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terça-feira, outubro 09, 2018

QUINTANA, TRACY CHAPMAN, VANESSA LAMOUNIER & BORA OCUPAR


QUE COISA! - Imagem: art by Vanessa Lamounier - Não era março como antes, era outubro tão nefasto quanto sombrio pela ameaça de andar para trás. Cinquenta anos se passaram e quase ninguém lembra mais da dor de mortos parentes ou não, e dos torturados sobreviventes vitimados por sequelas discriminatórias. O alerta vem de tempos dos continentes frios do Norte, onde tudo está fora da ordem humana, apenas sob o jugo do capital desumano. Muitos se deixaram levar pelas duas caras do duplipensar com seus dúbios discursos e ambíguas ações, dos que dizem que fazem e nunca farão pelos outros nem por todos, só para si e os seus: interesses escusos da arrogância e violência. O que julgava metade da rachadura, agora é muito mais entre os que dormem sua infeliz noite para negar o dia, enquanto vigilantes insones acendem luzes que muitos negam a ver, prevendo o embate do ódio pronto para ceifar o amor na primeira esquina. É a lei do desamor na festa de Fabos com o anúncio de uma nova treva trazida pela mortandade e privação da liberdade: a entrega escrava dos piores tempos. O que é lamentável é que, apesar de tudo que já foi dito e feito, não se aprendeu a lição, não se ousaria a pena de morte, o preconceito, o armamento e o umbigocentrista fundamentalismo, se não se quisesse desconhecer propositalmente, ou se olvidasse a vida que passa a não valer nada, em nome de impostura furiosa como pretexto para o engano. Ocorre que muitos foram encantados pelo grotesco discurso da sereia, enterrando com suas pisadas e urros as canções da esperança de que podemos fazer deste um mundo melhor. Infelizmente parece que não: o que foi construído às duras penas para avançar na evolução humana, quase completamente desfeita por golpes e pronto para ser definitivamente sacrificado em nome dos donos da razão. Confesso que choro pelos que choram e pros que não sabem pra onde vão levados pelos que riem cinicamente da desgraça alheia. Só me resta resistir como aquele que não foge à luta e com o orgulho de ser nordestino, para não sucumbir às sereias intolerantes e empunhando a bandeira das mãos dadas solidárias no percurso evolutivo da vida. Venha, dê-me a sua mão e vamos juntos e sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA
Esperança, poema extraído do livro Nova Antologia Poética (Globo, 1998), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista Vanessa Lamounier
Veja mais aqui.

AGENDA
Bora ocupar, documentário que será lançado dia 05/11, 14:30hs, no auditório do Centro de Ciências Sociais Aplicadas (CCSA), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE        ) & muito mais na Agenda aqui.
&
Embalo da vida, Gabriela Mistral, Mark Twain, Ismael Nery, Dōgen Zenji, Jean-François Mattei, Benjamim Mangabeira, Luiz Viola, Djavan, Bidú Sayão, Daniela Spielmann & Zé Ripe aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora e compositora estadunidense Tracy Chapman: Live Concert Paris, Live Concert Oakland Coliseum Arena, Greatest Hits & Show Live & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.
 

segunda-feira, março 30, 2015

HANNAH, VERLAINE, GOYA, THIAGO DE MELLO, KLEIN, ZÉ CELSO, VAN GOGH, CHAPMAN, MÉRY LAURENT, REDS & CANTARAU


CANTARAU – Pá! Sou som. Lá sou tom: lavratura. Na noite escura eu sou o sol. E ao redor, a voz difusa é manhã cheia. Lá vem colcheia: é um refrão de um brilho. E um estribilho dá-se no voo e tudo pode no acorçoo em novo acorde abissal. Faz-se sarau na pedra dura. E a estrutura vai-se sem nau. De mim eu sigo o meu devir pra ir de si a migo. E vou a vau: a pontaria. A cantoria é meu aval. E como tal vem um fonema, quando o poema toma grau. Bingo! Um cantarau nasceu domingo (Cantarau, Luiz Alberto Machado). Veja mais aqui. E muito mais aqui & aqui.

Imagem: La Maja Desnuda, do pintor e gravador espanhol Francisco de Goya (1746-1828). Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

Ouvindo Collection (2001) da cantora e compositora estadunidense Tracy Chapman. Veja mais aqui e aqui.

A CONDIÇÃO HUMANA – O livro A condição humana, da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975), trata da condição humana desde a Grécia Antiga até a modernidade europeia, por meio de um relato minucioso acerca da evolução e desenvolvimento histórico dos contextos da essência humana,  a partir de uma análise acerca da Vita Activa e a condição humana, a distinção entre o labor e o trabalho e ação, o político, o público, o privado, o social, a questão proletária, a degradação e a banalização de conceitos, o homem moderno, cada vez mais alienado e apolítico, a crescente apolitização do homem, a condição humana diz respeito às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver, como condições que tendem a suprir a existência do homem e que variam de acordo com o lugar e o momento histórico do qual o homem faz parte, o condicionamento pelos atos e pelo que se pensa e sente, condicionamento pelo contexto histórico delineado pela cultura, amizades e família, o labor como processo biológico necessário para a sobrevivência do indivíduo e da espécie humana, o trabalho como atividade de transformar coisas naturais em coisas artificiais, a ação como necessidade do homem em viver entre seus semelhantes numa natureza eminentemente social, a “Vita Activa” como ocupação, inquietude e desassossego, a religião cristã e as concepções gregas na vulgarização da dignidade humana, as dicotomias de trabalho entre improdutivo e produtivo, qualificação e não qualificação, intelectual e manual, a visão marxista do trabalho produtivo, o processo de industrialização, o trabalho intelectual em contraposição ao trabalho manual, a ideologia do qualquer coisa que se faça tem que ser necessariamente produtivo, tudo deve ser transformado em mercadoria, o valor de troca, a força de trabalho como aquilo que o homem possui por natureza e que só cessa com a morte, entre outros assuntos. REFERÊNCIA: ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.


A PSICANÁLISE KLEINISTA - A psicoterapeuta austríaca Melanie Klein (1882-1960) foi o principal expoente do pensamento da segunda geração psicanalítica, desenvolvendo o kleinismo, transformando totalmente a doutrina freudiana, criando, por sua vez, a psicanálise da criança e uma nova técnica de tratamento e de analise didática. Em 1924, ela começou uma segunda análise e apresentou num congresso de Salzburgo suas ideias sobre a organização do desenvolvimento sexual, sobre a psicanalise de crianças pequenas, na qual começava a questionar certos aspectos do complexo de Édipo. Em 1929 ela trata de uma criança autista Dick, um caso célebre: aos cinquenta anos, ele não tinha mais nada a ver com o menino fechado de outrora. Em 1932, ela publicou seu livro A psicanalise de crianças, no qual expõe a estrutura de seus futuros desenvolvimentos teóricos, sobretudo o conceito de posição esquizo-paranoide e posição depressiva, assim como a sua concepção ampliada de pulsão de morte. Posteriormente, em 1955, escreveu Um estudo sobre a inveja e a gratidão, no qual desenvolveu o conceito de inveja que articulava com uma extensão da pulsão de morte. O kleinismo é uma escola comparada ao lacanismo, constituindo-se em um sistema de pensamento a partir de suas ideias, modificando inteiramente a doutrina e a clínica freudiana. Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.


FOGO DE FRÁGUA – No livro Vento Geral (Companhia das Letras, 1984) do premiadíssimo e traduzido poeta amazonense Thiago de Mello, destaco entre outros tantos e belos poemas do autor, o Fogo de Frágua: Sei que sou porque já fui / quando for no que serei. / O futuro se urde em mim / agora (quando? passou) / no centro fugaz da frágua / do presente, cujo fogo / se acende nas brasas / — que nunca se apagam — / e nas cinzas invisíveis / — que nunca se estriam — / de tudo que já passou. / Sei que sou porque já fui / quando for no que serei. Veja mais do poeta aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

A VIDA TODA E NÃO VENDER UM QUADRO SEQUERImagem: Nude woman reclining seen from the back (1887), do pintor Vincent Van Gogh. - O pintor pós-impressionista holandês, Vincent Van Gogh (1853-1890), abandonou gradualmente as escuras tintas nórdicas e a conquista da luminosidade mediterrânea, ao mesmo tempo em que seu espírito, longe do equilíbrio latino, se escureceu. Em Paris encontra um novo estilo, quase primitivista, para pintar interiores, com personagens pequeninos que se tornaram verdadeiros milagres da pintura por alusão, conferindo a mais profunda significação a ambientes triviais. Na sua fase final, tornam-se antes raros os personagens humanos, aparecendo a natureza com todos os seus mistérios. Sua vida, enfim, corresponde em tudo à lenda popular do gênio incompreendido: nunca na vida conseguiu vender um único quadro. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

PARA SER CALUNIADO: NO INTERNATO– No livro Para ser caluniado: poemas eróticos (Brasiliense, 1985), do poeta francês Paul Verlaine (1844-1896), destaco o poema No internato: Com quinze e dezesseis anos de idade, / No mesmo quarto cada uma dormia / Em noite de setembro, tão sombria; / Rubores; olho azul; fragilidade. / Cada uma delas, pondo-se à vontade, / Da fina camisola se despia. / A mais nova, seus braços estendia, / E, mãos aos seios, beija-lhe a amizade./ Depois se ajoelha, e, depois, louca / Cola a cabeça ao ventre, e com a boca, / Entre as sombras, mergulha no ouro louro; / E enquanto isso, a menina vai, querida, / Com os dedos contar bailes vindouros, / E inocente sorri, enrubescida. Já nas Obras Poéticas (Aguilar/Crisol, 1947) destaco o Arte Poética, na tradução de Augusto de Campos: Antes de tudo, a Música. Preza / Portanto, o Ímpar. Só cabe usar / O que é mais vago e solúvel no ar / Sem nada em si que pousa ou que pesa. / Pesar palavras será preciso, / Mas com certo desdém pela pinça: / Nada melhor do que a canção cinza / Onde o Indeciso se une ao Preciso. / Uns belos olhos atrás do véu, / O lusco-fusco no meio-dia / A turba azul de estrelas que estria / O outono agônico pelo céu! / Pois a Nuance é que leva a palma, / Nada de Cor, somente a nuance! / nuance, só, que nos afiance / o sonho ao sonho e a flauta na alma! / Foge do Chiste, a Farpa mesquinha, / Frase de espírito, Riso alvar, / Que o olho do Azul faz lacrimejar, / Alho plebeu de baixa cozinha! / A eloquência? Torce-lhe o pescoço! / E convém empregar de uma vez / A rima com certa sensatez / Ou vamos todos parar no fosso! / Quem nos dirá dos males da rima! / Que surdo absurdo ou que negro louco / Forjou em joia este toco oco / Que soa falso e vil sob a lima? / Música ainda, e eternamente! / Que teu verso seja o voo alto / Que se desprende da alma no salto / Para outros céus e para outra mente. / Que teu verso seja a aventura / Esparsa ao árdego ar da manhã / Que enche de aroma ótimo e a hortelã…/ E todo o resto é literatura. Veja mais aqui, aquiaqui.


VENTO FORTE PARA UM PAPAGAIO SUBIR - O ator e diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa é um dos mais importantes nomes do teatro brasileiro por sua forma orgiástica e antropofágica de realizar suas encenações. Realizou em 1967 a encenação do espetáculo-manifesto que se tornou emblemático do movimento Tropicália, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade e, em 1969, Roda Viva, de Chico Buarque. Atualmente tem desenvolvido trabalhos para teatro, cinema, eventos culturais, artísticos e políticos, comandando o Teatro Oficina, a exemplo sua participação em Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins, e na encenação da sua peça Vento forte para um papagaio subir (2008), tendo ao longo das últimas décadas construindo um dos mais originais percursos dos palcos brasileiros. Veja mais aqui e aqui.


CORDEL (D) MADRUGADA - O poeta e ativista cultural do Grupo Artistas da Proa, Paulo Cesar Barros tem desenvolvido um extraordinário trabalho de dinamização e difusão da poesia e das artes na cidade de Três Corações (MG), meritório de aplausos e reconhecimentos. Em consonância com a manifestação de apoio e aplausos da querida Meimei Corrêa, destacamos aqui os seus versos Cordel (d)madrugada: Que haja mais amor, mais Poesia Dia e noite, noite e dia. Assim... Ainda que os caminhos sejam de pedras As dores nos causem agonia E pra muitos tudo seja mera Utopia Sempre será possível Viver Loucas e Belas Fantasias. Veja mais aqui.


REDS - O premiado drama biográfico Reds (1981) dirigido por Warren Beatty, com música de Stephen Sondheim e Dave Grusin, roteiro do diretor e Trevor Griffiths, é baseado na vida do jornalista e escritor socialista estadunidense John Reed que retratou a Revolução Russa no seu livro Dez dias que abalaram o mundo. A película foi premiada com quatro Oscars, incluindo o de melhor diretor. Imperdível. Veja mais aqui.


HOMENAGEM DO DIA
MÉRY LAURENT
Anne Rose Suzanne Louviot – a Méry Laurent (1849-1900)

A atriz e musa de Stéphane Mallarmé, Émile Zola, Marcel Proust, Edouard Manet, entre outros grandes artistas da época. Veja mais aqui.


Veja mais sobre:
As dez vidas e a cabeça roubada, A natureza das coisas de Bernardino Telesio, a música de Joana Holanda, a arte de Kevin Taylor, a pintura de Pedro Américo & Odilon Redon aqui.

E mais:
Dalzuíta: o infortúnio da prima da Vera aqui.
Os pipocos da loucura de Robimagaiver aqui, aqui e aqui.
A paixão avassaladora quando ela é a terrina do amor aqui.
Brincarte do Nitolino, O calor das coisas de Nélida Piñon, a poesia de Augusto dos Anjos, a música de Igor Stravinski, a pintura de Joan Miró, o teatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farme, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabús aqui.
Cordel do meio ambiente aqui.
Na avenida Jatiúca, Maceió, O império do efêmero de Gilles Lipovetsky, a História da feiúra de Umberto Eco, o Deserto do real de Slavoj Žižek, Moema, a música de Quinteto Armorial, a poesia de Juareiz Correya, a pintura de Victor Meirelles & Felicien Rops, o cinema de Michael Winterbottom & Anna Louise Friel aqui.
Quando o futuro chega ao presente, Escritos de Michel Philippot, as Fronteiras do Universo de Phillip Pullman, As contantes universais de Gilles Cohen-Tannoudj, a música de Antonín Dvořák & Alisa Weilerstein, a pintura de Willow Bader, a arte de Lorenzo Villa, a fotografia de Katyucia Melo & a poesia de Bárbara Samco aqui.
Mais que tudo o amor, a poesia de Pablo Neruda, o teatro de Antonin Artaud, o pensamento de Pierre Gringore, a música de Ana Rucner, a fotografia de Daniel Ilinca, Mariza Lourenço & Luciah Lopez aqui.
Brincando com a garotada, Lagoa Manguaba, a música de Maria Josephina Mignone, a poesia de & William Blake & Joana de Menezes, a literatura de Luiz Antonio de Assis Brasil, a pintura de Thomas Saliot & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Doro: querem me matar, O bom dia para nascer de Otto Lara Resende, a comunicação interpessoal de John Powell, a poesia de Gilberto Mendonça Teles, o teatro de Patrícia Jordá, a arte de Carmen Tyrrell, a música de Mona Gadelha, a Pena & Poesia de Luiz de Aquino Alves Neto aqui.
Andarilho das manhãs e luares, O Homo ludens de Johan Huizinga, Todas as coisas de Quim Monzó, a psicanálise de Françoise Dolto, a música de Gustav Holst, a pintura de Ludwig Munthe, a arte de Elena Esina & Tom Zine aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
A croniqueta de antemão aqui.
Fecamepa aqui e aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.


segunda-feira, setembro 22, 2008

GARAUDY, TRACY CHAPMAN, ARUNDHATI ROY, TRUFFAUT, VALUNA & LITERATURA DE CORDEL


Claro, há momentos aqui e ali que eu mudaria. Mas ter esse sucesso - apesar de esmagador naquele momento, e seria a qualquer momento, eu acho - me deu liberdade artística e a chance de continuar fazendo músicas que pareciam boas para mim. Sou muito grato por isso; não há razão para eu não estar.
A arte da cantora e compositora estadunidense Tracy Chapman. Veja mais aqui & aqui.

VALUNA: UM PASSO A MAIS & ELA, A MULHER DA SOMBRINHA - Era Camocituba e eu sozinho em Camocim quase ia pra Santa Luzia, já era 29 de dezembro no sitio São João da Barra, onde uma frondosa Guabiraba que se chamou Itapecó, passava pelo Seco e Tanque de Piabas. Os dias tão mesmos como lá e cá, ou acolá: o carro-de-boi moía o silêncio na rodagem entre cercas, gritaria de meninos espalhando o brejo e a espionagem de capangas que tudo espreitavam: olhos invisíveis no matagal. Eu nem nem, fui dar na Casa Nova pela Aba da Serra do Monte que era Camaratuba, lá pras bandas da Barra do Riachão e Santana do São Joaquim. Passei pelo Seco e do Sapo, até a Barragem Cianinha. Cheguei em Laje Grande, já era terra de Catende. Eu que fui jundiá que saí das águas para ser homem feito, fui danado pra Catende com vontade de chegar: Isso é planta que brilha ou pulga do mato? É o trem das Alagoas, alesado! Eita! Lá vou eu para a terra da morena do cabelo cacheado. – Se assunte, seu cabra! É tupi ou do Congo? Larga de ser folgado, bestão! Ué, se vem de Palmares, fique certo, só é macho se tiver furunfado de saia por aqui! Oxe, tais pensando que tais aonde, hem? É cana-caiana, maior canavial, haja da boa pra gente chupar! Ih, já chegou! E pelo Camevô, pelo Limão. E lá ia eu já do Leão XIII para a Árvore da Vida, só pra ver a Mulher da Sombrinha sair meia noite do cemitério, na sexta de Zé-Pereira. Coisa mais bonita de se ver. Ah, como era bão! Saía trocando as pernas pelo arruado da usina até subir pra Serra da Prata e de lá vê o Caudal de Pelópidas, jogando conversa fora nos copos e meiotas de Marcos Catende com leros de nem se lembrar, até findar no mundo perdido: - Onde é que eu estou? Ah, isso aqui é bom demais! – Te aquieta, fuleiro! Lá eu namorava as estrelas de todas as constelações! Tinha moça bonita para passar troco e ficar todo trocado! Uma infieira de sestrosas e de tuia! Cada uma mais linda que a outra! Valei-me que assim eu folgo! – Segura o jipe, safado, essa tua cachaça já está passando da conta! Ah, quanto seio bonito, quanta coxa de perna jeitosa, ah, é embaixo duma saia dessa que eu quero me esconder! Eu quero é mandar ver até me perder no trevo pra correr bicho em Lage Grande. – Ah, já passou, tais quase é em Agrestina! Danou-se! Ah, se não tem história, eu invento. Faz a volta, cambiteiro, que o paraíso é lá pra trás. Vambora pra terra de mulher vistosa! Eu só espichando o pixaim, metido a poetar: se o mundo está de pernas pro ar, não sou eu que sozinho vou essa zona consertar. Né, não? E se tudo está troncho de tão desfigurado, é que fazem dum redondo findar mais que quadrado! U-hu! A coisa está bisonha e cheia dos tremeliques, é que não tem nada de sério, vai se ver, é só trambique! O pencó está engrossando, chega mudar de figura! Pois é, tanta chatice tola pra pouca criatura. É gente como a praga de gravata lavada, tem até enxerido sem lenço só dizendo: É o descontramantelo da desembestação! Isso é lá prosopopeia, meu? É a maior danação! Eu só largando os meus motejos, todo cheio de tantos brocardos, haja quantos adágios entre fogos e ventos, pelos raios dos trovões, pelas clareiras e coivaras. Todo bacurau feito flecha entre cunhatãs e cunhãs, era eu: quando aparecia a papaceia na boquinha da noite é que as mocinhas biqueiras faziam as onze e eu lá só espiando, mutuca no roçado, só curtindo o cheiro das calcinhas estufadas minando nas intimidades. Ah, quanto cangote cheiroso de moça namoradeira que passa toda reboladeira e eu na tubiba pra fazer sopa. Só se ouvia as mães aflitas gritando: - Segura chinela na sola do pé, menina! E eu só ali amoitando o gingado delas. – Se ajeite, sem-vergonha! Oxe, nunca fui desses mecos! Mentira, foi sim. Vixe! Querem queimar meu filme? Destá! Estou ligado é no percurso dos pés andejos dessas reboculosas que querem se perder por aí, preu achar agorinha! E quanto mais ela ia pra lá e pra cá, mais eu queria era ficar. E de vez! Nem vontade de voltar deu, esqueci. Só me perder num fungado e ficar agarrado nela de nunca mais largar, só na cantiga do trem: vou danado pra Catende, Ascenso, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar. Naquela segunda feira tomei conhecimento de que corria um boato de décadas, de que uma linda mulher dava sumiço nos trabalhadores da Usina. Ela sensual pelas ruas, mas ninguém via. Como é que pode? Só se davam conta quando desaparecia um entre os homens, funcionários da usina canavieira, para logo atribuírem a ela o seu desaparecimento. Todos falavam, porém, jamais tinham sequer visto. Só se sabia que apenas os escolhidos enxergavam a sua sedução. Anos e anos se passaram e eu lá, a cada safra, sempre às sextas-feiras, desapareciam os homens. E eu? Fizeram vigilância na cidade para flagrar seus passos e dar cabo desses desaparecimentos, todas investidas infrutíferas. No final de semana, sempre havia o alvoroço de acontecimentos similares. E todos logo diziam: - Foi a mulher da sombrinha! Certa feita, acertando passagem, dei de cara: era um semblante inenarravelmente bonito, se destacava na multidão. Tinha certeza de que já vira aquelas fascinantes faces outras vezes. Aliás, sempre que eu visitava a localidade, me deparava com aquele ser que logo impactava no meu íntimo, trazendo-me sensações desconhecidas. Qualquer volta que eu desse por quaisquer das vias dali, eu me pegava assuntando sua presença a me provocar. Até que um dia no Leão XIII, do palco pude vê-la na plateia; uma sensação de presença familiar. E eu já obsessivo por encontrá-la, ou pelo menos vê-la de qualquer forma, lá estava, ali, linda como sempre, bem pertinho. Mais uma vez ela estava ali e eu não sabia como fazer para tê-la ao meu alcance, isso eu já tentara diversas vezes sem êxito, sempre que estava por ali. Era, inclusive, vigente o ditado de que naquela cidade os habitantes eram majoritariamente femininos, na proporção de trinta por um. E isso devido ao desaparecimento costumeiro das sextas dos marmanjos por mais de uns não sei quantos anos ou mais. Pois bem, de sopetão, aquela bela mulher encheu-me de vida e prazer. Agarrou-me num beijo inesquecivelmente demorado. Senti seu hálito de flor, seu perfumado corpo elegantemente assimétrico com curvas e saliências estonteantemente sedutoras, e sua respiração ofegante de fatal e exuberante insaciável. Remexeu-me as entranhas, o sexo e todas as veias do meu corpo, dominando-me num beijo longo para lá de anímico e sideral. Era como se estivesse voando pelo universo agarrado às carnes suculentas de um ser sobrenatural. Foi demais, tão demais, de eu me perder de tudo, quando, depois do beijo, ela fitou-me, passou as mãos ternas e requerentes por meus cabelos, faces, pescoço, tórax, até descer ao meu sexo rijo e acariciá-lo deliciosamente. Suspirou e me disse: - Mais tarde quero vê-lo. Venha ao meu encontro. E saiu tal como entrou. Tive que passar um certo tempo para me recompor, embalado por aquele momento, não vá, por favor, ela sumira e eu desolado, a me recompor daquele encontro fortuito que fincara forte sua marca por todo meu corpo e alma. Saí e queria reencontrá-la. Onde? Nada, ninguém por ali. Vasculhei todos os cantos, nenhum sinal dela. A bexiga apertou, precisa da micção. E fiz ali, onde pude, quando uma mão delicada me pegou pelo braço. Era ela, flagrou-me a imediata inflação do meu membro com sua presença. Ela viu, passou a mão na protuberância que de mim se insinuava para ela e disse: - Venha, estava esperando. Puxou-me e seguimos andando pelas ruas, até darmos no cemitério da cidade. Hem? Ela virou-se agarrada ainda à minha mão, encarou-me com o olhar mais sensual que já vira e me disse: - Venha, preciso da sua ajuda, venha me salvar. E me levou entre as catacumbas até atrás de uma capela onde havia uma gruta que se iluminara de repente. Tremi, mas encarei. E me deparei com uma alcova cujo perfume inebriante me dominava. Ao chegar à sua cama, ela de forma materna e amante, me deitou e fez-se tudo a maior escuridão. A partir daí o maior prazer do universo me contemplou num gozo de orgasmo infindável. Viajei céus, infernos e paraísos, até ver-me restituído à vida como se vivendo num sonho perene que nunca mais me deixara acordar. Ao dar por mim, despertei e passei a ter a sensação de que ela vivia em mim, dentro de mim, acariciando meu coração e fazendo o meu ser sentir-se para sempre ao seu comando. Ela nunca mais saiu de dentro de mim, morando comigo em meu próprio corpo para nunca mais sair nem atormentar a cidade com desaparecimentos. Só as sextas pré-carnavalescas que ela fugia um tantinho de mim, para desfilar impune pelas ruas da cidade e com a madrugada já sábado, ela voltava pros meus sonhos, retornando aos seus domínios. E isso até o dia em que... Da primeira vez o menino nem sabia. Ouviu o apito: o que é isso? Na rodagem não havia ninguém pra dizer o que era. Outro assobio mais longo, olhos nos quatro cantos: tudo quieto, como sempre fora. Mais outro: que droga é nove? Alguém viu lá detrás do morro, algo que vinha na maior barulhada. Danou-se! Será o fim do mundo? E mais vinha: vou daqui, vou praí, vou te pegar! Vou daqui praí, vou te pegar! Se assunte menino! Pernas pra que te quero. Lá vem a geringonça! Escondeu-se de nada mais vê-lo, só o desmantelo e o povo acenando. Ué, ninguém correu não? Depois que o troço passava, era que ia ver. Era a Maria Fumaça, soube. E no segundo dia, não ficou não, as pernas tremiam: esse povo é tudo doido. Toda vez que apontava: Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Com o tempo achou de topar e lá vinha: Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Que venha! E veio, vinha virada na gota! Segura o pipoco, olha a coisa! Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Vixe! Tudo parecia se desmanchar com a zoada! Eita, lá vem mesmo, passou. Ufa! É só isso? Já foi. Então todo dia, ele ali esperava: cadê o estrupício? E na hora de todo dia, lá vinha a danada: Vou daqui, vou praí, vou te pegar! Nem mais tinha medo, até acenava pro condutor! Ê maquinista! E ele acenava sorrindo puxando o apito: piuí, piuí. Isso era todo dia da meninice, até quase rapaz. É que havia crescido e precisava ir pra cidade trabalhar. Passaram-se os anos, décadas esquecidas. Até um dia, muitas invernadas de nem se lembrar, deu cara com a locomotiva na exposição: é ela. Oxe, ela mesma! E era aquela que passava todo dia. Os olhos de homem feito, virou menino outra vez. O céu, o canto dos pássaros, os campos, a rodagem, o povo converseiro, a vida fagueira. Ô tempo bom! Ficou admirando aquilo no mais fundo do peito, lembrando o tempo em que ela passava fazendo tudo tremer ao redor: Ô coisa bonita de se vê. Alguém falou perto: Por muito tempo, ela ia e vinha, levando gente e coisas. Era. E mais confidenciou: E eu era o maquinista. Virei-me, não havia ninguém. Procurei ao redor, nem sinal. Arrodeei a locomotiva, não tinha um pé de gente. Meio assustado, resolvi ir embora. Aí, alguém chamou: Ei, menino, lembra quando eu passava apitando e você gritava na beira da rodagem do engenho? Voltei-me de um pulo e era ele: o maquinista sorridente que acenava todos os dias na infância perdida. E danou-se a relatar o medo que dava a passagem do trem, até se acostumar com coisa tão medonha. Vi que falava sozinho e saí à procura dele, até chegar à recepção: Você viu o maquinista? Ah, ele morreu há mais de vinte anos, mas sempre aparece pra quem se aproxima dela. Ah é? É. Então esperei encostado nela, nunca mais ele reapareceu, a infância ficou no coração. Até que ela foi quem veio, aquela bela mulher me contou tudo. Aí, por isso fui tantas vezes danado pra Catende glosando o mote de Ascenso, muitas vezes para saudar Pelópidas e seu caudal, para abraçar Maurício e todos os Melos tataritaritatá, Davi e Ideais, Marcos agora em Maceió e a Mulher da Sombrinha sempre tão bela desaparecida e que me fazia sair a procura-la pela Serra da Prata entre os operários agora do fogo morto, e de quem nem lembro mais das sessões do cine Diamante e que passavam por mim em cada passada noite adentro. Fui danado pra Catende outras vezes como se cantasse para ninguém nunca chorar por mim – uma balada de quem ia sempre embora -, e encontrei os passageiros de ontens e os desabrigados moradores de rua de hoje inventando seu abrigo com os fantasmas da locomotiva primeva, as vítimas do preconceito, os malvistos de qualquer esquina, os anjos caídos, os doidos e fogueteiros, os que se escondiam para queimar suas fogueiras, os invisíveis das noites e dias entre guenzos e bichanos famintos. Fui uma vez e fui de novo porque havia uma festa de todas as tribos, porque o imaginauta supercultor Gugha Távora urdia o bem pintando o sete com todas as cores criatinovadoras no espaço que era a secretaria para a biblioteca da cultura catendense, e Aprisco riscava o grafite que branquinho HenriqueTeixeira recitava no baque do DJ Passarinho e nas mandalas de Henrique Bem; porque de Caruaru, Zé Galdino embolava as cores do Vale do Una de Profeta e Durán y Durán; os bonecos de Epifânio, as artes de Cicinho e o passeio teatral da Paula aplaudidas pelos de Fenelon, João Paulo e Mary que viam da Cyane os traços dos desenhos no meio das performances de todas as utopias subversivas dos que ali dançavam com frases do papo cabeça e de quantos passavam para vários encontros e vastos desencontros, tantos vivos e outros mortos no que foi estação de antanho e isso e aquilo, entre chiques e chocantes até a rebeldia boco-moca dos que se recusavam a viver aquela ousadia de festa pra seguirem as regras sociais que são suas verdades e nem sabiam de qual das mentiras virou sectária dum dogmatismo, porque tudo era apenas um pedaço da história que os olhos não compravam por levarem pra depois o que foi e o que estava lá e me chegava bem danado sem vontade até de voltar. Quando dei fé estava na serra do Cruzeiro e fui Prata de Batateiras em Belém de Maria, criado na mata. Nem sabia que era 31 de dezembro, o ano novo que não é o meu, na rota dos escravos que iam pro Quilombo e ficavam em Macaco. Era Aurora com a passagem das tropas de um marechal que ficou admirado com o amanhecer do lugar e conseguiu convencer os habitantes pela mudança do nome. Foi ali que ouvi um xexéu que me enganava em Campos Frios e tinha de ir para Palmares, não sei a razão ou motivo, mas tinha. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS - Só existe um sonho que vale a pena ter: viver enquanto você está vivo e morrer apenas quando estiver morto. Nossos sonhos foram medicados. Nós não pertencemos a nenhum lugar. Navegamos sem ancoragem em mares turbulentos. Podemos nunca ter permissão para desembarcar. Nossas tristezas nunca serão tristes o suficiente. Nossas alegrias nunca são felizes o suficiente. Nossos sonhos nunca são grandes o suficiente. Nossas vidas nunca são importantes o suficiente. Para importar... O modo de vida estadunidense não é sustentável. Não reconhece que existe um mundo além da América. Quem sabe pela palavra adeus que tipo de despedida nos espera. Mas em momentos como esses, apenas as pequenas coisas são ditas. Grandes coisas estão escondidas por dentro. É isso que as palavras descuidadas fazem. Fazem as pessoas gostarem um pouco menos de nós. Pensamento da escritora e ativista indiana Arundhati Roy. Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Aquilo que fizemos ontem continua conosco hoje. O gosto é resultado de mil desgostos. Trabalhamos com as fontes de vida: jogar e perder. Quando se pode alternar o humor com a melancolia, alcança-se o sucesso, mas quando as mesmas coisas são alegres e melancólicas em simultâneo, é simplesmente maravilhoso. Sempre preferi a reflexão da vida à própria vida. Três filmes por dia, três livros por semana e discos de boa música seriam suficientes para me fazer feliz com o dia da minha morte. A verdade de uma criança é realmente algo absoluto. Pensamento do cineasta francês François Truffaut (1932-1984). Veja mais aqui.

O AMOR - O amor é a prova da existência de outros e da existência deste mundo soberanamente real: o futuro que, sozinho, dá sentido ao presente. Amar um homem ou uma mulher é descobrir uma dimensão nova da vida, um novo e imprevisível futuro. O amor, como a prece, é para ser despertado, preparado para a oferenda, como aberto ao acolhimento. Este amor total não separa o corpo e a alma, que são apenas duas abstrações, dois ângulos de tomada de vista sobre uma realidade única. O amor começa quando preferimos o outro a nós mesmo, quando aceitamos a diferença e a sua imprescritível liberdade. Ser capaz de acolher no outro aquilo mesmo que desperta o ciúme animal, que é sinal de amor próprio e não de amor. Nada é maior que essa partilha da verdadeira personalidade de cada um. Um amor que não seja essa criação continuada de um pelo outro, mesmo ao preço dos dilaceramentos trágicos, é o contrário do amor. Quem não estiver preparado para enfrentar tudo isso não é digno do amor. A poesia e o amor são, com efeito, as formas mais imediatamente apreensíveis da transcendência do ser. Pensamento do filósofo francês Roger Garaudy (1913-2012). Veja mais aqui, aqui & aqui.

O ESCRITOR & A LITERATURA – [...] O escritor parou de conceber seu trabalho como a reprodução mais ou menos fiel, da qual a linguagem seria o instrumento mais ou menos dócil, de uma realidade preexistente, idéia ou sentimento, natureza ou sociedade. A linguagem é para ele a única realidade, ao mesmo tempo aquela de onde ele parte e para onde ele tende, da qual ele fala e que lhe serve para falar. Trechos extraídos da obra La Littérature en France depuis 1945 (Bordas, 1970), de Bruno Vercier, Jacques Lecarme, Michel Autrand e Jacques Bersani.


Imagem recolhida de Helga Rackel.

O CASAMENTO DA PORCA COM ZÉ DA LASCA

Manoel Caboclo e Silva

Leitores eu vou contar
Uma estória que passou
No Juazeiro do Norte
Esta noticia vagou:
“Uma mulher virou porca
Porque à mãe açoitou”.

Era desobediente
No dia que se danava
Não tomava os conselhos
Que a sua mãe lhe dava
Saia à boca da noite
À madrugada voltava.

Um dia ela disse à mãe:
- Hoje é o dia de eu beber
E dançar agarradinha
Até o dia amanhecer
Quando voltar, por favor
Não venha me aborrecer.

E não tardou muito tempo
A mãe dar conselho a ela
Ela igual a uma cobra
Pegou a mãe pela goela
Derrubou, montou-se em cima
Começou a bater nela.

Depois que açoitou a mãe
Foi na bodega beber
A velha disse: - Eu confio
Em Deus, no grande poder
Tu vais virar uma porca
Pra toda noite correr.

Aquela filha maldita
Foi ficando diferente
Crescendo as duas orelhas
E logo rapidamente
Se transformou numa porca
E correu ligeiramente.

Balançou o esqueleto
Preto, da cor de cavalo
E em cada mocotó
Criou logo um esporão
Saia fogo dos olhos
Que parecia um dragão.

No dia de sexta-feira
O lobisomem corria
Pegava cachorro novo
Rasgava o fato e comia
Sangrava jumento velho
Tirava o sangue e bebia.

Corria sete cidades
Que a poeira levantava
Ia à praia comer peixes
Mortos que a maré jogava
Nas águas do oceano
Onde a porca se banhava.

Tinha um tal de Zé da Lasca
Um cabra de vida errada
Que não temia o perigo
Não acreditava em nada
Não gostava de mulher
Nunca teve namorada.

O José sempre dizia
- Feitiço é para o demente
Essa estória de feitiço
É uma imprensa da mente
Existe é truque bem feito
Para enganar muita gente.

Estória de lobisomem
Eu não posso acreditar
Como seja, aquela mossa
Numa porca se virar?
Acho ela bonitinha
Com ela vou me casar.

E falou em casamento
Com esta tal Mariquinha
Sentou-se pertinho dela
Achando-a engraçadinha
Começou a namorar
No mesmo dia à tardinha.

Numa noite enluarada
Saíram a passear
De braços dados, um no outro
Começaram a conversar.
Ele disse: - Já é tarde
Pra casa vamos voltar?

Ela disse: - Não senhor!
Vou descansar um bocado
Deitar-me agora em seu colo
Fazer carinho e agrado
Ainda mais hoje mesmo
Vamos casar noutro estado.

Com estas palavras o moço
Desconfiou da cilada
Foi olhando para ela
Estava desfigurada
Se virando numa porca
Com a mão dele abraçada.

Ele quis correr, não pôde
Porque estava agarrado
Deu um pulo para cima
Desceu, ficou enganchado
E a porca fez carreira
Levando ele montado.

E fez logo parafuso
Que a poeira cobria.
Correram em sete estados
Por cidade e freguesia
Foram na praia e voltaram
Antes de amanhecer o dia.

Fora para o Rio Grande
Voltaram pro Ceará
Seguiram pro Piaui
Maranhão e o Pará
Visitaram Amazonas
De lá foram ao Paraná.

Saltou no meio da rodagem
Atacou um caminhão
Quebrou os feixos de mola
Entortou a transmissão
Deu meia-volta e quebrou
A barra da direção.

Torceu os dois semi-eixos
Quebrou a longarina
Furou o radiador
Desmantelou a bobuna
Passou os dentes, cortou
A correia ventulina.

Arrancou todas as válvulas
Pistão, coroa e pinhão
Espatifou a biela
Freio de pé e de mão
Quebrou o diferencial
E co cano de escapação.

Mexeu em todos os parafusos
Fez a maior confusão
Cortou os fios de velas
Arrancou a instalação
Amassou o platinado
Caixa-de-marcha e tampão.

A porca rangia os dentes
Fazendo grande chacina
Subiu na carroçaria
Mijou dentro da cabina
Tomou um banho a seu gosto
No tanque de gasolina.

O motorista correu
Deixando o carro quebrado
O ajudante ficou
Dando grito esfarrapado
Só pôde sair dali
Depois que tinha mamado.

A porca saiu correndo
Com Zé da Lasca montado
Foi parar em um chiqueiro
Perto de um curral de gado
Na lama tomou um banho
Com Zé da Lasca agarrado.

Em uma cidade na frente
Foi avistando um cruzeiro
A porca entrou na igreja
Fez o maior desespero
Sacudiu uma pedrada
Na terra do padroeiro.

Deu um pulo de costas
Derrubou São Severino
Peitou em Santa Teresa
Brigou com São Guilhermino
Mordeu santa Catarina
E bateu em São Firmino.

Subiu a igreja acima
Desceu pelo patamar
De novo entrou na igreja
Deu três coices no altar
Neste grande rebuliço
Fizeram o sino tocar.

Nisto o vigário chegou
Chamou por Nossa Senhora
A porca se transformou
Em mulher na mesma hora
E foi dizendo: - Seu padre
Queremos casar agora.

O padre disse: – Está certo
O casamento se faz
Nem precisa dar os nomes
Da moça, nem do rapaz
Por mim já estão casados
Podem ir viver em paz.

Quem duvidar desta estória
Diz que não é verdade
Não acreditando em mim
Pergunte a Pedro Bandeira
Foi ele com Expedito
Que escreveram a primeira.

MANOEL CABOCLO E SILVA – O poeta, editor, tipógrafo e almanaquista cearense de Juazeiro do Norte, Manoel Caboclo e Silva (1916-1996), também foi agricultor e astrólogo, tendo uma trajetória que, segundo Gilmar Carvalho, fundiu cultura oral e escrita, ciência e magia, passado e futuro na trama de um texto tão rico quanto as experiências que acumulou. Para o poeta: "Cordel não é aquele que está depundurado num cordão, é aquele que foi feito com as cordas do coração".

FONTES:
ABREU, Márcia. História de cordéis e folhetos. Campinas: Mercado de Letras, 1999.
ALMEIDA, Mauro William Barbosa de. Folhetos - A literatura de cordel no NE brasileiro.. São Paulo: Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, USP, vol. 1, 1979.
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. Cordel. São Paulo: Hedra, 2003.
CARDOSO, Tania Maria de Sousa; Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho. Natal: UERN, s/d.
CARVALHO, Gilmar. Manoel Caboclo e Silva. São Paulo: Hedra, 2000.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2002.
LOPES, Ribamar (org.). Literatura de cordel — Antologia. Fortaleza, Ministério do Interior/Banco do Brasil, 1983.
MEYER, Marlyse. Autores de cordel. São Paulo: Abril, 1980.
SANTOS, Olga de Jesus; VIANA, Marilena. O negro na literatura de cordel. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1989.

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