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quinta-feira, outubro 11, 2018

MANUEL SCORZA, JANE MONHEIT, TERESINHA SOARES & GALDINÁCIO


ENFRENTANDO A BRONCA – Imagem: arte da escritora, professora e artista Teresinha Soares. - Antes de Alagoinhanduba sumir do mapa, conheci um homem de bem, daqueles da gente admirar pela altivez, sinceridade e presteza. Era o Galdinácio uma figura: direito a toda prova, honesto até dizer basta. Achar um defeito nesse homem era difícil, esbanjava virtude e hospitalidade. Era viúvo, pai de três filhos – dois deles, Deus os tenham: um que foi recolhido na calçada por um possante veículo desgovernado nas ruas de São Paulo, de restar espremido e emburacado nos escombros duma loja, provocado pelo acidente; o outro, nadava com uma turma na praia do litoral, veio um jetsky ineivado e acabou com a graça na hora: boiava sem vida nas ondas -, só agora convivendo com a lindíssima filha, Galdinita. Vivia dali praqui, sorrindo, acenando, amigo das horas difíceis. Não fosse isso, havia educado todos na linha da retidão, uns meninos de ouro, diziam, dela ser cobiçada por toda marmanjada, coisa que o povo gabava mesmo. Ocorre que o filho do ricaço Zé Brabão, o Brabãozinho, que não era lá flor que se cheirasse, achou de arriar de amores pras bandas dela, isso depois de haver desgraçado a reputação para a perdição de umas três dúzias de garotas lindas dali. Galdinácio desconfiou e falou sério pro rapaz: Filha minha é pra casar. E eu quero casar com ela. O genitor não engoliu a lorota e fez com que ele arribasse dali que não era de abrir pro pai dele não. O menino bem que não queria arengar com ele, mas também não queria deixar por menos e o negócio engrossou. Mesmo Galdinácio educadamente firme dissuadiu a procurar outro terreiro para suas estripulias, o malcriado insistia em não arredar o pé dali, precisando dele usar de medidas um tanto enérgicas para botá-lo pra fora, exigindo respeito. Só que o folgado não levou na conta devida, precisando de uma reprimenda severa pra mode tomar jeito. Oxe, o negócio não ficou nisso não. Logo o ricaço Zé Brabão tomou ciência do fato, mandou logo a capangagem escorraçar o homem impávido que não abriu da vela e o pipoco de bala comeu no centro. Feridos, pai e filha, findaram hospitalizados, morre mas não morre. Brabãozinho foi ao pai: Não era para tanto, pai! Comigo é assim: mexeu, come bala. Eu quero casar com ela. Como é? Ficou doido, foi? Trate logo de se afastar de gentinha da mundiça. Se vai fodê-la, que faça logo o serviço e saia fora, esse negócio de casório não sai agora não, tais ouvindo? Eu vou casar com ela, pai. Se casar com ela, eu deserdo. Bate boca inflamado, o primogênito saiu fora, do valentão vê-se falando sozinho: Esse menino está precisando de umas lamboradas boas pra se endireitar. E começou a fazer uma faxinada, foi ter com o enfermo e encarou olho no olho: Sabe quem sou eu? Sei de quantos morreram para que montasse sua riqueza, quantos não foram jogados nos fornos da sua olaria para que nunca fossem obstáculos nos seus objetivos escusos, quantos pais de famílias não perderam suas vidas em nome da sua exclusiva justiça pras suas posses, quantos não tremeram feio diante de sua presença com um batalhão de jagunços para tomar tudo de quem quisesse, só os covardes andam acompanhados, homem que é homem enfrenta sozinho os seus problemas: você nunca foi um desse. Eu sou Zé Brabão, o dono de tudo isso aqui. Você pode ser o que for, mas para mim é como um qualquer. Eu acabo de lhe matar, seu cabra, acabo com a sua raça. Você pode fazer o que quiser, mas uma coisa eu lhe digo... e Galdinácio destemidamente disse na lata dele: Sempre soube que riqueza material nunca foi, é ou será grandeza de espírito. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Vocês são homens ou mulheres? – Mas o que é, Dom Fortunato? – Os empregados da Cerro surpreenderam a Sra. Tufina, pisotearam os carneiros com seus cavalos e em seguida soltaram os cachorros. Morreram. Não sei se são homens ou mulheres. Que esperam? Que a Cerca entre em nossas casas? Esperam que a mulher não possa mais deitar-se com o macho? Os rostos se apequenavam, se azulavam com uma cor diferente do dia nascente. Nos olhos se apagava e se acendia, nascia e renascia uma coragem extinta. Agora já não se pode mais recuar. Recuar é bater no céu com o cu. Homens ou mulheres, não sei o que são, mas temos que brigar. A bruta névoa não se dissipava. As rochas exalavam fumarolas brancacentas. Incas, caciques, vice-reis, corregedores, presidentes da República, prefeitos e subprefeitos eram os próprios nós de um quipo, de uma corda de terror imemorial. [...] Ignorantes de que o Código Militar prescreve que “o indivíduo ou indivíduos que ousem atacar a Força Armada se tornam passíveis de um Conselho de Guerra sumário e que...”, os comuneiros dançavam. A tempestade não cedia. O caminho se acabava debaixo da raiva do granizo. O procurador cuspiu um dente e mandou trazer picaretas e vergalhões. Sob a granizada se atiraram a derrubar os postes. Arrancaram os quebra-pernas. Trezentos metros de arame sentiram uma vertigem. Gritavam e dançavam, possessos. Rompiam a Cerca, meteram as últimas ovelhas exaustas. Marcelino Muñoz – terceiro lugar na escola regional – teve a ideia de perpetrar um espantalho. Já no roxo do entadecer enfiou o espantalho no montão de quebra-pernas vencidos. Na luta, os guardas tinham abandonado um abrigo e um gorro. Marcelino pediu licença para uniformizar o espantalho de republicano. O Procurador Rivera deu-lha. Que acontece quando o homem é obrigado a retroceder pelo caminho da besta? Que sucede quando nas fronteiras do seu infortúnio, devolvido ao seu terror de carnívoro acossado, o homem deve escolher entre voltar a ser animal ou encontrar a centelha de uma grandeza? Fortunato tinha razão: retroceder ali era bater nas nuvens com o cu. [...] Assim estando as coisas, uma manhã, Guillermo, o Cumpridor, se deteve na encruzilhada do caminho entre Cerro de Pasco e Rancas, Guillermo, o Cumpridor, desceu do jeep. Instantaneamente se congelou uma coluna de pesados caminhões repletos de guardas de assalto. Nesse lugar, mais ou menos cinquenta mil dias antes, outro chefe deteve a sua tropa: o General Bolívar, na véspera da Batalha de Junín, livrada nesse altiplano. Minutos mais, minutos menos, quase à mesma hora, Bolívar contemplou os verdosos telhados de Rancas. [...] O velho corria que corria. Oito guerras perdidas com o estrangeiro; mas, em compensação, quantas guerras ganhas contra os próprios peruanos? Ganhamos a guerra não declarada contra os índios de Huancané: quatro mil mortos. Não figuram nos textos. Constam, em compensação, os sessenta mortos do conflito de 1866 com a Espanha. [...] O velho divisou os telhados de Rancas. Parou junto a um penhasco. Cinquenta mil dias antes o General Bolívar tinha-se detido ali: na manhã da sua entrada em Rancas. Bolívar queria Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Que engraçado! Deram-nos Infantaria, Cavalaria, Artilharia. Fortunato avançou, afogando-se na ruazinha. No gesso da sua cara viram a desgraça. - Já vêm. A Guarda de Assalto está chegando! [...] Quem falou foi Fortunato. - A que se deve a visita, meu alferes? - Há uma ordem de expulsão. Vocês invadiram a propriedade alheia. Temos ordem de despejá-los. Vão embora! Vão embora agora mesmo! - Não podemos sair desta terra, meu alferes. Nós somos daqui. Nós não invadimos nada. Outros nos invadem... - Têm dez minutos para irem embora. O uniforme voltou à fila parda. - É a Cerro de Pasco que nos invade, meu alferes. Os gringos nos cercam e nos perseguem como ratos. A terra não é deles. A terra é de Deus. Eu conheço bem a história da Cerro. Ou será que trouxeram a terra no ombro? [...] Nestes lugares nunca houve cercas, meu alferes. Nós nunca soubemos o que era um muro. Desde os nossos avós, e até antes, nem cadeados conhecemos até que chegaram esses gringos de merda. Eles é que trouxeram cadeados. E não foi só cadeados. Eles... [...] Nos tratam como animais. Nem nos falam. Se nos queixamos, não nos vêem; se protestamos... Eu me queixei ao prefeito. Eu levei os carneiros, meu alferes. Que diz? O alferes tirou vagarosamente o seu revólver. - Já não falta nada- disse, e atirou. Uma debilidade universal destituiu a raiva. Fortunato sentiu que o céu desabava. Para defender-se das nuvens ergueu os braços. A terra se abriu. Tentou agarrar-se nas ervas, à margem da escuridão vertiginosa, mas os seus dedos não obedeceram e rodopiou, sufocado, até o fundo da terra. [...].
Trecho do romance Bom dia para os defuntos ou Rufam tambores por Rancas (Civilização Brasileira, 1970), do romancista e poeta peruano Manuel Scorza (1928-1983), o primeiro volume da pentalogia La guerra silenciosa, narrando a luta dos camponeses andinos contra os latifundiários e uma mineradora estadunidense durante as décadas de 1950 e 1960, no Peru. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escritora, professora e artista Teresinha Soares. 
Veja mais aqui.

AGENDA
Congresso de Literatura Fantástica de Pernambuco (8º CLIF-PE), a ocorrer nos dias 30 e 31 de outubro e 01 de novembro de 2018, com o tema “A metamorfose na literatura fantástica”, promoção de Belvidera – Núcleo de Estudos Oitocentistas, grupo de pesquisa do Departamento de Letras da UFPE /CNPq & muito mais na Agenda aqui.
&
Uma coisa e outra mais, Franz Kafka, Jean Cocteau, Gilles Deleuze & Félix Guattari, Michel Foucault, Tanussi Cardoso, Margaret Dyer, Tom Zé, Sonia Maria Vieira, Isao Tomita & Cristina Azuma aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da cantora estadunidense Jane Monheit: Live at the Rainbow Room, Taking a change on love, Jazzwoche Burghausen & The Best Greatest Hits & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.


terça-feira, outubro 31, 2017

KEATS, ANA PAULA TAVARES, ELIANE POTIGUARA, PINTANDO NA BIBLIOTECA & CANHOTINHO

CONTANDO HISTÓRIA – Um dia lá desses de tempos eleitorais, Zé Peiúdo armando das suas, resolveu partir com tudo pra cima de Zé-Corninho, numa campanha difamatória daquelas de arrasar a reputação, os antepassados, a vida pregressa e os álbuns de fotografias e das lembranças, não sobrando nadinha da dignidade nem fiapo que fosse do restinho de respeito, tudo melecado na maior das baixarias. Como diziam os desafetos: o cara arriou a lenha pra cima do gaiúdo de não deixar nem os cambitos em pé, enterrado e lascado de todo. Não satisfeito, o detrator deu de caprichar ainda mais nas diversas formas de difamação, angariando plateia só pra ver o estrupício meter a ripa nos costados do coitado. O negócio empenou quando o infame algoz contratou a peso de ouro um plumitivo metido a orador que sapecava uns textos para lá de rebuscados, descascando a moral do opositor, misturando dizeres com ofensas cabeludas daquelas de arrepiar até o capeta. Logo Zé Peiúdo se danava a decorar frases e sentenças, a ponto de na horagá misturar as bolas, os alhos, olhos e bugalhos, de se enrolar todo pra no final baixar o calão. Pronto. Quando não dava na maior embrulhada, findava dando mesmo pra risadagens. A cada discurso dava um nó na língua de quase não conseguir balbuciar mais nada. Foi aí que o tirocínio entrou em cena: melhor mesmo era botar o dito orador pra sapecar as ripadas pra valer, aí sim, ia valer no sério e vingar de vez. Assim foi. Babaovice na área, Zé Peiúdo exaltou-se e anunciou o testemunho que ia descascar a alma sebosa do Zé-Corninho, e num puxavanque trouxe a figura pra cena com o seu depoimento bombástico. No começo ele pegou leve com uns remoques bastantemente incisivos, caindo numa discurseira exaltada daquelas de estremecer até as estrelas do céu, ninguém entendendo nada: que língua é essa que o orador está falando, hem? Quem lá sabia! O cara aos autoelogios, informando uma a uma das suas titulações, pós-graduações, serviços prestados – Zé Peiúdo na dele só ruminando: Esse cara quer aparecer mais que eu, é? -, participação em academais, colegiados, clubes de serviços, associações literárias e científicas, quando Zé Peiúdo cutucou cochichando: Vamos aprumar a conversa nos safanões contra o sujeito! Mais virou-se na capota choca, saiu criticando a gestão pública, os chatos de galochas, os mata-burros, os catombos da estrada, os esgotos a céu aberto, o papagaio do pirata, a bosta do cavalo do bandido, os filhos-da-peste, os ingrizientos, os bajuladores e, quando não tinha mais de quem falar, meteu as catanas dos desaforos no próprio Zé Peiúdo: Está vendo esse homem, este aqui, este mesmo, o Zé Peiúdo, é o maior filho da puta da paríquia e quem for corno é que vota nele! Tenho dito! Aí o pau cantou, foi tabefe no maluvido até umas horas. Depois de muita munhecada na lata do sujeito, Zé Peiúdo virou-se pros presentes e gritou: Comigo é assim, cagou fora do caco ou abriu da vela, é corretivo no pé do maluvido pra aprender é pau pra lamber sabão e cacete pra saber que sabão não se lambe! Tenho dito. O resto vocês já sabem. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música da violinista Elisa Fukuda: Sonata para violino & piano Debussy, Sonata em sol maior Beethoven & Brandeburg Concert Bach; a arte musical do Duo Fênix – dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer; Cuban Guitar 1 e 3 e de Bach aos Beatles; do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer; e o JazzWoche Burghausen com as canções Dindi de Jobim e Rio de Maio de Ivan Lins, da cantora estadunidense Jane Monheit, com participação de Johnny Mathis & Ivan Lins. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - O único meio de fortalecer o intelecto é não ter uma opinião rígida sobre nada – deixar a mente ser uma estrada aberta a todos os pensamentos. Pensamento do poeta do Romantismo inglês John Keats (1795-1821). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CANHOTINHO - Faixa situada na área de ação dos quilombos palmarinos, Canhotinho teve seu povoamento retardado – datando, possivelmente, de fins do séc. XVIII -, de formação assim, relativamente recente. Nada obstante, porém, marcadas por este traço de quase contemporaneidade, são origens nebulosas, dificultando o esforço esclarecedor dos analistas e pesquisadores, ante a carência de dados capazes de fixar roteiros válidos que permitam deslindar a meada. [...] quase infinitesimal da mesma sesmaria de 1671 [...] para ser explorada diretamente e com exclusividade e daí ter o proprietário operado nos diástoles, dividindo-a em vários sítios autônomos – Murici, Pestana, Limão, Palmeira, Muquem, etc. – alienados a terceiros, ficando apenas, com o das Tabocas e o do Canhoto, onde teria fixado, construindo, ali, como dos costumes, uma capelinha, dedicada a São Sebastião. [...] Até os meados de 1800, porém, o Canhoto – nome insistamos resultante do sitio que atravessava a região ou, aceitando-se a tradição divulgada por Pereira da Costa, do apelido do proprietário – seria simples “sítio! Ou fazenda – também vulgarmente chamada Volta, em razão da curva da corrente fluvial, tributária do Mundaú, em Alagoas, restando em abono deste ponto de vista, elemento comprobatório de peso. [...] não falando mais em sítio, mas em povoação da Volta, da Volta do Canhoto, e, nos fins do século, Canhotinho. [...]. Trechos extraídos da obra Canhotinho: notas sobre suas origens e evolução política (CEHM, 1982), do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984). Veja mais aqui e aqui.

METADE CARA, METADE MÁSCARA – [...] No dia que eu conseguir abrir as páginas de minh’alma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou ódios, no céu ou na terra – aí sim, aí sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado há cinco séculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, não pagam o sangue derramado pelas bisavós, avós, mães e filhas indígenas deste país. Este dia certamente chegará, mesmo que eu esteja em outros planos. [...] Trecho extraído da obra Metade cara, metade máscara (Global, 2004), da escritora, professora, ativista e empreendedora indígena Eliane Potiguara. Veja mais aqui.

EX-VOTO - No meu altar de pedra / arde um fogo antigo / estão dispostas por ordem / as oferendas / neste altar sagrado / o que disponho / não é vinho nem pão / nem flores raras do deserto / neste altar o que está exposto / é meu corpo de rapariga tatuado / neste altar de paus e de pedras / que aquí vês vale como oferenda / meu corpo de tacula / meu melhor penteado de missangas. Poema extraído da obra O lago da lua (Caminho, 1998), da poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares. Veja mais aqui.

LUCIAH LOPES & A RESISTÊNCIA DOS VERSOS
Com a poeta Luciah Lopes no lançamento do livro A resistência dos versos de Zé Ripe. Veja mais aqui.

Veja mais:
Zé Peiúdo & Zé Corninho aqui.
A poesia de Carlos Drummond de Andrade aqui.
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EXPOSIÇÃO PINTANDO NA PRAÇA
Recepcionando a estudantada durante a exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, com o poeta e artista plástico Paulo Profeta. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

quarta-feira, setembro 20, 2017

OSMAN LINS, HÖLDERLIN, EDWARD SAID, CHAMISSO, BASQUIAT, RAYMOND ELSTAD & BIRITOALDO

MAS O QUE É QUE É ISSO, MINHA GENTE? - Imagem: arte do grafiteiro e artista visual estadunidense Jean-Michel Basquiat (1960-1988) - Jerrynaldo já tinha esse nome antes mesmo de nascer, mas não pegou. Era que a mãe dele, D. Cisaltinha era fã do cantor e queria por que queria que o nome do filho fosse uma homenagem ao ídolo da sua predileção. Já o pai, Inaldão do Inaldo, queria que o seu nome fosse perpetuado na vez do primogênito, não abrindo mão disso de jeito nenhum. Essa a razão pela qual a gravidez fora bastante recheada de animosidades de ambas as partes, passando da conta por empurrões, xingamentos e outros desaforos, a ponto de, no meio da maior arenga, o rebento nascer antes da hora. No meio do deixa disso, o bruguelo saiu calado na confusão, tendo de ser obrigado a abrir o berreiro para dar sinal de vida. De palmadas findou levando uma pisa e passar mais de hora berrando. Infelizmente foi logo enjeitado pela mãe: - Vixe! Isso nem parece ser gente, tem cara do coisa ruim! O pai, deixando por menos, relevou: - Tem nada não, melhor parecer com o satanás, assim será cabra macho feito o pai. E ela: - Pelo jeito, puxou ao pai mesmo! Cagado e cuspido. Só que mais feioso que o genitor que já não era lá grande coisa pela feiúra. Assim o menino foi crescendo, Satanás pra lá e pra cá, dando demonstrações dos seus maus bofes e jus ao seu apelido. Quando aprumou na adolescência, ele já se assinava Jerrynaldo Satanás, partindo prumas escapulidas fortuitas no arrepio da lei: de afanações bestas às deliquências mais arrepiadas, conseguia se safar amealhando trocados e antipatias. Para se limpar, entrou pra polícia noutra cidade, em Ribigudo, e logo, ao cabo de alguns anos, virou sargento, orgulho do pai, coitado, desconhecedor das façanhas delituosas do fardado. Sempre escapava das mãos da justiça porque, brincando de tiro ao alvo em ser vivente passante, sempre acorria aos perdões nos pés do santo de sua devoção: São Benedito. Parecia mais que o santo segurava suas pontas, deixando-o sempre impune. Como restara ileso em tudo, jurou fidelidade ao devotado e virou praticante religioso, a ponto de formar o Terço dos Homens na paróquia de Alagoinhanduba. Toda quinta, ele lá perfilado, Jerrynaldo santificado. Até que um dia lá, dirigindo sua fubica para o encontro religioso das quintas, no meio do caminho o mandú teve um troço, de deixá-lo na mão. E agora? Eis que um mecânico passava assobiando e foi recrutado pela autoridade pra lá de abusiva, intimando-o pro conserto imediato. Como não havia jeito pra pacutia da borreia, deixou tudo acertado com o profissional, enquanto seguia a pé pro compromisso inadiável de sempre. Aprumou e saiu às carreiras, chegando atrasado, mas logo se inteirando dos afazeres, tomando pé da situação no ato. No auge das orações, aparece o mecânico na porta da igreja: - Satamás ta aí? Vixe, foi o maior desembesto, fuga em massa dos presentes. Jerrynaldo botou as mãos à cabeça e dirigiu-se até o visitante, dizendo que o nome dele era Jerrynaldo e coisa e tal, e o cara, Ô Satanás, me desculpe, é que o carro tá embroncado, não tem conserto não, meu nome é Jerrynaldo, sim, Satanás, a coisa tá feia lá, num pega nem com reza forte nem milagre de deus ou do diabo, eu já lhe disse meu nome, não é pra me chamar assim não, ah, tá, desculpe, Satanás, mas o seu bregueço lá pifou de vez. Nessa ia saindo o Doro que estava ali pela primeira vez para angariar alguns votinhos pra sua eleição a vereador, ficou sem entender direito o acontecido, saindo acabrunhado com o ocorrido. Foi, então, que Jerrynaldo interpelou: - Perái, meu amigo, vou com você. Doro olhou pra ele dos pés à cabeça, fitou direito e disse: - Deixa pra lá, já estou muito bem acompanhado sozinho, fique com Deus, ou com o tinhoso, como quiser. E zarpou. Doro deu dois passos e depois pegou carreira com mais de mil, ao dobrar a esquina, quase sem fôlego do esforço despendido, encontrou os outros membros do Terço dos Homens que logo perguntaram: - E aí, você viu que coisa? É sério. Como é que pode? Sei não. E aí, a gente se encontra na próxima quinta? Mas o que é que é isso, minha gente? Deus me livre, se na igreja o coisa ruim já tá dentro, que é que vou fazer lá? Assim num dá preu me eleger vereador de jeito nenhum. Tá doido? Tô fora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com Sonatas de Debussy e Beethoven & Brandeburg Concert Bach, da violonista e pedagoga Elisa Fukuda; a arte musical do Duo Fênix –  dos pianistas Cláudio Dauelsberg & Délia Fischer; Cuban Guitar 1 e 3 e de Bach aos Beatles, do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer; e o JazzWoche Burghausen com as canções Dindi de Jobim e Rio de Maio de Ivan Lins, da cantora estadunidense Jane Monheit, com participação de Johnny Mathis & Ivan Lins. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Mas você, meu amigo, se deseja viver entre os homens, aprenda em primeiro lugar respeitar a sombra – somente então o dinheiro. Mas se quiser viver apenas para si e para o que há de melhor no seu interior, então não precisa de nenhum conselho [...]. Trecho extraído da obra A história maravilhosa de Peter Schlemihl (Estação Liberdade, 2003), do botânico e poeta do romantismo alemão, Adelbert Von Chamisso (1781-1838).

EXÍLIO & EXILADOS – [...] O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre. [...] O exílio, ao contrário do nacionalismo, é fundamentalmente um estado de ser descontínuo. Os exilados estão separados das raízes, da terra natal, do passado. Em geral, não têm exércitos ou Estados, embora estejam com frequência em busca deles. Portanto, os exilados sentem uma necessidade urgente de reconstituir suas vidas rompidas e preferem ver a si mesmos como parte de uma ideologia triunfante ou de um povo restaurado. O ponto crucial é que uma situação de exílio sem essa ideologia triunfante—criada para reagrupar uma história rompida em um novo todo — é praticamente insuportável e impossível no mundo de hoje. Basta ver o destino de judeus, palestinos e armênios. [...] Os exilados olham para os não-exilados com ressentimento. Sentem que eles pertencem a seu meio, ao passo que um exilado está sempre deslocado. Como é nascer num lugar, ficar e viver ali, saber que se pertence a ele, mais ou menos para sempre? [...] Grande parte da vida de um exilado é ocupada em compensar a perda desorientadora, criando um novo mundo para governar. Não surpreende que tantos exilados sejam romancistas, jogadores de xadrez, ativistas políticos e intelectuais. Essas ocupações exigem um investimento mínimo em objetos e dão um grande valor à mobilidade e à perícia. O novo mundo do exilado é logicamente artificial e sua irrealidade se parece com a ficção. [...] O exilado sabe que, num mundo secular e contingente, as pátrias são sempre provisórias. Fronteiras e barreiras, que nos fecham na segurança de um território familiar, também podem se tornar prisões e são, com freqüência, defendidas para além da razão ou da necessidade. O exilado atravessa fronteiras, rompe barreiras do pensamento e da experiência. [...] Para o exilado, os hábitos de vida, expressão ou atividade no novo ambiente ocorrem inevitavelmente contra o pano de fundo da memória dessas coisas em outro ambiente. Assim, ambos os ambientes são vívidos, reais, ocorrem juntos como no contraponto. Há um prazer específico nesse tipo de apreensão, em especial se o exilado está consciente de outras justaposições contrapontísticas que reduzem o julgamento ortodoxo e elevam a simpatia compreensiva. Temos também um sentimento particular de realização ao agir como se estivéssemos em casa em qualquer lugar. Contudo, isso apresenta seus riscos: o hábito da dissimulação é cansativo e desgastante. O exílio jamais se configura como o estado de estar satisfeito, plácido ou seguro. Nas palavras de Wallace Stevens, o exílio é "uma mente de inverno" em que o páthos do verão e do outono, assim como o potencial da primavera, estão por perto, mas são inatingíveis. Talvez essa seja uma outra maneira de dizer que a vida do exilado anda segundo um calendário diferente e é menos sazonal e estabelecida do que a vida em casa. O exílio é a vida levada fora da ordem habitual. É nômade, descentrada, contrapontística, mas, assim que nos acostumamos a ela, sua força desestabilizadora entra em erupção novamente. Trechos extraídos da obra Reflexões sobre o exílio e outros ensaios (Companhia das Letras, 2003), do intelectual, crítico literário e ativista palestino Edward Said.

A PROFISSÃO DO ESCRITOR – [...] Escrever, para mim, é um meio, o único de que disponho, de abrir uma clareira nas trevas que me cercam. Neste sentido é que eu disse, ainda há pouco, escrevo antes de tudo para mim. Sem experiência, decerto, não há conhecimento. Contudo, pelo menos no meu caso, mesmo o conhecimento obtido pela experiência é desordenado e informe. Só o ato de escrever me permite sua ordenação; portanto, escrever se me apresenta como a experiência máxima, a experiência das experiências. Minha salvação, meu esquadro, meu equilíbrio [...]. Trecho extraído da obra Evangelho na taba & outros problemas inculturais brasileiros (Summus, 1977), do escritor e dramaturgo Osman Lins (1924-1978). Veja mais aqui e aqui.

O POEMA CONCISO DE HÖLDERLIN - Porque és tão curto? Já não amas, como noutros / Tempos, o cântico ? Nesse tempo, ainda jovem, / Quando em dias de esperança cantavas, / Nunca encontravas o fim. / Como a minha sorte, assim é minha canção. Queres-te / banhar, feliz, no pôr do Sol? Já passou! E a / Terra é fria e o pássaro da noite sibila, / Incômodo, perante os teus olhos. Poema do poeta lírico e romancista alemão Joham Hölderlin (1770-1843). Veja mais aqui.

PROEZAS DO BIRITOALDO
Veja as últimas presepadas do Biritoaldo aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo estadunidense Raymond Elstad.
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terça-feira, fevereiro 23, 2016

NERUDA, WOOLF, CUNNINGHAM, TOURAINE, MONHEIT, STANDISH & LITERÓTICA


 


A DEUSA QUE SE FEZ RAINHA PARA SER SÚDITA DA NOITE – Ela emergiu ignota com toda pompa celestial de deusa radiante a ensolarar as trevas com as trombetas de sua fulgurante sedução e a levitar dançante pronta para a celebração de sua glória divina. Aterrissou magnânima rainha com reverência de saudar exclusivo súdito compungido pela comunhão de seu majestoso poder. Desceu em câmara lenta pelos degraus suntuoso do seu trono e a mim se encaminhou como se reconhecesse os méritos de fiel escudeiro, a lançar sua mão sobre meu ombro, contemplado na cerimônia. Tomou-me de pé para receber a sua comenda ilustre e ela dispensou o manto e a coroa, removeu as cobertas de sua elegância, revelando-se com uma lingerie transparente na oferenda de sua nudez soberana. E diante de mim fraquejou vulnerável prostrada, e fixou seu olhar sobre meu sexo e o elegeu panteão de sua deidade, tonando-se fiel monja discípula, súdita destronada a render homenagem com suas carícias a deificá-lo. Alisando-o terna e apaixonada, como se cuidasse de bem preciosíssimo, tomou entre as mãos, apalpando-o meticulosa, a mimá-lo com seus afagos, magia de felatriz nos feitiços de boca, lábios e língua. E me fez imortal com sua gula desenfreada, e me investiu entronizado pelo sobejo de sua saliva caudalosa, e me tomou por dono com suas insaciáveis abocanhadas, e levou-me ao ápice de seu poderio milenar, quando no clímax do meu estertor, quedou convidativa, portas escancaradas, amplidão por conquistar: Vem! E a ventania do seu ventre tragou-me priápico, ao repouso de seus seios fartos, com todos os prados e arrebóis infinitos de sua sinuosidade abissal. Doou-me a botija repleta com todos os tesouros exultantes, como quem premia o vencedor com todos os galardões de seus gozos e orgasmos perenes. Assim nela eu sou. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Há um esgotamento dos modelos políticos, e eu acho que a responsabilidade dos intelectuais nisso é muito grande, porque, em uma país como a França ou a Itália, um pouco no Brasil, muito na Argentina, na Venezuela e em outros países, os intelectuais fizeram a política do pior... Nós não podemos sobreviver às mudanças atuais sem ideias novas de uma maneira que corresponda à realidade e que inspire confiança. Então, o que eu diria hoje do mundo ocidental é que essas doenças são bem menos doenças da mão, das pernas ou dos pés, do que são da cabeça. Em outras palavras, se eu assumo uma posição radical ou até excessiva sobre a situação, dizendo que há todo um sistema que ruiu do ponto de vista econômico, é preciso ver que o grande obstáculo hoje em dia – como eu dizia, um pouco para o Brasil, mas muito mais para os europeus – é a renovação das idéias e do pessoal, dos políticos, dos intelectuais, dos sindicatos, de tudo...

Pensamento do sociólogo francês Alain Touraine (1925-2023). Veja mais aqui & aqui.

 

SENHORA DALLOWAY – [...] ela tinha a constante sensação de estar muito, muito longe no mar, sozinha; sempre tinha a impressão de que era muito, muito perigoso viver sequer um dia. [...] Qual a importância do cérebro em comparação com o coração? [...] É possível que o próprio mundo seja desprovido de significado. [...] Ela acreditava que não existiam deuses; que ninguém era culpado; e assim desenvolveu essa religião ateísta de fazer o bem pela bondade em si. [...] É uma grande pena nunca poder dizer o que se sente. [...] Amar torna a pessoa solitária. [...] Beleza, parecia dizer o mundo. E como que para provar isso (cientificamente), onde quer que ele olhasse — para as casas, para as grades, para os antílopes esticados sobre as cercas —, a beleza surgia instantaneamente. Observar uma folha tremulando na corrente de ar era uma alegria requintada. Lá no céu, andorinhas mergulhavam, desviavam, lançavam-se para dentro e para fora, em círculos, sempre com perfeito controle, como se elásticos as sustentassem; e as moscas subiam e desciam; e o sol, ora tingindo esta folha, ora aquela, em tom de zombaria, ofuscando-a com um dourado suave, em puro bom humor; e ora, novamente, um sino (talvez uma buzina de carro) tilintando divinamente nos talos de grama — tudo isso, calmo e racional como era, feito de coisas comuns como era, era a verdade agora; a beleza, essa era a verdade agora. A beleza estava em toda parte. [...] Foi um sonho bobo, muito bobo, esse de ser infeliz. [...] Aqui a vida parou. [...]. Trechos extraídos da obra Mrs. Dalloway (Houghton Mifflin Harcourt, 2002), da escritora, ensaista e editora britânica Virginia Woolf (Adeline Virginia Woolf, nascida Stephen – 1882-1941). A obra foi pro cinema em 1997, como um drama dirigido por Marleen Gorris e estrelado por Vanessa Redgrave. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AS HORAS – […] Existe beleza no mundo, embora seja mais cruel do que imaginamos. [...] Não se encontra a paz evitando a vida. [...] Damos nossas festas; abandonamos nossas famílias para viver sozinhos no Canadá; lutamos para escrever livros que não mudam o mundo, apesar de nossos talentos e esforços incansáveis, nossas esperanças mais extravagantes. Vivemos nossas vidas, fazemos o que fazemos e depois dormimos. É tão simples e comum quanto isso. Alguns se atiram de janelas, ou se afogam, ou tomam pílulas; outros morrem em acidentes; e a maioria de nós é lentamente devorada por alguma doença ou, se tivermos muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas isso como consolo: uma hora aqui ou ali em que nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, explodir e nos dar tudo o que sempre imaginamos, embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas), saibam que essas horas serão inevitavelmente seguidas por outras, muito mais sombrias e difíceis. Ainda assim, prezamos a cidade, a manhã; esperamos, mais do que tudo, por mais. Só Deus sabe por que a amamos tanto... [...] A beleza é uma prostituta, eu prefiro dinheiro. [...] Lembro-me de uma manhã em que acordei ao amanhecer. Havia uma sensação tão grande de possibilidades. Sabe, aquela sensação. E eu... lembro-me de pensar: Então este é o começo da felicidade, é aqui que tudo começa. E, claro, sempre haverá mais... nunca me ocorreu que não fosse o começo. Era a felicidade. Era aquele momento, ali mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra As horas - The Hours (Companhia das Letras, 1998), do escritor estadunidense Michael Cunningham, obra que foi levada ao cinema em 2002, um drama dirigido por Stephen Daldry, roteiro de David Hare e estrelado pelas atrizes Streep, Moore e Kidman. Veja mais aqui.

SURRENDER – Curtindo o álbum Surrender (2007), da cantora estadunidense Jane Monheit, com nítidas influências da música brasileira. Veja mais aqui, aquiaqui.


OS ERÓTICOS POEMAS DE PABLO NERUDA

CAVALHEIRO SÓ

Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
E as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
E as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
E os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
Como um colar de palpitantes ostras sexuais
Rodeiam minha casa solitária,
Inimigos jurados de minha alma,
Conspiradores em traje de dormir,
Que trocaram a senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
Em uniformes regimentos melancólicos
Feitos de gordos magros e alegres tristes pares:
Sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
Há uma vida continua de calças e galinhas,
Um rumor de meias de seda acariciadas,
E seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
Depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
Seduziu sua vizinha inapelavelmente
E a leva agora a cinemas miseráveis
Onde os herois são porcos ou são príncipes apaixonados
E lhe acaricia as pernas, véu macio,
Com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro.

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
Se unem, dois lençóis que se sepultam,
E as horas de após almoço em que os jovens estudantes
E as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
E os animais fornicam sem rodeios
E as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
E os primos brincam de estranho jeito com as primas,
E os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
E as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
Cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
E inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
Sobre leitos altos, amplos como embarcações:
Seguramente, eternamente me rodeia
Este respiratório e enredado grande bosque
Com grandes flores e com dentaduras
E raízes negras em forma de unhas e sapatos.

OS TEUS PÉS

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

MULHER

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e
dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.


O INSETO

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um inseto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

PARA QUE ME OUÇAS

Para que me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto de gaivotas sobre as praias.
Colar, guizo ébrio
para as tuas maos suaves como as uvas.
E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

CUERPO DE MUJER

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

DORMI CONTIGO TODA NOITE

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.
Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.


PABLO NERUDA – Ricardo Eliezer Neftali Reyws Basoalto (1904-1973) ou simplesmente Pablo Neruda, é o poeta chileno que se tornou um dos mais importantes poetas da língua castelhana no século xx. Ele foi cônsul do Chile na Espanha e no Mexico. Foi eleito senador e ganhou o prêmio Nacional de Literatura em 1945, ano em que homenageia Luis Carlos Prestes lendo seu poema para 100 mil pessoas no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em 1953 recebeu o Premio Lenin da Paz. Em 1965 lhe foi outorgado o titulo de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã Bretanha. Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Entre outras coisas, sua vida inspirou o filme “O carteiro e o poeta”. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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