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domingo, novembro 15, 2020

JURGA IVANAUSKAITĖ, PAUL HINDEMITH, ELSA MORANTE, DIANA KRALL, ALEARDO ALEARDI, ERIKA FRAENKEL & LUIZ VIEIRA

 

TRÍPTICO DQC: AINDA PRIMAVERA - Curtindo Violina, do compositor húngaro Frigyes Hidas (1928-2007), na interpretação da premiada violinista argentina Betina Stegmann, que é primeiro violino do Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo e do Ensemble São Paulo, professora do Curso Superior de Música (Bacharelado) da Faculdade Cantareira – A noite é plena com tantas luzes e não compreendo o buzinaço rasgando o momento, muito menos o que é comemoração ou protesto. Não sei quase nada do que é vida ou morte, quantos se matam em nome de qual causa ou por fazer valer a existência, aos acenos ou sem. Marianne Moore saúda o meu janelão: As mãos são as mensageiras do coração. Seus espinhos são a melhor parte de você. Abençoado o homem cuja fé é diferente da possessividade - de um tipo não emoldurado por coisas que aparecem. Riso tímido, olhos vivos, um jeito de me convidar para viver e eu apenas queria contar uma história, como se isso for possível depois de tantos sobressaltos. Ao seu lado, emergiu Chinua Achebe parece que adivinhando meus pensamentos: Não há histórias que não sejam verdadeiras. O mundo é infinito, e aquilo que é bom para certas pessoas pode ser abominável para outras. Sim, eu sei. Os dois trocam cortesias e eu apenas os vejo nítidos como se nem dessem pela minha presença. Olham para mim e insinuam que eu poderia fazer melhor que posso e agir na desrazão do que sempre me levou e jamais me aproveitei disso. Deveria ser doutro jeito, nunca faço como manda o figurino e sei que ainda é pouco, ousar mais e muito, isso sim. Ainda é noite e eu espero não ficar tão só, apenas.

 


MADE IN SOLIDÃO – Imagem: arte da artista multimídia Dora Longo Bahia, curtindo Ludus Tonalis (1942), do compositor alemão Paul Hindemith (1895-1963), na interpretação do pianista russo Sviatoslav Richter (1915-1997), Live at Fêtes Musicales en Touraine, France. - Sequer percebi o trâmite da madrugada e não preguei os olhos agora na barra do dia. E se tudo amanhecia, ainda em mim a noite presente. Nenhuma história me assaltou, só queria contar o que saltita impune no coração. Impossível coordenar ideais, nem redigir outros solecismos. A zoada é grande, apesar do horário. Já me alertava Astrid Lindgren: Escrevo para divertir a criança que vive dentro de mim, só espero que outras crianças também se divirtam. Quero escrever para leitores que possam fazer milagres. As crianças fazem milagres quando leem. Tão infantil quanto, sequer milagre algum para obrar àquela hora. Pudesse eu a abraçaria, mas não estava mais ali. Só a beleza estonteante da Jurga Ivanauskaitė com seu jeito encantador: Desejo-lhe felicidade por ver como este mundo é freneticamente lindo todos os dias. Sim e eu só queria abraçá-la e com ela passar a manhã pelo entardecer, enquanto as horas bailassem no nosso prazer.  

 


VOLTA POR CIMA – Imagem: arte da artista visual, videoartista e cineasta Erika Fraenkel, curtindo Live Rio (2008), da cantora e pianista canadense Diana Krall & Orquestra de Rio de Janeiro, regência de Ruriá Duprat. – Anoiteceu com acordes nostálgicos e ela apareceu do nada para me dizer Madeleine de Scudéry: Perdoa-se tudo aos amantes... e aos doidos. Por muito boa que seja a cabeça, quase nada pode contra o coração. Esvoaçante como sempre, agarrou-se em volta dos meus ombros com um beijo afetuoso a me dizer o quanto sou louco e desencontrado. Dela a boca úmida e um verso do poeta italiano Aleardo Aleardi (1812-1878): Pura é uma dor que supera todas as dores / carregue o luto em uma pessoa viva. Ela sabia que eu sucumbia inevitavelmente, sabia que pouco me restava além de claustros e vales longínquos. Diante do meu desalento era ela a escritora italiana Elsa Morante (1912-1985), altiva e voluptuosa: As liberdades não são concedidas. Elas são levados. Não espero perdão nem desejo a simpatia dos outros. Eu apenas finjo ser honesta. Quem dera fosse sempre em mim, ventania de todos os pontos cardeais para ressuscitar nela e a vida apenas seguisse sem direção. Até mais ver.

 

LUIZ VIEIRA

Quando estou nos braços teus / Sinto o mundo bocejar / Quando estás nos braços meus / Sinto a vida descansar / No calor do teu carinho / Sou menino-passarinho / Com vontade de voar.

Preludio Pra Ninar Gente Grande (Menino Passarinho), do cantor, compositor e radialista Luiz Vieira (1928-2020), autor de álbuns antológicos como

Pai, acende o lampião/Caixa d.água (Todamérica, 1951), Dona Catulina/Chova ou faça sol (Todamérica, 1952), O menino de Braçanã/Os olhinhos do menino (Todamérica, 1954), Cantiga da lembrança/Embolada mudou (Copacabana, 1958), Retalhos do Nordeste (Copacabana, 1959), Prelúdio pra ninar gente grande/Jaguaribe (Copacabana, 1962), Paz do meu amor – Prelúdio nº 2 (Copacabana, 1963), Em tempo de verdade (Copacabana, 1971), Na asa do vento (CBS, 1978), entre outros. Veja mais aqui e aqui.

 



 

segunda-feira, novembro 18, 2019

EGON SCHIELE, MARGARET ATWOOD, CHINUA ACHEBE, LERA AUERBACH, BIBLIOTERAPIA & BRINCARTE DO NITOLINO


A ÚLTIMA CARTA DE EGON – (Ao som de Pavane for dead princess, de Maurice Ravel) - Agora tudo passa e as horas fluem lentas. Somente eu, coração geminiano, alma torturada de espantalho no tempo, ocorre o escandaloso olhar para o dentro de tudo diante do espelho, dias a mais ou de menos. Sou todo pensamento e meus olhos veem o que se esconde. Evaporo e expiro, reconheço a mim e ao mundo: os delírios da doença mental do meu pai e os convidados fictícios à mesa posta, os conflitos com a minha mãe, o abandono da infância sombria e Gerti saltitante, a minha vida mais se parece as Leônidas do Tempel-Tuttle. De cada um o seu eu sem nenhuma inibição facial do pudor cristão e a moralidade civilizada, a luz corporal e o seu extremo por linhas e planos distorcidos, o sexo, a púbis, o gestual e os corpos a queimarem consumindo a vida e a sua própria luz na pose tímida moralmente reprimida entre o repreensível e o aceitável por ocres cenários. Todos são eremitas e o amor me conduziu a nada ocultar: a guerra e a pandemia da gripe espanhola, mães mortas, crianças deformadas, famílias miseráveis desnudadas, só eu sei a mulher. Memorações me assaltam: Moa que foi a primeira musa, Wally que foi o meu grande amor e fugiu para nunca mais, os olhos malditos de Tatjana, a agonia de Edith, o pesadelo perpétuo da minha vida, e eu extático diante do estático e do turbulento. Rememoro que fui acusado de sujidades, a obra toda indecente e não corrompi nenhuma criança: a condenação foi a gravura queimada por mais de vinte dias, maltratado pela ignorância assombrosa da pobreza de espirito, a impertinente interrupção gananciosa dos que se intrometem nada perdoável a torcerem o meu explícito e palpável pescoço, só pelo prazer invejoso dos palermas que destroçam a vida e infundem, cabeças-tontas, respeito hipócrita do que não possuem nem compreendem de talento e arte, asnos estúpidos e descerebrados a censurarem e deterioram fixando para trás tão degradante, quando não inúteis, prejudiciais de um mundo decrépito a tremer mesmo que aparentemente tudo pareça em paz e ordem, quanta ignomínia! Todos corrompidos pela paixão que tortura a alma terrivelmente desses sensíveis suicidas condenados ao colapso, prisioneiros e oficiais que pousam na minha lua-de-mel, escoltas para a linha de frente, a inveja da liberdade e eu reduzido a limpar o chão da prisão, juntando cacos de sonhos e nenhum tostão. Tudo passa: estou adoecendo, nem sei se sobrevivo refém da maldição e do poder omnipresente da morte. A desilusão e o desalento, a solidão e o pânico, o mestre morreu, Edith se esvaindo grávida e eu sucumbindo, meu corpo cansado e coroado de flores. Nada mais que a prancheta, o lápis, a folha e o tamborete, a natureza e os contornos, a luz e a escuridão. A nudez é sagrada e eu quase nem vivo mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Em algum lugar na parte continental de Lagos, a União Progressista de Umuofia estava promovendo uma reunião de emergência. Umuofia é um vilarejo de língua ibo na Nigéria Oriental e a cidade natal de Obi Okonkwo. Não se trata de um vilarejo especialmente grande, mas seus habitantes o chamam de cidade. Têm muito orgulho de seu passado, quando a cidade era o terror dos vizinhos, antes que o homem branco chegasse e nivelasse todos por baixo. Os umuofianos (é assim que eles se denominam) que deixaram sua cidade natal a fim de arranjar trabalho e se espalharam por cidades da Nigéria inteira encaram a si mesmos como residentes temporários. Voltam para Umuofia de dois em dois anos, mais ou menos, para passar as férias. Quando economizaram dinheiro suficiente, pedem a seus parentes na cidade que encontrem uma esposa para eles, ou então constroem uma casa “de zinco” nas terras da família. Não importa em que local da Nigéria estejam, sempre fundam ali uma filial local da União Progressista de Umuofia. Nas semanas anteriores, a União se reuniu diversas vezes para tratar do caso de Obi Okonkwo. Na primeira reunião, algumas pessoas manifestaram a opinião de que não havia nenhum motivo para a União se preocupar com problemas de um filho pródigo que demonstrara grande desrespeito por ela muito pouco tempo antes. [...]. Trecho da obra A paz dura pouco (Companhia das Letras, 2013), do escritor e crítico literário nigeriano Chinua Achebe (1930-2013), que conta o julgamento de Obi Okonkwo, acusado de aceitar uma propina de valor irrisório, e a escalada de eventos dramáticos e inescapáveis que o levaram ao tribunal. Veja mais aqui.

ALGUEM FALOU: BIBLIOTERAPIA – [...] além do prazer do texto, a leitura oferece ao leitor, por identificação, apropriação e projeção, a possibilidade de descobrir uma segurança material e econômica, uma segurança emocional, uma alternativa à realidade, uma catarse dos conflitos e da agressividade, uma segurança espiritual, um sentimento de pertença, a abertura a outras culturas, sentimentos de amor, comprometimento, superação das dificuldades, valores individuais e pessoais [...] toda a leitura implica um fenômeno de interpretação e a interpretação é, em si, uma terapia. [...] a tese central da biblioterapia é que o ser humano, como criação contínua e em movimento constante, encontra suas forças no processo narrativo-interpretativo da atividade da leitura. [...] para a biblioterapia, a identidade é um não lugar, ser humano é um ser de caminho, um homem em marcha. [...] a leitura é o encontro entre duas subjetividades, a do leitor e a do autor, que se enriquecem mutuamente. [...] a biblioterapia é primariamente uma filosofia existencial e uma filosofia do livro, que sublinha que o homem é um ser dotado de uma relação com o livro. [...]. Trechos extraídos da obra Biblioterapia (Loyola, 1996), do filósofo francês Marc-Alain Ouaknin. Veja mais aqui.

A MÚSICA DE LERA AUERBACH
Tive a sorte de ter alguns professores especiais que queriam compartilhar seus conhecimentos; portanto, grande parte da minha educação foi o 'currículo não oficial'. Isso incluía a música de Schoenberg, Webern e Stravinsky, que era considerado um bandido porque havia emigrado da União Soviética. Trabalho nessas diferentes formas de arte simultaneamente. Tentei várias vezes apenas o foco em uma disciplina, mas toda vez que o fazia, em primeiro lugar, ficava deprimida e, em segundo lugar, a qualidade do que eu estava concentrada não melhorava. De fato, pioraria.
LERA AUERBACH – A arte da premiada compositora, pianista e escritora russa Lera Auerbach, que continua a tradição de compositores virtuosos do piano, com uma música caracterizada pela liberdade estilística e pela justaposição de linguagens tonais e atonais. Veja mais aqui.

A ARTE DE EGON SCHIELE
Sou o mais nobre dos nobres, e o mais humilde dos humildes. Sou humano – amo a morte e amo a vida. O pintor também pode olhar. Ver, porém, é algo mais. Inibir o artista é um crime, é assassinar a vida antes de ela florescer! Tudo está morto vivo.

EGON SCHIELE – A arte do pintor austríaco ligado ao movimento expressionista. Egon Schiele (1890-1918), que teve convivência amorosa com a modelo de sua obra, Wally Neuzil, ocasião em que foi preso por desenhar uma jovem, Tatjana, julgado no tribunal distrital, em St. Pölten e acusado de rapto, de sedução de menor e de possessão negligente de material erótico, passou vinte e quatro dias preso. Em seguida, ao conhecer duas irmãs protestantes, Schiele casou-se com uma delas, Edith Harms (1860-1918), quatro dias antes de ser chamado para cumprir o serviço militar, em Praga. Devido a pandemia de gripe espanhola que matou mais de 20 milhões de vidas na Europa, Edith, grávida de seis meses, sucumbiu à doença e Schiele morreu apenas três dias depois. Ele tinha 28 anos. SOBRE A OBRA E A VIDA DE SCHIELE - Sobre sua obra, encontramos as publicações Egon Schiele's Portraits (New Edition Paperback, 2014), de Alessandra Comini; Egon Schiele: Narcisse écorché (Galimad, 2005), de Jean-Louis Gaillemin; Egon Schiele - the Radical Nude (Paul Holberton, 2014), de Peter Vergo, Gemma Blackshaw e Barnaby Wright; Schiele (Basic Art Series – Taschen, 2018), de Reinhard Steiner; Schiele (Taschen, 2007), de Wolfgang Georg Fischer; Egon Schiele: Erotic Sketches/Erotische Skizzen (Prestel, 2005); Egon Schiele: Drawings & Watercolours: Drawings and Watercolours Hardcover (Thames & Hudson, 2003), de Jane Kallir; Tod und Madchen: Egon Schiele und die Frauen (Boehlau Verlag 2009) de Hilde Berger; Egon Schiele: vida e obra (Könemann, 1999), de K. Artinger; e a dissertação de mestrado Identidade e expressão na obra gráfica de Egon Sschiele (Universidade de Lisboa, 2016), de Melania Alexandra Pereira Ribeiro. FILMES – Sobre sua vida e obra ainda encontrei o drama biográfico Egon Schiele - Exzesse/Egon Schiele: Excess and Punishment (1981), do diretor Herbert Vesely, e outro, o drama/ficção histórica Egon Schiele - Morte e Donzela (2016), dirigido Dieter Berner. Veja mais aqui e aqui

A OBRA DE MARGARET ATWOOD
Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco um sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra. Escrever é uma maneira de a voz sobreviver à pessoa. Uma palavra após uma palavra após uma palavra é poder.
A obra da premiadíssima escritora e crítica literária canadense Margaret Atwood aqui e aqui
&
BRINCARTE DO NITOLINO
As novidades do Brincarte do Nitolino com Algodão Doce & Poesia Infantil de Luciah Lopez, Contadores de Histórias, As aventuras de Lunna & muito mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quinta-feira, novembro 16, 2017

FROMM, CHINUA ACHEBE, MILLÔR, JORGE FORBES, PSICANÁLISE, VIV ROSSER, SENSO COMUM, ZÉ BESTÃO & JAQUEIRA

EITA, ZÉ BESTÃO! - Zé Bestão sempre foi besta demais, pense num cara broco de tão perdido, nossa! Não conheço ninguém tão desligado na vida, chega penso que ele não é deste mundo. Será? É que ele não leva nada no olho da maldade, seja marotagem, safadeza, ardis, qualquer dissimulação pra ele é tudo no muito normal, natural. Pois é, aprontam com ele de todo jeito, pintam e bordam, armam arapuca na maior cruzeta, pintam o sete pelas costas, mandam ver se estão na esquina e ele vai, preparam a cama de gato e ele cai toda vez, fazem dele portador de carta esculhambando destinatário e ele lá esperando resposta na hora embaixo do maior esculacho, fazem tramóia e culpam ele pela desgraça do meladeiro todo, cometem desatino e dizem que foi ele, roubam, melecam, traem, passam a perna, pintam miséria e, no final, colocam a culpa nele. E ele? Pode estar no calão, ah, nem aí, nem liga, como se nem fosse com ele, riso amarelo, cara lisa, no final assume tudo, põe-se a resolver como se realmente fosse ele próprio o responsável por todos os desatinos tramados. Parece que pra ele não aconteceu nada, pois encara tão normalmente a trapaça que mais parece coisa encomendada que ele já sabia e leva com tanto afinco como se fosse labor profissional. Dá pra imaginar? Já teve gente que chegou junto dele no amiudado e delatou tudo, deram-no ciência de que armaram tudo pra cima dele, que estão sacaneando com ele o tempo todo, que isso não é justo e que ele deve tomar uma providência e desancar todo mundo que anda goelando pra cima dele e ele com a cara mais santa do mundo, simplesmente diz: Eu sei, tô sabendo, sim, na maior, saquei tudo. E não vai fazer nada? Claro, ora, vou resolver tudinho. E não vai se vingar? Pra quê? Ora, eles merecem uma boa lição. Nada, eles estão apenas brincando comigo, na maior. Ah, mas estão sacaneando com você o tempo inteiro! Nada não, isso é normal. Normal caraca nenhuma, porra! Danou-se! Esse leva desacerto de todo jeito, até Zé-Corninho tira onda pra cima dele. Pode? Oxe, leva toque de arrodeio, passa batido, paga o pato, ora, e nem aí. Leva a maior dedada até tomar no cu e nem aí. Assim não. Nunca vi sujeito mais leso na vida. Todo mundo no bloco do eu sozinho pra cima dele e ele na maior solidariedade, hem hem, botam ele no front, bucha de canhão e pronto pro fuzilamento, fazem-no de otário meio dia em ponto, deixam-no quarando em pé por horas de quase secar os cambitos esperando pelo que nunca virá, maior bobo na roda, leva e traz de vai e volta todo dia e o dia todo, encarcam sem pena, só punhalada no toitiço, golpe baixo, desfeita às escondidas, trairagem suja, não sei como ele escapa, acho que Deus protege as crianças, os doidos, os bêbados e ele! Só pode, afinal de doido e bêbado ele tem tudo, mesmo abstêmio e são do juízo. Ô Zé Bestão, cê ta pensando em quando morrer ir pro céu é? Ah, é, isso mesmo, pelo menos, quando eu morrer vou direto pro paraíso, né não? Ah, é, claro que vai e como. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Les indes galantes, do compositor francês Jean-Pierre Rameau (1683-1764); Rapsody in blue de Gershwinm, The Chopin Project & Prelude in B minor de Rachmaninoff com a pianista russa Lola Astanova; Amores absurdos e show do cantor, compositor e arranjador Celso Viáfora; e Selvática, Longe de onde & Eu menti pra você da cantora, compositora, percussionista, poeta e atriz Karina Buhr. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O senso comum contém inumeráveis interpretações pré-científicas ou quase-científicas sobre a realidade cotidiana, que admite como certas. [...]. O método que julgamos o  mais conveniente para esclarecer os fundamentos do conhecimento na vida cotidiana é o da análise fenomenológica, método puramente descritivo, e como tal “empírico” mas não “científico”. [...] A análise fenomenológica da vida cotidiana, ou melhor, da experiência subjetiva da vida cotidiana, abstém-se de qualquer hipótese causal ou genética, assim como de afirmações relativas ao status ontológico dos fenômenos analisados. [...]. Trechos extraídos de A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento (Vozes, 1973), de Peter L. Berger & Thomas Luckmann. Veja mais aqui e aqui.

JAQUEIRA - O povoado surgiu a partir de um ponto de parada dos almocreves, que eram os homens que transportavam cargas em animais para abastecer de gêneros alimentícios, vestuário e outras mercadorias para povoados, vilas e cidades da região entre a localidade de Una (hoje Palmares) e Lagoa dos Gatos, que era um centro abastecedor. Tal parada devia-se a duas jaqueiras que ofereciam uma boa sombra e tornou-se ponto de encontro entre os almocreves, gerando um pequeno comércio no local. A partir daí, surgiram as primeiras residências, durante o século XIX. A estação ferroviária em Jaqueira foi inaugurada em 28 de setembro 1883, o que integrou a vila ao litoral em Recife. Pela ferrovia a cidade passou a ser abastecida, bem como era escoada a produção de açúcar das usinas da região. O distrito foi criado em 17 de dezembro de 1904, com o nome de colônia Isabel, subordinado ao município de Palmas. Em 1911, passa a denominar-se Jaqueira e mantida subordinada ao município de Palmares. Em 1933 passa à jurisdição do município de Maraial. O município foi criado em 28 de setembro de 1995 e instalado em 1 de janeiro de 1997. Veja mais aqui.

O FALSO GRANDE AMOR – [...] O caso mais freqüente e evidente de alienação talvez seja o do falso “grande amor”. Um home apaixona-se entusiasticamente por uma mulher; depois de ter correspondido a principio, ela é tomada de crescentes dúvidas e rompe a relação. Ele é assaltado por uma depressão que quase o leva ao suicídio. A vida deixa de ter sentido para ele. Conscientemente, explica a situação como um resultado lógico do que aconteceu. Acredita que pela primeira vez sentiu um amor real, que com aquela mulher e somente com ela poderia experimentar o amor e a felicidade. Se ela o deixa, não haverá nenhuma outra pessoa que possa despertar-lhe a mesma relação. Perdendo-a, acredita ter pedido sua única oportunidade de amar. Portanto, é melhor morrer. Embora tudo isso lhe pareça convincente, seus amigos podem fazer algumas perguntas: Por que um homem que até então parecia menos capaz de amar do que a pessoa média apaixona-se de forma tão completa que prefere morrer a viver sem ser amado? Por que, estando tão enamorado, se recusa a fazer concessões, a abrir mão de certas exigências que entram em choque com as exigências da mulher amada? Por que será que, ao falar de sua perda, ele fala principalmente de si, do que lhe aconteceu, e mostra um interesse relativamente pequeno pelos sentimentos da mulher que tanto ama? Se conversarmos com o infeliz homem mais demoradamente, não nos surpreenderemos ao ouvi-lo dizer, a certa altura, que se sente completamente vazio, tão vazio como se seu coração tivesse ficado com a namorada perdida. Se ele pudesse compreender o sentido dessa afirmação, perceberia que seu sofrimento é proveniente da alienação. Jamais foi capaz de amar ativamente, de deixar o circulo mágico de seu próprio ego, de exteriorizar-se e tornar-se uno com outro ser humano. O que fez foi transferir seu anseio de amor para a moça e sentir que com ela experimentava seu “amor”, quando na realidade experimentava apenas a ilusão de amar. Quanto mais ele transfere para ela seu anseio de amor, bem como de vida, felicidade, etc., tanto mais pobre se torna e mais vazio se sente, longe dela. Estava sob a ilusão de amar, quando na realidade transformara a mulher num ídolo, na deusa do amor, e acreditava que unindo-se a ela experimentava o amor. Fora capaz de despertar nela uma reação, mas não fora capaz de superar sua própria mudez interior. Perdê-la não é perder, como ele acredita, a pessoa a quem ama, perde-se como uma pessoa potencialmente amante. [...]. Trecho extraído da obra Meu encontro com Marx e Freud (Zahar, 1969), do filósofo, sociólogo e psicanalista alemão Erich Fromm (1900-1980). Veja mais aqui e aqui.

CULTURA, REPRESSÃO & SONHOS - [...] a repressão não destrói a representação dolorosa: mesma mantida em estado inconsciente, ela permanece ativa, tentando retornar ao sistema consciente. O resultado desse conflito, que envlve um verdadeiro jogo de forças, é a produção das chamadas formações do inconsciente: os sintomas, sonhos, lapsos (ou atos falhos) e chistes (piadas e ditos de espírito) que seria frutos de uma espécie de “negociação” entre os sistemas. As representações reprimidas podem vir a ser readmitidas na consciência (retorno do reprimido), contanto que passem por um processo de deformação que as tornem irreconhecíveis, deixando assim de despertar angustia no sujeito [...]. articular a vida psíquica individual com a vida social e os limites que esta impõe ao indivíduo, a começar pela interdição do incesto. Em nome das exigências culturais, a satisfação pulsional é grandemente cerceada, inclusive em seus aspectos agressivos e destrutivos. Embora indivíduos ganhem com isso a possibilidade de conviver em grupo, ressentem-se profundamente de tais renúncias. A cultura é, pois, construída sobre a base da repressão, o que faz com que o homem cultive uma hostilidade permanente contra ela. [...]. Trechos extraídos de Luzes e sombras: Freud e o advento da psicanálise, de Inês Loureiro, extraído da obra História da psicologia: rumos e percursos (Nau, 2005), organizado por Ana Maria Jacó-Vilela, Arthur Arruda Leal Ferreira e Francisco Teixeira Portugal. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O MUNDO SE DESPEDAÇA - [...] Até aquele momento, Okoye se expressara de maneira simples, mas a meia dúzia de frases seguintes tomou a forma de provérbios. Entre os ibos, a arte da conversação é tida em alto conceito, e os provérbios são o azeite de dendê com o qual as palavras são engolidas. Okoye era um grande conversador e falou durante muito tempo, dando voltas em torno do assunto até finalmente abordá‑lo. Em resumo, pedia a Unoka que lhe devolvesse os duzentos cauris que lhe emprestara havia mais de dois anos. Tão logo este percebeu aonde o amigo queria chegar, estourou em gargalhadas. Riu alto, durante muito tempo, de modo claro como o agogô, e tinha lágrimas nos olhos. O visitante, espantado, continuou sentado, sem fala. Afinal, Unoka conseguiu dar‑lhe uma resposta, entremeada de novas explosões de riso. [...]. Trecho extraído de O mundo se despedaça (Companhia das Letras, 2009), do escritor e crítico literário nigeriano Chinua Achebe (1930-2013). Veja mais aqui.

NOVIDADE, SÓ A PRIMEIRA (À VANGUARDA QUE SE CRÊ VANGUARDA) - Garanto: / o primeiro poeta que rimou / foi um espanto! / Mais, muito mais, / Meu irmão, / do que o primeiro / que não. Poema extraído do livro Poemas (L&PM, 1984), do desenhista, humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (1923-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

O SILÊNCIO DAS GERAÇÕES, DE JORGE FORBES
Ex-ergo: O pai matou o filhinho; a filhinha matou o pai e a mãe; o aluno incendiou a escola; a senhora se suicidou. E todos pareciam tão sadios, iguais a toda gente! Está todo mundo perdido: maior que o medo, é o suspense. Surgem calmantes de ocasião, sempre três: psicose, moral e possessão. Voltam o chicote, as lições de moral e cívica e o ato de contrição. Um mundo reacionário se anuncia e Bush, no círculo oval de seu pensamento, reedita as peripécias do grande ditador. Oh tempos, oh costumes! O pai refestelado em sua poltrona de domingo, acabou de ouvir fantásticas explicações sobre o mundo atual. Eram três especialistas em comportamento, concordantes com a necessidade de voltar à velha disciplina: “educação se dá em casa e chinelo e palmatória não deviam estar aposentados”. Ele está mais tranqüilo; nem dormia mais direito, com medo de ser assassinado. Chegou a pensar que se existem nos aeroportos detectores de metais, como não descobriram ainda os detectores de “mentais”? Seu sonho de segurança tinha ficado abalado com aquela psiquiatra esfaqueada pela filha. – “Como é que não previu? Não era psiquiatra? Santo de casa não faz milagre”, reconfortou-se. Três dias depois, Mariana, coordenadora do Padre Félix, colégio de classe média alta dos Jardins, constata boquiaberta que mais de cinqüenta por cento dos meninos chegaram ao colégio com rosto macerado: apanharam em casa. Corre a seu supervisor – “Há um silêncio entre as gerações”, diz ele, que está difícil de ser assimilado. Não há uma só educação padrão, standard, logo, o que há são educações, no plural. E se há educações há que se escolher. Preferir uma ou outra é opção pessoal. Não há uma razão para que seja essa e não aquela. É um querer mais que um saber, e o querer não se compreende totalmente, é arbitrário. Confundem arbitrário com abuso de poder e, no entanto, arbitrário só diz daquilo que não se demonstra pela dedução. Sim, meu filho, essa é a minha opção. É claro que existem outras formas. Melhores? Não sei, pode ser, mas essa é a minha e eu sou seu pai, eu sou sua mãe. Você vai mudar de casa? Não adiantará, as opções mudam mas não o arbitrário, o silêncio da razão. Pais detestam falar assim pois invariavelmente, o filho vai dizer: “Eu não gosto de você”. Ai! Nem pai, nem professor suportam esse “eu não gosto de você”. Tratam de falar manso, buscar explicações, convencimentos, concordâncias e o que melhor conseguem é transmitir que tudo se explica, que não há limite à razão. E o filho, proibido de dizer “eu não gosto de você” vai se encharcando na angústia do ilimitado: bateu um carro? Dou outro. Perdeu um ano? Ganhou maturidade. Matou um índio? Te absolvo. Eu te compreendo em qualquer coisa, meu filho. E o filho da compreensão ilimitada se tatua: uma fronteira no corpo: se bate: um limite à expansão; mata, se droga, se mata. Não mamãe e papai, nem compreensão geral, nem palmatória. Se há uma herança digna da paternidade é a de que nem tudo se explica, não porque não se queira mas, simplesmente, por ser impossível. É, meu filho, tem um silêncio entre nós dois, a ponte da palavra não nos contém. Vamos nos perder? Pode ser que não, sobre esse silêncio podemos inventar. Teve um Drummond que de uma pedra no meio do caminho, em vez de jogá-la no outro, poetou. Teve um Chico e um Milton que cantaram uma coisa que não tem nome nem nunca terá. O limite da palavra é a invenção, é só poder suportar: melhor esse risco que a desgraça razoável. Meu filho, senta aqui, não nos compreendemos, e daí? Pôr do sol, mergulho em Fernando de Noronha, brigadeiro, beijo, avião decolando, chuva na mata, precisa de explicação? Tem tanta boa coisa no silêncio. PSIU!
Extraído da obra Você quer o que deseja? (Best Seller, 2004), do médico psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Viv Rosser.
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MARGARET ATWOOD, IMAN MERSAL, DAVID JULIUS & MIKAELA GOMES

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Gesta equestre de baixo pra cima... - Relinchos na madrugada: Que é isso? Ruidoso trote apressado no asfal...