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domingo, janeiro 31, 2021

GALEANO, AVALOVARA DE OSMAN, KAGE BAKER, CARL ORFF & TEREZINHA DO ACORDEON

 

 

TRÍPTICO DQC: DAS CARAS & MÁSCARAS (Releituras de Galeano) - Só a Lua conhece a minha solidão e o meu exílio. Renasço a cada alvorada e vou desfiando a vida e a pele de Deus, enquanto a peste fulmina e o ouro de agora é outro entre os sabidos e valentes que traficam granas e coisas ceifando vidas e manipulando poderes, decapitando esperanças e gangrenando a todos: a fortuna é a glória na festa das posses e do domínio. Aos deserdados o abraço e acolhimento de Pachamama: Lá embaixo da terra, os mortos florescem. Estamos todos no Pelourinho para o espetáculo do poder das retrancas e decepções. É nessa hora que se pode pensar em si, não há mais saída, nem adianta se perguntar o que seria se Benjamim Franklin nascesse mulher como a irmã dele, e Montesquieu não recriminasse a cristandade por admitir que os negros não são seres humanos, e o abade Raynal não abominasse a escravidão, e Rousseau não sentisse vergonha do ser humano diante de todas as ocorrências, e se a América não fosse um continente lavado de sangue e dor – e as veias abertas da latinamérica -, o que seria de nós tão desvalidos no eco iluminista noutras veias que não as nossas de mais de cento e vinte milhões de crianças no centro da tormenta. Não há como ignorar ou fazer de esquecido, não sou surdo aos reclamos da humanidade tácita, nem cego às expressões loucas e vozes múltiplas da realidade, sei do dever das desgraças e do haver das sortes. Melhor seguir as palavras andantes e outras que pinotam aqui e ali para dizer o que não consigo enxergar nem perceber. Nunca perdi tempo em contar o quanto tudo é tão valioso quanto inútil entre a denúncia das sombras e a celebração das luzes: tudo é muito contraditório, surpreendente e perigoso. É a vida. Resta o abraço fraterno, peito amigo, a nossa utopia desgraçada.

 


DOIS: SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS- Imagem do Quadrado Sator, painting by Quioc Laurent - Diante da janela do meu quarto sou o escravo Loreius Abel tentando decifrar a magia do preciso quadrado sator e identificar o palíndromo para alforria. Estou nas ruínas de Pompeia e descobri o que não precisava saber: a cortesã trai o senhor. Ou não consegui entender direito o que deveria ser revelado, só a lamentável constatação de que não importava aprender a desintegrar o átomo se pouco se sabia da realidade e muito menos se avaliava o que ocorre ao redor, ora, ora, se a Raínha dos Cárceres da Grécia ainda imperava sobre a vida de cada um e a indiferença inexorável e a censura política e religiosa roendo a coragem e danificando tudo a volta, ah, era isso: o fiel e a pedra dos nossos dias, uma guerra sem testemunhas. Restava desvendar o mundo pelas nove novenas e o que mais: ninguém pode fazer alguma coisa se não consegue pensar bem o que faz. Enfim, encontrei o Evangelho na Taba no canto do circo, e a busca do amor era uma aventura de alto risco e eu na minha Avalovara, interpretando gestos de outros gestos: a primeira foi Dalmília com seus olhos refulgentes, sua pele ariana... Nela tornei-me o semeador. A segunda foi Merca que sonhava bailarina nua na lua cheia, recitando os Cânticos de Salomão como se fosse Carmende Bizet. Ao encontrá-la tornei-me Arepo, Hapax Legomenon – palavra que aparece uma única vez em determinada língua. A terceira, Alcionélia com seu diário dos desejos e loucuras: nela tornei-me aquele que possui o funcionamento das rodas. E eu havia de decifrar a intersecção entre uma espiral e um quadrado, a tentativa de identificar o nome, os seres e as coisas, a transição do caos ao cosmos. Seguia incólume entre a obra e o artista, a solidão e o que eu não sabia: O criador mantém cuidadosamente o mundo em sua órbita. Eu sabia, não haveria mais saída e Osman Lins me dizia da mísera profissão de escritor: Escrever é um meio, o único de que disponho de abrir uma clareira nas trevas que me cercam. Há sempre um encontro, quer queira, quer não; quando não e nem tanto um reencontro marcado.

 


TRÊS: DA VIDA NELA – Imagem da premiada artista visual portuguesa Paula Rego, ao som da cantata dos Carmina Burana - As canções de Benediktbeuern: Cantiones profanae cantoribus et choris cantandae (1937), de Carl Orff. - Ela não veio ontem, anteontem nem nunca mais e se tornara viva no meu desejo de escritos inspirados no manuscrito encontrado naquele mosteiro dissolvido de Benediktbeuern, com as trezentos e dezoito canções, oito ilustrações e duas peças: a Natividade e a Paixão, algumas delas com notações neumáticas. Foi na leitura do códex com as suas subdivisões em seis partes goliardesca que a fiz minha e eterna: moralia et satírica e eu ria do falso moralismo; veris et amoris, e o amor era o sonho da minha vida; lusorum et potatorum, e imaginava nela por festas orgiásticas; a divina, e eu era Deus no sexo dela; ludi, e brincava nela nua todas as formas prazeres; e supplementum, o que ela inventava em mim para o gozo supremo. Agora que ela não mais apareceu, valia o décimo carme: A morte agora reina sobre os prelados que não querem administrar os sacramentos sem obter recompensas... São ladrões, não apóstolos, e destroem a lei do Senhor. E a procurava entre as estrelas, rincões e lonjuras com o décimo-primeiro carme: Sobre a terra nestes tempos, o dinheiro é rei absoluto... A venal cúria papal é cada vez mais ávida dele. Ele impera nas celas dos abades e a multidão de priores, com as suas capas negras, só a ele louva. Nada mais restava, solitário entre os clerici vagantes que se dedicavam ao vício mundanista e distante da clausura e da vida monástica, cultuando o profano e o licencioso, cantavam para o meu prazer: Ó sorte és como a lua mutável. Sempre aumentas ou diminuis. A detestável vida ora oprime e ora cura para brincar com a mente. Miséria, poder, ela os funde como gelo. Sorte imensa e vazia, tu roda volúvel, és má, vã é a felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada. Também a mim contagias; agora por brincadeira o dorso nu entrego à tua perversidade. A sorte na saúde e virtude agora me é contrária. Dá e tira, mantendo sempre escravizado. Nesta hora sem demora tange a corda vibrante; porque a sorte abate o forte, chorai todos comigo. A sua ausência dói enormemente e não menor o desapontamento, a ponto de ouvir a voz da escritora estadunidense Kage Baker (1952-2010) me dizer no meio da noite sobressaltada: O que direi ao meu filho, então, se ele tiver dúvidas sobre a vida eterna? Mortais podem ter sido desprezíveis, é verdade, mas não totalmente maus. A única coisa que as pessoas aprendem sendo oprimidas é como oprimir os outros! Bem quando eu pensei que as coisas não poderiam ficar mais estranhas, eu estava errada. Ao lado dela Kenzaburo Oe sorria no seu jeito nipônico: Os mortos podem sobreviver como parte das vidas daqueles que ainda vivem. E mais riu. Não me fazia entender nem entendiam, o que disseram não me acrescentou em nada, até a chegada de Ken Wilber me chamando atenção: Finalmente, a espiritualidade integral - como o próprio nome "integral" implica - transcende e inclui a ciência, ela não exclui, reprime ou nega a ciência. Mais um labirinto e a gente aprende da forma mais dificil. Até mais ver.

 

ARTE DE TEREZINHA DO ACORDEON



A premiadíssima cantora, compositora e acordeonista Terezinha do Acordeon – Terezinha Bezerra Chaves, maestrina da Orquestra Sanfônica de Pernambuco, integrou o grupo Karolinas com K e fundou o Bloco Sanfona do Povo. Ela gravou o seu primeiro álbum Alegria do Sertão (1970) e, em seguida, Terezinha do Acordeon, Alegria do Sertão (1984), Terezinha do Acordeon (1994), Sina de Cigarra (1997), Coletânea (1999), De volta ao Passado (2002), 40 Anos (2006), Seis Ponto Zero (2010), Vai Baião (2012), Um Amor Assim (2014), Se Não For Assim... (2017), afora participações em diversos discos e gravações. Participou também de eventos como a Missa do Vaqueiro e do álbum Pernambuco em Concerto, além do Festival em Estocolmo, na Suécia, em 2005. Veja mais aqui e aqui.

 



quinta-feira, janeiro 31, 2019

KENZABURO OE, KEN WILBER, RACHEL ROSALEN, ESTAMIRA & DANI BARROS, CABEÇA DE BAGRE


CABEÇA DE BAGRE - Naquela hora o recém-nascido passou a ser a menina dos olhos do pai: Esse o rei daqui, macho todo, vai comer todas e mandar ver. Gabava-se patriarcal com seus princípios rígidos, anacrônicos: Esse será macho até dizer basta, escreva aí. E paparicou, expôs como um troféu, ele e a esposa botaram o menino a perder. Na hora do nome, o primeiro litígio. Depois de muito bate boca o marido bateu na mesa: Joatâncio Filho e ponto final. Na certidão de nascimento, Florismilton, preferência da mulher. Tanto que o garoto cresceu ambíguo, chamado de Tanzinho pelo pai e marmanjaria; e Florinho pela genetriz e quejandas. O tampinha foi crescendo arrodeado de tias, primas, madrinhas e achegadas. Não demorou muito a macharia botar cada boticão de olhos, de chamar na responsa o genitor, orelhas na frente das pulgas: Como é que é? Já quase rapaz, o pai olhou direitinho e nem notara o que denunciavam: que, desde tenra infância, ele delicadamente desmunhecava, falava escondendo a língua e virava os olhos. Num brinque comigo! Espie! Veja direitinho! Vá! Mas num é que é mesmo, rapaz! Esse cabra tá puxando a mãe, talqualzinha. Pode não, vou endireitá-lo agora. E puxou-lo pelo cangote, aos empurrões, ais e uis, meteu-lo dentro dum quarto aos esporros e sermões. A vítima com os olhos arregalados, franzia o cenho de boca aberta: Tome jeito, seja homem! Nem que seja a pulso você vai ser macho, ouviu? E convocou a parentalha macha que era o cúmulo da chatura para o coitado e entraram em ação: Isso só se resolve no cacete! E bateram nele que só, para ver se ele parava com aquilo. Depois de umas tantas lamboradas, pisa de todo jeito, todo dia e o dia todo, ao cabo de uns dois meses nesse trupé, parece que tomou jeito e começou a parecer com o pai, falar, andar, pensar e ter postura do progenitor. O que havia de vigia não permitia a menor delicadeza nas horas de folga, o que levou na cara: Esse não tem jeito, ou vendo, ou mato de pau. É um cabeça de bagre! Ao ouvir o apelido, ficou fulo de engicar-se por dias: Cabeça de bagre, uma ova! Taí, parece que pela pressão ele endireitou-se e foi se ajeitando pras bandas duma prima assanhada da pá virada que torrava um sarro da calcinha voar: Agora sim, o compadre vai achar é bom um filho meu pra sua filha! Fica tudo em família! Entre beijos e amassos, ele se apaixonou pelo sorriso dela e, segundo as más línguas, cometeu a tolice de levá-la inteira pra casa: Essa daí não tem macho que sustente, ela quebra o cristão! É mesmo, comadre, do jeito que ela é fogosa, acho que esse não dá vencimento dela não! E parece que não deu mesmo, dele vê-se numa trapaça e cobrando dela: Se assunte, nega! Nega é a sua mãe, seu pau-mole, só sabe pedir arrego. Sou macho! Você é um cabeça de bagre! Aí, fechou o tempo e, de tanta raiva, deu-lhe um murro que deixou-la banguela: já eram dos arcos inferior e superior, incisivo, canino e primeiro molar. Apelidou-a de boca de sovaco, por vingança. Ela não se deu por vencida e o pau cantou de findar os dois na polícia. Um primo que era araque da ordem, chegou junto: Tu és doido, macho, além de abusar da tua prima, ainda bate nela é? Ela me chamou de cabeça de bagre! É isso mesmo que tu és, desgraçado, um cabeça de bagre! Ele deixou o primo estropiado, de precisar uma tuia de agente e soldados pra conter a fúria dele, e deixá-lo molinho na frente do delegado: Que brabeza é essa, hem? Me chamaram de cabeça de bagre! E o que é que tem, só sendo mesmo um cabeça de bagre para fazer uma merda dessa! Oxe, ele pulou da cadeira e agarrou-se no pescoço do delegado, de só soltá-lo depois de lapada de todo jeito no toitiço, findando desacordado. Dias depois conseguiram a soltura dele, respondendo o processo em liberdade por ser primário. Nem adivinhava o boato do apelido comendo no centro, entre bocas e ouvidos, aos cochichos. Um menino atrevido gritou: Cabeça de bagre! Ele correu e arreou a lenha no recalcitrante, sendo apartado pelo povo. A vítima deu parte na polícia, outra queixa contra ele. Sabia que ia se lascar dessa vez. Ficou na dele, primeiro encheu a pança, depois a bronca: Foda-se. Tomou todas na virada de copos e litros. Bebaço cantou e dançou: Sou cabeça de bagre, larari, laralá. Arreou no meio da rua. Acordou com o sol quente nas faces, mais do que empulhado, de tão envergonhado pelo exibicionismo. Sabia que da prima não tinha volta, agora procurado pela polícia, fugindo da família, desastroso e intragável. Foi aí que desajuizou por uma protestante: Rapaz, sou tarado nessa crente; católica é tudo hipócrita; as outras são mais vadias com pelos e cabeça de vento. E travou-se com a religiosa pela noite enorme. Ao despertar, ela não era tão linda quanto parecia. Ela invocou-se com a rejeição dele: Cabeça de bagre! A fúria dominou-lo, nem ao menos sabe o resultado de tão cego de ira. Deu uma de doido e saiu correndo, não havia outra saída, depois de aprontar foi prum hospício. Lá mesmo foi pego. Saiu mais em conta ser levado pra cadeia mesmo: Buliu com a moça, tem de casar. Um baque no coração. Olhou pra ela e com o asco de um misógino, preferiu manter-se preso. Como é que pode? Familiares e parentes no pé do ouvido: Não fica bem, pense, reflita! E pei, pou, tei, tá. Matutou e pensou consigo: Vá lá que seja, dou um jeito. Tomou uma atitude política firme e na frente de todos gritou: Nunca mais como bagre! Eis uma promessa quebrada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] homens e mulheres têm pelo menos três olhos do saber: o olho da carne, que percebe os acontecimentos físicos; o olho da mente, que percebe imagens, desejos, conceitos e ideias; e o olho da contemplação, que percebe experiências e estados espirituais. E isso, claro, é uma versão simplificada do espectro da consciência, atingindo desde o corpo até a mente e o espírito [...] Todas as coisas são una com o Fundamento Divino - ele é, afinal de contas, o Fundamento de todo o ser! Perder a unidade com esse Fundamento é cessar de existir. Siga meu pensamento: existem apenas duas posições possíveis perante o Fundamento Divino: já que todas as coisas são una com o Fundamento, você pode ou estar consciente ou inconsciente de sua união com o Fundamento Divino: essas são as duas únicas escolhas que você tem. E já que a visão romântica é que você começa, quando recém-nascido, numa união inconsciente com o Fundamento, você então não pode perder essa união! Você já perdeu a consciência da união; você não pode ir ainda mais longe, e perder a própria união, ou deixaria de existir!Então, se você não tem consciência de sua união, as coisas não poderiam ser pior, ontologicamente falando. Isso já é o cúmulo da alienação. Você já está vivendo no Inferno [...] O que eu mais queria transmitir em One Taste era a ideia de uma vida integral, uma vida em que houvesse espaço para o corpo, para mente, para a alma e para o espírito, do modo como eles se revelam no eu, na cultura e na natureza. Em outras palavras, uma vida que tentasse, num dado momento. Ser ao máximo “todos os quadrantes e todos os níveis”. Não que eu tenha uma vida integral - jamais afirmei isso - mas, esse é um ideal que vale a pena ser almejado. One Taste também dá detalhes da minha versão de uma prática transformativa integral [...].
Trechos extraídos da obra O Olho do Espírito: uma visão integral para um mundo que ficou ligeiramente louco (Cultrix, 2001), do filósofo e pensador estadunidense Ken Wilber. Veja mais aqui e aqui.

ESTAMIRA, BEIRA DO MUNDO
O monólogo Estamira – Beira do Mundo, escrito pela premiada atriz Dani Barros e a diretora Beatriz Sayad, recriando a história da doente mental crônica e catadora de lixo Estamira Gomes de Sousa (1941-2011), levada para o cinema pelo cineasta Marcos Prado, em 2005. A atriz atuou no grupo Doutores da Alegria e participou da peça Maria do Caritó. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual, designer e arquiteta Rachel Rosalen. Veja mais aquiaqui.
&
A literatura do escritor japonês Kenzaburo Oe, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1994 aqui.
&
muito mais na Agenda aqui.
 

sábado, janeiro 31, 2015

SCHUBERT, BAUMAN, TUNGA, KENZABURO, TEREZA COSTA REGO, KEN WILBER, MARIA JOÃO PIRES & KATE BECKINSALE



HORA DE CHEGADA – Podia ser festa, não era; outra vez – e sempre – fora adiada. Paisagem advena, inopinada. Novo oxigênio no pulmão, novo cerzir na vida. Qual nada, dias escorregadios. Nada tão diferente dos afagos arredios, noites abafadas, esquálido anteontem, pálido ontem. São na sacada, degraus, chegada – malgrado a partida. A horagá: continência pra amanhã – um fio de prumo ébrio. E o néscio nada Pangloss, afinal que dia - previu muitas léguas, tiranas de errâncias, desandares. Sua noção de linho, desalinhada; o vinco, abarrotado. As linhas se misturam nas mãos, um passado vivo, sem futuro, presente incerto, tragado; poeira nos olhos, enevoados; couro curtido, sal pisado; sol na moleira, ombro calejado de cruz. Barruadas de cara de tacho: só livre da greia, por enquanto. Haverá novos chistes, embustes. Muxoxos na guarita, os olhos ao redor e qual agulha, tudo e a todos vestidos, finda nu tal deus de Mallarmé. Veja mais aqui, aquiaqui.



AFINAL, PRA QUE SOLIDARIEDADE
? – O sociólogo polonês Zygmunt Bauman defende que a solidariedade pode melhorar o mundo e pode nos salvar. Tal afirmação está na sua ideia de que os sistemas fazem os indivíduos, e não o contrário; e o mundo fabrica lixo humano de excluídos como membros imperfeitos da sociedade, traformada da ética do trabalho à ética do consumismo. Uma sociedade que passou dos ideais de comunidade de cidadãos responsáveis para um agregado de consumidores satisfeitos e interessados em si mesmos. Em vista disso, para ele a mobilidade social é uma mentira e a equidade é um disfarce para o fantasma feio da assistência dentro de um albergue. Em um artigo, Diálogo sobre o homem (Jornal La Republica, 21/5/2012), ele escreve que: [...] O que "unifica" o precariado, o que mantém unido esse conjunto extremamente diversificado, tornando-o uma categoria coesa, é a sua condição de máxima fragmentação, pulverização, atomização. Todos os precários sofrem, independentemente da sua proveniência ou pertencimento, e cada um sofre sozinho. Mas todos esses sofrimentos suportados individualmente mostram uma surpreendente semelhança entre si. Reduzem-se a uma única coisa: a pura e simples incerteza existencial, uma assustadora mistura de ignorância e de impotência que é fonte inexaurível de humilhação. Contudo, esses sofrimentos não se somam, ao contrário, se dividem e separam aqueles que os sofrem, negando-lhes o conforto de um destino comum, e fazem parecer risíveis os apelos à solidariedade. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui

Imagem: Verão, da artista plástica pernambucana Tereza Costa Rego. Veja mais aqui e aqui.

Ouvindo: Sonata nº 14, D, 784, do compositor austríaco Franz Peter Schubert (1797-1828), com a pianista portuguesa naturalizada brasileira Maria João Pires. Veja mais aqui, aqui e aqui


A FILOSOFIA E A PSICOLOGIA INTEGRADAS – O filósofo norte-americano Ken Wilber é o criador da Psicologia Integral que envolve um universo de estudo que vai desde a física, química, biologia, medicina, neurofisiologia, bioquímica, ecociências, teoria do caos, ciências sistêmicas, complexidade, psicologia e filosofia, além de artes, antropologia e mitologia, matemática, política, econômica, sociologia, negócios e escolas contemplativas e místicas. O seu sistema operacional integral funciona a partir dos níveis ou ondas de consciência, das linhas ou correntes de desenvolvimento, dos estados de consciência, dos tipos de personalidade e dos quatro quadrantes que são intencional, comportamental, cultural e social, considerando as linhas de desenvolvimento Cognitiva (Piaget, Kegan), Moral (Kohlberg, Gilligan), Interpessoal (Selman, Perry), Valores (Graves, Beck e Cowan), Necessidades (Maslow) e Emocional (Goleman). A respeito de suas propostas diz ele: Não acredito que a mente humana seja capaz de errar cem por cento. Assim, em vez de questionar qual abordagem está certa e qual está errada, assumo que cada abordagem é verdadeira, mas parcial. Então, procuro visualizar um modo de encaixar essas verdades parciais, de integrá-las, não escolhendo uma e livrando-me das outras”. Veja mais aqui, aquiaqui

UMA QUESTÃO PESSOAL – O escritor japonês Kenzaburo Oe foi o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1994, possui vários dos seus livros traduzidos e lançados no Brasil, a exemplo do seu Não matem o bebé (Civilização, 1994), Dias tranquilos (Difel, 1995), Um eco do céu (Difel, 1998), Uma Questão Pessoal (Companhia das Letras, 2003), Jovens de um Novo Tempo, Despertai!.(Companhia das Letras, 2006) e 14 Contos (Companhia das Letras, 2011). A mais importante das suas obras é Uma questão pessoal (Companhia das Letras, 2003), e dela trazemos os seguintes excertos: Lá estava o mapa da África, em exposição no mostruário. Vistoso, belo como um cervo africano. Bird deixou escapar um suspiro abafado. Enfiadas em uniformes e com as partes expostas do corpo arrepiadas de frio, as vendedoras da livraria não lhe deram atenção. Entardecia. Como o corpo de um gigante recém-falecido, a atmosfera em volta da Terra fora perdendo aos poucos o calor daquele início de verão e se resfriara por completo. As pessoas pareciam querer recuperar das sombras do subconsciente a memória do calor do dia, cujo resquício a pele ainda retinha, e suspiravam desoladas. Junho, seis e meia da tarde. Ninguém mais suava na cidade. Exceto sua própria mulher, que àquela altura estaria transpirando intensamente por todos os poros do corpo desnudado. Estendida sobre um lençol de borracha e com os olhos fortemente cerrados, perdiz atingida em voo e em plena queda. Gemendo de dor, tomada de angústia e ansiedade. [...] Queria ver o próprio rosto refletido nos olhos do menino. De fato, pôde vê-lo no espelho dos olhos negros e cristalinos da criança, mas a imagem era tão minúscula que não lhe permitiu constatar as novas feições de seu rosto. Assim que chegasse em casa planejava se olhar no espelho. E, depois, consultar o dicionário que o repatriado Deltcheff  havia lhe dado, com a palavra esperança escrita na capa interna. Pretendia fazer sua primeira consulta nesse dicionário de um pequeno país da península balcânica. Buscaria a palavra paciência. Veja mais aquiaqui.

Imagem sem título do escultor, desenhista e ator de performance pernambucano de Palmares, Antonio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, o Tunga. Veja mais aqui e aqui.

DO UNDERWORLD, SNOW ANGELS & ET CÉTERA- O primeiro filme que assisti da atriz, modelo e garota de propaganda inglesa Kathrin Romary Beckinsale, simplesmente a linda e extraordinarimanete belíssima Kate Beckinsale, foi por acaso: Underworld (2003). O filme nunca fez nem faz o meu gênero, mas como eu estava na sala de cinema apenas para fazer companhia e, como nada no filme me prendia, a beleza dela me cativou. Depois, os filmes seguintes que ela fez do gênero, meus amigos colocavam para rodar – eu baixava o som e ficava esperando ela entrar em cena. Era aí que eu voltava, dava pausa e ficava fitando a sua performance: lindamente bela. Isso num bocado de filme dela que vi de todos os Underwoord que vieram, do tal do Van Helsing – meu primo Paulo Rogério era fã desse filme de assistir e reassistir direto -, do Whiteout, Contraband, Total Recall, Snow Angels e por aí vai. Ela, indubitavelmente faz parte do panteão das beldades homenageadas pela campanha todo dia é dia da mulher. Veja mais aqui.



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Slavoz Žižek & Jacques Lacan, Modest Mussorgsky, Peter Brook, Charlotte Dubreuil, Tan Ngiap Heng, Marie-Christine Barrault & Cicero Melo aqui.

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Georges Bataille, John dos Passos, Heitor Villa-Lobos & Kiri Te Kanawa, Alain Robbe-Grille, Marie Espinosa & Berthe Morisot aqui.
Maria Lenk, Martin Luther King Jr, Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos, Marie Duplessis, Greta Garbo & Débora Arango aqui.
Gilles Deleuze, Dian Fossey, Susan Sontag, Padre Bidião, Sigourney Weaver, Washington Maguetas & João Pinheiro aqui.
A poesia de João Cabral de Melo Neto aqui.
Darcy Ribeiro, Loius Claude de Saint-Martin, Autran Dourado, Damaris Cudworth Masham, Juan Orrego-Salas & Irina Vitalievna Karkabi aqui.
Edgar Allan Poe & Jacques Lacan, Paul Cézanne, Magda Tagliaferro, Nara Leão, Janis Joplin & Miguel Paiva aqui.
A cruzeta na volta que a vida dá, Artur Bual & Manuel Cargaleiro aqui.
Tem hora pra tudo e a vida é outra coisa, Ariano Suassuna & Quinteto Armorial, Emilia Kallock, Ciro Veras & Alexandra Lacerda aqui.
Nada melhor que a vida e viver além dos próprios limites, Antônio Nóbrega, lenda Umutina da criação dos homens, Oskar Kokoschka & Mozart Fernandes aqui.
Dos revezes que não poupam a amizade e o amor, Hermeto Pascoal, Lydia Cabrera, Hiram Powers, Nicola Axe & Rosalyn Drexler aqui.
Na vida, como no sonho, não há lógica, Algaravia, Winfried Nöth & Francis Bacon aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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