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domingo, janeiro 18, 2026

ELISA LONCÓN, LENA YAU, CASEY MCQUISTON & GERALDO AZEVEDO


 Imagem: acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Occam Ocean (2021), Chry-ptus — Geelriandre (2021), Œuvres électroniques (2018), Naldjorlak (2014), Opus 17 (2013), Feedback Works (2012), Triptych (2009), Jetsun Mila (2007), Adnos (2002), Trilogie De La Mort (1994) e Songs of Milarepa (1983), da compositora francesa Éliane Radigue.



A paixão dos condenados... - Carambolo era um enxerido, não parava quieto. De namoricos a embromados noivados com todo tipo lagartas, serpentes, quelônias e crocodilianas, driblava-as, não se livrando de todo das ameaças mortais de injuriados familiares das vítimas por seus arroubos sentimentais de galanteador Casanova. Isso afora muitas outras e tantas peripécias incontáveis, a exemplo de ter sido parceiro do aterrorizante criptídeo Lee County Lizard Man, uma alta criatura bípede dos pântanos, com seus avermelhados olhos de fogo e mais de 2 metros de altura, escamas verdes, três dedos nos pés e garras afiadas. Assarapantavam na estrada Scape Ore, apavorando os moradores de Bishopville, atormentando caçadores e turistas. Noutra foi cúmplice do ancestral capixaba da Pedra Azul, coparticipando das estripolias de guardião do território, não antes afugentarem curiosos e sabotarem as populações circunvizinhas pelos rios de pedras e mares de areia, ficando só nessas duas para não encompridar a pinoia. Mas eis que um dia lá, passeando pela lagoa de Cerro do Jarau, avistou uma bela jovem e fez-se festa em seu coração açodado. Epa! Quem era aquela que o enfeitiçava tão repentinamente? Era uma belezura anônima que vivia incógnita pelo continente d’O Tempo e o Vento de Érico. Inquietou-se e pensou ligeiro: Quer ir ao baile comigo? Não, não tenho o que vestir! Ora, providencio tudo, você quer? Não. Faço o que você quiser! Não. Tanto insistiu que, ao cabo de lábias e promessas, ela assentiu e marcaram horário e local. No momento acertado, ele lá, ansioso, inquieto. Deu uma, duas, três horas de espera e ela nada. Ih! Foi procurá-la e não teve êxito; vasculhou toda redondeza, perguntou a um e outro, fez-se sentinela, não dormia nem se alimentava, solitário pelas demoradas noites. Mais de meses depois findou balançando a cabeça tristemente reprovativa, achando que havia sido passado para traz. Aí, ele deu um freio de arrumação na vida: teve uma epifania de convertê-lo a coroinha, propondo-se a galgar vida espiritual e se tornar definitivamente um santo, amém. Pronto, estava feito. Na sua ascese tornou-se abstêmio, jejuou, libertou-se dos desejos da carne e procedeu à eliminação do ego. Já se considerando completamente restaurado, num remoto lugar de confundós ignotos, de súbito: ela. Ah, agora não me escapará! Partiu alvoroçado e logo: Quer casar comigo? Você de novo! Como ele estava irredutível no seu propósito, ela contou sua hestória: Sou Tijubina, filha da amaldiçoada teiú Teiniágua Teiniaguá, uma princesa moura da família Terra-Cambará, que vivia na lagoa de Cerro do Jarau. Por possuir um vistoso diamante que luzia na testa - um rubi cintilante que atraía os homens fascinados, foi esconjurada pelo Anhangá-Pitã, o Diabo Vermelho, que a fez uma bruxa lagartixa. Assim teve uma vida muito difícil, mas foi salva e se casou com meu pai que morreu pouco depois, me criou sozinha e ficou velha em Quaraí até sua própria morte. Esse o meu resumo: ainda quer casar comigo? Não só quero, como vou casar com você ou eu me mato agorinha! Estava resolvido. Depois de muitos sins e nãos e ora veja, foram para a igreja e o irmão dela tratava da cerimônia, quando o Padre Quiba anunciou peremptoriamente: Deus me livre de realizar este casamento! Por que? São incompatíveis, um sacrilégio, xô! Foram enxotados dali e, desorientados, depois de muito puxa-encolhe, foram levados ao juiz pelo cartório: Não pode, isso é uma aberração! E os defenestrou porta afora. Vixe! E agora? Tudo tentaram com insucesso. Ah, um milagre: o Padre Bidião – e o lema: o amor será sempre festejado. Vamos às provas! Como? Na primeira prova Carambolo descobriu que Tijubina era do Fogo da família Borges e não apenas um pequeno dragão que vivia no fogo, como também um fabuloso anfíbio da última ressurreição da fênix e uma das 4 “raízes das coisas” fundamentais de Empédocles. Eita! Teve de escapar do maior fogaréu, de quase tostar-se todo. Ufa! A segunda prova deu-lhe a constatação de que ela tinha um irmão gigante protetor, o Proteus Anguinus, que mais parecia um dragão cego que torrava o rabo de todos que se aproximassem dela ou fizessem a desfeita de iludi-la ou se bandeassem astutos com enrolação pro lado dela. Danou-se! Astuto, ele escapou fedendo da fogueiratoda, ao dar um pito cambaleante no Proteus, mas não logrou êxito completo: um batalhão esperava-o na virada. Na frente uma invocada teiú, com um diamante luzindo na testa, balançava a cauda como um chicote e bufava esfumaçando: Vai pra onde, moço? Lascou-se! Era fogo no rabo e bafo de lâmina afiada no focinho, maior viela – aí fodeu, cul-de-sac. Na maior enrascada, não havia alternativa afora se submeter à terceira e última prova. Teibei. Pensou: fodido por um, fodido por mil, vamos lá, manda! Atinou recurso: ao saber dos segredos dela, defendeu-se revelando os seus próprios, assim: sou Carambolo, o Réptil Real, filho da Mulher que Ler, a viúva de óculos do Dulcídio das Palavras andantes de Galeano. Minha mãe me criou e vivia sentada na areia fininha, com suas 7 saias cobrindo-lhe os pés, sempre na leitura de livros. Eu adorava mamar alisando suas longas tranças. Assim nasci, cresci e vivo até hoje manso e sadio, depois que ela se foi. Aplausos gerais! No mais ou menos,  finalmente, estavam vencidas todas as etapas de sua jornada. Neste momento o pároco relevou a conferência e, em cima da bucha, convocou os padrinhos e convidados, quando Tijubina que era jeitosa e sonsa, o que tinha de formosura, esbanjava nas ciladas e vaidade, logo, na horagá, chamou a todos os seus parentes batráquios e vieram aos montes tantos sapões, como rãs cururus, salamandras, pererecas, tritões e cobras-cegas, mais uma tuia de girinos afilhados. Que é que é isso? Uma multidão em polvorosa. Até o quadrúpede alado Pyrausta veio das fornalhas das fundições de Chipre e foi quem adentrou o recinto puxando pela mão dela, toda reboculosa vestida de crinolina verde, saia rodada com aplicações de renda, cabelos castanhos, entre os quais, um brilhante faiscava ofuscante: tal e qual sua mãe, confirmava. Casaram-se engalanados num sobrado na cidade de Santa Fé. Depois da cerimônia, mais maravilhado que nunca, Carambolo, num estalo, gritou: A lera! Cadê os calanguistas? E todos se organizaram: dois cantadores armados de heptassílabos às quadras se apresentaram aos versos rimados, ao som da sanfona de 8 baixos e acompanhamento duma viola caipira, pandeiro, triângulo, reco-reco e ganzá. Para engrossar a festança, um acordeão soou de longe: Segura o refrão! O cavaquinho aumentou o tom no solo, puxou sextilha pro desafio. Vamos de calango repicado. Isso é que é calango corrido! Poeta, segura a linha da porfia! Agora pra linha do barandão! Traz a tocha de bambu que é baile de barraca! A disputa corria solta: puxa calango da bicharada! Todos bailavam e ele entrelaçado nela, com passos simples, no maior forró, aos rodopios, requebros e desengoços, assim respondiam-se mutuamente à provocação de ambos. Era quase final de festa, um alarido. Foi um corre-corre medonho. O padre escapuliu, os convidados fugiram, outros morreram, só os dois escaparam vítimas de letal pandemia, com não se sabe quantos defuntaram de muitos. Ficaram de quarentena pro resto da vida. Repetia-se com ela o que ocorreu com sua mãe: o sacristão aprisionou-a em uma guampa e foram viver numa casa de taipa na caatinga, como se fossem os condenados a viver numa furna, longe de tudo e de todos, sozinhos. Até mais ver.

 

Virginia Woolf: Se você não disser a verdade sobre si mesmo, não poderá dizê-la sobre os outros... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Elvira Lindo: Mentir nem sempre é necessário, mas é algo a que nos habituamos e que não conseguimos evitar... Dizem que o que mais sentimos falta nos mortos são as peculiaridades que nos irritavam, e não a coerência de suas ações... Não viver é não sofrer e não saber... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Angela Davis: Não aceito mais as coisas que não posso mudar. Estou mudando as coisas que não posso aceitar... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SEM COMPASSO

Imagem: acervo ArtLAM.

Desvariando \ regressando \ caindo \ rompendo a boca e os dentes \ fechando os olhos para evitar o punhal verde \ guardando os ouvidos da broca \ sufocando de calor \ tocando as fotos que foram relógio todos esses anos \ acariciando a terra que guarda amores fugidos \ acariciando minha língua com sabores que me fazem texto \ sendo filha recebida \ recuperando as horas de sono aconselhadas por Salerno \ resgatando uma parte de mim que foge a cada dia \ deixando de ver o berço como bruma \ como incêndio \ como ilha que se afasta do meu nado.

Poema da escritora, jornalista e pesquisadora venezuelana Lena Yau, autora de obras como Trae tu espalda para hacer mi mesa (2015); Lo que contó la mujer canalla (2016); Bienmesabes (2018); Bonnie Parker o la posibilidad de un árbol (2018); Carne de mi carne (2018); Nubes (2019); Escribir afuera (2021); Asintomática (2021); Cuentos de Venezuela (2022) e En la desnudez de la luz. Poetas venezolanas nacidas en la década del sesenta (2022). Veja mais aquí.

 

ÚLTIMA PARADA – [...] Às vezes, você só precisa sentir, porque merece ser sentido. [...] Quando se passa a vida inteira sozinho, é incrivelmente atraente mudar-se para um lugar grande o suficiente para se perder nele. Onde estar sozinho pareça uma escolha. [...] Talvez eu ainda não saiba o que preenche esse espaço, mas posso observar o ambiente ao meu redor, o que cria essa forma, e me importar com o que o compõe, se é bom, se machuca alguém, se faz as pessoas felizes, se me faz feliz. E isso pode ser o suficiente por enquanto. [...]. Trechos extraídos da obra One Last Stop (St. Martin's Griffin, 2021), da jornaista e escritora estadunidense Casey McQuiston, que na sua obra I Kissed Shara Wheeler (Pan Macmillan, 2022), ela expressou: […] Não acredito que fazer algo na frente de todos torne isso mais significativo. Pelo contrário, faz com que deixe de ser algo seu. [...] Ela se sente como a lombada de um livro prestes a se romper e derramar todas as entranhas da história de amor. [...]. Já noutra obra Red, White & Royal Blue (Macmillan, 2022), ela expressa que: […] Às vezes você simplesmente pula e espera que não seja um penhasco. [...] Devo te contar que, quando estamos separados, seu corpo volta para mim em sonhos? Que quando durmo, eu te vejo, a curva da sua cintura, a sardinha acima do seu quadril, e quando acordo de manhã, parece que estive com você ontem mesmo, o toque fantasma da sua mão na minha nuca, fresco e não imaginado? Que posso sentir sua pele contra a minha, e isso faz cada osso do meu corpo doer? Que, por alguns instantes, posso prender a respiração e estar de volta lá com você, em um sonho, em mil quartos, em lugar nenhum? [...] Mas a verdade é, também, simplesmente esta: o amor é indomável. [...].

 

CRUZADA LINGUISTICA – [...] uma cruzada pela educação linguística. Quando eu era mais jovem, coletei muitas histórias de vida porque precisávamos reconstruir a memória para recuperar a terra. [...] Do ponto de vista cultural, isso permite falar de uma visão de mundo onde os seres humanos estão intrinsecamente ligados à natureza. Estamos ligados às montanhas. Nossos nomes estão conectados aos animais, aos pássaros: essa é a nossa identidade. [...] O que aconteceu é que a reforma educacional não leva em consideração as línguas ou os povos indígenas. Os projetos de aperfeiçoamento docente também não os mencionam. A lei de inclusão fala sobre diversidade, mas não se refere às línguas ou aos direitos dos povos indígenas.  [...]. Trechos da entrevista Elisa Loncon: A descolonização da linguagem (Revista Universitária PUC-Chule, 2016), concedida pela linguista, professora e ativista chilena Elisa Loncón, defendendo a decolonização linquística, a identidade, diretos culturais e linguístico do povo mapuche e dos povos originários do Chile. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GERALDO AZEVEDO

[...] Na verdade, eu comecei na década de 60, como músico. Na década de 70, eu já virei um compositor, já tinha um trabalho, já estava criando um trabalho mais. [...] eu acho que eu tomei muito consciência foi na segunda prisão, quando eu fiquei preso. Primeiro morreu uma pessoa do meu lado sendo torturada. Foi muito torturado. E aí. Foi aí que eu comecei a fazer uma reflexão sobre a minha vida. [...] Desde a década de 90 que eu venho falando da água. Isso antes de todo mundo, de ter essas secas assim. Porque eu nasci no rio São Francisco e quando foi na década de 90 que comecei a fazer shows pelo Nordeste, de volta e passei por algumas cidades do rio São Francisco eu fiquei chocado. Na década de 90. O rio São Francisco... Cheguei em Penedo, as pessoas atravessavam o rio andando em lugares em que passavam embarcações... [...] O Brasil é um país que tem que orgulhar quem nasce no Brasil. Mas o fato é que é um país que se rende demais, que se viciou no colonialismo. [...] O que me inspira mesmo no trabalho, o que me liga ao trabalho, a primeira coisa é o amor. O amor, a relação da vida com a vida. Mas a natureza de um modo geral. Eu fui criado... eu conheci a natureza de pé no chão, tomando banho de rio, sem luz elétrica, sem motor. A minha relação com a natureza foi muito viva. [...].

Trechos da entrevista O Brasil se viciou no colonialismo: Entrevista com o cantor Geraldo Azevedo (Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade – RICS-UFMA, 2016), recolhida por João de Deus Barros, com o cantor e compositor Geraldo Azevedo (Geraldo Azevedo de Amorim). Veja mais aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

&

Luiz Gonzaga aquí, aquí, aquí, aquí, aquí & aquí.

Patrícia França aqui & aqui.

Antônio Maria aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Joana Lira aqui.

Jurandir Freire Costa aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Clarice Falcão aqui, aqui & aqui.

Gilberto Freyre aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Maria Goretti Rocha de Oliveira aqui & aqui.

Francisco Augusto Pereira da Costa aqui, aqui, aqui & aqui.

Guita Charifker aqui & aqui.

 
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sexta-feira, janeiro 15, 2021

GAINES, TREFOSSA, NECHVATAL, TUNGA, NICOLELIS, PASSO TORTO & KATALIN KARIKÓ

 

 

TRÍPTICO DQC: BATENDO UMA REAL – EU & OUTROS EUS - Ao som do Concert Recorded Live Music Vault Fort Laudedale (2000), da soprano e atriz inglesa Sarah Brightman. - Às ruas vivalma alguma acena nem olá: sou paisagem desbotada - embora haja gente demais para lá e para cá, demais da conta. Recolho-me na ausência, nenhuma interlocução possível. Mesmo assim, na solidão ainda sonho muito, roncando ao sono ou olhos bem abertos. Ao despertar dou de cara: Doro, Zé Corninho, Magaiver, doutô Zé Gulu, Tolinho & Bestinha, Biritoaldo, enfim, a patota toda ali. Como é que pode? Digo pra eles: Ué, qual a de vocês aqui? Em uníssimo: Comemorar o Ano Novo, ora. Comemorar? Claro! Vocês não ouviram o Miguel Nicolelis: É uma Guerra! Que parte desta frase ainda não foi entendida pelos arautos do corporativismo de plantão que votaram no Pandemônio e não mexem um dedo para atuar no combate à Pandemia? Vocês não se solidarizam com a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado: A gente não está seguro. Não tem mais condições para artista, intelectual, professor, quem puder vai sair, porque a gente não está seguro na rua mais, não conseguimos exercer mais a profissão. Mais do que isso, as condições de minha permanência se tornaram arriscadas. Nem se deram conta do que disse a bioquímica húngara: Katalin Karikó: Nos últimos 40 anos, não tive nenhuma recompensa pelo meu trabalho, nem mesmo um tapinha nas costas. Não preciso disso. Sei o que faço. Sei que é importante. E estou muito velha para mudar. Isso não me subiu à cabeça. Não uso joias e tenho o mesmo carro velho de sempre. Num é essa a da vacina? Sim, ela mesma. Eita! Vocês não se deram conta ainda das centenas de milhares de mortos pela sindemia e pelo desgoverno do Fecamepa na estupidez coisonária ainda não, foi? Não há o que comemorar! Hora de ouvir o escritor estadunidense Ernest Gaines (1933-2019): Não tenho mais nada a dizer, exceto isto: devemos viver com nossa própria consciência. E vamos aprumar a conversa!

 


DOIS: FALA, ESCUTO; DIGA, OUÇO - Ao som de Passo torto, de Armando Lôbo, com o octeto da Orquestra Sinfônica Brasileira – Últimos dias, tantas coisas boas. Dei de lembrar: o primeiro contato com a música se deu ainda menino, ao me deparar com repentistas no meio da feira – coisa dos improvisos duma dupla na embolada e desafio. Quando soube disso, meu pai trouxe uma penca de livros, cordéis e discos de muitos cantadores, apresentou-me à obra de Luís Gonzaga e me iniciou na audição das dores de cotovelo dos boêmios e no Choro. Era ainda molecote de nem dez anos ainda, do outro lado dos parentes o ouvido pegava ligado em Bach e Mozart, sinfonias, óperas e quantos concertos. Seguia inquieto com a descoberta do jazz e do rock progressivo, não perdendo uma sequer da Bossa Nova e das músicas de protestos que saltavam dos festivais. De lá pra cá, muita coisa boa, gente! Surpreendido aqui e ali ouvia disso, adolescendo; curtia aquilo, amadurecendo; e mais daquiloutro dos vinte aos trintanos, Tom&Sons, temas e trilhas doutros acordes e notas, claves & timbres, do ouvido à pauta neo&póstudo dos oitenoventas para dois mil e lá vai teibei! O que ouvia, experimentava; e daí experienciava; cada uma melhor que a outra, vivenciava. Até que chegou o Neto – é assim que gosta de ser chamado – e me levou cabeça a mil, tortos passos & mãos inquietas num tríptico versicular, intitulado Por que não um rap/ente stravinskiano?: Quando fala, escuto; ao dizer, ouço. O preconceito não resiste ao plural. Somos um e muitos outros. Então, vamos, assim a vida, como na Gronamma/Mãe Terra, do surinamês poeta Henri Frans de Ziel (1916-1975), dito Trefossa: Eu não sou eu / enquanto meu sangue / não se misturar por ti / nas milhares de veias de meu corpo. / Eu não sou eu, / enquanto minhas raízes / não se fincarem, não se atirarem / ao seu coração, minha mãe terra. / Eu não sou eu, / enquanto eu não estiver pronto, / para esconder e para carregar, / sua efígie em minha alma. / Eu não sou eu, / enquanto você não gritar, / de prazer e dor / em minha voz. Afinal, somos um e muitos outros.

 


TRES: ESCURANOITECENDO E ELA... - Ao som da ViralSymphOny (2006/08) & imagem de Orlando et la tempête (2020), ambas do artista pós-conceitual, compositor, poeta, teórico e crítico de arte estadunidense, Joseph Nechvatal. - Qualquintal piso folhagalhos corachão. Eleraubíqua mesmo distanciainda, quem dera SoLueclipsada. E a solidão Orlando há tempos vista Woolf: Sinto que com certeza enlouquecerei novamente. Não há passos que foram ou vão e venham, o corpespera as mãos afagamantes, como se dela Edith Wharton me desse: Vivemos em nossas próprias almas como em uma região não mapeada, alguns acres dos quais limpamos para nossa habitação; enquanto da natureza daqueles que estão mais próximos de nós conhecemos, mas as fronteiras que marcam com as nossas... para que não me seja dito Osip Mandelstan: Nós vivemos, mas não sentimos a terra abaixo de nós. Dez passos de distância e nossas palavras não podem ser ouvidas. Por isso é preciso que chegue logo e bem perto, ah, quem me dera dela a noite inteira para amanhecer em mim todos os dias. Até mais ver.

 

A ARTE DE TUNGA: RIO DE JANEIRO OU PALMARES?

O primeiro pensamento que eu coloco é que precisamos acreditar em alguma coisa ou em alguém ou em um fato. O nascimento sempre tem uma testemunha escrita ou um relato. E eu devo acreditar nessas testemunhas, certo? E se eu tiver dois depoimentos contraditórios? Posso acreditar nos dois? Onde vou parar se seguir duas pistas diferentes? Estou levando esta questão a um grau bastante consequente. Quando digo que nasci em dois lugares diferentes, estou levando estas questões a um grau bastante consequente. É paradoxal, mas pode ser uma situação interessante para se investigar. O que representa nascer duas vezes? Podemos efetivamente nascer e renascer. E este renascer não necessariamente vai significar um nascer novo, mas um nascer somado a outro anterior, e vamos continuamente renascendo em versões diversas. É expandir as experiências e a veracidade delas. Eu acredito na vida.

A arte do premiado escultor, desenhista e artista performático Tunga - Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952-2016), que foi o primeiro artista contemporâneo e o primeiro brasileiro a ter uma obra exposta no icônico Museu do Louvre, em Paris, além de obras em acervos permanentes de museus, como o Guggenheim, de Veneza. Seus trabalhos são resultados de investigações literárias, psicanalíticas, filosóficas, teatrais e científicas, carregadas de simbolismo. Realizou o vídeo Nervo de Prata, em parceria com Arthur Omar, e é autor de obras, a exemplo de Preliminares do palíndromo incesto, todas reunidas em vídeo no Tunga: 100 redes e tralhas (1997), de Roberto Moreira; no livro Tunga: Barroco de Lírios (Cosac & Naify, 1997), e na caixa Tunga (2007), reunindo sete volumes de diferentes formatos que documentam a trajetória do artista. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.


 


quinta-feira, maio 17, 2018

MARIO BENEDETTI, VIRGINIA WOOLF, HUSSERL, ERNST FISCHER, CLAUDIA NÊN, ERIN M. RILEY, ROBSON MIGUEL & ENYA

ARENGA DE ANTANHO – Imagem: Arte da artista visual e xilogravurista sergipana Claudia Nên - Zé Peiúdo estava feliz da vida: ia ser pai. O cabra chega bufafa ufano, os dentes pelas orelhas, um Júnior caía bem na encomenda: Esse vai ser macho feito o pai! Bastou o bruguelo nascer, gritou logo: Pelo tom do choro, puxou a mim, brabo todo! E na hora mesmo correu pro pariceiro Zé – que, até então, não era ainda Corninho, casado de papel passado com a primeira das muitas que viriam encher-lhe a testa de chifres -, e o convidou para padrinho. Selaram o compadrio tomando umas e outras, emendando pelo batizado e todo final de semana, compadre praqui, compadre prali, carne e unha. O petiz foi crescendo na casa do patrono e já tinha uma mania: toda vez que passava pelo paraninfo, amolegava o bilau e dizia: Chupeta, padim. Esse menino, hum! E de meninote viu-se rapazote, o pai foi feliz até os doze anos dele: Parece que errei na dose. As más línguas já cochichavam por todo canto: Esse garoto acende a fluorescente, ah, se! Aos quinze a coisa enfeiou: não tinha namorada e desmunhecava que só. Os boatos comiam no centro: Esse de quatro passa batalhão, fazem fila no furico dele. Aos dezessete já andava saltitante, invejava mulheres de tão espalhafatoso. O pai desconfiado, confidenciou com o achegado: Cumpade, você acha que esse menino é biba? Cuma? Ele queima a rosca? Como é? Ora, ele solta a rodela? Pela insistência, Zé-Corninho cruzou os dedos escondidos: Oxente, cumpade, naaaada! Ele é só um tiquinho delicado, mais nada. Eu tô vendo o povo se rindo pelas minhas costas. Tá nada, impressão sua. Oxe, estavam mesmo era mangando e muito da macheza dele, o filho só na maior desmoralização purpurinada. Se esse menino for fresco, eu mato esse filho duma puta! Calma, cumpade. Propôs um trato: Descubra se ele é ou não bicha, pois se for, mato ele de cacete! Deixa disso, cumpade! Lá se vão dias, semanas, meses, de repente Peiúdo entra na maior das surpresas na casa do Corninho e dá de cara com a cena: o padrinho enfiado todo no papeiro do afilhado. Que é que é isso, cumpade? Eu ia lhe contar, mas você já viu, né? Infeliz das costas ocas! O Peiúdo partiu pra cima do Corninho com tapas e bofetes, bufe, bufe, cada tabefe de quase estourar-lhe o espinhaço. Bufe, bufe. Ai, ai! Também te pego, viado! Nem deu tempo de pegar a carreira da gazela que sumiu para nunca mais. Eu pego esse baitola! Corninho todo arrebentado, ainda conseguiu persuadir: Calma, cumpade, homofobia é crime, sabia não? Então s’acostume que isso é normal, viu? Desse dia em diante, uma rixa braba nascia entre Zé Peiúdo e Zé Corninho. E a vida continua. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista Robson Miguel: Viva Brasil, Uma volta ao mundo em seis cordas & Ao vivo; da cantora, instrumentista e compositora irlandesa Enya: The Cranberries Live in Paris, Greatest Hits Best Songs & Only time; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Estou certo também de que a crise [...] possui raízes nos desvios do racionalismo. Mas isto não autoriza sustentar que a racionalidade como tal é má em si mesma, ou que ela tenha, dentro do conjunto da existência humana, uma importância de segundo plano [...]. Pensamento do filósofo alemão Edmund Husserl (1850-1938). Veja mais aqui.

NECESSIDADE DA ARTE – [...] A arte é quase tão antiga quanto o homem [...] Por seu trabalho, o homem transforma o mundo como um mágico: um pedaço de madeira, um osso, uma pederneira, são trabalhados de maneira a assemelharem-se a um modelo e, com isso, são transformados naquele modelo. Objetos materiais são transformados em signos, em nomes, em conceitos. O próprio homem é transformado de animal em homem [...] o artista continuou a ser o representante e porta-voz da sociedade. Dele não se espera que importune o público com sua vida privada, seus assuntos particulares; sua personalidade é irrelevante e ele é julgado apenas por sua habilidade em fazer-se o eco e o reflexo da experiência comum, dos grandes eventos e das ideias do seu povo, da sua classe e do seu tempo. Tal função social era imperativa, indiscutível, da mesma forma que tinha sido a do feiticeiro anteriormente [...]~A ambição do artista que se apoderou das ideias e experiências do seu tempo tem sido sempre não só a de representar a realidade como a de plasmá-la. […] Por muito tempo, o capitalismo encarou a arte como algo suspeito, frívolo e opaco. A arte “não dava lucro”. [...] O capitalismo acarretou o cálculo sóbrio e a contenção puritana. [...] O capitalismo não é em sua essência, uma força social propícia à arte, disposta a promover a arte. Na medida em que o capitalista necessita da arte de algum modo, precisa dela como embelezamento da vida privada ou apenas como um bom investimento [...] A arte pode levar o homem de um estado de fragmentação a um estado de ser íntegro, total. A arte capacita o homem para compreender a realidade e o ajuda não só a suportá-la, como a transformá-la, aumentando-lhe a determinação de torna-la mais humana e mais hospitaleira para a humanidade. A arte, ela própria, é uma realidade social. A sociedade precisa do artista, este supremo feiticeiro, e tem o direito de pedir-lhe que ele seja consciente de sua função social [...] A arte não só é necessária e tem sido necessária, mas continuará sendo sempre necessária. [...]. Trechos extraídos da obra A necessidade da arte (Zahar, 1983), do filósofo austríaco Ernst Fischer (1899-1972).

RUMO AO FAROL - [...] Há um código de conduta que ela conhecia, e cujo sétimo artigo (talvez) diz que em tais ocasiões convém à mulher, não importa qual seja sua profissão, ajudar o jovem sentado diante dela, para que ele possa expor e aliviar os fêmures e as costelas da sua vaidade, do seu premente desejo de se auto-afirmar; tal como, sem dúvida, é dever deles, refletiu, com sua sinceridade de solteirona, de nos ajudar em caso, por exemplo, de ocorrer um incêndio no metrô. [...]. Assim, não respondeu, mas continuou olhando, obstinado e triste, a praia, coberta por um manto de paz, como se as pessoas que viviam estivessem adormecidas, pensou: como se fossem livres para ir e ir como fantasmas. Lá elas não sofriam – pensou. [...]. Trechos extraídos da obra Rumo ao farol (Publifolha, 2003), da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Veja mais aqui.

CINCO POEMASPOR QUE CANTAMOS: Se cada hora vem com sua morte / se o tempo é um covil de ladrões / os ares já não são tão bons ares / e a vida é nada mais que um alvo móvel / você perguntará por que cantamos / se nossos bravos ficam sem abraço / a pátria está morrendo de tristeza / e o coração do homem se fez cacos / antes mesmo de explodir a vergonha / você perguntará por que cantamos / se estamos longe como um horizonte / se lá ficaram árvores e céu / se cada noite é sempre alguma ausência / e cada despertar um desencontro / você perguntará por que cantamos / cantamos porque o rio está soando / e quando soa o rio / soa o rio / cantamos porque o cruel não tem nome / embora tenha nome seu destino. VIRAR A PÁGINA: É meu lugar / meu céu / meu travesseiro / meus insultos / sou quem sou porque os outros são / há uma história em cada amanhecer / e em cada transparência do crepúsculo / estive doze anos sem virar esta página / esperando sua letra suas estampas / imaginando coisas que não diz / mas que eram igualmente certas / sem virar esta página /ninguém pode ser alguém / pode somar paisagens / espigões torrentes / multidões fronteiras / pode colecionar amores e sabores / aplausos e vaias / manjares e esmolas / os rumos os atalhos / as diferenças as indiferenças / a solidariedade e o exorcismo / as ofertas saborosas os escândalos / os dedos que assinalam e os braços abertos / as decepções e as recompensas / as recusas e as convocatórias / e no entanto é verdade / sem virar esta página, / ninguém pode ser alguém. FAÇAMOS UM TRATO: Companheira / você sabe / que pode contar / comigo / não até dois / ou até dez / senão contar / comigo / se alguma vez / percebe / que a olho nos olhos / e um brilho de amor / reconheces nos meus / não alerte seus fuzis / nem pense que deliro / apesar do brilho / ou talvez porque existe / você pode contar / comigo / se outras vezes / me encontra / intratável sem motivo / não pense que fraquejara / igual pode contar / comigo / porém façamos um trato / eu quisera contar / com você / é tão lindo / saber que você existe / um se sente vivo / e quando digo isto / quero dizer contar / embora seja até dois / embora seja até cinco / não já para que acuda / pressurosa em meu auxílio / senão para saber / a ciência certa / que você sabe que pode / conta comigo. AMOR DE TARDE: É uma pena você não estar comigo / quando olho o relógio e já são quatro / e termino a planilha e penso dez minutos / e estico as pernas como todas as tardes / e faço assim com os ombros para relaxar as costas / e estalo os dedos e arranco mentiras. / É uma pena você não estar comigo / quando olho o relógio e já são cinco / e eu sou uma manivela que calcula juros / ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas / ou um ouvido que escuta como ladra o telefone / ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades. / É uma pena você não estar comigo / quando olho o relógio e já são seis. / Você podia chegar de repente / e dizer “e aí?” e ficaríamos / eu com a mancha vermelha dos seus lábios / você com o risco azul do meu carbono. SÓ ENQUANTO ISSO: Você volta, dia de sempre, / rompendo o ar justamente onde / o ar tinha crescido feito muros. / Você porém nos ilumina brutalmente / e na simples náusea da sua claridade / sabemos quando nos cairão os olhos, / o coração, a pele das recordações. / Claro, enquanto isso / há frases, há pétalas, há rios, / há a ternura como um vento úmido. / Só enquanto isso. Poemas do poeta uruguaio do compromisso e cronista dos sentimentos, Mario Benedetti (1920-2009).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual estadunidense Erin M. Riley.
Veja mais aqui.

Sarau Recanto das Letras em Curitiba & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte da artista visual e xilogravurista sergipana Claudia Nên
&
A lengalenga entre os Zés Peiúdo e Corninho aqui, aqui, aqui e aqui.
&
Cada qual seu quinhãoo pensamento de Mario Sérgio Cortella, a arte de Lili Reynaud-Dewar, a fotografia de Josephine Baker, a poesia de Larissa Marques & Homophobia é crime aqui.


terça-feira, fevereiro 23, 2016

NERUDA, WOOLF, CUNNINGHAM, TOURAINE, MONHEIT, STANDISH & LITERÓTICA


 


A DEUSA QUE SE FEZ RAINHA PARA SER SÚDITA DA NOITE – Ela emergiu ignota com toda pompa celestial de deusa radiante a ensolarar as trevas com as trombetas de sua fulgurante sedução e a levitar dançante pronta para a celebração de sua glória divina. Aterrissou magnânima rainha com reverência de saudar exclusivo súdito compungido pela comunhão de seu majestoso poder. Desceu em câmara lenta pelos degraus suntuoso do seu trono e a mim se encaminhou como se reconhecesse os méritos de fiel escudeiro, a lançar sua mão sobre meu ombro, contemplado na cerimônia. Tomou-me de pé para receber a sua comenda ilustre e ela dispensou o manto e a coroa, removeu as cobertas de sua elegância, revelando-se com uma lingerie transparente na oferenda de sua nudez soberana. E diante de mim fraquejou vulnerável prostrada, e fixou seu olhar sobre meu sexo e o elegeu panteão de sua deidade, tonando-se fiel monja discípula, súdita destronada a render homenagem com suas carícias a deificá-lo. Alisando-o terna e apaixonada, como se cuidasse de bem preciosíssimo, tomou entre as mãos, apalpando-o meticulosa, a mimá-lo com seus afagos, magia de felatriz nos feitiços de boca, lábios e língua. E me fez imortal com sua gula desenfreada, e me investiu entronizado pelo sobejo de sua saliva caudalosa, e me tomou por dono com suas insaciáveis abocanhadas, e levou-me ao ápice de seu poderio milenar, quando no clímax do meu estertor, quedou convidativa, portas escancaradas, amplidão por conquistar: Vem! E a ventania do seu ventre tragou-me priápico, ao repouso de seus seios fartos, com todos os prados e arrebóis infinitos de sua sinuosidade abissal. Doou-me a botija repleta com todos os tesouros exultantes, como quem premia o vencedor com todos os galardões de seus gozos e orgasmos perenes. Assim nela eu sou. Veja mais aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Há um esgotamento dos modelos políticos, e eu acho que a responsabilidade dos intelectuais nisso é muito grande, porque, em uma país como a França ou a Itália, um pouco no Brasil, muito na Argentina, na Venezuela e em outros países, os intelectuais fizeram a política do pior... Nós não podemos sobreviver às mudanças atuais sem ideias novas de uma maneira que corresponda à realidade e que inspire confiança. Então, o que eu diria hoje do mundo ocidental é que essas doenças são bem menos doenças da mão, das pernas ou dos pés, do que são da cabeça. Em outras palavras, se eu assumo uma posição radical ou até excessiva sobre a situação, dizendo que há todo um sistema que ruiu do ponto de vista econômico, é preciso ver que o grande obstáculo hoje em dia – como eu dizia, um pouco para o Brasil, mas muito mais para os europeus – é a renovação das idéias e do pessoal, dos políticos, dos intelectuais, dos sindicatos, de tudo...

Pensamento do sociólogo francês Alain Touraine (1925-2023). Veja mais aqui & aqui.

 

SENHORA DALLOWAY – [...] ela tinha a constante sensação de estar muito, muito longe no mar, sozinha; sempre tinha a impressão de que era muito, muito perigoso viver sequer um dia. [...] Qual a importância do cérebro em comparação com o coração? [...] É possível que o próprio mundo seja desprovido de significado. [...] Ela acreditava que não existiam deuses; que ninguém era culpado; e assim desenvolveu essa religião ateísta de fazer o bem pela bondade em si. [...] É uma grande pena nunca poder dizer o que se sente. [...] Amar torna a pessoa solitária. [...] Beleza, parecia dizer o mundo. E como que para provar isso (cientificamente), onde quer que ele olhasse — para as casas, para as grades, para os antílopes esticados sobre as cercas —, a beleza surgia instantaneamente. Observar uma folha tremulando na corrente de ar era uma alegria requintada. Lá no céu, andorinhas mergulhavam, desviavam, lançavam-se para dentro e para fora, em círculos, sempre com perfeito controle, como se elásticos as sustentassem; e as moscas subiam e desciam; e o sol, ora tingindo esta folha, ora aquela, em tom de zombaria, ofuscando-a com um dourado suave, em puro bom humor; e ora, novamente, um sino (talvez uma buzina de carro) tilintando divinamente nos talos de grama — tudo isso, calmo e racional como era, feito de coisas comuns como era, era a verdade agora; a beleza, essa era a verdade agora. A beleza estava em toda parte. [...] Foi um sonho bobo, muito bobo, esse de ser infeliz. [...] Aqui a vida parou. [...]. Trechos extraídos da obra Mrs. Dalloway (Houghton Mifflin Harcourt, 2002), da escritora, ensaista e editora britânica Virginia Woolf (Adeline Virginia Woolf, nascida Stephen – 1882-1941). A obra foi pro cinema em 1997, como um drama dirigido por Marleen Gorris e estrelado por Vanessa Redgrave. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

AS HORAS – […] Existe beleza no mundo, embora seja mais cruel do que imaginamos. [...] Não se encontra a paz evitando a vida. [...] Damos nossas festas; abandonamos nossas famílias para viver sozinhos no Canadá; lutamos para escrever livros que não mudam o mundo, apesar de nossos talentos e esforços incansáveis, nossas esperanças mais extravagantes. Vivemos nossas vidas, fazemos o que fazemos e depois dormimos. É tão simples e comum quanto isso. Alguns se atiram de janelas, ou se afogam, ou tomam pílulas; outros morrem em acidentes; e a maioria de nós é lentamente devorada por alguma doença ou, se tivermos muita sorte, pelo próprio tempo. Há apenas isso como consolo: uma hora aqui ou ali em que nossas vidas parecem, contra todas as probabilidades e expectativas, explodir e nos dar tudo o que sempre imaginamos, embora todos, exceto as crianças (e talvez até elas), saibam que essas horas serão inevitavelmente seguidas por outras, muito mais sombrias e difíceis. Ainda assim, prezamos a cidade, a manhã; esperamos, mais do que tudo, por mais. Só Deus sabe por que a amamos tanto... [...] A beleza é uma prostituta, eu prefiro dinheiro. [...] Lembro-me de uma manhã em que acordei ao amanhecer. Havia uma sensação tão grande de possibilidades. Sabe, aquela sensação. E eu... lembro-me de pensar: Então este é o começo da felicidade, é aqui que tudo começa. E, claro, sempre haverá mais... nunca me ocorreu que não fosse o começo. Era a felicidade. Era aquele momento, ali mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra As horas - The Hours (Companhia das Letras, 1998), do escritor estadunidense Michael Cunningham, obra que foi levada ao cinema em 2002, um drama dirigido por Stephen Daldry, roteiro de David Hare e estrelado pelas atrizes Streep, Moore e Kidman. Veja mais aqui.

SURRENDER – Curtindo o álbum Surrender (2007), da cantora estadunidense Jane Monheit, com nítidas influências da música brasileira. Veja mais aqui, aquiaqui.


OS ERÓTICOS POEMAS DE PABLO NERUDA

CAVALHEIRO SÓ

Os jovens homossexuais e as mocinhas amorosas,
E as longas viúvas que sofrem de insônia delirante,
E as jovens senhoras há trinta horas emprenhadas,
E os gatos roufenhos que atravessam meu jardim em trevas,
Como um colar de palpitantes ostras sexuais
Rodeiam minha casa solitária,
Inimigos jurados de minha alma,
Conspiradores em traje de dormir,
Que trocaram a senha grandes beijos espessos.

O verão radiante conduz os namorados
Em uniformes regimentos melancólicos
Feitos de gordos magros e alegres tristes pares:
Sob os coqueiros elegantes, junto ao mar e à lua,
Há uma vida continua de calças e galinhas,
Um rumor de meias de seda acariciadas,
E seios femininos a brilhar como dois olhos.

O pequeno empregado, depois de tanta coisa,
Depois do tédio semanal e das novelas lidas na cama toda noite,
Seduziu sua vizinha inapelavelmente
E a leva agora a cinemas miseráveis
Onde os herois são porcos ou são príncipes apaixonados
E lhe acaricia as pernas, véu macio,
Com suas mãos ardentes, úmidas que cheiram a cigarro.

As tardes do sedutor e as noites dos esposos
Se unem, dois lençóis que se sepultam,
E as horas de após almoço em que os jovens estudantes
E as jovens estudantes, e os padres se masturbam,
E os animais fornicam sem rodeios
E as abelhas cheiram a sangue e zumbem coléricas as moscas,
E os primos brincam de estranho jeito com as primas,
E os médicos olham com fúria o marido da jovem paciente,
E as horas da manhã nas quais, como que por descuido, o professor
Cumpre os seus deveres conjugais e desjejua,
E inda mais os adúlteros, que com amor verdadeiro se amam
Sobre leitos altos, amplos como embarcações:
Seguramente, eternamente me rodeia
Este respiratório e enredado grande bosque
Com grandes flores e com dentaduras
E raízes negras em forma de unhas e sapatos.

OS TEUS PÉS

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

MULHER

Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e
dois corpos por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos ténues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo nocturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.


O INSETO

Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um inseto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!

PARA QUE ME OUÇAS

Para que me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto de gaivotas sobre as praias.
Colar, guizo ébrio
para as tuas maos suaves como as uvas.
E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

CUERPO DE MUJER

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia si límite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

DORMI CONTIGO TODA NOITE

Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
- pão, vinho, amor e cólera -
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.
Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.


PABLO NERUDA – Ricardo Eliezer Neftali Reyws Basoalto (1904-1973) ou simplesmente Pablo Neruda, é o poeta chileno que se tornou um dos mais importantes poetas da língua castelhana no século xx. Ele foi cônsul do Chile na Espanha e no Mexico. Foi eleito senador e ganhou o prêmio Nacional de Literatura em 1945, ano em que homenageia Luis Carlos Prestes lendo seu poema para 100 mil pessoas no estádio do Pacaembu, em São Paulo. Em 1953 recebeu o Premio Lenin da Paz. Em 1965 lhe foi outorgado o titulo de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã Bretanha. Em 1971 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Entre outras coisas, sua vida inspirou o filme “O carteiro e o poeta”. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Seduction, da pintora e fotógrafa britânica Colette Standish.
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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