Mostrando postagens com marcador Latuff. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Latuff. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, outubro 06, 2016

MURASAKI SHIBUKU, IAMAMOTO, TOURAINE, KOELLREUTER & VILLAFRANCA, NIETZSCHE, LIBÂNEO & EDUCAÇÃO, SOTERO, OZON, CARLOS SCLIAR, EDUARDO RAMIREZ, JUAN ESTEVES & AS MENINAS DO CONTO


INEDITORIAL: JUDICIALIZAÇÃO DO SUS - Salve, salve, gentamiga! Pra quem não tem nem onde cair morto, pra que saúde mesmo, hem? Isso é o que os políticos querem da gente: que morramos do coração antes de precisar dos serviços da saúde pública – claro, todos eles possuem planos de saúde! Além do mais, tudo no Brasil é feito pra matar a gente do coração mesmo e a qualquer momento. Adoeceu é pra bater as botas e ir pro saco, pois, se procurar medicamento no posto de saúde, não tem! Pudera, no outro dia a gente vê no noticiário que o município não prestou contas ao Ministério da Saúde da distribuição de xis remédios e, com isso, está suspensa a distribuição. Só que dias depois vem a denúncia pelo noticiário de que foi desviado milhões em frascos que deveriam servir a um monte de gente necessitada e acometida de enfermidades crônicas e que a investigação vai apurar os responsáveis – não tem quem apareça como culpado, deve ter ido parar ou nas farmácias, ou pra quem não precisa! Quando não é isso, se procura atendimento no SUS só daqui a meses e meses de espera, quando não só no ano que vem. O estrupício da saúde pública brasileira tem levado a um procedimento jurídico que já é conhecido por judicialização do SUS, ou seja todo mundo agora achou o mapa da mina: recorrer à Justiça para ser atendido. Finalmente! A máquina emperradíssima do Estado, a maior fabricante de disfunções burocráticas e ineficiência generalizada, agora paga dobrado para atender o cidadão e com ordem judicial. Pra quem não tem o menor respeito pela vida humana, pelo menos, a Justiça nisso tem sido eficiente: no final quem paga a conta mesmo somos nós, né não? E dobrado. Mas destá, ta na hora da gente ir pras novidades do dia: a música de Koellreuter na interpretação de Sérgio Villafranca, a Gaia Ciência de Nietzsche, os objetivos da educação de Alain Rouraine & a educação escolar, os Contos de Genji, o trabalho profissional de Marilda Iamamoto, a escultura de João Sotero, o filme de Frances François Ozon, o Congresso de Logoterapia, a arte de Renina Katz, a charge de Latuff, a ilustração de Carlos Scliar, o teatro das Meninas do Conto, a fotografia de Eduardo Ramirez & Juan Esteves. No mais, vamos aprumar a conversa aqui.

Veja mais sobre
Manchetes do dia de sempre, Elsworth F. Baker, Guilherme de Almeida, Wesley Ruggles, Peter Fendi, Romero Britto, Mácleim, Samara Felippo & Carole Lombard aqui.

E mais:
A Primavera de Ginsberg, Libelo & Anátema aqui.
Big Shit Bôbras: liderança, a segunda emboança aqui.
Teibei, a batida aqui.
Big Shit Bôbras: carnaval, a terceira emboança aqui.
História do cinema aqui.

DESTAQUE: O TRABALHO PROFISSIONAL - [...] requisita um profissional culto e atento às possibilidades descortinadas pelo mundo contemporâneo, capaz de formular, avaliar e recriar propostas ao nível das políticas sociais e da organização das forças da sociedade civil. Um profissional informado, crítico e propositivo, que aposte no protagonismo dos sujeitos sociais. Mas também um profissional versado no instrumental técnico-operativo. [...]. Trecho extraído da obra O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional (Cortez, 2001), da escritora, socióloga e assistente social, Marilda Villela Imamoto. Veja mais aqui e aqui.

UMA MÚSICA: 
Curtindo Acronon (Documenta Vídeo Brasil, 2000), do compositor, professor e musicólogo brasileiro de origem alemã Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005), na interpretação do pianista, compositor, performer, coordenador musical e professor Sérgio Villafranca, com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, sob a regência do maestro Antônio Borges-Cunha. PS: Acronon deriva do grego, em que “cronos” significa tempo e “a” o alfa privativo que não nega, mas dá margem à superação, à transcendência.

OBJETIVOS DA EDUCAÇÃO (Imagem: charge do Latuff)- [...] é preciso dar à educação dois objetivos da mesma importância: por um lado, a formação da razão e da capacidade da ação racional; por outro, o desenvolvimento da criatividade pessoal e do reconhecimento do outro como sujeito. O primeiro objetivo é o mais próximo dos ideais anteriores (refere-se à cultura da ilustração e do espírito republicano) e deve ser protegido; o conhecimento deve continuar no coração da educação, e não há nada mais irrisório e negasto que um programa que desse vantagem, tanto á socialização pelo grupo de pares, dos colegas, como a resposta às necessidades da economia. Da mesma forma que é preciso recusar uma concepção puramente racionalista do homem e da sociedade, devemos também nos opor a toda desvalorização da razão. A luta sem fim contra a aliança da razão e do poder quer, antes de mais nada, salvar a razão e preparar sua aliança com a liberdade [...]. Trecho extraído da obra O que é democracia? (Vozes, 1996), do sociólogo francês Alain Touraine, que propôs a sociologia da ação nos estudos dos movimentos sociais, defendendo que a sociedade molda o seu futuro através de mecanismos estruturas e das suas próprias lutas sociais. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PERNSAMENTO DO DIA: A EDUCAÇÃO ESCOLAR - [...] Discutir sobre a profissionalização significa refletir sobre a afirmação do espaço educativo, buscando a identidade profissional dos docentes, dos especialistas e dos funcionários da educação, a fim de debater sobre a totalidade do ato educativo, sobre as relações que estabelecem no interior da escola, na atual conjuntura educacional, ante as aceleradas mudanças sociais, culturais, científico-tecnológicas, políticas e econômicas do país. Há um complexo vínculo coletivo entre os diversos agentes que atuam na escola. Compreender essa complexidade significa ampliar a concepção do papel histórico e cultural da instituição no mundo contemporâneo e buscar definir a identidade profissional de cada um desses agentes. [...]. Trecho extraído do livro Educação escolar: políticas e estrutura e organização (Cortez, 2003), de José Carlos Libâneo, João Ferreira Oliveira e Mirza Seabra Toschi, apresentando as b ases conceituais para uma análise dos aspectos sociopolíticos, históricos, legais, pedagógico-curriculares e organizacionais da educação escolar brasileira e da organização e gestão da escola, dos contextos em que os profissionais da educação exercem suas atividades. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

CONTOS DE GENJI (Imagem: Utagawa Kunisada, Genji of the East - Charm of Flowers and Birds, 1837). [...] Desde o início, a moça não possuía a aparência singela das damas de companhia que prestam serviço na corte. Era uma esplêndida mulher como as damas da corte de alta posição, sendo feita permanecer ao lado de Sua Majestade do início ao fim nas performances musicais e demais eventos da corte, para os quais era sempre a primeira a ser convocada. Havia ainda ocasiões em que após haver passado a noite servindo o Imperador, adormeciam até tarde, continuando a cortejá-lo após o despertar. Com isso, até então era por vezes vista com certa vulgaridade. No entanto, após o nascimento de seu filho, o segundo príncipe, passou a ser tratada com as formalidades e o respeito devidos. Em meio a isso, a mãe do primeiro príncipe ponderou: “é possível que essa criança acabe por se tornar o Príncipe Herdeiro no lugar de meu filho”. Esta nobre dama da corte havia sido a primeira a entrar para a corte, gozava de especial atenção do Imperador, junto a quem também já havia dado vida a princesas. Assim, ele sentia que não tinha condições de ignorar as reclamações dessa mulher e por vezes julgava-se culpado pelo tipo de ligação que mantinha com a outra moça. [...] Trecho extraído da obra Contos de Genji - Genji monogatari (Lenda de Genji), atribuída a poeta japonesa e dama de companhia da corte do período Heian, Murasaki Shibuku (973-1031), pseudônimo de Fujiwara Takako, composto de 54 livros que relatam a vida e os amores de um principie, com representações complexas dos personagens e descrições das emoções humanas.

POR QUE O MAR TANTO CHORA – O premiado espetáculo Por que o mar tanto chora, adaptação dos contos Dona Labismina, do escritor sergipano Silvio Romero e Bicho de Palha, do folclorista Luis da Câmara Cascudo, desenvolvido pelo grupo As Meninas do Conto, que trata sobre a história de uma rainha que queria muito ter um filho, porém, concebe uma menina, Maria, que nasce com uma cobra enrolada no pescoço e que, quando fica mocinha, um velho rei, muito rico, decide pedir Maria em casamento, fato que contrariada, ela parte para outro reino, em busca de sua felicidade. É considerada uma das versões da Cinderela Brasileira. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do escultor português João Sotero.

8 FEMMES – A comédia musical de suspense 8 Mulheres (2002), do diretor Frances François Ozon, é baseado na peça teatral homônima de Robert Thomas, conta a história de oito mulheres que vivem situações cômicas e inesperadas, quando o único homem da casa é assassinado no período natalido. A partir disso elas vivem momentos inusitados, presas em casa por causa de uma nevasca e passam a discutir umas com as outras acusando-se de assassinas e ao se iniciar as investigações, inúmeras revelações surpreendentes vão acontecendo. O elenco é de primeiro time, contando, entre elas com Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart e Fanny Ardant. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do fotógrafo espanhol Eduardo Ramirez.

AGENDA: VIII CONGRESSO BRASILEIRO DE LOGOTERAPIA E ANÁLISE EXISTENCIAL – Acontecerá entre os dias 13 e 15/10, na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), em São Luís do Maranhão, a oitava edição do Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial, abordando o tema da unidade na diversidade humana, promovido pela Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial (ABLAE), visa proporcionar um grande encontro entre profissionais, pesquisadores e estudantes de Psicologia e áreas afins, comprometidos com a busca por respostas concretas aos desafios da sociedade contemporânea. Informações pelo fone (98) 9128-9660, pelo mail cientifico@ablae.org.br ou no site http://ablae.org.br. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
[...] a crença na ciência, que agora está aí incontestavelmente, não pode ter tirado sua origem de um tal calculo utilitário, mas, antes, a despeito de lhe ter sido constantemente demonstrada a inutilidade e periculosidade da “vontade de verdade”, da “verdade a todo preço”. “A todo preço”: oh, nós o entendemos bastante bem, depois que oferecemos e trucidamos uma crença depois da outra sobre esse altar! – Consequentemente, “vontade de verdade” não quer dizer “eu não quero me deixar enganar”, mas sim – não há nenhuma escolha – “eu não quero enganar, nem sequer a mim mesmo”: - e com isso estamos no terreno da moral. Pois basta perguntar-se fundamentalmente: “Por que não queres enganar?”, especialmente se houvesse a aparencia – e há essa aparência – de que a vida depende de aparência, quero dizer, de erro, impostura, disfarce, cegamento, autocegamento, e se, por ouro lado, a grande forma da vida sempre se tivesse mostrado de fato, do lado mais inescrupuloso polypotroi. Um tal propósito poderia, talvez, interpretado brandamente, ser um quixotismo, um pequeno desatino entusiasta; mas poderia também ser algo ainda pior, ou seja, um princípio destrutivo, hostil à vida... [...].
Trecho extraído do Livro V – Em que medida nós também somos devotos ainda - , da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do fotógrafo e gravurista Juan Esteves.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Paz na Terra: "Assine o apelo pela paz" (1952), do pintor, roteirista, desenhista e ilustrador Carlos Scliar.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


segunda-feira, maio 04, 2009

ELIOT, STUART HALL, TODOROV, MARK TWAIN, MAHMOUD DARWISH, DONOSO CORTÉS, LATUFF & MOVIMENTO SINDICAL.

A arte do cartunista e ativista político Carlos Latuff.


MOVIMENTO SINDICAL NO BRASIL - Os sindicatos são organizações criadas pelos trabalhadores para representar seus interesses e enfrentar as dificuldades geradas no mundo do trabalho. Na medida em que um conjunto de categorias profissionais distintas passam  a construir entidades associativas para melhorar suas condições de trabalho e de vida, sua ação coletiva engendra o que se convencionou chamar Movimento Sindical. Trata-se de um movimento que possui um conjunto de características comuns que permitem identificá-lo como um fenômeno político mundial, nascido nos primórdios da sociedade capitalista industrial e que sobrevive até o presente. O Movimento Sindical se materializa através da ação das múltiplas entidades sindicais de trabalhadores, através de associações, sindicatos, federações, confederações, centrais, e ganha conformações variadas, dependendo das formas como estas instituições se organizam, dos objetivos que movem suas lideranças e seus membros e das ações que eles desenvolvem. O Movimento Sindical no Brasil se constitui, desde seu surgimento até a atualidade, num dos mais expressivos representantes dos interesses dos assalariados, particularmente aqueles de renda baixa e média, ou seja, a maioria da força de trabalho nacional. Neste sentido e visando descrever de forma breve a trajetória desse movimento no país, destacando suas origens, o projeto ideológico que orienta suas lideranças e militantes, as reivindicações básicas apresentadas, as principais formas de organização interna, as formas predominantes de ação sindical e seus resultados mais destacados. As primeiras organizações sindicais surgiram no Brasil na metade do século XIX, no contexto de uma economia agro-exportadora, quando ainda predominavam relações de trabalho escravistas. Elas representavam os trabalhadores urbanos, livres e vinculados especialmente ao setor terciário. Com a abolição da escravatura em 1888, até a primeira década do século XX, novas categorias profissionais do setor terciário e secundário criaram sindicatos. Embora organizados de fato desde metade do século XIX, as primeiras leis que legalizaram a vida dos sindicatos somente surgiram no século XX. Restrições e perseguições por parte de muitos empregadores, repressão por parte do aparato policial do Estado e dificuldades materiais para sua sobrevivência foram as principais limitações enfrentadas. O significado dos sindicatos para os trabalhadores era o de um organismo de representação dos seus interesses e  de  defesa  contra  a  exploração  e   violência sofridas, sem deixar de cumprir também, nas primeiras décadas, a função mutualista. O projeto ideológico do Movimento Sindical foi construído a partir da visão de mundo que possuem suas lideranças e seus ativistas, repercutindo sobre a definição dos objetivos estratégicos que o organismo deve perseguir e as ações táticas desenvolvidas para atingir estes objetivos. A ideologia pode atuar como um mecanismo estabilizador do “status quo” ou como propulsora da sua transformação. Na história do Movimento Sindical brasileiro estes dois aspectos da ideologia, o estabilizador e o transformador do sistema, encontram-se presentes, ora coexistindo, ora conflitando entre si. Os projetos ideológicos transformadores traduziram-se, no seio do Movimento Sindical, em inúmeras correntes sindicais de cunho revolucionário ou reformista. As correntes revolucionárias mais destacadas foram o anarquismo (principalmente o anarco-sindicalismo), o socialismo e o comunismo. Elas tinham em comum a constatação de que os problemas que os trabalhadores enfrentavam no mundo do trabalho resultavam do modelo de sociedade - a capitalista - que engendrava relações desiguais entre as classes sociais fundamentais, no caso a burguesia e o proletariado, decorrentes da posição distinta que ambas ocupavam em relação aos meios de produção. Para eles, a burguesia, proprietária dos meios de produção, impunha ao proletariado, proprietário da força de trabalho, as suas condições no mundo do trabalho, exploração versus dominação. A possibilidade de ruptura dessa situação residia na transformação profunda da sociedade - passagem do capitalismo a uma sociedade igualitária, socialista ou comunista, pela via revolucionária. As correntes reformistas podem ser relacionadas a dois grupos: um, o dos socialistas e comunistas, que possuíam a mesma visão apresentada pelas correntes revolucionárias sobre a sociedade capitalista, aspiravam aos mesmos objetivos, mas defendiam a transformação social através da via pacífica: a reforma e não a revolução. O outro grupo dos reformistas, os trabalhistas, aspiravam reformas no âmbito do mundo do trabalho, não envolvendo-se em projetos de reforma mais ampla da sociedade. Ambos defendiam a liberdade de organização partidária, a aproximação do partido em relação aos sindicatos e a conquista de adeptos para eleger representantes no Legislativo que defenderiam os interesses dos trabalhadores. A partir dos anos 70 do século XX, as mudanças que ocorreram ao nível da orientação ideológica da ação sindical podem, assim, ser identificadas, de um lado, as correntes classistas, predominantemente reformistas, liderando gradativamente a maioria dos sindicatos, com expressiva capacidade mobilizatória, em torno de reivindicações que revelam preocupação em transformar o mundo do trabalho e a sociedade em que vivem os trabalhadores; e, de outro, as correntes trabalhistas, cuja capacidade mobilizatória varia de sindicato a sindicato, as quais concentram sua preocupação na busca de melhorias nas condições de trabalho, sem maiores questionamentos sobre a sociedade vigente. A partir de meados dos anos 1990, reaparecem posturas estabilizadoras, com denominações diversas, no interior do movimento sindical brasileiro, identificadas através do comportamento de lideranças sindicais preocupadas em atender aos apelos empresariais de parceria no mundo do trabalho e de eliminação do conflito trabalhista, num quadro de naturalização das medidas de flexibilização das relações de trabalho. A diversidade de projetos ideológicos que a trajetória do Movimento Sindical brasileiro abrigou, repercutiu, e ainda repercute, sobre as formas de organização e ação escolhidas, bem como sobre as relações que os sindicatos desenvolvem com outros atores ou instituições sociais e políticas. Nos anos 80 e 90 o Movimento Sindical defrontou-se com um país que recém saía de uma longa experiência autoritária e ele foi um dos sujeitos históricos mais decisivos para impulsionar o processo de redemocratização do país, com inegáveis repercussões favoráveis sobre sua vida interna e externa. Agora, no final dos anos 1990, vê-se frente a novos e inesperados desafios. Como preservar e ampliar suas conquistas trabalhistas, num cenário onde crescem as pressões dos empregadores para desregulamentar as relações contratuais, salariais e sindicais em geral, e forçar a individualização das relações capital-trabalho? Se foi a exuberância demonstrada pelo Movimento Sindical a principal responsável pela conquista de múltiplas reivindicações dos anos 1970 e 1980 – formalizadas como direitos de todos os trabalhadores através da Carta Constitucional de 1988 – tem sido também esta exuberância o principal obstáculo para a derrubada de várias dessas conquistas e daquelas acumuladas pela história deste Movimento. A pressão para reduzir ou eliminar estas conquistas é provocada pela combinação de esforços desenvolvidos neste sentido pelos diversos grupos de pressão do empresariado com a anuência ou indiferença do Estado e do Congresso Nacional. As repercussões da hegemonia da ideologia liberal, facilitada, de um lado, pelo insucesso de muitas experiências socialistas no final dos anos 80 e início dos anos 90 e, de outro lado, pelas conseqüências do processo de conformação de uma nova ordem econômica, política e social têm provocado, entre outras mudanças, profundas alterações nas relações trabalhistas e no papel do Estado como mediador das relações capital-trabalho, as quais são constantemente debatidas, avaliadas e reavaliadas pelo Movimento Sindical. As pressões que o Movimento Sindical brasileiro sofreu neste sentido, desde a promulgação da Constituição de 1988, têm provocado reações distintas por parte das múltiplas correntes sindicais que o Movimento abriga, gerando, ora o agudizar das rivalidades, ora a construção de ações conjuntas em campanhas pontuais. Independentemente da diversidade na avaliação do momento atualmente vivido pelos trabalhadores, os dirigentes e militantes sindicais não têm medido esforços para estudos, discussões, elaboração de propostas e empreendimento de ações conjuntas para serem desenvolvidas tanto nos espaços tradicionais de atuação sindical, quanto nos novos espaços que se geraram de intervenção das organizações sindicais – os espaços institucionais: conselhos, comissões e fóruns municipais, estaduais e nacionais - que, certamente, constituem-se em elementos revitalizadores do Movimento e, inclusive, provocadores do repensar de seu papel frente aos novos desafios que o final deste século está lhe impondo. Pelo que se vê, nos anos noventa, diante dos movimentos de abertura da economia brasileira ao exterior e de redefinição do papel do Estado, a base da ação sindical sofreu profunda alteração. Pela primeira vez, o movimento sindical enfrenta uma reestruturação capitalista de grandes dimensões, bem como as conseqüências do projeto de integração competitiva que colocam em questionamento as formas tradicionais de ação, sobretudo quando contrastadas com a década de oitenta. O processo de maturação de uma terceira Revolução Industrial e Tecnológica abre distintas alternativas de conformação de relações sociais fundadas no conhecimento e na interligação das informações. A permanência de parcelas sociais cada vez mais marginalizadas das novas possibilidades de relações sociais não deixa de expressar, de um lado, o insucesso do atual padrão de incorporação sócio-econômico. O desenho do homem necessário às práticas do século XXI pouco tem a ver com o trabalhador do século XX. Um novo trabalhador está surgindo, mais polivalente, qualificado e com a visão de todo o processo de produção, podendo, inclusive, inserir-se num mundo que supere a relação desfavorável entre o tempo livre e o de trabalho, bem como a dicotomia entre o trabalho repetitivo e criativo e o rendimento insuficiente e inadequado. As unidades empresariais desverticalizam a produção, externalizam parte do processo produtivo, introduzem novos materiais e usam técnicas inovadoras de produção e gestão da mão-de-obra, o que significa a transformação não apenas da natureza quanto do significado do trabalho. O declínio da presença do trabalho na produção e o surgimento de novas ocupações nos serviços tornam superadas várias habilidades e profissões. Novas habilidades e conhecimentos são requeridos para o exercício de novas funções, com grande instabilidade de currículos, ensino e treinamento. Além disso, o mercado de trabalho, o emprego, a renda e as relações de trabalho tendem a passar por transformações significativas, colocando-se em situação muito diferente da verificada nos últimos cinqüenta anos. A fase de segurança na renda e no mercado de trabalho dá lugar a maior instabilidade. As circunstâncias atuais de gestão e consolidação do processo de transformação nas sociedades contemporâneas em plena idade da transformação estão conduzindo a resultados desbalanceados e desagregadores. Os ganhos de produtividade e a ampliação da riqueza não estão redundando em condições de vida e trabalho melhores para todos. Crescem as desigualdades entre pobres e ricos, empregados e desempregados, homens e mulheres, jovens e velhos. Além das alterações no mundo do trabalho provocadas pela reestruturação na forma de uso e remuneração da força de trabalho, difundem-se os procedimentos de modernização conservadora nos vários países. Desta forma, tentou-se aqui ressaltar os desafios que emergem do novo quadro de mudanças no mundo do trabalho na década atual. Além disso, procurou-se apresentar da maneira simplificada exemplos da atuação sindical nos espaços públicos e institucionais que, de algum modo, significam uma reformulação frente à postura tradicional das entidades dos trabalhadores no Brasil. Em outras palavras, buscou-se modestamente refletir algumas das formas de atuação recente do movimento sindical com o objetivo de identificar o caminho, sempre difícil e contraditório, de democratização das decisões do aparelho de Estado e de realização crescente da cidadania. Veja mais aqui e aqui.
REFERÊNCIAS
BALTAR, P. Mercado de trabalho e exclusão social no Brasil. In: Crise e Trabalho no Brasil . São Paulo: Scritta, 1996
BRASIL. Trabalho e Reestruturação Produtiva. São Paulo: DIEESE 1994.
_______.  O desemprego e as políticas de emprego e renda. São Paulo: DIEESE, 1994.
_______. Anuário Estatístico do Brasil. Brasília: IBGE, 1995.
CACCIAMALI, M. Mercado de Trabalho brasileiro: um dos palcos para reprodução das desigualdades. São Paulo: FEA/USP, 1996.
HOBSBAWN, E. A era dos extremos. São Paulo: Cia. das Letras, 1994
LEITE, M. O trabalho em movimento. Campinas, Papirus, 1997.
PEDROSO, Elizabet M. Os sindicatos de trabalhadores e o movimento sindical no Brasil. In: Política Brasileira: regimes, partidos e grupos de pressão. Porto Alegre: Edipucrs, 1999.
POCHMANN, M. Mudança e continuidade na organização sindical brasileira no período recente. In: Crise e trabalho no Brasil. São Paulo: Scritta, 1996.
POLANY, K.  A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus, 1980
  

DITOS & DESDITOS - No passado está a história do futuro. Pensamento do filósofo e diplomático espanhol Juan Donoso Cortés (1809-1853), o Marquês de Valdegramas.

ALGUÉM FALOU – [...] Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte tem seu pleno significado sozinho. [...]. Trecho extraído da obra Notas Para Uma Definição de Cultura (Perspectiva, 1988), do poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965). Veja mais aqui e aqui.

DIÁSPORA, IDENTIDADES & MEDIAÇÕES -  [...] a cor de um ser humano é sempre presumida, uma vez que a cor é uma categoria classificatória criada culturalmente. A atribuição ou a auto-atribuição de cor é a tentativa de situar o sujeito em um contexto social usando uma presumida aparência para posicionar o referido sujeito nas relações de poder como dominante, subalterno, igual ou diferente. [...]. Trecho extraído da obra Da Diáspora: Identidades e Mediações Culturais (UFMG/Brasília: UNESCO, 2003), do teórico cultural e sociologo jamaicano Stuart Hall (1932-2014). Veja mais aqui.

O EU & O OUTRO – [...] Quero falar da descoberta que o eu faz do outro. Pode-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que não se é uma substância homogênea, e radicalmente diferente de tudo o que não é si mesmo; eu é um outro. Mas cada um dos outros é um eu também, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos estão lá e eu estou só aqui, pode realmente separá-los e distingui-los de mim. Posso conceber os outros como uma abstração, como uma instância da configuração psíquica de todo o indivíduo, como o Outro, outro ou outrem em relação a mim. Ou então como um grupo social concreto, ao qual nós não pertencemos. Ou pode ser exterior a ela, uma outra sociedade que, dependendo do caso, será próxima ou longínqua: seres que em tudo se aproximam de nós, no plano cultural, moral e histórico, ou desconhecidos, estrangeiros cuja língua e costumes não compreendo, tão estrangeiros que chego a hesitar em reconhecer que pertencemos a uma mesma espécie. [...] a relação com o outro não se dá numa única dimensão. Para dar conta das diferenças existentes no real, é preciso distinguir entre pelo menos três eixos, nos quais pode ser situada a problemática da alteridade. Primeiramente, um julgamento de valor (um plano axiológico): o outro é bom ou mau, me é igual ou me é inferior. Há, em segundo lugar, a ação de aproximação ou de distanciamento em relação ao outro (um plano praxiológico): adoto os valores do outro, identifico-me a ele; ou então assimilo o outro, impondo-lhe minha própria imagem; entre a submissão ao outro e a submissão do outro há, ainda, um terceiro termo, que é a neutralidade, ou indiferença. Em terceiro lugar, conheço ou ignoro a identidade do outro (seria o plano epistêmico); aqui não há, evidentemente, nenhum absoluto, mas uma gradação infinita entre os estados de conhecimento inferiores e superiores. Existem, é claro, relações e afinidades entre esses três planos, mas nenhuma implicação rigorosa; não se pode, pois, reduzi-los um ao outro, nem prever um a partir do outro. Trechos extraídos da obra A conquista da América: a questão do outro (Martins Fontes, 2003), do filósofo e linguista búlgaro Tzvetan Todorov (1939-2017). Veja mais aqui e aqui.

A ITÁLIA & A PINTURA – [...] É impossível viajar pela Itália sem falar das pinturas, posso vê-las pelos olhos dos outros? Se eu não me embevecesse diante das magníficas pinturas espalhadas em todos os dias de minha vida, pelo monarca de todos os velhos mestres, a Natureza poderia vir a acreditar, às vezes, que não possuo, dentro de mim, nenhum tipo de apreciação pelo belo, sem sombra de dúvida. Parece-me que todas as vezes que, esplendorosamente, acho, por um instante, ter descoberto que uma pintura antiga é bonita e digna de ser elogiada, o prazer que ela me dá é um prova infalível de que ela não é uma pintura bonita e não é merecedora de um sábio elogio. Isso ocorre por mais vezes que eu possa mencionar, em Veneza. A cada momento, o guia pressionava meu formidável entusiasmo com a enfática afirmação: “Não é nada – ela é da Renascença”. “Eu não sabia que diabos de Renascença era aquela. Então, eu simplesmente dizia, Ah! Então é isso – eu não tinha reparado”. Eu não poderia me render ao fato de ser ignorante diante de um negro culto, descendente de um escravo da Carolina do Sul. Mas isso, geralmente, ocorria para minha satisfação própria; e , ao proferir aquele incômodo “não é nada” – é a Renascença”. Eu disse finalmente: Quem é este Renascença? De onde ele saiu? Quem lhe deu permissão para abarrotar a República com seus borrões execráveis?” Ficamos sabendo que essa Renascença não era um homem; essa renascença era um termo usado para significar o que havia de melhor, nada mais que um rejuvenescimento imperfeito da arte. O guia disse que após a época de Ticiano e no tempo de outros grandes nomes, com os quais nos familiarizamos, a alta arte decaiu; então, parte dela ergueu-se novamente – e uma quantidade de pintores inferiores surgiram e que essas pinturas desprezíveis foram feitas por suas mãos. Então eu disse, em meu calor, que eu “desejava que a qualidade da alta arte tivesse decaído há cinco séculos atrás”. As pinturas da Renascença servem-me muito bem, ainda que é eufemismo dizer que sua escola pintava o homem de fato e que não favorecia os mártires suficientemente. O guia de quem falei é o único que nos ensinou alguma coisa. Ele nasceu na Carolina do Sul, de pais escravos. [...]. Trecho extraído da obra The Innocents Abroad or The New Pilgrim’s Progress (Oxford University Press, 1997), do escritor e humorista norte-americano Mark Twain (1835 – 1910). Veja mais aqui.

UM POEMA - Sela-me com teus olhos. / Leva-me para onde estiveres – / Leva-me para o que és. / Restaura-me a cor do rosto / E o calor do corpo / A luz do coração e dos olhos, / O sal do pão e do ritmo, / O gosto da terra... a terra natal. / Protege-me com teus olhos. / Leva-me como uma relíquia da mansão do pesar. / Leva-me como um verso de minha tragédia; / Leva-me como um brinquedo, um tijolo da casa / Para que nossos filhos se lembrem de voltar. Poema do poeta árabe Mahmoud Darwish (1942-2008).


A arte do cartunista e ativista político Carlos Latuff.



Veja mais sobre:
Tem horas que até o amor fala grego, Lev Vygotsky, Rachel de Queiroz, Ledo Ivo, Chick Corea & Friedrich Gulda, William Shakespeare, Jean-Luc Godard, Auguste Rodin, Agnolo Bronzino & Marina Vlady aqui.

E mais:
A saga do Padre Bidião aqui.
Villa Caeté aqui.
A poesia do cordel de Chico Pedrosa, Bob Motta & Jorge Filó aqui.
A poesia viva de Raymundo Alves de Souza aqui.
Cordel Ais coisa qui tu me diz..., de  Bob Motta aqui.
Literatura de cordel: Mulher cariri, cariri mulher, de Salete Maria – Cordelirando aqui.
Cordel do Meio Ambiente, de Marcos Maciel - Janduís – RN aqui.
O evangelho de José Saramago aqui.
Cordel do quebra pau no STF, de Bob Motta aqui.
Fecamepa à República aqui, aqui e aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá
Veja aqui e aqui.



CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.



NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...