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segunda-feira, fevereiro 15, 2016

ANNA DAVTYAN, LOFTUS, SIMON SINGH, SCHALANSKY, CATHERINE JOHNSON & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: CANALHOCRACIA - FUI PRO MATO, CORTEI CIPÓ, TORCI BEM TORCIDO, CALADO É MELHOR! - Bota duas aí, mermão! E aí? A do santo é minha! Qualé? Tem de tirar a poeira da goela, meu! Esquentar o esqueleto e acender as ideias! Tamos nessa! E as novas? Ah, cantiga de grilo desaforada: toda eleição é assim! Sempre o mesmo balaio de gato! Tirante uma ou outra da cagada, no fim tudo igual, acuda aí. Qual nada! Vira! Essa queimou tudo! Largue de ser frouxo! Sim, vai, conta. Desde sempre, a mesma coisa! Mas quem é que tá com a razão ou está todo mundo mesmo equivocado? Rapaz, sei não, a coisa é difícil, não dá para segurar essa corda de guaiamum: um puxa pelo braço; o outro pelo outro, uma perna, a outra, o gogó, puxa a língua, os beiços, os cabelos, os colhões, tudo num puxavanque danado e para cada lado! O povo não aprende a votar, ora. Não diria isso. Eu digo que sou cabra do boqueirão, onça tigre de roncar brabo, num abro nem prum trem! Tá certo machão, mas digaí. Já visse o Cabraí, sujeito mais metido a cheio de vírgulas e interjeições, arrotando grandeza e sapecando elogios pingados aos borbotões, discursos de metro e meio inúteis de esculhambação, quatro anos no poder e não faz nada, a não ser sair inaugurando pedaço de coisas, vielas e ruas, brebotes, logradouros e praças, potocas, e onde haja lugar, marquise, poste, cotoco de pau ou sei lá mais, ele tascava o nome dos antepassados do Coronelão, maior babaovice! Sim, eu vi, e daí? Bota outra! Vai pegar o jipe! Vou nada, tô ligado! Mas e aí? Ele enrola direitinho no meio da discurseira, tudo na base do flatus vocis a se esgoelar estouvado, patati, patatá, até encalhar numa sílaba e ficar engasgado com a prótese na garganta, bufe-bufe nas costas para desentalar embaixo da maior vergonha, coisa da maior zombaria, fiu, fiu, u-hu! Pois é, até que no começo ele cumpriu a cartilha e foi cordão com o padrinho; depois, um velhaco de quatro costados! Traíra, isso sim; mas vale o ditado: ladrão que rouba outro, são tudo salafrário! Você sabia que o apelido dele é Capão de Quenga? Nossa, só sendo! Foi promovido de capataz a prefeito, pode? São os arrumadinhos dos sabidos: investem só nos que podem dar cloro. E o espertalhão dançou nos cornos do diabo e fez fama entre os matutos, ganhou a eleição, todo mundo sabe como. Um sonso. Vamos outra? Simbora! Eita, lasqueira! E aí? Pelo menos botou de novo nas retas os interesses do maioral, outro traste da pior marca, depois cagou fora do caco, que meladeiro. E serve para outra coisa? O que é do povo é de ninguém: sabichão que chegue na frente e afane tudo. Fez ele alguma coisa afora isso? Realmente. E agora pergunto: quem o elegeu? O Coronelão. E apois, cadê, morreu depois que passou a perna no véio? Não. Diziam: se ele rompesse com o desalmado não duraria nem um dia. Foi. Outra vez pergunto: quantos o Coronelão elegeu? Todos, até os que a gente já se esqueceu. Quantos fizeram alguma coisa pela gente? Nenhum. Estamos de mal a pior, sempre; só o Coronelão ganha e vai aboiando e tangendo todo mundo; quando ele perde um tantinho assim, manda adeus de mão fechada, ai de nós: a gente paga tudo e ele cada vez mais rico e mandão. Rapaz, cuidado com a boca. Eu falo. Você fala aqui, aos cochichos, quero ver se tem coragem de enfrentá-lo em riba do cinturão! Também, com aquela jagunçada toda, malta sem sangue que engole sem mastigar, quem há de se aventurar? São tudo uns molengas, falsos, gente de crista murcha do temperamento macio só para esconder o refugo de espalha-brasa e nada. Agora mesmo, nesta eleição, tem quantos candidatos? Dez. Espie: nenhum deles melhor nem pior, tudo de valia nenhuma. Isso, agora; daqui mais uns dias, vão se acomodando e engrossando o caldo de quem der mais. Além do mais, se juntar os dez não dá um pra remédio! No final das contas, todos pedirão penico ao Coronelão, mesmo que ele anuncie o seu preferido. E viva a canalhocracia! Bota outra, hoje estou com a gota serena! Esfria o quengo, desgraçado! Destá. Tem quem vá pro Cabraí que passou quatro anos só no jogo e na pederastia: vai gostar de fresco assim no inferno! Mas ele juntou dinheiro, roubou que só, tem gente que irá atrás dele, pode contar, maior corriola. Eu acho que ele é pirobo! O que é que tem, cada um dá o furico como quiser. Homem de mesmo, quem por aqui? Tudo uns safados da rodilha frouxa, qualquer apertinho de nada, peida de se melecar todo! Outra coisa: você votou nele! Ué, ele enrolou a gente, mas eu me arrependi; e você? Ah, você é um comunista caga-pau safado! Você é um nazista baba-ovo fidaputa! É por isso que não gosto de política, pra mim um prato cheio de merda! São todos uns cleptomaníacos na pilhagem do erário público, coisa mais feia! Acho que a gente se engana com isso, deveria de ter brio, pensar direito, mas quem gosta de pensar, ora, pensar como, é tudo muito inexplicável, só dá mesmo para comprar, gozar, enrolar os bestas, comer as catraias e sair por cima no melhor da fita! Nessa eleição a gente só vai trocar seis por meia dúzia, é o fim. A gente só vai pegando bigú, sabe-se lá como o condutor vai passar pela buraqueira em cada catabí. Nada, é só o começo de uma nova enrolada, pode crer. Por que o Coronelão ainda não matou o Cabraí, ele mesmo disse que já tinha mandado tirar as medidas pra funerária e enviou uma série de condolências para ele, os familiares e os eleitores dele. Coisa de circo, só para deixar a mundiça entretida e agitada. No fim, dá tudo no mesmo. Na verdade, no fim dá tudo certo, mesmo que esteja tudo errado. Agora vá, descasque esse abacaxi! Ixe! Vá é se lascar! Você que se foda, fidapeste!... (Imagem: Acervo ArtLAM). Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Consultar mapas pode diminuir o desejo de viajar que eles despertam, já que o ato de observá-los pode substituir o ato de viajar. Mas olhar para mapas é muito mais do que um ato de substituição estética. Quem abre um atlas quer tudo de uma vez, sem limites — o mundo inteiro. Esse anseio será sempre grande, muito maior do que qualquer satisfação que se possa obter ao alcançar o que se deseja. Prefiro um atlas a um guia de viagem, sem dúvida. Não existe livro mais poético no mundo...

Pensamento da escritora, editora e designer alemã Judith Schalansky. Veja mais aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU:

A morte nunca é desculpa para parar de viver...

Pensamento da escritora, roteirista e dramaturga britânica Catherine Johnson. Veja mais aqui.

 

MEMÓRIA REPRIMIDA – […] Segundo os céticos mais veementes e mordazes, os terapeutas especializados em terapia de recuperação de memória operam em um mundo de fantasia, repleto de pó de fada e monstros míticos. Lamentavelmente alheios às pesquisas modernas, praticando "análises psiquiátricas rudimentares", culpados de simplificação excessiva, extrapolamento e "citação incestuosa de opiniões", esses clínicos equivocados, despreparados e zelosos demais estão implantando falsas memórias nas mentes de clientes sugestionáveis, transformando-os em "dependentes terapêuticos perpétuos" e destruindo famílias. [...] Talvez o problema esteja na própria terapia: uma profissão que se tornou nossa nova religião, oferecendo respostas rápidas e fáceis para os problemas complexos e essencialmente insolúveis da vida. Em seu zelo por aliviar nosso sofrimento, terá a terapia reduzido todos os nossos problemas a sintomas, equiparado o sofrimento ao abuso e acalentado a falsa esperança de redenção por meio da ressurreição da inocência perdida? [...]. Trechos extraídos da obra The Myth of Repressed Memory: False Memories and Allegations of Sexual Abuse (St Mrtins Griffin, 1994), da psicóloga estadunidense Elizabeth Loftus (Elizabeth F. Loftus), autora de livros como Witness for the Defense: The Accused, the Eyewitness, and the Expert Who Puts Memory on Trial (1991) & Human Memory: The Processing of Information (1976). Veja mais aqui.

 

BIG BANG – [...] Tudo o que era necessário para medir o planeta era um homem com um bastão e um cérebro. Em outras palavras, basta aliar o intelecto a algum aparato experimental para que quase tudo pareça realizável. [...]. Os românticos talvez gostem de pensar em si mesmos como sendo feitos de poeira estelar. Os cínicos talvez prefiram pensar em si mesmos como lixo nuclear. [...] Ainda mais maravilhoso é o fato de que o modelo do Big Bang pode ser compreendido por todos. [...]. Trechos extraídos da obra Big Bang: The Origin of the Universe (HarperCollins, 2009), do escritor britânico Simon Singh (Simon Lehna Singh), autor de obras como The Simpsons and Their Mathematical Secrets (2013), Fermat’s Last Theorem: The compelling biography and history of mathematical intellectual endeavour (2002), The Code Book: The Science of Secrecy from Ancient Egypt to Quantum Cryptography (1999) e Fermat’s Last Theorem: The compelling biography and history of mathematical intellectual endeavour (1997).

 

EU NÃO SOU UM NOME - Eu não sou um nome, \ ocupei-me construindo outras \ que considerei necessárias, \ e os rodoviários subornys de mim, \ trilhas estreitas Cruzaram mil estradas, \ e aconchegantes casas para aqueles \ que a verdadeiras das ordens, \ aqueles \ que uma vergonha, \ solitário tesss de vernos, \ Categoria: cusões são montanhas \ e guinhas são calejadas pelo trabalho voluntário \ de o criar mundo — \ diques e pontess sobre o mar, \ admiração por seus e suas forças, \ e aprovado. \ Composi expansões em mim, pois tinha visto muito \ e também pressentido, \ e agora são são campos floridos. \ Cidades se cruzavam em mim, \ ali turbilhonavam o tráfego e o vento, \ e eu sua dúvida urbana, \ mas tambémo descobrir. \ Moinhos de água e moinhos de vento — \ e silêncio, \ apenas alegria agora — \ pois o que resta de duas partículas construídas juntas \ não é o, \ mas, como nuvens, hum objetos de novo de novo. Poema da escritora, fotógrafa e tradutora armênia Anna Davtyan.

 


DANIELA SPIELMANN – Curtindo o álbum Braziian Breath (Aosis Records, 2011), da saxofonista, flautista, compositora e arranjadora Daniela Spielmann, mostrando a música instrumental brasileira com mistura de ritmos brasileiros, como o frevo, o maracatu e o samba.


EM BUSCA DA MEMÓRIA, DE ERIC KANDEL - [...] A memória sempre me fascinou. Pense no que ela é capaz de nos proporcionar. Podemos nos lembrar, por vontade própria, de nosso primeiro dia de aula na escola secundária, de nosso primeiro encontro, de nosso primeiro amor. Ao fazer isso, não nos recordamos somente do evento em si, mas experimentamos também a atmosfera em que ele ocorreu — os cenários, os sons, os cheiros, o ambiente social, o momento do dia, as conversas e o clima emocional. Recordar o passado é uma forma de viagem mental no tempo. Ela nos liberta dos limites temporais e espaciais e permite que nos movamos livremente ao longo de dimensões completamente outras. Toda revolução tem suas origens no passado, e a que culminou na nova ciência da mente não é nenhuma exceção. Embora o papel central da biologia no estudo dos processos mentais fosse novo, a capacidade dessa disciplina de influenciar o modo como o homem vê a si mesmo já estava em jogo. Charles Darwin provou que não somos uma criação especial, mas sim o produto de uma evolução gradual a partir de animais inferiores, que são nossos ancestrais. Darwin sustentou, além disso, que todas as formas vivas provêm de um ancestral comum — remontam à criação da vida propriamente dita. Ele propôs a ideia ainda mais arrojada de que a força que impulsiona a evolução não é nenhum propósito consciente, inteligente ou divino, mas um processo “cego” de seleção natural, um processo completamente mecânico de seleção por ensaio e erro, que atua com base nas variações hereditárias. [...] A nova biologia da mente é potencialmente mais perturbadora, pois sugere que não apenas o corpo, mas também a mente e as moléculas específicas por trás de nossos processos mentais mais complexos — a consciência que temos de nós mesmos e dos outros, a consciência do passado e do futuro — evoluíram de nossos ancestrais animais. Além disso, ela postula que a consciência é um processo biológico que será um dia explicado em termos de vias de sinalização molecular utilizadas por populações de células nervosas em interação. [...] As descobertas fornecidas pela nova ciência da mente se manifestam de maneira mais evidente em nossa compreensão dos mecanismos moleculares que o cérebro utiliza para armazenar as memórias. A memória — a capacidade de adquirir e armazenar informações tão simples quanto os detalhes da vida cotidiana e tão complexas quanto o conhecimento abstrato da geografia ou da álgebra — é um dos aspectos mais notáveis do comportamento humano. A memória nos possibilita resolver os problemas com que nos defrontamos na vida diária, evocando diversos fatos ao mesmo tempo, uma capacidade que é vital para a solução de problemas. Num sentido mais amplo, a memória proporciona continuidade às nossas vidas. Ela nos fornece uma imagem coerente do passado que coloca em perspectiva a experiência atual. A imagem pode não ser racional ou exata, mas é persistente. Sem a força coesiva da memória, a experiência se estilhaçaria numa quantidade de fragmentos tão elevada quanto o número de momentos de uma vida. Sem a viagem mental no tempo que a memória nos possibilita, não teríamos consciência alguma de nossa história pessoal, não teríamos nenhum meio de nos recordarmos das alegrias que servem como marcos luminosos em nossas vidas. Somos quem somos por obra daquilo que aprendemos e de que lembramos. Nossos processos de memória servem melhor às nossas necessidades quando podemos recordar facilmente os eventos prazerosos em nossa vida e diluir o impacto emocional dos eventos traumáticos e dos desapontamentos. Mas, às vezes, as lembranças terríveis persistem e arruínam a vida, como acontece no transtorno de estresse pós-traumático, condição da qual sofrem algumas pessoas que tiveram uma experiência direta dos eventos aterrorizantes do Holocausto, da guerra, de um estupro ou de um desastre natural. [...] A nova ciência da mente acredita que o entendimento mais profundo da biologia da memória conduzirá a tratamentos mais eficazes tanto para a perda da memória quanto para a persistência das lembranças dolorosas. De fato, é bem provável que essa nova ciência venha a ter implicações práticas para muitas áreas da saúde. Ainda assim, seus objetivos vão além da busca de soluções para doenças devastadoras. A nova ciência da mente tenta penetrar o mistério da consciência, incluindo seu mistério maior: o modo como o cérebro de cada pessoa cria a consciência de um eu singular e o senso de livre arbítrio. EM BUSCA DA MEMÓRIA – O livro Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente, do neurocientista austríaco Eric Richard Kandel, trata sobre a memória pessoal e a biologia do armazenamento da memória, a infância, a educação americana, a célula, a fala e a célula nervosa, conversações entre as células nervosas, sistemas neuronais simples e complexos, os diferentes tipos de memória nas diferentes regiões do cérebro, em busca de um sistema ideal para estudar a memória, análogos neurais da aprendizagem, fortalecendo as conexões sinápticas, um centro para o estudo da neurobiologia e do comportamento, os mesmo os comportamentos simples podem ser modificados pela aprendizagem, a experiência modifica as sinapses, os fundamentos biológicos da individualidade, as moléculas e a memória de curto prazo, a memória de longo prazo, os genes da memória, o diálogo entre os genes e as sinapses, retornando à memória complexa, as sinapses também guardam nossas mais caras lembranças, a imagem cerebral do mundo externo, é preciso prestar atenção!, uma pilulazinha vermelha, ratos & homens e doenças mentais, um novo modo de tratar a doença mental, a biologia e o renascimento do pensamento psicanalítico, a consciência, redescobrindo Viena via Estocolmo e aprendendo com a memória: perspectivas. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIA
KANDEL, Eric. Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

ELA, VULCÂNICA

Seus olhos me devoram

Sua boca me devassa

Seus seios fazem festa no meu corpo

Para o seu convulso sirva-me sua ebulição

Para que juntos, nus, nossa erupção.

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Cheiro da felicidade & Segunda feira do Trâmite da Solidão aqui.


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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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sábado, novembro 07, 2015

KANDEL, AUBREY, CAMUS, CECÍLIA, WAGNER, SOPHIA BREYNER, RENOIR & LAURENZI.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? E SE NADA ACONTECESSE, NADA VALERIA – Como diz o ditado: nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio, madrugada adentro até o raiar de um novo amanhecer. Basta perceber que para alguns o entardecer é o sinal de vida: porque a noite é de descanso do trabalho estafante. Outro dia amanhece e tudo de novo. Prosseguir na árdua labuta, sem estímulos, sem incentivos, a rotina entediante, a chatura dos que são piores que pisada proposital no calo dolorido, que futucada na ferida mal sarada, que cipoada no pau da venta para desnortear o que já está confuso e perdido. O pior: estar na profissão e não sê-la. Nenhum prazer nas tarefas, nenhuma alegria nos relacionamentos, tudo avolumando situações aversivas. Tudo isso vai juntando naquelas quantas vezes se acerta errando a tropeçar de novo no erro por pensar que está certo; naquelas situações qual Sísifo subindo morro pra conquistar o desejado e quando se chega no topo, não estava lá, o prêmio está lá em baixo, e fulo da vida, praguejando aos céus e aos ventos, desce tudo de novo embolando ribanceira abaixo. Aí se tropeça, porra! Que coisa! Vai ao fundo do poço. Dali não há mais pra onde cair, se resta recomeçar tudo de novo na subida íngreme até o cúmulo dos mínimos, para se alcançar o que nem se sabe por duvidoso alcançável. É, eu mesmo quando fui, estava só; ao voltar, todos iam. Sempre assim, ledo engano. É como aqueles que sofreram mais que David Copperfield na mão do Uriah Heep das autobiografias de Dickens, ou que exasperou como Dédalus no Joyce quando jovem, ou que se viu como o Rastaquera na Foto da Capa: não mirava algum futuro. Nem um fiapinho de luz pra indicar o caminho a seguir. Pois é, quem não almejou a vitória, lutou, sangrou, persistiu e quando viu o pódium de perto, amargou a mais tremenda e vergonhosa derrota. Desabou-se tudo, o mundo caiu. Resta recolher os escombros e reorganizar tudo de novo. Assim é a vida. Valorizamos tão pouco os nossos pequenos êxitos de só nos lembrarmos das quedas com seus arranhões que nos fissuram o íntimo e nos deixam sempre com o sabor de beijo partido. Assim é a vida, não há final feliz – pelo menos para o que se entende por felicidade pela acumulação. Haverá sempre desafios a vencer. Cada êxito, novo desafio. Será que Shakespeare alcançaria a glória nos tempos de hoje? A vida passa, assim é a vida. E se nada acontecesse, nada valeria. E veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Young Girl Bathing, do pintor impressionista francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Veja mais aqui.


Curtindo o dvd Tannhäuser (Tannhäuser und der Sängerkrieg aus Wartburg, 1845), do compositor, maestro, diretor de teatro e ensaísta alemão Richard Wagner (1813-1883), conductor Colin Davis & Chor und Orchester der Bayreuther Festspiele, soprano Gwyneth Jones. Veja mais aqui. 

AS CÉLULAS NERVOSAS & O COMPORTAMENTO – No livro Princípios de Neurociências (Artmed, 2014), do neurocientista austríaco Eric Richard Kandel et al, encontro o capítulo que trata das células nervosas e do comportamento, do qual destaco o trecho: [...] Os seres humanos são imensamente superiores a outros animais por sua capacidade de explorar seu meio ambiente. A notável variedade de comportamentos humanos e a complexidade do ambiente que 0 ser humano tem sido capaz de criar para si depende de um sofisticado arranjo de receptores sensoriais conectados a uma "maquinaria" neural altamente flexível, um cérebro, que é capaz de discriminar uma enorme variedade de eventos no ambiente, afluxo contínuo de informação a partir desses receptores e organizado pelo encéfalo em percepções (algumas das quais são armazenadas na memoria para referencia futura) e depois em respostas comportamentais apropriadas. Tudo isso é efetuado pelo cérebro usando células nervosas e as conexões entre elas. As células nervosas individuais, unidades básicas do encéfalo, tem uma morfologia relativamente simples. Apesar de 0 encéfalo humano conter um número extraordinário dessas células (da ordem de milhares de neurônios), que podem ser classificadas em pelo menos mil tipos diferentes, todas as células nervosas compartilham a mesma arquitetura básica. A complexidade do comportamento humano depende menos da especialização de células nervosas individuais e mais do fato de que muitas dessas células formam circuitos anatômicos precisos. Um dos principios-chave da organização do encéfalo, portanto, é que células nervosas com propriedades basicamente similares podem produzir acoes muito diferentes por causa do modo como estão conectadas umas as outras e aos receptores sensoriais e músculos. [...], Veja mais aqui, aqui e aqui.

A SAGA – No livro Histórias da terra e do mar (1972 – Figueirinhas, 2013), da escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner (1919-2004), encontro o conto A saga, do qual destaco os trechos a seguir: O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório. O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como urna boa orquestra, afinava os seus instrumentos. Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quando escutava o cântico do órgão da igreja luterana, na igreja austera, solene, apaixonada e fria. Para resistir ao vento, estendeu-se ao comprido no extremo do promontório. Dali via de frente o inchar da ondulação cada vez mais densa como se as águas se fossem tornando mais pesadas. Agora as gaivotas recolhiam a terra. Só a procelária abria rente à vaga o voo duro. À direita, as longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chão o caule fino. Nuvens sombrias enrolavam os anéis enormes e, sob uma estranha luz, simultaneamente sombria e cintilante, os espaços se transfiguravam. De repente, começou a chover. A família de Hans morava, no interior da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias de temporal, através da floresta longínqua, se ouvia. Mas ele vinha muitas vezes até à pequena vila costeira e, esgueirando-se pelas ruelas, caminhava ao longo do cais, ao lado de botes e veleiros, atravessava a praia e subia ao extremo do promontório. Ali, no respirar da vaga, ouvia o respirar indecifrado da sua própria paixão. Nesse dia, quando ao cair da noite entrou em casa, Hans curvou a cabeça. Pois aos catorze anos já tinha quase a altura de um homem e, em Vig, as portas de entrada são baixas. Assim é desde o tempo antigo das guerras quando os invasores que ocupavam a ilha penetravam nas casas de cabeça erguida mas exigiam que a gente da ilha se curvasse para os saudar. Então, os homens de Vig baixaram o lintel das suas portas para obrigarem o vencedor a baixar a cabeça. Sören, pai de Hans, era um homem alto, magro, com os olhos cor de porcelana azul, os traços secos e belas mãos sensíveis que mais tarde, durante gerações, os seus descendentes herdaram. Nele, como na igreja luterana, havia algo de austero e solene, apaixonado e frio. A casa e à família imprimia uma inominada lei de silêncio e reserva onde o espírito de cada um concentrava a sua força. De certa forma Sören reconhecia o risco que corria: sabia que é no silêncio que se escuta o tumulto, é no silêncio que o desafio se concentra. Mas ele impunha a si mesmo e aos outros uma disciplina de responsabilidade e de escolha dentro da qual cada um ficava terrivelmente livre. Havia porém algo de taciturno e ansioso em Sören: ele pensava talvez que a integridade humana, mesmo a mais perfeita, nada podia contra o destino. Do dever cumprido, da liberdade assumida, não esperava sucesso nem prosperidade, nem mesmo paz. Os seus irmãos mais novos - Gustav e NieIs - tinham morrido no naufrágio de um veleiro que lhe pertencia. Sören sabia que o seu barco era um bom barco onde ele próprio inspecionara com minúcia cada cabo e cada tábua, sabia que os seus jovens irmãos eram perfeitos homens do mar e hábil e competente o capitão a quem tudo entregara. No entanto, o navio naufragou quando a experiência e o cálculo não mediram exatamente a força e a proximidade do temporal. Mal a notícia do naufrágio foi confirmada pelo cargueiro inglês que dois dias depois recolhera ao largo os destroços do veleiro desmantelado - o mastro partido, as bóias, o bote virado - Sören vendeu os seus barcos e comprou terras no interior da ilha. Dizia-se mesmo que nunca mais olhara o mar. Dizia-se mesmo que nesse dia tinha chicoteado o mar. No entanto Hans suspirava e nas longas noites de Inverno procurava ouvir, quando o vento soprava do sul, entre o sussurrar dos abetos, o distante, adivinhado, rumor da rebentação. Carregado de imaginações queria ser, como os seus tios e avós, marinheiro. Não para navegar apenas entre as ilhas e as costas do Norte, seguindo nas ondas frias os cardumes de peixe. Queria navegar para o Sul. Imaginava as grandes solidões do oceano, o surgir solene dos promontórios, as praias onde baloiçam coqueiros e onde chega até ao mar a respiração dos desertos. Imaginava as ilhas de coral azul que são como os olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto, o calor, o cheiro a canela e laranja das terras meridionais. Queria ser um daqueles homens que a bordo do seu barco viviam rente ao maravilhamento e ao pavor, um daqueles homens de andar baloiçado, com a cara queimada por mil sóis, a roupa desbotada e rija de sal, o corpo direito como um mastro, os ombros largos de remar e o peito dilatado pela respiração dos temporais. Um daqueles homens cuja ausência era sonhada e cujo regresso, mais navio ao longe se avistava, fazia acorrer ao cais as mulheres e as crianças de Vig e a história que eles contavam era repetida e contada de boca em boca, de geração em geração, como se cada um a tivesse vivido. Sören e Maria jantavam com os filhos, Hans e Cristina, em redor do círculo luminoso da lâmpada. Lá fora as madeiras da janela batiam, através da floresta arfava o rumor marinho da tempestade. Por entre as agulhas dos pinheiros e os ramos das bétulas perpassavam ecos, sibilâncias, gritos e, contra o céu baixo de nuvens, ressoava o longínquo tumulto da rebentação. - Sören, que notícias ouviste hoje na vila? - perguntou Maria. - Más notícias. O Elseneur devia ter entrado a barra a meio da tarde mas, ao pôr-do-sol, ainda não se avistava. Vão ser obrigados a passar o temporal e a noite no mar. - É um bom barco - disse Hans que conhecia o Elseneur palmo a palmo. - É um navio que aguenta muito mar. - Deus os guarde - murmurou Maria. Pois o Elseneur era o melhor navio de Vig e a sua tripulação era formada por gente da ilha, homens jovens que ela conhecia desde o berço, ou velhos lobos-do-mar que a conheciam desde a própria infância. Porém, nessa noite, enquanto Hans dormia, o Elseneur naufragou contra os rochedos negros das falésias. Nenhum homem se salvou. O vento espalhou os gritos no clamor da escuridão selvagem, a força das braçadas desfez-se nos redemoinhos, a água tapou as bocas. Nem os que treparam aos mastros se salvaram, nem os que se meteram nos botes, nem os que nadaram para terra. O mar quebrou tábua por tábua o casco, os mastros, os botes e os marinheiros foram rolados entre a pedra e a vaga. [...] Veja mais aqui e aqui.

CANÇÕES –No livro As canções (Portugal, 1956), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964), destaco as canções: Inesperadamente, / a noite se ilumina: / que há outra claridade / para o que se imagina. / Que sobre-humana face / vem dos caules da ausência / abrir na noite o sonho / de sua própria essência? / Que saudade se lembra / e, sem querer, murmura / seus vestígios antigos / de secreta ventura? / Que lábio se descerra / e - a tão terna distância! - / conversa amor e morte / com palavras da infância? / O tempo se dissolve: / nada mais é preciso, / desde que te aproximas, / porta do Paraíso! / Há noite? Há vida? Há vozes? / Que espanto nos consome, / de repente, mirando-nos? / ( Alma, como é teu nome?) / * / Venturosa de sonhar-te, / à minha sombra me deito. / (Teu rosto, por toda parte, / mas, amor, só no meu peito!) / -Barqueiro, que céu tão leve! / Barqueiro, que mar parado! / Barqueiro, que enigma breve, / o sonho de ter amado! / Em barca de nuvem sigo: / e o que vou pagando ao vento / para levar-te comigo / é suspiro e pensamento. / -Barqueiro, que doce instante! / Barqueiro, que instante imenso, / não do amado nem do amante: / mas de amar o amor que penso! De um lado cantava o sol, / do outro, suspirava a lua. / No meio, brilhava a tua / face de ouro, girassol! / Ó montanha da saudade / a que por acaso vim: / outrora, foste um jardim, / e és, agora eternidade! / De longe, recordo a cor / da grande manhã perdida. / Morrem nos mares da vida / todos os rios do amor? / Ai! Celebro-te em meu peito, / em meu coração de sal, / ó flor sobrenatural, / grande girassol perfeito! / Acabou-se-me o jardim! / só me resta, do passado, / este relógio dourado / que ainda esperava por mim... / * / Ó noite, negro piano, / - os sonhos soam longe, / num teclado caído / pelo fundo horizonte. / À música se inclina / o pensamento insone: / em que clave se escreve / o itinerário do homem? / (Mas as brisas celestes / que se abraçam na noite ; porém folhas de silêncio / na vaporosa fonte...) / Ó música sonhada, / - por que não corresponde / o desenho que vives / à vida que te sonhe...? Veja mais aqui e aqui.

ESTADO DE SÍTIO – A peça teatral em três partes, Estado de Sítio (1948 – Civilização Brasileira, 2002)), do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960), conta uma história ocorrida numa pequena cidade litorânea assolada pela peste e dominada pelo medo. Da obra destaco o Prólogo: Abertura musical, em torno de um tema sonoro, lembrando a sirena de alerta. O pano abre-se, com a cena completamente escura. A abertura musical termina, mas o tema de alerta permanece, como um zumbido longínquo. Subitamente, ao fundo, surgindo do lado do pátio, um cometa se desloca em direção do jardim. Ilumina, em sombras chinesas, os muros de uma velha fortificação espanhola e a silhueta de vários personagens que voltam as costas ao público, imóveis, as cabeças estendidas em direção ao cometa. Soam quatro horas. O diálogo é mais ou menos incompreensível, como um resmungo. – Fim do mundo! – Não, homem! – Se o mundo acabar... – Não, homem! o mundo, mas não a Espanha! – Mesmo a Espanha pode morrer. – De joelhos. – É o cometa do Mal! – Não a Espanha, homem, não a Espanha! (Duas ou três cabeças voltam-se. Um ou dois personagens se deslocam, com precaução. Depois tudo volta à imobilidade. O zumbido torna-se, então, mais intenso, mais estridente e se desenrola, musicalmente, como uma palavra inteligível e ameaçadora. Ao mesmo tempo, o cometa cresce desmesuradamente. Bruscamente, um grito terrível de mulher, que súbito, faz silenciar a música e reduz o cometa a seu tamanho normal. A mulher foge, ofegante. Balbúrdia na praça. O diálogo, mais sibilante e mais perceptível, não está, ainda, nitidamente compreensível). – É sinal de guerra! – Certamente que é. – Não é sinal de nada. – Depende. – Basta. É o calor. – O calor de Cádiz. – Basta! – Ele sibila forte demais! – Ensurdece, sobretudo. - É uma praga, sobre a cidade! – Ai! Cádiz! Uma praga sobre ti. – Silêncio! Silêncio! (Fixam, de novo, o cometa, e, então, se ouve, desta vez, distintamente, a voz de um oficial das guardas civis). [...] Veja mais aqui e aqui.

NED RIFLE – O drama independente Ned Rifle (2014), do cineasta estadunidense Hal Hartley, é a reunião de uma sequência dos acontecimentos do filme Fay Grim, contando a história de um personagem que passou quatro anos na prisão por supostas atividades terroristas e é transferido para uma penitenciária federal para atender a uma sentença de prisão perpétua. O filho Ned Rifle, foi colocado em proteção a testemunhas com uma família cristã devota. O filme segue a intenção de do filho querer matar seu pai, por arruinar a vida de Fay Grim. Posteriormente, Ned encontra Susan, que tem uma ligação com o passado de seu pai. Trata-se de um filme que teve uma recepção favorável da crítica especializada, passando a ser bastante festejado nos meios cinematográficos. O destaque do filme vai para a belíssima atriz e comediante estadunidense Aubrey Christina Plaza que centraliza pra si todas as cenas da obra. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O universo das mulheres de Paul Laurenzi.
Veja mais aqui.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Noite Romântica, a partir das 21hs (horário de verão), com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Em seguida, o programa Mix MCLAM, com Verney Filho e na madrugada Hot Night, uma programação toda especial para os ouvintes amantes. Para conferir online acesse aqui .

CURSO DINÂMICO DE ORATÓRIA
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quinta-feira, fevereiro 19, 2009

FÉLIX ARVERS, ROBERT MUSIL, ERIC KANDEL, PAUL PEEL, UNA DOS AMBULANTES DE DEUS & MUSA TATARITARITATÁ



A arte do pintor canadense Paul Peel (1860-1892).

UNA DOS AMBULANTES DE DEUS - A vida: o Una, rebotalho de águas mansas. Alguns dias ficava calmo, sereno, levado na correnteza quase sem pressa. Ninguém precisava nem se tocar de sua presença, nem quando amanhecia, nem de tarde, nem de noite, nem na madrugada. Uma companhia invisível, só lembrada quando a carestia reinava e buscava-lhe para saciar a fome e a sede. Noutros, quando dava a invernada abundante, era a sua irrefreável fúria inundando segredos e adjacências citadinas, lavando tudo: as paixões, as misérias e a fé. Marcando presença indomável. De repente, uma nesguinha de nada, menor que o menor dos brejos, menor que as valetas miúdas, fiapinho tênue se valendo do encontro dos pedregulhos para chacota dos incólumes que não se atreviam desafiá-lo, coitado, que riem de seu assoreamento até findar-lhe insepulto. Nada não, passa. Ainda é a essência de algumas experiências exclusivas, inuptas, verdadeiramente ímpares, na oportunidade de remontar-se memórias, ver-se peixe, ou pedra funda, ou alga, ou redemoinho, ou carreirão pro mar. Fizera-se pelo escoamento dos dias e noites nas corredeiras, levando pela correnteza até onde pudesse dar, desconhecendo se um caudaloso Amazonas, um movimentado Reno, um sinistro Mississipi, um avexado Volga, só testemunhando a vida, alegrias e revertérios, despropósitos e pusilanimidades, afogamentos e navegações alheias. De certeza, não seria nenhum Tâmisa, nem Sena, nem Tejo, era a minha sina pelas turbulências menores, nos redemoinhos perto do areial, na sede da nascente, na distância do leito, na entrega da foz. Lá, todos os fantasmas de doidos, desvalidos e autóctones emergiam das entranhas mais profundas para mostrar-se que a beleza maior escorria pelos cabelos de Iemanjá, descia como estrelas cadentes por seus belos seios, deslizava por seu ventre e alcançava o feliz idôneo que mergulhasse a coragem de viver no meio de um o Nilo que testemunhara toda abastança e toda decadência. Era como se pudesse ser um São Francisco descendo de São Bento, atravessando Catendes, alagando Palmares com Águas Pretas pelos Barreiros até alcançar nas Várzeas o Atlântico de seu chegar, carregando por séculos e milênios reminiscênias de embarcações furtivas de origem francesa, holandesa, portuguesa; refugiando negros quilombolas, assistindo índios caetés e carregando a verdadeira história dos fatos nas mensagens de suicidas com cartas de amor no interior de garrafas; nos acaris, nos caritos, nas cundundas; no jangadeiro que saía de uma margem à outra sem a menor pressa de ver que o tempo passou e já ficou quase tarde para viver; no voluntário que timbungasse com as nojeiras de antanho e se safasse são e salvo, pronto e invulnerável; na lágrima dos que sofrem com as lâminas do passado e não sabem do presente e muito menos enxergam futuro algum; na manchete estampada num jornal velho que repisa o momento presente que não consegue sair do mesmo lugar de sempre; no remorso mantido à custa de tanta ignomínia; no fedor da nobreza brega que se arrasta energúmena; no urinol repositário de todas as maledicências; nos adultérios consentidos, nas bancarrotas escandalosas, nas reputações arranhadas, riscadas e borradas que andam com o pau da venta em pé de empáfias nas lufadas das infâmias e de astuciosos ardis nas adiposidades de rapapés fingidos; na demência de ver que a vida é outra coisa além deste marasmo que judia ao lado do chocante das banalidades e trafegam nas catacumbas da honra; na ferrugem da coragem que se expressa no legado pobretão; de herdeiros acéfalos e indigentes nos saques dos famintos, das ticoqueiras, dos bóias-frias nômades, dos calungas, do mané-gostoso, do nego-bom, dos cardumes, dos lixeiros, dos desejos não correspondidos nos esgotos, nas fotos do lambe-lambe, nas molduras encardidas, nas gavetas cabalísticas, nas jantes inexoráveis da erosão descabida e na demência dos que não conseguem viver de solidariedade. Por mim, não posso esquecer que sempre fora este o meu batismo e a minha mais vã crença de voluntário ambulante de deus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS – [...] evocar uma lembrança episodicamente ―não importa o quanto ela seja importante― não é como olhar uma fotografia num álbum. A recordação é um processo criativo. Acredita-se que aquilo que a mente armazena é apenas uma porção nuclear da memória. Ao ser recordada, essa porção nuclear é então elaborada e reconstruída, com subtrações, adições, elaborações e distorções [...]. Trecho extraído da obra Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente (Companhia das Letras, 2009), do neurocientista austríaco Eric Kandel. Veja mais aqui.

ENSAÍSMO - […] ainda que não fosse a verdade, não teria menos solidez que ela. [...] procura compreender-se de outra forma; com inclinação para tudo o que o multiplique interiormente [...] Mais tarde, [...] isso se transformou em Ulrich numa idéia que já não ligou à incerta palavra hipótese, mas, por determinadas razões, ao conceito singular de ensaio. Mais ou menos como um ensaio examina um assunto de muitos lados em seus vários capítulos, sem o analisar inteiro [...] ele acreditava ver e tratar corretamente o mundo e a própria vida. [...] Na natureza de Ulrich havia algo que agia de modo distraído, paralisante e desarmante, contra toda a ordem lógica, contra a vontade clara, contra os ordenados impulsos da ambição; também isso se ligava ao nome que ele escolhera: ensaísmo [...] pois um ensaio não é a expressão secundária nem provisória de uma convicção que em melhores condições poderá ser considerada verdade ou reconhecida como erro [...] mas um ensaio é a forma única, e irrevogável, que a vida interior de uma pessoa assume num pensamento decisivo. [...] O autor é mais modesto e menos solícito do que supõe o título. Não apenas estou convencido de que aquilo que vou dizer é falso, como também o é aquilo que irão dizer em contrário. Mesmo assim, é necessário começar a falar disso; a verdade, num objeto como este, não está no centro, mas sim em torno, como um saco que, a cada nova opinião que se enfia nele, muda de forma mas ganha em consistência. [...] Não se trata de outra coisa a não ser de um mal-entendido, uma confusão entre entendimento (Verstand) e alma. Não é que tenham os muito entendimento e pouca alma, mas que tenhamos pouco entendimento nas questões da alma, [...] não agimos nem pensamos acerca do nosso eu. Nisso reside a essência de nossa objetividade; ela relaciona as coisas entre si [...] A objetividade não funda, assim, nenhumaordem humana, mas sim objetiva [...]. Trechos extraídos da obra O homem sem qualidades (Nova Fronteira, 2006), do romancista e dramaturgo austríaco Robert Musil (1880-1942). Veja mais aqui.

SONETO – Tenho na alma um segredo e um mistério na vida: / um amor que nasceu, eterno, num momento. / É sem remédio a dor; trago-a pois escondida, / e aquela que a causou nem sabe o meu tormento. / Por ela hei de passar, sombra inapercebida, / sempre a seu lado, mas num triste isolamento, / e chegarei ao fim da existência esquecida / sem nada ousar pedir e sem um só lamento. / E ela, que entanto Deus fez terna e complacente, / há de, por seu caminho, ir surda e indiferente / ao murmúrio de amor que sempre a seguirá. / A um austero dever piedosamente presa, / ela dirá lendo estes versos, com certeza: / “Que mulher será esta?” e não compreenderá. Poema do poeta e dramaturgo francês Félix Arvers (1806-1850).

 A arte do pintor canadense Paul Peel (1860-1892).


Gentamiga, estou azuadíssimo com o zoadeiro no meu pé do maluvido. A turma não pára de me azucrinar para trazer o resultado da Musa Tataritaritatá do ano passado.Vixe!

Primeiro, foi que eu achei de deixar a cargo do Papa Berto I da ICAS – Besta Fubana e do Duque de Jaraguá Carlito Lima, todo o certame.

Ocorre que, os dois embeiçadores contumazes daquela que matou o guarda, nem começando a reunião inaugural do concurso, tomaram uma de arrearem decilitrados trocando as pernas bicadinhos da silva e arengando com todo mundo porque defendem que não foram os cientistas nem ninguém além dos bêbados que ensinaram primeiro que a terra gira em torno do sol. Fodeu, Maria-preá. Deixei-los lá trocando as bolas.

Segundo, acontece que estou completamente arrependido de delegar poderes. Essa é uma prática que aqui no Brasil ninguém está acostumado ainda não. Culpa do nosso atraso secular, né?

Pois bem, achei de delegar poderes pra turma do Big Shit Bôbras.

Repare só a merda que deu e depois me diga se não é de se arrepender até o último pentelho do quiba. Vamos lá.

O chabu começou quando foi constatado que houve mais votantes que votos. Como é? Quando se conferiu direito, tinha mais voto que votante. Trocando em miúdos: simplesmente a conta não batia. Besteira, né? Nada!

A patrulha do Doro apresentou o resultado de que foram apurados 11 mil 966 votos e meio. E meio? Sim, porque o do Afredo Bocoió se conta pela metade.

Não confiando nesse resultado, instaurei uma comissão de sindicância para conferir tudo porque o negócio aqui é sério mesmo. Resultado: foram computados 37 mil 655 votos e votantes. Vixe! O triplo da contagem do Doro.

Foi aí que mandei tirar a prova dos nove. Resultado: apurou-se simplesmente 15 mil 263 votos. Nem um, nem outro. Coisa de louco.

Tirando o dito pelo não dito, nem valia eu querer mais nada. Mas, mesmo assim, fui verificar e para se ter uma suavezíssima idéia do rolo todo, só Padre Bidião votou sozinho por ele e por seus mais de 20 clones (menos um, aquele do caso Nardoni, lembra?).

Afora isso tinha de tudo: defunto que votou 10 vezes, apenado que surrupiou voto, político que corrompeu eleitor, neguinho que vendeu o voto, escrutinador adulterando resultado, juiz anulando tudo, uma baboseira geral.

Assim, também, não se salvando ninguém, cada um puxou a sardinha pro seu frasco, votando mais de uma vez e fazendo descaradamente boca-de-urna, propaganda enganosa e boataria braba, tudo em nome da preferida de cada um dos enjeitados.

Aí, meu, primando pela decência e lisura do projeto, afinal eleição é uma coisa que não dá para segurar a onda, resolvi tomar as rédeas e eu mesmo tentei desembrulhar essa paranoiada toda. Fiz o que devia ser feito, chamei tudo na grande, dei uns bregues, sentei porrada na tuia de votos e disse que quem mandava na mercadoria toda era eu e fim de papo.

Então, chamei uma bateria duma escola de samba dessas de uns 800 batedores de bombo e fechei a conta.

Pronto, tudo enretado e nos eixos, agora, em homenagem às nossas distintas mulheres, finalmente, o resultado da MUSA TATARITARITATÁ!!!

Em primeiríssimo lugar, Maurren Maggi, a nossa ourinada atleta com 2132 votos.

Em segundo lugar, empatadas:
a cantora, interprete e compositora Karyme Hass,
a poeta, ensaísta e professora Maria Esther Macial,
a atriz Marcya Harco,
e a cantora, poeta e compositora Dhara todas com 2.101 votos.

Em terceiro lugar, empataram também:
A atriz, jornalista e escritora Tammy Luciano,
a cantora, dançarina e atriz Syla Syeg,
a atriz, poeta e autora teatral Alê Cavagna,
a cantora e compositora Ruthe London,
e a cantora Irah Caldeira, cada uma com 2099 votos.

Em quarto lugar apareceram a poeta e escritora Suzana Mafra,
a poeta, escritora e advogada Mariza Lourenço,
a cantora, compositora e bailarina Tatiana Cobbett,
a poeta, atriz e cantora Clauky Saba,
a poeta, escritora e advogada Valeria Tarelho,
a artista plástica Ana Luisa Kaminski
e a cantora e compositora Jozi Lucka com todas elas tendo individualmente 2.001 votos.

Em quinto lugar aparecem a atriz, apresentadora e colunista Claudia Cozzella,
a cantora e compositora Maria Dapaz,
a cantora Rogeria Holtz,
a cantora e compositora Monique Kessous,
a cantora e compositora Di Mostacatto,
a cantora e compositora Drica Novo,
a fotografa Andreia Kris,
a cantora Silvili,
a poeta, pedagoga e produtora cultural Catarina Maul,
a poeta Greta Benitez,
a cantora e compositora Bee Scott,
a cantora e compositora Rosana Simpson,
e a atriz Maria Dvorek que obtiveram 2 mil votos cada uma delas.

Aqui a nossa homenagem a todas as mulheres maravilhosas aqui representadas!!!
E a partir de 02 de março participe da MUSA TATARITARITATÁ.





Veja mais sobre:
De segunda pra terça, Herbert de Souza – Betinho, Carlos Byington, Hesíodo, William Etty, Jaques Morelenbaum, Luiz Nogueira, Meca Moreno, &Armando Lemos aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...