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quarta-feira, dezembro 02, 2020

WILLIAM SAROYAN, DJUNA BARNES, CHARLOTTE PERKINS GILMAN, ARGUEDAS & AURORA DICKIE

 

TRÍPTICO DQC: MEMORIMAGINAÇÃO - Ao som de Beira rio, do percussionista e compositor Caito Marcondes, integrante da Orquestra Popular de Cordas. – Coisuma o que penso e imagino, indistinguíveis. São quase uma coisa só de tão desordenadas. Lá fora tudo na mesma, difícil respirar e nenhuma opção: nem adianta esperar o tempo passar e mudar. Fazer pouco caso não é a minha, não consigo ficar indiferente à decadência flagrante, apesar do café frio, o vento na janela: preciso muita ideia para entender direito. Do que penso e lembro, às vezes reais e inexprimíveis: o que vivi e invento. De súbito, o escritor e dramaturgo estadunidense William Saroyan (1908-1981): As prisões e os cemitérios estão cheios de boas pessoas que não tiveram quem lhes estendesse a mão em tempos de crise. Somos uma gente feliz, é verdade, mas somos resistentes também. Não me importo de ficar triste. Importo-me a respeito de gente que não é resistente e que fica triste e magoada, e me parece que o mundo está cheio de gente assim. Ele olha o relógio e me aponta distante o que não consigo ver. Reprova minha cegueira. Ao sair cumprimenta do outro lado a escritora estadunidense Djuna Barnes (1892-1982) que me chegou: Um homem só é completo quando leva em conta sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? Eu gosto da minha experiência humana servida com um pouco de silêncio e moderação. O silêncio faz a experiência ir mais longe e, quando morre, confere-lhe aquela dignidade comum a algo que se tocou e não arrebatou. Dela nenhum sorriso, mãos nas minhas e sigo seus passos, sei que a noite será longa.

 


HERLAND – Ao som de Lusco fusco (Borandá, 2017), de Alessandro Kramer Quarteto. - Despertei num lugar estranho e ela me olha com certa estranheza e alguma hostilidade. Onde estou? Herland. Hum? Pelo tom da sua voz este era um lugar que eu não deveria jamais estar. E me disse: Os únicos forasteiros que aqui estiveram juraram manter segredo... Eu juro! E mandou-me segui-la. Lá fora durante o trajeto olhares desconfiados de mulheres fortes e atléticas seguiam-me por onde fosse. Pude ver que todas ali possuíam cabelos curtos, túnicas justas sobre calças e parecem destemidas; elas se comunicam por espécie de esperanto, parece. Ao chegar ao templo de Maaia, a deusa-mãe da maternidade, fui apresentado, não sei se por sorte ou não, a Charlotte Perkins Gilman: Não existe mente feminina. O cérebro não é um órgão do sexo. Também falar de um fígado feminino. E mostrou-me Anita Malfati contando para outras mulheres a sua sensação de morte ao perder o pai na infância: Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade. Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte... Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura. Ao me ver, ela sorriu e fui conduzido a um outro espaço onde estava a sempre exuberante Maria Callas conversando com outras ao seu redor: O amor é muito melhor quando não se está casada. Alguns dizem que tenho uma bela voz, outros dizem que não. É uma questão de opinião. Tudo o que posso dizer é que aqueles que não gostam não deveriam vir me ouvir. Não me fale sobre regras, querida. Onde quer que eu fique, faço as malditas regras. Ela percebeu a minha satisfação em vê-la, mas logo fui tocado que era hora de partir. Adiantei-me e disse: Eu juro! A minha passagem por ali havia chegado ao final. Despediu-se, deu-me uma edição atualizada do seu livro Herland (Via Leitura, 2019) e me deixou partir sob juramento: jamais contar. Não sei para onde, perdido de volta.

 


JANELA DO TEMPO - Imagem: a arte da multi-artista polaca Teresa Tyszkiewicz (1953-2020), ao som de A window in time (Telarc, 1998), de Rachmaninoff. – Ela apareceu nua e linda: Tem dedo do tempo no meio. No centro da cena, pigarreou, afinou a voz, respirou fundo e disse: Sou Luiza, Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach!, e passou o texto: Ele me disse: ‘Se você sair viva daqui, o que não vai acontecer, você pode me procurar no futuro. Eu sou o chefe, sou o Jesus Cristo [codinome do delegado de polícia Dirceu Gravina]’. Ele falava isso e virava a manivela para me dar choque. Ele também dizia: ‘Que militante de direitos humanos coisa nenhuma, nada disso, vocês estão envolvidos’. E virava a manivela. Havia umas ameaças assim: ‘Vamos prender todos os advogados de direitos humanos, colocá-los num avião e soltar na Amazônia’. Nos outros interrogatórios, eles perguntavam qual era a minha opção política, o que eu pensava, quem pagava os meus honorários, quais eram os meus contatos no exterior, o que eu pensava do comunismo. Para mim, ficou muito claro que eles queriam atemorizar advogado de preso político. Havia uma mudança no tom das equipes. Eram três, e ia piorando. Durante o interrogatório da segunda equipe, eu levei uma bofetada de um e o outro me segurou: ‘Está bravinha porque levou uma bofetada?’. E os homens da terceira equipe diziam: ‘Saia disso, onde já se viu defender esses caras, gente perigosíssima, não se meta nisso!’. Eu estava formada havia menos de um ano, e trabalhava desde o segundo ano no escritório do advogado José Carlos Dias, defendendo presos políticos. Essa era a forma que eu tinha de resistir à ditadura militar, foi minha opção de participação na resistência. Eu fui presa sem nenhuma acusação, fiquei três dias lá sem saber porque estava presa. No terceiro ou quarto dia, eu descobri o motivo: teriam achado num ‘aparelho’ um manuscrito do Carlos Eduardo Pires Fleury, que tinha sido banido do país e que foi meu colega e cliente no escritório. Eu não fui das mais torturadas. Levei choque uma manhã inteira, acho que para saber se eu tinha algum envolvimento com alguma organização clandestina e para que os advogados soubessem que não era fácil para quem militava. E chorava muito soluçando: Sou a filha de outras filhas da dor. Inconsolável, aproximei-me e demonstrei meu apoio ao lembrar de uma frase do escritor e antropólogo peruano José María Arguedas (1911-1969), ao seu ouvido com um abraço terno: A luta é um bem, o maior bem que foi concedido ao homem, mas enquanto a luta não for irremediavelmente estéril ou inútil, porque então não é mais uma luta, é o Inferno. Ainda chorosa respondeu-me com Edmond Rostand: O que é a vida sem um sonho. Todas as nossas almas estão escritas nos nossos olhos. E abraçados permanecemos por longo tempo até darmos conta de nosso prazer inenarrável. Até mais ver.

 

A ARTE DE AURORA DICKIE

Eu amo o meu trabalho e o trabalho que é feito na companhia em Berlim. Dançamos do clássico ao contemporâneo, sempre acompanhados de orquestra ao vivo e com o teatro lotado. Também já fiz turnê para a Espanha e Itália com a companhia nesses últimos dois anos. Berlim é uma cidade energética que transpira arte em todos os cantos e essa atmosfera me anima e inspira para continuar crescendo como bailarina e pessoa.

A arte da bailarina Aurora Dickie, que hoje é solista do Ballet Estatal de Berlim, na Alemanha. A sua primeira experiência foi na Cisne Negro Cia. de Dança, em 2006, sendo depois contratada pela Companhia Danças de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Veja mais aqui & aqui.


 

 


quarta-feira, abril 08, 2015

ZLATA FILIPOVIĆ, AMIN MAALOUF, KOWARICK, BERTHA PAPPENHEIM & BASÍLIO DA GAMA

 


O DIÁRIO DA SOLIDÃO DE ZLATA... - A filha única de um advogado e de uma engenheira química vivia das aulas de piano e canto coral, jogava tênis no verão e esqui no inverno. Contava apenas com 11 anos quando começou a escrever o seu diário em Saravejo, seus anseios e percepções, o seu despreocupado cotidiano. Quando menos esperava eclodiu a guerra da Bósnia, os horrores da mais sangrenta depois a da segunda guerra grande. Houve uma debandada geral, mas seus pais, ao contrário, decidiram ficar juntos. O suprimento de comida ficou limitado, não havia eletricidade, nem água. A perplexidade de um modo primitivo de vida que ali ela testemunhava as mortes, desaparecimentos, o medo, o racionamento e as necessidades: Nunca imaginei que algo assim poderia acontecer. Como tudo pode mudar em um segundo? A escola em que eu estudava foi fechada. Lugares que adorava foram destruídos. Pessoas próximas foram feridas ou mortas. Não conseguia entender o porquê de estarem destruindo as coisas que eu tanto amava.... O conflito mais se agravava e o seu diário foi descoberto pela escola. Sua família refugiou-se em Paris. Depois passou uma temporada na Inglaterra, transferindo-se para Irlanda, morando em Dublin: Escrever no diário foi um desabafo. Considerava-o um anjo da guarda, um amigo, companheiro nos momentos difíceis, que não falava, só ouvia... Tudo o que havia antes da guerra foi tirado de mim e de mais de quatro milhões de pessoas que viviam na antiga Iugoslávia... No exílio bacharelou-se em Ciências Humanas na Oxford e fez mestrado em Saúde Pública no Trinity College. Passou a trabalhar na Casa Anne Frank e na Unicef com os propósitos de propagar a paz: Uma das coisas que permanecem na minha memória é o som das bombas explodindo. Até hoje, quando escuto explosões de fogos de artifício, lembro das situações vivenciadas. A vida é muito frágil... Veja mais abaixo e mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Tédio!!! Tiroteio!!! Bombardeios!!! Pessoas sendo mortas!!! Desespero!!! Fome!!! Miséria!!! Medo!!! Essa é a minha vida! A vida de uma inocente colegial de onze anos!! Uma colegial sem escola, sem a diversão e a emoção da escola. Uma criança sem jogos, sem amigos, sem sol, sem pássaros, sem natureza, sem frutas, sem chocolate ou doces, com apenas um pouco de leite em pó. Em suma, uma criança sem infância... Pensamento da escritora bósnia e ativista pacifista, Zlata Filipović, que no seu livro Zlata's Diary: A Child's Life in Wartime Sarajevo (Penguin, 2006) ela expressa que: […] Parece-me que esta política significa Sérvios, Croatas e Muçulmanos. Mas eles são todos pessoas. Eles são todos iguais. Todos parecem pessoas, não há diferença. Todos têm braços, pernas e cabeça, andam e falam, mas agora há “algo” que quer torná-los diferentes. [...] A guerra não é brincadeira, ao que parece. Destrói, mata, queima, separa, traz infelicidade. [...] Meu diário tornou-se mais do que um lugar para registrar acontecimentos diários. Tornou-se um amigo, o papel que o compunha estava pronto e disposto a aceitar tudo e qualquer coisa que eu tivesse a dizer. [...]. Ela também participa do livro The Freedom Writers Diary: How a Teacher and 150 Teens Used Writing to Change Themselves and the World Around Them (Main Street Books, 1999), no qual ela expressa: […] Se optarmos por lidar com situações desumanas de uma forma humana, poderemos mudar o mundo e criar lições positivas para nós próprios e para os outros. [...]. Em 2008 ela organizou com a inglesa Melanie Challenger o livro Vozes roubadas: diários de guerra, coletânea de 14 diários escritos por crianças e adolescentes que viveram em áreas de conflito.

 

ALGUÉM FALOU: Nunca hesite em ir para longe, além de todos os mares, todas as fronteiras, todos os países, todas as crenças... Eu não venho de nenhum país, de nenhuma cidade, de nenhuma tribo. Eu sou o filho da estrada... todas as línguas e todas as orações pertencem a mim. Mas eu não pertenço a nenhuma delas. A identidade não pode ser compartimentada; não pode ser dividida em metades ou terços, nem ter nenhum conjunto de limites claramente definido. Não tenho várias identidades, tenho apenas uma, feita de todos os elementos que moldaram suas proporções únicas... Pensamento do escritor libanês Amin Maalouf, que no seu ensaio livro Killer Identities (Alianza, 2005), expressou que: [...] Só porque uma realidade é imprecisa, imperceptível e flutuante não significa que ela não exista [...] As pessoas muitas vezes se veem em termos de qual de suas lealdades está mais sob ataque. E às vezes, quando uma pessoa não tem forças para defender essa lealdade, ela a esconde. Depois permanece enterrado nas profundezas da escuridão, aguardando a sua vingança. Mas quer ele o aceite ou oculte, proclame-o discretamente ou despreze-o, é com essa lealdade que a pessoa em questão se identifica. E então, seja por cor, religião, língua ou classe, invade toda a identidade da pessoa. Outras pessoas que compartilham a mesma lealdade simpatizam; todos eles se reúnem, unem forças, encorajam uns aos outros, desafiam “o outro lado”. Para eles, “afirmar a sua identidade” torna-se inevitavelmente um ato de coragem, de libertação. No meio de qualquer comunidade que tenha sido ferida surgem naturalmente agitadores… O cenário está agora montado e a guerra pode começar. Aconteça o que acontecer, “os outros” terão merecido. […] O que convenientemente chamamos de “loucura assassina” é a propensão dos nossos semelhantes de se transformarem em carniceiros quando suspeitam que a sua “tribo” está a ser ameaçada. As emoções de medo ou insegurança nem sempre obedecem a considerações racionais. Podem ser exagerados ou até paranóicos; mas quando toda uma população tem medo, estamos a lidar com a realidade do medo e não com a realidade da ameaça. [...]. É também autor das obras In the Name of Identity: Violence and the Need to Belong (1998), Samarkand (1986) e Balthasar's Odyssey (2000).

 

ESPOLIAÇÃO URBANA – [...] Trata-se de um conjunto de situações que pode ser denominado de espoliação urbana: é a somatória de extorsões que se opera pela inexistência ou precariedade de serviços de consumo coletivo, que juntamente ao acesso à terra e à moradia apresentam-se como socialmente necessários para a reprodução dos trabalhadores e aguçam ainda mais a dilapidação decorrente da exploração do trabalho ou, o que é pior, da falta desta. [...]. Trecho extraído da obra Viver em risco: sobre a vulnerabilidade socioeconômica e civil (34, 2009), do cientista político Lúcio Kowarick (1938-2020).

 

LENDAS DO NORDESTE – No blog Brincarte do Nitolino tenho divulgado lendas oriundas do imaginário do Nordeste brasileiro, como também indígenas e das mais diversas regiões do país e do exterior. LEMBRETE: Hoje para as crianças de todas as idades é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs, no projeto MCLAM, com apresentação da Ísis Corrêa Naves. Para conferir clique aqui, aqui ou aqui.

Imagem Reclining Nude On A Draped Sofa, do Sergei Semenovich Egornov (1860 – 1920)

Ouvindo o álbum The Grand Scheme of Things (1993) do guitarrista inglês de rock progressivo Steve Howe.

AQUELE QUE NASCEU DA TRIBO SAKYAS E ALCANÇOU A PERFEIÇÃO - Com o nome primitivo de Siddhartha Sakya-muni Gautama que quer dizer Gautama que pertence à tribo dos Sakyas e alcançou a meta da perfeição, o Buda (563aC-483aC) nasceu de antigo príncipe hindu. Aos dezenove anos ele casou-se com sua bela prima Yasodhara e quando ela deu à luz o seu primeiro filho, ele disse: - É mais um vínculo poderoso que terei de romper. E assim o fez: no amanhecer, ele chegou à margem de um rio, cortou os cabelos longos, despiu as vestes principescas e tirou as joias, entregand0-as, juntamente com seu cavalo e espada, ao servo Chana, a quem deu ordem de regressar ao palácio e comunicar ao Rajá e a sua esposa a resolução que tomara. Então, depois de vestir uma blusa de camponês, partiu a procurar a verdade junto aos sacerdotes sábios que viviam nas furnas das montanhas. E uma noite em que repousava sob a árvore bô, debatendo-se contra a dúvida e a solidão, uma grande paz desceu sobre ele. E quando se levantou de manhã, já não era Gautama, o Cético, mas Buda, o Iluminado. Por fim, compreendera o mistério do sofrimento humano, suas causas e sua cura. Ele passou a ensinar a alegria, não da posse, mas da renúncia: a base do segredo da vida. E começou a propor: Fez o bem por amor ao próprio bem; por amor da tua paz de espirito; para te tornares um Siddharta, um homem cuja vontade atingiu o seu objetivo. E dizia: Nada sei do mistério de Deus, mas conheço alguma coisa das misérias do homem. E arquitetou um sistema de devoção e devotamento, erigido sobre o triangulo moral formado pela moderação, a paciência e o amor. Todo o resto de sua longa vida, Gautama vagueou de cidade em cidade, acampando nos bosques vizinhos, nos jardins ou à margem de algum rio. E muitos foram os discípulos a quem entregou a sua legitima herança. Um dia, finalmente, quando já passava dos oitenta anos, acolheu-se à cabana de um ferreiro para o almoço depois voltou ao bosque e estendeu-se num leito de folhas, mortalmente enfermo. Os discípulos se reuniram ansiosos em torno do mestre. E Gautama ergueu os olhos para eles: Não pensais que, por ter-se ido o vosso mestre, a Palavra morreu. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

O CASO ANNA O – Trata-se de um dos mitos fundadores da psicanálise, relatado nas experiências de Josef Breuer nos Estudos sobre a histeria, envolvendo uma moça inteligente, enérgica e obstinada vienense que contava com vinte e um anos de idade na época da sua doença, dando o nome de talking cure ao tratamento que era feito pela fala e empregou o termo chinery sweeping para designar uma forma de rememoração por limpeza de chaminé, um processo catártico. Na verdade trata-se de Bertha Pappenheim (1859-1936), uma jovem criada por uma mãe rígida e conformista e que depois do tratamento voltou-se para atividades humanitárias, tornando-se líder de movimento feminista, assistente social e escritora judia austro-alemã. Inicialmente diretora de um orfanato judaico em Frankfurt, mais tarde viajou aos Bálcãs, ao Oriente Próximo e à Rússia, para realizar pesquisas sobre o tráfico de mulher brancas. Em 1904, fundou o Judischer Fraudebund – a Liga das Mulheres Judias – e, três anos depois, um estabelecimento de ensino filiado a essa organização. Muito apegada ao judaísmo, desenvolveu estudos sobre a situação das mulheres judias e dos criminosos judeus. Quando Hitler assumiu o poder, ela se pronunciou contra a emigração para a Palestina. Após a II Guerra Mundial, tornou-se uma figura lendária na história das mulheres e do feminismo através de sua ação social, a ponto de o governo alemão haver honrado sua memória com um selo que trazia a sua efigie. Já no fim da vida, havendo-se tornado devota e autoritária como fora sua mãe, reeditou antigas obras de religião e redigiu a história de uma de suas ancestrais. Esse caso foi relatado no livro Estudos sobre a histeria (Volume II - 1893-1895), de Josef Breuer e Sigmundo Freud, e no filme Freud, além da alma (1962), dirigido por John Huston e trilha sonora de Jerry Goldsmith. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.


A FENOMENOLOGIA – Influenciado por Brentano, a tradição grega e escolástica, Descartes, Leibniz, o empirismo inglês e o kantismo, o filósofo alemão Edmund Husserl (1850-1938), desenvolveu o pensamento fenomenológico, conceituado como o processo que consiste em por entre parênteses, em epokhê, a existência dos conteúdos da consciência, ou das vivências, e também do eu, enquanto sujeito psicofísico ou suporte existencial da consciência, assim reduzida ao eu puro, ou transcendental. A redução eidética, por sua vez, reduz as vivencias à sua essência (êidos), objetos ideais que não se acham na mente, hipótese psicológica, nem no mundo platônico das ideias, hipótese metafisica, nem na inteligência divina, hipótese teológica. Tais objetos de ideais, são significações, alheias ao tempo e ao espaço, de validade permanente. Veja mais veja mais aqui, aqui, aquiaqui.


A UMA SENHORA – Em uma coletânea de Sonetos Brasileiros (Briguiet & Cie, 1913), está registrado entre as obras do poeta brasileiro da Arcádia Romana, Basílio da Gama (1741-1795), o soneto A uma senhora: Na idade em que eu brincando entre os pastores / Andava pela mão e mal andava, / Uma ninfa comigo então brincava / Da mesma idade e bela como as flores. / Eu com vê-la sentia mil ardores. / Ella punha-se a olhar e não falava; / Qualquer de nós podia ver que amava, / Mas quem sabia então que eram amores ? / Mudar de sitio à ninfa já convinha, / Foi-se a outra ribeira; e eu naquela / Fiquei sentindo a dor que n'alma tinha. / Eu cada vez mais firme, ela mais bela; / Não se lembra ela já de que foi minha, / Eu ainda me lembro que sou dela !... Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

CYRANO DE BERGERAC – A comédia heroica em cinco atos Cyrano de Bergerac, do poeta e dramaturgo francês Edmond Rostand (1868-1918), baseada na vida do escritor e mosqueteiro francês Hector Savinien de Cyrano de Bergerac (1619-1655), que era possuidor de um grande nariz e famoso por ser um herói romântico na senda de Dom Quixote, combatendo a covardia, a estupidez e a mentira. A sua vida tinha por meta a defesa dos fracos e oprimidos, bem como dos amantes infelizes e dos amigos humilhados. Acontece que ele era apaixonado pela sua prima, a bela Roxana, moça inteligente mas um pouco pedante, que gosta de coisas ditas de maneira arrebata e sutil, com elegância e originalidade. Além de Cyrano, por ela suspirava o jovem Cristiano de Neuville, porem pouco brilhante ao lidar com as palavras. Cyrano não tem a menor esperança de um dia conquistar a formosa prima, que não o vê senão como um bom amigo e terrivelmente feio. Já que não pode ser feliz com a amada, ele resolve fazê-la feliz com outro, por saber que a moça não é indiferente ao rapaz: ela apenas espera dele uma demonstração de brilhantismo verbal para cair em seus braços. A peça foi transformada para o cinema pelo cineasta Jean-Paul Rappeneau, em 1990, com roteiro do diretor e de Jean-Claude Carrière e música de Jean-Claude Petit. Destaque no filme para a atriz francesa Anne Brochet. Veja mais aquiaqui e aqui.



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sexta-feira, março 06, 2015

JODY WILLIAMS, ELIZABETH BARRETT BROWNING, LOUISE FITZHUGH & FOOLYK DE DESFONTAINES

 


FOOLYK... – Vivo misturando sonhos e realidade o tempo todo. Vixi! Coisa de louco, mesmo. Certa feita me vi perseguindo a sorte do tolo: pelas Ilhas Vizinhas da Terra do Fogo. Como fui parar ali, confesso: não sei. E me vi numa delas: a do povo que se dizia descendentes do antigo poeta Herosom, aquele que era o filho do Sol e da Lua. Era a Ilha dos Poetas, Foollyk. Diziam ser ali o paraíso e, evidentemente, logo constatei: havia tempo para que pudesse ler livros, a cidade toda era uma biblioteca. Sentia-me em casa. Não haveria lugar melhor para sobreviver. Mergulhei nas leituras e logo soube que a localidade fora descoberta pelo capitão do mar Fernão de Magalhães e que fora mapeada por um certo abade Desfontaines, em 1730. Logo percebi que os habitantes, apesar de leitores eram muito pobres, como também muito risíveis. Contavam mais histórias que as tantas das mil e umas noites. Conheci até uma autêntica Scheherazade e dela me enamorei. Não lembro qual o verdadeiro nome dela, só a tratava pelo apelido que lhe dei como contadora árabe. Até que um dia me contou do tal mapeador que era um jornalista e historiador francês e que vivia às voltas com desavenças com o filósofo Voltaire. Mesmo? Antes eram muito amigos e um havia ajudado ao outro quando, acusado de sodomita, o abade foi preso e, depois, o mesmo ajudou o filósofo a retornar à Paris após seu exílio. Porém, as escaramuças entre ambos começaram em razão do abade ser professor de retórica que se dedicava às letras no combate ao pedantismo, criticando acidamente as obras dramáticas do filósofo. Por sua vez, Voltaire não se fez de rogado e retrucou com uma peculiar sátira de 1738, intitulada O contraveneno, ou crítica sobre Observações da escrita moderna. A resposta do abade veio de pronto e no mesmo ano, num curtíssimo escrito satírico, cujo título era La Voltairomanie, no qual compilou todas as escandalosas anedotas difamatórias contra o seu agora algoz. O filósofo impetrou uma ação por difamação, que só desistiu depois que o professor repudiou a obra no Amsterdam Gazette, em 1739. Mesmo assim, o ataque mútuo perdurou por vários anos, perpetuando-se em epigramas voltaireanos, como em outros tantos escritos pelo aliado do filósofo, Alexis Piron, que levava todas as manhãs – pelo período de 52 dias - epigramas de desacato ao abade. Ali ouvindo-a, para mim, o lugar parecia uma invenção. Era mesmo: foi inventado de fato pelo abade Pierre François Guyot-Desfontaines (1685-1745), em 1730, quando este publicou um romance chamado Le Nouveau Gulliver. Hoje nem sei se foi sonho ou viagem de verdade. Só lembro da Scheherazade argentina, muito linda, por sinal. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Se você realmente quer fazer uma mudança, levante-se e faça. Preocupar-se com um problema não é uma estratégia para mudança. Militaristas dizem que para ganhar paz devemos nos preparar para a guerra. Acho que obtemos aquilo para o qual nos preparamos. Se queremos um mundo onde a paz seja valorizada, devemos nos ensinar a acreditar que a paz não é uma "visão utópica", mas uma responsabilidade real que deve ser trabalhada a cada dia, de pequenas e grandes maneiras. Qualquer um de nós pode contribuir para construir um mundo onde a paz e a justiça prevaleçam. O que considero paz é uma paz sustentável na qual a maioria das pessoas neste planeta tem acesso a recursos suficientes para viver vidas dignas. Pensamento da professora e ativista estadunidense Jody Williams, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 1997. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Acho que é isso que está errado com o mundo. Ninguém diz o que sente, eles sempre guardam isso para si. Eles estão tristes, mas não choram. Eles estão felizes, mas não dançam ou cantam. Eles estão com raiva, mas não gritam. Porque se o fizerem, eles se sentem envergonhados. E esse é o pior sentimento do mundo. Então todos andam de cabeça baixa e ninguém vê o quão bonito o céu é... Sabe de uma coisa? Você é um indivíduo, e isso deixa as pessoas nervosas. E vai continuar deixando as pessoas nervosas pelo resto da sua vida... A vida é uma luta e um bom espião entra nela e luta... Pensamento da escritora e ilustradora estadunidense Louise Fitzhugh (1928-1974). Veja mais aqui e aqui.

 

CEM ANOS DE SOLIDÃO –Leitura obrigatória para quem milita na área de literatura, são as obras do escritor, jornalista e ativista político colombiano Prêmio Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Marquez. Entre elas destaco o extraordinário romance Cem anos de solidão (Record, 1985), que conta a história da formação e desenvolvimento familiar dos Arcadios Buendía, por meio de um estilo caracterizado como realismo fantástico. Do livro destaco os fragmentos: [...] O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome a para mencioná-las se precisava apontar com o dedo [...] a morte o seguia por todas as partes, farejando-lhe as calças, mas sem se decidir a dar o bote final. Era um fugitivo de quantas pragas e catástrofes haviam flagelado o gênero humano [...] Logo que José Arcadio Buendía fechou a porta do quarto, o estampido de um tiro retumbou na casa. Um fio de sangue passou por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu para rua, seguiu reto pelas calçadas irregulares, desceu degraus e subiu pequenos muros, passou de largo pela Rua dos Turcos, dobrou uma esquina à direta e outra à esquerda, virou em ângulo reto diante da casa dos Buendía, passou por debaixo da porta fechada, atravessou a sala de visitas colado às paredes para não manchar os tapetes, continuou pela outra sala, evitou em curva aberta a mesa da copa, avançou pela varanda das begônias e passou sem ser visto por debaixo da cadeira de Amaranta, que dava uma aula de Aritmética a Aureliano José, e se meteu pela despensa e apareceu na cozinha onde Úrsula se dispunha a partir trinta e seis ovos para o pão.  Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

Imagem A noite, do pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni – mais conhecido apenas por Michelangelo (1475-1564)

Ouvindo Flora´s Song (Narada, 2005), da cantora brasileira Flora Purim. Veja mais aqui

VYGOTSKY, O TEATRO E A CRIANÇA – Resultado da experiência de mais de seis anos de atividades envolvendo Literatura, Música e Teatro infantis em escolas da rede pública e privada de Maceió, Alagoas, desenvolveu-se o trabalho acadêmico sob a denominação Contribuição do Teatro no Desenvolvimento da Linguagem Infantil: uma abordagem acerca da teoria de Vygotsky, sob orientação da professora e psicóloga Fátima Pereira, que foi apresentado no IV Congresso Brasileiro de Psicologia: Ciência e Profissão, em 2014, na cidade São Paulo. O estudo faz uma abordagem acerca da contribuição do cientista e psicólogo russo Lev Semenovitvh Vygotsky (1896-1934) por meio da atividade artística, notadamente a atividade teatral articulada com música e literatura, para o desenvolvimento da linguagem da criança. Veja detalhes aqui, aquiaqui , aqui e  aqui.

CYRANO DE BERGERAC – A vida do escritor e duelista francês Hector Savinien de Cyrano de Bergerac (1619-1655) foi fonte inspiradora para o teatro do poeta e dramaturgo francês Edmond Rostand (1868-1918), ganhando, posteriormente, duas versões para o cinema: a primeira em 1950, pelo diretor Michael Gordeon; e a segunda, em 1990, com direção de Jean-Paul Rappeneau e com a participação premiada de melhor ator no 43º Festival de Cannes para Gérard Depardieu com a talentosa e linda atriz Anne Brochet. Desse texto destaco a cena VI do 5º Ato, num diálogo entre Roxana e Cyrano: Vós? Ao contrário: do feminino amor mendigo solitário, sem carinho de mãe, sem lágrima de irmã, temi também mais tarde o olhar da barregã. Graças! Mercê de vós, que amei despercebido, passou na minha vida a fimbria dum vestido. Veja mais aquiaqui.

COMO TE AMO? – A poeta inglesa da época vitoriana Elizabeth Barrett Browning (1806-1861) é autora dos Sonetos da Portuguesa, nos quais viveu intensa e poeticamente sua vida amorosa com o também poeta Robert Browning. Da sua obra destaco o soneto Como te amo? (Soneto XLIII) na tradução do poeta Manuel Bandeira: Amo-te quanto em largo, alto e profundo / Minh’alma alcança quando, transportada, / Sente, alongando os olhos deste mundo, / Os fins do Ser, a Graça entressonhada. / Amo-te em cada dia, hora e segundo: / À luz do Sol, na noite sossegada. / E é tão pura a paixão de que me inundo / Quanto o pudor dos que não pedem nada. / Amo-te com o doer das velhas penas; / Com sorrisos, com lágrimas de prece, / E a fé da minha infância, ingênua e forte. / Amo-te até nas coisas mais pequenas. / Por toda a vida. E, assim Deus o quiser, /Ainda mais te amarei depois da morte. Veja mais aquiaqui.


SENHORITA NINGUÉM – Quem teve a oportunidade de curtir o drama Panna Nikt (Senhorita Ninguém (1997) do cineasta polonês Andrzej Wajda, inspirado no romance homônimo de Tomek Tryzna Marysia  com música de Andrzej Korzynski, aborda o universo juvenil com suas dificuldades de amadurecimento e reunindo garotas num elenco belíssimo, com destaque para a atriz Anna Mucha. Veja mais aqui.




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