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sábado, setembro 24, 2022

MARTIN AMIS, PHYLLIS A. WHITNEY, ROSANA PALAZYAN & PAULA BERINSON

 

 Ao som dos álbuns Violão Popular Brasileiro Contemporâneo (1985), Camerístico (2007), Original (2002) e Dois Destinos (2016), do violonista, arranjador e compositor Marco Pereira.

 

TRÍPTICO DQP: - Vida de sonheiro... - Amanheceu e a maravilha de viver cheia nos olhos e coração. Uma comemoração alheia e descabida atravessou a noite alfinetando minha madorna assaltada pela madrugada afora: era como a assombração de inimigo insone ao arrebol, com o eco da balbúrdia dos alto-falantes. Na verdade mais parecia a festa do obituário na fúria de nauseantes desumanos engrossando o alarido farsante dos fetiches na festa da derrocada e do patético. A cidade não era outra senão a vista por Adorno: ...reproduz a fachada na tarefa de enganar. O engodo iminente saltitava a revelar pistas falsas na hora suspensa: alarmes latentes na paisagem nublada. Já não tenho tanta certeza de nada, aliás, nunca tive de mesmo. Escapei por pouco e vivo porque sorvi as três mil hóstias n’O Lugar do Sonho de Rosana Palazyan: Na arte, era um perigo de exclusão e não aceitação. Mas insisti e resisti. Nunca esquecida, hoje cada vez mais essa memória reacende, a cada notícia de vitimas. Não dá pra viver na cidade linda que amo tanto e que nunca abandonei, sem fazer nada... Eu acredito no amor, como forma de cura e resistência... Esses os nossos sentimentos, muito embora intramuros tudo seja tão crucial quanto pungente: uma vaguidade empalidecente ornada de prudência e covardia. Já perdi minha certidão de nascimento, quem disse que seria agora ou para hoje: o passado tem o gosto das coisas perdidas. Não estremeci, nem estou morto. Eu escrevo enquanto ouço de Martin Amis: Escrever é um ato de liberdade. Sim, a minha vida de sonheiro: o esperançar é maior que o deserto do real...

 


De passadas e tropeços... - Imagem: Cabeças & Boca do Inferno (Galeria Vermelho/Bienal de São Paulo, 2021), da pintora, escultora, artista visual, desenhista, gravadora, professora e artista multimídia Carmela Gross. - Falta pouco, espero. Está tão irrespirável nas tardes de todos os dias noite adentro por dilúculos sombrios. Mas sei, falta muito pouco, tomara. Todavia, as circunstâncias arranham a pele com o tempo obnubilado. Não fosse a surpresa eu teria talvez sucumbido ao desengano. Apareceu-me Beatrice – não apenas a perseguida amada de Dante, e que antes já estivera no altar sagrado como serva de Afrodite para se entregar ao primeiro que aparecesse com moeda em troca. E que depois se passara por Cenci para assombrar Paris e o mundo todas as noites de 11 de setembro. E que depois de musa se tornara renascente Filha da Dor pelos séculos pretéritos e crástinos. Com seu jeito aconchegante de recém-chegada, ela me contou de quando foi Rūpiikā do Kathāsaritsāgara e do quanto sofrera por ontens de repetidas cenas milenares. E mais dissera do sonho recorrente da infância de se ver leitora pras crianças e aflitos, e escrever poesias no seu diário interminável, e vestir-se para o domingo como uma moça qualquer da vizinhança e não pudera jamais, nem agora que nada mais a atemorizava. Mais disse entre fumaças e goles, soluços e revelações. Mais que sonolenta levantou-se, apagou a luz, despiu-se para deitar e, pela luz lunar dos seus olhos fechados, expôs o torso colossal da Freira de Monza, para me recitar os últimos versos do Poema Limpo de Paula Berinson: ... Vomito as almas dos meus filhos / e os devolvo à trincheira / do nada materno. Silenciou aninhand0-se ao meu lado e esforçando-se por esconder as lágrimas que se precipitavam na cachoeira do peito. Eu sentia e afagava seus braços suaves. Enfim aquietou-se para que minhas mãos solidárias acariciassem suas faces sedosas, quando enfim me acomodou nela para o nosso solidário adormecimento. Era onírico demais para ser verdade. Duvidei até do que sou. Só sei que ao despertar o canto mais limpo, ela se fora e a sensação das trevas cobriu-me as direções como se não mais tivesse bússola nem para onde ir, como o que se fez de espera nos desencontros tácitos pelas saídas de emergência.

 


Outro tempo inexistente... - Imagem: Jardim dos Pássaros, da série A noite, no quarto de cima, O cruzeiro do sul, lat. Sul 23 32 36, long. W. Gr. 46 37 59, 1973 – 2010: Revisão (Livraria e Galeria Seta), do pintor, gravador e desenhista Evandro Carlos Jardim. – As horas passavam e tive a sensação de que tudo se parecia tão urgente quanto o que calei fundo indesejavelmente. E tudo de mim fosse levado pela ponta do improvável não sei para onde, na previsão do amorável se esgarçando na ponta dos dedos - mesmo que meu coração insistisse entre todas as possibilidades de comunhão e harmonia. Estava tão absorvido pela confusão que nem percebi o seu retorno inesperado. Novamente chegara e me fitou assustada como se tivesse acometida pela Síndrome de Stendhal, desmaiando voluptuosamente em seguida. Tentei socorrê-la, mesmo que me visse incapaz da sobrevida desejada. Tentei reanimá-la sem saber nem como, mãos à cabeça e agora, o que fazer sumindo das ideias. Felizmente ela deu sinal de vida ao se mexer timidamente. Fiz o que pude para que se sentisse confortável para completo restabelecimento. Aos poucos foi retomando os sentidos e quase refeita fitou-me lindamente. Tentou dizer-me algo e ousou como se fosse Eleanor Catton esforçando-se ao máximo: Experimentar a beleza natural sublime é enfrentar a total inadequação da linguagem para descrever o que você vê. Palavras não podem transmitir a escala de uma vista que é tão impressionante que é sentida. Tentei melhor ampará-la e não pude esconder o regozijo com o que dissera ali. Sabia-me Golem e lhe recitei o Autorretrato de Bandeira assim, todinho de cor, em retribuição. Se o que vale é o teor dos sentidos na horagá, fiz-me solícito e firmei o que mais adequado haveria de ser feito: sentir suas pulsações e reter ao máximo o prazer de tê-la o mais próximo que pudesse enquanto possível. Até mais ver.



 
Ler sempre foi minha tábua de salvação – uma fuga para aquele mundo imaginário onde as mágoas eram fictícias e os finais felizes...

Pensamento da escritora estadunidense Phyllis A. Whitney (1903-2008). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



sexta-feira, setembro 25, 2020

FAULKNER, MARIE UNDER, FELÍCIA HEMANS, CARMELA GROSS, EOS & PAULO CAVALCANTI

 


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA (TRÍPTICO DGF) – UMA: SABE AQUELA... DA ESCALADA DA VIDA - Fui ao fundo do poço, fiz minha catábase. Sim. E com os versos de Carlos de Oliveira: pelo cascalho interno da terra, / onde o esqueleto da vida / se petrifica protestando. / Como um rio ao contrário, de águas povoadas / por alucinações mortas boiando levadas / para a alma da terra, / procuro os úberes do fogo. Dos umbrais de mim, cenas de filmes e contas nos dedos, andaços e enlevos às desoras. Quando dei por mim naquelas funduras, a perda & a desolação anoitecida. Não sabia que em toda minha vida, das idas e vindas, entre érebros e báratros. Lá nas entranhas do mundo de mim, ouvi o Auto da Alma e a barca de Gil Vicente: À barca, à barca, mortais, barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida! Quase os mesmos efusivos alto-falantes dos protestos velados de Not about Nightingales, de Tenessee Williams. Para me proteger de não sei o quê, recitava os poemas da inocência e experiência de William Blake, sem que previsse me deparar Coleridge aos berros: Quem se vangloria de ter conquistado uma multidão de amigos nunca teve um. Vaguei na obscuridade, quis me livrar do passado, olhar para o amanhã e seguir, até ser alertado por William Faulkner: O passado nunca está morto. Nem sequer é passado. Ontem só acabará amanhã, e amanhã começou há dez mil anos. Só faltou dizer que o mundo é a Guernica de Picasso, logro da desconfiança.

 


DUAS PASSAGENS ALADAS DE UM ÚNICO AMOR - Imagem da artista multimídia Carmela GrossAonde cheguei era o último piso do fim, nada havia mais além; se epílogo ou posfácio, o derradeiro do limite. Só me restava a poemópera da anábase, como quem vai e volta, a recomeçar, tropeços na jornada, cochilos e visões. Três e tantos movimentos, pisadas e duas graças: nunca me dei por perdido, apesar de. Sucumbi ao amor, desespero da paixão: vertigens, duas ou poucas palavras, muitos textos e três passos para ascenção. Quantas inusitadas situações. Estava só no meio do caminho, muito por me sujeitar de quase não ouvir os versos de Uma canção de despedida de Felícia Hemans: Quando lágrimas repentinas caem sobre seus olhos / Ao som de uma melodia antiga; / Quando você ouve a voz de um riacho na montanha, / Quando você sente o encanto do sonho de um poeta; / Que assim seja! / Que minha memória fique com vocês, amigos! Porque ela era nua amanhecida Eos na carruagem púrpura alada dos arreios multicores para os sonhos intensos de amor infindo, até o reencontro no evento da luz.

 


TRÊS SOPAPOS NA CHEGADA - Imagem da artista multimídia Carmela Gross – Enfim, aqui estou, algum lugar dos caminhos. Eu vim de onde me fiz, a viagem de volta, tantos Brasís, quantos janeiros: trilhas desfeitas, rabiscos, recados indecifráveis, motores raivosos, céus esfumaçados, desídias, talhos, atalhos perdidos, interditos, superstições. (Dava para parafrasear Erasmo no seu Julio II excluído del reino de los cielos nos Escritos de crítica religiosa e política: Certamente não me surpreende que tão poucos cheguem aqui, se você chicotear assim eles assumem o comando da doidice. Apesar de tudo, ouso conjeturar que o país ainda tem cura de alguma forma, pois honra um esgoto tão imundo em virtude do mero título de presidente). Aqui estou e me tratam por necromante com tudo que passei, e para que transmita a verdade que querem ouvir. Apenas repito trecho dAs geórgicas de Virgílio: Não desejo abranger todas as coisas juntas em meus versos, não conseguiria, ainda que possuísse cem línguas e cem bocas, e uma voz de ferro. Prefiro invocar a Denúncia de Marie Under: Eu grito alto com a boca de todo o meu povo, / nossa terra está ferida por uma praga de medo e chumbo, / nossa terra está sombreada pela árvore da forca / nossa terra um cemitério comum, enorme de mortos. / Quem virá ajudar? Bem aqui, no presente, agora! / Porque o paciente está fraco, perdeu o controle. / Mas, como o canto dos pássaros, meu grito se desvanece / no vazio: o mundo é arrogante e frio. / O suspiro do velho, o choro do bebê - / todos correm para a areia, ilusão, falham? / Homens, mulheres gemem como cervos feridos / para aqueles que estão no poder, tudo isso é apenas um conto de fadas. /  Trevas são os olhos do mundo, seus ouvidos são surdos, / os poderosos perdidos na loucura ou na estupidez. / Compaixão só é sentida por aqueles a quem o sofrimento quebra, / e só os sofredores têm corações como você e eu. Voltei levando nos peitos, refém da viagem, vulnerável às circunstâncias, chuvas, quedas, labirintos e túneis sem fim... Quem dera fosse diferente embarque, desembarque: reificação de simulacros e sempresente. A cidade é o deserto e o difícil é chegar. Até mais ver.


CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Veja mais aqui.


 A OBRA DE PAULO CAVALCANTI

[...] O que nos conforta é a grandeza da nossa autocrítica, no reconhecimento dos nossos erros. E até dos crimes cometidos em nome do socialismo. Vão-se esses erros e esses crimes. Menos os símbolos.

A obra do escritor, advogado e jornalista Paulo Cavalcanti (1915-1995), fundador da Associação do Ministério Público de Pernambuco e da União Brasileira de Escritores (UBE-PE) e foi preso e aposentando compulsoriamente pelo AI-2, autor de obras como a trilogia O caso eu conto como o caso foi – memórias políticas (1978/1980/1984), Nos tempos de Prestes (1981/1982); A luta clandestina (1984/1985); Homens e ideias do meu tempo (1993); Vale a pena (ainda) ser comunista (1994); História de um governo popular e Os equívocos de Caio Prado Júnior. Veja mais aqui e aqui.

 


 


terça-feira, fevereiro 06, 2018

DRUMMOND, PIRANDELLO, NELSON CHAVES, ALMEIDA PRADO, PAVIANI, ANA RUCNER, NELSON LEIRNER, CARMELA GROSS, TINA MODOTTI & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

PRA QUEM QUER O FIM, A COISA SÓ TERMINA QUANDO ACABA –  Imagens: arte da artista plástica, desenhista & vídeo artista Carmela Gross. UMA – Um passarinho gorjeia toda manhã na quinta do meu telhado. Conversa comigo. Os seus chilreios me dizem: A vida é outra coisa. E seu canto faz disso refrão e estribilho. Entendo bem o que diz, e respondo que sei, eu sei bem disso, meu caro amigo passarinho, só não sei, ao certo, o que é que é, mas sei. O que é faz parte de outra coisa, a minha busca, dia a dia, mente e coração. Só sei, meu nobre amigo passarinho, que você não sendo como eu, não tem culpa, dívidas, passado, muito menos medo da morte. E eu? Eu sigo. Ele voa, vai sem saber pra onde. Voo com ele, na imaginação. Aprendo coisas que nem sei dizer, aprendo, sinto o inexplicável. E voo ao meu modo, todo dia, de manhanzinha. Até acordar e esquecer. Reaprendo amanhã de novo, quando amanhecer. DUAS – Ah, o ministro lá desse desgoverno, parece ser o da pasta da Inducação – só sendo mesmo! -, não se sabe ao certo por que cargas d’águas, tem mantido aos cochichos e só entre os seus, ardilosamente a trama de adotar o sistema Escambau do Doro e, com isso, resolver, de uma vez por todas, o problema entre alunos e professores. Só? Parece que só, definitivamente. Na verdade, o propósito real não passa de jogada para esvaziar a campanha e o discurso do presidenciável fuleiro emergente que tem, conforme algumas pesquisas escusas catadas embaixo de sete capas nos quintos dos infernos, mesmo aos peidos e pinotes, levantando o índice das preferências do eleitorado. Pois é, dizem que aparece nas estatísticas como possível eleito entre simpatizantes e indecisos, quem quiser que acredite nisso. Contudo, o que é verdade de mesmo, é que o projeto passa pela cabeça do megalômano ministro, como se fosse o seu projeto pessoal para uma reforma avassaladora na escolaridade, na ortografia, na Lei de Diretrizes e Bases, no Plano Nacional e Internacional no estopô calango e na febre do rato, tudo por tabela e em cadeia. Para ele uma revisão revolucionária para acabar de vez com os problemas educacionais do Brasil e do mundo. Como consequência, acredita o ministro enterrar de vez não só a candidatura desproposital do Doro, como a de todos os demais candidatos no pleito presidencial, mantendo, assim, a sua máxima de que quem quiser estudar que pague. Pra isso é como se fosse um toque de mágica em todos os problemas brasileiros: Pronto, resolvido. O Doro é que não anda nada feliz com isso e diz: além de analfabeto, esse ministro é ladrão de ideia, que coisa mais descarada desse sujeitinho tolo, hem? Ponto final. TRÊS – Falando nisso, quem acredita na justiça brasileira, hem? Uma pesquisa realizada pelo DataPovo – na verdade, com meia dúzia de metidos a besta -, trouxe a constatação de que nenhum, nenhunzinho brasileiro que esteja em sã consciência, acredita na justiça brasileiro. Excetua a pesquisa, os pirados, os bêbados de cair, as criancinhas de colo, os envultados e os que estão mamando nas tetas da Mãe Pátria direta ou indiretamente – que são muitos, senão quase todos. O Doro mesmo manifestou-se: Só há injustiça! Quando consultaram o Robimagaiver: Ah, meu, se você quiser perder tempo e só entrar na justiça que você morre e, só depois disso, é que resolve por bem ou por mal, você já tá morto mesmo, tanto faz como tanto fez. O Bitiroaldo meio lá e meio cá, depois de coçar o quengo, fazer careta e olhar prum lado e pro outro: Só tem justiça pra pobre, rico que é bom... nem sei direito, aqui é tudo de pernas pro ar, eu que me benzo e Deus que livre de justiça. Rolivânio ia passando todo avexado e desentendido: O que é isso? Ao seu lado o Penisvaldo deu a desculpa: Não sei do quê você está falando. Outros e outras que passavam, ao serem perguntados, respondiam: Não sei de nada. Ah, vai te catar! Não tenho tempo pras besteiras. Vá arrumar uma lavagem de roupa, porra! Você não tem o que fazer? Ah, vai pra porra! Nessa hora vinha Vera toda reboladeira e reboculosa, sacou do espelhinho – Vai filmar é? Peraí, deixa eu me ajeitar, tenho que me embonecar toda para sair bem na fita -, e sempre indignada, deu a dela: Justiça mesmo é perder de vista, a gente não sabe mais quem é a desfavor, se advogado, juiz ou promotor; tudo farinha do mesmo saco e só pra foder a gente de qualquer jeito, beleza? E pra Zé-Corninho: Não fale nisso perto de mim que já adoeço; já perdi tanto que nem tenho mais onde cair morto. Aí o Doutor Zé Gulu que vinha todo desligado e metido com suas ideias, de sopetão destampou: Num país sem-vergonha como o Brasil, como falar de justiça, hem? Aqui tudo se confunde: crime com virtude, ética com gatunagem, direito com ilicitude, aqui é o reino dos contrários e haja paradoxo, se acha pouco, injustiça é o que manda e a justiça vai só na onda pendendo para quem tem, como diz Mateus, 13:13: E o que tem mais se lhe dará, e o que não tem até o que tem lhe será tomado! Eita, gota! MAIS OUTRA, SAIDEIRA – Dermevaldito era o protóripo do politicamente correto: abstêmio, antitabagista, fisiculturista e metrossexual. Esbanjava saúde na academia, nas caminhadas, musculoso na moda, asseado, perfumado, um colosso pros suspiros da mulherada. Vivia a dar conselho do melhor viver com dietas, exercícios, regramento na conduta, pensamento positivo e oração de gratidão no templo religioso todo santo dia. Um exemplo a se seguir, como diziam todos. E era gente boa mesmo, não tinha inimigos, cortês com todo mundo, atencioso, prestativo, fosse de lá pra cá ou de cá pra lá, era o mesmo, sempre. Até que anteontem, durante uma corrida de bicicleta, o nosso amigo se sentiu mal, coitado, e não deu nem tempo descer pra descansar. Deu-lhe um piripaque, caiu de cara no chão, esparramou-se todo desengonçado e na queda bateu as botas e babau, em pleno passeio. Que coisa! Coração falhou na horagá, diagnosticaram. E que era hipocondríaco, diziam. Por isso sentenciam: pra morrer basta estar vivo. E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com as Cartas Celestes 1 e 8 do pianista e compositor de música erudita Almeida Prado (1943-2010); Libertango, Storm & Sitarki da violoncelista croata Ana Rucner; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAO homem moderno parece indiferente à ecologia e, em consequência já está pagando um pesado tributo e tem, diante de si, três alternativas: modificar seu estilo de vida, tornar-se menos pragmático, menos ambicioso, mais solidário; esperar o desastre ecológico e sofrer as terríveis consequências da falta de alimentos, de água e de oxigênio; preparar-se para o aumento da agressividade e das divergências politicas entre as nações, capazes de desenvolver a catástrofe nuclear. Pensamento do cientista e médico nutrólogo Nelson Chaves (1906-1982). Veja mais aqui.

A ARTE & O ARTISTA - [...] Assim atua o artista, porque ele vê no mundo um tecido de relações estando as coisas [...] perpassadas por um fio de referência mútuas, por isso todo comportamento é um comportamento no mundo. Nele as coisas, os gestos, os atos, adquirem sentido [...] É esta apreensão no mundo que a arte mostra atravpes do sentimento de situação do homem e através de suas emoções [...]. Trecho extraído da obra A racionalidade estética (EDIPUCRS, 1991) do filósofo, poeta, professor e crítico de arte Jayme Paviani.

A COR DE CADA UMNa República do Espicha-Encolhe cogitava-se de organizar partidos políticos por meio de cores. Uns optaram pelo partido rosa, outros pelo azul, houve quem preferisse o amarelo, mas o vermelho não podia ser. Também era permitido escolher o roxo, o preto com bolinhas e finalmente o branco. – Este é o melhor – proclamaram uns tantos. – Sendo resumo de todas as cores, é cor sem cor, e a gente fica mais à vontade. Alguns hesitavam. Se houvesse o duas-cores, hem? Furta-cor também não seria mau. Idem, o arco-íris. Havia arrependidos de uma cor, que procuravam passar para outra. E os que negociavam: só adotariam uma cor se recebesse antes 100 metros de tecido da mesma cor, que não desbotasse nunca. – Justamente o ideal é a cor que desbota – sentenciou aquele ali. – Quando o governo vai chegando ao fim, a fazenda empalidece, e pode-se pintá-la na cor do sol nascente. Este sábio foi eleito por unanimidade Presidente do Partido de Qualquer Cor. Extraída da obra Contos plausíveis (Record, 2006), do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui.

ANA DE AMSTERDAMNo Recife holandês, Ana / nua dançou para Nassau / que atravessou / a Rua da Balsa e aportou / no corpo da rainha dos tanoeiros. / Nassau vinha embuçado / das sombras da noite. / E fatigado das tarefas maurícias / ia repousar seus óleos guerreiros / no torso nu de Ana, a Francesa. / Maurício deixava seus pagos ilhados / e cavalgava como demônio sobre a távola / entre bucaneiros e mercenários do porto. / Ana era a mais bela prostituta / do Cais do Porto do Recife. / E fazia o sangue se rebelar / e acordar o sol nos olhos / dos homens soturnos. / Ela veio de longe. / Das brumas do Velho Mundo. / Dos bordeis de Marselha / Barcelona e Amstrerdam / seduzida pela América / terra jovem como seu corpo / que era pertença / de marinheiros / troféu dos mascates / e bálsamo para o Príncipe / Maurício de Nassau. / Atraído pelos aromas de Ana / Nassau cerrava / o Palácio das Torres / e navegava os umbrais do instinto / no faro do cio / dentro da noite misteriosa. / Além do mangue / Ana, a Rainha / dos Tanoeiros, esperava / o príncipe noturno / que aportava / na claridade do seu corpo. Extraído da obra Gesta Pernambucana (Fundarpe, 1990), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui.

ASSIM É... SE LHE PARECE
Arte do pintor, desenhista, cenógrafo e professor Nelson Leirner. Essa obra remete logo à peça teatral Assim é: se lhe parece (Tordesilhas, 2011), do dramaturgo, poeta, romancista siciliano e Prêmio Nobel de Literatura de 1934, Luigi Pirandello (1867 – 1936), que conta a história dos habitantes de uma pequena cidade, que ardem de curiosidade para desvendar o mistério que ronda os recém-chegados moradores: o senhor Ponza, sua esposa e sua sogra, a senhora Frola. Os três só andam de preto, não recebem visitas, e ninguém ainda viu de perto a senhora Ponza. Com enredo simples, mesmo assim, encerra uma questão complexa: a ilusão da verdade absoluta. Foi representada pela primeira vez em 1917, enquanto a Itália passava pela insegurança da Primeira Guerra Mundial, a obra coloca em cheque os conceitos de “verdade” e “objetividade”, expondo a história da senhora Frola, uma velha que se muda para o mesmo prédio de uma família da alta burguesia italiana, os Agazzi, e se recusa a recebê-los. Gesto que é encarado com indignação pelo senhor Agazzi, ocupante de um cargo elevado na prefeitura da pequena província. A revolta logo se torna perplexidade e curiosidade, com o surgimento do senhor Ponza, genro da velha e colega de repartição do senhor Agazzi. Ponza se desculpa pela sogra e pede que todos tenham paciência, pois ela enlouqueceu com a morte da filha e agora está sob seus cuidados. Pouco tempo depois, é a senhora Frola quem conta, de forma coerente e sã, ser o genro quem de fato se abalou mentalmente e, portanto, acredita que a esposa está morta. Entre idas e vindas de ambos, a confusão de todos aumenta cada vez mais, beirando o desespero. Para piorar, o cunhado de Agazzi, Laudisi, insiste em tentar convencê-los de que a verdade não existe. Veja mais aqui.

Veja mais:
Como as coisas são e como podem ser, o pensamento de Lou Andreas-Salomé, a música de Enrica Cavallo, a arte de Antoni Tàpies & Misty Copeland aqui.
Folia Caeté na Folia Tataritaritatá, Ascenso Ferreira, Chiquinha Gonzaga, Nelson Ferreira, Adolphe William Bouguereau, José Ramos Tinhorão, Agostino Carracci, Frevo, Maracatu, Teatro & Carnaval, Dias de Momo As Puaras, Peró Batista Andrade, Baco & Ariadne aqui.
Fevereiro, carnaval & frevo, Galo da Madrugada, Roberto DaMatta, Mauro Mota, Capiba, Orquestra Contemporânea de Olinda, Mário Souto Maior, Valdemar de Oliveira, Zsa Zsa Gabor, Helena Isabel Correia Ribeiro, Rollandry Silvério & Márcio Melo aqui.
A troça do Fabo aqui.
William Burroughs, Henfil, Ernest Chausson, Liliana Cavani, Hans Rudolf Giger, Charlotte Rampling, Religi]ão & Saúde Mental, A multa do fim do mundo & Auber Fioravante Junior aqui.
Quanto te vi, Christopher Marlowe, Duofel, Haim G. Ginott, Mary Leakey, François Truffaut, Dona Zica, Natalie Portman, Ewa Kienko Gawlik, Pais & filhos aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, atriz, modelo e ativista política revolucionária italiana Tina Modotti (1896-1942).
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segunda-feira, agosto 29, 2016

KAFKA, PERLS, MACHADO, CARMELA GROSS, DISCANTUS, LUBA LUKOVA, PAULO ITO & GUTTUSO

PAPO DE FABOS - Teve um cara aí que disse que o Senado é um hospício! Num sei quem foi, nunca vi mais gordo!Foi mesmo? Bingô. Acertou em cheio! Nada, errou feio. Oxe, errou? Errou, porque pra mim não é um hospício, o Congresso todo é um pandemônio no sentido grego da palavra! Grego? Sim: uma concentração de demônios! Vôte! E num é não? Pra mim é a representação do povo! E o povo o que é? O povo é todo mundo! Nada, tudo uns analfabetos, não sabem votar, tudo uns brucutus! E, por acaso, você não faz parte desse povo? Eu não, sou letrado e não me misturo, tenho consciência e se eu estivesse no poder eu daria um jeito no Brasil! Como e que jeito? Oxe, eu sei como fazer, botava tudo na reta! Como, quem seria seus ministros? Ué, minha família! Comigo é assim: pros meus tudo, pros inimigos o paredão! Eita, isso é nepotismo! E tem melhor que minha família e os meus amigos? Danou-se! Danou-se, nada! Sei escolher os amigos e tenho a melhor e a mais honesta família do mundo! E o resto do povo? E eu sei!?! O povo que se dane, eu resolvendo o meu, o resto que se fôda! Comigo é assim: conversa de broco, ouvidos moucos, meu! Eu sei como dá jeito no Brasil! Ah, tá! Quer dizer que os bons estão com você, o resto não presta! Claro, ora, vê se eu elegi algum desses picaretas! E você votou em quem? Votei em branco, não tenho responsabiliade nenhuma sobre a merdaria que grassa agora! Hum, pra você isso é o certo? Todo dia de eleição, faço a minha parte: comprovo e vou lá, voto em nenhum. A culpa é dos outros que não sabem votar! Ah, isso lhe exime de qualquer responsabilidade, né? É, não faço parte dessa mundiça que não sabe votar! Que coisa!?! Sou feito os gringos do primeiro mundo, sei como fazer, por isso que o Brasil não presta, com um povo desse que nem é gente, um bando de preguiçoso e burro! Destá! E você acha que está certíssimo, né? Mas mudando de conversa, vamos deixar esse povo pra lá, tudo uns imprestáveis. Na verdade preciso de um favor seu! Quando levo nisso? Ué, você é dos meus! Sou cristão: é dando que se recebe! Preciso de um favor! Vamos lá, diga o que é e quanto vai cair de ôia na minha algibeira! Não seja mercenário! Pra mim é assim: santo que não me ajuda pode cair da parede! Ah, assim não dá! Comigo não tem venha nós, o vosso reino, mostre logo dindim preu me animar e comprar a sua briga! Amigo é pra ajudar na lição de Jesus! Ah, não sou igreja pra obrar caridade, amigo é pra acudir o outro, comeu, lavou, deixa pra lá; se gostou, vai de novo até abusar e jogar fora! Moral da história: dito pelo não dito, ficou que o Congresso e todos os poderes da Nação são um pandemônio e o Brasil todo é um hospício, eles não. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo o álbum Hortus Deliciarum (Opus 111 - Hymnaire de Pairis Anonymous, Naïve/1998-2003), do octeto de vozes femininas Discantus, dirigido por Brigitte Lesne com composições da mística monja beneditina, compositora, poeta e dramaturga alemã Hildegard de Bingen (1098-1179), a Sibila do Reno.

PESQUISA: 
Preciso escrever sobre mim mesmo. Eu sou meu laboratório. A privacidade das suas experiências não é minha conhecida, exceto por revelações. Não há ponte entre homem e homem. [...] Eu adivinho e imagino, empatizo e sei lá que mais. Pois estranhos somos, e estranhos ficamos, exceto algumas identidades em que eu e você nos juntamos. Ou melhor ainda, onde você me toca e eu toco você, quando a estranheza se faz familiar. Venha, faça os discursos que quiser. Você fala de si, e não do mundo. Pois há espelhos no lugar da luz e do brilho das janelas. Você vê a si mesmo, e não a nós. Só projeções, livre-se delas. Self mais pobre, recupere aquilo que é apenas seu, torne-se essa projeção, entre nela bem a fundo. O papel dos outros é o seu. Venha, recupere e cresça mais. Assimile o que você negou. Se você odeia algo que existe, isso é você, embora seja triste. Pois você é eu e eu sou você, você odeia em si mesmo, aquilo que você despreza. Você odeia a si mesmo e pensa que odeia a mim. Projeções são a pior coisa. Acabam com você, o deixam cego transformam montinhos em montanhas para justificar seu preconceito. Recupere os sentidos. Veja claro. Observe aquilo que é real, E não aquilo que você pensa.
Trecho extraído da obra Escarafunchando Fritz: dentro e fora da lata de lixo (Summus, 1979), do psicólogo, psicoterapeuta e psiquiatra alemão Friederich Perls (1893-1970). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA 
A imagem do lar emergia continuamente e as lembranças dele o preenchiam. Também lá erguia-se na praça principal uma igreja, cercada em parte por um velho cemitério e este por um muro alto. Só alguns poucos meninos tinham escalado aquele muro, K. também não o havia conseguido. Não era curiosidade o que os movia, o cemitério não tinha mais nenhum segredo para eles, já haviam entrado várias vezes pela pequena porta gradeada, o que queriam era somente conquistar o muro alto e liso. Uma tarde — a praça quieta e vazia estava inundada de luz; quando K. a vira assim, antes ou depois? — ele o conseguiu de uma maneira surpreendentemente fácil; num lugar onde já fora vencido com frequência, ele escalou o muro na primeira tentativa, com uma pequena bandeira entre os dentes. O cascalho ainda rolava debaixo dele quando já estava em cima. Fincou a bandeira, o vento esticou o tecido, ele olhou para baixo e à sua volta, pelo alto dos ombros, em direção à cruz que afundava na terra, ninguém agora era maiordo que ele ali. Por acaso então passou o professor, forçou-o a descer com um olhar irado, na descida K. feriu o joelho, só chegou em casa com esforço, mas ele tinha estado com certeza em cima do muro, o sentimento dessa vitória parecia-lhe na época o suporte para uma longa vida, o que não fora completamente tolo, pois agora, tantos anos depois, vinha ajudá-lo na noite de neve no braço de Barnabás. [...].
Trecho da obra O castelo (Companhia das Letras, 2000), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Pelo que respeita especialmente à patifaria Panamá [...] Não faltam réus na porcaria Panamá, sejam eles castigados, como merecem. [...] Quando um homem tem a glória de Suez e perpetuo renome, é triste vê-lo metido com papeluchos falsos. [...].
Trecho da crônica de 12 de dezembro de 1892 (M. Jackson Inc, 1938), escrita pelo escritor Machado de Assis (1839-1908). Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA; 
A arte da pintora, escultora, artista visual, desenhista, gravadora, professora e artista multimídia Carmela Gross. Veja mais aqui e aqui.

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DESTAQUE
A arte do artista de rua Paulo Ito.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor italiano Renato Guttuso (1911-1987).
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Injustiça, da designer e artista visual búlgara Luba Lukova.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...