Mostrando postagens com marcador Marianne Moore. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marianne Moore. Mostrar todas as postagens

domingo, novembro 15, 2020

JURGA IVANAUSKAITĖ, PAUL HINDEMITH, ELSA MORANTE, DIANA KRALL, ALEARDO ALEARDI, ERIKA FRAENKEL & LUIZ VIEIRA

 

TRÍPTICO DQC: AINDA PRIMAVERA - Curtindo Violina, do compositor húngaro Frigyes Hidas (1928-2007), na interpretação da premiada violinista argentina Betina Stegmann, que é primeiro violino do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e do Ensemble São Paulo, professora do Curso Superior de Música (Bacharelado) da Faculdade Cantareira – A noite é plena com tantas luzes e não compreendo o buzinaço rasgando o momento, muito menos o que é comemoração ou protesto. Não sei quase nada do que é vida ou morte, quantos se matam em nome de qual causa ou por fazer valer a existência, aos acenos ou sem. Marianne Moore saúda o meu janelão: As mãos são as mensageiras do coração. Seus espinhos são a melhor parte de você. Abençoado o homem cuja fé é diferente da possessividade - de um tipo não emoldurado por coisas que aparecem. Riso tímido, olhos vivos, um jeito de me convidar para viver e eu apenas queria contar uma história, como se isso for possível depois de tantos sobressaltos. Ao seu lado, emergiu Chinua Achebe parece que adivinhando meus pensamentos: Não há histórias que não sejam verdadeiras. O mundo é infinito, e aquilo que é bom para certas pessoas pode ser abominável para outras. Sim, eu sei. Os dois trocam cortesias e eu apenas os vejo nítidos como se nem dessem pela minha presença. Olham para mim e insinuam que eu poderia fazer melhor que posso e agir na desrazão do que sempre me levou e jamais me aproveitei disso. Deveria ser doutro jeito, nunca faço como manda o figurino e sei que ainda é pouco, ousar mais e muito, isso sim. Ainda é noite e eu espero não ficar tão só, apenas.

 


MADE IN SOLIDÃO – Imagem: arte da artista multimídia Dora Longo Bahia, curtindo Ludus Tonalis (1942), do compositor alemão Paul Hindemith (1895-1963), na interpretação do pianista russo Sviatoslav Richter (1915-1997), Live at Fêtes Musicales en Touraine, France. - Sequer percebi o trâmite da madrugada e não preguei os olhos agora na barra do dia. E se tudo amanhecia, ainda em mim a noite presente. Nenhuma história me assaltou, só queria contar o que saltita impune no coração. Impossível coordenar ideais, nem redigir outros solecismos. A zoada é grande, apesar do horário. Já me alertava Astrid Lindgren: Escrevo para divertir a criança que vive dentro de mim, só espero que outras crianças também se divirtam. Quero escrever para leitores que possam fazer milagres. As crianças fazem milagres quando leem. Tão infantil quanto, sequer milagre algum para obrar àquela hora. Pudesse eu a abraçaria, mas não estava mais ali. Só a beleza estonteante da Jurga Ivanauskaitė com seu jeito encantador: Desejo-lhe felicidade por ver como este mundo é freneticamente lindo todos os dias. Sim e eu só queria abraçá-la e com ela passar a manhã pelo entardecer, enquanto as horas bailassem no nosso prazer.  

 


VOLTA POR CIMA – Imagem: arte da artista visual, videoartista e cineasta Erika Fraenkel, curtindo Live Rio (2008), da cantora e pianista canadense Diana Krall & Orquestra de Rio de Janeiro, regência de Ruriá Duprat. Anoiteceu com acordes nostálgicos e ela apareceu do nada para me dizer Madeleine de Scudéry: Perdoa-se tudo aos amantes... e aos doidos. Por muito boa que seja a cabeça, quase nada pode contra o coração. Esvoaçante como sempre, agarrou-se em volta dos meus ombros com um beijo afetuoso a me dizer o quanto sou louco e desencontrado. Dela a boca úmida e um verso do poeta italiano Aleardo Aleardi (1812-1878): Pura é uma dor que supera todas as dores / carregue o luto em uma pessoa viva. Ela sabia que eu sucumbia inevitavelmente, sabia que pouco me restava além de claustros e vales longínquos. Diante do meu desalento era ela a escritora italiana Elsa Morante (1912-1985), altiva e voluptuosa: As liberdades não são concedidas. Elas são levados. Não espero perdão nem desejo a simpatia dos outros. Eu apenas finjo ser honesta. Quem dera fosse sempre em mim, ventania de todos os pontos cardeais para ressuscitar nela e a vida apenas seguisse sem direção. Até mais ver.

 

LUIZ VIEIRA

Quando estou nos braços teus / Sinto o mundo bocejar / Quando estás nos braços meus / Sinto a vida descansar / No calor do teu carinho / Sou menino-passarinho / Com vontade de voar.

Preludio Pra Ninar Gente Grande (Menino Passarinho), do cantor, compositor e radialista Luiz Vieira (1928-2020), autor de álbuns antológicos como

Pai, acende o lampião/Caixa d.água (Todamérica, 1951), Dona Catulina/Chova ou faça sol (Todamérica, 1952), O menino de Braçanã/Os olhinhos do menino (Todamérica, 1954), Cantiga da lembrança/Embolada mudou (Copacabana, 1958), Retalhos do Nordeste (Copacabana, 1959), Prelúdio pra ninar gente grande/Jaguaribe (Copacabana, 1962), Paz do meu amor – Prelúdio nº 2 (Copacabana, 1963), Em tempo de verdade (Copacabana, 1971), Na asa do vento (CBS, 1978), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 



 

sexta-feira, dezembro 06, 2019

STEVENSON & FANNY, MARIANNE MOORE, BETTY MEGGERS & HANNAH YATA


A ÚLTIMA CARTA PARA FANNY - O mundo está cheio de tantas coisas, os sonhos são maiores que as dores. O sangrento Jack me persegue desde a infância, mesmo quando as aventuras davam num débil inválido, enfermiço, era eu um acendedor de lampiões com o bicho-papão fungando nas sombras dos meus cabelos. Só me restava a noite solitária com o sopro dos ventos, calafrios e tempestades terríveis, as lembranças de Cumme e as suas histórias horripilantes. Sempre foi assim entre a espada heroica e a pena inglória, os mapas e histórias inventadas, os paladinos marinheiros marchando para salvar a humanidade indefesa na minha cabeça, me fazendo faroleiro das ondas, tormentas e naufrágios, a distinguir o que era e não era entre vagabundos e ilibados senhores da sociedade. Como fui reprovado pelos professores, já sabia que nunca seria um contador de história respeitável, só um plumitivo que nada mais era que uma alma perdida com passatempos mirabolantes na ideia. Nunca me vi levantando paredes para moradia, muito menos um rábula para fazer justiça ou dirimir desavenças. Mesmo assim, tive de estudar as leis para ter a constatação do quanto elas são casuísticas e injustas. O ar familiar inexoravelmente puritano sempre me fora coercitivo demais, um lar insuportável. Restava vagar solitário, errando por aí a rondar ruas, paragens, maravilhas por ermos e descobertas súbitas. Os sonhos acalentados abriram o caminho para a liberdade, naveguei os sete mares e encontrei a ilha do tesouro no coração da eleita amada que insistia em se não se mostrar, escondendo seu jeito moleca e cabelos escuros cacheados ao vento, artista de pintar e escrever em revistas suas próprias criações. Mesmo ausente e distante ela me encorajou e me inspirou a seguir seus passos, atravessei o mundo por todos continentes e oceanos, por trens morosos e que não chegavam nunca em paradeiro algum. Findei fraco e sem força, quase uma procura em vão, sem um tostão no bolso, uma poça de sangue e inconsciente no topo da montanha. Quando eu precisei ela estava ali e era a Fanny da minha paixão, a remissão de tudo, a redenção de minha alma atribulada. Fui muito feliz com a nossa lua de mel na mina abandonada, inesquecível. Guardei minha voz por vários dias e cada momento vivido, nenhuma palavra, a salvação na escrita. Refiz minha viagem interior e depois retomei o caminho com uma Beraba nas Cévennes, pelas novas noites da Arábia, o Silverado Champz, as fábulas dos homens alegres, a maré vazante e os entretenimentos das noites. Eu me encontrei a mim mesmo na ilha do tesouro, onde desvendei os mistérios e a emoção de raptado. Entre tantas outras insones, uma noite má de gemidos e pesadelo intranquilo, o médico se fez monstro que me levou por sanatórios, mares, tufões e perigo, ao convívio de freiras e de leprosos desgraçados. Estou só agora, como sempre estive, aventureiro narrador, diante da viagem sem regresso: a coragem é o pilar de todas as virtudes. Ao que me cabe, pelo menos a calmaria nos arrecifes, a alegria à sota-vento, a mente tranquila a barlavento. Escrevo o meu réquiem para a minha última morada no alto da colina que dá para o Pacífico: é ali que quero ficar só com este vasto e estrelado céu, porque fui feliz e assim eu vou, marinheiro que vai partir com um verso, feito caçador dos montes que segue para a mata infinita. Esse é o meu desejo no topo do Monte Vaea. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Uma das características mais surpreendentes da vida na Amazônia de hoje é a ausência de diferenciação regional. Ao longo de todos os rios principais e de alguns tributários menores, o povo come a mesma comida, veste roupas semelhantes, vive no mesmo tipo de casa e participa das mesmas crenças e aspirações. Tendo perdido a capacidade de satisfazer suas necessidades com os recursos da floresta, é obrigado a comprar não somente panos, potes e panelas, facas e espingardas, mas, também, muitos gêneros de subsistência básicos, tais como açúcar, sal, arroz, feijão e café. O pagamento deve ser feito segundo a procura do mercado exportador e não em termos do que a área poderia melhor produzir. As principais atividades são limitadas, por conseguinte, à coleta da borracha, frutas e castanhas, à pesca, à caça em busca de pele (especialmente de onça, jacaré e anta), à agricultura e à criação de gado. A distância em que se encontram os mercados, a alta dos preços provocada pela intermediação e uma organização comercial que impede o vendedor de procurar o melhor preço, todos esses são fatores que contribuem para restringir o lucro do produtor. Doenças, azares, mau tempo e outras circunstâncias atenuantes reduzem, muitas vezes, a produtividade do homem, deixando-a abaixo do mínimo necessário para suprir as necessidades da família. Diante disso, é levado a conseguir crédito com o comerciante local e, uma vez dado esse passo, torna-se escravo do sistema, sem qualquer esperança concreta de dele sair. Impossibilitado de conseguir os alimentos adequados e sem dispor de tempo para pescar ou cultivar um roçado, ele e seus filhos tendem a sofrer de carências alimentares, o que diminui sua resistência para os outros tipos de doença. O habitat sofreu uma degradação na mesma ordem. Uma superexploração da terra em torno das grandes concentrações provocou uma acentuada e provavelmente irreversível deterioração do solo e da vegetação, causando a extinção local de muitas espécies de aves e outros animais. A superexploração e outros distúrbios reduziram ainda a incrível densidade, anteriormente existente, de tartarugas, jacarés, aves aquáticas e outras modalidades de vida aquática a simples remanescentes que buscam esconderijos em lugares distantes e inacessíveis. Os caprichos dos compradores vindos de todas as partes do mundo, que querem animais de estimação exóticos, penas espetaculares, adornos estranhos ou comidas fora do comum, incentivam a dilapidação das espécies, dos grandes animais e mesmo dos insetos. Na medida em que aumenta a escassez, os preços sobem e os esforços para atender a procura têm que ser intensificados. Até recentemente, o pequeno tamanho da população aculturada e o alto custo do transporte mantiveram os danos ecológicos confinados à várzea e às margens dos tributários principais. Às vastas regiões do interior, que permaneceram despovoadas ou que têm somente remanescentes de grupos indígenas, pouco ou nenhum dano foi causado. [...]. Trecho extraído da obra Amazônia: a ilusão de um paraíso (Civilização Brasileira, 1977), da arqueóloga estadunidense Betty Meggers (1921-2012), especializada em cultura pré-colombiana e que pesquisou a Bacia Amazônica e que no seu estudo La Amazonía en vísperas del contacto europeo: perspectivas etnohistóricas, ecológicas y antropológicas (Instituto de Estudios Peruanos, 1997), expressou que: [...] Na América do Sul, as modernas divisões políticas correspondem mais de perto com as zonas ecológicas. O Brasil é principalmente floresta; a Argentina principalmente campo; o Chile principalmente costa do Pacífico; Colômbia e Venezuela são zona intermediária. Essa diferença é significativa. [...] Os acidentes da história são responsáveis por estas fronteiras modernas, mas se compreendermos seu significado ecológico, seremos capazes de lidar mais adequadamente com os problemas que eles suscitam. [...].

A POESIA DE MARIANNE MOORE
POEMA - Eu também a abomino: há coisas mais importantes do que todo esse desatino. / Lendo-a, todavia, com total desdém, é possível que se presuma / ali, afinal, um lugar para o genuíno. / Olhos dilatados, frio / nas mãos, arrepio, / nos cabelos, essas coisas não são importantes porque uma / interpretação altissonante as pode moldar, mas porque são / úteis. Quando elas se tornam tão derivativas a ponto de ficarem ininteligíveis, / o mesmo vale para todos nós, a gente / não sente / o que não entende; morcego de ponta- / cabeça à busca de alguma / janta, tranco de elefantes, pinote de potranca, lobo sem descanso à caça, o indefectível crítico a torcer / a pele como um cavalo com pulgas, o fã de beisebol, o estatístico, / nem é lícito / discriminar “os documentos comerciais e os / livros escolares”, todos esses fenômenos são importantes. Com uma distinção, / porém; quando enaltecidos por semipoetas, o resultado não é poesia, / nem até que os nossos poetas possam ser / “literalistas da / imaginação” – desistam da / insolência e da trivialidade e possam oferecer / para inspeção, “jardins imaginários com sapos reais”, chegaremos a obtê-la. Nesse ínterim, se você demandar, por uma via, / a matéria bruta da poesia em / toda a sua bruteza e, / … por outra via, o que é / genuíno, então você se interessa por poesia.
SILÊNCIO - Meu pai costumava dizer: / “As pessoas superiores nunca fazem visitas prolongadas”, / têm de a campa de Longfellow / ou as flores de vidro de Harvard. / Autossuficientes como o gato – / que, pendendo-lhe da boca a cauda do rato / como um atilho bamboleante, / leva a presa para a intimidade – / por vezes apreciam a solitude / e podem ser privadas do discurso / pelo discurso que as deliciara. / Os sentimentos mais profundos manifestam-se sempre / em silêncio; / em silêncio não, mas de novo comedido. / Tão pouco era insincero quando dizia: / “faça de minha casa a sua hospedaria”. / Hospedarias não são residências.
O QUE SÃO OS ANOS? – O que é nossa inocência, / nossa culpa? Frágeis, somos, / vulneráveis. E de onde vem a / coragem: a pergunta sem resposta, / a resoluta dúvida, — / muda chamando, surda ouvindo — que / no infortúnio, na morte mesmo, / encoraja outras ainda / e em sua derrota anima / a alma a ser forte? Compraz-se / e com perspicácia vê / quem a mortalidade abrace / e no confinamento contra si / mesmo se volte, assim / como o mar que no abismo intenta ser, / livre mas, incapaz de ser, / no ato de capitular / encontra seu perdurar. / Quem no sentimento espera / assim age. O próprio pássaro, / que ao cantar se engrandece, acera / o corpo aprumado. Embora cativo, / seu poderoso trino / diz: o contentamento é humilde; / quão puro é o regozijo. / Isto é mortalidade, / isto é eternidade.
MARIANNE MOORE – Extraídos da obra Poemas (Companhia das Letras, 1991), da premiada escritora, editora e professora modernista estadunidense Marianne Moore (1887-1972). Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista japonesa Hannah Faith Yata, que graduou-se em Pintura pela Universidade da Geórgia, em 2012, e estudou feminismo, psicologia e arte, atuando na defesa do meio ambiente e seus efeitos sobre a psique o mundo dos vivos, entrelaçando os paralelos entre o inconsciente e a luta do ambiente natural. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE ROBERT LOUIS STEVENSON
Sob o céu largo e estrelado, / Cavar a cova e me deixe mentir. / Ainda bem que eu vivi e morri de bom grado, / E eu me deitei com vontade. / Este é o versículo que você escreve para mim: / Aqui ele jaz onde desejava estar; / Lar é o marinheiro, lar do mar, / E o caçador em casa da colina.
ROBERT LOUIS STEVENSON – Réquiem do escritor humanista escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), autor de obras clássicas como A Ilha do Tesouro (1884), O médico e o monstro – O caso estranho do Dr. Jekyll e Sr. Hyde (1886), As aventuras de David Balfour, Raptado (1884), O jardim poético da infância (1885), No vazio da onda (1894), Uma viagem interior (1878), Os homens alegres e outros contos e fábulas (1887) e Entretenimento das noites nas ilhas (1894), algumas da quais li durante minha adolescência. O seu grande amor foi a escritora de revistas estadunidenses, Fanny (Frances Matilda Van de Grift Osbourne Stevenson - 1840-1914), por quem ele atravessou o Oceano Atlântico e os Estados Unidos em busca da felicidade, tornando-se ela a defensora da obra do autor. Veja mais aqui & aqui.
&
O poeta e a poesia de Walter Benjamim, O inferno de Patrícia Melo, a poesia de Iracema Macedo, a Balança de Têmis, a música de Sandie Shaw & Julia Bond, Auto da feira de Maria Dias de Luís da Câmara Cascudo, a arte da atriz Marie Dorval, o cinema de José Roberto Torero, a arte de Ísis Nefelibata e o poemiuderótico Queima aqui.
Boas Festas & Feliz Ano Novo paratodos! Beijabrações!!!!!!
 

segunda-feira, janeiro 15, 2018

CAIO ABREU, MARIANNE MOORE, BERGMAN, BOAVENTURA SANTOS, RICHARD FORD, CELSO VIÁFORA, BAHMAN JALALI & KARINA BUHR

A CHEGADA DELA E VIVI – Imagem: arte do fotógrafo iraniano Bahman Jalali (1944-2010).- O que houve não sei, nem poderia, só dela a chegada inesperada, meu coração aos pés de quase sair pela boca, a surpresa demais da conta, o vulto inteiro nada mais vi, lívido, perdido, só ela nos meus olhos parados no ar, somente ela, de nem ver fui levado mãos dadas pelas ruas e esquinas, subir a escadaria, abrir a porta e me empurrar pra cadeira e sentar atordoado como se o mundo girasse e eu extraviado de mim, cabeça a rodar e nada sabia, nem poderia embasbacado enquanto ela desafivelava o cinturão para desabotoar minhas calças e caçar o meu sexo dilatado só por vê-la inteiramente sensual e amante, a saia do vestido puxada das pernas pras coxas a me surpreender com seu ventre nu invadido por meu desejo à sua vontade. Nada sabia, nem poderia entre o espanto e o delírio fui levado por sua cavalgada, qual não fui espaventado ao seu trote ritmado até ao êxtase dos píncaros de todas as maravilhas universais, até descansar a sua cabeça ao meu ombro depois da viagem, a carícia dos meus dedos entre seus cabelos e dorso, seus devaneios abraçados a mim como desolada e à deriva encontrou, finalmente, seu porto seguro. Nada sabia, nem poderia dela me ninar a mimar da minha pele à essência, eu todo a envolvê-la desprotegida, língua a lamber seu agitado coração. Nada sabia mesmo, nem poderia e me contou dos seus dias e a eterna solidão no escuro embaraçoso, olhos de velas acesas nos castiçais e a ameaça da aranha invisível a atormentá-la. Não tenha medo, estou aqui, e me disse ao seu modo como era e tudo se repete como se nunca tivesse ocorrido, como se as narrações de Sheherazade enovelassem nossas falas e entregas, como se revivêssemos o reencontro de outras existências. Nada sabia e me falou do que não tinha mais, do que possuia de si, notícias que não tardam a chegar e os destinos são diversos nos acenos e adeuses, o destino feito de atos, erros e acertos, e tudo segue pelas triviais despedidas, nas constantes desditas. Ainda ontem ao chegar do trabalho ficou entretida arengando com as formigas malditas invasoras do seu bolo predileto, roubando-lhe até os farelos. Esconjurou, maldisse a vida e chorou sozinha num casa da sala. Não chore, estou aqui. Se nada sabia, nem poderia, ela me falou de ouvir vozes injuriosas inauditas de seres enlutados com seus rostos inexpressivos e as deferências de ocasião, as falsas amabilidades, impostores de plantão. Compungia-se com tudo, gente de conversatório cochichado, cheiradeira da vida alheia, só de ver pelas costas. Engolia esses desaforos, quanta remoeta, retalhos inúteis, ô povinho ofendido e afobado. Ah, se verdade ou exagero, era ela comigo em carne viva, beijos de sonhos na alma e eu mais rendido que nunca. Aí me pediu para eu roubar a Lua e não demorasse pra ela fazer um anel e selar nossa união ressuscitada com a quebra do feitiço de Áquila. Éramos um, corpo a corpo, nossas mãos, braços e abraços, beijo a beijo, somos um. E me contou das peraltices de infância, moça menina no vento caingang e perguntou de mim, eu sempre lembro, mas esqueço. A La Ursa com papangus quebraram o silêncio na cadência do frevo, ela nunca vira, quase amedrontada, carnaval caeté. E desandei a falar, fui tão longe, acho, muito longe, atos públicos, efemérides vazias e decadentes, era só pra salvar minha pele, nada mais que isso, fui de arranco, mesmo não sendo esse balaio todo, nem se sou protegido por qualquer anjo da guarda ou desviado arcanjo, pelas beiradas e entrelinhas o mundo todo. Já andei um bocado de légua e não cheguei a lugar algum, tenho a impressão de não ter saído do mesmo lugar até hoje. Não sei quantas vezes quase não fui fulminado por um raio, mais de uma vez, na verdade. Muita coisa de colosso eu já vi, sempre enjeitado daquele sempre a mandar lembranças, pra ver botarem depois tudo abaixo, desabado, ao emburacar no troço haviam virado a casaca, nada mais, a coisa toda espalhada, ruínas e miséria. Deixa eu cá com meu roçado, meu teretetê, a estrada é longa, o caminho esburacado e carregado de surpresas nada alvissareiras nesses tempos de desumanidade, mesmo que se vá eu vou, chego nela e tudo é real, os dentes do sorriso, o brilho do olhar. Se lá ou cá, eu sou nela, do que fui e serei, nela eu sou. Foi a chegada dela e me fez viver de verdade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com Amores absurdos e show do cantor, compositor e arranjador Celso Viáfora; e Selvática, Longe de onde & Eu menti pra você da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIANão sabemos tudo. A vida tem mais significados do que parece. É preciso estar atento. Trecho extraído da obra Uma situação difícil (L’Olivier, 1998), do escritor estadunidense Richard Ford.

CIÊNCIA & SENSO COMUM – [...] A revolução científica que atravessamos ocorre numa sociedade ela própria revolucionada pela ciência. O paradigma a emergir dela não pode ser apenas um paradigma científico, tem de ser também um paradigma social, de vez que o conhecimento científico ensina a viver e traduz-se num saber prático. Consequentemente, temos de perguntar pelo papel de todo conhecimento acumulado no enriquecimento ou no empobrecimento prático das nossas vidas, ou seja, pelo contributo positivo ou negativo da ciência para nossa felicidade. [...] Na ciência moderna o conhecimento avança pela especialização e o conhecimento é tanto mais rigoroso quanto mais restrito é o objeto sobre que incide... A ciência moderna legou-nos um conhecimento funcional do mundo que alargou extraordinariamente as nossas perspectivas de sobrevivência. No futuro não se tratará tanto de sobreviver como de saber viver. Para isso é necessária uma outra forma de conhecimento compreensivo e íntimo que não nos separe e antes nos uma pessoalmente ao que estudamos. [...] A ciência pós-moderna tenta dialogar com outras formas de conhecimento e a mais importante de todas é o conhecimento do senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas ações e damos sentido à nossa vida. [...]. Trechos extraídos da obra Um discurso sobre as ciências (Cortez, 2003), do jurista e professor Boaventura de Sousa Santos, também autor da obra Introdução a uma ciência pós-moderna (Graal, 2003), apresentando uma reflexão crítica com objetivo de compreender a prática científica para além da consciência ingênua, ou oficial, dos cientistas e das instituições da ciência, e aprofunda o diálogo dessa prática com as demais práticas de conhecimento de que se tecem na sociedade e no mundo. O autor submete as correntes dominantes da reflexão epistemológica sobre a ciência moderna a uma crítica sistemática, recorrendo à dupla abordagem - suspeição e recuperação. Veja mais aqui, aqui & aqui.

PRELÚDIO & ALEGRO AGITATONo entanto (até no-entanto dizia agora) estava ali assim que se movia. Era dentro disso que precisava mover-se sob o risco de. Não sobreviver, por exemplo – e queria? Enumerava frases como é-assim-que-as-coisas-são ou que-se-de-fazer-que-se-há-de-fazer ou apenas mas-afinal-que-importa. E a cada dia ampliava-se na boca aquele gosto de morangos mofando, verde doentio guardado no fundo escuro de alguma gaveta. [...] mas não é no cérebro que acho que tenho o câncer, doutor, é na alma, e isso não aparece em check-up algum. Mal do nosso tempo, sei, pensou, sei, agora vai desandar a tecer considerações sócio-político-psicanalíticas sobre. O Espantoso Aumento da Hipocondria Motivada Pela Paranóia dos Grandes Centros Urbanos, cara bem barbeada, boca de próteses perfeitas, uma puta certa vez disse que os médicos são os maiores tarados (talvez pela intimidade constante com a carne humana, considerou), e este? Rápido, analisou: no máximo chupar uma boceta, praticar-sexo-oral, como diria depois, escovando meticuloso suas próteses perfeitas, naturalmente que se o senhor pudesse diminuir o cigarro sempre é bom, muito leite, fervido, é claro, para evitar os cloriformes, ar puro, um pouco de exercício, cooper, quem sabe, mais pensando no futuro do que em termos imediatos, claro. Mas se o futuro, doutor, é um inevitável finalmente alguém apertou o botão e o cogumelo metálico arrancando nossas peles vivas, bateu com cuidado o cigarro no cinzeiro, um cinzeiro de metal, odiava objetos de metal, e tudo no consultório era metal cromado, fórmica, acrílico, anti-séptico, im-po-lu-to, assim o próprio médico, não ousando além do bege. Na parede a natureza-morta com secas uvas brancas, peras pálidas, macilentas maçãs verdes. Nenhuma melancia escancarada, nenhuma pitanga madura, nenhuma manga molhada, nenhum morango sangrento. Um morando mofado – e este gosto, senhor, sempre presente em minha boca? Azia, má digestão, sorriso complacente de dentes no mínimo trinta por cento autênticos (e o que fazer, afinal? Dançar um tango argentino, ou seria cantar? [...] tinha versos à espreita, adequados a qualquer situação, essa uma vantagem secreta sobre os outros, mas tão secreta que era também uma desvantagem, entende? Nem eu, versos emboscados da nossa mais fina lira, tangos argentinos e rocks dilacerantes, com ênfase nos solos de guitarra). Um tranquilizante levinho levinho aí umas cinco miligramas, que o senhor tome três por dia, ao acordar, após o almoço, ao deitar-se, olhos vidrados, mente quieta, coração tranquilo, sístole, pausa, diástole, pausa, sístole, pausa, diástole, sem vãs taquicardias, freio químico nas emoções. Assim passaria a movimentar-se lépido entre malinhas 007, paletós cardin, etiquetas fiorucci, suavemente drogado, demônios suficientemente adormecidos para não incomodar os outros. Proibido sentimentos, passar sentimentos, passear sentimentos desesperados de cabeça pra baixo, proibido emoções cálidas, angustias fúteis, fantasias mórbidas e memorias inúteis, um nirvana da bayer e se é bayer. [...]. Trechos extraídos da obra Morangos mofados (Agir, 2003), do escritor, jornalista e dramaturgo Caio Fernando Abreu (1948-1996). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O SICÔMOROContra um céu mais escuro / vi uma girafa albina / sem folhas, a modificá-la. / Branca – camurça como disse - / embora parcialmente malhada junto à base / erguia-se sobranceira onde a corrente / de alpondras se lançava / numa torrente próxima. / Elegância capaz de despertar a inveja / de anônimos mais coloridos / Procos de Hampshire, viva pedra da sorte, / mariposa ou borboleta. / Bem: digressão, de animal a parecença - / mas não de flores que não murcham; / elas devem morrer / e um pincel de nove cabelos / do camelo fêmea ajuda a memória. / Digno de Imami - / o persa – agarrando-se a um ramo mais duro / havia uma pequenina coisa seca / da grama em forma de Cruz de Malta / retirando-se formal como a dizer: / “E ali estava eu / como um rato do campo em Versailles”. Poema da escritora modernista estadunidense Marianne Moore (1887-1972).

CENAS DE UM CASAMENTO SUECO
[...] Se não fosse por outra razão, pelo menos teria servido para irritar as pessoas artisticamente ultra-sensíveis que por aversão a esta obra, completamente compreensível, vão começar por ter vômitos estéticos já na primeira cena. O que é que resta mais para dizer? Este opus levou três meses para escrever, mas representa um período bastante longo da minha vida em experiência. Não estou certo se teria sido melhor ser ao contrário, embora talvez tivesse ficado mais refinado. Eu senti uma espécie de dedicação por esses seres humanos durante todo o tempo que trabalhei com eles. Tornaram-se bastante contraditórios, por vezes infantilmente angustiados, outras vezes bastantes adultos. Dizem um bom bocado de coisas insignificantes, por vezes dizem algo de importante. Mostram-se angustiados, felizes, tolos, bons, inteligentes, insuportáveis, e amoráveis. Tudo de uma vez só. Agora vamos ver como é que vai sair.
Trecho do prefácio da obra Cenas de um casamento sueco (Nórdica, 1975), do dramaturgo e cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), dividido em seis cenas: Pureza e pânico, A arte de varrer para baixo do tapete, Paula, Vale de lágrimas, Os analfabetos & No meio da noite numa casa escura em algum lugar do mundo. O premiado drama intitulado originalmente como Scener ur ett äktenskap (1974), conta a vivência de 10 anos de um casal aparentemente bem-sucedidos (ele professor, ela advogada na área de direito de família), entrevistados por uma repórter para falar a respeito do sucesso do matrimônio. Depois de recepcionar um casal em crise, ela descobre que está grávida e ele não demonstra nenhum contentamento, ao mesmo tempo em que uma senhora casada há 20 anos a procura para se divorciar, motivada pela inexistência de amor no seu casamento, provocando uma atrofia nas suas emoções. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
Quando alguém se põe à sombra, não pode invocar o sol, o pensamento de Ralf Waldo Emerson, a música de Milena Aradski, a pintura de Paul Klee & a arte de Felicia Yng aqui.
Ainda assim é uma história de amor, a literatura de Henrich Böll, a música de Mário Ficarelli & a pintura de João Câmara aqui.
Ah, esses lábios na Crônica de amor por ela, Molière, Eduardo Souto & Clara Sverner, Tácito, Washington Irving, Gladys Nelson Smith, Carl Franklin, Meryl Streep, Renée Zellweger, Bill Ward, Argemiro Corrêa & Samdra Fayad aqui.
O culto da rosa na Crônica de amor por ela, As mil e uma noites, Ezra Pound, Almeida Prado, Heráclito de Êfeso, Dermeval Saviani, Vittorio Alfrieri, Washington Maguetas, Gilian Armstrong, Cate Blanchett, Alfred Cheney Johnston & Myrna Araujo aqui.
Cantilena na Crônica de amor por ela, Goethe, Pierre-Joseph Proudhon, Fodéba Keïta, José Régio, Alexandre Dumas Filho, Nick Cassavetes, Tears For Fears, Robin Wright, Jean-Francois Painchaud, Lev Tchistovsky & Graça Lins aqui.
Egberto Gismonti & Naná Vasconcelos, Martin Luther King Jr, Débora Arango, Maria Lenk, Greta Garbo, Marie Duplessis & A dama das camélias aqui.
Gilles Deleuze, Susan Sontag, Dian Fossey, Sigourney Weaver, Washington Maguetas, João Pinheiro & Padre Bidião aqui.
Georges Bataille, John dos Passos, Heitor Villa-Lobos & Kiri Te Kanawa, Berthe Morisot, Alain Robbe-Grillet & Marie Espinosa aqui.
Cordel na escola aqui.
Cidadania & direito aqui.
Ralf Waldo Emerson, Spencer Johnson, Gabriele Muccino, Nicolletta Tomas, Monty Alexander, Felipe Cerquize, O Teatro, Nicoletta Romanoff, A escola, a sociedade e a formação humana & Onde há fumaça há fogo aqui.
A sedução da serpente aqui.
O lobisomem zonzo aqui.
Nega besta aqui.
De perto ninguém é mesmo normal aqui.
Tem dia pra tudo, até pro que eu não sei aqui.
A vida por uma peínha de nada aqui.
Big Shit Bôbras, Cícero & Crônicas Palmarenses aqui.
Educação Cidadã: Educação para vida e para o trabalho aqui.
O sonho de Desidério aqui.
As mil faces do disfarce aqui.
A mulher fenícia & os fenícios aqui.
Sonho real amanhecido aqui.
Teoria geral do crime & Direito Penal aqui.
Fecamepa; o Brasil holandês aqui.
Direito de Família, Psicologia Escolar, Pedofilia, Liderança & Psicose Puerperal aqui.
O pensamento de Darcy Ribeiro aqui.
Direito Autoral, Psicologia Social, Trabalho & Doenças Ocupacionais aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo iraniano Bahman Jalali (1944-2010).
Veja mais aqui.

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...