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quinta-feira, outubro 06, 2016

MURASAKI SHIBUKU, IAMAMOTO, TOURAINE, KOELLREUTER & VILLAFRANCA, NIETZSCHE, LIBÂNEO & EDUCAÇÃO, SOTERO, OZON, CARLOS SCLIAR, EDUARDO RAMIREZ, JUAN ESTEVES & AS MENINAS DO CONTO


INEDITORIAL: JUDICIALIZAÇÃO DO SUS - Salve, salve, gentamiga! Pra quem não tem nem onde cair morto, pra que saúde mesmo, hem? Isso é o que os políticos querem da gente: que morramos do coração antes de precisar dos serviços da saúde pública – claro, todos eles possuem planos de saúde! Além do mais, tudo no Brasil é feito pra matar a gente do coração mesmo e a qualquer momento. Adoeceu é pra bater as botas e ir pro saco, pois, se procurar medicamento no posto de saúde, não tem! Pudera, no outro dia a gente vê no noticiário que o município não prestou contas ao Ministério da Saúde da distribuição de xis remédios e, com isso, está suspensa a distribuição. Só que dias depois vem a denúncia pelo noticiário de que foi desviado milhões em frascos que deveriam servir a um monte de gente necessitada e acometida de enfermidades crônicas e que a investigação vai apurar os responsáveis – não tem quem apareça como culpado, deve ter ido parar ou nas farmácias, ou pra quem não precisa! Quando não é isso, se procura atendimento no SUS só daqui a meses e meses de espera, quando não só no ano que vem. O estrupício da saúde pública brasileira tem levado a um procedimento jurídico que já é conhecido por judicialização do SUS, ou seja todo mundo agora achou o mapa da mina: recorrer à Justiça para ser atendido. Finalmente! A máquina emperradíssima do Estado, a maior fabricante de disfunções burocráticas e ineficiência generalizada, agora paga dobrado para atender o cidadão e com ordem judicial. Pra quem não tem o menor respeito pela vida humana, pelo menos, a Justiça nisso tem sido eficiente: no final quem paga a conta mesmo somos nós, né não? E dobrado. Mas destá, ta na hora da gente ir pras novidades do dia: a música de Koellreuter na interpretação de Sérgio Villafranca, a Gaia Ciência de Nietzsche, os objetivos da educação de Alain Rouraine & a educação escolar, os Contos de Genji, o trabalho profissional de Marilda Iamamoto, a escultura de João Sotero, o filme de Frances François Ozon, o Congresso de Logoterapia, a arte de Renina Katz, a charge de Latuff, a ilustração de Carlos Scliar, o teatro das Meninas do Conto, a fotografia de Eduardo Ramirez & Juan Esteves. No mais, vamos aprumar a conversa aqui.

Veja mais sobre
Manchetes do dia de sempre, Elsworth F. Baker, Guilherme de Almeida, Wesley Ruggles, Peter Fendi, Romero Britto, Mácleim, Samara Felippo & Carole Lombard aqui.

E mais:
A Primavera de Ginsberg, Libelo & Anátema aqui.
Big Shit Bôbras: liderança, a segunda emboança aqui.
Teibei, a batida aqui.
Big Shit Bôbras: carnaval, a terceira emboança aqui.
História do cinema aqui.

DESTAQUE: O TRABALHO PROFISSIONAL - [...] requisita um profissional culto e atento às possibilidades descortinadas pelo mundo contemporâneo, capaz de formular, avaliar e recriar propostas ao nível das políticas sociais e da organização das forças da sociedade civil. Um profissional informado, crítico e propositivo, que aposte no protagonismo dos sujeitos sociais. Mas também um profissional versado no instrumental técnico-operativo. [...]. Trecho extraído da obra O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional (Cortez, 2001), da escritora, socióloga e assistente social, Marilda Villela Imamoto. Veja mais aqui e aqui.

UMA MÚSICA: 
Curtindo Acronon (Documenta Vídeo Brasil, 2000), do compositor, professor e musicólogo brasileiro de origem alemã Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005), na interpretação do pianista, compositor, performer, coordenador musical e professor Sérgio Villafranca, com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, sob a regência do maestro Antônio Borges-Cunha. PS: Acronon deriva do grego, em que “cronos” significa tempo e “a” o alfa privativo que não nega, mas dá margem à superação, à transcendência.

OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO (Imagem: charge do Latuff)- [...] é preciso dar à educação dois objetivos da mesma importância: por um lado, a formação da razão e da capacidade da ação racional; por outro, o desenvolvimento da criatividade pessoal e do reconhecimento do outro como sujeito. O primeiro objetivo é o mais próximo dos ideais anteriores (refere-se à cultura da ilustração e do espírito republicano) e deve ser protegido; o conhecimento deve continuar no coração da educação, e não há nada mais irrisório e negasto que um programa que desse vantagem, tanto á socialização pelo grupo de pares, dos colegas, como a resposta às necessidades da economia. Da mesma forma que é preciso recusar uma concepção puramente racionalista do homem e da sociedade, devemos também nos opor a toda desvalorização da razão. A luta sem fim contra a aliança da razão e do poder quer, antes de mais nada, salvar a razão e preparar sua aliança com a liberdade [...]. Trecho extraído da obra O que é democracia? (Vozes, 1996), do sociólogo francês Alain Touraine, que propôs a sociologia da ação nos estudos dos movimentos sociais, defendendo que a sociedade molda o seu futuro através de mecanismos estruturas e das suas próprias lutas sociais. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PERNSAMENTO DO DIA: A EDUCAÇÃO ESCOLAR - [...] Discutir sobre a profissionalização significa refletir sobre a afirmação do espaço educativo, buscando a identidade profissional dos docentes, dos especialistas e dos funcionários da educação, a fim de debater sobre a totalidade do ato educativo, sobre as relações que estabelecem no interior da escola, na atual conjuntura educacional, ante as aceleradas mudanças sociais, culturais, científico-tecnológicas, políticas e econômicas do país. Há um complexo vínculo coletivo entre os diversos agentes que atuam na escola. Compreender essa complexidade significa ampliar a concepção do papel histórico e cultural da instituição no mundo contemporâneo e buscar definir a identidade profissional de cada um desses agentes. [...]. Trecho extraído do livro Educação escolar: políticas e estrutura e organização (Cortez, 2003), de José Carlos Libâneo, João Ferreira Oliveira e Mirza Seabra Toschi, apresentando as b ases conceituais para uma análise dos aspectos sociopolíticos, históricos, legais, pedagógico-curriculares e organizacionais da educação escolar brasileira e da organização e gestão da escola, dos contextos em que os profissionais da educação exercem suas atividades. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CONTOS DE GENJI (Imagem: Utagawa Kunisada, Genji of the East - Charm of Flowers and Birds, 1837). [...] Desde o início, a moça não possuía a aparência singela das damas de companhia que prestam serviço na corte. Era uma esplêndida mulher como as damas da corte de alta posição, sendo feita permanecer ao lado de Sua Majestade do início ao fim nas performances musicais e demais eventos da corte, para os quais era sempre a primeira a ser convocada. Havia ainda ocasiões em que após haver passado a noite servindo o Imperador, adormeciam até tarde, continuando a cortejá-lo após o despertar. Com isso, até então era por vezes vista com certa vulgaridade. No entanto, após o nascimento de seu filho, o segundo príncipe, passou a ser tratada com as formalidades e o respeito devidos. Em meio a isso, a mãe do primeiro príncipe ponderou: “é possível que essa criança acabe por se tornar o Príncipe Herdeiro no lugar de meu filho”. Esta nobre dama da corte havia sido a primeira a entrar para a corte, gozava de especial atenção do Imperador, junto a quem também já havia dado vida a princesas. Assim, ele sentia que não tinha condições de ignorar as reclamações dessa mulher e por vezes julgava-se culpado pelo tipo de ligação que mantinha com a outra moça. [...] Trecho extraído da obra Contos de Genji - Genji monogatari (Lenda de Genji), atribuída a poeta japonesa e dama de companhia da corte do período Heian, Murasaki Shibuku (973-1031), pseudônimo de Fujiwara Takako, composto de 54 livros que relatam a vida e os amores de um principie, com representações complexas dos personagens e descrições das emoções humanas.

POR QUE O MAR TANTO CHORA – O premiado espetáculo Por que o mar tanto chora, adaptação dos contos Dona Labismina, do escritor sergipano Silvio Romero e Bicho de Palha, do folclorista Luis da Câmara Cascudo, desenvolvido pelo grupo As Meninas do Conto, que trata sobre a história de uma rainha que queria muito ter um filho, porém, concebe uma menina, Maria, que nasce com uma cobra enrolada no pescoço e que, quando fica mocinha, um velho rei, muito rico, decide pedir Maria em casamento, fato que contrariada, ela parte para outro reino, em busca de sua felicidade. É considerada uma das versões da Cinderela Brasileira. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do escultor português João Sotero.

8 FEMMES – A comédia musical de suspense 8 Mulheres (2002), do diretor Frances François Ozon, é baseado na peça teatral homônima de Robert Thomas, conta a história de oito mulheres que vivem situações cômicas e inesperadas, quando o único homem da casa é assassinado no período natalido. A partir disso elas vivem momentos inusitados, presas em casa por causa de uma nevasca e passam a discutir umas com as outras acusando-se de assassinas e ao se iniciar as investigações, inúmeras revelações surpreendentes vão acontecendo. O elenco é de primeiro time, contando, entre elas com Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart e Fanny Ardant. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do fotógrafo espanhol Eduardo Ramirez.

AGENDA: VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE LOGOTERAPIA E ANÁLISE EXISTENCIAL – Acontecerá entre os dias 13 e 15/10, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís do Maranhão, a oitava edição do Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial, abordando o tema da unidade na diversidade humana, promovido pela Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial (ABLAE), visa proporcionar um grande encontro entre profissionais, pesquisadores e estudantes de Psicologia e áreas afins, comprometidos com a busca por respostas concretas aos desafios da sociedade contemporânea. Informações pelo fone (98) 9128-9660, pelo mail cientifico@ablae.org.br ou no site http://ablae.org.br. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] a crença na ciência, que agora está aí incontestavelmente, não pode ter tirado sua origem de um tal calculo utilitário, mas, antes, a despeito de lhe ter sido constantemente demonstrada a inutilidade e periculosidade da “vontade de verdade”, da “verdade a todo preço”. “A todo preço”: oh, nós o entendemos bastante bem, depois que oferecemos e trucidamos uma crença depois da outra sobre esse altar! – Consequentemente, “vontade de verdade” não quer dizer “eu não quero me deixar enganar”, mas sim – não há nenhuma escolha – “eu não quero enganar, nem sequer a mim mesmo”: - e com isso estamos no terreno da moral. Pois basta perguntar-se fundamentalmente: “Por que não queres enganar?”, especialmente se houvesse a aparencia – e há essa aparência – de que a vida depende de aparência, quero dizer, de erro, impostura, disfarce, cegamento, autocegamento, e se, por ouro lado, a grande forma da vida sempre se tivesse mostrado de fato, do lado mais inescrupuloso polypotroi. Um tal propósito poderia, talvez, interpretado brandamente, ser um quixotismo, um pequeno desatino entusiasta; mas poderia também ser algo ainda pior, ou seja, um princípio destrutivo, hostil à vida... [...].
Trecho extraído do Livro V – Em que medida nós também somos devotos ainda - , da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e gravurista Juan Esteves.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Paz na Terra: "Assine o apelo pela paz" (1952), do pintor, roteirista, desenhista e ilustrador Carlos Scliar.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


terça-feira, fevereiro 23, 2016

NERUDA, WOOLF, CUNNINGHAM, TOURAINE, MONHEIT, STANDISH & LITERÓTICA


 


A DEUSA QUE SE FEZ RAINHA PARA SER SÚDITA DA NOITE – Ela emergiu ignota com toda pompa celestial de deusa radiante a ensolarar as trevas com as trombetas de sua fulgurante sedução e a levitar dançante pronta para a celebração de sua glória divina. Aterrissou magnânima rainha com reverência de saudar exclusivo súdito compungido pela comunhão de seu majestoso poder. Desceu em câmara lenta pelos degraus suntuoso do seu trono e a mim se encaminhou como se reconhecesse os méritos de fiel escudeiro, a lançar sua mão sobre meu ombro, contemplado na cerimônia. Tomou-me de pé para receber a sua comenda ilustre e ela dispensou o manto e a coroa, removeu as cobertas de sua elegância, revelando-se com uma lingerie transparente na oferenda de sua nudez soberana. E diante de mim fraquejou vulnerável prostrada, e fixou seu olhar sobre meu sexo e o elegeu panteão de sua deidade, tonando-se fiel monja discípula, súdita destronada a render homenagem com suas carícias a deificá-lo. Alisando-o terna e apaixonada, como se cuidasse de bem preciosíssimo, tomou entre as mãos, apalpando-o meticulosa, a mimá-lo com seus afagos, magia de felatriz nos feitiços de boca, lábios e língua. E me fez imortal com sua gula desenfreada, e me investiu entronizado pelo sobejo de sua saliva caudalosa, e me tomou por dono com suas insaciáveis abocanhadas, e levou-me ao ápice de seu poderio milenar, quando no clímax do meu estertor, quedou convidativa, portas escancaradas, amplidão por conquistar: Vem! E a ventania do seu ventre tragou-me priápico, ao repouso de seus seios fartos, com todos os prados e arrebóis infinitos de sua sinuosidade abissal. Doou-me a botija repleta com todos os tesouros exultantes, como quem premia o vencedor com todos os galardões de seus gozos e orgasmos perenes. Assim nela eu sou. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Há um esgotamento dos modelos políticos, e eu acho que a responsabilidade dos intelectuais nisso é muito grande, porque, em uma país como a França ou a Itália, um pouco no Brasil, muito na Argentina, na Venezuela e em outros países, os intelectuais fizeram a política do pior... Nós não podemos sobreviver às mudanças atuais sem ideias novas de uma maneira que corresponda à realidade e que inspire confiança. Então, o que eu diria hoje do mundo ocidental é que essas doenças são bem menos doenças da mão, das pernas ou dos pés, do que são da cabeça. Em outras palavras, se eu assumo uma posição radical ou até excessiva sobre a situação, dizendo que há todo um sistema que ruiu do ponto de vista econômico, é preciso ver que o grande obstáculo hoje em dia – como eu dizia, um pouco para o Brasil, mas muito mais para os europeus – é a renovação das idéias e do pessoal, dos políticos, dos intelectuais, dos sindicatos, de tudo...

Pensamento do sociólogo francês Alain Touraine (1925-2023). Veja mais aqui & aqui.

 

SENHORA DALLOWAY – [...] ela tinha a constante sensação de estar muito, muito longe no mar, sozinha; sempre tinha a impressão de que era muito, muito perigoso viver sequer um dia. [...] Qual a importância do cérebro em comparação com o coração? [...] É possível que o próprio mundo seja desprovido de significado. [...] Ela acreditava que não existiam deuses; que ninguém era culpado; e assim desenvolveu essa religião ateísta de fazer o bem pela bondade em si. [...] É uma grande pena nunca poder dizer o que se sente. [...] Amar torna a pessoa solitária. [...] Beleza, parecia dizer o mundo. E como que para provar isso (cientificamente), onde quer que ele olhasse — para as casas, para as grades, para os antílopes esticados sobre as cercas —, a beleza surgia instantaneamente. Observar uma folha tremulando na corrente de ar era uma alegria requintada. Lá no céu, andorinhas mergulhavam, desviavam, lançavam-se para dentro e para fora, em círculos, sempre com perfeito controle, como se elásticos as sustentassem; e as moscas subiam e desciam; e o sol, ora tingindo esta folha, ora aquela, em tom de zombaria, ofuscando-a com um dourado suave, em puro bom humor; e ora, novamente, um sino (talvez uma buzina de carro) tilintando divinamente nos talos de grama — tudo isso, calmo e racional como era, feito de coisas comuns como era, era a verdade agora; a beleza, essa era a verdade agora. A beleza estava em toda parte. [...] Foi um sonho bobo, muito bobo, esse de ser infeliz. [...] Aqui a vida parou. [...]. Trechos extraídos da obra Mrs. Dalloway (Houghton Mifflin Harcourt, 2002), da escritora, ensaista e editora britânica Virginia Woolf (Adeline Virginia Woolf, nascida Stephen – 1882-1941). A obra foi pro cinema em 1997, como um drama dirigido por Marleen Gorris e estrelado por Vanessa Redgrave. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AS HORAS – […] Existe beleza no mundo, embora seja mais cruel do que imaginamos. [...] Não se encontra a paz evitando a vida. [...] Damos nossas festas; abandonamos nossas famílias para viver sozinhos no Canadá; lutamos para escrever livros que não mudam o mundo, apesar de nossos talentos e esforços incansáveis, nossas esperanças mais extravagantes. Vivemos nossas vidas, fazemos o que fazemos e depois dormimos. É tão simples e comum quanto isso. Alguns se atiram de janelas, ou se afogam, ou tomam pílulas; outros morrem em acidentes; e a maioria de nós é lentamente devorada por alguma doença ou, se tivermos muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas isso como consolo: uma hora aqui ou ali em que nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, explodir e nos dar tudo o que sempre imaginamos, embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas), saibam que essas horas serão inevitavelmente seguidas por outras, muito mais sombrias e difíceis. Ainda assim, prezamos a cidade, a manhã; esperamos, mais do que tudo, por mais. Só Deus sabe por que a amamos tanto... [...] A beleza é uma prostituta, eu prefiro dinheiro. [...] Lembro-me de uma manhã em que acordei ao amanhecer. Havia uma sensação tão grande de possibilidades. Sabe, aquela sensação. E eu... lembro-me de pensar: Então este é o começo da felicidade, é aqui que tudo começa. E, claro, sempre haverá mais... nunca me ocorreu que não fosse o começo. Era a felicidade. Era aquele momento, ali mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra As horas - The Hours (Companhia das Letras, 1998), do escritor estadunidense Michael Cunningham, obra que foi levada ao cinema em 2002, um drama dirigido por Stephen Daldry, roteiro de David Hare e estrelado pelas atrizes Streep, Moore e Kidman. Veja mais aqui.

SURRENDER – Curtindo o álbum Surrender (2007), da cantora estadunidense Jane Monheit, com nítidas influências da música brasileira. Veja mais aqui, aquiaqui.


OS ERÓTICOS POEMAS DE PABLO NERUDA

CAVALHEIRO SÓ

Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
E as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
E as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
E os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
Como um colar de palpitantes ostras sexuais
Rodeiam minha casa solitária,
Inimigos jurados de minha alma,
Conspiradores em traje de dormir,
Que trocaram a senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
Em uniformes regimentos melancólicos
Feitos de gordos magros e alegres tristes pares:
Sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
Há uma vida continua de calças e galinhas,
Um rumor de meias de seda acariciadas,
E seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
Depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
Seduziu sua vizinha inapelavelmente
E a leva agora a cinemas miseráveis
Onde os herois são porcos ou são príncipes apaixonados
E lhe acaricia as pernas, véu macio,
Com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro.

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
Se unem, dois lençóis que se sepultam,
E as horas de após almoço em que os jovens estudantes
E as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
E os animais fornicam sem rodeios
E as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
E os primos brincam de estranho jeito com as primas,
E os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
E as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
Cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
E inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
Sobre leitos altos, amplos como embarcações:
Seguramente, eternamente me rodeia
Este respiratório e enredado grande bosque
Com grandes flores e com dentaduras
E raízes negras em forma de unhas e sapatos.

OS TEUS PÉS

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

MULHER

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e
dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.


O INSETO

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um inseto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

PARA QUE ME OUÇAS

Para que me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto de gaivotas sobre as praias.
Colar, guizo ébrio
para as tuas maos suaves como as uvas.
E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

CUERPO DE MUJER

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

DORMI CONTIGO TODA NOITE

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.
Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.


PABLO NERUDA – Ricardo Eliezer Neftali Reyws Basoalto (1904-1973) ou simplesmente Pablo Neruda, é o poeta chileno que se tornou um dos mais importantes poetas da língua castelhana no século xx. Ele foi cônsul do Chile na Espanha e no Mexico. Foi eleito senador e ganhou o prêmio Nacional de Literatura em 1945, ano em que homenageia Luis Carlos Prestes lendo seu poema para 100 mil pessoas no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em 1953 recebeu o Premio Lenin da Paz. Em 1965 lhe foi outorgado o titulo de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã Bretanha. Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Entre outras coisas, sua vida inspirou o filme “O carteiro e o poeta”. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Seduction, da pintora e fotógrafa britânica Colette Standish.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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