Mostrando postagens com marcador Edward Wilson. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Edward Wilson. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, setembro 08, 2017

SHELDRAKE, ALCÂNTARA MACHADO, DVOŘÁK, EDWARD WILSON, PACO DE LUCÍA, BLUMENTAU, FERNANDA ABREU, PAULO JOSÉ DOS SANTOS & BIBLIOTECA FENELON

OS IMPREVISTOS DE CADA COISA – Imagem: arte do fotógrafo estadunidense Ansel Adams (1902-1984). - A cada passo em cada rua ouço os sussurros que evaporam das histórias proibidas de cada lar, misturando as minhas pisadas com seus resmungos, meus pensamentos e suas infâmias, minhas lembranças e seus castigos, minhas divagações e suas dissimulações, choros, arrependimentos, projeções. Em cada uma das casas os seus desfechos e vigências nas corrosivas relações com suas anomalias extraordinárias, invadindo minhas ideias e sinto que só há coisa de sofrer e sonhar, como a que vejo, lar ideal, o pai trabalhador com afinco só pensa em ganhar dinheiro e do muito pro sonho do carro novo, a reforma da casa, a vida boa pra ser o primeiro em todas as vitórias e conquistas e poder na missa domingueira agradecer pelas bênçãos recebidas por ser salvo da miséria e das desgraças da pobreza, às portas do céu enquanto pisa todos que lhe aparecem pela frente durante a semana na sua travessia laboral, pé na goela, língua de fora, sem saber quase nada da família, nem da mulher, nem do filho desmunhecando na esquina pro seu colapso nervoso, nem da filha dando uns tapas no braquearo pra perder a virgindade com o professor que é seu príncipe encantado e pra desastre de sua segunda ponte de safena, sem saber da esposa, mãe zelosa rezadeira noitedia com o terço na mão a pedir de joelhos pros filhos que o pai ignora e ela não sabe o que fazer porque cresceram e se tornaram indomáveis de geração diferente da sua, sem respeitar mais ninguém e o marido só dedicado ao trabalho vai culpá-la por não ter feito a sua parte e a coisa vai ficar feia porque ela sabe que ele já caiu nas graças da secretária que é muito mais nova, é muito mais bonita, é muito mais tudo que ela que ficará na rua da amargura sem saber o que fazer, já que não sabe mais nada, está perdida, sem saber segurar o marido nem cuidar dos filhos, à beira do suicídio, com remédios tantos e dietas exageradas para não engordar e reconquistar o marido que não quer saber dela nem de nada de casa, só do trabalho e vencer na vida, o que será a perda total dela e dos filhos, justo eles, o casal bem sucedido, invejado por todos do bairro, dos familiares, os bem casados, quase trinta anos, eles ainda poderiam ser felizes, mas ela não sabe, nem ele sabe o que se passa, nem seus filhos estão nem aí pro que está acontecendo e tudo está ruindo e precisam ser felizes sem saber como fadados ao mais clamoroso fracasso que não aprendem e um dia acordam estranhos cada qual no seu lugar, saudades um do outro, lembranças de infância e o mundo continua a rodar apesar dos pesares pros que estão vivos e pros que já se foram dessa pra melhor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Romance para piano & violino op.11, Piano Works & The Best do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904); Valsas de Chopin, Concert de Clementi C Major & Concerto p. 17 de Paderewsky com da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908-1991); o guitarrista espanhol de flamenco, compositor, produtor e violonista Paco de Lucía (1947-2014) no Festival Jazz Montreux, no Burghausen 2004 e interpretando o Concierto di Aranjuez; e os álbuns Raio X, MTV ao Vivo & Da Lata da cantora, compositora, instrumentista, bailarina e escritora Fernanda Abreu. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A DIVERSIDADE DA VIDA – Na bacia amazônica, a maior violência às vezes começa como uma luz vacilante além do horizonte. Lá, na redoma perfeita do céu noturno, sem o menor vestígio de luz produzida por fonte humana, uma tempestade lança seus sinais premonitórios e inicia uma lenta jornada até o observador, que pensa: o mundo está prestes a mudar. [...] alguns tipos de plantas e animais são dominantes, proliferando novas espécies e disseminando-se por extensas regiões do mundo. Outros acabam acuados até se tornarem raros e ameaçados de extinção. existiria uma única fórmula para essas diferenças biogeográficas entre os vários tipos de organismos? Esse processo, devidamente expresso, seria uma lei — ou pelo menos um princípio — de sucessão dinástica na evolução. [...] No meio do caos, algo ao meu lado chamou-me a atenção. Os raios pareciam luzes estroboscópicas iluminando a orla da floresta tropical. a cada intervalo eu podia vislumbrar a sua estrutura estratificada: a abóbada superior a trinta metros do solo, árvores médias espalhadas irregularmente um pouco abaixo e, mais embaixo ainda, uma profusão de arbustos e pequenas árvores. a floresta permaneceu emoldurada por alguns instantes nessa ambiência teatral. sua imagem se tornou surrealista, projetada na selva ilimitada da imaginação humana, lançada de volta no tempo cerca de 10 mil anos. ali nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura estavam voando em meio à coroa das árvores em busca de frutos, víboras arborícolas enrolavam-se nas raízes de orquídeas, prontas para dar o bote, jaguares caminhavam pelas margens do rio. em torno deles, oitocentas espécies de árvores, mais do que todas as nativas da América do Norte, e mil espécies de borboletas, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer. [...] Os mistérios ainda insolúveis da floresta pluvial tropical são informes e sedutores. são como ilhas sem nome escondidas nos espaços vazios dos mapas antigos, como formas obscuras vislumbradas ao se descer a parede extrema de um recife até as profundezas abissais. Eles nos instigam e provocam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável depois de um único bocado. esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo. rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escuridão. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, é um dos últimos repositórios na Terra desse sonho imemorial. [...]. Trechos extraídos da obra Diversidade da vida (Companhia das Letras, 2012), do entomologista e biológico estadunidense Edward Osborne Wilson, renomado cientista reconhecido por seu trabalho nas áreas de ecologia, evolução e sociobiologia.

DAS GALÁXIAS ÀS CÉLULAS: A TEORIA DOS CAMPOS MORFOGENÉTICOS - [...] Os campos morfogenéticos ou campos mórficos são campos que levam informações, não energia, e são utilizáveis através do espaço e do tempo sem perda alguma de intensidade depois de ter sido criado. Eles são campos não físicos que exercem influência sobre sistemas que apresentam algum tipo de organização inerente. […] centrada em como as coisas tomam formas ou padrões de organização. Deste modo cobre a formação das galáxias, átomos, cristais, moléculas, plantas, animais, células, sociedades. Cobre todas as coisas que têm formas e padrões, estruturas ou propriedades auto-organizativas. [...] Todas estas coisas são organizadas por si mesmas. Um átomo não tem que ser criado por algum agente externo, ele se organiza só. Uma molécula e um cristal não são organizados pelos seres humanos peça por peça se não que cristalizam espontaneamente. Os animais crescem espontaneamente. Todas estas coisas são diferentes das máquinas que são artificialmente montadas pelos seres humanos. [...] Esta teoria trata sistemas naturais auto-organizados e a origem das formas. E eu assumo que a causa das formas é a influência de campos organizacionais, campos formativos que eu chamo de campos mórficos. A característica principal é que a forma das sociedades, idéias, cristais e moléculas dependem do modo em que tipos semelhantes foram organizados no passado. Há uma espécie de memória integrada nos campos mórficos de cada coisa organizada. Eu concebo as regularidades da natureza como hábitos mais que por coisas governadas por leis matemáticas eternas que existem de algum modo fora da natureza. [...]. Trechos extraídos da obra Uma nova ciência da vida: a hipótese da causação formativa e os problemas não resolvidos da Biologia (Cultrix, 2014), do biólogo, bioquímico e escritor britânico Rupert Sheldrake.

MANA MARIA – [...] ouvindo os gracejos que dirigiam para a italianinha, para a vagabunda. Ela não ouviu nenhum. E o mais esquisito é que quando mana Maria se aproximava muitas vezes os gracejos dirigidos à italianinha ou à mulatinha cessavam. Por respeito dela, mana Maria. Isso lhe dava um amargor e ao mesmo tempo um orgulho indefiníveis. Era respeitada. Não era desejada. [...] Dobrou a esquina. Ninguém. É bom surpreender assim as ruas desertas no silêncio noturno. De dia a atenção se perde no bonde que passa, na casca de banana, no pregão dos vendedores ambulantes, nuns olhos, num palavrão, num anúncio. A gente vê perto e vê baixo. Das casas só tem importância a vitrina das de comércio, o número das de moradia. De noite, tudo muda. Não há perigo de esbarros, de atropelamentos. A vista se alonga desembaraçada. É possível parar, erguer a cabeça, embasbacar, cismar, examinar, não há respeito humano. E a rua: postes, árvores, jardins. fachadas. Os homens dormem: a rua vela. Ele não saberia exprimir (não era literato, graças a Deus) a sensação gostosa que lhe davam essas voltas a pé para casa noite alta. Mas era evidente que se sentia mais forte, mais homem, o único homem. De dia se anulava na multidão, era ninguém. De noite ganhava outro relevo na sua solidão, uma certeza mais grata de sua realidade. Ouvia os próprios passos, via a própria sombra. Dobrou a esquina. Ninguém. Era como se a rua dissesse: - Pode passar, trânsito livre. Depois na noite vazia, silenciosa, o cheiro dos jardins é mais forte, a feitura das casas mais branda, as calçadas mais largas, as esquinas mais misteriosas. A imaginação tem campo livre. Os homens são prisioneiros das casas, tranca na porta, cadeado no portão. Está reintegrada a rua na posse de si mesma, no gozo de sua liberdade. Tal como é e não como a fazem e sujam os homens, a desfiguram os homens de dia. Deserta a cena, vive o cenário. Através das venezianas no terceiro andar da casa de apartamento se escoa uma luz vermelha. Se ele fosse ver a Zoraide? Quase uma hora. Tarde demais. Dobrou a esquina. Alguém. Ainda distante, na mesma calçada, cambaleando. Embriagado. Melhor atravessar a rua. Detestava bêbados, tinha pavor de bêbados. O vulto colou-se à árvore. Depois se equilibrou na guia do passeio, pesadamente desceu ao leito da rua. Joaquim resolveu não mudar de calçada. Agora o bêbado olhava o céu. Lua cheia. Tirou a palheta. Era o Platão de Castro. Joaquim apressou o passo. [...]. O homem agradeceu (quem pagaria para tratarem o túmulo quando ela morresse?), mana Maria foi andando devagar. Olhou o relógio: 11 horas. Na área principal deu com um enterro que chegava. Atrás do caixão um velho caminhava, o lenço nos olhos, amparado por dois moços também chorosos. O padre com o livro de orações protegia a vista contra o sol forte. Pouca gente. O sino da capela tocou. Mana Maria deu 400 réis para a negra velha. Não costumava dar esmolas não. Mas sentiu que ali devia dar. Estava um pouquinho comovida. No enterro dela não viria ninguém. Era capaz até de faltar gente para carregar o caixão. Morreria num hospital. Para não dar trabalho para ninguém. Foi descendo a Rua da Consolação ao longo do muro do cemitério. Na frente dela duas meninas de sandália carregavam uma cesta de lavadeira. Como um caixão. Uma de cada lado segurando na alça. Apressou o passo, na esquina tomou um táxi. Do automóvel ainda viu as meninas que haviam pousado a cesta na calçada, descansavam alegres. Trechos extraídos da obra Mana Maria (Nova Alexandria, 2002), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

STORYTELLING: HISTÓRIAS PROIBIDAS – O drama-comédia Storytelling (2001), dirigido pelo cineasta Todd Solondz,, é composto de duas partes, a primeira ficção, trata de um grupo de estudantes universitários em uma sala de aula de um professor que se prepara para usar e abusar de suas alunas brancas; a segunda, não-ficção trata de um jovem que abandona tudo na vida para seguir seu sonho e enfrenta o fracasso. Há que se observar que o termo Storytelling é relacionado com uma narrativa e significa  a capacidade de contar histórias relevantes, consistindo num método que utiliza palavras ou recursos audiovisuais para transmitir uma história que pode ser contada de improviso ou polida e trabalhada, sendo muito usado no contexto da aprendizagem e na forma de transmissão de elementos culturais como regras e valores éticos. Veja mais a respeito do filme aqui.

BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL FENELON BARRETO
Corpo funcional da Biblioteca, comandada pelo diretor João Paulo Araújo. Veja a história, missão, ações e eventos aqui.

Veja mais:
A música de Antonín Dvořák aqui.
A arte da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

RIO UNA
Meu Rio Una, eu já vi,
Teu nome bonito e franco,
Que não vem do homem branco,
Mas vem da língua Tupi
Quem entende o guarani
Sabia te pronunciar
Ficava a te olhar
Dia e noite estava vendo
As tuas águas correndo
Porque não pode parar.
Meu Rio Una nasceu
No agreste capoeira
Pouquinha água ligeira
Correndo no leito seu
Mas contente desceu
Se uniu ao Rio Riachão
Cajazeira Boqueirão
Bravo, Mandrágua, Taquara
E lá águas limpas e claras
Correndo no nosso chão.
Passa por Cachoeirinha
Cachoeira Grande e Altinho,
Ruma pro sul baixinho
Igual canta a andorinha
Banha-se da vizinha
Com sua amizade ingrata
A esquerda recebe o Rio Prata
As direitas o Rio Mentiroso
O seu afeto amoroso
De sua margem sem frata
O Una não banha Catende,
Porém  banha Batateiras
Pouquinha água ligeira
Correndo no nosso chão
No riacho do sertão
Que mearim faz terra da cana
É nossa terra bacana
Correndo no nosso chão
Quando chega em Palmares
Recebe o Rio Verdinho
Recebe o Camevozinho
Que abastece os nossos lares
Indo com vizinho intermediário
Das terras do Mulungu
Tiraram a água do Prata Para Caruaru
E deixaram de ir pra Palmares
Quando chega na Barra do Una
Endireita o seu leito
Fazendo um curso perfeito
Como já é de costume
De observar os cardumes
Do peixe que vai pro mar.
Poema do poeta popular Paulo José dos Santos, autor dos cordéis Por causa da carestia o mundo não presta mais, Nessa era em que estamos, Interpretação de Trombetas, Palmares eu prezo ser seu filho, entre outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, abril 28, 2008

MARQUÊS DE SADE, SEBASTIÃO UCHOA LEITE, EVELYN FOX KELLER, EDWARD WILSON, LOVELOCK, CLARISSA PINKOLA & BIRITOALDO


XVII

Quando as mazelas dão um nó, vôte! A bunda de fora parece mais tábua de tiro ao alvo.


Munga estava com a barriga pela boca feito um barril de pólvora, toda cheia de enjôos, pantins e extravagâncias. E mais, andava com a cabeça-inchada, já de olhica com as escapulidas e sinal de gualdipiero do marido à mostra de achegamentos a uma quengada avulsa. Eita, isso esborrava o mau gênio dela, pronta para apertar o nó, pegando no pé do Birito do cabra ficar remoendo a ponto de se explodir todo. Não podia ele revidar nada, tinha que respeitar a parida do menino que se sucederia logo logo e não podia meter-se a cavalo do cão para fazer desfeita pra bedeguela, justo agora. Agüentava calado toda ripada de malfazejo que ele estornava de si pro diabo que a carregue prenha num caralho de asa enfiado pelas beiradas do priquito, cu afora, mundo adentro. - Cafajeste! Bunda mole! Você tá com pantim pro lado de rapariga, num tá? O cara ficava branco de susto, prendendo a merda de quase cagar-se todo ali na horinha mesmo de tanto temor. A danada caía pra cima dele com todo bafejo de truculência pelo gogó, cagando raio e se apoquentando como um golpe de estrovenga afiada pra decepar-lhe o pescoço de raiva. Ele, saltando fora da apertura, ajeitava a ocasião arriando mutreta arrumada na sabedoria dele, enquanto gaguejava seu mogilalismo pelas circunstâncias: - Quéquéisso, minha deusa! - Quéquéisso, uma porra! Seu sal tá se pisando, cachorro-da-moléstia! Acompanho todos os centímetros de sua astúcia, maloqueiro, e num brinque comigo não, que mando passar faca nessa trouxa mole que você carrega no meio das pernas, safado! Ah! se mando! - Assim é foda! - Cale-se, aqui quem manda sou eu e tô de olho na sua asa folgada, cabra-safado! Dou-lhe uma petecada de nunca mais você se embeiçar pra banda nenhuma mocréia, sei desgramado. - Não esquenta a orelha, mulher, cê tá co'fio meu no bucho e não vá ter raiva pr'ele num nascer tronxo! Cuidado que raiva mal nascida, mata! - Pois olhe: se você aprontar mais, eu aborto esse desnaturado de você ficar com remorso pro resto da vida! E inda enfeito-lhe o restinho, deixando mais banzo que rodeira estrompada, venha! Venha que verá, seu porra! - Pelamordedeus! - Pelamordedeus uma buceta malavada, seu fresvo! Cê que tá merecendo umas boas lamboradas no toitiço pra ver se desentronxa longo de vez as gaias e fica sentado em cima do cotoco que bota você andejo como a gota. Se aquiete não, viu? Se aquiete, não? Tô só vendo onde o sinhô vai se esborrachar! O cabra triscava, mas findava obediente, botando as mangas de fora no contorcionismo jeitoso da lábia para aplacar a fúria da embestada, enchendo-a de nove horas, mimos, patati e patatá, ela acotovelando-o a cada investida malandra, repulsando sua presença que ele insistente, maior alisado naqueles belos cabelos mal-com-cristo - sabe pixaim brabo, esticado na marra parecendo mais carapuça de dançador de maracatu, talzinho. Ôxe, bote hora amansando a égua irada, bicha ruim de tanger mesmo. E quando conseguia que ela se recolhesse bufando, aproveitava o cochilo e escapulia todo rancatrilha, coxeando, raposeiro pros braços de Ilmena, consolidando uma amigação com cara de duradoura responsa. Com tais acontecimento, o cabra andava enfastiado da Munga, agora mais buchuda e verdadeira garapa azeda, tomando pé da merda que fizera ao cobiçar-lhe pelo empurrão dos safados do Rolivânio e do Penisvaldo, eita, que amigos da onça, hem? Dois desocupados que irião pagar com a mesma moeda, destá. - Eu tava bêbo para querer uma mulher dessas! A mulher dele, mesmo cada vez mais inchada, continuava casquilha, pintada dos pés à cabeça, integrada nos modismos de mini-saia, bustier, aquela pança roliça, beirada dos olhos assombreadas, rouge na cara, batom forte nos beiços, bolofote feito trubufu enjeitada, voltas e voltas de ouro no pescoço, pulseiras nos braços e nas pernas, teara nos cabelos, brincos extravagantes, um piercing na unha do dedo mindinho, uma tatuagem na testa da cheba, cada unha pintada de uma cor diferente, e o pior: aos prantos por se ver despossuída das formas que lhe adornavam, praguejando contra aquele que viria nascer para destrambelhar-lhe o corpo. Ôxe, ele se arrepiava com as ofensas dela. Mas que ele estava presepeiro, estava: emancebado com Ilmena, Ilvete, no descarte, flerte forte pra cima da gostosona da banca que permanecia indiferente às suas investidas e até uma morena potiguar ele passou a pica, vôte! Foi mesmo. Tudo isso sem contar com as xambregadas anônimas que resultava em picadas esquecidas pela cachaçada. Mais tivesse fácil, ora. Tava solto na boraqueira e por cima de todos os catabís. Tudo isso aguçava o sexto sentido da Munga que sentia algo mexer nas extremidades da sua testa. Ôxe, ela abominava! - Se esse safado tiver me enfeitando, mando capá-lo! Eu juro por deus e por todos os santos dos céus e infernos que deixo esse cabra capado se ele andar me fazendo de besta e me botando chapéu de touro! Mas, tá! Vou ver só o bilau dele arriado num cemitério de buceta! Birito chega quase tinha um troço quando ela insistia em cortar-lhe o pingulim. Gaia, não, isto ele já se conformava. Desconfiado mesmo, defendia seu patrimônio e diminuindo nas pinotadas. Já pensou - meditava ele - ficar sem o dicomer de sempre? Tá doido! Muita quenga vai chorar! Ô, se vai. E quando a ameaça se abatia sobre ele, o juízo se apertava de deixá-lo deslocado uns oito dias de aperreio. E com isso não conseguia empinar o papagaio nem com Ilmena, muito menos com Ilvete, nem com ninguém. Brochava mesmo. Murcho e atarantado aquilo o perseguia como uma maldição. Eita, porra! Era aí que ele enchia o tampo de ficar melando a venta num concurso de mijo ao alvo, concurso, aliás, que ganhava sempre. Fosse que lonjura fosse, o bicho enchia bem a bexiga, se carrregando todo, ficava pelas últimas de aperto no mijatório e na hora agá, largava o jato nariz acima até alcançar o alvo demarcado. Isso que fazia ele se esquecer um pouquinho de suas desditas. E quando dava um branco, daqueles de se perder idéia, ficava absorto de nem piscar os olhos, dando de pensar na família, no pai, na mãe que não via há tempos, a tia Nevinha, seu incesto esperançoso; a Ternência, vizinha gostosona que tomava banho nua toda tarde no quintal e que ele brechava na maior punheta se lascando todo; o tio Nestoldo que devia estar de cu pra cima em alguma veneta da cachaça; a Zefinha Dentuça, nega boa para xambrego em noite perdida; a Chica Doida, a sua velha e irremovível paixão que ainda martelava dentro bem fundo do peito; a Ilmena, a Ilvete, a gostosona da banca; a moreninha potiguar que era uma priquituda gemia doida quando era enfiada por sua pêia; a Munga que já fora um pedaço de mal caminho, agora um tonel de ruindades; tudo repassava ligeiro causando-lhe nostalgia. Eram bundudas coloridas, peitudas linguarudas, bucetudas assanhadas, cuzudas embestadas, chuponas maloqueiras, quengas, trastes fudedoras de todos os tipos desenhando seus devaneios mais prazerosos. Perdia-se nas paisagens dos seus pensamentos, era cada imagem uma mais bonita que a outra, menos quando Munga aparecia nelas, a ponto dele fazer esforço brabo pela desaparecência de qualquer insinuação de num querer mais pensar em nada nem ficar delirando à toa. O tempo vai correndo e uma penca de acontecimentos foram tragicamente afunilando a vida dele. Ilmena engravidada também agora pegava cada vez mais no seu pé, enciumada com a debandada dele pro lado da irmã dela. A gostosona da banca já tava no papo mas não conseguia sufragar porque Ilmena estava vigilante, pronta para desviar sua rota da safadeza com ela. A moreninha potiguar também embuchou. Foi. Um embuchamento geral! Tudo barriguda pelos beiços. Apareceu mais umas duas mocréias que se diziam prenhas dele. Vixe! Esse cara além de fabricante de bosta, também fabrica além de merda um bocado de bronca. Foi aí que o cabra se aperreou, ora, seria alguma praga de barrigudice? Só sendo, assim de uma hora pra outra: a mulher, a amante, as quengas, tudo emprenhada de seus pisoteios. Para variar um pouco mais no panorama, até a polícia andou desbaratando uns pontos de venda dele na periferia e o cara já se escondia corrido por alguns lugares incertos e não sabidos, descobrindo numa cagada dessas da vida que o sogro resolveu desmantelar a vida dele. Lá vinha de novo o redemoinho da urucubaca para sua banda. O quê? É, é isso mesmo. Ernestinildo queria enfiar-lhe nuns duzentos e cinqüenta palmos de chão adentro, coberto mais de concreto armado. Nossa! O vento ruim soprava de novo pro seu lado. - Vou tomar banho de sal grosso! Vou me benzer dez vezes! Ôxe! O cabra mergulhou nas mandingas pra sair da ziguizira. E o negócio mais se embananava a sua volta, tornando cada situação mais que insustentável: insolúvel. O cara estava afundado na boceta de Pandora mesmo. Fugia de capangas do sogro, da polícia, da mulher, das amantes, dos credores, de tudo. Era cada carreira da língua ficar uns três metros de palmos pra fora da boca. Para onde se virava era uma tonelada de bronca que despencava nos seus costados, deixando o sujeito mais doido que barata tonta. Certa tarde dias depois, deitando chavecada pra cima da gostosona da banca que já estava zanolha e molhadinha doida para foder, foi surpreendido por Chica Doida que fincou-lhe voz de prisão no meio da lata. Eita, porra! A policial vinha acompanhada de um verdadeiro pelotão, pronta para recolher o abilolado no xadrez. - Você agora vai ver o sol quadrado, bicho safado! Quero ver a sua contravenção lá, preso feito um bandido. Chica não sabia, mas estava fazendo o jogo do sogro que queria ver-lhe longe do neto que já estava para rebentar. Trancafiado numa cela, o bicho vegetou hipnotizado porque justo o seu primeiro amor que remoía no coração desde sempre, trazia-lhe para a privação do mundo ao invés de encher-lhe de vida e prazer. Ele não conseguia conciliar o karma da sua vida, fincando a desmontar toda esperança que ainda insitia um fiapinho besta no seu coração. - Tô vendo, viu? -, era aquela voz do outro mundo marcando presença na cela. - Tais vendo porra nenhuma! Sai-te, satanás! Sai-te, capiroto! A gritaria dele chamou atenção do delegado e dos policiais, imaginando-se dele estar variando do juízo mesmo. Foi preciso Chica Doida entrar com uns coices brabos, enfrentá-lo à base de cascudos e tapa-olhos, dele derreter-se todo da munhecada que ela plantou nos seus maluvidos, deixando-o com a cara e o toitiço redondo de inchado. - Quero ver agora esse jeito de doido pra minha banda! -, replicava ela, batendo uma mão na outra, tirando a sujeira do cabra. Mais de mês depois, o bicho foi arrancado do mofo por causa de uma intervenção de Munga que num queria que o filho nascesse de um presidiário. O sogro, a contragosto, interferiu no assunto e mandou soltá-lo, atendendo aos caprichos da filha. Não antes, contratar sicários para dar cabo da vida dele depois do nascimento do seu neto. Um verdadeiro inferno astral se fazia perene na vida do sujeito. Dali mais uns dias, era aniversário dele: 29 de fevereiro. Nem se lembrava porque nunca comemorava, só de quatro em quatro anos, ou seja, uma vez lá na vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.  



DITOS & DESDITOS - A vida é abundante na Terra e quase todos os gases quimicamente reativos têm suas principais fontes e seus principais escoadouros na biosfera. A atmosfera é um dispositivo biológico, uma parte e uma propriedade de Gaia. Nesta hipótese, o ar não deve ser considerado como uma parte viva mas, antes, como um componente essencial mas não-vivo de Gaia, que pode ser modificado ou adaptado de acordo com as necessidades. Assim como a pelagem de um visão ou a concha de um caramujo. Pensamento do premiado cientista britânico James Lovelock. Veja mais aqui.

MULHERES & CIÊNCIA - [...] a presença corriqueira de mulheres em posições de liderança e autoridade na ciência ajudou a erodir o sentido de rótulos tradicionais de gênero no próprio campo em que trabalhavam, e para todos os que estavam trabalhando nesse campo. Como já disse, é um momento tremendamente excitante na biologia. Como na sociedade. E, pelo menos em parte, devemos agradecer ao movimento das mulheres. O feminismo da “segunda onda” foi um dos movimentos sociais mais fortes dos tempos modernos (talvez especialmente nos EUA). E as mudanças que ajudou a realizar foram enormes. [...]. Trechos de Qual foi o impacto do feminismo na ciência? (Cadernos Pagu, 2006), da física, escritora e ativista estadunidense Evelyn Fox Keller. Veja mais aqui.

CONSILIÊNCIA - [...] A cultura é criada pela mente coletiva, e cada mente por sua vez é o produto do cérebro humano geneticamente estruturado. Gene e cultura estão, portanto, inseparavelmente ligados. Mas a ligação é flexível, em um grau ainda na maior parte não medido. A ligação também é tortuosa: os genes prescrevem regras epigenéticas, que são as vias e regularidades neurais no desenvolvimento cognitivo pelas quais a mente individual se constitui. A mente cresce do nascimento à morte absorvendo partes da cultura existente disponíveis para ela, com seleções guiadas por regras epigenéticas herdadas pelo cérebro individual. Como parte da coevolução gene-cultura, a cultura é reconstruída a cada geração coletivamente na mente dos indivíduos. Quando a tradição oral é suplementada pela escrita e arte, a cultura consegue crescer indefinidamente e pode até cobrir gerações. Mas a influência determinante fundamental das regras epigenéticas, sendo genética e inextirpável, permanece constante. Alguns indivíduos herdam regras epigenéticas que lhes permitem sobreviver e se reproduzir melhor no ambiente e cultura circundantes do que indivíduos que carecem dessas regras, ou que pelo menos as possuem em menor grau. Mas isso significa, através de várias gerações, que as regras epigenéticas mais bem sucedidas se disseminaram pela população junto com os genes que prescrevem as regras. Em conseqüência, a espécie humana evoluiu geneticamente por seleção natural no comportamento, tanto quanto na anatomia e fisiologia do cérebro. A natureza da corrente genética e o papel da cultura podem agora ser melhor compreendidos nos seguintes termos. Certas normas culturais também sobrevivem e se reproduzem melhor do que normas concorrentes, fazendo a cultura evoluir em uma trilha paralela à evolução genética e geralmente muito mais rápida. Quanto mais rápido o ritmo da evolução cultural, mais frágil a conexão entre gene e cultura, embora nunca se rompa totalmente. A cultura permite um rápido ajuste a mudanças no ambiente através de adaptações finamente sintonizadas, inventadas e transmitidas sem uma prescrição genética precisa correspondente [...]. Trechos extraídos da obra Consiliência – a unidade do conhecimento (Campus, 1999), do entomologista e biológico estadunidense Edward Osborne Wilson, renomado cientista reconhecido por seu trabalho nas áreas de ecologia, evolução e sociobiologia. Veja mais aqui.

UM PAUZINHO, DOIS PAUZINHOS – [...] um velho está à morte, e chama a familia para perto de si. Ele dá um pauzinho curto e resistente a cada um dos seus muitos rebentos, esposas e parentes.“Quebrem o pauzinho“, determina ele. Com algum esforço, todos conseguem quebrar seus pauzinhos ao meio. “É isso o que acontece quando uma pessoa está só e sem ninguém. Ela pode ser quebrada com facilidade“. Em seguida, o velho dá a cada parante mais um pauzinho. “É assim que eu gostaria que vocês vivessem depois que eu me for. Juntem seus pauzinhos em feixes de dois ou tres. Agora, partam esses feixes no meio“. Ninguém consegue quebrar os pauzinhos quando eles estão em feixes de dois ou mais. O velho sorri. “Temos força quando nos juntamos a outra pessoa. Quando estamos juntos, não podemos ser quebrados“. Extraído da obra Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Rocco, 1994), da escritora e psicóloga Clarissa Pinkola Estés. Veja mais aqui e aqui.

A PUDICAO sr. Sernenval [...] desposara havia poucos anos a filha de um dos seus antigos confrades, de mais ou menos vinte e quatro anos. Nada havia de tão viçoso, tão roliço, tão gorducinho e branco quanto a sra. Sernenval [...] com diversos encatos físicos, tinha um defeito capital no espírito... uma pudidicia insuportavel, uma devoção exagerada que ao marido impossibilitava persuadi-la de aparecer em suas reuniões sociais. [...] As coisas estavam nesse estado quando um antigo amigo Sernenval, de nome Desportes, chegou de Nancy para vê-lo, e para concluir, ao mesmo tempo, alguns negócios que tinha na capital. [...] Serneval abraça o amigo, e só conversam sobre prazeres.[...] quanto esse negócio dos prazeres do labrego de Lutércia, diz a seu amigo que ele queria, com efeito, jantar com prostitutas. [...] Soa a hora; nossos dois amigos chegam à casa de sua encantadora alcoviteira; um boudoir, onde reina apenas uma luz tênue e luxuriosa, guarda a deusa, lugar onde Desportes vai oferecer em sacrificio. [...] Oh meu amigo, experimenta, rogo-te, por mais havituado que estejas às belezas de Paris, estou bem seguro de que me confessarás que nunca alguma outra valeu, a teus olhos, o preço desta aqui. [...] os dois amigos mantêm-se de pé para a poder observar mais, e a princesa passa com altivez. Pelos céus, - Sernenval transtorna-se quando reconhece sua mulher – é ela... é essa pudica que, não ousando descer dos seus aposentos por pudor diante de um amigo de seu esposo, tem a impudência de vir se prostituir em tal casa. – Miserável, exclama, furioso... [...]. Trechos do conto extraído da obra Contos libertinos (Imaginário, 1997), do escritor libertino francês Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (1740-1814). Veja mais aqui e aqui.

DOIS POEMASPRECISAMOS: de inteligências radar / e sonar / para captação de formas. / A poesia é um repto. / Não / (necessariamente) / um conceito. / Uma identificação de ecos / por onde o ininteligível / se entende. METASSOMBRO: eu não sou eu / nem o meu reflexo / especulo-me na meia sombra / que é meta de claridade / distorço-me de intermédio / estou fora de foco / atrás de minha voz / perdi todo o discurso / minha língua é ofídica / minha figura é a elipse. Poemas do poeta, ensaísta e tradutor Sebastião Uchoa Leite (1935—2003)




Veja mais sobre:
O Doro no dia do professor, Fernando Pessoa, Nietzsche, The Three Graces, Michel Foucault, Fela Kuti, Denise Fraga, Richard Linklater. John Vanderlyn & Julie Delpy aqui.

E mais:
As trelas do Doro: o desmanttelo da paixonite arrebentadora aqui.
A poesia de Maria Esther Maciel aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando a língua dá no dente do alcagüete, sai de riba que lá vem o enterro voltando aqui.
Fecamepa: enquanto os caras bufam por aumento no governo, aqui embaixo a gente só paga mico, né? Aqui.
Lavando pano & aprumando a conversa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora parabenizando o Tataritaritatá.

Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.
 

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...