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sábado, agosto 29, 2026

ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

 


Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, aparando a testa dos seus 13 anos de idade, caniço de magro, à procura duma lavagem de roupa pra se sustentar em pé. Cabisbaixo arrastava a chinela, pra cima e pra baixo, a se distrair com as falas escandalosas da estridente aglomeração no vuque-vuque pelo centro da cidade. Era gente que só, pensava consigo: todos só queriam ganhar e gastar dinheiro, alvoroçados, e o que fazer mais se era esse o ânimo de todo mundo e, fora disso, a miséria encardida dele pela manhã todinha. Ah, porcaria! Já passava do meio dia e a fome apertava pra quem ainda se segurava no jejum. Numa lanchonete pediu emprego: Venha sábado, que é dia de feira. Então, me dê uma comida aí! Sai pra lá, mendigo! Austero, grosseiro, o dono do estabelecimento o defenestrava dali. A sua salvação foi um estranho que ofereceu pagar a refeição dele. Traçaram o rango juntos e, tapeado o bucho,  zanzaram a tarde toda. O céu àquela hora tinha a cor de quando vem chuva e ele se achando pelo mundo postiço, flagrando a torpeza espalhada entre fingimentos e desavenças pelos chuviscos. Só faltava essa! Os olhos amornados: caiu o maior pé d’água. Assuntou um tiquinho, coisa chocha mesmo. Ajeitava-se pelas beiradas, a água já pelo mocotó, fazia que aguentava aquilo tudo, as coisas todas de fora e as não vistas por aí. Desencosta dessa tristeza, chô! Hem? Segura a tampa. Ah, infame! Ele ali cheio das curiosidades, não conhecia bem Alagoinhanduba. Danou-se às perguntas, carregado de dúvidas. Desinvoca, vai! Falavam dum milagre que ele andava à cata: Onde? Quando? Nunca que sabia que tinha um santo Médici: Onde já se viu? Desincha as bochechas, vai! Às risadagens, com agora amigo Beto tagarela: Eu quero é botar meu bloco na rua! Como assim? Quero é atravessar a ponte Rio-Niterói! É longe? Se, ó. Queria era arrumar um emprego! Melhor fugir pela Transamazônica. Onde fica isso? Lá longe, depois de onde vira o beiço! E como chego lá? Vai andar um bocado. Logo vi, tudo é longe pra mim. Ih! Sorria, meu bem, sorria!... Chega dá vontade... Não bote força, vá no jeito. Aí, não deu sentença. E o amigo, numa cantiga de amor doido: Chorar pra quê?... Foi-se Bruce Lee. Era o dia dele. Gente é bicho de Deus. Ara. Fique atento, senão finda como o agente Laranja pedindo penico pra vietcongue, visse! Como? Você não entende nada! Palavreado loré esse seu. Oh, tapado: é aqui a Guerra do Vietnam, de verdade. Você fala umas coisas estranhas... Eu sou a Mosca na sopa! Queria ser como você... Anoiteceu, vamos cear pra gente assistir o Bem-amado. Onde? Ali na tevê da praça, não viu? Vamos, depois, a gente passa por lá. Engoliram o que deu pra comer no pavilhão de dona Zefinha e, depois, se arrancharam no jardim da praça pra ver a novela. Você vai dormir aonde? Não sei. Tem uma maloca no arruado da usina, a gente dorme por lá. Oba! No dia seguinte despertou sozinho, o amigo havia sumido. Oxe! Passou o dia todo pedindo emprego, a pança vazia. Já de noite de novo e tentou enganar a barriga roncadora assistindo ao capítulo teledramático, mas perdeu a paciência e foi-se, recolheu-se à tapera, tentando dormir. Amanheceu o sábado roxo de fome, correu pra lanchonete e, chegando lá, conseguiu ocupar-se. Já tomou café? Não como desde anteontem. Tome. Devorou um sanduíche de mortadela, deu pra enrolar as tripas. Bora trabalhar. Viu o patrão folheando um jornal com a foto daquele seu amigo desaparecido, o Beto. De soslaio: Conhece ele? Não. Era dia de feira, o povo e seus pedidos. Nem deu tempo para mal-entendidos. Desenrolou e, no final do expediente, comeu um pão com ovo, zarpou bêbado de sono. No outro dia, as moedas do bolso: O que ganhei mal dá pra comer. Foi pro trabalho, fechado, era domingo, ora, tinha de se virar: saiu catando o que fazer. Deu de cara com um estranho cantarolando o sucesso do rádio: “Vira, vira, vira, \ Vira, vira, vira homem, vira, vira \ Vira, vira lobisomem...” Era o receptivo coroinha Pedim do Padre: Que é que você tem? Tô com fome. Oxe, vamos pra igreja, você me ajuda a balançar o sino e a gente come na casa paroquial. Bora. Nunca tinha visto mesa farta, o padre Quiba deu as ordens: Quem é esse? É um morador de rua, estava com fome e veio me ajudar. Vamos logo! Os dois lá, blém, blém, pra missa da manhã domingueira. Terminada a liturgia, limparam tudo e saborearam farto repasto: era o almoço. Saíram juntos quando o agora amigo mostrou-lhe uma coleção de gibi. Coisa de ficar entretido. E brincavam já de tarde: De noite a gente vai no cemitério! Fazer o quê? Brechar as moças da vida se esfregando nos machos! E é! Pra frente, Brasil! À boquinha da noite lavaram a égua e foram pular o muro do sepulcrário. Hesitou, o terror das trevas, tudo nevoento. Atravessaram pelas catacumbas e se arrancharam numa touceira na parede esburacada. O que é aquilo? Safadeza. Viram dois machões esmurrando uma delas, aos gritos. Vieram outras, apanharam todas, chicotadas, desnudas. Eita, cada lamborada, hem? Gritaria. Lua espantou-se com o amigo onanista, em êxtase por vê-las seminuas, vestes rasgadas. Olha a caçola delas, meu! E o provocava para um cavalo-mago! Eita! Deixa de ser molenga! Estranhou vê-lo às aperturas, todo se desmilinguindo, os olhos virando. Sai pra lá! O enterro voltando: Lá vem os caras pra cá! Corre! Quedaram em desespero, acotovelaram-se. Pra que lado? Arquejavam, o chão tremia sob os pés. Tomou-lhe o pulso: Bora, porra! Deixaram tudo pra trás. Pularam o muro de volta e na primeira esquina: Vamos, já tá na hora da missa! Correram e ficaram lá, de joelhos, cara mais lisa, santinhos. Ao término, seguiam sob as vistas desconfiadas do pároco, chamando Pedim prum confidencial. Ouviu o zunzunzum e logo percebeu que não seria nada de bom. Um estrondo: só viu o baque! Eita! Pedim veio com uma cara enjoada. O vigário logo em seguida com cara de poucos amigos: Tem onde dormir? Tenho. Então pode ir, zarpa! Despediu-se do amigo, com uma promessa dele: Amanhã passa na Barraca Azul que eu descolo um lanche pra você. O da batina deu um beliscão no achegado e cagou raios nos bregues. Foi-se o que dera doce, socou-se na sua loca e, no outro dia, olhos remelentos, fatigado. Levantou-se e foi pro acertado: o amigo não estava lá, como prometido; o canto mais limpo. Disseram: Ele foi trabalhar em Itaipu! Vixe! Foi pra lanchonete e levou esporro porque chegou atrasado: Você é o Skylab é? Não, senhor. Se for, leve a bronca pra lá! Descolou um petisco e ficou por ali fazendo mandados. O patrão resmungava: Esse não vale o feijão que come! Ao lado, uma banca de revistas, não tirava o olho: Quanto é? Não tinha dinheiro para comprar aquela que soletrava: Char-lie, Charlie Moon. O chefe ralhando feio, brabeza nos olhos: Vai roubar não, tô de olho em você! O proprietário da banca arremedou: Esse num vale um conto de réis! Aí o superior castigou: Fique perto das minhas vistas, seu! Zé na defensiva, ficou meio de banda e levou no cangote maior esculacho: Menino, tome jeito, senão você acaba que nem Araceli, viu? Ou como Carlinhos... Ana Lídia... Ou o Beto, se assunte! Beto? Ficou com o coração na mão, o olho numa rapadura ali estirada no gosto. Serviu-se de uma boia e, às portas arreadas, procurou caminho de volta pro cantinho, pra se entocar. No meio do caminho: Foi ele! Pega! Correria, escondeu-se na primeira brecha. Onde ele se meteu? Pente fino, caça tudo! Clandestino, ficou na sua: Pra quem não tem um bem nem vintém, ué! Tapava o olho, mirava, aos sopapos, um toco de graveto, a futucar no traquejo, era o ponto pras más surpresas. Foi por uma banda, voltou pela outra. Segurou a carranca na sola do pé, foi a conta: riscou no ar. Mandou longe, tão desfeliz, segurou-se na cacunda, resignado: a boa lua que acudisse, asfixiado de medo. Coisa de cigano: sem saber pra onde metesse as ventas. Mas ia. A coragem no toitiço por uma peínha de nada, segurava nos beiços sua indignação. A vizinhança caçadora: Cadê-lo? E ele trepado na garupa doutro esconderijo, sua modorra. Ao rés do chão, puxou a tabica, faria o mesmo e se desviava papudo, pueril, afiava a munheca no parapeito. Aí a frustração: nada dava liga. Lembrou-se de Beto, Pedim, o emprego, dona Zefinha tão boa, tudo perdido. Assim por vários dias, semanas, meses, aos pinotes, a coisa nunca como sonhado e ele: Só deixo o meu Cariri no último pau de arara... Era uma vez e mais uma e outra mais... Até mais ver.

 

Emil Cioran: O homem recomeça todos os dias, apesar de tudo o que sabe, contra tudo o que sabe... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Jennifer Egan: De certa forma, estou sempre tentando fazer algo que não estou qualificada para fazer. Por isso, sinto essa falta de qualificação. E tenho medo. E eu tenho uma tendência a pensar que as coisas podem e provavelmente não vão dar certo. Essa é a minha mentalidade básica... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ione Skye: Eu tenho essa teoria da convergência, de que coisas boas sempre acontecem junto com coisas ruins... Não seja cruel, isso também é difícil para mim... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

VÓRTICE QUEBRADO

Imagem: Acervo ArtLAM.

Estou num vazio árido, escuro e desolado. \ Pendurei os kilims contra o vento. \ Aqui estou eu, \ num cochilo vespertino sobre os talos. \ O mundo está lá embaixo, as montanhas distantes. \ Sou tão ressentido quanto esta encosta, \ mas colorido, ao vento, kilims \ e o fim da colheita, folha cansada, lagarto fugitivo. \ Sou o lago sobre o qual a noite cai. \ Uma vez que criei uma memória por amor, \ não o farei novamente. \ Sou um pequeno grupo na vinha \ sobre a qual o outono passou e abandonou. \ Você é como um lago, \ você é como um lago? \ Você é como um lago, ei! \ Você está em um sonho, ei, você é o sonho. \ Em um poema aquático, \ você está falando alto. \ Os Países Baixos \ estão silenciosos agora. Sempre!

Poema da escritora, editora e socióloga turca Birhan Keskin, que foi editora adjunta da pequena revista Göçebe e é autora de livros como: Delilirikler (1991), Bakarsın Üzgün Dönerim (1994), Cinayet Kışı + İki Mektup (1996), Yirmi Lak Tablet + Yolcunun Siyah Bavulu (1999) e Yeryüzü Halleri (2002), Kim Bağışlayacak Beni (2005), Ba (2005), Y'ol (2006), Soğuk Kazı (2010) e Fakir Kene (2016).

 

ÍDOLO ARDENTE - [...] Da mesma forma que uma noite de sono amassava os lençóis, o simples fato de estar vivo cobrava seu preço. [...] Mas este mundo onde eu aparecia com minha persona meio inventada era um lugar mais gentil. [...] Eu não conseguia lidar com a vida da mesma forma que todos os outros pareciam fazer com facilidade, e lutava diariamente com as consequências complicadas. Mas impulsionar meu oshi era o centro da minha vida, algo natural, meu único ponto de clareza. Era mais do que um núcleo — era minha espinha dorsal. [...]. Trechos extraídos da obra Idol, Burning: A Psychological Debut About Celebrity Worship, Fame, and Devastating Scandal (HarperVia, 2022), da escritora japonesa Rin Usami.

 

A VIDA & VIVER - Eu exorto você a encontrar uma maneira de mergulhar plenamente na vida que lhe foi dada. Parar de fugir de tudo o que você está tentando escapar, e em vez disso para parar, virar, e enfrentar o que quer que seja… A razão pela qual todos nós somos tão miseráveis pode ser porque estamos trabalhando tão duro para evitar ser miseráveis... Pensamento da psiquiatra e professora estadunidense Anna Lembke. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE ANTÔNIO MARIA

(Escultura de Antônio Maria, na Rua Bom Jesus, centro histórico do Recife, do escultor Demétrio Albuquerque - Foto: Rubens Chaves)

Vi-a passar. Comecei a vê-la ao longe, quando despontou na rua. Conheci-lhe a blusa, mas achei diferente a maneira de caminhar. Aquele andar mole, de quem vai para lugar nenhum. Talvez não fosse o caso, no entanto. As pessoas quando não estão felizes, ou quando estão infelizes, por mais que andem, parece que não vão para lugar nenhum... De vez em quando eu tenho me surpreendido descansando de coisas que eu não fiz... O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira...

Trechos extraídos de crônicas do escritor, jornalista e compositor Antônio Maria (Antônio Maria Araújo de Morais – 1921-1964), que compôs samba-canção, polcas, frevos, marchinhas de carnaval, valsas e sambas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,  aqui & aqui.

 

A ARTE DE YAYOI KUSAMA

Minha arte é uma expressão da minha vida, sobretudo da minha doença mental, originária das alucinações que eu posso ver. Traduzo as alucinações e imagens obsessivas que me atormentam em esculturas e pinturas. Todos os meus trabalhos em pastel são os produtos da neurose obsessiva e, portanto, intrinsecamente ligados à minha doença. Eu crio peças, mesmo quando eu não vejo alucinações, no entanto. Com o tempo, passou a preencher pisos, paredes, telas, objetos e até pessoas com seus pontos...

Pensamento da escritora e artista plástica japonesa Yayoi Kusama (1929-2026), que se expressou por meio de uma diversidade artísticas, que vai das colagens, pinturas, esculturas, arte performática e instalações ambientais, tendo por característica a obsessão por pontos e bolas. A obra “Narcissus garden Inhotim” (2009) pode ser encontrada no Centro Cultural Inhotim, em Minas Gerais, dezenas de grandes esferas prateadas, que ficam na superfície da água e que podem ser movidas conforme a ação dos ventos, réplica/versão da escultura que fez em 1966, para participar da Bienal em Veneza, onde ela espalhou 1500 esferas espelhadas e as vendia por 2 dólares. Entre as bolas, havia placas com os dizeres “Seu narcisismo à venda”, uma forma que ela encontrou para criticar o sistema das artes. Ela era considerada louca e, na sua loucura e em seus desvarios, ela encontrou na arte a fuga e o tratamento da sua doença. Como ela mesma diz: Se não fosse sua arte, já teria me matado há muito tempo. No caso dela, além das alucinações, muitas vezes suicidas, ela ainda passou a ter TOC, ou seja, as bolinhas e pontos se tornaram uma verdadeira obsessão, que se reflete em tudo que venha da artista, não só em sua arte como também no seu visual, que chamou muita atenção. Veja mais aqui & aqui.

 


LEITURAS: JORGE LUÍS BORGES – (Imagem do pintor italiano Stefano Davidson) - Reunião de algumas das leituras de obras do escritor argentino Jorge Luís Borges (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo – 1899-1986), por quem nutro profunda admiração, tornando-me compulsivo em devorar seus livros, incluindo-se aí releituras reiteradas e feitas até hoje. Confira aqui.

 


O TEATRO DE AUGUSTO BOAL – Homenagem ao dramaturgo, escritor e compositor Augusto Boal (Augusto Pinto Boal - 1931-2009), tendo em vista a sua indispensável importância na minha formação teatral, influenciando, evidentemente, a minha atuação na área, inclusive na escrita dos meus textos. Muito aprendizado que foram recolhidas de suas obras, notadamente Técnicas Latino-Americanas de teatro popular: uma revolução copernicana ao contrário (Hucitec, 1975), 200 exercícios e jogos para o ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro (Civilização Brasileira, 1983), além de Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (Civilização Brasileira. 1975), entre outras. Tenho em os livros de minha predileção o seu Teatro Completo (Hucitec, 1986, 2 volumes). Confira aqui.

 


SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA – Reunião de temáticas que abordam a diversidade dos debates na sociedade contemporânea, envolvendo desde a questão do futuro da humanidade, a arqui-violência, o cristofascismo, o capitalismo, o racismo, agrotóxicos, a responsabilização política, as tecnologias e as neurociências, entre outros, refletidas pelos mais diversos pensadores, neurocientistas, filósofos, psicólogos & outros profissionais estudiosos dos mais diversos campos do saber. Confira aqui.

 


O CAMINHO DOS VENTOS - Este é o terceiro episódio das aventuras do Nitolino no Valuna, em que os protagonistas chegam no toré xukuru e são levados ao sabor dos ventos. Confira aqui.

 


GENTAMIGA ATELIÊ – Livro-catálogo & exposição que ocorrerá neste mês de setembro, reunindo as obras dos artistas integrantes do Gentamiga Ateliê, formado por Rubens da Cunha Lima, Cibele Sarkis, Ricardo Aidar, Márcia Gebara.  A coletânea conta com apresentação dos professores da USP, Evandro Nicolau & Renata Sant'Anna. Confira aqui. 

 

ISTO É PERNAMBUCO

Arte do Mestre Vitalino. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 



quarta-feira, setembro 28, 2016

SOLJENÍTSIN, JULES CARLES, NIETZSCHE, GILKA MACHADO, ÁLVARO HENRIQUE, CAMILA VEDOVETO, FERNANDO DE LA ROCQUE, FERNANDO NOLASCO & MARTINES CARRASCO


INEDITORIAL: SE O SONHO PRA SE REALIZAR ESTÁ CUSTOSO DEMAIS... – Salve, salve, gentamiga! Se o sonho pra se realizar está custoso demais, paciência, quando menos se espera chega a hora e teibei! Tudo tinindo pra festa até umas horas. É só brincar de que o sonho já é seu e se realizará. Tenha essa certeza de que está sendo providenciado e que só falta acontecer. Acredite, mas acredite mesmo; se acreditar, pode ter certeza, que a coisa vinga. Faça isso e verá. Fique feliz como se tivesse alcançado, mantenha a sensação de felicidade como se fosse real, de verdade, de mesmo e, quando menos esperar, ah, na horagá mande ver e seja feliz assim pra sempre! Experimente, tente! Ao invés de ficar pensando na morte da bezerra, de que tudo é só infortúnio ou decepção, mantenha sempre a sensação feliz de viver e tudo se ajeitará. Imagine acreditando que o sonho já é realidade, tenha fé em você e não arrede o pé dessa fé, fique com ela guardada, imorredoura. Faça o teste. Agora é com você. E aprumando a conversa pras novidades de hoje, a primeira delas é a Suíte Candanga do violonista Álvaro Henrique, seguida da Dialética de Alexander Soljenítsin, a poesia de Gilka Machado, a fotografia de Camila Vedoveto, a gaia ciência de Nietzsche, a arte de Fernando de La Rocque & de Fernando Nolasco, a origem da vida de Jules Carles, o Big Shit Bôbras da Quiba, a pesquisa poética de J. Martines Carrasco & o Simpósio de Prevenção ao Suicídio. Faça bom proveito, o espaço é seu. No mais, vamos aprumar a conversa & Tataritaritatá. Veja mais aqui.

Veja mais sobre
Caleidoscópio, Eduardo Giannetti, Victor Jara, Ésquilo, Louis Malle, Brigitte Bardot, Al Capp, Literatura Infantil, Alexandre Cabanel, A escola como espaço de prazer & a poesia de João Costa aqui.

E mais:
Blaise Cendrars, Amadeo Modigliani, Gustave Courbet, Vivagina & Ginofagia aqui.
A mulher gaulesa, Salvador Dali. A simpatia da virada do ano & As previsões do Doro aqui.
A milagrosa simpatia tiro e queda, Erasmo de Roterdam, Jhumpa Lahiri, Dionisio Neto, Atom Egovan, Virgínia Rosa, Helena Ignez, Elaine Cassidy, Desejo & Fantasias Sexuais aqui.
Proezas do Biritoaldo: Quando o Sol Raia Depois da Trovoada, o Dengoso Tem Que Agarrar a Ocasião Pelo Cabelo aqui.
Tolinho & Bestinha aqui.

DESTAQUE: ORIGEM DA VIDA

[...] Antes de nós, a vida existia. Descendemos de células vivas produzidas por organismos que nos precederam na face da Terra [...] Em nosso passado, a descendência viva é contínua [...] Estamos, ainda e sempre, reduzidos às conjeturas, como muito poucas oportunidades de vê-las transformadas em certezas. Sofremos muito tempo para galgar a montanha e escolher o melhor ponto de vista, mas a bruma matinal impede-nos de ver o Sol nascer e não chegamos a perceber seu disco indeciso senão muito mais tarde, depois de ter deixado o horizonte já muito tempo... descemos decepcionados e quase descontentes desse longo e penoso caminho que não nos ensinou grande coisa, surpreendemo-nos a aspirar esse instante único, do seio da matéria inerte, emergir lentamente a primeira chama da vida, à beira misteriosa dos mares ensolarados.
Trecho extraído da obra As origens da vida (Edições 70, 1984), do professor francês doutor em ciências e artes Jules Carles (1905-2000), abordando suas experiências e descobertas como diretor de pesquisa do Centro Nacional de Investigação Científica de Paris. Veja mais aqui e aqui.

AS TORTURAS PRAZEROSAS DE QUIBA! - Encontrei Quiba desolada no batente da casa: cotovelo nos joelhos, mãos na cabeça, faces lavadas de lágrimas, se lamuriando: não tenho dignidade, não sei quem sou, estou destruída, cuspida, fodida e mal paga. Calma mulher, disse-lhe. Quando me viu, envolveu seus braços ao meu pescoço e deitou o rosto aos prantos sobre meu ombro. Chorava de montão, eu não sabia o que dizer ou fazer naquela circunstância. Uma morena jeitosa assim, não podia me aproveitar desse momento de fragilidade. Ela pranteava convulsivamente e me apertava o corpo contra o seu, maldizendo da vida, excomungando a si própria, acusando-se infernal e sem solução. Eu apenas ouvia, não dizia nada e, no meu sem jeito, ninava, passando-lhe as mãos em seus cabelos, alisando suas costas, conferindo o decote sedutor com os seios durinhos balançando deliciosamente, as coxas metidas num shortinho miúdo e apertado, o ventre inflado tão cheio de esborrar gostosura, aquilo tudo era fenomenal, uma obra da arte de Deus. Mais chorava até que, depois de um bom tempo, soluçava com choramingado aos pouquinhos, quando puxei conversa, ela calada só se condenado, eu levando por menos e procurando dialogar, ela sem querer conversa fiada, esfregava os olhos no meu ombro, às vezes mordiscando minha carne, braços apertados me levando mais pra junto dela. A vida tem dessas coisas, Quiba. É, a vida é muito ingrata e eu não tenho moral nem de olhar pra você, estou fodida, desgraçada, minha vida é uma desgraça. Não fale assim, tentei apaziguar. Sabe de uma coisa? Diga. Posso lhe contar uma coisa? Pode. Bem, quando eu era garotinha eu tinha um tio que eu adorava muito. Era o tio Juca. Ele me dava presentes todos os dias, bonecas, bombons, brebotes, todo dia eu era premiada com a felicidade que ele me proporcionava. Sempre gostei demais do tio Juca, gostava mais dele do que meus pais, uns chatos. Quando eu via tio Juca, oxe, se eu estivesse emburrada, ficava feliz na hora. Foi ele que me ensinou tudo, o que me faz feliz até hoje, a minha desgraça. Uma vez ele pegou um confeito, desembrulhou e colocou na palma da mão dele para eu abocanhar. Depois de umas três vezes abocanhando o confeito na palma da mão dele, ele me pediu para pegar o confeito com a língua e eu, sem querer, lambia a mão dele. Aí ele dizia: assim mesmo menina, cada vez que lamber ganha presentes, lamba. E eu lambia todo dia a palma da mão dele para ganhar cada presente maravilhoso. Um dia lá, eu vi ele abrir a braguilha, colocar o negocio dele pra fora e colocar o bombom pra eu pegar com a boca. Eu peguei e ele disse que se eu lambesse ali ganharia muitos outros presentes e eu lambia muito o coisa dele e ganhava cada presente, um melhor que o outro: bicicleta, radio-gravador, máquina fotográfica, oxe, bastava ele aparecer ou eu encontrá-lo que eu dizia pra ele, logo: tio, quero ganhar presente! E chupava o pau duro dele pra ganhar uma coisa que eu sabia que seria dos meus sonhos. Até que um dia eu vinha no arruado e fui pega de surpresa, mãos nos meus olhos e boca, fui levada, vendada, amordaçada, eu me desesperei, queria gritar na meninice e quando me acalmei senti o cheiro do meu tio, bastava sentir o cheiro dele já ficava feliz, e fui levada para um lugar escuro, não sei onde, não via nada e vi quando o raptor me tirou a calcinha, beijou minha priquita e começou a lambê-la. Ora, gostei na hora, era menina, mas gostei muito mesmo, até que depois de muito lamber minha buceta, vi que ele se afastou e de repente senti algo sendo enfiado nela, ai, como doeu, doeu demais, amordaçada eu gritava mas ninguém ouvia, o cara me comeu, me fodeu e senti ele gozar quando desmaiei de dor. Quando acordei estava num matagal perto de casa, toda vestida, parecia que eu havia acordado de um pesadelo, minha mãe quando me viu desolada, ficou preocupada e viu sangue na minha calcinha e ouvi ela dizer de noite pro meu pai que eu fui estuprada e me perguntou quem tinha feito aquilo e eu não sabia, contei mil vezes que não vi, que não sabia quem era, nem poderia saber. Quando vi o meu tio dois dias depois, corri para pedir meu presente e ele me levou pra casa dele e brincou com os confeitos na bimba e, dessa vez, senti um jato gosmento e de mau gosto na minha boca, de eu quase vomitar. Nesse dia ganhei um vestido lindíssimo. Durante anos eu ia vez em quando atrás do meu tio, dizia o que queria ganhar e ele me prometia cochichando ao meu ouvido se eu engolisse o leite do brinquedo ia ser muito bem recompensada. Ora, de primeira foi dose, uma vez até vomitei; mas depois, até passei a gostar porque ele começou a me bolinar, a me lamber, fazer meia nove, delícia, eu traquinei muito com meu tio ainda menina. Depois meu pai me proibiu de vê-lo e até de falar com ele. Odiei meu pai por isso. Quantas e tantas vezes desejei que meu pai morresse por não me deixar ir passear ou falar com tio Juca. Nunca mais tinha visto ele e hoje, recebi a notícia de que ele morreu. Sou uma puta desamparada, não tenho mais quem sempre sonhei, a minha última esperança na vida: o tio Juca. E voltou a deitar a cabeça ao meu ombro a chorar copiosamente. Entendi sua dor e tentei ampará-la naquele momento de aflição. Não podia ser de outro jeito, ela se agarrava com os braços no meu pescoço se lamuriando no meu ombro, até sentir sua respiração e seus lábios tocando meu pescoço. Eu lhe apaziguava e ela se mantinha completamente revoltada e inconsolável. Até que depois de muito tempo, restabeleceu-se, levantou a cabeça, fitou meus olhos e agradeceu. De nada. Ia saindo quando disse: me dá um real que eu chupo tua rola. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui & aqui.

UMA MÚSICA
Curtindo o álbum Suíte Candanga (Centaur Records, 2014), do violonista Álvaro Henrique, em homenagem aos cinqüenta anos de Brasília. O autor é bacharel pela USP, Mestre em música pela UnB e KunstlicheAusbildung (Alemanha) e é especialista em Villa-Lobos.

PESQUISA: OS ELEMENTOS DA DIALÉTICA - [...] O primeiro grande capítulo do materialismo dialético, é a dialética materialista. Eu caracterizei sucintamente seus principais fundamentos. Costuma-se fazer referencia ao filósofo prussiano Hegel, dizendo que seria ele quem teria formulado os grandes elementos da dialética. Mas isto é radicalmente falso, camaradas, radicalmente! Com Hegel, a dialética estava desmoralizada, isto é indiscutível. Marx e Engels retomaram-na, para dela extraírem o grão racional para lançarem a palha idealista. A dialética marxista, é o inimigo! O inimigo de todo imobilismo, da metafísica e dos palavrórios dos popes. Na dialética encontramos quatro elementos. o primeiro, é o que... é a correlação, e não uma acumulação de objetivos isolados. A natureza e a sociedade são... como lhes dizer mais claramente... não são uma loja de imóveis, onde se amontoa, mas sem nenhum laço. Na natureza, tudo está ligado, tudo, e tratem de se lembrar disto, pois pode ser-lhes extremamente útil em suas pesquisas científicas! [...] O segundo elemento da dialética é que tudo se move. Tudo se mexe, o repouso não existe e nunca existiu, é um fato. A ciência deve estudar tudo no seu movimento, no seu desenvolvimento, mas tendo bem em mente que o movimento não ocorre em círculo fechado, senão a vida atual em seu estagio tão elevado não teria aparecido. O movimento se faz em espiral, não adianta demonstrar, subindo, desse jeito... [...] O terceiro elemento da dialética é a passagem da quantidade à qualidade. Este elemento extremamente importante nos permite compreender o que é a evolução. Não creiam que a evolução é um simples crescimento e nada mais. Aqui, devemos, antes de mais nada, pensar em Darwin. Engels nos faz compreender este elemento pegando exemplos tirados da ciência. Tomemos a água, a água desta garrafa, por exemplo, está dezoito graus, é a água ordinária. Vocês podem esquentá-la se quiserem. Esquentem-na a trinta graus, e ainda assim será água. Tragam-na a oitenta graus, e ainda será água. Mas se chegarmos até cem, hein? O que produziremos? Vapor! [...] O quarto elemento da dialética – gritou de repente, e muitas pessoas, mais uma vez, sobressaltaram-se – é que... são as contradições! Os contrários! O antigo e o novo, o negativo e o positivo. É visível em todo lugar, camaradas, não é nenhum mistério. [....]. Trecho extraído do romance O primeiro círculo (Bruguera, 1968), do escritor, dramaturgo e historiador russo Alexander Soljenítsin (1918-2008), prêmio Nobel de Literatura de 1970, que por contestar o esmagamento da liberdade individual pelo Estado onipresente e totalitário, foi expulso do seu país natal e teve sua nacionalidade retirada em 1974. Veja mais aqui.

UMA LEITURA: SER MULHER
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada / para os gozos da vida; a liberdade e o amor; / tentar da glória a etérea e altívola escalada, / na eterna aspiração de um sonho superior… / Ser mulher, desejar outra alma pura e alada / para poder, com ela, o infinito transpor; / sentir a vida triste, insípida, isolada, / buscar um companheiro e encontrar um senhor… / Ser mulher, calcular todo o infinito curto / para a larga expansão do desejado surto, / no ascenso espiritual aos perfeitos ideais… / Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza! / ficar na vida qual uma águia inerte, presa / nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Ser mulher, poema extraído da obra Cristais partidos (1915), da poeta Gilka Machado (1893 – 1980).

PENSAMENTO DO DIA: AOS FUTUROS POETAS - [...] Quando um ser humano de inteligência normal chega a renegar o próprio cérebro; quando abdica, inteiramente, do direito de aprender a discernir, em relação à própria vida e coisas do mundo; quando por indolência mental, coloca-se na condição de borrego, aceitando, como guias infalíveis, maquinadores especializados na dominação das coletividades ingênuas... tal criatura desceu ao mais baixo grau de dignidade, a ponto de não merecer a condição de humano, por representar tão degenerado exemplo. Pedir e ouvir conselhos, sugestões, palavras de orientação é ato de prudência, desde que reservada à posterior independência de decisões, quando em idade compatível. Mas, colocar-se em perpétua alienação é um despropósito, que facilita a propagação de tiranos ensandecidos. Aos poetas dessa e das gerações vindouras; a todos os demais artistas das diversas musas – por referências que são às multidões – é chegado o momento de profunda reflexão, quanto ao total descaso exercido,a te os dias atuais, relativamente, aos Princípios e Leis do Universo, que mais afetam à humanidade e ao meio ambiente da Terra – sobretudo, quanto aos princípios das quantidades, proporções e limites. Não se pode ignorar que sob monopólios e igualitarismos não haverá evolução. Sempre foram, são e serão abominados pela Evolução da Vida e do pensamento. Isto já foi por demais comprovado. Aberrações utópicas, dogmáticas, conduzem a insucessos. Mas, prenhes de oportunismos, todos sortilégios teimam em contrariar o obvio, quanto aos monopólios, ainda que esses e o igualitarismo tenham sido, sempre, máquinas de lesar. Recorrendo à História, Biologia e ao momento internacional presente, é fácil compreender isso. A Natureza é pela evolução da diversidade. Fora das abstrações matemáticas e geométricas, só existem semelhanças, jamais igualdades, mormente entre os seres vivos. [...]. Trecho extraído da obra Aos futuros poetas aspectos didáticos do poema, silabação poética, versos, glossário de terminologia e conceitos, comentários sobre assuntos diversos (Ottoni, 2006), do poeta, pesquisador, pecuarista e Analista de O&M aposentado sorocabano, J. Martines Carrasco. Veja mais aqui.  

UMA IMAGEM: 
A arte da premiada fotógrafa e historiadora da arte Camila Vedoveto.

AGENDA: SIMPÓSIO DE PREVENÇÃO DO SUICÍDIO - Acontecerá entre os dias 6 e 8 de outubro, no Conselho Regional de Psicologia de Alagoas, o I Simpósio de Prevenção do Suicídio, promovido pelo Centro de Amor à Vida (Cavida). Informações pelo telefone (82) 98879-2710 ou mail simposio@cavida.org. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] A vida não é argument0 – Armamos para nós um mundo, em que podemos viver – ao admitirmos corpos, linhas, superfícies, causas e efeitos, movimento e repouso, reforma e conteúdo: sem esses artigos de fé ninguém toleraria agora viver! Mas com isso ainda não são nada de demonstrado. A vida não é argumento; entre as condições da vida poderia estar o erro.
Trechos extraídos do Livro III, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista múltiplo Fernando de La Rocque.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra com a arte do artista visual & coordenador do grupo Amigos da Arte, Fernando Nolasco.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...