quarta-feira, maio 28, 2008

A POESIA DE MARIZA LOURENÇO



MUSA DA SEMANA: Mariza Lourenço é uma linda escritora, advogada criminalista e consultora conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher da cidade de Valinhos-SP, onde vive. É feminista e mãe. E acredita que, um dia, ainda escreverá um poema decente. Integra a Antologia Saciedade dos poetas vivos, vol. VI, organizada por Leila Míccolis e Urhacy Faustino. É uma das editoras da Germina - Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas. Ela hoje é a musa da semana do Tataritaritatá!! Veja abaixo a arte literária de Mariza Lourenço.



LÁ VEM A NOIVA
(porque a gente pensa que sabe tudo)

— Menina! Não seja teimosa. Pare de comer em panela, senão chove no dia do casamento.
Tia Firmina era mesmo assim, planejadora de casamentos e fazedora de enxovais. Quando comecei a namorar Roberto, mocinha ainda, a primeira providência de minha tia foi comprar tecido para o vestido de noiva. Ri muito. Lamentei tanto depois.
Meu grande dia havia chegado regado à tempestade, raios e trovões. Do lado de fora da Capela as crianças gritavam pra fazer pirraça:
— Sol e chuva casamento de viúva. Chuva e Sol casamento de espanhol.
Na porta, após estapear um dos moleques, tia Firmina olhou-me zangada, como se aquele fosse um mau presságio e eu, a responsável. Mas como? Eu havia feito tudo direitinho. Deixara de comer em panela. Virara a imagem de Santo Antônio de cabeça pra baixo e, por Deus! Ainda era virgem!
Não fiz caso e comecei a percorrer a Nave — toda orgulhosa — procurando meu noivo no altar. E foi aí que me deparei com os olhos mais negros de que já havia tido notícia. Eram olhos de lobo arrancando-me toda a roupa, intumescendo meus seios de menina, deixando meus pêlos à deriva dos maus pensamentos.
— Lá vem a noiva, toda de branco e debaixo da saia um tesão...
Não conseguia. Não me lembrava mais da brincadeira das primas.
Que vontade de correr daqueles olhos, daquela boca.
Que vontade de dar-me inteira, de desmaiar dentro daqueles braços e nunca mais ser eu mesma. Aqueles não eram os olhos azuis de Roberto, sempre tão bondosos e previsíveis. Eram negros, de fome declarada, passado nebuloso, futuro incerto, viagem sem volta. Olhos de aventura, de mar aberto, onde eu poderia navegar sem meus recatos de moça séria, onde a minha nudez seria selvagemente comemorada como o mais febril dos presentes.
Qual o quê! Outros olhos aguardavam-me ansiosos. Pra toda vida. Eram azuis.
Esqueci-me das brincadeiras, dos sonhos recém-adquiridos e tão cedo abortados. Escolhi o caminho sem riscos, o porto seguro que me aguardava sorridente ao lado do Padre.
Os olhos, aqueles negros, continuaram seu louco e despudorado passeio através do meu corpo virgem, enquanto eu, pobre de mim, uivava, sem saber que aquela queimação entre as pernas seria, para o resto da vida, a mais fiel das companhias.

NOITE VADIA

Me leve para dançar esta noite,
em uma dessas casas noturnas,
e lá, ao me agarrar, indecente,
sorria atrevido a quem me cobice com fome.
Pague-me então uma bebida gelada,
finja calor, desabotoe a camisa
e peça ao garçom que coloque outra música.
Depois, afague-me as coxas, paquere com todas.
Trate-me assim, como se não se importasse;
confunda meu nome, me chame de Lúcia.
Deixe que eu ensaie um começo de briga,
gargalhe - insolente - e me sirva outra cuba.
E quando não mais agüentar de vontade,
peça a conta e, ao ouvido, me fale bobagens.
Sorrateiro, arraste-me para um canto escuro,
e sem aviso ou cuidados me erga o vestido.
E nessa hora perca de vez a cabeça,
me prometa o céu, diga que sou sua fêmea,
que no mundo não existe mulher mais gostosa.
Me lamba, brinque com meu delta, me beije,
e ao sentir que de mim nada restou,
a não ser um grito saciado de gozo,
diga que é tarde, que precisa ir embora.
E não ligue para a minha cara de espanto,
deixe de lembrança seu lenço, um nome,
e a jura de que um dia qualquer você volta.

DIÁRIO DAS HORAS
I
bateram duas vezes à porta e minha disposição em abri-la é tão miúda quanto a certeza de que sobreviverei a mais um processo de desconstrução. não quero coadjuvantes. minha dor é egoísta. solitária. aguda.
e de dor eu entendo como ninguém.
II
sou mulher de prantos.
choro por tudo e nada. e o nada tem sido bem mais que tudo. choro manso pra despistar os demônios. choro baixo pra enganar meus fantasmas. ninguém desconfia de nada. e o mundo segue - presumivelmente - feliz.
sem mim.
III
sinto faltas essenciais: de algum amor, de alguma paixão, de algum sexo. e de tempestades. o que antes era profuso agora é reto. e esta linearidade me apavora. não estou preparada para viver em calma perpétua. quase morta.
ainda não.
IV
passei metade da vida levantando bandeiras e tentando compreender meus abismos. passei a vida inteira carpindo a dor alheia e perdendo meus sonhos em qualquer lugar.
logo eu, que nunca soube advogar em causa própria, apostei todas as fichas no mesmo jogo.
e perdi.
V
confesso que fui muitas sem ser nenhuma. confesso que me apaixonei demais e amei de menos. confesso que não me lembro de alguns cheiros. de algumas carícias. e do meu primeiro beijo.
se, hoje, vomito lembranças é pra justificar esta minha condição de puta.
de um homem só.
VI
entre meus dedos, o terço - presença física de minhas crenças - queima. ando esquecida dos mandamentos. e já não sei onde foi parar meu último pecado. aquele do qual nunca me arrependi.
a imagem da Virgem me enxerga, entende e consola.
ah!, Senhora, estou nua. tem piedade de mim.
VII
foi por minha conta e calculado risco que me meti em claustro (mais uma vez) e calei a boca (mais uma vez).
batem novamente à porta. (estou assustada). do lado de lá esperam pela mulher de sempre. pelo riso fácil. pela boca pródiga em contar histórias.
do lado de lá esperam por respostas que não tenho.
nem pra mim.



POEMA ORDINÁRIO

Os dias são suportáveis,
mas as noites, meu senhor,
é que são elas:
sozinha nesta cama,
coração se faz de morto,
o corpo gela.
E qualquer coisa
além desta infeliz constatação,
se não dá letra de samba,
meu senhor,
que dirá um poema.


APELO

Faça em mim um carinho
que me acorrente à vida
sem me prender, em demasia,
a alma:
quero-a livre
para pousar em qualquer canto
desde que seja
en'canto e calma.



EXAUSTA

Calem
Calem o tempo
Despenquem do céu
Todas as estrelas
Encharquem-me a pele
Todas as línguas
Engolidos sejam
Meus espantos
Violados
Meus sonhos mais insanos
Abracem-me todas as ondas
Cavalguem-me, sem dor, as marés
E que, sob a minha vulva,
Mostre-me o mar
Toda a sua fúria.
Silenciem
Silenciem as horas
Deixem que desabe
Em qualquer colo
O despudor vermelho
Do meu corpo
Deixem
Que eu verta todo o sangue
Chore todas as lágrimas
Ria, trema e goze
Deixem-me
Porque hoje estou faminta
e
Exausta



VOCÊ VINHA

Você vinha e toda vez era a mesma coisa eu tremia feito vara verde daquelas de marmelo que mãe costumava pelar pra dar castigo na perna da gente e você vinha sempre assim com um jeito enrabichado de olhar me deixando com vontade de andar de roda-gigante só pra sentir gastura de tanto olhar as estrelas e assim você vinha cheio de música decorada da rádio só pra impressionar meu ouvido de moça acostumada com canto de igreja e era assim que sempre sempre você vinha trazendo sonho da padaria da esquina só pra me ver lamber os dedos e o creme que deixava escorrer de propósito pelo queixo e você vinha e vinha sempre fazendo barulho no portão só pra me ver abrir a porta e pulando no seu colo feito cabrita lhe dar beijo macio com gosto de doce de cidra e quando era noite de chuva então daquelas de trovoada você vinha e me arrastava para um canto escuro da varanda e sem pedir licença se enfiava entre as dobras da minha saia e era assim que você vinha e veio tantas e tantas vezes que já nem sei das contas de quantas luas me perdi nesse seu jeito de vir.



L´AMOUR

Começou a acordar com dores no peito — um certo desejo de morte — e antes que morresse de vez, sentiu ânsia de escutar canto de pássaro, de riacho desembocando no rio. Rumou para longe e foi morar numa casinha de roça. Comprou muda de flor e deixou aberta a janela para passarinho pousar.
Mas a dor retornou — sempre ela, a maldita — e nada dava cabo de tanta tristeza, nem riacho, passarinho ou flor.
— Isso é falta de amor, seu doutor. Isso é falta de amor!
Virou trapo de gente. Começou a ver anjo tirando leite das cabras. Era anjo mirrado, seis, sete anos, não mais.
Apaixonou-se e de paixão já não fazia mais nada.
Louco de dor, tomou decisão: colheu flor para coroar a cabeça do anjo.
O anjo assustado, seis, sete anos, não mais:
— Tio, assim me machuca.
Dos braços adultos não havia maneira de escapar. E com aquele delírio, só mesmo um, dois, mais de dez tiros puderam acabar.
E o amor terminou assim: sangrando no chão, sem dores no peito, sem visagens de anjos.
Como uma flor encarnada e aberta no ventre.



ESCRAVA

Teu poema, inclemente, me encarcera,
umedecendo, de gozo, os meus versos.
Espancando, com a pena, as minhas rimas,
se assanha, feito bicho, entre meus seios.
Teus dedos em tuas mãos; ágeis tentáculos,
aprisionam de vez minhas vontades,
deixando-me à mercê dos teus domínios,
amarrando-me os pulsos, como escrava.
O ar que me vem é da tua boca.
Meus gemidos quem sufoca é tua língua.
Teu verbo, desconexo aos meus ouvidos,
me faz louvar - indecente - o teu nome.
Em minha barriga, passeia impune o teu falo.
Sob teu corpo, o meu, é prazer e desgoverno.
Entre minhas coxas tu desenhas tua fúria,
em teu pescoço cravo dentes de poesia



ESCLAVE

Jurei nunca mais procurá-lo. Não, enquanto vivesse. Mas tenho vivido o suficiente para desistir de minhas juras.
de promessas e bons propósitos meu inferno está cheio.
Encontrei-o dormindo. Meu escravo. E, por Deus, não havia notado aquele jeito bonito de se espalhar pela cama. Tão vulnerável e à mercê de meu corpo posseiro.
como desejei ser apenas esquecimento. Esquecimento e perdão.
Despi-me de toda a roupa e em seu corpo rocei minha mágoa. E ele nem precisou abrir os olhos para reconhecer a saudade úmida que o tocava.
como ansiei ser somente boca. Boca e língua.
Vali-me de seu sono, admito, para cavalgar sua eterna disposição de macho. Ele sorriu. Ele gemeu. E eu o flagelei com os dentes, com a vulva. Com o verbo. Meu homem-objeto.
Sobre a pequena mesa deixei o envelope pardo. Sem nome. Lacrado. Em seu interior a quantia de sempre.
para o inferno com todas as juras. Ele me dá tudo o que quero...
O meu amado.



FIM
(pra nunca mais falar disso)

No começo era doce, feito delicada sobremesa que se saboreia com gosto e desliza garganta abaixo, aveludada e macia.
Mas a receita desandou sob as mãos pesadas de tanto mexer panelas. E os ouvidos, como os de um mercador, acostumaram-se à cantilena irritante de vincos tortos e colarinhos amassados.
Os olhos ficaram baços e os lábios perderam o brilho, esquecendo-se do primeiro beijo e dos agarramentos ao pé da escada.
E o que era doce acabou-se em travo, de fruto verde e amargo.
A casa, outrora alegre, abria-se agora aos conselhos de tia Dita, que, a pretexto de visita, só sabia contar do casamento desfeito de uma prima. E de como, na família, mulher largada tornava-se propriedade coletiva.
E o que era doce acabou-se em medo.
Todas as vontades de recomeços se perderam nos vãos ordinários das madrugadas e o que restou, foi lembrança pequena e morta, sepultada de qualquer jeito sob a lápide, muda, de um colchão de molas.
E o que era doce... acabou-se em nada...



O trabalho dela pode ser visto no seu blog Proseando com Mariza.



Também como Poeta do Mês no Guia de Poesia.



Ou na revista Germina Literatura.



Ou, ainda, no sítio Escritoras Suicidas.


Mas hoje é o aniversário dela. Daqui o nosso efusivo PARABENS, MARIZOCA!!!!



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TODO DIA É DIA DOS DIREITOS HUMANOS & DO PALHAÇO!

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