ENFRENTANDO A BRONCA – Imagem: arte da escritora, professora e artista Teresinha Soares. - Antes de Alagoinhanduba
sumir do mapa, conheci um homem de bem, daqueles da gente admirar pela altivez,
sinceridade e presteza. Era o Galdinácio uma figura: direito a toda prova,
honesto até dizer basta. Achar um defeito nesse homem era difícil, esbanjava
virtude e hospitalidade. Era viúvo, pai de três filhos – dois deles, Deus os
tenham: um que foi recolhido na calçada por um possante veículo desgovernado
nas ruas de São Paulo, de restar espremido e emburacado nos escombros duma
loja, provocado pelo acidente; o outro, nadava com uma turma na praia do
litoral, veio um jetsky ineivado e acabou com a graça na hora: boiava sem vida
nas ondas -, só agora convivendo com a lindíssima filha, Galdinita. Vivia dali
praqui, sorrindo, acenando, amigo das horas difíceis. Não fosse isso, havia
educado todos na linha da retidão, uns meninos de ouro, diziam, dela ser
cobiçada por toda marmanjada, coisa que o povo gabava mesmo. Ocorre que o filho
do ricaço Zé Brabão, o Brabãozinho, que não era lá flor que se cheirasse, achou
de arriar de amores pras bandas dela, isso depois de haver desgraçado a
reputação para a perdição de umas três dúzias de garotas lindas dali. Galdinácio
desconfiou e falou sério pro rapaz: Filha minha é pra casar. E eu quero casar
com ela. O genitor não engoliu a lorota e fez com que ele arribasse dali que
não era de abrir pro pai dele não. O menino bem que não queria arengar com ele,
mas também não queria deixar por menos e o negócio engrossou. Mesmo Galdinácio educadamente
firme dissuadiu a procurar outro terreiro para suas estripulias, o malcriado
insistia em não arredar o pé dali, precisando dele usar de medidas um tanto enérgicas
para botá-lo pra fora, exigindo respeito. Só que o folgado não levou na conta
devida, precisando de uma reprimenda severa pra mode tomar jeito. Oxe, o
negócio não ficou nisso não. Logo o ricaço Zé Brabão tomou ciência do fato,
mandou logo a capangagem escorraçar o homem impávido que não abriu da vela e o
pipoco de bala comeu no centro. Feridos, pai e filha, findaram hospitalizados,
morre mas não morre. Brabãozinho foi ao pai: Não era para tanto, pai! Comigo é
assim: mexeu, come bala. Eu quero casar com ela. Como é? Ficou doido, foi? Trate
logo de se afastar de gentinha da mundiça. Se vai fodê-la, que faça logo o
serviço e saia fora, esse negócio de casório não sai agora não, tais ouvindo? Eu
vou casar com ela, pai. Se casar com ela, eu deserdo. Bate boca inflamado, o primogênito
saiu fora, do valentão vê-se falando sozinho: Esse menino está precisando de
umas lamboradas boas pra se endireitar. E começou a fazer uma faxinada, foi ter
com o enfermo e encarou olho no olho: Sabe quem sou eu? Sei de quantos morreram
para que montasse sua riqueza, quantos não foram jogados nos fornos da sua
olaria para que nunca fossem obstáculos nos seus objetivos escusos, quantos
pais de famílias não perderam suas vidas em nome da sua exclusiva justiça pras
suas posses, quantos não tremeram feio diante de sua presença com um batalhão
de jagunços para tomar tudo de quem quisesse, só os covardes andam
acompanhados, homem que é homem enfrenta sozinho os seus problemas: você nunca
foi um desse. Eu sou Zé Brabão, o dono de tudo isso aqui. Você pode ser o que
for, mas para mim é como um qualquer. Eu acabo de lhe matar, seu cabra, acabo
com a sua raça. Você pode fazer o que quiser, mas uma coisa eu lhe digo... e Galdinácio
destemidamente disse na lata dele: Sempre soube que riqueza material nunca foi,
é ou será grandeza de espírito. © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, outubro 11, 2018
MANUEL SCORZA, JANE MONHEIT, TERESINHA SOARES & GALDINÁCIO
ENFRENTANDO A BRONCA – Imagem: arte da escritora, professora e artista Teresinha Soares. - Antes de Alagoinhanduba
sumir do mapa, conheci um homem de bem, daqueles da gente admirar pela altivez,
sinceridade e presteza. Era o Galdinácio uma figura: direito a toda prova,
honesto até dizer basta. Achar um defeito nesse homem era difícil, esbanjava
virtude e hospitalidade. Era viúvo, pai de três filhos – dois deles, Deus os
tenham: um que foi recolhido na calçada por um possante veículo desgovernado
nas ruas de São Paulo, de restar espremido e emburacado nos escombros duma
loja, provocado pelo acidente; o outro, nadava com uma turma na praia do
litoral, veio um jetsky ineivado e acabou com a graça na hora: boiava sem vida
nas ondas -, só agora convivendo com a lindíssima filha, Galdinita. Vivia dali
praqui, sorrindo, acenando, amigo das horas difíceis. Não fosse isso, havia
educado todos na linha da retidão, uns meninos de ouro, diziam, dela ser
cobiçada por toda marmanjada, coisa que o povo gabava mesmo. Ocorre que o filho
do ricaço Zé Brabão, o Brabãozinho, que não era lá flor que se cheirasse, achou
de arriar de amores pras bandas dela, isso depois de haver desgraçado a
reputação para a perdição de umas três dúzias de garotas lindas dali. Galdinácio
desconfiou e falou sério pro rapaz: Filha minha é pra casar. E eu quero casar
com ela. O genitor não engoliu a lorota e fez com que ele arribasse dali que
não era de abrir pro pai dele não. O menino bem que não queria arengar com ele,
mas também não queria deixar por menos e o negócio engrossou. Mesmo Galdinácio educadamente
firme dissuadiu a procurar outro terreiro para suas estripulias, o malcriado
insistia em não arredar o pé dali, precisando dele usar de medidas um tanto enérgicas
para botá-lo pra fora, exigindo respeito. Só que o folgado não levou na conta
devida, precisando de uma reprimenda severa pra mode tomar jeito. Oxe, o
negócio não ficou nisso não. Logo o ricaço Zé Brabão tomou ciência do fato,
mandou logo a capangagem escorraçar o homem impávido que não abriu da vela e o
pipoco de bala comeu no centro. Feridos, pai e filha, findaram hospitalizados,
morre mas não morre. Brabãozinho foi ao pai: Não era para tanto, pai! Comigo é
assim: mexeu, come bala. Eu quero casar com ela. Como é? Ficou doido, foi? Trate
logo de se afastar de gentinha da mundiça. Se vai fodê-la, que faça logo o
serviço e saia fora, esse negócio de casório não sai agora não, tais ouvindo? Eu
vou casar com ela, pai. Se casar com ela, eu deserdo. Bate boca inflamado, o primogênito
saiu fora, do valentão vê-se falando sozinho: Esse menino está precisando de
umas lamboradas boas pra se endireitar. E começou a fazer uma faxinada, foi ter
com o enfermo e encarou olho no olho: Sabe quem sou eu? Sei de quantos morreram
para que montasse sua riqueza, quantos não foram jogados nos fornos da sua
olaria para que nunca fossem obstáculos nos seus objetivos escusos, quantos
pais de famílias não perderam suas vidas em nome da sua exclusiva justiça pras
suas posses, quantos não tremeram feio diante de sua presença com um batalhão
de jagunços para tomar tudo de quem quisesse, só os covardes andam
acompanhados, homem que é homem enfrenta sozinho os seus problemas: você nunca
foi um desse. Eu sou Zé Brabão, o dono de tudo isso aqui. Você pode ser o que
for, mas para mim é como um qualquer. Eu acabo de lhe matar, seu cabra, acabo
com a sua raça. Você pode fazer o que quiser, mas uma coisa eu lhe digo... e Galdinácio
destemidamente disse na lata dele: Sempre soube que riqueza material nunca foi,
é ou será grandeza de espírito. © Luiz Alberto Machado. Direitos
reservados. Veja mais aqui.terça-feira, outubro 31, 2017
KEATS, ANA PAULA TAVARES, ELIANE POTIGUARA, PINTANDO NA BIBLIOTECA & CANHOTINHO
CONTANDO
HISTÓRIA – Um dia lá desses de tempos
eleitorais, Zé Peiúdo armando das suas, resolveu partir com tudo pra cima de Zé-Corninho,
numa campanha difamatória daquelas de arrasar a reputação, os antepassados, a
vida pregressa e os álbuns de fotografias e das lembranças, não sobrando
nadinha da dignidade nem fiapo que fosse do restinho de respeito, tudo melecado
na maior das baixarias. Como diziam os desafetos: o cara arriou a lenha pra
cima do gaiúdo de não deixar nem os cambitos em pé, enterrado e lascado de
todo. Não satisfeito, o detrator deu de caprichar ainda mais nas diversas
formas de difamação, angariando plateia só pra ver o estrupício meter a ripa
nos costados do coitado. O negócio empenou quando o infame algoz contratou a
peso de ouro um plumitivo metido a orador que sapecava uns textos para lá de
rebuscados, descascando a moral do opositor, misturando dizeres com ofensas
cabeludas daquelas de arrepiar até o capeta. Logo Zé Peiúdo se danava a decorar
frases e sentenças, a ponto de na horagá misturar as bolas, os alhos, olhos e bugalhos,
de se enrolar todo pra no final baixar o calão. Pronto. Quando não dava na
maior embrulhada, findava dando mesmo pra risadagens. A cada discurso dava um
nó na língua de quase não conseguir balbuciar mais nada. Foi aí que o tirocínio
entrou em cena: melhor mesmo era botar o dito orador pra sapecar as ripadas pra
valer, aí sim, ia valer no sério e vingar de vez. Assim foi. Babaovice na área,
Zé Peiúdo exaltou-se e anunciou o testemunho que ia descascar a alma sebosa do
Zé-Corninho, e num puxavanque trouxe a figura pra cena com o seu depoimento
bombástico. No começo ele pegou leve com uns remoques bastantemente incisivos,
caindo numa discurseira exaltada daquelas de estremecer até as estrelas do céu,
ninguém entendendo nada: que língua é essa que o orador está falando, hem? Quem
lá sabia! O cara aos autoelogios, informando uma a uma das suas titulações,
pós-graduações, serviços prestados – Zé Peiúdo na dele só ruminando: Esse cara
quer aparecer mais que eu, é? -, participação em academais, colegiados, clubes
de serviços, associações literárias e científicas, quando Zé Peiúdo cutucou
cochichando: Vamos aprumar a conversa nos safanões contra o sujeito! Mais
virou-se na capota choca, saiu criticando a gestão pública, os chatos de
galochas, os mata-burros, os catombos da estrada, os esgotos a céu aberto, o
papagaio do pirata, a bosta do cavalo do bandido, os filhos-da-peste, os
ingrizientos, os bajuladores e, quando não tinha mais de quem falar, meteu as
catanas dos desaforos no próprio Zé Peiúdo: Está vendo esse homem, este aqui,
este mesmo, o Zé Peiúdo, é o maior filho da puta da paríquia e quem for corno é
que vota nele! Tenho dito! Aí o pau cantou, foi tabefe no maluvido até umas
horas. Depois de muita munhecada na lata do sujeito, Zé Peiúdo virou-se pros
presentes e gritou: Comigo é assim, cagou fora do caco ou abriu da vela, é
corretivo no pé do maluvido pra aprender é pau pra lamber sabão e cacete pra
saber que sabão não se lambe! Tenho dito. O resto vocês já sabem. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.quarta-feira, setembro 20, 2017
OSMAN LINS, HÖLDERLIN, EDWARD SAID, CHAMISSO, BASQUIAT, RAYMOND ELSTAD & BIRITOALDO
MAS O QUE É QUE É ISSO, MINHA GENTE? - Imagem:
arte do grafiteiro e artista visual estadunidense Jean-Michel Basquiat (1960-1988) - Jerrynaldo já tinha esse nome
antes mesmo de nascer, mas não pegou. Era que a mãe dele, D. Cisaltinha era fã
do cantor e queria por que queria que o nome do filho fosse uma homenagem ao ídolo
da sua predileção. Já o pai, Inaldão do Inaldo, queria que o seu nome fosse
perpetuado na vez do primogênito, não abrindo mão disso de jeito nenhum. Essa a
razão pela qual a gravidez fora bastante recheada de animosidades de ambas as
partes, passando da conta por empurrões, xingamentos e outros desaforos, a ponto
de, no meio da maior arenga, o rebento nascer antes da hora. No meio do deixa
disso, o bruguelo saiu calado na confusão, tendo de ser obrigado a abrir o
berreiro para dar sinal de vida. De palmadas findou levando uma pisa e passar
mais de hora berrando. Infelizmente foi logo enjeitado pela mãe: - Vixe! Isso
nem parece ser gente, tem cara do coisa ruim! O pai, deixando por menos,
relevou: - Tem nada não, melhor parecer com o satanás, assim será cabra macho
feito o pai. E ela: - Pelo jeito, puxou ao pai mesmo! Cagado e cuspido. Só que
mais feioso que o genitor que já não era lá grande coisa pela feiúra. Assim o
menino foi crescendo, Satanás pra lá e pra cá, dando demonstrações dos seus
maus bofes e jus ao seu apelido. Quando aprumou na adolescência, ele já se
assinava Jerrynaldo Satanás, partindo prumas escapulidas fortuitas no arrepio
da lei: de afanações bestas às deliquências mais arrepiadas, conseguia se safar
amealhando trocados e antipatias. Para se limpar, entrou pra polícia noutra
cidade, em Ribigudo, e logo, ao cabo de alguns anos, virou sargento, orgulho do
pai, coitado, desconhecedor das façanhas delituosas do fardado. Sempre escapava
das mãos da justiça porque, brincando de tiro ao alvo em ser vivente passante,
sempre acorria aos perdões nos pés do santo de sua devoção: São Benedito. Parecia
mais que o santo segurava suas pontas, deixando-o sempre impune. Como restara
ileso em tudo, jurou fidelidade ao devotado e virou praticante religioso, a
ponto de formar o Terço dos Homens na paróquia de Alagoinhanduba. Toda quinta,
ele lá perfilado, Jerrynaldo santificado. Até que um dia lá, dirigindo sua
fubica para o encontro religioso das quintas, no meio do caminho o mandú teve
um troço, de deixá-lo na mão. E agora? Eis que um mecânico passava assobiando e
foi recrutado pela autoridade pra lá de abusiva, intimando-o pro conserto
imediato. Como não havia jeito pra pacutia da borreia, deixou tudo acertado com
o profissional, enquanto seguia a pé pro compromisso inadiável de sempre.
Aprumou e saiu às carreiras, chegando atrasado, mas logo se inteirando dos
afazeres, tomando pé da situação no ato. No auge das orações, aparece o
mecânico na porta da igreja: - Satamás ta aí? Vixe, foi o maior desembesto, fuga
em massa dos presentes. Jerrynaldo botou as mãos à cabeça e dirigiu-se até o
visitante, dizendo que o nome dele era Jerrynaldo e coisa e tal, e o cara, Ô
Satanás, me desculpe, é que o carro tá embroncado, não tem conserto não, meu
nome é Jerrynaldo, sim, Satanás, a coisa tá feia lá, num pega nem com reza forte
nem milagre de deus ou do diabo, eu já lhe disse meu nome, não é pra me chamar
assim não, ah, tá, desculpe, Satanás, mas o seu bregueço lá pifou de vez. Nessa
ia saindo o Doro que estava ali pela primeira vez para angariar alguns votinhos
pra sua eleição a vereador, ficou sem entender direito o acontecido, saindo
acabrunhado com o ocorrido. Foi, então, que Jerrynaldo interpelou: - Perái, meu
amigo, vou com você. Doro olhou pra ele dos pés à cabeça, fitou direito e
disse: - Deixa pra lá, já estou muito bem acompanhado sozinho, fique com Deus,
ou com o tinhoso, como quiser. E zarpou. Doro deu dois passos e depois pegou
carreira com mais de mil, ao dobrar a esquina, quase sem fôlego do esforço
despendido, encontrou os outros membros do Terço dos Homens que logo
perguntaram: - E aí, você viu que coisa? É sério. Como é que pode? Sei não. E
aí, a gente se encontra na próxima quinta? Mas o que é que é isso, minha gente?
Deus me livre, se na igreja o coisa ruim já tá dentro, que é que vou fazer lá?
Assim num dá preu me eleger vereador de jeito nenhum. Tá doido? Tô fora. © Luiz
Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.terça-feira, fevereiro 23, 2016
NERUDA, WOOLF, CUNNINGHAM, TOURAINE, MONHEIT, STANDISH & LITERÓTICA
A DEUSA QUE SE FEZ RAINHA PARA SER SÚDITA DA NOITE – Ela emergiu
ignota com toda pompa celestial de deusa radiante a ensolarar as trevas com as
trombetas de sua fulgurante sedução e a levitar dançante pronta para a
celebração de sua glória divina. Aterrissou magnânima rainha com reverência de
saudar exclusivo súdito compungido pela comunhão de seu majestoso poder. Desceu
em câmara lenta pelos degraus suntuoso do seu trono e a mim se encaminhou como
se reconhecesse os méritos de fiel escudeiro, a lançar sua mão sobre meu ombro,
contemplado na cerimônia. Tomou-me de pé para receber a sua comenda ilustre e ela
dispensou o manto e a coroa, removeu as cobertas de sua elegância, revelando-se
com uma lingerie transparente na oferenda de sua nudez soberana. E diante de
mim fraquejou vulnerável prostrada, e fixou seu olhar sobre meu sexo e o elegeu
panteão de sua deidade, tonando-se fiel monja discípula, súdita destronada a render
homenagem com suas carícias a deificá-lo. Alisando-o terna e apaixonada, como
se cuidasse de bem preciosíssimo, tomou entre as mãos, apalpando-o meticulosa,
a mimá-lo com seus afagos, magia de felatriz nos feitiços de boca, lábios e língua.
E me fez imortal com sua gula desenfreada, e me investiu entronizado pelo
sobejo de sua saliva caudalosa, e me tomou por dono com suas insaciáveis
abocanhadas, e levou-me ao ápice de seu poderio milenar, quando no clímax do
meu estertor, quedou convidativa, portas escancaradas, amplidão por conquistar:
Vem! E a ventania do seu ventre tragou-me priápico, ao repouso de seus seios fartos,
com todos os prados e arrebóis infinitos de sua sinuosidade abissal. Doou-me a
botija repleta com todos os tesouros exultantes, como quem premia o vencedor com
todos os galardões de seus gozos e orgasmos perenes. Assim nela eu sou. Veja
mais aqui.
DITOS &
DESDITOS
Há um
esgotamento dos modelos políticos, e eu acho que a responsabilidade dos
intelectuais nisso é muito grande, porque, em uma país como a França ou a
Itália, um pouco no Brasil, muito na Argentina, na Venezuela e em outros
países, os intelectuais fizeram a política do pior... Nós não podemos
sobreviver às mudanças atuais sem ideias novas de uma maneira que corresponda à
realidade e que inspire confiança. Então, o que eu diria hoje do mundo
ocidental é que essas doenças são bem menos doenças da mão, das pernas ou dos
pés, do que são da cabeça. Em outras palavras, se eu assumo uma posição
radical ou até excessiva sobre a situação, dizendo que há todo um sistema que
ruiu do ponto de vista econômico, é preciso ver que o grande obstáculo hoje em
dia – como eu dizia, um pouco para o Brasil, mas muito mais para os europeus –
é a renovação das idéias e do pessoal, dos políticos, dos intelectuais, dos
sindicatos, de tudo...
Pensamento do sociólogo
francês Alain Touraine (1925-2023). Veja mais aqui & aqui.
SENHORA DALLOWAY – [...] ela tinha a constante sensação de estar muito, muito longe no mar, sozinha;
sempre tinha a impressão de que era muito, muito perigoso viver sequer um dia. [...] Qual a importância do cérebro em comparação
com o coração? [...] É possível que o próprio mundo seja desprovido de
significado. [...] Ela acreditava que não
existiam deuses; que ninguém era culpado; e assim desenvolveu essa religião
ateísta de fazer o bem pela bondade em si. [...] É uma grande pena nunca poder dizer o que se sente. [...] Amar
torna a pessoa solitária. [...] Beleza, parecia dizer o mundo. E como
que para provar isso (cientificamente), onde quer que ele olhasse — para as
casas, para as grades, para os antílopes esticados sobre as cercas —, a beleza
surgia instantaneamente. Observar uma folha tremulando na corrente de ar era
uma alegria requintada. Lá no céu, andorinhas mergulhavam, desviavam,
lançavam-se para dentro e para fora, em círculos, sempre com perfeito controle,
como se elásticos as sustentassem; e as moscas subiam e desciam; e o sol, ora
tingindo esta folha, ora aquela, em tom de zombaria, ofuscando-a com um dourado
suave, em puro bom humor; e ora, novamente, um sino (talvez uma buzina de
carro) tilintando divinamente nos talos de grama — tudo isso, calmo e racional
como era, feito de coisas comuns como era, era a verdade agora; a beleza, essa
era a verdade agora. A beleza estava em toda parte. [...] Foi um sonho
bobo, muito bobo, esse de ser infeliz. [...] Aqui a vida parou. [...].
Trechos extraídos da obra Mrs. Dalloway (Houghton Mifflin Harcourt, 2002),
da escritora, ensaista e editora britânica Virginia Woolf (Adeline
Virginia Woolf, nascida Stephen – 1882-1941). A obra foi pro cinema em 1997,
como um drama dirigido por Marleen Gorris e estrelado por Vanessa Redgrave.
Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui &
aqui.
AS HORAS – […] Existe beleza
no mundo, embora seja mais cruel do que imaginamos. [...] Não se encontra a paz evitando a vida. [...] Damos nossas
festas; abandonamos nossas famílias para viver sozinhos no Canadá; lutamos para
escrever livros que não mudam o mundo, apesar de nossos talentos e esforços
incansáveis, nossas esperanças mais extravagantes. Vivemos nossas vidas,
fazemos o que fazemos e depois dormimos. É tão simples e comum quanto isso.
Alguns se atiram de janelas, ou se afogam, ou tomam pílulas; outros morrem em acidentes;
e a maioria de nós é lentamente devorada por alguma doença ou, se tivermos
muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas isso como consolo: uma hora aqui ou
ali em que nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas,
explodir e nos dar tudo o que sempre imaginamos, embora todos, exceto as
crianças (e talvez até elas), saibam que essas horas serão inevitavelmente
seguidas por outras, muito mais sombrias e difíceis. Ainda assim, prezamos a
cidade, a manhã; esperamos, mais do que tudo, por mais. Só Deus sabe por que a
amamos tanto... [...] A beleza é uma prostituta, eu prefiro dinheiro.
[...] Lembro-me de uma manhã em que acordei ao amanhecer. Havia uma sensação
tão grande de possibilidades. Sabe, aquela sensação. E eu... lembro-me de
pensar: Então este é o começo da felicidade, é aqui que tudo começa. E, claro,
sempre haverá mais... nunca me ocorreu que não fosse o começo. Era a
felicidade. Era aquele momento, ali mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra
As
horas - The Hours (Companhia das Letras, 1998), do escritor
estadunidense Michael Cunningham, obra que foi levada ao cinema em 2002,
um drama dirigido por Stephen Daldry, roteiro de David Hare e estrelado pelas
atrizes Streep, Moore e Kidman.
Veja mais aqui.
CAVALHEIRO SÓ
Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
E as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
E as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
E os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
Como um colar de palpitantes ostras sexuais
Rodeiam minha casa solitária,
Inimigos jurados de minha alma,
Conspiradores em traje de dormir,
Que trocaram a senha grandes beijos espessos.
O verão radiante conduz os namorados
Em uniformes regimentos melancólicos
Feitos de gordos magros e alegres tristes pares:
Sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
Há uma vida continua de calças e galinhas,
Um rumor de meias de seda acariciadas,
E seios femininos a brilhar como dois olhos.
O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
Depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
Seduziu sua vizinha inapelavelmente
E a leva agora a cinemas miseráveis
Onde os herois são porcos ou são príncipes apaixonados
E lhe acaricia as pernas, véu macio,
Com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro.
As tardes do sedutor e as noites dos esposos
Se unem, dois lençóis que se sepultam,
E as horas de após almoço em que os jovens estudantes
E as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
E os animais fornicam sem rodeios
E as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
E os primos brincam de estranho jeito com as primas,
E os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
E as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
Cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
E inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
Sobre leitos altos, amplos como embarcações:
Seguramente, eternamente me rodeia
Este respiratório e enredado grande bosque
Com grandes flores e com dentaduras
E raízes negras em forma de unhas e sapatos.
OS TEUS PÉS
Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.
Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.
MULHER
Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e
dois corpos por um só mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.
O INSETO
Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um inseto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!
PARA QUE ME OUÇAS
Para que me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto de gaivotas sobre as praias.
Colar, guizo ébrio
para as tuas maos suaves como as uvas.
E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.
CUERPO DE MUJER
Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.
Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.
Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!
Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.
DORMI CONTIGO TODA NOITE
Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.
Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.
NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS
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