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quarta-feira, dezembro 09, 2020

CLARICE LISPECTOR, FRANCISCO NIEVA, PETRA COLLINS & LÍVIA FALCÃO


  

TRÍPTICO DQC: JANELINVENÇÃO, O SEGREDO DOS SONHOS - Ao som de Un dia de noviembre, de Leo Brouwer. – Vitalina trouxe da infância todos os medos: de papafigo a bicho-papão, da perna-cabeluda aos monstros embaixo da cama, sacis, gnomos e duendes. Isso afora a mãe: Não faça isso que o bicho vai lhe pegar! O pai: a La Ursa vai lhe levar, maluvida! Avós, parentes e aderentes: Deus vai lhe castigar sua traquina! Daí cresceu com medo de tudo: de altura, de ficar sozinha, de escuridão, de espelhos, de fechar o olho ao tomar banho, de trovões e relâmpagos, de neblinas ou sombras e réstias; de fantasmas e de carecas; de baratas e outros tantos insetos e besouros; de ventríloquos e manequins, de bonecos feios, de palhaços, de atravessar pontes, de pensar e ficar doida, de pecar e ficar mal falada, de ter sonhos ruins, de mergulhar em rio ou mar e ser devorada por um tubarão ou jacaré; de quem já morreu, das estrelas caírem do céu, da Terra despencar no abismo, de todo tipo de doença, de ser enterrada viva, de perder a virgindade e uma mania de perseguição de que seria estuprada pela ruindade de um velho estranho ou um maconheiro safado e desalmado, enfim, tinha pânico de qualquer coisa que não estivesse na sua zona de conforto. Para se precaver, tinha remédio para tudo: comprimido pra isso, cachete praquilo, drágeas praquiloutro, batesse a ansiedade ou depressão, qualquer mal-estar e já se automedicava, batendo o punho fechado três vezes na madeira e se benzendo mais de dez vezes com rezas de Pai-nosso, Creio-em-Deus-Pai e Ave-Maria. Era peculiar uma tremedeira de gasguita, mas a qualquer alerta de cuidado, ela: Ué, sou prevenida e saudável, oxente! E a parentalha, pelas costas, só nos cochichos: Coitado do Tomé! Nada, é outro esquisitão, Deus fez, o diabo ajuntou. Quem a visse dava logo por uma desequilibrada. Há quem dissesse que era uma quejuda porque a castidade encruou no quengo e deixou-la uma mal-amada sujeita a paroxismos inusitados. Dizem: Inda bem que casou, imagino e desmantelo de um casal tão temperante, avalie. Com o converseiro, dei as costas e voltei para a janela. Lá estava Clarice Lispector em riste: O que uma pessoa diz a outra? Fora 'como vai?' Se desse a loucura da franqueza, que diriam as pessoas às outras? A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente. Não tenha medo de meu silêncio... Sou uma louca mas guiada dentro de mim por uma espécie de grande sábio. Quero que tudo seja intenso, exagerado e louco. Porque só assim fico satisfeita! Dar a cara à tapa! Ser louca, estranha, chata! Eu sou assim. Ah, Clarice, sempre duvidei da minha sanidade mental, principalmente agora, diante dos seus olhos.

 


TARTARUGAS, CREPÚSCULO E CORTINA – Ao som de Cantora de Yala, do álbum Junjo (2006), da contrabaixista e cantora estadunidense Esperanza Spalding. - Ela me levou para um teatro imenso. Era a minha primeira vez naquele local e muitas pessoas iam e viam, me cumprimentavam e eu a espera dela que me deixou ali de mão abanando. Virei a atenção para o ensaio de Tórtolas, crepúsculo y ... telón (Escelicer, 1972) porque o autor, o premiado dramaturgo espanhol, Francisco Nieva (1924-2016), apareceu explicando aos atores e atrizes no palco e na plateia: Sob o pretexto de manter uma quarentena, forçado pela propagação de um desconhecido vírus, uma companhia de teatro é sequestrada no próprio coliseu, onde tem que agir, sujeitá-lo - como ratos de laboratório - para experimentos cruéis, cujo objetivo é revolucionar e renovar o mundo da cena, até mesmo agindo e comportamento do público. Os incidentes que marcam esta situação são numerosas e adquirem diferentes ou seja, até terminar em uma espécie de festa, Dionisíaco e caótico, celebrando a próprio existência do teatro. Depois ele desceu do palco, cumprimentou alguns sentados na plateia e, em seguida, veio ao meu encontro e me falou: O teatro é uma vida alucinante e intensa. Não é o mundo, nem manifestação à luz do sol, nem comunicação a vozes da realidade prática. É uma cerimônia ilegal um crime voluntário e impune. É alteração e disfarce: Atores e público usam máscaras, maquiagens, eles usam fantasias diferentes... ou eles vão nus. Ninguém se conhece, todos são diferentes, todos são "os outros", todos são intérpretes do coven. O teatro é uma tentação sempre renovada, canto, choro, arrependimento, complacência e martírio. É a grande cerca orgiástica sem evasão; É o outro mundo, a outra vida o além de nossa consciência. É remédio secreto feitiçaria, alquimia do espirito, fúria jubilosa sem trégua. Fiquei admirado por ter tido contato com o seu teatro, aquela que já foi denominado tanto de furioso, como de farsa e calamidade, ou de crônica e selo. Ele me sorriu e saiu.

 


TRÊS PARA AS SEIS - Imagem: A arte da fotógrafa, modelo e artista canadense Petra Collins, ao som de Lacrimae, do compositor e alaudista britânico John Dowland (1563-1626), na interpretação do premiado musicólogo, professor, luthier e performer Christopher Morrongiello. - Ela retornou e era Nelly Sachs: Uma porta é uma faca: ela divide o mundo em duas partes. E me puxou apressada para saída do teatro, descendo a escadaria e seguindo pela descida da margem de um rio. Não é para irmos para lá? Não. E mais se aproximada das águas no íngreme declive até à beira. Que rio é este? O seu. O Una? Sim. Nunca o vi assim. E virou-se encarando-me e citando Jorge Semprún: Senti com a força do meu sangue que circulava rapidamente que minha morte não roubaria esta árvore de sua beleza irradiante, apenas roubaria o mundo de meu olhar. Olhei atrás de mim e havia sim uma árvore jamais vista. Venha, quero amar você e ser batizada neste rio secular! Seguiu saltitante por entre as pedras, e se despiu para mergulhar nas águas rasas. Vem! Ao sentir meu corpo no seu, disse-me Pierre Louÿs: Ninguém ainda afirmou que possuir o que desejamos é felicidade, ou prazer, ou bem-estar ou apenas equilíbrio. E beijou-me intensamente e me recitou Emily Dickinson: Tudo o que sabemos do amor, é que o amor é tudo que existe. E esqueci as dores do mundo. Ainda disse-me: O que você quer e o que você precisa: poesia no seu dia-a-dia. E amamos à noite alagados de prazer. Até mais ver.

 

A ARTE DE LÍVIA FALCÃO

A arte da atriz Lívia Falcão, que iniciou sua carreira no teatro e foi premiada como atriz revelação por sua atuação na peça A cantora careca, ainda adolescente, aos 17 anos de idade. Depois atuou em peças teatrais como Caetana, Mamãe Não Pode Saber, Lisbela e o Prisioneiro, e A Máquina, entre outros espetáculos. Em 1986 foi premiada com o monólogo Criadas da Glória, de João Falcão, no I Festival Nacional de Humor. Enveredou posteriormente pelo cinema atuando em vários longas-metragens e, também, pela televisão, atuando em novelas. Veja mais aqui e aqui.

 



segunda-feira, abril 22, 2019

LYGIA FAGUNDES TELLES, HILDA HILST, LEO BROUWER, MAURIZIO BARRACO & EPÍSTOLA SOLITÁRIA


EPÍSTOLA SOLITÁRIA – Olha a dida, 1 real! Não era isso, só personagem. Vestiu-se da bermuda vermelha, suspensórios, blusa branca de algodão, meião e sapatilha, boné, foi pro mundo, carregado. A máscara, a própria face nua: fisionomia do desassossego, premência da vida. Um curioso: Tem de quê? Morango, cajá, coco, sabores... O sonho de escritor distante, talento algum entre frases desconexas. Cometia versos esdrúxulos, enchia o peito entoando dores: voz estival no negrume invernoso: erros de alvo, talhos da alma. Suportava o escárnio, miséria calamitosa e suicida. Olha a dida, 1 real! Hem? Graviola, araçá, mangaba... O calor capaz de degelar tudo, até seu coração de rio. Também sangrava no mormaço, arrastando os ferros da chacota entre centavos e engulhos, cuspe escasso na consideração. Tem esfirra? Cavaco? Lágrimas no picolé. Gente, muita gente, 2 para 500, ofertas, liquidações, jogo, chamamentos, toldas, parques de diversão, praça entulhada de rostos vazios, duas de quinhentos no pátio da igreja, músicas de radiola de fichas, o cabaré do meio dia. Arrodeava, as ruas cheias de pernas. Fim da tarde, a mão alisa o queixo, vergonha é coisa sem vigência. Não havia lenda na situação tão sisuda. Ao banheiro, porta aberta, entrou, a micção. Pronto, novo fôlego, higiene pessoal, o trinco, cadê? Mãos molhadas, nenhum ferrolho, maçaneta, trancado. E agora? Sábado, todo mundo já largou, 36 horas de espera, a fome, a sede, pensando, o passado envelhecido, ressentimentos redivivos, frustrações, mágoas, fazer o quê? Só faltava essa! As didas que sobraram dava para molhar o bico pela noite, outro dia inteiro, domingo mais sem jeito, mais uma noite longa, madrugada infinda, amanhecer vazio. E se a segunda fosse feriado? Faça isso não! A sorte por um triz. Nenhuma dida, a pia, o espaço da cela, o estuque de mármore, a água do vaso sanitário, o buraco do chuveiro tapado com um toco de madeira, o chão frio, o calor de lascar: Vou morrer, ninguém dará conta. Pagar todos os meus pecados: Quem mandou errar tanto na vida? Bem empregado. Esperar, esperança longínqua. Vozes. Tem alguém aí? Tem. Vai demorar? Estou preso! E beibeibei, pesadas, pé de cabra, arrombamento. Finalmente, o alivio, o frio do mundo se libertara. E ele, com tanta gente, sitiado exangue na sua solidão. Era só voltar para casa, dar conta do sumiço, aguentar o resto de vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Então ressoaram os passos dele num andar atribulado. A chave deu uma volta quase completa na fechadura. A maçaneta preta girou. Ficamos um defronte do outro. Ele estava mais magro, a barba crescida. Os olhos tinham um brilho de febre. [...] Debruçou-se na mesa, apanhei um lápis e comecei a desenhar distraidamente numa folha que tinha um borrão de tinta. Como dizer-lhe que ele também representava? E tão mal. Decorara o papel e agarrava-se a ele sem talento, sem vocação. O que aconteceria quando descobrisse que a solução era rasga-lo? [...] Limpei na saia as palmas úmidas das mãos. Só porque não era proibido? Quis perguntar-lhe. Tirei os sapatos. [...] Sorri para mim mesmo. Não? Se o amava, estava condenada. Se não o amava, estava condenado ao castigo maior de viver sem amor. Não havia mesmo por onde escapar. Ajoelhei-me diante dele. [...] Tomei-lhe as mãos. E vi no seu pulso uma cicatriz de bordas franzidas como uma boca que se nega a falar. [...].
Trechos extraídos do romance Verão no aquário (Presença, 2006), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.  

A MÚSICA DE LEO BOUWER
A música do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista visual italiano Maurizio Barraco
Veja mais aqui, aquiaqui.
&
A OBRA DE HILDA HILST
Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas
escomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te
sôfrega
Como se fosses morrer colado à
minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do
amanhecer.
A obra da poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst (1930-2004) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


segunda-feira, abril 02, 2018

BORGES, RICHARD HOGGART, JOSÉ DUDA DO ZUMBI, MARCELO COUTINHO, LEO BROUWER & MARLUI MIRANDA

MOER A ESCURIDÃO - Imagem: arte do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho. - Os olhos no escuro, a distância de nada existir, acho, apenas a chuva, chiados na noite, o silêncio do resto. Em algum lugar estava, não sei onde, apenas vivo, mais nada. Se havia desembarcado, não havia ninguém, nem sei de onde vim, o que estou fazendo aqui, nem para onde vou. Parecia-me um triz, espaço sem tempo, vórtice paralisado. Na verdade, se era vida ou sonho, ignorava. Sei que um coração pulsava nalgum lugar, vivia-o, isso sim. Não havia simetria, equilíbrio não há, nem podia, harmonizo o caos em mim, noitedia, mortevida, amanhojontem. Era ermo, só restava o delírio de inventar o inexistente com zis perguntas, e entre a vigília e a vertigem nenhuma resposta na insônia do imponderável. Voo ao antes: à face da natureza coberta de trevas. E ouço uma voz perdida, alguém me chama, viro-me e identifico apenas sua silhueta diáfana. Duvido, talvez reinventando a mim mesmo. Giro e ao redor assimilo alguém insinuando falar o incompreensível, como se palíndromos repetidos e quase me levando a entender ser Raar e que sou Arra e não sei de mim, ainda não sou, ou nunca deveria ter sido. Nem sei quem age e quem vê, uma semente germinada, apenas, ou talvez eu-outro, outridade. Esfrego os olhos, quase nada vejo, sinto. Percebo que gesticula mansa e suavemente, fala como um canto, mantras do porvir, parecia, no encontro do incomunicável. Aos poucos sua presença se torna mais nítida, os olhos vivos e ternos, as mãos espalmadas como um convite ao calor do abraço na rosa cálida emergente do seu coração. Hesitantes, titubeamos um pouco até o abraço que me envolveu inteiro. Abraçamos-nos novamente e o seu sorriso amanheceu tudo ao redor. Mostrou-me a Terra escorrendo entre os dedos, o Ar alisando nossas faces, a Água corrente lavando nossos pés, e o Fogo formando um círculo com labaredas saudando o Sol. Estendeu-me uma das mãos sem que lhe distinguisse a voz e deu-me um pergaminho, pareceu-me, à primeira vista, a versão de Alcuíno do livro de Jasher. Passei as vistas e tentei indagar quantas vezes havia acontecido e se repetira? Deu de ombros, pouco importa, nem sei se entendeu o que eu disse. Alma e ser desnudos, recitava repetidamente: arra olo raar, raar olo arra, arraraar. E no abraço, a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer: La obra guitarristica 1 e 3 & de Bach aos Beatles; da compositora, cantora e pesquisadora da cultura indígena brasileira, Marlui Miranda: IHU Todos os sons, Fala de bicho, fala de gente & Rio acima; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAFui moço, hoje estou velho! / Pois o tempo tudo muda! / Já fui um dos cantadores / chamado Deus nos acuda... / Este que estão vendo aqui / foi Zé Duda do Zumbi! / Hoje Zumbi do Zé Duda! Poema de sete pés do poeta popular segipano, Mestre José Duda do Zumbi (José Galdino da Silva Duda – 1866-1931).

VIDA REAL & COISAS DE HOJE EM DIA - [...] O fato de tudo isto não ter ainda exercido um efeito mais deplorável sobre a vida das pessoas deve-se à capacidade que elas têm de viver em compartimentos estanques — e é este um dos pontos que sublinho no meu ensaio - de manter uma separação entre a vida do lar e a vida exterior, entre a vida ‘real’ e a vida no mundo das diversões. ‘Faz-nos pensar noutras coisas’; ‘Distrai, é uma diversão’. Enquanto se distraem com essas coisas, as pessoas podem identificar-se com elas; mas no fundo sabem que não são coisas ‘reais’; a vida ‘real’ é outra coisa [...] Esta dieta regular, constante e quase exclusiva de sensacionalismo incorpóreo contribui para que aqueles que a consomem se tornem incapazes de encarar a vida de frente e de forma responsável, e ainda para despertar nos leitores a sensação de que a vida não tem qualquer objetivo, para além da satisfação de alguns apetites imediatos. Essas almas que não tiveram oportunidade para desabrochar continuarão fechadas, viradas para dentro, olhando ‘com olhos vazios, semelhantes a janelas escancaradas’ para um mundo que é em grande medida uma fantasmagoria de espetáculos transitórios e de estímulos falsificados. O fato de não ser essa hoje em dia a situação de todos os membros das classes trabalhadoras, deve-se à capacidade de resistência que caracteriza o espírito humano; resistência no sentido do reconhecimento de que há outras coisas que são importantes e que contam, se bem que esse sentimento nem sempre seja consciente [...] Trechos extraídos da obra As utilizações da cultura: aspectos da vida da classe trabalhadora, com especiais referenciais a publicações e divertimentos – Vol. 2 (Presença, 1973), do sociólogo e crítico literário britânico Richard Hoggart (1918-2014).

AS RUÍNAS CIRCULARES – [...] No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou. [...]. Em geral, eram-lhe felizes os dias; ao fechar os olhos pensava: Agora estarei com meu filho. Ou, mais raramente: O filhe que gerei me espera e não existirá se eu não for. [...] Percebia com certa palidez os sons e formas do universo: o filho ausente se nutria dessas diminuições de sua alma. O proposito de sua vida fora atingido; o homem persistiu numa espécie de êxtase. [...] Temeu que seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de alguma maneira sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa simples confusão ou felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado estranha por estranha e traço por traço, em mil e umas noites secretas. [...] Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram, e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando. Trechos de As ruinas circulares, extraído de Ficções (Globo, 1976), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui.

ELE MOIA A ESCURIDÃO – [...] Arra olo raar - arra. pron. pess. da 1ª pessoa singular. 1. algo de funcionamento intenso destinado a reter e reconduzir as várias retenções e reconduções vindas de outros algos. 2. algo que balbucia através de outro algo que também balbucia. 3. algo que é fruto de uma matriz perdida, e que, por sua vez, será uma matriz perdida para outro algo. [...] olo. prep. 1. Partícula gramatical usada para pôr em movimento de devir palavras e outros fragmentos da língua. Quando juntas a esta preposição, verbos, adjetivos, pronomes, adverbios passam a ter seus sentidos desfeitos para tornarem-se, junto com o que se unem, uma terceira coisa. 2. Para além de um elemento conectivo puro, olo destitui de sentido particular os termos gramaticais envolvidos em uma sentença para fazer surgir uma terceiro sentido. Diz-se p. ex. “arra olo raar”, “mavio olo africo”, etc. [...] raar. pron. pess. da 2ª pessoa singular. 1. Enodamento fibroso geralmente momentâneo, cujas inúmeras fibras organizam-se em forma de bola, postado um palmo abaixo do pescoço, mais precisamente entre os dois mamilos. Este enodamento ganha a forma de inúmeros brotos que estendem-se por entre os membros, cabeça, nuca e genitália, ultrapassando a epiderme em busca de floração. 2. Elemento que instaura a ligação orgânica entre duas temporalidades, lançando sobre a presente uma suspensão e sobre a futura um chamado inexato. [...] 13.12.2002 – Acredito que a arte não pode tomar o lugar de centro organizador da vida de uma pessoa. Acho, ao contrário, que o centro deve ser a vida. Ou ainda, usando o infinitivo, o viver. E nas periferias, orbitando em torno do viver, o resto. Esta centralidade da arte me incomoda muito. Acho, por exemplo, que as relações humanas são muito mais importantes do que uma obra de arte. [...]. Trechos extraídos de Ele moía a escuridão (Santander Cultural, 2012), da exposição realizada entre 15 de agosto a 30 de setembro de 2012, do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho.

A ARTE DE MARCELO COUTINHO
A arte do do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho, que trabalha com várias linguagens, de performance à instalações e intervenções em paisagens. É autor de Antão, O Insone (Documento Areal/Zouk, 2008) e Isso (Documento Areal/Confraria do Vento, 2016). As imagens foram extraídas da exposição Ele moía a escuridão (Santander Cultural, 2012).

  


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica & visucal Cyane Pacheco. Veja mais aqui & aqui & muito mais na Agenda aqui.
&
O Doro e a maldição do Pinóquio, a literatura de Nikolai Gogol, a música de Tori Amos & Gracy Gausmann, a arte de Georges Lévis & a pintura de Roberto Ferri aqui.

terça-feira, outubro 31, 2017

KEATS, ANA PAULA TAVARES, ELIANE POTIGUARA, PINTANDO NA BIBLIOTECA & CANHOTINHO

CONTANDO HISTÓRIA – Um dia lá desses de tempos eleitorais, Zé Peiúdo armando das suas, resolveu partir com tudo pra cima de Zé-Corninho, numa campanha difamatória daquelas de arrasar a reputação, os antepassados, a vida pregressa e os álbuns de fotografias e das lembranças, não sobrando nadinha da dignidade nem fiapo que fosse do restinho de respeito, tudo melecado na maior das baixarias. Como diziam os desafetos: o cara arriou a lenha pra cima do gaiúdo de não deixar nem os cambitos em pé, enterrado e lascado de todo. Não satisfeito, o detrator deu de caprichar ainda mais nas diversas formas de difamação, angariando plateia só pra ver o estrupício meter a ripa nos costados do coitado. O negócio empenou quando o infame algoz contratou a peso de ouro um plumitivo metido a orador que sapecava uns textos para lá de rebuscados, descascando a moral do opositor, misturando dizeres com ofensas cabeludas daquelas de arrepiar até o capeta. Logo Zé Peiúdo se danava a decorar frases e sentenças, a ponto de na horagá misturar as bolas, os alhos, olhos e bugalhos, de se enrolar todo pra no final baixar o calão. Pronto. Quando não dava na maior embrulhada, findava dando mesmo pra risadagens. A cada discurso dava um nó na língua de quase não conseguir balbuciar mais nada. Foi aí que o tirocínio entrou em cena: melhor mesmo era botar o dito orador pra sapecar as ripadas pra valer, aí sim, ia valer no sério e vingar de vez. Assim foi. Babaovice na área, Zé Peiúdo exaltou-se e anunciou o testemunho que ia descascar a alma sebosa do Zé-Corninho, e num puxavanque trouxe a figura pra cena com o seu depoimento bombástico. No começo ele pegou leve com uns remoques bastantemente incisivos, caindo numa discurseira exaltada daquelas de estremecer até as estrelas do céu, ninguém entendendo nada: que língua é essa que o orador está falando, hem? Quem lá sabia! O cara aos autoelogios, informando uma a uma das suas titulações, pós-graduações, serviços prestados – Zé Peiúdo na dele só ruminando: Esse cara quer aparecer mais que eu, é? -, participação em academais, colegiados, clubes de serviços, associações literárias e científicas, quando Zé Peiúdo cutucou cochichando: Vamos aprumar a conversa nos safanões contra o sujeito! Mais virou-se na capota choca, saiu criticando a gestão pública, os chatos de galochas, os mata-burros, os catombos da estrada, os esgotos a céu aberto, o papagaio do pirata, a bosta do cavalo do bandido, os filhos-da-peste, os ingrizientos, os bajuladores e, quando não tinha mais de quem falar, meteu as catanas dos desaforos no próprio Zé Peiúdo: Está vendo esse homem, este aqui, este mesmo, o Zé Peiúdo, é o maior filho da puta da paríquia e quem for corno é que vota nele! Tenho dito! Aí o pau cantou, foi tabefe no maluvido até umas horas. Depois de muita munhecada na lata do sujeito, Zé Peiúdo virou-se pros presentes e gritou: Comigo é assim, cagou fora do caco ou abriu da vela, é corretivo no pé do maluvido pra aprender é pau pra lamber sabão e cacete pra saber que sabão não se lambe! Tenho dito. O resto vocês já sabem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música da violinista Elisa Fukuda: Sonata para violino & piano Debussy, Sonata em sol maior Beethoven & Brandeburg Concert Bach; a arte musical do Duo Fênix – dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer; Cuban Guitar 1 e 3 e de Bach aos Beatles; do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer; e o JazzWoche Burghausen com as canções Dindi de Jobim e Rio de Maio de Ivan Lins, da cantora estadunidense Jane Monheit, com participação de Johnny Mathis & Ivan Lins. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O único meio de fortalecer o intelecto é não ter uma opinião rígida sobre nada – deixar a mente ser uma estrada aberta a todos os pensamentos. Pensamento do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CANHOTINHO - Faixa situada na área de ação dos quilombos palmarinos, Canhotinho teve seu povoamento retardado – datando, possivelmente, de fins do séc. XVIII -, de formação assim, relativamente recente. Nada obstante, porém, marcadas por este traço de quase contemporaneidade, são origens nebulosas, dificultando o esforço esclarecedor dos analistas e pesquisadores, ante a carência de dados capazes de fixar roteiros válidos que permitam deslindar a meada. [...] quase infinitesimal da mesma sesmaria de 1671 [...] para ser explorada diretamente e com exclusividade e daí ter o proprietário operado nos diástoles, dividindo-a em vários sítios autônomos – Murici, Pestana, Limão, Palmeira, Muquem, etc. – alienados a terceiros, ficando apenas, com o das Tabocas e o do Canhoto, onde teria fixado, construindo, ali, como dos costumes, uma capelinha, dedicada a São Sebastião. [...] Até os meados de 1800, porém, o Canhoto – nome insistamos resultante do sitio que atravessava a região ou, aceitando-se a tradição divulgada por Pereira da Costa, do apelido do proprietário – seria simples “sítio! Ou fazenda – também vulgarmente chamada Volta, em razão da curva da corrente fluvial, tributária do Mundaú, em Alagoas, restando em abono deste ponto de vista, elemento comprobatório de peso. [...] não falando mais em sítio, mas em povoação da Volta, da Volta do Canhoto, e, nos fins do século, Canhotinho. [...]. Trechos extraídos da obra Canhotinho: notas sobre suas origens e evolução política (CEHM, 1982), do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984). Veja mais aqui e aqui.

METADE CARA, METADE MÁSCARA – [...] No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos. [...] Trecho extraído da obra Metade cara, metade máscara (Global, 2004), da escritora, professora, ativista e empreendedora indígena Eliane Potiguara. Veja mais aqui.

EX-VOTO - No meu altar de pedra / arde um fogo antigo / estão dispostas por ordem / as oferendas / neste altar sagrado / o que disponho / não é vinho nem pão / nem flores raras do deserto / neste altar o que está exposto / é meu corpo de rapariga tatuado / neste altar de paus e de pedras / que aquí vês vale como oferenda / meu corpo de tacula / meu melhor penteado de missangas. Poema extraído da obra O lago da lua (Caminho, 1998), da poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares. Veja mais aqui.

LUCIAH LOPES & A RESISTÊNCIA DOS VERSOS
Com a poeta Luciah Lopes no lançamento do livro A resistência dos versos de Zé Ripe. Veja mais aqui.

Veja mais:
Zé Peiúdo & Zé Corninho aqui.
A poesia de Carlos Drummond de Andrade aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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Agenda de Eventos aqui.

EXPOSIÇÃO PINTANDO NA PRAÇA
Recepcionando a estudantada durante a exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, com o poeta e artista plástico Paulo Profeta. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...