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sexta-feira, janeiro 25, 2019

TAO TE CHING & LAO TSÉ, MANUEL CASTELLS, MAG MAGRELA & MANÉ TONHO


A RIQUEZA DE MANÉ TONHO – Mané Tonho era pobre de Jó, também não servia para nada, nem pai tinha, mãe muito menos, era um enjeitado. Um braquelo franzino, vixe, Deus meu, mais parecia uma tabica graúda, daquela meia troncha, de chega dava pena de vê-lo. Quem criou essa trepeça? Quem sabe! Isso é um desacerto da vida. Parecia mesmo. Desengonçado, todo desligado, andava assim, quase avoando, espinhaço envergado, pálpebras arriadas de quase nem falar, nem coragem tinha para tanto. Ao chamá-lo, demorava que só pra voltar e responder, lá distante de si e de tudo dava um hem qualquer, de ninguém nem mais aparecer pra falar. Esse menino num tem serventia mesmo, diziam na cara lavada. E ele nem nem. Só no de seu. Onde essa alma penada mora? Quem sabe, ora! Um dia lá falavam duma casa malassombrada que havia no oitão defronte do arruado longe. Aquela ali? Apontavam: Aquela mesma. Num diga. Quem é doido de ir lá? Ara, ali é a casa do coisa-ruim, quem vai lá, num volta. E num é que Mané Tonho num dia de ter tomado umas e outras inventou de encarar o pávido recinto? Pois foi. Num vai lá, abestalhado, quem vai num volta. Ele foi, nem nem. Bicado como estava, abriu o ferrolho enfurrajado do resto de portão, entrou pela calçada interna e foi bater na porta. Ninguém abriu. Ele, então, empurrou com força e abriu-se com o maior rangido amedrontador. Sabe-se que ele entrou no meio da escuridão. E o povo do lado de fora: E num é que o danado entrou mesmo? Ora, quem fica é que é besta, quero lá ver maldição braba pra cima de mim, vou-me embora. Eu também. E foram todos. Lá dentro Mané Tonho tateava pelas paredes à procura dalguma coisa para clarear o recinto. Tropeçou numas coisas, topou em outras, quase cai, se segurou como podia. Foi aí que ele bateu nuns candelabros que tremularam emitindo sons horríveis. Meio lá, meio cá, sacou da caixa de fósforos: velas enormes diante de oratório grande, cheio de castiçais. Acendeu uns dois pavios e se assutou com o que viu: era a imagem dele próprio no espelho, pensou que fosse assombração. Não era. Até se riu com a leseira do susto. Pegou um castiçal, iluminou tudo e percebeu umas tranqueiras num canto da parede, ajeitando direitinho pra fazer uma fogueira. Tudo pronto tocou fogo e ficou olhando em volta. Admirou-se com um sofá velho encostado na parede oposta, lá mesmo foi e se arranchou alisando a pança. Lá pras tantas, quase cochilando ouviu alguém dizer: Caio? Hem? Caio? Ah, destá, caia, ora. Caiu uma perna. Depois um grito: Caio? Hem? Caio? Oxe, caia, desgraçado! Caiu a outra perna. Quase dois minutos depois: Caio? Caia, fidumégua! Caiu um braço. Ih, esse negócio é de rosca! Pouco depois: Caio? Caia, fidapeste! Caiu um quarto e outro braço! Pronto, essa assombração é uma lorota mesmo. Larga de pinoia, oxente! Não demorou muito: Caio? Por que num cai tudo logo, remoento! Teibei. Caiu a cabeça com tudo e juntou-se tudinho. Pronto, agora quero ver que malassombro é esse. Fez-se um zoadeiro, a poeira cobriu e quando assentou, era uma lagartixa e das grandes. Oxe! É isso é que é malassombro? Ridículo! Num mangue de mim. Agora deu, mangar de tu, a-há! Já disse, não mangue de mim! Aí ele fez menção de pegá-la, ela correu pelos cantos e foi subindo na parede, ele pegou uma vassoura e tei, ela caiu. Pegou-la, segurou-la e enfiou num espeto, ela aos gritos. Cala a boca que vou assá-la. Não, não me asse. Ele enfiou o espeto do furico até sair pela boca, ela engasgada. Aí, quanto mais botava o espeto no fogo, mais ela gritava: Não me asse, rapaz. Foi aí que ao assoprar o fogo, a lagartixa pulou de um jeito extraordinário, escapuliu e saíram ambos no maior pega-pega, até se agarrarem numa briga medonha e bem demorada. Depois de um sassaricado poeirento, ele conseguiu amarrar a lagartixa que dizia: Me solte, rapaz. Solto não, amanhã quero mostrar a todo mundo quem é o malassombro daqui. Ah, me solte que eu lhe amaldiçoo. Solto nada! Me solte que sou o marido da dona daqui, enterrei muito dinheiro nesse chão e não quero ninguém por perto. Solto nada, amanhã você vai ver. Ah, me salve, rapaz? Salvar como? Arranque a botija, está ali. Onde? Ali, arranque, vá! Quem enterrou num foi você? Foi. Pois, então, arranque você, eu não. Arranque, rapaz. Arranco nada, arranque você. Então me dê o escavador. Vá pegar. Me solte! Deixe de presepada. Me solte, como eu vou tirar a botija amarrado? Não vai aprontar comigo, vai? Não, me solte que eu vou trazer a botija. Promete? Juro por minha morte! Jura? Juro! Então, tá. Aí soltou e ela foi cavando, cavando, até bater em dois baús. Pronto, taí. E foi desaparecendo. Quando ela sumiu, ele foi dormir, ronco solto noite adentro. O dia amanheceu e ao despertar ouviu uma barulhada grande na rua, foi aí que viu que o povo todinho estava lá reunido esperando o desfecho. Que é que é, mundiça? Eita, ele tá vivo! Vão-se embora que quero dormir. O cabra é corajoso mesmo, vai morar de vez aí. Será? E lá se foi um dia, dois, uma semana e ele lá. Daí mais um tempo passado, só se via trabalhadores aumentando o muro, ajeitando as coisas lá pra dentro e o que era uma casa abandonada ficou todas nos trinques na posse de um dos homens mais ricos hoje em dia. Não é mentira não, na vera mesmo. Quem diria que o Mané Tonho dava pra alguma coisa que prestasse? De onde menos se espera é que acontece. Hoje ele é um buchudo ricaço, cheio das gaitadas e nove horas, e dono de quase tudo na redondeza de Alagoinhanduba. Achar botija, malassombro dá nisso. Pois é. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
Ninguém esperava. Num mundo turvado por aflição econômica, cinismo político, vazio cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas aconteceu. Subitamente, ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos desarmadas do povo, mesmo que essas mãos estivessem ensanguentadas pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições. Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dissolve, e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos defensivos lutando pela sobrevivência. Entretanto, nas bordas de um mundo que havia chegado ao limite de sua capacidade de propiciar aos seres humanos a faculdade de viver juntos e compartilhar sua vida com a natureza, mais uma vez os indivíduos realmente se uniram para encontrar novas formas de sermos nós, o povo. [...] Começou nas redes sociais da internet, já que estas são espaços de autonomia, muito além do controle de governos e empresas, que, ao longo da história, haviam monopolizado os canais de comunicação como alicerces de seu poder. Compartilhando dores e esperanças no livre espaço público da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se. E sua união os ajudou a superar o medo, essa emoção paralisante em que os poderes constituídos se sustentam para prosperar e se reproduzir, por intimidação ou desestímulo – e quando necessário pela violência pura e simples, seja ela disfarçada ou institucionalmente aplicada. [...] Esses movimentos sociais em rede são novos tipos de movimentos democráticos, movimentos que estão reconstruindo a esfera pública no espaço de autonomia constituído em torno da interação entre localidades e redes da internet, fazendo experiências com as tomadas de decisão com base em assembleias e reconstituindo a confiança como alicerce da interação humana. Eles reconhecem os princípios que se anunciaram com as revoluções libertárias do Iluminismo, embora distingam a permanente traição desses princípios, a começar pela negação original da cidadania plena para mulheres, minorias e povos colonizados. Eles enfatizam as contradições entre uma democracia baseada no cidadão e uma cidade à venda pelo lance mais alto. Afirmam seu direito de começar tudo de novo. Começar do começo, após chegar ao limite da autodestruição graças a nossas instituições atuais. Ou assim acreditam os atores desses movimentos, cujas palavras apenas tomei de empréstimo. O legado dos movimentos sociais em rede terá sido afirmar a possibilidade de reaprender a conviver. Na verdadeira democracia. [...].
Trechos extraídos da obra Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet (Zahar, 2013), do sociólogo espanhol Manuel Castells. Veja mais aqui e aqui.

TAO TE CHING & LAO TSÉ
DA LEI DA COMPENSAÇÃO HUMANA: O que é imperfeito será perfeito; / O que é curvo será reto; / O que é vazio será cheio; / Onde há falta haverá abundância; / Onde há plenitude haverá vacuidade. / Quando algo se dissolve, algo nasce. / Assim, o sábio, / Encerrando em si a alma do Uno, / Se torna modelo do Universo. / Não dá importância a si mesmo, / E será considerado importante. / Não se interessa por si mesmo, / E será venerado por todos. / Nada quer para si, / E prospera em tudo. / Não pensa em si, / E é superior a tudo. / E, por não ter desejos, / É invulnerável. / Por isto, há muita verdade / No velho ditado: / Quem se amolda é forte. / É esta a meta suprema / Da vida humana.
VIVÊNCIA PELAS LEIS CÓSMICAS: O que está em repouso é fácil conservar. / O que é insignificante pode facilmente ser influenciado. / O que é frágil pode ser quebrado facilmente. / O que é leve pode ser levado pelo vento. / A ordem deve ser mantida, antes que surja a desordem. / A árvore mais gigantesca nasceu de uma raizinha fina como um cabelo. / Uma torre de nove andares repousa sobre uma pequena área de terra. / Uma viagem de mil léguas começou com o primeiro passo. / Quem faz algo contra a lei tem de falhar. / Quem se apega a algo o perderá. / Por isto, o sábio não é egocêntrico, e por isto nunca falha. / Não se apega a nada, e por isto não perde nada. / Outros falham antes de chegar à meta, / Porque não esperaram pelo momento oportuno. / Quem enxerga o início e o fim, esse não falha. / O único desejo do sábio é não ter desejos. / Não deseja nada o que a outros é desejável. / Nem deseja inteligir objetos de inteligência. / O que a outros é insignificante o sábio o considera importante. / Assim estabelece ele a reta ordem em si e nos outros, / Não agindo jamais em desacordo com as leis cósmicas.
Poemas extraídos do Tao Te Ching (Mauad X, 2011), do antigo filósofo e escritor chinês Lao Tsé que viveu por volta de 1300aC. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da multiartista Mag Magrela. A paulistana é poeta, ilustradora, desenhista e artista de rua e grafite. 
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quinta-feira, julho 31, 2014

JANE HAWKING, GEORG TRAKL, SUSAN NEIMAN & GLÓRIA STEINEM


 

A SOLIDÃO DE TRAKL - A infância de um semi-nascido em Salburgo e os primeiros problemas emocionais: encarou as estranhices comportamentais da mãe e a morte prematura do pai, ambos protestantes. Arrimo de família muito jovem e a adolescência sustentada pela misantropia de poemas, com doses de ópio, clorofórmio, veronal e cocaína, entre animais azuis e o sono branco, um tempo remoto de terror e desalento. Os arroubos incestuosos com a irmã, o seu grande amor. Suas cartas destruídas, entre poemas refeitos e remontados a todo instante. A profunda angústia dos versos de Transfiguração. Outros como De Profundis, Crepúsculo de Inverno, Calma e Silêncio, Maranas gatona, Nascimento, Aos Emudecidos, e muitos que sobreviveram entre declínios e ocasos, desintegração e ruinas, decomposição e morte. Tornou-se farmacêutico profissional e atuou durante a guerra. Não havia remédios, nada poderia fazer, só o nexo entre a loucura de Hölderlin e o desespero de Celan. Presenciou o enforcamento de desertores e um suicídio. E diante do tanto de mortos e feridos, cambaleou com seu espírito já debilitado, nos versos de Grodek: À tarde soam as florestas outonais/ De armas mortíferas, as planícies douradas. / E lagos azuis, por cima do sol/ Mais sombrio rola; a noite envolve/ Guerreiros em agonia, o lamento selvagem/ De suas bocas dilaceradas./… Todos os caminhos desembocam em negra putrefação... Sua vida amargurada entre as drogas e poesia, a solidão e a doença do mundo, nos versos de Lamento: Sono e morte, as tenebrosas águias/ Rodeiam noite adentro essa cabeça:/ A imagem dourada do Homem/ Engolida pela onda fria/ Da eternidade... Em medonhos recifes./ despedaça-se o corpo purpúreo/ E a voz escura lamenta/ Sobre o mar./ Irmã de tempestuosa melancolia/ Vê, um barco aflito afunda/ Sob estrelas,/ Sob o rosto calado na noite... A imagem dourada e o corpo purpúreo, tudo despedaçado. Uma dose violenta overdose de cocaína aos vinte e sete anos no ocidente poente, tombando em definitivo durante sua internação na Cracóvia. Veja mais abaixo e muito mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Tudo o que você precisa para obter clareza, você deve começar com os olhos abertos. A maior tarefa da filosofia é ampliar nosso senso de possibilidade. O tribalismo sempre tornará o seu mundo menor; o universalismo é a única maneira de expandi-lo. Crescer significa perceber que nenhum momento da vida é o melhor e decidir saborear cada segundo de alegria ao seu alcance. Você sabe que cada um passará e não considerar mais isso uma traição. Pensamento da filósofa estadunidense Susan Neiman. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Quando vozes únicas se unem por uma causa comum, elas fazem história. A empatia é a mais radical das emoções humanas. O primeiro problema para todos nós, homens e mulheres, não é aprender, mas desaprender. O futuro depende inteiramente do que cada um de nós faz todos os dias; um movimento é apenas pessoas se movendo. Pensamento escritora, jornalista e ativista estadunidense Glória Steinem. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

VIAJANDO PARA O INFINITO – [...] Claramente aqui estava alguém, como eu, que tendia a tropeçar na vida e conseguia ver o lado engraçado das situações. Alguém que, como eu, era bastante tímido, mas não avesso a expressar as suas opiniões; alguém que, ao contrário de mim, tinha um senso desenvolvido de seu próprio valor e teve a ousadia de transmiti-lo. [...] Viver cada dia conforme ele acontecia, em vez de projetar alguma miragem fantasiosa num futuro distante, estava se tornando um modo de vida. [...] Digo a você o que sempre digo quando as coisas não podem ser alteradas: conte suas bênçãos. [...] Durante esses longos períodos de contemplação solitária num cenário de beleza tão dramaticamente assustadora, fui dominado por ondas de solidão. [...] Depois daquele dia decidi que nunca mais dependeria de outras pessoas. No entanto, colocar essa resolução em prática foi mais fácil de falar do que fazer. [...] No meu estado de espírito simples e pós-natal, estava convencido de que se o mundo fosse governado pelas mães de bebés recém-nascidos, em vez de velhos endurecidos que incitam jovens impetuosos à violência, as guerras cessariam da noite para o dia. [...] Viva no presente, disse ele, e confie em Deus através da escuridão, da dor e do medo. Então, como ele citou a passagem bíblica de Coríntios "Deus não permitirá que você seja provado mais do que você pode [...]. Trechos extraídos da obra Travelling to Infinity: My Life with Stephen (Alma Books, 2013), da educadora e escritora britânica Jane Hawking.

 

QUATRO POEMAS - MEU CORAÇÃO AO CREPÚSCULO - No crepúsculo ouve-se o grito dos morcegos. \ Dois cavalos saltam no gramado. \ O ácer vermelho sussurra.\ Ao andarilho surge no caminho a pequena taberna.\ Maravilhoso o sabor de vinho novo e nozes.\ Maravilhoso: cambalear bêbado na floresta crepuscular.\ Pelos galhos negros ressoam sinos aflitos.\ No rosto pinga orvalho. DE PROFUNDIS - Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.\ Há uma árvore marrom, ali solitária.\ Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.\ Como é triste o entardecer\ Passando pela aldeia\ A terra órfã recolhe ainda raras espigas.\ Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,\ E seu colo espera o noivo divino.\ Na volta\ Os pastores acharam o doce corpo\ Apodrecido no espinheiro.\ Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.\ O silêncio de Deus\ Bebi na fonte do bosque.\ Na minha testa pisa metal frio\ Aranhas procuram meu coração.\ Há uma luz, que se apaga na minha boca.\ À noite encontrei-me num pântano,\ Pleno de lixo e pó das estrelas.\ Na avelãzeira\ Soaram de novo anjos cristalinos. SALMO - Há uma luz que o vento apagou. \ Há uma taberna, de onde à tarde sai um bêbado.\ Há um vinhedo, queimado e negro com buracos cheias de aranhas.\ Há um aposento que caiaram com leite.\ O louco morreu. Há uma ilha do mar do sul\ Para receber o Deus Sol. Rufam os tambores.\ Os homens executam danças guerreiras.\ As mulheres balançam os quadris em trepadeiras e flores de fogo\ Quando canta o mar. Oh, nosso paraíso perdido.\ As ninfas abandonaram as florestas douradas.\ Enterra-se o desconhecido. Então cai uma chuva cintilante.\ O filho de Pã surge na figura de um trabalhador rural\ Que dorme ao meio-dia no asfalto em brasa.\ Há mocinhas num pátio com roupinhas pobres que dilaceram o coração!\ Há quartos repletos de acordes e sonatas.\ Há sombras que se abraçam diante de um espelho embaçado.\ Nas janelas do hospital aquecem-se convalescentes.\ Um vapor branco no canal traz sangrentas epidemias.\ A irmã desconhecida ressurge nos sonhos ruins de alguém.\ Descansando na avelãzeira, brinca com as estrelas dele.\ O estudante, talvez um sósia, contempla-a longamente da janela.\ Atrás dele está o seu irmão morto, ou desce a velha escada em espiral.\ Na escuridão dos castanheiros empalidece a figura do jovem noviço.\ O jardim cai a noite. No claustro esvoaçam os morcegos.\ Os filhos do guardião param de brincar e procuram o ouro do céu.\ Acordes finais de um quarteto. A pequena cega atravessa a aléia tremendo,\ E mais tarde sua sombra tateia frios muros, envolta em contos de fadas e lendas sagradas.\ Há um barco vazio, que à noite desce o negro canal.\ Na sombriedade do velho asilo desmoronam-se ruínas humanas.\Os órfãos mortos jazem no muro do jardim.\ De quartos cinzentos saem anjos com asas sujas de excrementos.\ Vermes gotejam de suas pálpebras amareladas.\ A praça da igreja está escura e silenciosa, como nos dias da infância.\ Sobre solas prateadas deslizam vidas passadas,\ E as sombras dos condenados descem às águas soluçantes.\ No seu túmulo o mágico branco brinca com suas serpentes.\ Silenciosos sobre o Calvário, abrem-se os olhos dourados de Deus. HUMANIDADE - Humanidade posta ante abismos de chama,\Um rufo de tambores, frontes de guerreiros tenebrosos,\ Passos pela névoa de sangue; negro ferro exclama;\ Desespero, noite em cérebros pesarosos:\ Aqui a sombra de Eva, caça e rubra dinheirama.\ Nuvens que a luz atravessa, vespertina refeição.\ Em pão e vinho deve um doce silêncio residir.\ E aqueles lá reunidos, doze são.\ À noite sob ramos de oliveira gritam ao dormir;\ São Tomé mergulha na ferida a mão. Poemas do poeta expressionista austríaco Georg Trakl (1887-1914). Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


Sou aquela que é a mãe natureza de todas as coisas, senhora e regente de todos os elementos, progenitora inicial dos mundos, chefe dos poderes divinos e rainha de todos que estão no inferno, soberana daqueles que habitam o céu, manifesta através de uma só e única forma em todos os deuses e deusas. Os planetas do céu, os ventos salutares que sopram do mar e o os silêncios lamurientos do inferno estão dispostos segundo minha vontade. Meu nome, minha divindade, é adorada em todas as partes do mundo, de diversas maneiras, com costumes variados e segundo várias denominações”.
(Discurso da deusa, Apuleio, O asno de ouro).

RETORNO DA DEUSA – O livro O retorno da deusa, de Edward Christopher  Whitmont (1912-1998), aborda temas como o dilema moderno, a consciência em evolução, os mitos patriarcais, um mito para nossa época, visão para uma nova era, desejo, violência, agressão, mito, Dioniso e Apolo, a morte de Deus, o bode expiatório, o feminino e a repressão, ética, individuação e destino, entre outros assuntos.

Oh Mãe, enlouquece-me com teu amor!
Que necessidade tenho eu de conhecimento ou razão?
Embriaga-me com o Vinho do Teu Amor,
Oh, tu que roubas o coração de Teus bhaktas
Afoga-me no fundo do mar de Teu amor!
(Deusa Mãe, canção entoada por devotos hindus - bhakta)

UMA TEOFANIA MODERNA – CAPÍTULO 1 – “Uma mulher dona de casa tiranizada... carente de lugar e propósito, repleta de fel... era como ela se descrevia. Estava à beira de um sério colapso. Há cerca de um ano, começara a ouvir uma voz que lhe ordenava pegar uma faca e com ela esfaquear e esquartejar seu único filho, um menino de cinco anos. Ela resistia, mas estava aterrorizada. A voz insistia, incessante. E continuou chamando, até ela sentir que estava usando toda a sua força e seu poder pessoal para resistir. Não ousava olhar para objetos pontiagudos nem se aproximar do filho, com receio de que sua resistência esmorecesse e ela o atacasse fisicamente. Assustada, desesperada, procurou socorro psiquiátrico. Seu primeiro terapeuta investigou com ela os principais acontecimentos de sua infância e casamento. Ela havia crescido numa pequena cidade; sua família era de classe media e conservadora. Havia pouco afeto genuíno, e só uma porção ainda mais reduzida dele podia ser abertamente manifestada. No lugar do amor havia a pressão para ser alegre e bem-sucedida, para se conformar, para fazer o melhor possível (segundo os ditames petrificados de sua mãe, da Igreja e da escola). As crianças aprenderam a ocultar seus sentimentos. Manifestações de necessidades individuais e sexuais eram tabu. Seus pais a tinham forçado a romper um apaixonado romance infantil, porque ali não havia futuro. A seguir, ela desposara um professor de ginásio, inteligente e instruído, que considerava entediante e ineficaz. Seu primeiro terapeuta diagnosticara com exatidão uma enorme quantidade raiva reprimida, primeiro contra a mãe dominadora que a havia frustrado em seu desenvolvimento emocional e sexual, e depois contra as circunstancias da vida, em particular seu casamento, que sustentava seu cativeiro e, assim lhe parecia, anulava quaisquer esperanças de encontrar em si mesma um autentico ser humano. Também tinha raiva dos homens de sua vida, do pai ausente e do marido fraco (pelo menos a seu ver). Também era claro que a atmosfera e os valores restritivos de sua infância tinham produzido uma espécie de paralisia psicológica. A religião e a moralidade tradicionais não tinham conseguido conferir-lhe um senso eficiente de individualidade nem dar um significado à sua vida, e a ameaça iminente de destruição proveniente de uma violência perigosamente contida tornara-se completamente real. Sendo uma mulher inteligente, compreendia as razões de seus padecimentos e apreendia o ódio e o ressentimento assim engendrados, mas compreender a crise e os motivos de sua existência de nada adiantavam. A voz continuava dizendo-lhe que matasse seu filho [...]”

O céu é meu, a terra é minha / Eu sou guerreira eu sou / Há algum deus que possa medir-se comigo? / Os deuses são pardais, eu sou falcão / Os deuses fazem rodízio / Eu sou uma esplêndida vaca selvagem”.
(Canção de Inanna).

O espírito da fonte nunca morre.
É o mistério feminino,
E à porta da fêmea escura
Encontra-se a raiz do céu e da terra.
É frágil, frágil, mal existe;
Mas toca-a; nunca se esgota.
(Lao Tse, Tao Te Ching)

REFERÊNCIA
WHITMONT, Edward. O retorno da desua. São Paulo: Summus, 1991. Veja mais Trajetória da Mulher.


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