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segunda-feira, fevereiro 19, 2018

FEUERSTEIN, QUINTANA, GALSWORTHY, GIOSUÈ CARDUCCI, JORGE ANDRADE, NELSON AYRES, ELISA FUKUDA & TCHELLO D’BARROS

EXERCÍCIOS EXPERIMENTAIS DE ESBOÇOS NADA A VER – Imagem: Sim ou não (2009), do escritor e artista visual Tchello d’Barros. - UMA: ENTRE PARÊNTESES - Uma coisa é sonhar acordado quando o dia amanhece; outra é não saber nada do que fazer diante do fato de que tudo agora não faz o menor sentido. É a vida. As pessoas em redor, passam pensativas ou emocionalmente abaladas, pra onde vão, não sei, erram de si, lembram e esquecem. Eis-me aqui como se tudo fizesse para um melhor amanhã comece a partir de agora, neste momento, enquanto, na verdade, todos se encontram refugiados em um dia qualquer do passado. Não perdi as esperanças, só as rememorações. De fato, eis-me aqui, na rua e perdido como qualquer um, com minhas solas e unhas em dia, indefeso, talvez, ignoro o próximo instante. De fato, em termos inacabáveis, em processo, o desconfortável é mais que gigantesco para eu me perder entre tentativas de erros e acertos. Então, para quê compreender, sinto e isso basta! Isso não quer dizer que eu seja indiferente às contradições, sofro com as injustiças e tento fazer a minha parte, revendo minhas quedas, tentando evitar outras, não estou isento de responsabilidade. O que sei é que o fracasso da humanidade é uma tragicomédia. E me rio, até de mim mesmo, como se estivesse no fim do mundo, embriagado com seus belos amanheceres e crepúsculos, fartas aprendizagens. Vou pro que será. E se era ou não era, não esqueço que ainda um dia eu vou morrer, claro, sou como um náufrago desamparado, mas quem não é neste louco e vasto mundo com seus cheiros de esquisitice, encantos e espantos. Ouço bem as ladainhas das pessoas dorminhocas sobre sonhos de prosperidade com seus fantasmas cobrando o que devem. A escuridão não distingue vivos ou mortos, eu mesmo não sei como salvar a minha própria pele: a vida pendurada no arame do varal. Estar vivo é correr risco, fazer escolhas. Eu sei e se der, redivivo, faço amor com a Terra para exorcizar a loucura na chama das velas acesas nos candelabros, quando as sombras e os invisíveis são íntimos. Ah, Bachelard, tantos estilhaços, muitas imundícies, heranças no chão: a noite é alimária selvagem que me conduz atento, mãos às rédeas voo pelo absurdo da existência. DUAS: CRIANÇA ABANDONADA - Valdevinicio catava louco noitedia pela presença voluptuosa de Catalinivea. Errava dela, desencontros persistentes. Urdia convergência, um dia daria certo, com certeza. E deu, quando menos esperava. Ela lá, inteira, elegante e solícita: um sonho de consumo pras suas garras. Chegou a sua vez, investiu pesado. Dali para o que ele queria era um passo. Para ela, nem tanto, desconhecia, talvez, as intenções num encontro fortuito, pagou pra ver, nada demais. Desse encontro pro jantar, local discreto, às escuras, uns goles, ela indefesa suspirava entre confissões e afinidades, segredos revelados; toques acidentais de pele, outros goles, o mundo roda na cabeça, gracejos e intimidades, mão na mão, e agora? Tá bom. Mais um pouco. Amanhã... A noite é uma criança. Goles, papos e tragadas. Nada demais pra meter a cara, provar da surpresa, o gosto do imprevisível. A vida gira na taça de vinho. Os sentidos falam mais alto, no flerte as carências expostas, libido em alta. Cheiros ao olfato, perfume atrativo; o tato, a procura na ponta dos dedos, assimetrias carnais; olhos vidram e música no ar. E dançam quase sem jeito, estreitam dois pra lá, um pra cá, pisadas, tropeços, risadagem, balaçam as pernas, umas entre as outras, sem sair do lugar, apenas rodam e se tocam, a paixão faz festa. Dali o ritmo dos nervos, veias exaltadas, carne pro desejo, corpos pros lençóis, fronhas e vestes ao chão: o calor do prazer, sintoma da entrega, uma aos beijos, ventes e coxas, duas ao delírio de bocas e sexos, e amanheceu como se por encanto depois de orgamos. À despedida, novo encontro marcado. Da segunda vez, melhor. Mais outra e mais vezes, quase vício. Meses passaram até a menstruação parar não se sabe quando, um teste e a comprovação na promessa esponsal. No outro dia ela ligou, ele não atendeu, estava em reunião. Ligações repetidas o dia todo e demais dias, uma semana, quase um mês depois e ele fora transferido pra outra filial não se sabe onde. A solidão e a gravidez. Exames e parto na obstetrícia. Ela fechou os olhos, a criança chorava ao colo. A manchete do noticiário: recém-nascida encontrada na lata do lixo. TRÊS: VENCEDOR & VENCIDO - A recepção e os atavios, carteira assinada no sorriso entre orelhas, o relógio de ponto no peito estufado, o expediente e a vida valia a pena. Aprendeu rápido, muitas tarefas, profissional da vez, diplomas nos trinques, como manda o figurino. Não sabia sem vez nem voz. Meio dia, quinze minutos pra marmita. Engole sem mastigar. Encheu a pança? Bora! Tem muito a fazer. Dezoito horas, ufa! Hoje tem serão; amanhã, também; depois de amanhã e sempre, inclusive finais de semana e feriados, sem horas extras no contracheque. Que horas são? Madruga. O sono vence. O apito, despertador; corre-corre, nada de atraso. Manhã vira tarde e noite, todo dia e o dia todo. Respira cansaço, tudo pronto, concluído. A ilusão do tempo no tictac a corromper a vigília. Tá cochilando é? 99 não dão 100, quero 101! Qualidade total, erro zero! Manda quem pode; obedece quem tem juízo! Arrume o que fazer! Hem? Vá limpar o eixo do sol. Como? Vá calar aquele sabiá que está me incomodando. Hum? Plante bananeira ou dê um salto solto aí, vá! Ué! Faça-me rir! Vá ver se estou lá esquina, já voltou? Nem fui! Então acorda os pássaros, faça alguma coisa! O quê? Vai sentar o cu num balaio de rola, já! Eita! Isso, aquilo, de novo, limpe, esfregue, quero brilhando! Agora conte! Reconte! Faça! Desfaça! Refaça! De novo! Vá e volte! Sente e levante! Sentido! Fique aí coarando até eu voltar, não se mexa! Pare de respirar! Parou. Caiu, nunca mais se levantou. Era uma vez. O que será escravidão que eu não sei? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com os álbuns Perto do coração, Mantiqueira, Só Xote e Música Popular Brasileira Contemporânea do produtor musical, arranjador, instrumentista, regente e compositor Nelson Ayres; com Sonatas de Debussy e Beethoven & Brandeburg Concert Bach, da violonista e pedagoga Elisa Fukuda; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Democracia? É dar a todos, o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um. Extraído de Caderno H (Globo, 1973), do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui.

PROGRAMA DE ENRIQUECIMENTO INSTRUMENTAL- [...] Ao construir Feuerstein's Instrumental Enrichment (FIE), nosso maior objetivo foi desenvolver uma forma de produzir esquemas de aprendizagem nas crianças, enquanto simultaneamente (e constantemente) as crianças alargam tais esquemas pela introdução de novas situações. Este duplo processo de acomodação e assimilação, descrito por Piaget como o princípio dinâmico do desenvolvimento da inteligência, é usado por nós com o propósito específico de cristalizar os pré-requisitos da aprendizagem, enquanto estes se tornam flexíveis o suficiente para possibilitar a generalização e a constante adaptação de sua aplicação a novas e variadas situações. [...]. Trechos extraídos da obra Instrumental enrichment: an intervention program for cognitive modifiability (University Park Press, 1980), do psicólogo e professor judeu-israelense Reuven Feuerstein (1921-2014), criador da Teoria da modificabilidade cognitiva estrutural (MCE) e da Teoria da Experiência da Aprendizagem Mediada (MLE) e do Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI). Originalmente nomeado FEI foi traduzido para Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), desenvolvido por meio do método psicopedagógico baseado nas ideias de Vygotsky, Piaget, entre outros, que compreende o modelo para o apoio cognitivo de indivíduos com dificuldades de aprendizagem e com Síndrome de Down. Trata-se de uma análise teórica e avaliação empírica consolidados em dois programas de ação psicopedagógica, um avaliativo e outro de apoio cognitivo. O primeiro denomina-se Abordagem de Avaliação do Potencial de Aprendizagem, tradução para o português da denominação na língua inglesa Learning Potential Assessment Device; o segundo chama-se Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI), cuja formulação no inglês é Instrumental Enrichment Program. O PEI consiste de 15 instrumentos ou "cadernos" com variadas tarefas, sendo que cada um deles contém um ou mais objetivos de ação pedagógica, abrangendo seis objetivos específicos, os quais podem ser agrupados basicamente em duas áreas: por um lado, determinados objetivos visam a diminuição das funções cognitivas defectivas e simultaneamente o fomento das capacidades intelectuais; por outro lado, procura-se intervir positivamente nas variáveis afetivas ou extra-intelectuais correlacionadas positivamente com os processos cognitivos. Assim, pode ser definidas duas áreas como constituidas por processos "cognitivos" e "afetivos" da aprendizagem. Veja mais aqui , aqui e aqui.

O PROPRIETÁRIO - [...] Viu-lhe o então o rosto, tão pálido e imovel, que se diria que o sangue não lhe corria mais nas veias; os olhos pareciam dilatados, como as grandes pupilas de uma ave noturna apanhada de surpresa. envolta na capa de pele cinzenta, encolhida contra as almofadas do divã, ela estava estranha, e parecia na verdade um pobre mocho catvo, cuja plumagem macia se arrepelava contra as grades da gaiola. Não tinha mais o seu porte leve e ereto, dir-se-ia que uma cruel fadiga física a dobrara e que já não tinha mais razões para ser esbelta e firme, nem bonita. [...] Ela não teve um olhar, uma palavra. Os reflexos das chamas brincavam-lhe sobre o rosto imóvel. De súbito Irene tentou erguer-se, mas o marido o impediu. Foi então que ele compreendeu. Ela voltara como um animal ferido de morte, sem saber mais onde ir, sem saber mais o que fazer. Bastava vê-la ali, enrolada e encolhida dentro da capa, para o compreender. Ele soube então, com certeza plena, que Bosinney fora seu amante, compreendeu que ela soubera da morte dele, que, como ele próprio, talvez houvesse comprado um jornal em uma esquina vbentosa de rua, e lido... De folta que voltara livremente para a jaula onde enlanguescera à espera da libertação. Compreendeu a espantosa significação daquela volta; tinha vontade de gritar: “Tire da minha casa esse corpo que eu odeio e que adoro! Vá embora, com o seu rosto branco que faz sofrer, tão cruel e tão meigo, antes que eu o esmague. Tire-se dos meus olhos, faça com que eu não a reveja nunca mais...”. E como essas palavras eram pronunciadas interiormente na sua alma, Soames supôs vê-la erguer-se e afastar-se, tal uma mulher tenta fugir de um sonho terrível, erguer-se e ir embora, por entre a noite e o frio, sem reparar nele, sem mesmo saber que ele estava ali. [...] Ficaram em silêncio. Ele a olhava ainda, dobrada sobre si mesma como um pássaro que morre de um tiro, e cujo peito a gente vê arquejar, à medida que o ar lhe fogre: os pobres olhos nos fitam, a nós que lhe demos o tiro, com aquele olhar lento e doce que não enxerga mais, e que diz adeus a tudo que é bom: o sol, o céu e o amor. [...]. Extraído de O proprietário (Delta, 1964), do novelista e dramaturgo John Galsworthy (1867-1933), Prêmio Nobel de Literatura em 1932.

CANTO DO AMOR – Bela que foi essa Rocha Paulina, / de esporões e baluartes no áureo tempo, / Paulo terceiro ideou-a à voz latina/ do missal, esta mesma voz de Bembo. / - Pelos barrancos perusino gado, / bem a seu gosto – disse – se desvia: / para avisar Deus tem o raio irado, / - Seu vigário – eu terei a artilharia. / Coelo tonantem, canta Horácio: e Deus / fala sobre o aquilhão na tempestade: / direi com os canhões – Rebanhos meus, / volvam aos pastos de Saron e Engaddi. / Temos Augusto de novo reposto. / Ouve Sangallo: faze-me um trabalho / digno de Roma, digno de teu gosto, / e do pontificado nosso, o áureo. / Disse. E Sangallo à fortaleza os flancos / arredondou como à esposa do poema: / pôs-lhe em redor um véu – mármores brancos - / deu à orgulhosa de torres diadema. / Cantou-a Molza em dísticos latinos; / e o paracleto então, em vez de sete / dons que podia dar aos peruginos, / com bombas de morteiros arremete. / Mas bem que o povo é um cão que os seixos vivos / afia, quando os não pode atirar. / E especialmente, os férreos incisivos / ama na flortalezar exercitar; / e a rói: e após com jubilo se estende / ladrando sobre as pedras arruinadas, / ergue-se após e outra corrida empreende / a outras pedras, como a outras bastonadas. / Assim foi em Perusa. Onde severa / mole de vasta sombra o solo enchia / hoje o amor ri e ri a primavera, / parlam crianças e mulheres no dia / e o sol no radiante azul imenso / nos Abruzzos além brilha e se perde. / Com desejo de amor, o mais intenso, / sorri aos montes da Úmbria e ao plaino verde. / No róseo lume calmamente os montes / surgem e após vão buscando um ao outro, / até que morram pelos horizontes / entre vapores de violeta e de ouro. / Vive, Itália, a tua coma fragrante, / no tálamos num mar de calmas cheio, / e sob os beijos do eternal amante, / treme-te efusa nos anéis ao seio. / Eu não sei bem o que é, mas de safira / meu pensamento, eu sinto, hoje floresce, / por minhas veias minha alma suspira, / e que entre a terra e o céu ou sobe ou desce. / Com um abalo, cada aspecto novo, / vem me saudar de velho sentimento, / e comovido a minha língua movo, / dizendo Amor à terra e ao firmamento. / Sou eu que o céu abraço ou tão fraterno, / vai absorver-me em si todo o universo? / Foi uma nota do poema eterno / o que eu sentia e aqui é um pobre verso. / Das aldeias umbriana (nas gargantas / dos Apeninos guardam-se em segredo) / das tirrenias acrópoles que tanto / olham dos cimos flóridos a medo; / dos campos onde estão ossos arados, / a desgraçada Roma ainda ameaça; / dos fortes alemães empoleirados, / como falcões que meditam a caça; / dos palácios do povo (desafiando, / surgem negros e cheios de torreões) / das igrejas que ao céu longos alçando / marmóreos braços em vez de orações; / dos suburbios com pressa de subir / alegres para a cidade desfeita, / como vilões que têm de repartir / depois da messe uma boa colheita; / dos claustros entre cidades e vilas, / ao som dos sinos de sombras pressagas, / como cucos, das árvores tranqüilas, / cantando dores e alegrias vagas; / e das ruas e das praças gloriosas, / onde como, de maio, hílare um dia, / bosques de quercos e florões de rosas, / libérrima, dos pais, a arte floria; / pelas messes que nos plainos se vêem, / pelos vinhais nos cumes arraigados, / pelos lagos de prata errando além, / pelos bosques, os das frondes nevadas; / pelas cabanas que fumam amigas, / ao estridor dos moinhos e pisões, / sobe um cântico só em mil cantigas, / e um hino – a coma de mil orações: / - Saúde, ô raça que cansada vai! / Tudo passa e nada vai sucumbir! / Muito sofremos e odiamos. Amai! / O mundo é belo e é santo o porvir; / que é que esplende sobre os montes lassos / e ao sol desponta como nova aurora? / Pois desses monte spelos róseo tyraços, / ainda as Madonas passeiam agora? / As madonas que viu o Perusino, / descer nos puros poentes, os de Abril, / no êxtase os braços por sobre o menino, / abrir diante de Deus assim gentil? / É outra madona cuja ideia espraia, / fulgente de equidade e de dever; / pois eu bendiigo quem por ela caia, / e quem por ela poderá viver. / Que me importam os padres e os tiranos, / são mais velhos que qualquer deus ou rei: / sei que eu maldisse o Papa há já dez anos ; hoje com o Papa me harmonizarei. / Pobre velho, é possível que lhe valha / alguma estéril vontade de amar! / Talvez volte a pensar em Sinigaglia, / Bela, mirando o adiratico mar. / Tomo em meu braços (Abri o Vaticano!) / aquele que na servidão se esvai, / vem, faço um brinde à liberdade que amo, / bebe, também, ó cidadão Mastai. Extraído de Poesias escolhidas (Delta, 1962), do poeta italiano Giosuè Carducci (1835-1907), Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

PEDREIRA DAS ALMAS
[...] Urbana: Encontraram sinais estranhos na rocha, e uma imagem de São Tomé no nicho de pedras. “Este é o lugar para a cidade. São Tomé nos protegerá, como nos protegeu da tormenta!” Descobriram ouro na gruta. Abriram galerias que foram sair em dez pontos diferentes do morro, como se fossem dez portas de Pedreira. Mais tarde, partindo daqui, abriram lavras por todo o vale e fundaram novos lugarejos. [...] Mariana: Leis! Leis! Não aceitamos, nem o povo de Pedreira das Almas aceitará suas leis. Vasconcelos: (Áspero) Falo com dona Urbana. Mariana: Respondo por ela e por Pedreira. Todas as leis que o senhor representa, não nos poderão arrancar nenhuma palavra, nem um gesto de acatamento às suas ordens. Abra as suas portas das prisões, traga os instrumentos de tortura, revolva e destrua a cidade, derrube as torres de nossa igreja...! Mas de nossas bocas jamais sairá uma única palavra de delação Os mortos sairão das lajes e os impiedosos serão destruídos! (Os soldados entreolham-se, admirados) Que um anátema caia sobre suas cabeças! Que o corpo de meu irmão fique exposto... será uma lembrança viva do seu pecado, da sua indignidade! Vasconcelos: Veremos mais tarde, minha senhora, se não falam. Mariana: O senhor tem as espadas... nós, aquilo que assassinos de sua espécie desconhecem: respeito à liberdade. É o que Gabriel representa para nós. Pagaremos, por ele, qualquer preço! [...] Mariana: Entre na igreja, diante de seus soldados, e prove que suas leis não são ímpias. Onde está sua justiça para ajudá-lo a transpor esta porta? Onde o poder que o levará até aqueles corpos? Não passam de mortos, disse o senhor! Então, deve ter coragem para insultá-los com sua presença. [...] Se o senhor não suporta, por que suportarão eles? O senhor nos prometeu um túmulo, se revelássemos onde está Gabriel. Gabriel está lá, como minha mãe, caído sobre Martiniano. O senhor nos impôs, como condição da sua opressão, o corpo exposto de Martiniano. Nós só lhe impomos, para a nossa delação, a sua entrada na igreja. Entre e veja o que suas leis fizeram dos homens, depois de terem feito à província, empobrecendo a terra com seus tributos e toda sorte de impiedades! [...] Vasconcelos: Será processada e responderá pelo crime de Gabriel. Mariana: Já estou com as mãos amarradas. Faça cumprir suas leis! Martiniano também estava, como está o povo da Província desde os dias da Bela Cruz. Desde que nossa montanha passou de sesmaria de ouro a pedra para os mortos. Onde está Gabriel? Onde os mortos estão expostos, e os vivos presos nas rochas, sonham com uma terra mais justa. Gabriel é a única saída deste túmulo imenso que seu Governo fez de Pedreira das Almas. Faça cumprir suas leis, já que não pode fazer os mortos reviverem. Este é o nosso preço, senhor. O meu e o seu. O senhor não terá nunca Gabriel, porque matou Martiniano... e eu... porque deixei Martiniano e minha mãe morrerem! Chame seus soldados e entre na igreja! Prove a eles que não teme os mortos. Que pode encarar seus crimes. (Silêncio. Vasconcelos continua imóvel) Governos como o seu, senhor, só executam leis ímpias, mas com braços subordinados ou mãos escravas. Não presenciam nunca a verdadeira imagem de suas vítimas. Se o senhor entrar... (Vacila, fazendo um grande esforço)... naquele rosto desfigurado... que era a própria imagem do nosso sonho... verá a que ficou reduzida a Província sob sua justiça! Só aí poderá saber o que Gabriel representa para nós. Entre!... e Gabriel será seu! Eu também prometo! [...] Mariana: Mais forte do que as promessas é a morte que nos liga à terra. Sinto tudo dentro do meu corpo, como se fizesse parte do meu sangue. As rochas... a igreja... o adro! Gabriel: Mariana! Não podemos passar a vida venerando mortos. Foi para escapar a isso que sonhamos partir. É preciso saber escolher, Mariana. [...] Mariana: Gabriel! Duas pessoas perderam a vida. Não compreendes? Duas pessoas que eram a minha família. Como queres que seja a mesma? Gabriel: Também perdi a minha. Mariana: Há muito tempo. Viveste sem ela. Gabriel: Prometeste uma para mim. Não te lembras. Mariana: Não a este preço. Gabriel: Mas que preço? Foi o próprio mundo de Pedreira que matou Martiniano, como matou minha família. Mariana: Nossos mortos não podem ser abandonados [...] Gabriel: Pedreira! Vista de longe, perdida entre as nuvens, parece uma estrela branca de mármore! (consigo mesmo) O passado é um monstro... que nos acompanha para onde vamos! [...].
Trechos extraídos da peça teatral Pedreira das almas: o telescópio (Agir, 1976), do dramaturgo e escritor Jorge Andrade (1922-1984). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Veja mais:
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O consolo da paixão aqui.
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Saúde no Brasil aqui.
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Fernando Melo Filho, o primeiro parceiro na música aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escritor e artista visual Tchello d’Barros. 
Veja mais aqui, aqui e aqui.
 

terça-feira, outubro 31, 2017

KEATS, ANA PAULA TAVARES, ELIANE POTIGUARA, PINTANDO NA BIBLIOTECA & CANHOTINHO

CONTANDO HISTÓRIA – Um dia lá desses de tempos eleitorais, Zé Peiúdo armando das suas, resolveu partir com tudo pra cima de Zé-Corninho, numa campanha difamatória daquelas de arrasar a reputação, os antepassados, a vida pregressa e os álbuns de fotografias e das lembranças, não sobrando nadinha da dignidade nem fiapo que fosse do restinho de respeito, tudo melecado na maior das baixarias. Como diziam os desafetos: o cara arriou a lenha pra cima do gaiúdo de não deixar nem os cambitos em pé, enterrado e lascado de todo. Não satisfeito, o detrator deu de caprichar ainda mais nas diversas formas de difamação, angariando plateia só pra ver o estrupício meter a ripa nos costados do coitado. O negócio empenou quando o infame algoz contratou a peso de ouro um plumitivo metido a orador que sapecava uns textos para lá de rebuscados, descascando a moral do opositor, misturando dizeres com ofensas cabeludas daquelas de arrepiar até o capeta. Logo Zé Peiúdo se danava a decorar frases e sentenças, a ponto de na horagá misturar as bolas, os alhos, olhos e bugalhos, de se enrolar todo pra no final baixar o calão. Pronto. Quando não dava na maior embrulhada, findava dando mesmo pra risadagens. A cada discurso dava um nó na língua de quase não conseguir balbuciar mais nada. Foi aí que o tirocínio entrou em cena: melhor mesmo era botar o dito orador pra sapecar as ripadas pra valer, aí sim, ia valer no sério e vingar de vez. Assim foi. Babaovice na área, Zé Peiúdo exaltou-se e anunciou o testemunho que ia descascar a alma sebosa do Zé-Corninho, e num puxavanque trouxe a figura pra cena com o seu depoimento bombástico. No começo ele pegou leve com uns remoques bastantemente incisivos, caindo numa discurseira exaltada daquelas de estremecer até as estrelas do céu, ninguém entendendo nada: que língua é essa que o orador está falando, hem? Quem lá sabia! O cara aos autoelogios, informando uma a uma das suas titulações, pós-graduações, serviços prestados – Zé Peiúdo na dele só ruminando: Esse cara quer aparecer mais que eu, é? -, participação em academais, colegiados, clubes de serviços, associações literárias e científicas, quando Zé Peiúdo cutucou cochichando: Vamos aprumar a conversa nos safanões contra o sujeito! Mais virou-se na capota choca, saiu criticando a gestão pública, os chatos de galochas, os mata-burros, os catombos da estrada, os esgotos a céu aberto, o papagaio do pirata, a bosta do cavalo do bandido, os filhos-da-peste, os ingrizientos, os bajuladores e, quando não tinha mais de quem falar, meteu as catanas dos desaforos no próprio Zé Peiúdo: Está vendo esse homem, este aqui, este mesmo, o Zé Peiúdo, é o maior filho da puta da paríquia e quem for corno é que vota nele! Tenho dito! Aí o pau cantou, foi tabefe no maluvido até umas horas. Depois de muita munhecada na lata do sujeito, Zé Peiúdo virou-se pros presentes e gritou: Comigo é assim, cagou fora do caco ou abriu da vela, é corretivo no pé do maluvido pra aprender é pau pra lamber sabão e cacete pra saber que sabão não se lambe! Tenho dito. O resto vocês já sabem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música da violinista Elisa Fukuda: Sonata para violino & piano Debussy, Sonata em sol maior Beethoven & Brandeburg Concert Bach; a arte musical do Duo Fênix – dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer; Cuban Guitar 1 e 3 e de Bach aos Beatles; do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer; e o JazzWoche Burghausen com as canções Dindi de Jobim e Rio de Maio de Ivan Lins, da cantora estadunidense Jane Monheit, com participação de Johnny Mathis & Ivan Lins. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O único meio de fortalecer o intelecto é não ter uma opinião rígida sobre nada – deixar a mente ser uma estrada aberta a todos os pensamentos. Pensamento do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CANHOTINHO - Faixa situada na área de ação dos quilombos palmarinos, Canhotinho teve seu povoamento retardado – datando, possivelmente, de fins do séc. XVIII -, de formação assim, relativamente recente. Nada obstante, porém, marcadas por este traço de quase contemporaneidade, são origens nebulosas, dificultando o esforço esclarecedor dos analistas e pesquisadores, ante a carência de dados capazes de fixar roteiros válidos que permitam deslindar a meada. [...] quase infinitesimal da mesma sesmaria de 1671 [...] para ser explorada diretamente e com exclusividade e daí ter o proprietário operado nos diástoles, dividindo-a em vários sítios autônomos – Murici, Pestana, Limão, Palmeira, Muquem, etc. – alienados a terceiros, ficando apenas, com o das Tabocas e o do Canhoto, onde teria fixado, construindo, ali, como dos costumes, uma capelinha, dedicada a São Sebastião. [...] Até os meados de 1800, porém, o Canhoto – nome insistamos resultante do sitio que atravessava a região ou, aceitando-se a tradição divulgada por Pereira da Costa, do apelido do proprietário – seria simples “sítio! Ou fazenda – também vulgarmente chamada Volta, em razão da curva da corrente fluvial, tributária do Mundaú, em Alagoas, restando em abono deste ponto de vista, elemento comprobatório de peso. [...] não falando mais em sítio, mas em povoação da Volta, da Volta do Canhoto, e, nos fins do século, Canhotinho. [...]. Trechos extraídos da obra Canhotinho: notas sobre suas origens e evolução política (CEHM, 1982), do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984). Veja mais aqui e aqui.

METADE CARA, METADE MÁSCARA – [...] No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos. [...] Trecho extraído da obra Metade cara, metade máscara (Global, 2004), da escritora, professora, ativista e empreendedora indígena Eliane Potiguara. Veja mais aqui.

EX-VOTO - No meu altar de pedra / arde um fogo antigo / estão dispostas por ordem / as oferendas / neste altar sagrado / o que disponho / não é vinho nem pão / nem flores raras do deserto / neste altar o que está exposto / é meu corpo de rapariga tatuado / neste altar de paus e de pedras / que aquí vês vale como oferenda / meu corpo de tacula / meu melhor penteado de missangas. Poema extraído da obra O lago da lua (Caminho, 1998), da poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares. Veja mais aqui.

LUCIAH LOPES & A RESISTÊNCIA DOS VERSOS
Com a poeta Luciah Lopes no lançamento do livro A resistência dos versos de Zé Ripe. Veja mais aqui.

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EXPOSIÇÃO PINTANDO NA PRAÇA
Recepcionando a estudantada durante a exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, com o poeta e artista plástico Paulo Profeta. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, setembro 20, 2017

OSMAN LINS, HÖLDERLIN, EDWARD SAID, CHAMISSO, BASQUIAT, RAYMOND ELSTAD & BIRITOALDO

MAS O QUE É QUE É ISSO, MINHA GENTE? - Imagem: arte do grafiteiro e artista visual estadunidense Jean-Michel Basquiat (1960-1988) - Jerrynaldo já tinha esse nome antes mesmo de nascer, mas não pegou. Era que a mãe dele, D. Cisaltinha era fã do cantor e queria por que queria que o nome do filho fosse uma homenagem ao ídolo da sua predileção. Já o pai, Inaldão do Inaldo, queria que o seu nome fosse perpetuado na vez do primogênito, não abrindo mão disso de jeito nenhum. Essa a razão pela qual a gravidez fora bastante recheada de animosidades de ambas as partes, passando da conta por empurrões, xingamentos e outros desaforos, a ponto de, no meio da maior arenga, o rebento nascer antes da hora. No meio do deixa disso, o bruguelo saiu calado na confusão, tendo de ser obrigado a abrir o berreiro para dar sinal de vida. De palmadas findou levando uma pisa e passar mais de hora berrando. Infelizmente foi logo enjeitado pela mãe: - Vixe! Isso nem parece ser gente, tem cara do coisa ruim! O pai, deixando por menos, relevou: - Tem nada não, melhor parecer com o satanás, assim será cabra macho feito o pai. E ela: - Pelo jeito, puxou ao pai mesmo! Cagado e cuspido. Só que mais feioso que o genitor que já não era lá grande coisa pela feiúra. Assim o menino foi crescendo, Satanás pra lá e pra cá, dando demonstrações dos seus maus bofes e jus ao seu apelido. Quando aprumou na adolescência, ele já se assinava Jerrynaldo Satanás, partindo prumas escapulidas fortuitas no arrepio da lei: de afanações bestas às deliquências mais arrepiadas, conseguia se safar amealhando trocados e antipatias. Para se limpar, entrou pra polícia noutra cidade, em Ribigudo, e logo, ao cabo de alguns anos, virou sargento, orgulho do pai, coitado, desconhecedor das façanhas delituosas do fardado. Sempre escapava das mãos da justiça porque, brincando de tiro ao alvo em ser vivente passante, sempre acorria aos perdões nos pés do santo de sua devoção: São Benedito. Parecia mais que o santo segurava suas pontas, deixando-o sempre impune. Como restara ileso em tudo, jurou fidelidade ao devotado e virou praticante religioso, a ponto de formar o Terço dos Homens na paróquia de Alagoinhanduba. Toda quinta, ele lá perfilado, Jerrynaldo santificado. Até que um dia lá, dirigindo sua fubica para o encontro religioso das quintas, no meio do caminho o mandú teve um troço, de deixá-lo na mão. E agora? Eis que um mecânico passava assobiando e foi recrutado pela autoridade pra lá de abusiva, intimando-o pro conserto imediato. Como não havia jeito pra pacutia da borreia, deixou tudo acertado com o profissional, enquanto seguia a pé pro compromisso inadiável de sempre. Aprumou e saiu às carreiras, chegando atrasado, mas logo se inteirando dos afazeres, tomando pé da situação no ato. No auge das orações, aparece o mecânico na porta da igreja: - Satamás ta aí? Vixe, foi o maior desembesto, fuga em massa dos presentes. Jerrynaldo botou as mãos à cabeça e dirigiu-se até o visitante, dizendo que o nome dele era Jerrynaldo e coisa e tal, e o cara, Ô Satanás, me desculpe, é que o carro tá embroncado, não tem conserto não, meu nome é Jerrynaldo, sim, Satanás, a coisa tá feia lá, num pega nem com reza forte nem milagre de deus ou do diabo, eu já lhe disse meu nome, não é pra me chamar assim não, ah, tá, desculpe, Satanás, mas o seu bregueço lá pifou de vez. Nessa ia saindo o Doro que estava ali pela primeira vez para angariar alguns votinhos pra sua eleição a vereador, ficou sem entender direito o acontecido, saindo acabrunhado com o ocorrido. Foi, então, que Jerrynaldo interpelou: - Perái, meu amigo, vou com você. Doro olhou pra ele dos pés à cabeça, fitou direito e disse: - Deixa pra lá, já estou muito bem acompanhado sozinho, fique com Deus, ou com o tinhoso, como quiser. E zarpou. Doro deu dois passos e depois pegou carreira com mais de mil, ao dobrar a esquina, quase sem fôlego do esforço despendido, encontrou os outros membros do Terço dos Homens que logo perguntaram: - E aí, você viu que coisa? É sério. Como é que pode? Sei não. E aí, a gente se encontra na próxima quinta? Mas o que é que é isso, minha gente? Deus me livre, se na igreja o coisa ruim já tá dentro, que é que vou fazer lá? Assim num dá preu me eleger vereador de jeito nenhum. Tá doido? Tô fora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com Sonatas de Debussy e Beethoven & Brandeburg Concert Bach, da violonista e pedagoga Elisa Fukuda; a arte musical do Duo Fênix –  dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer; Cuban Guitar 1 e 3 e de Bach aos Beatles, do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer; e o JazzWoche Burghausen com as canções Dindi de Jobim e Rio de Maio de Ivan Lins, da cantora estadunidense Jane Monheit, com participação de Johnny Mathis & Ivan Lins. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Mas você, meu amigo, se deseja viver entre os homens, aprenda em primeiro lugar respeitar a sombra – somente então o dinheiro. Mas se quiser viver apenas para si e para o que há de melhor no seu interior, então não precisa de nenhum conselho [...]. Trecho extraído da obra A história maravilhosa de Peter Schlemihl (Estação Liberdade, 2003), do botânico e poeta do romantismo alemão, Adelbert Von Chamisso (1781-1838).

EXÍLIO & EXILADOS – [...] O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre. [...] O exílio, ao contrário do nacionalismo, é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado. Em geral, não têm exércitos ou Estados, embora estejam com frequência em busca deles. Portanto, os exilados sentem uma necessidade urgente de reconstituir suas vidas rompidas e preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado. O ponto crucial é que uma situação de exílio sem essa ideologia triunfante—criada para reagrupar uma história rompida em um novo todo — é praticamente insuportável e impossível no mundo de hoje. Basta ver o destino de judeus, palestinos e armênios. [...] Os exilados olham para os não-exilados com ressentimento. Sentem que eles pertencem a seu meio, ao passo que um exilado está sempre deslocado. Como é nascer num lugar, ficar e viver ali, saber que se pertence a ele, mais ou menos para sempre? [...] Grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar. Não surpreende que tantos exilados sejam romancistas, jogadores de xadrez, ativistas políticos e intelectuais. Essas ocupações exigem um investimento mínimo em objetos e dão um grande valor à mobilidade e à perícia. O novo mundo do exilado é logicamente artificial e sua irrealidade se parece com a ficção. [...] O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pátrias são sempre provisórias. Fronteiras e barreiras, que nos fecham na segurança de um território familiar, também podem se tornar prisões e são, com freqüência, defendidas para além da razão ou da necessidade. O exilado atravessa fronteiras, rompe barreiras do pensamento e da experiência. [...] Para o exilado, os hábitos de vida, expressão ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memória dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes são vívidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto. Há um prazer específico nesse tipo de apreensão, em especial se o exilado está consciente de outras justaposições contrapontísticas que reduzem o julgamento ortodoxo e elevam a simpatia compreensiva. Temos também um sentimento particular de realização ao agir como se estivéssemos em casa em qualquer lugar. Contudo, isso apresenta seus riscos: o hábito da dissimulação é cansativo e desgastante. O exílio jamais se configura como o estado de estar satisfeito, plácido ou seguro. Nas palavras de Wallace Stevens, o exílio é "uma mente de inverno" em que o páthos do verão e do outono, assim como o potencial da primavera, estão por perto, mas são inatingíveis. Talvez essa seja uma outra maneira de dizer que a vida do exilado anda segundo um calendário diferente e é menos sazonal e estabelecida do que a vida em casa. O exílio é a vida levada fora da ordem habitual. É nômade, descentrada, contrapontística, mas, assim que nos acostumamos a ela, sua força desestabilizadora entra em erupção novamente. Trechos extraídos da obra Reflexões sobre o exílio e outros ensaios (Companhia das Letras, 2003), do intelectual, crítico literário e ativista palestino Edward Said.

A PROFISSÃO DO ESCRITOR – [...] Escrever, para mim, é um meio, o único de que disponho, de abrir uma clareira nas trevas que me cercam. Neste sentido é que eu disse, ainda há pouco, escrevo antes de tudo para mim. Sem experiência, decerto, não há conhecimento. Contudo, pelo menos no meu caso, mesmo o conhecimento obtido pela experiência é desordenado e informe. Só o ato de escrever me permite sua ordenação; portanto, escrever se me apresenta como a experiência máxima, a experiência das experiências. Minha salvação, meu esquadro, meu equilíbrio [...]. Trecho extraído da obra Evangelho na taba & outros problemas inculturais brasileiros (Summus, 1977), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui e aqui.

O POEMA CONCISO DE HÖLDERLIN - Porque és tão curto? Já não amas, como noutros / Tempos, o cântico ? Nesse tempo, ainda jovem, / Quando em dias de esperança cantavas, / Nunca encontravas o fim. / Como a minha sorte, assim é minha canção. Queres-te / banhar, feliz, no pôr do Sol? Já passou! E a / Terra é fria e o pássaro da noite sibila, / Incômodo, perante os teus olhos. Poema do poeta lírico e romancista alemão Joham Hölderlin (1770-1843). Veja mais aqui.

PROEZAS DO BIRITOALDO
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Raymond Elstad.
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sexta-feira, dezembro 21, 2007

RÂMANA MAHÂRSHI, BARDESANES, CARRERO, FUKUDA, FASSBINDER, CES, SCHYGULLA, SUSTENTABILIDADE & DIREITO TRIBUTÁRIO!


PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA NO CRÉDITO TRIBUTÁRIO – A presente abordagem aborda acerca da prescrição e da decadência, em conformidade com o que preceitua o Código Civil brasileiro vigente. Conceitualmente, a prescrição consiste na consolidação, pelo decurso do tempo, de uma lesão a um direito subjetivo, enquanto que a decadência representa a extinção, pelo decurso do tempo, de um direito protestativo, ou seja, aplica-se o prazo decadencial quando constatado um direito que fosse exercido por meio de uma conduta do próprio titular. Os fundamentos da prescrição estão na ação destruidora do tempo; no castigo à negligência; na presunção de abandono ou renúncia; na presunção da extinção do direito; na proteção ao devedor; na diminuição do número de demandas; no interesse social pela estabilidade das relações jurídicas. Já a decadência, no campo jurídico, indica a queda ou perecimento de direito pelo decurso do prazo fixado para seu exercício, sem que o titular o tivesse exercido. E isto quer dizer que a decadência e a prescrição se fundam na inércia do titular do direito, durante certo lapso de tempo, ambas jogam, com o conceito de inércia e tempo. Os requisitos da prescrição são: a existência de ação exercitável;  a inércia do titular da ação pelo seu não-exercício; a continuidade dessa inércia; e a ausência de fato impeditivo, suspensivo ou interruptivo do curso da prescrição. A prescrição apenas pode ser declarada de ofício, privativamente, em favor de absolutamente incapaz. Também pode ser alegada, a prescrição, em curso contínuo diante do sucessor. E em relação a incapaz e pessoa jurídica, a não alegação da prescrição pode ensejar à responsabilização dos seus representantes ou assistentes, assim como, sobre o agente da pessoa jurídica ou do incapaz que com sua inércia dá motivos à ocorrência de prescrição. E, seguindo o critério de que a prescrição extingue diretamente as ações e atinge indiretamente, portanto, o respectivo direito, parte do ponto de que a decadência extingue diretamente o direito. As conseqüências finais dessa distinção são iguais, pois em qualquer caso haverá a extinção de um direito. Se, por um lado, a finalidade dos dois institutos é igual, eles diferem bastante no modo de atuação e na produção de efeitos. Assim, a decadência extingue diretamente o direito, e com ela a ação que o protege, enquanto a prescrição extingue a ação, e com ela o direito que protege. Há também que considerar que a decadência começa a correr, como prazo extintivo, desde o momento em que o direito nasce, enquanto a prescrição não tem seu início com o nascimento do direito, mas a partir de sua violação, porque é nesse momento que nasce a ação contra a qual se volta a prescrição. A distinção entre ambas reside na diversa natureza do direito que se extingue, pois a decadência supõe um direito que, embora nascido, não se tornou efetivo pela falta de exercício; ao passo que a prescrição supõe um direito nascido e efetivo, mas que perecem pela falta de proteção pela ação, contra a violação sofrida. No exame de um caso específico, toma-se em consideração a origem da ação; se a origem for à mesma do direito e nasceu com ele, configura-se a decadência; se for diversa, se a ação nasceu posteriormente, quando o direito já era existente e vem a ser violado, tal ato caracteriza a prescrição. Há que se considerar também o objeto da decadência que é o direito que nasce, por vontade da lei ou do homem, subordinado à condição de seu exercício em limitado lapso de tempo. Todo direito nasce de um fato a que a lei atribui eficácia para gerá-lo. Este fato pode ser acontecimento natural, assim como pode emanar da vontade, transfigurando-se em ato jurídico praticado no intuito de criar direitos. No entanto, em ambos os casos, que o acontecimento seja proveniente de acontecimento natural, que proveniente de vontade, a lei pode subordinar o direito, para se tornar efetivo, à condição de ser exercido dentro de certo período de tempo, sob pena de decadência. Se o titular do direito deixa de exercê-lo, deixando transcorrer em branco o prazo, sem tomar iniciativa, opera-se sua extinção, a caducidade ou decadência, não sendo mais lícito ao titular colocá-lo em atividade. Com relação a prescritibilidade, o crédito tributário pode se extinguir pelo não exercício do direito de sua cobrança, conforme previsto no art. 174 CTN. Já quanto a caducidade, a sua não constituição, no prazo de cinco anos, contados na forma do parágrafo 4o do art. 150 ou do 173 do CTN, implica em seu perecimento. Ou seja, a decadência, no campo do Direito Tributário, é o desaparecimento do direito de constituir o crédito tributário, de fazer o lançamento, de formar o título. Assim, o prazo decadencial, nesse ramo do Direito, é de cinco anos, nos termos do art. 173 do CTN, contados: - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. No que concerne à decadência, o art. 173 do CTN prevê: Art. 173 - O direito de a Fazenda Pública constituir o crédito tributário extingue-se após 5 (cinco) anos, contados: I - do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido efetuado; II - da data em que se tornar definitiva a decisão que houver anulado, por vício formal, o lançamento anteriormente efetuado. Já quanto a prescrição, o art. 174 do CTN, prevê: “Art. 174 - A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em 5 (cinco) anos, contados da data da sua constituição definitiva”. A prescrição, conforme visto, é a perda do direito de ação, inerente ao direito material, pelo seu não exercício durante certo lapso de tempo. Há lei prevendo a hipótese; há o comportamento que realiza o fato gerador e há o lançamento, mas o Estado deixa de cobrar. Tem o sujeito ativo, nos termos do CTN, o prazo de 5 anos, após o que prescreve a ação de cobrança. Interrompe-se o prazo prescricional nas mesmas hipóteses previstas na lei civil. Pode ser a prescrição interrompida, nos termos do art. 174, & único, do CTN, e pode ser suspensa, nos termos do art. 151 do Código. Os requisitos da ocorrência da prescrição são: ação exercitável;- inércia do titular da ação; prolongamento da inércia por tal lapso de tempo (5 anos); ausência de qualquer ato ou fato a que a lei atribua efeito suspensivo, interruptivo ou impeditivo do lapso prescricional. REFERÊNCIAS: COELHO, Sacha Calmon N. Curso de Direito Tributário Brasileiro. Rio de Janeiro: Forense, 2004. DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2002. TEPEDINO, Gustavo (Coordenador). Novo Código Civil: Estudos na Perspectiva Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2003. VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil. São Paulo: Atlas, 2004. RODRIGUES, Silvio. Direito Civil São Paulo: Saraiva. 2004. Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: Lovers, da artista plástica Christine E. S. Code CES.


Curtindo o álbum Convergences Brazilian Music for Strings (Paulus, 2001), com a violinista e professora Elisa Fukuda & Camerata Fukuda. Veja mais aqui

EPÍGRAFE – Os maiores estadistas lutam para governar os demais; no entanto, sabem no seu íntimo que são incapazes de governar a si mesmos. O cientista que passa a vida acumulando conhecimetnos terá que baixar a cabeça quando lhe perguntarem se resolveu o mistério do homem e se conquistou a si próprio. Que adianta conhecer o que se passa fora de nós se ficamos na ignorância do que se passa dentro de nós? Qual conhecimento é mais digno da nossa atenção e do nosso emprenho? Excerto do pensamento do filósofo, sábio e mestre de Advaita Vedanta, Bhagavan Sri Râmana Mahârshi (1878-1950). Veja mais aqui.

SUSTENTABILIDADE – O conceito de sustentabilidade está muito ligado à idéia de uma relação do ser humano com a natureza que conserva o meio ambiente, associando-se imediatamente às questões atinentes ao ambientalismo e ecologia. Sustentabilidade não diz respeito, apenas, à preservação e à conservação de recursos naturais limitados e não renováveis, quer dizer, de recursos que, se forem gastos sem previsão de seu esgotamento, farão falta para nós e para os que vierem depois de nós. Sustentabilidade diz respeito, também e principalmente, a um padrão de organização de um sistema que se mantém ao longo do tempo em virtude de ter adquirido certas características que lhe conferem capacidades autocriativas. Ser sustentável tem a ver com uma dinâmica que começa agora a se revelar com a ascensão do pensamento sistêmico, de rede autocatalítica, autocriativa. A sustentabilidade, portanto, é o resultado de um padrão de organização, observado inicialmente em ecossistemas - e, depois, mais precisamente, em sistemas moleculares vivos, como células - mas que também pode ser encontrado em nossos sistemas complexos. Daí dizer-se que desenvolvimento sustentável é aquele que leva à construção de comunidades humanas sustentáveis, ou seja, comunidades que buscam atingir um padrão de organização em rede dotado de características como interdependência, reciclagem, parceria, flexibilidade e diversidade. Veja detalhes aqui, aqui, aqui e aqui.

O DELICADO ABISMO DA LOUCURA – O livro O delicado abismo da loucura (Iluminuras, 2005), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero, é o primeiro volume do projeto de comemorações dos trinta anos de carreira do autor, tratando de temas universais como a morte, o destino implacável e a presença de heróis capazes de mudar suas próprias histórias. Da obra destaco o trecho: [...] Ali deitado na cama, abatido, vivera grande parte de sua vida. [...] Só que ontem ela estava viva, palpitante, arrastando os chinelos pelo corredor. Foi ontem e por isso é como hoje. Estava ali mesmo desitado. Escutou as passadas. Levantou-se – e levantou-se com decisão solitária e feliz dos suicidas. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

HINO DA PÉROLA – O Hino da Pérola – também tendo a denominação de Hino da Alma ou Hino da Veste de Glória -, é atribuído ao poeta gnóstico do século II, Bardesanes, uma alegoria de forma comovente sobre a perehrinação da alma até a sua redenção, que ocorre pela conquista da sabedoria, a qual é representa pela obtenção da pérola. Eis o poema: Quando era pequenino vivia em meu reino na casa de meu Pai e na opulência e abundância de meus educadores encontrava meu prazer quando mus pais me equiparam e enviaram desde o Oriente, minha pátria. Das riquezas de nosso tesouro me prepararam um enxoval pequeno, mas valioso e leve para que eu mesmo o transportasse. Ouro da casa dos deuses, prata dos grandes tesouros, rubis da Índia, ágatas do reino de Kushan. Me cingiram um diamante que pode talhar o ferro. Me retiraram o vestido brilhante que eles amorosamente haviam feito para mim e a toga púrpura que havia sido confeccionada para meu tamanho. Fizeram um pacto comigo e escreveram em meu coração, para que não o esquecesse, isto: “Se desces ao Egito e te apoderas da pérola única que se encontra no fundo do mar na morada da serpente que faz espuma (então) vestirás de novo o vestido resplandecente e a toga que descansa sobre ele e serás herdeiro de nosso reino com teu irmão, o mais próximo a nosso nível. Abandonei Oriente e desci acompanhado de dois guias pois o caminho era perigoso e difícil e era muito jovem para viajar. Atravessei a região de Messena, o lugar de reunião dos mercadores do Oriente, e alcancei a terra de Babel e penetrei no recinto de Sarbuj. Cheguei ao Egito e meus companheiros me abandonaram. Me dirigi diretamente à serpente e morei próximo de seu albergue esperando que a o sono a tomasse e dormisse e assim poder conseguir a pérola. E quando estava absolutamente só, estrangeiro naquele país estranho, vi a um de minha raça, um homem livre, um oriental, jovem, formoso e favorecido, um filho de nobres, e chegou e se relacionou comigo e o disse meu amigo íntimo, um companheiro a quem confiar meu segredo. O adverti contra os egípcios e contra a sociedade dos impuros. E me vesti com seus disfarces para que não suspeitassem que havia vindo de longe para tirar-lhes a pérola e impedir que excitassem a serpente contra mim. Mas de alguma maneira se deram conta de que eu não era um compatriota; me estenderam uma armadilha e fizeram comer de seus alimentos. Esqueci que era filho de reis e servi a seu rei; esqueci da pérola pela qual meus pais me haviam enviado e por causa da pesadez de seus alimentos caí em um sono profundo. Mas isto que acontecia foi sabido por meus pais e se apiedaram de mim e saiu um decreto de nosso reino, ordenando a todos, vir ante nosso trono, aos reis e príncipes da Partia e a todos os nobres do Oriente. E determinaram sobre mim que não devi permanecer no Egito, e me escreveram uma carta que cada nobre firmou com seu nome: “De teu Pai, o Rei dos reis, e de tua Mãe, a soberana do Oriente, e de teu irmão, nosso mais próximo em nível, para ti, filho nosso, que estais no Egito, Saúdo! Desperta e levanta-te de teu sono, e ouve as palavras de nossa carta. Recorda que és filho de reis! Olha a escravidão em que caístes!  Recorda a pérola pela qual fostes enviado ao Egito! Pensa em teu vestido resplandecente e recorda tua toga gloriosa que vestirás e te adornará quando teu nome seja lido no livro dos valentes e que teu irmão, nosso sucessor, será o herdeiro de nosso reino”. E minha carta, era uma carta que o Rei selou com sua mão direita, para preservá-la dos males, dos filhos de Babel e dos demônios selvagens de Sarbuj. Voou como uma águia – a carta –, o rei dos pássaros; voou e desceu sobre mim e chegou a ser toda palavra. A sua voz e alvoroço me despertei e saí de meu sono. A tomei, a beijei, retirei seu selo e a li: e se acordavam com o escrito em meu coração, as palavras escritas na carta. Recordei que era filho de reis, e livre por própria natureza. Recordei a pérola, pela qual havia sido enviado ao Egito, e comecei a encantar à terrível serpente que produz espuma. Comecei a encantá-la e a adormeci depois de pronunciar sobre ela o nome de meu Pai, e o nome de meu irmão e o de minha mãe, a rainha do Oriente; e capturei a pérola e voltei para a casa de meus pais. Retirei o vestido maculado e impuro e o abandonei sobre a areia do país, e tomei o reto caminho em direção à luz de nosso país, o Oriente. E minha carta, a que me despertou, a encontrava diante de mim, durante o caminho, e o mesmo que me havia despertado com sua voz me guiava com sua luz. Pois a (carta) real de seda brilhava diante de mim com sua forma e com sua voz e sua direção me animava e atraía amorosamente. Continuei meu caminho, passei Sarbuj, deixei Babel a meu lado esquerdo. E alcancei a grande Messena, o porto dos mercadores, que está sobre a borda do mar. E meu vestido de luz, que havia abandonado, e a toga pregada junto a ele, das alturas de Hyrcania meus pais os enviaram a mim, por meio de seus tesoureiros, a cuja fidelidade se os havia confiado, e posto que eu não recordava sua dignidade já que em minha infância havia abandonado a casa de meu Pai, de improviso, como os enfrentara, o vestido me pareceu como um espelho de mim mesmo. O vi todo inteiro em mim mesmo, e a mim mesmo inteiro nele, posto que nós eramos dos diferentes e, não obstante, novamente uno em uma única forma. E aos tesoureiros igualmente, os quais trouxeram a mim, os vi em semelhante maneira, já que eles eram dois, embora como um, posto que sobre eles estava gravado um único selo do Rei, o qual me restituía meu tesouro e minha riqueza por meio deles, meu luminoso vestido bordado, que estava ornado com gloriosas cores, com ouro e com berilos, com rubis e ágatas e ágatas de variadas cores, também havia sido confeccionado na mansão do alto e com diamantes, haviam sido floreadas suas costuras. E a imagem do Rei dos reis estava pintada em todo ele, e também com as safiras rutilavam suas cores. E novamente vi que todo ele se agitava pelo movimento de meu conhecimento e como se prepara-se para falar o vi. Ouvi o som do canto que recitava ao descer, dizendo: “Sou o mais dedicado dos servidores que se puseram a serviço de meu Pai, e também percebi em mim que minha estatura crescia conforme a seus trabalhos”. E em seus movimentos reais se estendeu em direção a mim, e das mãos de seus portadores e incitou a tomá-lo. E também meu amor me urgia para que corresse a seu encontro e o tomasse, e assim o recebi e com a beleza de suas cores me adornei. E minha toga de cores brilhantes me envolveu todo inteiro, e me vesti e ascendi em direção à porta da saudação e da homenagem; inclinei a cabeça e rendi homenagem à Majestade de meu Pai que o havia enviado até mim, porque havia cumprido seus mandamentos e ele também havia cumprido sua promessa, e à porta de seus príncipes, me mesclei com seus nobres; pois se regozijou por mim e me recebeu, e fui com ele em seu reino. E com a voz da oração todos seus servos o glorificam. E me prometeu que também até a porta do Rei dos reis iria com ele, e levando meu obséquio e minha pérola aparecia com ele diante de nosso Rei. Veja mais aqui.

PEÇA DE ELEVADOR – Em 2006, tive oportunidade de assistir no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, à montagem da peça teatral Peça de Elevador, de Cássio Pires, com direção de Marcelo Lazzaratto, com a Cia Elevador de Teatro Panorâmico, contando várias histórias que se embaralham nos dois elevadores de um prédio comercial, envolvendo personagens que vão desde executivos ao espectro do pai de Hamlet. Aos ascensoristas cabe juntar os cacos dos acontecimentos e tirar conclusões sobre a humanidade. O destaque do espetáculo fica por conta da atuação das atrizes Heloisa Cintra e Juliana Pinho. Veja mais aqui.

LILI MARLEEN – O drama de guerra Lili Marleen (1981), do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), conta a história ocorrida às vesperas da eclosão da segunda guerra mundial, quando uma cantora de cabaret e um pianista boêmio se apaixonam, sendo que ele é judeu e a familía dele não quer o relacionamento pois ela é alemã. Ao voltar de uma viagem, ela é impedida de cruzar a fronteira e retornar à Suíça, pois foi expulsa do país por dívidas, em uma ação furtiva do pai dele. Sem alternativa, ela é obrigada a ficar em seu país natal e acaba por se envolver com um poderoso comandante nazista. Enquanto a guerra se desenrola, o comandante a ajuda a gravar um disco e uma das canções, Lili Marleen, toca na Rádio de Belgrado e se torna extremamente popular entre as tropas alemãs que estão na frente de batalha. Ela fica famosa e recebe os privilégios do regime, inclusive conhecendo pessoalmente Hitler. O apaixonado não se conforma que ela tenha se tornado um símbolo do regime nazista e volta à Alemanha para falar com ela, usando documentos falsos. Ele é feito prisioneiro e Lili passa a ser suspeita de espionagem. O destaque do filme fica por conta da atuação da atriz alemã de ascendência polaca Hanna Schygulla. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz alemã Hanna Schygulla.



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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 
                                                                  Veja aqui e aqui.
 Por um novo dia sempre.
Por um homem justo e novo.
Por um gesto necessário em favor da vida!
Por isso sou cantador.

Mais um ano se vai. E com ele nascem novas esperanças. Obrigado por sua companhia. Estarei de férias até dia 03 de janeiro! Até lá. E depois disso muitas novidades no ar! Feliz Ano Novo! Beijabrações & tataritaritatá!!!

GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...