ARENGA DE ANTANHO – Imagem: Arte da artista visual e
xilogravurista sergipana Claudia Nên
- Zé Peiúdo estava feliz da vida: ia ser pai. O cabra chega bufafa ufano, os
dentes pelas orelhas, um Júnior caía bem na encomenda: Esse vai ser macho feito
o pai! Bastou o bruguelo nascer, gritou logo: Pelo tom do choro, puxou a mim,
brabo todo! E na hora mesmo correu pro pariceiro Zé – que, até então, não era
ainda Corninho, casado de papel passado com a primeira das muitas que viriam
encher-lhe a testa de chifres -, e o convidou para padrinho. Selaram o
compadrio tomando umas e outras, emendando pelo batizado e todo final de semana,
compadre praqui, compadre prali, carne e unha. O petiz foi crescendo na casa do
patrono e já tinha uma mania: toda vez que passava pelo paraninfo, amolegava o
bilau e dizia: Chupeta, padim. Esse menino, hum! E de meninote viu-se rapazote,
o pai foi feliz até os doze anos dele: Parece que errei na dose. As más línguas
já cochichavam por todo canto: Esse garoto acende a fluorescente, ah, se! Aos
quinze a coisa enfeiou: não tinha namorada e desmunhecava que só. Os boatos
comiam no centro: Esse de quatro passa batalhão, fazem fila no furico dele. Aos
dezessete já andava saltitante, invejava mulheres de tão espalhafatoso. O pai
desconfiado, confidenciou com o achegado: Cumpade, você acha que esse menino é
biba? Cuma? Ele queima a rosca? Como é? Ora, ele solta a rodela? Pela
insistência, Zé-Corninho cruzou os dedos escondidos: Oxente, cumpade, naaaada!
Ele é só um tiquinho delicado, mais nada. Eu tô vendo o povo se rindo pelas
minhas costas. Tá nada, impressão sua. Oxe, estavam mesmo era mangando e muito
da macheza dele, o filho só na maior desmoralização purpurinada. Se esse menino
for fresco, eu mato esse filho duma puta! Calma, cumpade. Propôs um trato:
Descubra se ele é ou não bicha, pois se for, mato ele de cacete! Deixa disso,
cumpade! Lá se vão dias, semanas, meses, de repente Peiúdo entra na maior das
surpresas na casa do Corninho e dá de cara com a cena: o padrinho enfiado todo
no papeiro do afilhado. Que é que é isso, cumpade? Eu ia lhe contar, mas você
já viu, né? Infeliz das costas ocas! O Peiúdo partiu pra cima do Corninho com
tapas e bofetes, bufe, bufe, cada tabefe de quase estourar-lhe o espinhaço.
Bufe, bufe. Ai, ai! Também te pego, viado! Nem deu tempo de pegar a carreira da
gazela que sumiu para nunca mais. Eu pego esse baitola! Corninho todo
arrebentado, ainda conseguiu persuadir: Calma, cumpade, homofobia é crime,
sabia não? Então s’acostume que isso é normal, viu? Desse dia em diante, uma
rixa braba nascia entre Zé Peiúdo e Zé Corninho. E a vida continua. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja
mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, maio 17, 2018
MARIO BENEDETTI, VIRGINIA WOOLF, HUSSERL, ERNST FISCHER, CLAUDIA NÊN, ERIN M. RILEY, ROBSON MIGUEL & ENYA
ARENGA DE ANTANHO – Imagem: Arte da artista visual e
xilogravurista sergipana Claudia Nên
- Zé Peiúdo estava feliz da vida: ia ser pai. O cabra chega bufafa ufano, os
dentes pelas orelhas, um Júnior caía bem na encomenda: Esse vai ser macho feito
o pai! Bastou o bruguelo nascer, gritou logo: Pelo tom do choro, puxou a mim,
brabo todo! E na hora mesmo correu pro pariceiro Zé – que, até então, não era
ainda Corninho, casado de papel passado com a primeira das muitas que viriam
encher-lhe a testa de chifres -, e o convidou para padrinho. Selaram o
compadrio tomando umas e outras, emendando pelo batizado e todo final de semana,
compadre praqui, compadre prali, carne e unha. O petiz foi crescendo na casa do
patrono e já tinha uma mania: toda vez que passava pelo paraninfo, amolegava o
bilau e dizia: Chupeta, padim. Esse menino, hum! E de meninote viu-se rapazote,
o pai foi feliz até os doze anos dele: Parece que errei na dose. As más línguas
já cochichavam por todo canto: Esse garoto acende a fluorescente, ah, se! Aos
quinze a coisa enfeiou: não tinha namorada e desmunhecava que só. Os boatos
comiam no centro: Esse de quatro passa batalhão, fazem fila no furico dele. Aos
dezessete já andava saltitante, invejava mulheres de tão espalhafatoso. O pai
desconfiado, confidenciou com o achegado: Cumpade, você acha que esse menino é
biba? Cuma? Ele queima a rosca? Como é? Ora, ele solta a rodela? Pela
insistência, Zé-Corninho cruzou os dedos escondidos: Oxente, cumpade, naaaada!
Ele é só um tiquinho delicado, mais nada. Eu tô vendo o povo se rindo pelas
minhas costas. Tá nada, impressão sua. Oxe, estavam mesmo era mangando e muito
da macheza dele, o filho só na maior desmoralização purpurinada. Se esse menino
for fresco, eu mato esse filho duma puta! Calma, cumpade. Propôs um trato:
Descubra se ele é ou não bicha, pois se for, mato ele de cacete! Deixa disso,
cumpade! Lá se vão dias, semanas, meses, de repente Peiúdo entra na maior das
surpresas na casa do Corninho e dá de cara com a cena: o padrinho enfiado todo
no papeiro do afilhado. Que é que é isso, cumpade? Eu ia lhe contar, mas você
já viu, né? Infeliz das costas ocas! O Peiúdo partiu pra cima do Corninho com
tapas e bofetes, bufe, bufe, cada tabefe de quase estourar-lhe o espinhaço.
Bufe, bufe. Ai, ai! Também te pego, viado! Nem deu tempo de pegar a carreira da
gazela que sumiu para nunca mais. Eu pego esse baitola! Corninho todo
arrebentado, ainda conseguiu persuadir: Calma, cumpade, homofobia é crime,
sabia não? Então s’acostume que isso é normal, viu? Desse dia em diante, uma
rixa braba nascia entre Zé Peiúdo e Zé Corninho. E a vida continua. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja
mais aqui.quarta-feira, abril 08, 2015
ZLATA FILIPOVIĆ, AMIN MAALOUF, KOWARICK, BERTHA PAPPENHEIM & BASÍLIO DA GAMA
O DIÁRIO DA
SOLIDÃO DE ZLATA... - A filha única de um advogado e de uma
engenheira química vivia das aulas de piano e canto coral, jogava tênis no
verão e esqui no inverno. Contava apenas com 11 anos quando começou a escrever
o seu diário em Saravejo, seus anseios e percepções, o seu despreocupado
cotidiano. Quando menos esperava eclodiu a guerra da Bósnia, os horrores da
mais sangrenta depois a da segunda guerra grande. Houve uma debandada geral,
mas seus pais, ao contrário, decidiram ficar juntos. O suprimento de comida ficou
limitado, não havia eletricidade, nem água. A perplexidade de um modo primitivo
de vida que ali ela testemunhava as mortes, desaparecimentos, o medo, o
racionamento e as necessidades: Nunca imaginei que algo assim poderia
acontecer. Como tudo pode mudar em um segundo? A escola em que eu estudava foi
fechada. Lugares que adorava foram destruídos. Pessoas próximas foram feridas
ou mortas. Não conseguia entender o porquê de estarem destruindo as coisas que
eu tanto amava.... O conflito mais se agravava e o seu diário foi
descoberto pela escola. Sua família refugiou-se em Paris. Depois passou uma
temporada na Inglaterra, transferindo-se para Irlanda, morando em Dublin: Escrever
no diário foi um desabafo. Considerava-o um anjo da guarda, um amigo,
companheiro nos momentos difíceis, que não falava, só ouvia... Tudo o
que havia antes da guerra foi tirado de mim e de mais de quatro milhões de
pessoas que viviam na antiga Iugoslávia... No exílio bacharelou-se em
Ciências Humanas na Oxford e fez mestrado em Saúde Pública no Trinity College. Passou
a trabalhar na Casa Anne Frank e na Unicef com os propósitos de propagar a paz:
Uma das coisas que permanecem na minha memória é o som das bombas
explodindo. Até hoje, quando escuto explosões de fogos de artifício, lembro das
situações vivenciadas. A vida é muito frágil... Veja mais abaixo e mais
aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS - Tédio!!! Tiroteio!!! Bombardeios!!! Pessoas sendo mortas!!!
Desespero!!! Fome!!! Miséria!!! Medo!!! Essa é a minha vida! A vida de uma
inocente colegial de onze anos!! Uma colegial sem escola, sem a diversão e a
emoção da escola. Uma criança sem jogos, sem amigos, sem sol, sem pássaros, sem
natureza, sem frutas, sem chocolate ou doces, com apenas um pouco de leite em
pó. Em suma, uma criança sem infância... Pensamento da escritora bósnia e ativista pacifista,
Zlata Filipović, que no seu livro Zlata's Diary: A Child's Life in
Wartime Sarajevo (Penguin, 2006) ela expressa que: […] Parece-me que esta política significa Sérvios, Croatas e
Muçulmanos. Mas eles são todos pessoas. Eles são todos iguais. Todos parecem
pessoas, não há diferença. Todos têm braços, pernas e cabeça, andam e falam,
mas agora há “algo” que quer torná-los diferentes. [...] A guerra não é brincadeira, ao que parece. Destrói, mata,
queima, separa, traz infelicidade. [...] Meu diário tornou-se mais do
que um lugar para registrar acontecimentos diários. Tornou-se um amigo, o papel
que o compunha estava pronto e disposto a aceitar tudo e qualquer coisa que eu
tivesse a dizer. [...]. Ela também
participa do livro The Freedom Writers Diary: How a Teacher and 150 Teens
Used Writing to Change Themselves and the World Around Them (Main Street
Books, 1999), no qual ela expressa: […] Se optarmos por lidar com situações desumanas de uma forma humana,
poderemos mudar o mundo e criar lições positivas para nós próprios e para os
outros. [...]. Em 2008 ela organizou com a inglesa Melanie
Challenger o livro Vozes roubadas: diários de guerra, coletânea de 14
diários escritos por crianças e adolescentes que viveram em áreas de conflito.
ALGUÉM FALOU: Nunca hesite em
ir para longe, além de todos os mares, todas as fronteiras, todos os países,
todas as crenças... Eu não venho de nenhum país, de nenhuma cidade, de nenhuma
tribo. Eu sou o filho da estrada... todas as línguas e todas as orações
pertencem a mim. Mas eu não pertenço a nenhuma delas. A identidade não
pode ser compartimentada; não pode ser dividida em metades ou terços, nem ter
nenhum conjunto de limites claramente definido. Não tenho várias identidades,
tenho apenas uma, feita de todos os elementos que moldaram suas proporções
únicas... Pensamento do escritor libanês Amin Maalouf, que no seu ensaio
livro Killer Identities (Alianza, 2005), expressou que: [...] Só
porque uma realidade é imprecisa, imperceptível e flutuante não significa que
ela não exista [...] As pessoas muitas vezes se veem em termos de qual de suas
lealdades está mais sob ataque. E às vezes, quando uma pessoa não tem forças
para defender essa lealdade, ela a esconde. Depois permanece enterrado nas
profundezas da escuridão, aguardando a sua vingança. Mas quer ele o aceite ou
oculte, proclame-o discretamente ou despreze-o, é com essa lealdade que a
pessoa em questão se identifica. E então, seja por cor, religião, língua ou
classe, invade toda a identidade da pessoa. Outras pessoas que compartilham a
mesma lealdade simpatizam; todos eles se reúnem, unem forças, encorajam uns aos
outros, desafiam “o outro lado”. Para eles, “afirmar a sua identidade” torna-se
inevitavelmente um ato de coragem, de libertação. No meio de qualquer
comunidade que tenha sido ferida surgem naturalmente agitadores… O cenário está
agora montado e a guerra pode começar. Aconteça o que acontecer, “os outros”
terão merecido. […] O que convenientemente chamamos de “loucura
assassina” é a propensão dos nossos semelhantes de se transformarem em
carniceiros quando suspeitam que a sua “tribo” está a ser ameaçada. As emoções
de medo ou insegurança nem sempre obedecem a considerações racionais. Podem ser
exagerados ou até paranóicos; mas quando toda uma população tem medo, estamos a
lidar com a realidade do medo e não com a realidade da ameaça. [...]. É
também autor das obras In the Name of Identity: Violence and the Need to
Belong (1998), Samarkand (1986) e Balthasar's Odyssey (2000).
ESPOLIAÇÃO
URBANA – [...] Trata-se de um conjunto de situações que pode ser
denominado de espoliação urbana: é a somatória de extorsões que se opera pela
inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo, que juntamente ao
acesso à terra e à moradia apresentam-se como socialmente necessários para a
reprodução dos trabalhadores e aguçam ainda mais a dilapidação decorrente da
exploração do trabalho ou, o que é pior, da falta desta. [...]. Trecho
extraído da obra Viver em risco: sobre a vulnerabilidade socioeconômica e civil
(34, 2009), do cientista político Lúcio Kowarick (1938-2020).
LENDAS DO NORDESTE – No blog Brincarte do Nitolino tenho divulgado
lendas oriundas do imaginário do Nordeste brasileiro, como também indígenas e
das mais diversas regiões do país e do exterior. LEMBRETE: Hoje para as crianças de todas as idades é dia de
reprise do programa Brincarte do
Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs, no projeto MCLAM, com
apresentação da Ísis Corrêa Naves. Para conferir clique aqui, aqui ou aqui.
AQUELE QUE NASCEU DA TRIBO
SAKYAS E ALCANÇOU A PERFEIÇÃO
- Com o nome primitivo de Siddhartha Sakya-muni Gautama que quer dizer Gautama
que pertence à tribo dos Sakyas e alcançou a meta da perfeição, o Buda
(563aC-483aC) nasceu de antigo príncipe hindu. Aos dezenove anos ele casou-se
com sua bela prima Yasodhara e quando ela deu à luz o seu primeiro filho, ele
disse: - É mais um vínculo poderoso que terei de romper. E assim o fez: no
amanhecer, ele chegou à margem de um rio, cortou os cabelos longos, despiu as
vestes principescas e tirou as joias, entregand0-as, juntamente com seu cavalo
e espada, ao servo Chana, a quem deu ordem de regressar ao palácio e comunicar
ao Rajá e a sua esposa a resolução que tomara. Então, depois de vestir uma
blusa de camponês, partiu a procurar a verdade junto aos sacerdotes sábios que
viviam nas furnas das montanhas. E uma noite em que repousava sob a árvore bô,
debatendo-se contra a dúvida e a solidão, uma grande paz desceu sobre ele. E
quando se levantou de manhã, já não era Gautama, o Cético, mas Buda, o
Iluminado. Por fim, compreendera o mistério do sofrimento humano, suas causas e
sua cura. Ele passou a ensinar a alegria, não da posse, mas da renúncia: a base
do segredo da vida. E começou a propor: Fez o bem por amor ao próprio bem; por
amor da tua paz de espirito; para te tornares um Siddharta, um homem cuja
vontade atingiu o seu objetivo. E dizia: Nada sei do mistério de Deus, mas
conheço alguma coisa das misérias do homem. E arquitetou um sistema de devoção
e devotamento, erigido sobre o triangulo moral formado pela moderação, a
paciência e o amor. Todo o resto de sua longa vida, Gautama vagueou de cidade
em cidade, acampando nos bosques vizinhos, nos jardins ou à margem de algum
rio. E muitos foram os discípulos a quem entregou a sua legitima herança. Um
dia, finalmente, quando já passava dos oitenta anos, acolheu-se à cabana de um
ferreiro para o almoço depois voltou ao bosque e estendeu-se num leito de
folhas, mortalmente enfermo. Os discípulos se reuniram ansiosos em torno do
mestre. E Gautama ergueu os olhos para eles: Não pensais que, por ter-se ido o
vosso mestre, a Palavra morreu. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. terça-feira, dezembro 02, 2014
RONELDA KAMFER, ALEXANDRA MARININA, LÍDIA JORGE & EKATERINA SAMUTSEVICH
DIAS DE ESPERA – Esperava
ele impaciente pelo retorno da vizinha com notícias de uma prima distante que
morava nos cafundós de Judas, quinhentas léguas adentro do inferno afora e uns
catombos a mais. Ao contrário, era o marido dela, estranho de sempre, ali
peiticando com suas manias esquisitas às insatisfações disso ou daquilo,
principalmente reclamando da sua esposa que saíra sem dizer nada e, ainda por
cima, soube que ela se indispusera um dia desse, com uma moça da loja da
esquina, a ponto de puxarem cabelos e arrancarem as saias, um escândalo e com
um montão de gente testemunhando o pandemônio. Que coisa! Acontece que a comerciária
indigesta era parente duma malvada tranca-rua, daquelas de descer dos tamancos
e fechar o quarteirão num escarcéu de gasguita sem precedentes.
Indubitavelmente chegaria toda encrenqueira, puxando seu marido pelas arreatas
das calças, aquele tocador de clarinete que só fazia número ao seu lado, vez
que se fazia de desentendido pelo tumulto da famigerada consorte frutiqueira,
alheio a tudo e reduzido ao seu mutismo perturbador. Pense numa bronca! Esta
megera era capaz de ameaçar sua esposa com um despacho de catimbó dos
bem-feitos, daqueles de enfiar o nome na boca costurada dum sapo cururu bem
raçudo, acrescentando de todos os azares de pedras jogadas no telhado e vidraça
da sua santificada residência com malefícios aziagos, domicílio este, aliás,
tido por ele mesmo como o mais invejado por todos da comunidade, por ser
contrito fiel de domingo a todos os dias de joelhos no culto evangélico ruidoso
da vizinhança e, ainda, por ser a mais aquinhoada moradia entre todos dali. Era
só de intrigas e disse-me-disse sem fim e a vizinha não aparecia com as
notícias da prima distante que, suspeita-se, pinotou pros estrangeiros depois
de um escandaloso namorico, com um certo agenciador de finanças virtuais, que
andara vitimando tantos crédulos com propostas de investimentos lucrativos e,
no final, gorara o negócio da China, deixando-o com nome malquisto na praça,
estampado nas maledicências do noticiário popular de pé de ouvido e xingamentos
despudorados dos costumeiros investidores lesados que ambicionavam amealhar
fortunas inesperadas. Bem feito! É certo, dizem fuxiqueiros, que a coitada
prima foi pras lonjuras por estar pressionada a pagar o pato ao opróbrio
popular, sendo cobrada dia e noite pelo que fez seu desavergonhado namorado.
Ah, logo ela que já fora tão simpática aos seus afetos, a ponto de se tornar
uma paixão recolhida de décadas e mantida em segredo embaixo de sete chaves no
seu coração. O pior: a vizinha não dava sinal de vida e o seu marido chato-de-galocha
não parava o badalo, atormentando seu juízo com litígios das suas escaramuças com
o dono da padaria e mais um monte de gente, como o garçom do bar da outra rua, o
gerente da loja de frente, o mecânico da oficina do outro lado, o caixa do
banco dali de perto, o chefe do clube do bairro e um tanto de outros desafetos
que colecionava, encolerizados com sua antipática pessoa. Era um desassossego
ter de aguentar aquela ladainha toda, logo ele que morria de saudades da vulnerável
família deixada no povoado de seus ancestrais, para cair no mundo e parar
naquela insuportável situação. Era o que dava: esperar. E se nutria desta
expectativa porque era refém do passado e deixara mãe e filhos no campo por
conta de ameaças de morte alardeada pelo mandão que reivindicava suas terras e,
para evitar o pior e ser tornar gente na vida, zarpou dali com uma mão na
frente e outra atrás, para sobreviver pendurado numa periferia de cidade mais
ou menos grande, sem parente nem aderente por perto, sem ter quem socorra ou
minimize sua solidão de noites e dias acumulados de constrangedora miséria, a
ponto de dali sequer poder arredar os pés por conta das dívidas do aluguel, da
caderneta na mercearia, da valsa no crediário e de tudo que tolhia sua
existência mantida pela desgraça e ter que enfrentar todos sem um mínimo gesto
a favor. Não fosse isso a vida seria um paraíso, mesmo tendo que acordar todo
santo dia, esperar condução sempre cheia, levar esporros do patrão, segurar o
emprego como podia e obrar o milagre de se sustentar com um salário mínimo que
se acabava, toda vez, dez dias antes do fim do mês, tendo que se virar com
bicos e outras informais aptidões, como a que dependia daquela vizinha para saber
notícias da prima e receber dela o trocado acertado pelo conserto que fizera
arranjando no seu automóvel que pifara e não queria funcionar. Esperava também
com as graças dos céus por dias melhores, apostava nisso dia sim e outro
também, a sorte grande bater-lhe à porta e dali mudar voltando pródigo pro
convívio dos seus, como um vencedor laureado. Assim sonhava a todo instante de
olhos abertos, devaneava esperançoso. Era mais um dia de aguardamento e
resignação. E a vizinha não dava as caras, já era para ter regressado para
aliviá-lo. Já estava impaciente e olhava prum lado e outro, conferia os
ponteiros do relógio, o tempo passava e aguentava o tanto além do que podia. Ao
invés disso, era o marido dela no maior teitei, ô biziga dos mil demônios
piorando o seu dia, a paciência nos limites, um dia a mais entre outros tantos
que viraram semana e até meses sem fim, mais de ano, por certo, no meio das
últimas décadas iguais de espera desde que saíra de casa e enfrentava o mundo
naquele confim e expectava, assim, quem sabe, um dia tudo mudasse porque
precisava da paz perdida, esperançava. E como esperava... Veja mais aqui, aqui
e aqui.
DITOS & DESDITOS - É estranho quando você é inocente,
você deveria pedir perdão ao juiz que está pronto para prendê-lo por vários
anos? Não, isso nem foi discutido... As punições contra nós nos mostraram que
conseguimos... Sou feminista e defensora do direito das mulheres à
autodeterminação. Quero uma sociedade em que as mulheres possam expressar as
suas opiniões políticas. Mostrámos que mulheres como nós podem realizar atos de
coragem. Ao fazê-lo, estamos a destruir a imagem predominante das mulheres na
Rússia. Não somos o sexo fraco. Nem sempre ficamos apenas sentados em casa,
cozinhando e cuidando das crianças. Pensamento da ativista política russa Ekaterina
Samutsevich (Yekaterina Stanislavovna Samutsevich), membro do Pussy Riot,
grupo de punck rock anti-Putinista. Em 17 de agosto de 2012, ela foi condenada
por vandalismo motivado por ódio religioso por uma apresentação performática na
Catedral de Cristo Salvador, Moscou, denunciando as ligações da igreja com o
poder de Putin, sentenciada a dois anos de prisão. Foi reconhecida como presa
política pela União de Solidariedade aos Presos Políticos e pela Amnistia
Internacional. Ela foi libertada com pena suspensa por um juiz de apelações de
Moscou, em 10 de outubro de 2012, após um argumento de seu advogado de que ela
havia sido parada por guardas da catedral antes que pudesse tirar seu violão do
estojo. Nos anos após sua libertação, ela desapareceu dos olhos do público e se
manteve discreta, mudando regularmente seu endereço de e-mail e número de
telefone. As sessões do tribunal contaram com a presença de seu pai, Stanislav
Samutsevich, com quem ela morava antes de sua prisão, que afirmou estar
"orgulhoso de quão firme e preparada ela está para enfrentar a punição em
vez de trair suas crenças". Ela também é membro do coletivo Voina, desde
2007.Em 2010, Samutsevich estava entre os ativistas Voina que tentaram libertar
baratas vivas no Tribunal de Tagansky. Mais tarde, ela foi processada no mesmo
prédio por envolvimento na "oração punk" do Pussy Riot. Ela também
participou de uma série de ações, Operação Kiss Garbage , de janeiro a
março de 2011. Este protesto incluiu mulheres beijando policiais nas estações de
metrô de Moscou e nas ruas. Foi principalmente um protesto antigovernamental,
mas também polêmico.
ALGUÉM FALOU: A
escrita é redentora. A escrita faz com que o autor, independentemente do
reconhecimento, tenha uma história de vida magnífica. A ortografia não é uma
pele artificial da expressão verbal, é uma estrutura profunda que se revela na
imagem grafada... Só onde não há amor não há culpa... Pensamento da escritora
portuguesa Lídia Jorge. Veja mais aqui e aqui.
O SONHO ROUBADO - [...]
Todos
os coros são diferentes, mas são pós-pvat de acordo com origens diferentes. Muitos de nossos problemas foram causados por tova - opitvame eis que medimos outros coros
com suas próprias medidas. [...] E com o mesmo
temor e breve momento, o sinal sonoro de tudo limpo soou.
[...] É prejudicial e está mais vivo, está morrendo por causa disso
[...]. Trechos
extraídos da obra El sueño robado (Booket,
2001), da escritora ucraniana Alexandra Marinina (Alekseyeva
Marina Anatolyevna), autora dos livros A Face Radiante da Morte
(Geração, 2003), O Dono da
Cidade (Editorial
Presença, 1999), Sonho Roubado (Editorial Presença, 2002), No Segredo
dos Mortos (Editorial Presença, 2004) e Os Últimos Morrem Primeiro
(Editorial Presença, 2004).
DOIS POEMAS - ONDE
EU FICO - Agora estou sentado em volta da mesa com os inimigos dos meus
antepassados \ Eu aceno e saúdo com consideração, \ mas \ em algum lugar no
fundo \ eu sei onde estou \ Meu coração e cabeça estão abertos \ e como pessoas
bem-educadas \ rimos e comemos juntos \ mas \ em algum lugar no fundo \ eu sei
onde eu estou. UMA MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA AZUL COMUM - era uma manhã de
segunda-feira azul comum \ em algum lugar uma mãe foi identificar o cadáver de
seu filho \ eu lavei, escovei os dentes e terminei meu trabalho de biologia \ na
geladeira havia um bilhete da minha mãe \ me pedindo para não deixar o breyani
muito picante esta noite \ minha irmãzinha estava procurando as meias dela e às
sete e meia tranquei a porta da frente \ e escondi a chave no lugar de costume \
do café comprei dois cigarros soltos \ e os escondi na minha meia \ na esquina
da Wildflower com a Rose Street \ uma garota fez piadas com ela futuros
assassinos \ na minha cabeça Dylan Thomas gritou \ não seja gentil naquela boa
noite, raiva, raiva contra a morte da luz\ na aula de educação
sexual minha melhor amiga grávida começou a sangrar \ lá fora na rua alguns
tiros soaram. Poemas da poeta sul-africana Ronelda Kamfer, autora de
obras tais como Noudat slapende
honde (2011) e grond/Santekraam
(2011)
PROGRAMA
TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá
que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado
pela poeta e radialista Meimei
Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação
desta terça aqui. Logo mais, a
partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá – agora
com 2 horas de duração -comemorando os mais de 410 mil acessos do blog,
apresentação da querida Meimei Corrêa e com as seguintes atrações na
programação: Maria Callas, Toninho Horta, Lenine,
Rildo Hora, Luiz Vieira, Accioly Neto, Martinho da Vila, Seu Jorge &
Caetano Veloso, Beth Carvalho, Leila Pinheiro, Petrúcio Amorim, Santana o
Cantador, Juareiz Correya, Mazinho, Ozi dos Palmares, Marcelo Café, Nelly
Furtado, Zenima, Britney Spears, Paulynho Duarte, Fundo de Quintal &
muito mais! Veja mais aqui.DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS
Imagem: Acervo ArtLAM . Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...
-
TATARITARITATÁ: PROJETO CORDEL NA ESCOLA - Trata-se de um projeto que envolve palestras e oficinas sobre Literatura de Cordel para estu...
-
PRIMEIRO ENCONTRO – O VÔO DA LÍNGUA NO UNIVERSO DO GOZO - Imagem: Ksenia – MPL Studios. - A viagem fora cansativa demais. Havia me l...
-
Imagem: Acervo ArtLAM . Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...
-
PACIÊNCIA – A belíssima canção Paciência , uma parceria musical de Lenine e Dudu Falcão, traduz uma reflexão intro-extrospectiva dos ...
-
Imagem: Acervo ArtLAM . Vênus da Lua de Fel na Serra das Russas... - Lá ia Tó Zeca , sobe-desce na sua fubica incrementada, todo a...







%2BReclining%2BNude%2BOn%2BA%2BDraped%2BSofa.jpg)
















.jpg)


