriz Adriana Alves, rainha da bateria da Unidos de Vila Maria e madrinha da bateria da escola de samba Pérola Negra.
 

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...