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sexta-feira, novembro 13, 2020

DAMON GALGUT, ANNICK DE SOUZENELLE, SUSAN BROWNELL ANTHONY, MELANIE DIENER, ARNULF RAINER, REYNALDO FONSECA & TRANSIÇÃO LISTRADA

 

TRÍPTICO DQC: A CIDADE É SUA CASA – Vier letzte Lieder: September (As Quatro Últimas Canções, 1948), do compositor e maestro alemão Richard Strauss, em parceria com Hermann Hesse: O jardim está de luto. / A chuva cai fria sobre as flores. / O verão estremece em silêncio, / aguardando o seu fim. / Douradas, folha após folha caem / do alto pé de acácia. / O verão sorri, surpreso e lânguido, / no sonho moribundo do jardim. / Muito tempo ainda junto às rosas / ele se detém, aspirando ao repouso. / Lentamente ele fecha / seus olhos cansados. Interpretação da soprano operística alemã Melanie Diener, Konzert zum Neuen Jahr 2006 aus dem Festspielhaus Baden-Baden. SWR- Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg. Leitender Dirigent Sylvain Cambreling. -- De um lado, o ascendente dado íngreme de casos com mortos e infectados pela pandemia; e de outro, o alvoroço eleitoral e do consumo, indiferente ao risco de contaminação. Além do mais, A praga do voto vendido grassa, o Voto Moral já escasso sucumbe aos fanatismos religiosos e às supremacias caprichosas dos estibados prepotentes. Diante da minha perplexidade, surgiu ao meu lado Susan Brownell Anthony: Quando um homem me diz: “Vamos trabalhar juntos na grande causa que você empreendeu, e deixe-me ser seu companheiro e auxiliar, pois a admiro mais do que jamais admirei qualquer outra mulher”, então direi: “Eu sou sinceramente”; mas ele deve me pedir para ser seu igual, não seu escravo. Eu oro a cada momento da minha vida; não de joelhos, mas com meu trabalho. Minha oração é para elevar as mulheres à igualdade com os homens. Trabalho e adoração são um comigo. A verdadeira república: os homens, os seus direitos e nada mais: as mulheres, os seus direitos e nada menos. Independência é felicidade. Mais diria não fosse sua indignação com um enfrentamento machista e homofóbico na esquina. Inacreditável como o desrespeito gratuito é tão comum às relações humanas, não se emendam. Eis que Michael Ende me surpreende: Pessoas sem esperança são fáceis de controlar. Há muitas coisas que não se aprendem só pensando, é preciso vivê-las. Ao seu lado Robert Musil asseverou: Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. Fechando a roda, Robert Louis Stevenson pigarreou: Não peço riquezas nem esperanças, nem amor, nem um amigo que me compreenda. Tudo o que eu peço é um céu sobre mim e um caminho a meus pés. Diante do estranhamento dos demais com a sua fala, ele arrematou: A época mais obscura é hoje. A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação. Ah, tá. Realmente, entre o monstro e o médico, quem escapa se a multidão é sempre pelo cômodo atalho e, se possível, de mão beijada, iniciativa alguma que dê trabalho, ora. Ninguém leva em conta que a cidade é sua casa, a qualquer um a concessão de governá-la.

 


DA NOITE & O ESPETÁCULO DA VIDA - Imagem: Carimbagem – Base (2004), performance de Luana Veiga e Ticiano Monteiro no ateliê do grupo Transição Listrada. - Deixei os convidados soltarem suas tiradas e fui tomar ar no janelão. Percebi a chegada dela, ar enigmático e som do balanço do gelo no drinque à mão, olhar perdido no horizonte anoitecido. Reticente, ela citou Damon Galgut: No final você fica sempre mais atormentado pelo que não fez do que pelo que fez, ações já realizadas sempre podem ser racionalizadas com o tempo, o ato negligenciado pode ter mudado o mundo. Vi-a insegura, transpirando certo nervosismo contido. Tomou um gole e deu-me o copo, saiu sem se despedir. Tomei um gole e logo ela voltava e se despia, sentando-se no chão e começando a carimbá-lo. Era como se sentisse o corpo no ritmo da contagem aos lábios e bem baixinho... Cento e noventa e um, cento e noventa e dois, cento e noventa e três... Acompanhando o seu ritmo pelas paredes e teto, fui me despindo e me deitei na trilha que ela havia feito no assoalho, sem me mover. Ela e a contagem, uma a uma, até deixar o quarto repleto e carimbar-se por inteiro e depois por toda minha pele... Três mil setecentos e vinte e quatro... Percebi que estava exausta, mais de três horas na sua empreitada... Suava, cansada, recarimbando tudo, a ela e a mim, até deitar-se colada ao meu corpo, completamente extenuada.

 


TUDO É DELA - Imagem: arte do artista austríaco Arnulf Rainer. Ao som da Sonata Fantasy nº 2 Op 19, de Scriabin, com Valentina Lisitsa. – Abandonados ali por longo tempo, ela me disse que se sentia como o dia em que leu O simbolismo do corpo humano: da árvore da vida ao esquema corporal (Pensamento, 1984), da escritora francesa Annick de Souzenelle e mencionou um trecho: O verbo hebraico conhecer é aquele que Moisés empregava para se referir ao conhecimento que o homem faz da mulher. O conhecimento é um casamento, uma união entre o a ser conhecido e o conhecedor. O conhecimento é amor. Virou-se pro meu lado e me abraçou com um beijo profundamente ardente. Senti sua carne estremecer sobre a minha e comungamos o prazer de um ósculo transcendental que me completava, eletrizando todo o meu corpo. E depois ela rolou e já eu sobre ela acomodando-se para que eu a possuísse completamente a se ajeitar por inteiro em mim e eu nela, o prazer extremo. Alcançamos o ápice do orgasmo e a nos beijar insaciavelmente. Foi então que ela me disse: Sabia que eu amo essa nossa liberdade? Hum, hum! E recitou Manoel de Barros: Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras - liberdade caça jeito. Sou livre para o silêncio das formas e das cores. E nos beijamos para amar até que os dias e as noites se confundissem e nos dessem uma noção do que é a eternidade. Até mais ver.

 

REYNALDO FONSECA

Faço desenhos pequenos – mas na proporção – e, depois, levo para a tela.

A arte do muralista e ilustrador Reynaldo Fonseca (1925-2019), foi professor catedrático de desenho artístico na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos fundadores da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), associação que propunha a ruptura com o sistema acadêmico de ensino. Veja mais aqui e aqui.


 

 


sexta-feira, novembro 06, 2020

SOPHIA BREYNER, MICHAEL CUNNINGHAM, PAULO BRUSCKY, ALAMOA & VENUSBERG

 

TRÍPTICO DQC: DEPOIMENTO – É na janela que tudo se realiza: o meu e o de todo mundo. Tem horas que sorrio ou me deprimo, o tédio ou a satisfação e a cada hora. É nela a depor: Quando souber de mim será como o dia nasce e se vai entre ontens e amanhãs. Será como o olho vidrado pela nascente do despertar à luz calmante e abrasada em cismar surpreso com o ignoto tácito na esquina e a surpresa da jogada plural. Quando souber de mim será como a tarde cai ou de como tudo se esvai na última gota do canto do cisne e eu capaz do inacessível, do inalcançável que nem se concebe. Quando souber de mim será como anoitece entre o luar e as trevas, o sorriso abençoado e o falível engano, umbrais por se saber e cartas extraviadas e outras jogadas dentro das garrafas de nenhum dia, o difícil sustentar o vento na boca em qualquer estrada, ninguém nem de nada. Devia ser desse jeito e sendo assim será feito o céu: infinito e grande. Braços abertos, dado ao lado do amor, olhar incerto e o poema sem fim, o coração a quem possa apenas amar. E o poema se vai enquanto ela se passava por Sophia de Mello Breyner e o pegou pela asa para me dá um alento: A poesia é das raras atividades humanas que, no tempo atual, tentam salvar uma certa espiritualidade. A poesia não é uma espécie de religião, mas não há poeta, crente ou descrente, que não escreva para a salvação da sua alma – quer a essa alma se chame amor, liberdade, dignidade ou beleza. E era ela a poesia manifestada em carne viva e eu podia apenas fruir de seu esplendor como um devotado daquela que é uma verdadeira dádiva da vida. Dela todas as graças do universo para que não fosse apenas uma janela sobre adeuses amontoando sonhos como quem perdeu um sábado na ladeira e não o encontrava mesmo já sendo sexta entre portos ocultos e naufrágios velados, enquanto lá em baixo uma procissão de consumidores idolatravam as vitrines como um milagre redentor para a infelicidade deles. Nem sempre foi assim, talvez muito pior, não sei, nem há como se salvar diante de tanta ignomínia. Ela me redime na manhã e eu sou nela mais que ressurgência.

 


A TARDE ETERNA DE VENUSBERG - Bastou ela reaparecer na tarde ensolarada e ao meu redor tudo foi se transformando em Venusberg – ou será Hörselberg, sim ou não, não sei se onde a rainha das fadas foi visitar o outro mundo para sedução do homem mortal, aquele que era o cantor de Tannhäuser, do Codex Manesse. Senão aquela mesma das contadas no inacabado e reiteradamente censurado Under the hill: The Story of Venus and Tannhäuser (The Savoy/L. Smithers, 1907 - Europa-América, 2014), do ilustrador e escritor inglês Aubrey Beardsley (1872-1898), que ganhou uma versão que foi concluída (Olympia, 1959), pelo escritor canadense John Glassco (1909–1981). Ou uma ou outra, se ambas não forem a mesma coisa, sei não, só sei que trata da lenda de uma visita feita pelo poeta medieval ao fantástico palácio dos prazeres de Vênus, ou o contrário, se me parece ao certo. Bem, o que sei mesmo é que fui levado por ela para o boudoir que dava para alcova do seu palácio no alto da montanha, cercado por amplos jardins, alamedas, cascatas, arcos, pavilhões e grutas, um lugar mágico repleto de estátuas fálicas, esculturas eróticas e flores e plantas que mudam constantemente de forma. Ali me mostrou toda a dimensão de seu poderio, inclusive o seu bicho de estimação, Adolphe, um unicórnio de pelos brancos que descansava espragatado sobre as patas numa torre rente a uma caudalosa cachoeira. Mostrou-me a biblioteca que me encheu os olhos com tantos livros e me trouxe uma coleção de gravuras eróticas apreciáveis, não antes me premiar com outras tantas coleções repletas de histórias de todos os mundos e seres. Ao perceber o meu enlevo, pronunciou Robert Musil: O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado no qual todos os seus sentimentos e ideias se encontram no mesmo espírito. E me acariciou as faces e me abraçou com ternura e me fechou os talhos da alma a me segredar o escritor estadunidense, Michael Cunningham: Você não pode encontrar a paz evitando a vida. O segredo do voo é isto – você tem que fazê-lo imediatamente, antes que seu corpo perceba que está desafiando as leis. Existe tanta beleza no mundo, embora ele seja mais difícil do que nós esperamos que seja. Nós nos tornamos nas histórias que contamos a nós mesmos. E me envolveu por inteiro entre seus braços, a noite se fechou, a quinta se esvaiu e ela totalmente em mim.

 


A NOITE DE SARA ALAMOA – Era noite densa e ela se achegou murmurando: É sexta-feira e a pedra do Pico se fende para a luz da chamada na porta! Pude vê-la pela claridade lunar e era Alamoa, a Dama Branca dos feitiços memoráveis. Levantou-se e pude acompanhar sua ígnea expressão no olhar misterioso de quem procura algo e não sabe onde. Acompanhei a sua movimentação, os seus lábios carnudos entrecerrados, a sua graça fenomenal no longo vestido de seda branca transparente, pernas ligeiramente abertas, mãos à cintura e finalmente seus olhos nos meus. E veio como quem encontra a providência exata do que fazer, sentir sua respiração quente na minha pele, seu hálito de flores invadindo meus sentidos, seu magnetismo tomando conta de todo meu ser arrepiado. Um beijo atrevido e ela inflada entre meus braços como se elevada por todos os sonhos, fantasmas e mamíferos da Terra. Num estalo, ela assustou-se, lembrou-se de algo, me largou e peraí, voltava já. Sumiu abruptamente e não respondia meus chamamentos, muito menos as perguntas, não dizia nada, sabia ali sua presença. Depois de muito procurá-la sussurrou invisível na minha nuca Ivan Bunin: As palavras são uma coisa, as ações são outra bem diferente. Precisei dar a volta para vê-la nua Sara, Sara Magdalene Pezzini ao vivo e em cores, linda de morrer. E puxou pro pé da cama e me contou das investigações de homicídio, da Batalha dos Independentes, do caso complicado no Rialto Theatre em que foi mortalmente ferida; das lutas com o demônio gigante, com Wolverine, Alien e Predador, da manipulação de Curator, das investidas contra Kenneth Irons; e da posse dos poderes sobrenaturais da Witchblade – a Lâmina Mística disfarçada de pulseira e da precisão dela para se curar e se recriar todo santo dia na armadura sobre sua pele, de voar e disparar rajadas de energia e estender gavinhas afiadas. Contou-me mais que foi roubada de sua mãe biológica ainda bebê e que só muito mais tarde descobriu sua irmã Karen Brontë, porque ela também descende de sua mãe, Elizabeth, que também era possuidora da Lâmina Mística. E encenou suas batalhas e gesticulou suas investidas e voou perseguida por um bando de pássaros até desembarcar de volta ao meu lado, depôs todas as posses e serviu-se escrava para me chamar Conchobar! E não se deteve envolta em vapores de ouro para me beijar as faces e me fitar firmemente e me beijar novamente e era a atriz Yancy Butler nuínha com um convite ao passeio do prazer e eu mais apto e voluntário no vaivém da sua entrega no meio das ventanias, trovões e relâmpagos, e as fagulhas de sua carne na minha abriam caminhos no mar, rotas universais pelos abismos dos céus e galopes para longe de todas as fugas inescapáveis e a suar em bicas com mil risos do que havia sido impossível ao sequestrar todo meu ser para tornar-me refém de sua façanha. Sou nela e ela em mim. Até mais ver.

 

A ARTE DE PAULO BRUSCKY

A arte do artista multimídia Paulo Bruscky, que estudou música no conservatório, cursou Jornalismo e atuou grafitando muros contra o regime militar. Foi um dos pioneiros do Movimento Internacional de Arte Postal no Brasil e é considerado um dos expoentes mais expressivos da arte conceitual no Brasil e um dos principais precursores de diversas manifestações que envolvem arte, tecnologia e comunicação, com base na ideia de arte como informação e marcada pelo experimentalismo. Autor de obras plural que vão desde poesias visuais, livros de artista, performances, intervenções urbanas, filmes em Super-8 e obras em multiplicidades de mídias, marcadas pela contestação social e política, resultado da postura crítica e militante do artista. Ele participou de exposições no Brasil e no exterior. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 

 


quinta-feira, fevereiro 19, 2009

FÉLIX ARVERS, ROBERT MUSIL, ERIC KANDEL, PAUL PEEL, UNA DOS AMBULANTES DE DEUS & MUSA TATARITARITATÁ



A arte do pintor canadense Paul Peel (1860-1892).

UNA DOS AMBULANTES DE DEUS - A vida: o Una, rebotalho de águas mansas. Alguns dias ficava calmo, sereno, levado na correnteza quase sem pressa. Ninguém precisava nem se tocar de sua presença, nem quando amanhecia, nem de tarde, nem de noite, nem na madrugada. Uma companhia invisível, só lembrada quando a carestia reinava e buscava-lhe para saciar a fome e a sede. Noutros, quando dava a invernada abundante, era a sua irrefreável fúria inundando segredos e adjacências citadinas, lavando tudo: as paixões, as misérias e a fé. Marcando presença indomável. De repente, uma nesguinha de nada, menor que o menor dos brejos, menor que as valetas miúdas, fiapinho tênue se valendo do encontro dos pedregulhos para chacota dos incólumes que não se atreviam desafiá-lo, coitado, que riem de seu assoreamento até findar-lhe insepulto. Nada não, passa. Ainda é a essência de algumas experiências exclusivas, inuptas, verdadeiramente ímpares, na oportunidade de remontar-se memórias, ver-se peixe, ou pedra funda, ou alga, ou redemoinho, ou carreirão pro mar. Fizera-se pelo escoamento dos dias e noites nas corredeiras, levando pela correnteza até onde pudesse dar, desconhecendo se um caudaloso Amazonas, um movimentado Reno, um sinistro Mississipi, um avexado Volga, só testemunhando a vida, alegrias e revertérios, despropósitos e pusilanimidades, afogamentos e navegações alheias. De certeza, não seria nenhum Tâmisa, nem Sena, nem Tejo, era a minha sina pelas turbulências menores, nos redemoinhos perto do areial, na sede da nascente, na distância do leito, na entrega da foz. Lá, todos os fantasmas de doidos, desvalidos e autóctones emergiam das entranhas mais profundas para mostrar-se que a beleza maior escorria pelos cabelos de Iemanjá, descia como estrelas cadentes por seus belos seios, deslizava por seu ventre e alcançava o feliz idôneo que mergulhasse a coragem de viver no meio de um o Nilo que testemunhara toda abastança e toda decadência. Era como se pudesse ser um São Francisco descendo de São Bento, atravessando Catendes, alagando Palmares com Águas Pretas pelos Barreiros até alcançar nas Várzeas o Atlântico de seu chegar, carregando por séculos e milênios reminiscênias de embarcações furtivas de origem francesa, holandesa, portuguesa; refugiando negros quilombolas, assistindo índios caetés e carregando a verdadeira história dos fatos nas mensagens de suicidas com cartas de amor no interior de garrafas; nos acaris, nos caritos, nas cundundas; no jangadeiro que saía de uma margem à outra sem a menor pressa de ver que o tempo passou e já ficou quase tarde para viver; no voluntário que timbungasse com as nojeiras de antanho e se safasse são e salvo, pronto e invulnerável; na lágrima dos que sofrem com as lâminas do passado e não sabem do presente e muito menos enxergam futuro algum; na manchete estampada num jornal velho que repisa o momento presente que não consegue sair do mesmo lugar de sempre; no remorso mantido à custa de tanta ignomínia; no fedor da nobreza brega que se arrasta energúmena; no urinol repositário de todas as maledicências; nos adultérios consentidos, nas bancarrotas escandalosas, nas reputações arranhadas, riscadas e borradas que andam com o pau da venta em pé de empáfias nas lufadas das infâmias e de astuciosos ardis nas adiposidades de rapapés fingidos; na demência de ver que a vida é outra coisa além deste marasmo que judia ao lado do chocante das banalidades e trafegam nas catacumbas da honra; na ferrugem da coragem que se expressa no legado pobretão; de herdeiros acéfalos e indigentes nos saques dos famintos, das ticoqueiras, dos bóias-frias nômades, dos calungas, do mané-gostoso, do nego-bom, dos cardumes, dos lixeiros, dos desejos não correspondidos nos esgotos, nas fotos do lambe-lambe, nas molduras encardidas, nas gavetas cabalísticas, nas jantes inexoráveis da erosão descabida e na demência dos que não conseguem viver de solidariedade. Por mim, não posso esquecer que sempre fora este o meu batismo e a minha mais vã crença de voluntário ambulante de deus. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS – [...] evocar uma lembrança episodicamente ―não importa o quanto ela seja importante― não é como olhar uma fotografia num álbum. A recordação é um processo criativo. Acredita-se que aquilo que a mente armazena é apenas uma porção nuclear da memória. Ao ser recordada, essa porção nuclear é então elaborada e reconstruída, com subtrações, adições, elaborações e distorções [...]. Trecho extraído da obra Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente (Companhia das Letras, 2009), do neurocientista austríaco Eric Kandel. Veja mais aqui.

ENSAÍSMO - […] ainda que não fosse a verdade, não teria menos solidez que ela. [...] procura compreender-se de outra forma; com inclinação para tudo o que o multiplique interiormente [...] Mais tarde, [...] isso se transformou em Ulrich numa idéia que já não ligou à incerta palavra hipótese, mas, por determinadas razões, ao conceito singular de ensaio. Mais ou menos como um ensaio examina um assunto de muitos lados em seus vários capítulos, sem o analisar inteiro [...] ele acreditava ver e tratar corretamente o mundo e a própria vida. [...] Na natureza de Ulrich havia algo que agia de modo distraído, paralisante e desarmante, contra toda a ordem lógica, contra a vontade clara, contra os ordenados impulsos da ambição; também isso se ligava ao nome que ele escolhera: ensaísmo [...] pois um ensaio não é a expressão secundária nem provisória de uma convicção que em melhores condições poderá ser considerada verdade ou reconhecida como erro [...] mas um ensaio é a forma única, e irrevogável, que a vida interior de uma pessoa assume num pensamento decisivo. [...] O autor é mais modesto e menos solícito do que supõe o título. Não apenas estou convencido de que aquilo que vou dizer é falso, como também o é aquilo que irão dizer em contrário. Mesmo assim, é necessário começar a falar disso; a verdade, num objeto como este, não está no centro, mas sim em torno, como um saco que, a cada nova opinião que se enfia nele, muda de forma mas ganha em consistência. [...] Não se trata de outra coisa a não ser de um mal-entendido, uma confusão entre entendimento (Verstand) e alma. Não é que tenham os muito entendimento e pouca alma, mas que tenhamos pouco entendimento nas questões da alma, [...] não agimos nem pensamos acerca do nosso eu. Nisso reside a essência de nossa objetividade; ela relaciona as coisas entre si [...] A objetividade não funda, assim, nenhumaordem humana, mas sim objetiva [...]. Trechos extraídos da obra O homem sem qualidades (Nova Fronteira, 2006), do romancista e dramaturgo austríaco Robert Musil (1880-1942). Veja mais aqui.

SONETOTenho na alma um segredo e um mistério na vida: / um amor que nasceu, eterno, num momento. / É sem remédio a dor; trago-a pois escondida, / e aquela que a causou nem sabe o meu tormento. / Por ela hei de passar, sombra inapercebida, / sempre a seu lado, mas num triste isolamento, / e chegarei ao fim da existência esquecida / sem nada ousar pedir e sem um só lamento. / E ela, que entanto Deus fez terna e complacente, / há de, por seu caminho, ir surda e indiferente / ao murmúrio de amor que sempre a seguirá. / A um austero dever piedosamente presa, / ela dirá lendo estes versos, com certeza: / “Que mulher será esta?” e não compreenderá. Poema do poeta e dramaturgo francês Félix Arvers (1806-1850).

 A arte do pintor canadense Paul Peel (1860-1892).


Gentamiga, estou azuadíssimo com o zoadeiro no meu pé do maluvido. A turma não pára de me azucrinar para trazer o resultado da Musa Tataritaritatá do ano passado.Vixe!

Primeiro, foi que eu achei de deixar a cargo do Papa Berto I da ICAS – Besta Fubana e do Duque de Jaraguá Carlito Lima, todo o certame.

Ocorre que, os dois embeiçadores contumazes daquela que matou o guarda, nem começando a reunião inaugural do concurso, tomaram uma de arrearem decilitrados trocando as pernas bicadinhos da silva e arengando com todo mundo porque defendem que não foram os cientistas nem ninguém além dos bêbados que ensinaram primeiro que a terra gira em torno do sol. Fodeu, Maria-preá. Deixei-los lá trocando as bolas.

Segundo, acontece que estou completamente arrependido de delegar poderes. Essa é uma prática que aqui no Brasil ninguém está acostumado ainda não. Culpa do nosso atraso secular, né?

Pois bem, achei de delegar poderes pra turma do Big Shit Bôbras.

Repare só a merda que deu e depois me diga se não é de se arrepender até o último pentelho do quiba. Vamos lá.

O chabu começou quando foi constatado que houve mais votantes que votos. Como é? Quando se conferiu direito, tinha mais voto que votante. Trocando em miúdos: simplesmente a conta não batia. Besteira, né? Nada!

A patrulha do Doro apresentou o resultado de que foram apurados 11 mil 966 votos e meio. E meio? Sim, porque o do Afredo Bocoió se conta pela metade.

Não confiando nesse resultado, instaurei uma comissão de sindicância para conferir tudo porque o negócio aqui é sério mesmo. Resultado: foram computados 37 mil 655 votos e votantes. Vixe! O triplo da contagem do Doro.

Foi aí que mandei tirar a prova dos nove. Resultado: apurou-se simplesmente 15 mil 263 votos. Nem um, nem outro. Coisa de louco.

Tirando o dito pelo não dito, nem valia eu querer mais nada. Mas, mesmo assim, fui verificar e para se ter uma suavezíssima idéia do rolo todo, só Padre Bidião votou sozinho por ele e por seus mais de 20 clones (menos um, aquele do caso Nardoni, lembra?).

Afora isso tinha de tudo: defunto que votou 10 vezes, apenado que surrupiou voto, político que corrompeu eleitor, neguinho que vendeu o voto, escrutinador adulterando resultado, juiz anulando tudo, uma baboseira geral.

Assim, também, não se salvando ninguém, cada um puxou a sardinha pro seu frasco, votando mais de uma vez e fazendo descaradamente boca-de-urna, propaganda enganosa e boataria braba, tudo em nome da preferida de cada um dos enjeitados.

Aí, meu, primando pela decência e lisura do projeto, afinal eleição é uma coisa que não dá para segurar a onda, resolvi tomar as rédeas e eu mesmo tentei desembrulhar essa paranoiada toda. Fiz o que devia ser feito, chamei tudo na grande, dei uns bregues, sentei porrada na tuia de votos e disse que quem mandava na mercadoria toda era eu e fim de papo.

Então, chamei uma bateria duma escola de samba dessas de uns 800 batedores de bombo e fechei a conta.

Pronto, tudo enretado e nos eixos, agora, em homenagem às nossas distintas mulheres, finalmente, o resultado da MUSA TATARITARITATÁ!!!

Em primeiríssimo lugar, Maurren Maggi, a nossa ourinada atleta com 2132 votos.

Em segundo lugar, empatadas:
a cantora, interprete e compositora Karyme Hass,
a poeta, ensaísta e professora Maria Esther Macial,
a atriz Marcya Harco,
e a cantora, poeta e compositora Dhara todas com 2.101 votos.

Em terceiro lugar, empataram também:
A atriz, jornalista e escritora Tammy Luciano,
a cantora, dançarina e atriz Syla Syeg,
a atriz, poeta e autora teatral Alê Cavagna,
a cantora e compositora Ruthe London,
e a cantora Irah Caldeira, cada uma com 2099 votos.

Em quarto lugar apareceram a poeta e escritora Suzana Mafra,
a poeta, escritora e advogada Mariza Lourenço,
a cantora, compositora e bailarina Tatiana Cobbett,
a poeta, atriz e cantora Clauky Saba,
a poeta, escritora e advogada Valeria Tarelho,
a artista plástica Ana Luisa Kaminski
e a cantora e compositora Jozi Lucka com todas elas tendo individualmente 2.001 votos.

Em quinto lugar aparecem a atriz, apresentadora e colunista Claudia Cozzella,
a cantora e compositora Maria Dapaz,
a cantora Rogeria Holtz,
a cantora e compositora Monique Kessous,
a cantora e compositora Di Mostacatto,
a cantora e compositora Drica Novo,
a fotografa Andreia Kris,
a cantora Silvili,
a poeta, pedagoga e produtora cultural Catarina Maul,
a poeta Greta Benitez,
a cantora e compositora Bee Scott,
a cantora e compositora Rosana Simpson,
e a atriz Maria Dvorek que obtiveram 2 mil votos cada uma delas.

Aqui a nossa homenagem a todas as mulheres maravilhosas aqui representadas!!!
E a partir de 02 de março participe da MUSA TATARITARITATÁ.





Veja mais sobre:
De segunda pra terça, Herbert de Souza – Betinho, Carlos Byington, Hesíodo, William Etty, Jaques Morelenbaum, Luiz Nogueira, Meca Moreno, &Armando Lemos aqui.

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Zé Corninho, o pintudo mais gaiúdo do mundo aqui.
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A primavera de Ginsberg aqui.
A arte musical de Irah Caldeira aqui.
O cordel O assassino da honra, de Caetano Cosme da Silva aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
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VERA IACONELLI, RITA DOVE, CAMILLA LÄCKBERG & DEMOROU MUITO

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