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terça-feira, janeiro 26, 2021

PUSHKIN, ARIADNA GIL, DÁMASO ALONSO, MANUEL LOPES, ALLEGRAIN, JACQUELINE DU PRÉ & OLARIA OCRE

 

 

TRÍPTICO DQC: UMA VEZ E SEMPRE, PAISAGENS DO SILÊNCIO – Ao som de Te Deum, do compositor João de Deus de Castro Lobo (1794-1832), com a Orquestra de Câmara e Coral Pró-Música de Juiz de Fora sob a regência de Nelson Nilo Hack – Meu coração é Fátima desde menino e ela caçula nas presepadas da gente – Eu&Maikim&Marcelo os danados do último quarto que só paravam de trelar com os bregues de Sônia&Deínha, porque Carma ria & Pai Lula mangava. Quando não era Beco contando histórias do outro mundo e ela corria menina para nossa risadagem e crescia moça feita pra brincar com Genésio-a-mulher-do-vizinho e foi um tempo tão bom de nunca mais voltar. Ela aprendeu o Tempo de amar pelos Madrigais e outras das vozes de Marquinhos, até o Porto Solidão que a gente quase chorou Sob o céu de Palmares. Hoje esse dia nublado do ano da graça de já nem sei quanto, revejo a entrevista e arte porque Heitor & Pablo cresceram tanto de se agigantarem e não sobrou quase nada do que éramos para conversar com Paulo e ficarmos só da lembrança de retratos e risos, enquanto releio os originais de Relicário das lembranças, com as poéticas de amor da alma de poeta com a gente da minha terra nas noites ensolaradas. Quase ouço Antonio Callado: Quando Deus nos encaminha àquilo que temos capacidade de amar com maior verdade, está nos encaminhando a ele próprio. Sem dúvida Ovídio: Não é a arte que faz vogar os barcos rápidos com o auxílio da vela e do remo? Que guia na carreira os carros ligeiros? A arte também deve governar o amor… Não abandona em meio caminho tua amante, desfraldando sozinho tuas velas. É lado a lado que se arriba ao porto, quando soa a hora da volúpia plena e, vencidos a um só tempo, jazem a mulher e o homem lado a lado. Foge ao medo que apressa, à obra furtiva. E de lá distante Sêneca: Nisto erramos: em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, enquanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence à morte. De resto, Kant: Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, então, morrer também vale a pena... Hoje sou Fátima no coração mais do que nunca e é dela o que fomos para o que seremos no amanhã de nem saber.

 


DOIS: CEGO SEM GUIA & A DOIDA DA HORA – Imagem: Nude Bathing Venus Statue, do escultor francês Christophe-Gabriel Allegrain (1710-1795), ao som do Cello Concerto, de Dvořák, com a violoncelista britânica Jacqueline du Pré & a London Symphony Orchestra, regência de Daniel Barenboim. – Quem vem lá? Era Zé cego às voltas com Sadoida da beira do rio que corria aos ventos, saia solta na cabeça, segurando uma enfieira de caranguejos. Essa doida é minha sina! E lá ia ela pisando na palha da cana e por cima dos pés da macaxeira, Ô doida aluada boa! Ah, se eu visse! E remexia nos flandres de lata a deitar no chão para sentir as pisadas dos pés das moças cheirosas, virada de copo do vinho de jurubeba do mundo rodar e ele: Vem cá, minha nega. E mais se ajeitava para ela, chega enchia a tripa gaiteira e tome póin, póin, a cair na punheta resmungando: Vem cá, minha linda, vem cá! Tome uma garapa, mô fio, pressas coisas passar! Ah, destá, tu me paga, desgraçada, vou botar no teu toba de tu chega gritar, ah, se vou, sou bagaço de gente, mas sei fazer direitinho, visse? Bastava ela passar da feira com perdas e ganhos de cada tolda a pedir quero disso e daquilo e ninguém dava trela, só Zé Cego que dizia: Vem cá, Sadoida, vem cá que te dou tudo, mulher! E ela respirava fundo, prendia o fôlego e falava fanhosa: Tu vai me dar o que, hem? Vem cá que te dou de tudo no frevo, levo pro maracatu, a gente cai no xaxado, casa, comida e roupa lavada! Eu, hem, vai só me enrolar! Vou não, sua catraia, vem cá, segura o baião que eu quero foder você todinha, quenga! E ela se ria e chegava pra perto ralando coco para fazer beiju: Eu quero beiju e beijar tu, mulher! E mais ria com um caldo de cana: Toma! Ô coisa boa! E ele puxava enquanto ela espremia nas coxas desnudas o milho para as pamonhas e canjicas do seu paladar, com os guardados tudo de fora: Deixa eu ver? Mas você é cego, ora! Vejo só em pegar. E pegava mãos buliçosas, enquanto ela oferecia um refresco de limão: Beba aqui! E ele deitava entre as pernas dela e sorvia o caldo que escorria do rego dos peitos pelo umbigo até o encontro dos lábios dele no sexo dela feito uma bica estrepitosa de ais e uis a fazer cosquinha no pinguelo dela de chega quase ter um piripaque de se tremer toda com o bico dos peitos empinados e toda arrepiada na pele fresca: Chega pra cá, minha doçura! E ele largava a viola e se esfregava nela que revirava os olhos, pegando no bico da chaleira e cheia de choques de quase clarear tudo, arriada na vara dele a bulir feito quem vai trotando pra cima e pra baixo, Ai, meu Jesus! E ele a usá-la na faca cega, gemedeira boa: Chupa o melaço do meu pau, vai! E ela chilepte com cada beiçada dele quase sumir de vez, era uma pisa de linguada dele gritar alto, era cada bocada dele chega se esvair inteirinho: É disso que eu gosto! E ela: Eu também, eita chambrego bom! E era cada peiada dela apitar mais que usina na safra, cada tacada como quem passa ferro e manda ver nas dentadas, era cada empurrada dela ficar doidinha demais da conta e a pedir mais e tome lapada de cabo a rabo, u-hu! Vira cá esse pé de rabo que eu quero fazer uma feira boa, vai! E ali os dois se engalfinhavam e findavam estirados no terreiro a passar pelos dias sem nem saber que dia era e o fim do mundo a cada instante: Não peida, homem, que isso é feio, piada de mau gosto! E ele se ouriçava de deixá-la pingando nas partes de baixo e mais que elevada à vigésima potência: Sou lá arraia-miúda, vou lhe estrompar, cachorra da moléstia! Ai como é bom! Não vá emprenhar, sua besta! E depois ficavam por ali como quem não quer nada, um à cata um do outro, até o dia que ele desconfiou: ela deixava os guenzos lamber suas intimidades afogueadas chega gemia sem conta e ele ouvi-la dengosa: O que é isso? O cão rosnou e quase mordeu sua mão: Isso é traição. Que é que é isso, velho? Sou mais tua não! Pouco importa! E ela se foi. Ele ficou triste feito no poema de Alexander Pushkin: Amar? Para quê? Por um tempo, não vale a pena. E, para sempre, é impossível. Abatumado, saiu de perto e foi para longe, tudo ficou tão quase, ela tornou-se de pedra no seu coração: Salve a vida que ao pó voltaremos.

 


TRÊS: LÍRICAS DA BELLE EPOQUE – Imagem: cena da atriz espanhola Ariadna Gil na comédia dramática Belle Epoque (1993), do cineasta Fernando Trueba, ao som de Johnny Smith Plays (1955), do compositor estadunidense Jimmy Van Heusen (1913-1990) – Vinte palavras trocadas e uma noite, digo uma vez e sempre, ela de farda, bigode desenhado sobre os lábios, quepe de ordens a me fazer vestes de mulher ao seu mando. Lá estava eu saia longa, blusa de rendas, salto alto e um bote à deriva do seu querer. Puxa-me pela mão e me leva pra dança: um tango e todos os olhos inquiridores no salão. Ela abusava mandona e pisava meus pés, sou-lhe mais que servil, tímido e contido, faço suas vontades. Leva-me pra rua e me quer só seu, indignada com o beijo de uma das quatro filhas charmosas do fazendeiro, e ela a quem me tem por anarquista desertor espanhol na terra solitária, o desafio era ali dela porque amo a viúva Clara, a sonhadora Rocio, a ingênua caçula Luz e ela, a lésbica Violeta... Não pode, Fernando! Pode. Art nouveau e saias, o êxodo rural e o divertimento dos cabarés, o telefone e o telégrafo sem fio, a bicicleta e o cinema, o avião e o automóvel, os cafés-concertos e as óperas, e aos sonhos daquela noite ela me leva pra fora, ganhamos às ruas e ela me oprime com um beijo ao pé da escada: Suba! E lá vamos para o sótão repleto de feno, ela me empurra, caio deitado no feno e desabotoa o blusão expondo a blusa negra por baixo, arreia as calças e monta sobre meu sexo catado entre suas mãos e cavalga, corpo a corpo e a outra metade que sou todo dela, e se serve de mim, apossada, imperiosa, me obriga deitado a servi-lhe de refém e vou mãos aos seios, blusa levantada, seminua e goza feliz para recitar Tempo de vida do poeta espanhol Dámaso Alonso (1898-1990): Peguei em minhas mãos / um punhado de terra. / O vento da terra estava soprando. / A terra voltou à terra. / Você me segura em suas mãos, eu / sou a terra. / O vento sopra / seus dedos, há séculos. / E o pequeno punhado de areia / - grão por grão, grão por grão - / o grande vento o leva embora. E lhe respondo com Cais do poeta cabo-verdiano Manuel Lopes (1907-2005): Nunca parti deste cais / e tenho o mundo na mão! / Para mim nunca é demais / responder sim / cinquenta vezes a cada não. / Por cada barco que me negou / cinquenta partem por mim / e o mar é plano e o céu azul sempre que vou! / Mundo pequeno para quem ficou... E mais me beijou e mais se satisfez, digo uma vez e sempre: é ela na noite que sou o dia que é dela. Até mais vez.

 

OLARIA OCRE & MESTRE BAIXINHA



O livro Olaria Ocre (Independente, 2008), de Joelson Gomes, Manoel Dantas Suassuna e Roberta Guimarães, artistas que ocuparam a Olaria do Baixinha, de Tracunhaem, e fundiram suas obras em um único objeto gráfico encadernado, condensando imagens e informações produzidas durante a estadia. A obra foi elaborada por uma equipe editorial, conduzida pelo designer Carlós Amorim, com a apresentação do material produzido pelos artistas e pela fotógrafa, em formato de livro, e texto de Luzilá Gonçalves, além das análises dos críticos de arte estrangeiros Mónica Carballas e Kevin Power. Veja mais aqui e aqui.


 


terça-feira, maio 01, 2018

GARAUDY, CAILLOIS, GOGARTY, MANET NO BRASIL, CAI GUO-QIANG, TRABALHO, DVOŘÁK & YARA BERNETTE

TRABALHO, RESIGNAÇÃO & SERVIDÃO - Imagem: arte do artista chinês Cai Guo-Qiang. - Tudo começou quando a minha tribo, ao enfrentar o inimigo em guerra aberta, caiu vencida no embate. Resistimos o mais que podíamos, de nada adiantaram planos e estratégias, guerra é guerra, ninguém sabe a razão. A partir de então, eu e os meus nos tornamos escravos do vencedor, um castigo de séculos e milênios. Por muito tempo, quase por toda eternidade, a submissão aos déspotas de eras. Nem mesmo um dia, ao gritarem por abolir a escravidão, varrendo tudo para nada sobrar, nem adiantou, muitos começaram a chamá-la de trabalho, outros tantos de cativeiro. Estava abolida nas conversas e decisões, era só hipocrisia, discurso, letra morta. Inventaram uma legislação para regrar o labor, acabar com abusos e mandos, direitos ditos contemplados por lei; na prática, tinha hora pra chegar no batente, não havia previsão de encerrar o expediente que poderia prosseguir noite adentro pela madrugada, e no dia seguinte, hora de chegada, atrasasse, cortava o ponto, um dia a menos no salário do final do mês. Outras invenções se sucederam: sindicatos, justiça laboral, direitos constitucionais, tudo para aplacar o sofrimento da injustiça, paliativo da ocasião, tardava e parecia não falhar, acomodava-se, perdia na opção do menor prejuízo, afora outras intervenções de desregulamentações, terceirizações, direitos pro brejo. Ainda hoje, como sempre, a volta do enterro: o que antes era certeza mesmo arisca, agora por água abaixo de vez, máscaras para servis que agora terão que encarar o algoz dono de toda riqueza, prosélitos e capangas, tudo ao seu bolso e conveniência, enquanto do outro da corda sem representação na retaguarda, justiça esvaziada, só seja o que Deus quiser. Ninguém sabe, ninguém viu, enquanto no mundo inteiro a livre empregabilidade, aqui ainda pela formalidade empregatícia. Assim, a vida dos cabisbaixos reféns dos donos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904): Sinfonia do Novo Mundo, Song to the moon & Serenade for strings; da pianista Yara Bernette (1920-2002): Prelúdios de Rachmaninov, Sonata Les Adieux de Beethoven & Bachianas Brasileiras nº 3 de Villa-Lobos; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Existe no mundo espetáculo que prometa mais? Que imaginar de mais apto a satisfazer todas as ambições opostas que essa aliança de esplendor e abandono? O sortilégio que a arte procura imitar em vão, ei-lo oferecido por mil modelos inimitáveis. Aqui a perfeição é natural. Que sonhador não terá implorado que ela ao menos lhe surgisse nas obras do homem? Mas eles não a alcançam. Nesse ente confuso, a justiça é manca, e a graça, incerta. Estando ausente o homem, o milagre renasce. Essa perfeição espalhada por toda parte, feita da ternura da vida, espontaneamente desabrochada, não precisa de um último artificio para propiciar a mudança e parecer fácil. Ela o foi desde a origem e reside nos refinamentos supremos. Uma reserva de infalíveis virtudes fornece a matéria, o desenho, a nuança. E não há nada que recuperar no acordo que ela lhes propõe. Tudo brota e bem cedo se vê conjugado num divino concerto. A natureza em pleno vigor descobre uma destreza soberana, que se acreditaria sobrenatural, para produzir de repente maravilhas que a habilidade, o cálculo ou o próprio gênio não conseguiriam conceber. E entretanto não custaram nem vigílias, nem suores. A languidez preside a essa prodigalidade. Pensamento extraído da obra Vocabulário estético (Fontaine, 1946), do sociólogo, crítico literário e ensaísta francês Roger Caillois (1913-1978).

O HUMANO & O OUTRO - [...] a primeira experiência plena em que todas as componentes da minha vida se uniam num único feixe: o ato da criação poética do homem, a ação militante, a fé inextinguível no futuro e, sobretudo [...] a certeza de que o projeto humano em que participo não e um projeto individual, mas antes um projeto que ultrapassa e dá significado a tudo o mais. [...] os outros são a revelação da transcendência. Da transcendência do totalmente outro [...] Não há outra via para chegar ate Deus senão reconhece-Lo em cada outro [...]. A sua ação não é exterior a de cada um: Ele e, em cada outro, a sua dimensão especificamente humana, a sua transcendência [...]. Trechos extraídos da obra Perspectiva do homem (Civilização Brasileira, 1970), do filósofo francês Roger Garaudy (1913-2012) que, em uma outra obra, Para libertação da mulher (Dom Quixote, 1981), complementa: [...] a forma de existência pela qual cada um não se define como uma ilha solitária, separada de todos os outros por um vazio e tornando-se como centro e medida de todas as coisas, mas, ao contrario, se define pela sua relação ao outro, por uma relação que o abre ao outro, ao totalmente outro, e o torna dependente do outro no sentido mais nobre da palavra, no sentido em que o outro e para ele fonte de enriquecimento da sua pessoa e do seu caráter, e, ao mesmo tempo, responsável pelo outro porque este dom permanente e reciproco [...].

MANET NO BRASIL - [...] Pelas ruas vêem-se somente negros e negras, pois os brasileiros saem pouco, e as brasileiras, menos ainda. [...] Neste país, todos os negros são escravos e têm um aspecto embrutecido. O poder que os brancos exercem sobre eles é extraordinário. Tive oportunidade de visitar um mercado de escravos: espetáculo bastante revoltante para nós. [...] As negras andam nuas da cintura para cima, portando algumas vezes um lenço atado ao pescoço, que cai sobre o peito. Em geral são feias, ainda que tenha visto algumas bem bonitas. A maioria se arruma com muito gosto: umas usam turbantes, outras arranjam os cabelos crespos com muita arte e todas vestem umas saias decoradas com enormes folhos. As brasileiras são, em geral, muito bonitas. Seus olhos e cabelos são magnificamente negros. Todas penteiam-se à chinesa, saem às ruas descobertas e, tal como nas colônias espanholas, vestem-se com uma roupa muito leve, que não estamos acostumados a ver. As mulheres aqui nunca saem sós, mas sempre acompanhadas de suas negras ou de seus filhos, já que se casam com 14 anos ou menos. [...]. A milícia local chega a ser cômica; os brasileiros contam também com uma guarda nacional. A lei do recrutamento forçado existe neste país e atualmente está em vigor, pois houve tumultos na Bahia e tropas estão continuamente sendo enviadas para lá. [...]. A cidade, ainda que feia, tem, aos olhos de um artista, um caráter particular. Cerca de três quartos da população são compostos por negros e mestiços, os quais são muito feios, salvo exceções encontradas entre as negras e as mulatas. As mulatas, a bem da verdade, são quase todas bonitas. No Rio, todos os negros são escravos e o trato é aí vigoroso. Quanto aos brasileiros, são preguiçosos e parecem não ter muita energia. No tocante às brasileiras, são muito distintas e não merecem a reputação de levianas que têm na França. Ninguém pode ser mais recatada e mais tola do que uma brasileira. [,,,] Trechos extraídos da obra Viagem ao Rio: cartas da juventude 1848-1849 (José Olympio, 2002), do pintor e artista gráfico francês Édouard Manet (1832-1883). Veja mais aqui e aqui.

SEGUNDO GALENOSomente o leão e o galo, como diz Galeno, / suportam o choque do amor. / Assim, caríssima, não pense que eu sou rude. / Se me entrego agora à lassitude, / simpatize comigo. Eu sei que / você não gostaria que eu urrasse ou cantasse como um galo. Poema do poeta irlandês Oliver Joseph St John Gogarty (1878-1957).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista chinês Cai Guo-Qiang.
Veja mais aqui.


A arte de ser profano de Fernando Spencer, a Literatura de José Arlindo Gomes de Sá & muito mais na Agenda aqui.
&
O trabalho aqui,
A organização do trabalho aqui,
Primeiro de maio aqui
&
Cor da pele, Os negros de Arthur Ramos, a arte de Glauce Rocha, a música de Gustav Mahler & a arte de Luiz Philippe aqui.


sexta-feira, setembro 08, 2017

SHELDRAKE, ALCÂNTARA MACHADO, DVOŘÁK, EDWARD WILSON, PACO DE LUCÍA, BLUMENTAU, FERNANDA ABREU, PAULO JOSÉ DOS SANTOS & BIBLIOTECA FENELON

OS IMPREVISTOS DE CADA COISA – Imagem: arte do fotógrafo estadunidense Ansel Adams (1902-1984). - A cada passo em cada rua ouço os sussurros que evaporam das histórias proibidas de cada lar, misturando as minhas pisadas com seus resmungos, meus pensamentos e suas infâmias, minhas lembranças e seus castigos, minhas divagações e suas dissimulações, choros, arrependimentos, projeções. Em cada uma das casas os seus desfechos e vigências nas corrosivas relações com suas anomalias extraordinárias, invadindo minhas ideias e sinto que só há coisa de sofrer e sonhar, como a que vejo, lar ideal, o pai trabalhador com afinco só pensa em ganhar dinheiro e do muito pro sonho do carro novo, a reforma da casa, a vida boa pra ser o primeiro em todas as vitórias e conquistas e poder na missa domingueira agradecer pelas bênçãos recebidas por ser salvo da miséria e das desgraças da pobreza, às portas do céu enquanto pisa todos que lhe aparecem pela frente durante a semana na sua travessia laboral, pé na goela, língua de fora, sem saber quase nada da família, nem da mulher, nem do filho desmunhecando na esquina pro seu colapso nervoso, nem da filha dando uns tapas no braquearo pra perder a virgindade com o professor que é seu príncipe encantado e pra desastre de sua segunda ponte de safena, sem saber da esposa, mãe zelosa rezadeira noitedia com o terço na mão a pedir de joelhos pros filhos que o pai ignora e ela não sabe o que fazer porque cresceram e se tornaram indomáveis de geração diferente da sua, sem respeitar mais ninguém e o marido só dedicado ao trabalho vai culpá-la por não ter feito a sua parte e a coisa vai ficar feia porque ela sabe que ele já caiu nas graças da secretária que é muito mais nova, é muito mais bonita, é muito mais tudo que ela que ficará na rua da amargura sem saber o que fazer, já que não sabe mais nada, está perdida, sem saber segurar o marido nem cuidar dos filhos, à beira do suicídio, com remédios tantos e dietas exageradas para não engordar e reconquistar o marido que não quer saber dela nem de nada de casa, só do trabalho e vencer na vida, o que será a perda total dela e dos filhos, justo eles, o casal bem sucedido, invejado por todos do bairro, dos familiares, os bem casados, quase trinta anos, eles ainda poderiam ser felizes, mas ela não sabe, nem ele sabe o que se passa, nem seus filhos estão nem aí pro que está acontecendo e tudo está ruindo e precisam ser felizes sem saber como fadados ao mais clamoroso fracasso que não aprendem e um dia acordam estranhos cada qual no seu lugar, saudades um do outro, lembranças de infância e o mundo continua a rodar apesar dos pesares pros que estão vivos e pros que já se foram dessa pra melhor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Romance para piano & violino op.11, Piano Works & The Best do compositor checo Antonín Dvořák (1841-1904); Valsas de Chopin, Concert de Clementi C Major & Concerto p. 17 de Paderewsky com da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental (1908-1991); o guitarrista espanhol de flamenco, compositor, produtor e violonista Paco de Lucía (1947-2014) no Festival Jazz Montreux, no Burghausen 2004 e interpretando o Concierto di Aranjuez; e os álbuns Raio X, MTV ao Vivo & Da Lata da cantora, compositora, instrumentista, bailarina e escritora Fernanda Abreu. Para conferir é só ligar o som e curtir.

A DIVERSIDADE DA VIDA – Na bacia amazônica, a maior violência às vezes começa como uma luz vacilante além do horizonte. Lá, na redoma perfeita do céu noturno, sem o menor vestígio de luz produzida por fonte humana, uma tempestade lança seus sinais premonitórios e inicia uma lenta jornada até o observador, que pensa: o mundo está prestes a mudar. [...] alguns tipos de plantas e animais são dominantes, proliferando novas espécies e disseminando-se por extensas regiões do mundo. Outros acabam acuados até se tornarem raros e ameaçados de extinção. existiria uma única fórmula para essas diferenças biogeográficas entre os vários tipos de organismos? Esse processo, devidamente expresso, seria uma lei — ou pelo menos um princípio — de sucessão dinástica na evolução. [...] No meio do caos, algo ao meu lado chamou-me a atenção. Os raios pareciam luzes estroboscópicas iluminando a orla da floresta tropical. a cada intervalo eu podia vislumbrar a sua estrutura estratificada: a abóbada superior a trinta metros do solo, árvores médias espalhadas irregularmente um pouco abaixo e, mais embaixo ainda, uma profusão de arbustos e pequenas árvores. a floresta permaneceu emoldurada por alguns instantes nessa ambiência teatral. sua imagem se tornou surrealista, projetada na selva ilimitada da imaginação humana, lançada de volta no tempo cerca de 10 mil anos. ali nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura estavam voando em meio à coroa das árvores em busca de frutos, víboras arborícolas enrolavam-se nas raízes de orquídeas, prontas para dar o bote, jaguares caminhavam pelas margens do rio. em torno deles, oitocentas espécies de árvores, mais do que todas as nativas da América do Norte, e mil espécies de borboletas, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer. [...] Os mistérios ainda insolúveis da floresta pluvial tropical são informes e sedutores. são como ilhas sem nome escondidas nos espaços vazios dos mapas antigos, como formas obscuras vislumbradas ao se descer a parede extrema de um recife até as profundezas abissais. Eles nos instigam e provocam estranhas apreensões. O desconhecido e o prodigioso são drogas para a imaginação científica, despertando uma fome insaciável depois de um único bocado. esperamos de coração que nunca venhamos a descobrir tudo. rezamos para que haja sempre um mundo como esse, em cuja fronteira eu estava sentado na escuridão. A floresta pluvial tropical, com sua riqueza, é um dos últimos repositórios na Terra desse sonho imemorial. [...]. Trechos extraídos da obra Diversidade da vida (Companhia das Letras, 2012), do entomologista e biológico estadunidense Edward Osborne Wilson, renomado cientista reconhecido por seu trabalho nas áreas de ecologia, evolução e sociobiologia.

DAS GALÁXIAS ÀS CÉLULAS: A TEORIA DOS CAMPOS MORFOGENÉTICOS - [...] Os campos morfogenéticos ou campos mórficos são campos que levam informações, não energia, e são utilizáveis através do espaço e do tempo sem perda alguma de intensidade depois de ter sido criado. Eles são campos não físicos que exercem influência sobre sistemas que apresentam algum tipo de organização inerente. […] centrada em como as coisas tomam formas ou padrões de organização. Deste modo cobre a formação das galáxias, átomos, cristais, moléculas, plantas, animais, células, sociedades. Cobre todas as coisas que têm formas e padrões, estruturas ou propriedades auto-organizativas. [...] Todas estas coisas são organizadas por si mesmas. Um átomo não tem que ser criado por algum agente externo, ele se organiza só. Uma molécula e um cristal não são organizados pelos seres humanos peça por peça se não que cristalizam espontaneamente. Os animais crescem espontaneamente. Todas estas coisas são diferentes das máquinas que são artificialmente montadas pelos seres humanos. [...] Esta teoria trata sistemas naturais auto-organizados e a origem das formas. E eu assumo que a causa das formas é a influência de campos organizacionais, campos formativos que eu chamo de campos mórficos. A característica principal é que a forma das sociedades, idéias, cristais e moléculas dependem do modo em que tipos semelhantes foram organizados no passado. Há uma espécie de memória integrada nos campos mórficos de cada coisa organizada. Eu concebo as regularidades da natureza como hábitos mais que por coisas governadas por leis matemáticas eternas que existem de algum modo fora da natureza. [...]. Trechos extraídos da obra Uma nova ciência da vida: a hipótese da causação formativa e os problemas não resolvidos da Biologia (Cultrix, 2014), do biólogo, bioquímico e escritor britânico Rupert Sheldrake.

MANA MARIA – [...] ouvindo os gracejos que dirigiam para a italianinha, para a vagabunda. Ela não ouviu nenhum. E o mais esquisito é que quando mana Maria se aproximava muitas vezes os gracejos dirigidos à italianinha ou à mulatinha cessavam. Por respeito dela, mana Maria. Isso lhe dava um amargor e ao mesmo tempo um orgulho indefiníveis. Era respeitada. Não era desejada. [...] Dobrou a esquina. Ninguém. É bom surpreender assim as ruas desertas no silêncio noturno. De dia a atenção se perde no bonde que passa, na casca de banana, no pregão dos vendedores ambulantes, nuns olhos, num palavrão, num anúncio. A gente vê perto e vê baixo. Das casas só tem importância a vitrina das de comércio, o número das de moradia. De noite, tudo muda. Não há perigo de esbarros, de atropelamentos. A vista se alonga desembaraçada. É possível parar, erguer a cabeça, embasbacar, cismar, examinar, não há respeito humano. E a rua: postes, árvores, jardins. fachadas. Os homens dormem: a rua vela. Ele não saberia exprimir (não era literato, graças a Deus) a sensação gostosa que lhe davam essas voltas a pé para casa noite alta. Mas era evidente que se sentia mais forte, mais homem, o único homem. De dia se anulava na multidão, era ninguém. De noite ganhava outro relevo na sua solidão, uma certeza mais grata de sua realidade. Ouvia os próprios passos, via a própria sombra. Dobrou a esquina. Ninguém. Era como se a rua dissesse: - Pode passar, trânsito livre. Depois na noite vazia, silenciosa, o cheiro dos jardins é mais forte, a feitura das casas mais branda, as calçadas mais largas, as esquinas mais misteriosas. A imaginação tem campo livre. Os homens são prisioneiros das casas, tranca na porta, cadeado no portão. Está reintegrada a rua na posse de si mesma, no gozo de sua liberdade. Tal como é e não como a fazem e sujam os homens, a desfiguram os homens de dia. Deserta a cena, vive o cenário. Através das venezianas no terceiro andar da casa de apartamento se escoa uma luz vermelha. Se ele fosse ver a Zoraide? Quase uma hora. Tarde demais. Dobrou a esquina. Alguém. Ainda distante, na mesma calçada, cambaleando. Embriagado. Melhor atravessar a rua. Detestava bêbados, tinha pavor de bêbados. O vulto colou-se à árvore. Depois se equilibrou na guia do passeio, pesadamente desceu ao leito da rua. Joaquim resolveu não mudar de calçada. Agora o bêbado olhava o céu. Lua cheia. Tirou a palheta. Era o Platão de Castro. Joaquim apressou o passo. [...]. O homem agradeceu (quem pagaria para tratarem o túmulo quando ela morresse?), mana Maria foi andando devagar. Olhou o relógio: 11 horas. Na área principal deu com um enterro que chegava. Atrás do caixão um velho caminhava, o lenço nos olhos, amparado por dois moços também chorosos. O padre com o livro de orações protegia a vista contra o sol forte. Pouca gente. O sino da capela tocou. Mana Maria deu 400 réis para a negra velha. Não costumava dar esmolas não. Mas sentiu que ali devia dar. Estava um pouquinho comovida. No enterro dela não viria ninguém. Era capaz até de faltar gente para carregar o caixão. Morreria num hospital. Para não dar trabalho para ninguém. Foi descendo a Rua da Consolação ao longo do muro do cemitério. Na frente dela duas meninas de sandália carregavam uma cesta de lavadeira. Como um caixão. Uma de cada lado segurando na alça. Apressou o passo, na esquina tomou um táxi. Do automóvel ainda viu as meninas que haviam pousado a cesta na calçada, descansavam alegres. Trechos extraídos da obra Mana Maria (Nova Alexandria, 2002), do escritor Alcântara Machado (1901-1937). Veja mais aqui.

STORYTELLING: HISTÓRIAS PROIBIDAS – O drama-comédia Storytelling (2001), dirigido pelo cineasta Todd Solondz,, é composto de duas partes, a primeira ficção, trata de um grupo de estudantes universitários em uma sala de aula de um professor que se prepara para usar e abusar de suas alunas brancas; a segunda, não-ficção trata de um jovem que abandona tudo na vida para seguir seu sonho e enfrenta o fracasso. Há que se observar que o termo Storytelling é relacionado com uma narrativa e significa  a capacidade de contar histórias relevantes, consistindo num método que utiliza palavras ou recursos audiovisuais para transmitir uma história que pode ser contada de improviso ou polida e trabalhada, sendo muito usado no contexto da aprendizagem e na forma de transmissão de elementos culturais como regras e valores éticos. Veja mais a respeito do filme aqui.

BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL FENELON BARRETO
Corpo funcional da Biblioteca, comandada pelo diretor João Paulo Araújo. Veja a história, missão, ações e eventos aqui.

Veja mais:
A música de Antonín Dvořák aqui.
A arte da pianista e compositora polonesa Felicja Blumental aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

RIO UNA
Meu Rio Una, eu já vi,
Teu nome bonito e franco,
Que não vem do homem branco,
Mas vem da língua Tupi
Quem entende o guarani
Sabia te pronunciar
Ficava a te olhar
Dia e noite estava vendo
As tuas águas correndo
Porque não pode parar.
Meu Rio Una nasceu
No agreste capoeira
Pouquinha água ligeira
Correndo no leito seu
Mas contente desceu
Se uniu ao Rio Riachão
Cajazeira Boqueirão
Bravo, Mandrágua, Taquara
E lá águas limpas e claras
Correndo no nosso chão.
Passa por Cachoeirinha
Cachoeira Grande e Altinho,
Ruma pro sul baixinho
Igual canta a andorinha
Banha-se da vizinha
Com sua amizade ingrata
A esquerda recebe o Rio Prata
As direitas o Rio Mentiroso
O seu afeto amoroso
De sua margem sem frata
O Una não banha Catende,
Porém  banha Batateiras
Pouquinha água ligeira
Correndo no nosso chão
No riacho do sertão
Que mearim faz terra da cana
É nossa terra bacana
Correndo no nosso chão
Quando chega em Palmares
Recebe o Rio Verdinho
Recebe o Camevozinho
Que abastece os nossos lares
Indo com vizinho intermediário
Das terras do Mulungu
Tiraram a água do Prata Para Caruaru
E deixaram de ir pra Palmares
Quando chega na Barra do Una
Endireita o seu leito
Fazendo um curso perfeito
Como já é de costume
De observar os cardumes
Do peixe que vai pro mar.
Poema do poeta popular Paulo José dos Santos, autor dos cordéis Por causa da carestia o mundo não presta mais, Nessa era em que estamos, Interpretação de Trombetas, Palmares eu prezo ser seu filho, entre outros. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, agosto 14, 2009

MAX FRISCH, FRANK BAUM, MEREDITH, CHOCANO GASTAÑODI, ODETE LARA, MALBA TAHAN, DVOŘÁK, WORDSWORTH, APRENDIZAGEM & AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO

 
A arte da atriz, cantora e escritora Odete Lara (Odete Righi Bertoluzzi – 1929-2015), que ao abandonar a carreira converteu-se ao budismo e partiu para o autoexílio. O filme Lara (2002) é baseado na sua vida. Veja mais aqui.

COISAS DO TEMPO EM QUE OS CANIBAIS APRENDERAM A USAR TALHERES – UMA: PARA QUEM VAI NA COLUNA DO MEIO - Admito que haja sempre a predisposição de todos terem o bem por iniciativa. Acredito nisso. Ser bom e benéfico, acredito, é o mote que bate o centro de toda ação, mesmo considerando que o que se tem por bem ou bom hoje, pode não ser mais amanhã. Como também aquela máxima popular de que o inferno está sobrecarregadíssimo de boas intenções. Vale também, afinal nada é somente dos 8 aos 80, a roda é muito maior, a gente que não enxerga as coisas direito. Malba Tahan levanta uma lebre: Quantos há no mundo que, preocupados em fazer o mal aos outros, esquecem o bem que poderiam fazer a si próprio. Taí a constatação do desserviço. A gente bem que podia aprender um pouquinho mais, como ele mesmo diz: O destino encerra as sábias lições que Deus procura transmitir aos homens. Uma forcinha de nada de boa vontade já ajuda. DUAS: DEPOIS DE UM PASSO VEM OUTRO – Aprender nunca é demais; aliás, quanto mais, melhor. Isso porque há sempre algo que a gente deixa passar ou passa batido. A cada olhada, um novo detalhe; reviu, outras nuances antes não detectadas. Ouço bem William Wordsworth: A vida é dividida em três períodos - o que foi, o que é, e o que será. Aprendamos com o passado para nos beneficiarmos do presente, e aprendamos com o presente para viver melhor no futuro. Por aí, vou nessa. TRÊS: MUDANDO DE PAU PARA CACETE – As manifestações populares são arrepiantes. Gosto de ver as massas entoando seus direitos, exigindo providências e determinando o seu próprio destino. Quando assim se valem, tudo caminha para o bem todos. Quando ouvi Dvořák dizer: A música do povo é como uma flor rara e adorável que cresce em meio a ervas invasoras. Milhares passam por ela, enquanto outros o pisam, e, portanto, as chances são de que ela pereça antes de ser vista pelo único espírito discriminador que a valorizará acima de tudo. O fato de ninguém ter surgido ainda para tirar o máximo proveito disso não prova que nada está lá. É isso. Ah se meu povo tomasse conta de si, seria essa outra Patriamada! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.


DITOS & DESDITOS - Não há ser vivo que não tenha medo quando enfrenta o perigo. A verdadeira coragem é enfrentar o perigo quando se tem medo. Existem coisas piores no mundo do que ser um espantalho. Pensamento do escritor, editor, ator, roteirista, produtor de cinema e teosofista estadunidense, Lyman Frank Baum (popularmente L. Frank Baum – 1856-1919), criador da obra O mágico de Oz.

ALGUÉM FALOU: Palavras só ligam pessoas que tem sintonia. Nada é mais difícil do que aceitar a si próprio. Pensamento do escritor suíço Max Frisch (1911-1991).

O AMOR & O GÊNIONo amor não há desastre maior do que a morte da imaginação. O gênio faz o que é preciso e o talento faz o que pode. A ação tanto é a vida da alma como do corpo. Pensamento do escritor britânico George Meredith (1828-1909). Veja mais aqui.

ENTRE VIZINHOS - Uma mulher tanto falou que seu vizinho era ladrão, que o rapaz acabou preso. Dias depois, descobriram que era inocente. O rapaz foi solto - e processou a mulher. “Comentários não causam tanto mal”, disse ela para o juiz. “Escreva os comentários num papel”, respondeu o juiz. “Depois pique, e jogue os pedaços no caminho de casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença”. A mulher obedeceu, e voltou no dia seguinte. “Antes da sentença, terá que catar os pedaços de papel que espalhou ontem”, disse o juiz. “Impossível”, respondeu ela. “Já não sei onde estão”. “Da mesma maneira, um simples comentário pode destruir a honra de um homem, e depois você não tem como consertar o mal”, respondeu o juiz, condenando a mulher à prisão. Historieta do escritor e matemático Malba Tahan (Júlio César de Melo e Sousa - 1895-1974). Veja mais aqui.

DOIS POEMAS: A MAGNÓLIA - Na floresta, cheia de aromas e música, / a magnólia floresce delicada e leve, / como um velo emaranhado nas patas, / ou como um floco de espuma em um lago sereno. / É uma ânfora digna de um artesão helênico, / um prodígio de mármore da Era Clássica: / e destaca sua fina redondeza como / de uma senhora que mostra seu seio. / Não se sabe se é pérola, nem se está chorando. / Há entre ela e a lua uma certa história de charme, / em que uma pomba talvez perca a vida: / porque é puro e é branco e é engraçado e é leve, / Como um raio de lua encolhendo na neve / ou como uma pomba que adormece. A CRUZ DO SUL - Quando as caravelas voadoras / finalmente eles traçaram seus rastros no mar, / estavam rasgando à frente deles / a vastidão com seus tremendos arcos. / Então, Deus, durante a noite, / depois do mistério das belas tardes, / uma cruz desenhou com quatro estrelas / na tela onde ele pinta suas auroras. / A cruz permaneceu como um broche de prata / que brilha na ponta de um véu, / revelando simbolismo radiante. / E hoje, no veludo da noite, / na escuridão profunda parece / a decoração dos abismos... Poemas do poeta peruano José Santos Chocano Gastañodi (1875-1934), conhecido El Cantor de América.



LEITURA, ESCRITA, APRENDIZAGEM & AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO – A leitura e a escrita são duas habilidades complexas e imprescindíveis para aquisição das demais habilidades escolares, como a de calcular e de contemplar os saberes acumulados, historicamente, na civilização do conhecimento. Tanto que para ser um estudante completo, hoje, o aluno precisa estar sempre motivado para a leitura, para as artes e para as ciências matemáticas, físicas, químicas e biológicas. E não adianta sedimentar apenas conceitos superficiais. É necessário que tenha uma visão ampla para uma participação ativa na complexa teia da vida social, laboral e política do homem moderno. Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais - Língua Portuguesa, (Brasil, 1999:21): A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a língua, características do texto, do portador que o apresenta, do sistema de escrita. Isto quer dizer que os novos parâmetros curriculares elaborados pelo MEC colocaram o problema da leitura e da biblioteca escolar na sua devida importância. Buscando melhor entender leitura, encontra-se a definição de Kleiman (1995:12), com o seguinte significado: (...) como processo psicológico em que o leitor utiliza diversas estratégias baseadas no seu conhecimento lingüístico, sociocultural, enciclopédico. Tal utilização requer a mobilização e a interação de diversos níveis de conhecimento, o que exige operações cognitivas de ordem superior, inacessíveis à observação e demonstração, como a inferência, a evocação, a analogia, a síntese e a análise. Tal concepção de leitura se opõe à prática autoritária comum em sala de aula que parte do pressuposto que há apenas uma maneira de abordar o texto e uma interpretação a ser alcançada. Essa maneira de trabalhar a leitura, a interpretação e a produção de texto é chamada tradicional. Nela, a interpretação é assumida como o re-conhecimento de um sentido único existente no texto. Pois bem, a construção conceitual em relação à leitura é produzida de forma progressiva, mas não linear e ocorre de modo pessoal, de acordo com cada criança. Os conflitos são constantes e provocam mudanças cognitivas importantes para a formação do leitor. Na construção da leitura, a mediação pedagógica é um fator importante para essa aquisição, no sentido de promover conflitos e desafios cognitivos. De acordo com Sánches, in Coll et alii, (1995), o processo cognitivo implicado para a aprendizagem da leitura envolve as vias lexical e fonológica. A primeira via pressupõe emparelhar a palavra impressa com alguma representação interna e a segunda (fonológica), pressupõe a mediação da própria linguagem oral para obter o significado. A partir dessas condições, pode-se supor que a leitura de uma determinada palavra não pode ocorrer somente mediante o reconhecimento imediato. Segundo o autor, a criança não pode ler a palavra por via lexical. No entanto, Coll et alii, (1995:104) observam que "o que a criança pode fazer é reconverter a palavra escrita(...) à sua modalidade oral(...) aplicando as regras que relacionam as letras aos fonemas, a via fonológica". Assim, para Coll et alii, (1995:105) "(...) Os processos de leitura não são construídos a partir, apenas, dessas vias expostas pelo autor em foco. Normalmente, não se reconhece as palavras uma a uma, senão dentro de contextos lingüísticos mais amplos". Assim, quando se analisa uma palavra, ela está dentro de unidade mais ampla, sendo as informações contextuais e perceptivas importantes para a construção do significado da leitura. Para os autores, então, a leitura não é um processo exclusivamente perceptivo. Alguns autores, conforme Coll et alii (1995) acentuam que a leitura é um processo mais psicolingüístico do que perceptivo; um processo de criação e confirmação de hipóteses, a partir do conhecimento prévio sobre a linguagem e o mundo. Considerando que a leitura constitui a interação dos conhecimentos do leitor com aqueles que emergem do texto, pode-se ainda acrescentar que ler é interpretar e adivinhar o que o outro quer dizer (Curto et alii, 2000); extrapola, portanto, a idéia da relação direta entre leitura e decodificação, visto que qualquer professor pode reconhecer alunos que decifram corretamente e não conseguem compreender o significado do que acabaram de “ler”. Ao escrever sobre o vínculo entre decodificação e compreensão textual, Curto et alii (2000:47) dizem que decifrar sem compreender é um sintoma de hábitos prejudiciais, em que se separou o mecânico do compreensivo: "(...) Ler é compreender um texto. Compreender é um ato cognitivo, ou seja, o resultado de uma atividade mental". A leitura é compreensiva na medida em que se lê de forma ativa; assim serão capazes de antecipar interpretações, reconhecer significados e ainda identificar dúvidas, erros e incompreensões no processo de leitura. Curto et alii, (2000), acrescentam, ainda, que a decodificação também é necessária, mas como um instrumento a serviço da compreensão. No movimento de construção do significado da leitura, as estratégias cognitivas e metacognitivas desempenham um papel importante para esse aprendizado e, conseqüentemente, para a formação e desenvolvimento do leitor proficiente. Com relação a tais estratégias, recorre-se à definição de Valls (in Solé, 1998:69), que ressalta que a estratégia "(....) tem em comum com todos os demais procedimentos sua utilidade para regular a atividade das pessoas, à medida que sua aplicação permite selecionar, avaliar, persistir ou abandonar determinadas ações para conseguir a meta a que se propõe". Isto quer dizer que o uso de estratégias parece possibilitar reflexões dos atos, na medida que podem permitir o direcionamento das ações. Solé (1998:69), ao descrever as características das estratégias, assinala que (...) Sua potencialidade reside justamente nisso, no fato de serem independentes de um âmbito particular e poderem se generalizar; em contrapartida, sua aplicação correta exigirá sua contextualização para o problema correto... as estratégias envolvem autodireção e autocontrole. Solé (1998) compartilha suas idéias a respeito de micro e macroestratégias. Embora os referidos autores diferenciem esses dois conceitos da seguinte forma: microestratégias são habilidades, técnicas, destrezas etc. Todos esses processos estão ligados a tarefas muito concretas. As macroestratégias são concebidas por meio de um caráter de capacidades cognitivas de ordem superior, relacionadas, portanto, a metacognição - capacidade de conhecer o próprio conhecimento, de pensar sobre nossa atuação, de planejá-la - e que permitem controlar e regular a atuação inteligente (Solé, 1998). Nesse sentido, as estratégias de leitura são procedimentos de caráter elevado, porque "(...) elas envolvem a presença de objetivos a serem realizados, o planejamento das ações que se desencadeiam para atingi-los, assim como sua avaliação e possível mudança" (Solé, 1998:70).
O TEXTO, A LINGUAGEM E A LEITURA - Considerando que o texto, por sua vez, desvencilhou-se das amarras estruturalistas/funcionalistas, notadamente a partir de novas abordagens da linguagem (pragmática, teoria da enunciação, análise do discurso), que passaram a considerar mais enfaticamente a relação linguagem/sociedade, o texto deixou de ser mera organização lingüística que carrega ou que “transmite” pensamentos, informações ou idéias de seu produtor. Assim sendo, a linguagem passou a ser entendida nos estudos lingüísticos contemporâneos como incapaz de traduzir todas as intenções do falante. Tal concepção de linguagem influenciou a caracterização do texto como estrutura cheia de lacunas e de não-ditos. Daí, se o texto contém “espaços em branco”, “vazios”, “interstícios” como propuseram Iser (1979, 1996), Eco (1979), Jauss (1979) e outros, o leitor tem sido considerado peça fundamental na leitura. Pode-se dizer, inclusive, que este é o grande pivô das mudanças epistemológicas em relação aos estudos de leitura e de literatura. Considerado individual ou coletivamente, o leitor é a instância responsável por atribuir sentido àquilo que lê. A materialidade do texto, o preto no branco do papel só se transformam em sentido quando alguém lê. E, assim, o texto é lido sempre de acordo com uma dada experiência de vida e de leituras anteriores. Dessa nova caracterização do leitor em relação ao texto e ao autor, os estudos de práticas de leitura, tais como os propostos por Chartier (1997), consideram a leitura como uma atividade humana que tem, portanto, uma história e uma sociologia. A significação é, para este autor, função direta da “atuação” do leitor ou dos leitores: (...) é preciso lembrar que a leitura tem uma história (e uma sociologia) e que a significação dos textos depende das capacidades, dos códigos e das convenções de leitura próprias às diferentes comunidades que constituem, na sincronia e na diacronia, seus diferentes públicos. (Chartier, 1997b:67) Assim, ler deixou de ser uma atividade universal, praticada sempre da mesma maneira. As inúmeras possibilidades de encontros entre os textos e seus prováveis públicos (diferentes no tempo e no espaço) abriram caminhos para variadas leituras. Produto de um tempo e de um espaço, o leitor é produzido socialmente assim como a leitura que ele pode efetivar não é única, mas variável de acordo com as circunstâncias em que é realizada. Além de elemento fundamental na constituição dos sentidos, o leitor pode ser considerado também em seu aspecto coletivo, ou seja, enquanto comunidade de leitores que compartilham certas maneiras de ler. Formulados social e historicamente, esses modos característicos de ler “constroem”, “formatam” a interação leitor/texto no momento da leitura: "Paralelamente também deve considerar que o “mundo do leitor” é sempre aquele da “comunidade de interpretação” (segundo Stanley Fish) a que pertence e que define um mesmo conjunto de competências, de normas, de usos e de interesses" (Chartier, 1997b:67). Como se observa, existe uma ênfase nos aspectos sociológicos da leitura, quando se considera uma dada comunidade de leitores como elemento chave na construção de sentidos. Tendência semelhante, a de observar os aspectos sociológicos, pode ser encontrada nos estudos literários, sobretudo nos que se aproximam das várias vertentes da Estética da Recepção, como Fish (1980) acima mencionado. Aqui se unem, portanto, os dois temas: leitura e literatura. Se a literatura existe através de textos, certamente, a leitura ou os modos através dos quais ela foi e é lida prefiguram os sentidos que ela teve e pode vir a ter. De forma que, hoje, seria pouco proveitoso pensar no literário sem considerar sua natureza social ou os complexos mecanismos que ajudam a construir aquilo que se chama literatura (Eagleton, 1997; Culler, 2000). Além da leitura, importa para Chartier (1997) a historicização do literário, ou seja, a verificação de como acontecem as variações, no tempo e espaço, entre o que é considerado ou não literário. Em busca dessa historicização da literatura, ele propõe o estudo de algumas categorias responsáveis por construir a literariedade: Ao aplicar a noção de sistema literário para as condições atuais de produção e de circulação de textos, vê-se proposto que se inscrevam na noção de sistema literário as condições de leitura e de escrita, sugerindo, também, que os pontos de contato entre cada um dos elementos da tríade autor-obra-público tornem-se mais visíveis, através desses outros componentes. Vez que eles abrangeriam, por exemplo, o grau de letramento da população, as tecnologias de produção de livros e impressos, as instituições voltadas para a circulação de livros, as práticas discursivas que estabelecem, avaliam e afiançam o caráter literário dos textos, o imaginário social relativo a livros e leituras e mesmo a regulamentação econômica e legal da produção e distribuição de livros (Solé, 1998). A partir disso, em um levantamento bibliográfico sobre o tema em questão foram pesquisados e cotejados vários textos e autores, o que permitiu o estabelecimento de quatro linhas básicas em que se ramificam as pesquisas sobre leitura no Brasil. Para fins de exposição, essas linhas foram designadas como linha diagnóstica, linha cognitivo-processual, linha discursiva e linha estruturalista.
A AVALIAÇÃO - O processo avaliatório tem-se mantido tradicionalmente nos formatos que buscam conferir o aprendizado do aluno, como um instrumento ameaçador e autoritário e, por isso, vários autores debruçaram-se sobre esta temática, principalmente por ser uma prática polêmica e alvo de várias críticas e sugestões (Creso, 2002; Florence & Almeida, 1998). A discussão acerca da avaliação não se restringe ao processo avaliativo em si, mas à compreensão do contexto em que este se insere no âmbito das reformas educacionais e no das mudanças políticas e econômicas mais amplas. Ou seja, a avaliação não fica restrita à mensuração da performance da instituição “(... ) relativamente às suas tradicionais funções de pesquisar, ensinar e prestar serviços, mas envolve também sua existência e identidade”, conforme Georgen (2000: 33). Tal pressuposto implica considerar as dimensões pedagógicas, sociais, ideológicas e gestionárias do processo avaliativo e a compreensão é importante à medida que permite situar a avaliação “como um dos eixos estruturantes das políticas educativas contemporâneas” (Afonso, 2000: 9; Dias Sobrinho, 2000: Dias Sobrinho & Ristoff, 2000). Com isso, pode-se entender que a avaliação pode ou não implicar em processo sistemático como expressão da articulação de esforços, ideológicos e político-pedagógicos, visando à melhoria da instituição e de seus atores com base em procedimentos e indicadores que expressem o norte institucional construído coletivamente. Com a abertura da educação para práticas pedagógicas mais inclusivas, este processo está mudando, mas continua sendo um dos grandes nós do processo educacional carecendo de um amplo estudo e debate dos profissionais da educação sobre a temática (Veiga, 2000). Sobre o termo avaliação escolar, pode-se citar Hoffmam (1998) que exprime exatamente o papel relevante do processo avaliativo na escola, considerando que a avaliação caracteriza-se por informar ao educador o grau de aprendizado do educando, tendo em vista mudanças desejadas de comportamento que foram previstos nos planos de ensino, baseados nos objetivos traçados. Isto, portanto, trata de conhecer o nível de desempenho do aluno, comparar essa informação com aquilo que é considerado importante no processo educativo e tomar as decisões que possibilitem atingir um resultado esperado. Para Luckesi (1999), seja pontual ou contínua, a avaliação só faz sentido quando provoca o desenvolvimento do educado. Neste sentido, é essencial definir critérios, pois cabe ao professor listar os itens realmente importantes, informá-los aos alunos e evitar mudanças sem necessidades. O ato de avaliar, portanto, exercido em todos os momentos da vida diária dos indivíduos é feito a partir de juízos provisórios, opiniões assumidas como corretas e que ajudam tomadas de decisões. Entende-se, a partir daí, que a função da avaliação quanto à formação, pode ser dianóstica, formativa ou somativa, segundo Florence & Almeira (1998), que a diagnóstica deverá ser assumida como um instrumento de compreensão do estágio de aprendizagem em que se encontra o aluno; a formativa acompanha o aluno em todas as fases do processo de ensino aprendizagem, procurando sempre corrigir o que se fizer necessário; e a somativa, momento em que se estabelece o conceito final com base em tudo o que se observou e anotou durante o processo. Quanto à proposta da avaliação diagnóstica, reconhece-se as dificuldades que implicam em acompanhamento individualizado, com preenchimento de algumas centenas de fichas por professores, muitas vezes, responsáveis por um número elevado de alunos, conforme a disciplina, que ministram e jornada de trabalho, que exercem. Essa tipologia avaliatória descreve as trajetórias, problemas e potencialidades, favorecendo que o trabalho de ensino-aprendizagem se dê de forma coerente com os objetivos e desejos de professores e alunos. Portanto, ela é diagnóstica dando uma idéia do material humano que se tem, das expectativas criadas ou do que se pode fazer para provocá-las quando existe clima de empatia. Além disso, mostra os conhecimentos que a turma já acumulou e os que ainda não dominam e, assim as possibilidades de projetos a serem desenvolvidos. Uma diagnose que depende de diálogo, que não se configura como instrumento legítimo sem essa premissa. A avaliação formativa é um processo defendido pelo educador francês Charles Hadji, onde mais do que medir o desempenho na prova, o processo de avaliação deve mostrar como esses alunos atuam durante a aprendizagem, permitindo uma reorientação da ação pedagógica. Este modelo, conforme as observações de Perrenoud (1999), vê o erro como uma pista importante para o professor e o aluno sobre como aprender melhor, quais são as dificuldades e o que pode mudar na prática educativa, contrapondo-se aos processos tradicionais de avaliação, onde os alunos são classificados simplesmente segundo a quantidade de respostas certas e erradas que determinam sua promoção ou retenção escolar. No entanto, sob este modelo, a avaliação pode ter um papel muito mais importante no processo de aprendizagem. Ainda para Perrenoud (1999:122), desenvolver esse modelo não seria uma tarefa fácil, visto que não há quase nada pronto no campo da avaliação formativa, alegando ser necessário reinventá-la, criar mecanismos de regulação didática e aliá-la à intuição e à instrumentação. Para isso o autor lança o seguinte desafio: Não basta ser adepto da idéia de uma avaliação formativa. Um professor deve ainda ter os meios de construir seu próprio sistema de observação, interpretação e intervenção em função de sua concepção pessoal de ensino, dos objetivos, do contrato didático, do trabalho escolar. Propor modelos de ação que exigiriam do agente  a renúncia ao que ele é, ao que ele faz de boa vontade, ao que ele crê justo ou eficaz não pode levar a uma mudança duradoura das práticas. Com isso entende-se que muitos vêem a avaliação formativa como uma oposição à avaliação tradicional, também conhecida como somativa ou classificatória. Esta se caracteriza por ser realizada geralmente ao final de um programa, com o único objetivo de definir uma nota ou estabelecer um conceito — ou seja, dizer se os estudantes aprenderam ou não e ordená-los. Na verdade as duas não são opostas mas servem para diferentes fins. A avaliação somativa possui uma forma de listar os alunos pela quantidade de conhecimentos que eles dominam — como no caso do vestibular ou de outros concursos. A formativa não tem como pressuposto a punição ou premiação, mas prevendo que os estudantes possuem ritmos e processos de aprendizagem diferentes. Numa observação de Bloom et al. (1983:287) a avaliação formativa: (...) se refere à avaliação da aprendizagem de um aluno durante um curso, quando (presumivelmente) podem ser efetuadas mudanças na instrução subsequente, a partir dos resultados atuais. (...)  Seu maior mérito (....) está na ajuda que ela pode dar ao aluno em relação à aprendizagem da matéria e dos comportamentos, em cada unidade de aprendizagem. Neste processo, o "feedback", ou seja, a informação dada ao estudante a respeito da qualidade do seu desempenho (conhecimento dos resultados) é fundamental (Bloom et al, 1983). Em muitas situações de ensino, no entanto, o estudante produz trabalhos que não podem ser avaliados simplesmente como corretos ou incorretos. Neste caso, o "feedback" requerido deve ser entendido dentro de uma concepção mais ampla, que exige que o professor determine a qualidade do trabalho desenvolvido pelo aluno, a partir de um processo de julgamento que envolve: conhecimento do padrão ou objetivo a ser atingido, habilidade para estabelecer múltiplos critérios comparativos e o desenvolvimento de caminhos que reduzam a discrepância entre o que é produzido pelo aluno e o que foi proposto (Bloom et al, 1983). Daí, uma metodologia de avaliação que dê conta de colocar, realmente, a avaliação a serviço da aprendizagem, ou seja, de transformá-la em processo, percurso, e não apenas em produto final, se faz necessário que rompa com a linearidade existente no processo pedagógico, atendendo aos anseios dos alunos e de professores, também estes insatisfeitos com a avaliação que executam. Os indicadores teóricos demonstravam que não seria uma tarefa fácil, pois Perrenoud (1999:145/160), ilustrando bem o quão difícil é a empreitada que pretendia investir numa avaliação formativa, numa avaliação que ajudasse o aluno a aprender, e o professor, a ensinar. Para este autor, tal postura advém do fato de que tudo que se afasta de uma preparação para uma avaliação escolar clássica (prova oral ou escrita) parece um pouco exótico, anedótico, não muito sério, e, no final das contas, estranho ao trabalho escolar, tal como a avaliação tradicional fixou no imaginário pedagógico dos adultos: exercícios, problemas, ditados, redações, inúmeras tarefas que se prestam a uma avaliação clássica. Assim para avaliação assumir sua função de subsidiar, acompanhar a aprendizagem, a avaliação deve adquirir um papel importante na construção do conhecimento, isto é, avaliar de modo formativo significa abrir espaço para questionar, investigar, ler as hipóteses do educando, refletir sobre a ação pedagógica a fim de replanejá-la, ou seja, não vem pronta apenas em forma de provas, exames, memorização de dados, sendo, muitas vezes, utilizada somente como termômetro para medir o erro, ou para satisfazer ao “masoquismo pedagógico” de alguns professores. Conforme Perrenoud (1999), ela passa a ser realmente um processo construído e vivenciado, por alunos e pelo professor, para acompanhamento da aprendizagem. Entretanto, sua efetivação só será assegurada com a mudança do espaço pedagógico que, com certeza, nada tem a ver com a linearidade, mas é interativo, relacional, dinâmico. Portanto, avaliar o aluno apenas no seu desenvolvimento cognitivo é avaliar uma faceta do processo de aprendizagem, é negar-lhe o desenvolvimento de todas as suas possibilidades. Por ser a avaliação um processo complexo, não se admitem modelos prontos e acabados, isso enfatizado por Perrenoud (1999) que destaca o clima, as condições de trabalho, o sentido da atividade ou auto-imagem importam tanto quanto os aspectos materiais ou cognitivos das situações didáticas. A avaliação normalmente é associada a atribuição de notas, via provas, sendo encarada a partir de sua dimensão técnica, de medida dos resultados da aprendizagem. Durante a avaliação destaca-se também o controle exercido pela figura do professor que, através de seu poder, torna precários os mecanismos de interação e comunicação professor-aluno. Assim sendo, para os alunos a avaliação significa testagem, medida do conhecimento. A exigência de memorização parece acentuada podendo ser vista como uma das causas da "cola". Já Almeida (1993/94), por outro lado, observa que os alunos atribuem à avaliação o significado de medida do rendimento e verificação do conhecimento e da aprendizagem. Nesta perspectiva o ensino e, consequentemente, a avaliação estão fortemente apoiados no conteúdo a ser transmitido pelos docentes e assimilado pelos discentes, cabendo à avaliação o papel de classificar este grau de assimilação. Considerando a avaliação um dos aspectos mais problemáticos do processo de ensino, porque normalmente utilizada apenas com o sentido de verificação, conforme aponta Luckesi (1995), sem efeitos na dinâmica da ação pedagógica conduzida pelo professor, busca-se privilegiar a percepção do aluno acerca do processo avaliatório que, normalmente, lhe é imposto, vez que é importante a ênfase na opinião do aluno evidentemente não desconsidera que a avaliação faz parte de uma cultura escolar que deve ser analisada de forma ampla a partir de todos os seus atores.
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TATARITARITATÁ – Na edição deste sábado, 15 de agosto, do Tataritaritatá, no programa Alagoas Frente & Verso da Radio Difusora de Alagoas, a partir das 9hs, os seguintes destaques: Ariano Suassuana & o Quinteto Armorial Ozi dos Palmares & Alvoradinha FECAMEPA – A praga do voto vendido Uma homenagem à lagoa Manguaba – Pilar – Alagoas, Rubão com “Di riba do grande hoté”, de Daniel Cavalcanti, Sonekka cantando “Itinerância”, Leureny Barbosa na campanha Todo dia é dia da mulher! A rosa & o vagabundo da banda alagoana Palhaço Paranoide! Léguas de Felipe Cerquize! Ivalda Silvestre & Meire Celia Lima da Silva da Escola Sesc Jaraguá! E muito mais!!! Confira neste sábado, dia 15/08, a partir da 9hs na Radio Difusora de Alagoas. Para conferir online clique aqui. Veja mais TATARITARITATÁ NA RADIO DIFUSORA TODOS OS SÁBADOS ÀS 9:00HS e mais Luiz Alberto Machado no DOMINGÃO DO FAUSTÃO.

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