DIAS DE ESPERA – Esperava
ele impaciente pelo retorno da vizinha com notícias de uma prima distante que
morava nos cafundós de Judas, quinhentas léguas adentro do inferno afora e uns
catombos a mais. Ao contrário, era o marido dela, estranho de sempre, ali
peiticando com suas manias esquisitas às insatisfações disso ou daquilo,
principalmente reclamando da sua esposa que saíra sem dizer nada e, ainda por
cima, soube que ela se indispusera um dia desse, com uma moça da loja da
esquina, a ponto de puxarem cabelos e arrancarem as saias, um escândalo e com
um montão de gente testemunhando o pandemônio. Que coisa! Acontece que a comerciária
indigesta era parente duma malvada tranca-rua, daquelas de descer dos tamancos
e fechar o quarteirão num escarcéu de gasguita sem precedentes.
Indubitavelmente chegaria toda encrenqueira, puxando seu marido pelas arreatas
das calças, aquele tocador de clarinete que só fazia número ao seu lado, vez
que se fazia de desentendido pelo tumulto da famigerada consorte frutiqueira,
alheio a tudo e reduzido ao seu mutismo perturbador. Pense numa bronca! Esta
megera era capaz de ameaçar sua esposa com um despacho de catimbó dos
bem-feitos, daqueles de enfiar o nome na boca costurada dum sapo cururu bem
raçudo, acrescentando de todos os azares de pedras jogadas no telhado e vidraça
da sua santificada residência com malefícios aziagos, domicílio este, aliás,
tido por ele mesmo como o mais invejado por todos da comunidade, por ser
contrito fiel de domingo a todos os dias de joelhos no culto evangélico ruidoso
da vizinhança e, ainda, por ser a mais aquinhoada moradia entre todos dali. Era
só de intrigas e disse-me-disse sem fim e a vizinha não aparecia com as
notícias da prima distante que, suspeita-se, pinotou pros estrangeiros depois
de um escandaloso namorico, com um certo agenciador de finanças virtuais, que
andara vitimando tantos crédulos com propostas de investimentos lucrativos e,
no final, gorara o negócio da China, deixando-o com nome malquisto na praça,
estampado nas maledicências do noticiário popular de pé de ouvido e xingamentos
despudorados dos costumeiros investidores lesados que ambicionavam amealhar
fortunas inesperadas. Bem feito! É certo, dizem fuxiqueiros, que a coitada
prima foi pras lonjuras por estar pressionada a pagar o pato ao opróbrio
popular, sendo cobrada dia e noite pelo que fez seu desavergonhado namorado.
Ah, logo ela que já fora tão simpática aos seus afetos, a ponto de se tornar
uma paixão recolhida de décadas e mantida em segredo embaixo de sete chaves no
seu coração. O pior: a vizinha não dava sinal de vida e o seu marido chato-de-galocha
não parava o badalo, atormentando seu juízo com litígios das suas escaramuças com
o dono da padaria e mais um monte de gente, como o garçom do bar da outra rua, o
gerente da loja de frente, o mecânico da oficina do outro lado, o caixa do
banco dali de perto, o chefe do clube do bairro e um tanto de outros desafetos
que colecionava, encolerizados com sua antipática pessoa. Era um desassossego
ter de aguentar aquela ladainha toda, logo ele que morria de saudades da vulnerável
família deixada no povoado de seus ancestrais, para cair no mundo e parar
naquela insuportável situação. Era o que dava: esperar. E se nutria desta
expectativa porque era refém do passado e deixara mãe e filhos no campo por
conta de ameaças de morte alardeada pelo mandão que reivindicava suas terras e,
para evitar o pior e ser tornar gente na vida, zarpou dali com uma mão na
frente e outra atrás, para sobreviver pendurado numa periferia de cidade mais
ou menos grande, sem parente nem aderente por perto, sem ter quem socorra ou
minimize sua solidão de noites e dias acumulados de constrangedora miséria, a
ponto de dali sequer poder arredar os pés por conta das dívidas do aluguel, da
caderneta na mercearia, da valsa no crediário e de tudo que tolhia sua
existência mantida pela desgraça e ter que enfrentar todos sem um mínimo gesto
a favor. Não fosse isso a vida seria um paraíso, mesmo tendo que acordar todo
santo dia, esperar condução sempre cheia, levar esporros do patrão, segurar o
emprego como podia e obrar o milagre de se sustentar com um salário mínimo que
se acabava, toda vez, dez dias antes do fim do mês, tendo que se virar com
bicos e outras informais aptidões, como a que dependia daquela vizinha para saber
notícias da prima e receber dela o trocado acertado pelo conserto que fizera
arranjando no seu automóvel que pifara e não queria funcionar. Esperava também
com as graças dos céus por dias melhores, apostava nisso dia sim e outro
também, a sorte grande bater-lhe à porta e dali mudar voltando pródigo pro
convívio dos seus, como um vencedor laureado. Assim sonhava a todo instante de
olhos abertos, devaneava esperançoso. Era mais um dia de aguardamento e
resignação. E a vizinha não dava as caras, já era para ter regressado para
aliviá-lo. Já estava impaciente e olhava prum lado e outro, conferia os
ponteiros do relógio, o tempo passava e aguentava o tanto além do que podia. Ao
invés disso, era o marido dela no maior teitei, ô biziga dos mil demônios
piorando o seu dia, a paciência nos limites, um dia a mais entre outros tantos
que viraram semana e até meses sem fim, mais de ano, por certo, no meio das
últimas décadas iguais de espera desde que saíra de casa e enfrentava o mundo
naquele confim e expectava, assim, quem sabe, um dia tudo mudasse porque
precisava da paz perdida, esperançava. E como esperava... Veja mais aqui, aqui
e aqui.
DITOS & DESDITOS - É estranho quando você é inocente,
você deveria pedir perdão ao juiz que está pronto para prendê-lo por vários
anos? Não, isso nem foi discutido... As punições contra nós nos mostraram que
conseguimos... Sou feminista e defensora do direito das mulheres à
autodeterminação. Quero uma sociedade em que as mulheres possam expressar as
suas opiniões políticas. Mostrámos que mulheres como nós podem realizar atos de
coragem. Ao fazê-lo, estamos a destruir a imagem predominante das mulheres na
Rússia. Não somos o sexo fraco. Nem sempre ficamos apenas sentados em casa,
cozinhando e cuidando das crianças. Pensamento da ativista política russa Ekaterina
Samutsevich (Yekaterina Stanislavovna Samutsevich), membro do Pussy Riot,
grupo de punck rock anti-Putinista. Em 17 de agosto de 2012, ela foi condenada
por vandalismo motivado por ódio religioso por uma apresentação performática na
Catedral de Cristo Salvador, Moscou, denunciando as ligações da igreja com o
poder de Putin, sentenciada a dois anos de prisão. Foi reconhecida como presa
política pela União de Solidariedade aos Presos Políticos e pela Amnistia
Internacional. Ela foi libertada com pena suspensa por um juiz de apelações de
Moscou, em 10 de outubro de 2012, após um argumento de seu advogado de que ela
havia sido parada por guardas da catedral antes que pudesse tirar seu violão do
estojo. Nos anos após sua libertação, ela desapareceu dos olhos do público e se
manteve discreta, mudando regularmente seu endereço de e-mail e número de
telefone. As sessões do tribunal contaram com a presença de seu pai, Stanislav
Samutsevich, com quem ela morava antes de sua prisão, que afirmou estar
"orgulhoso de quão firme e preparada ela está para enfrentar a punição em
vez de trair suas crenças". Ela também é membro do coletivo Voina, desde
2007.Em 2010, Samutsevich estava entre os ativistas Voina que tentaram libertar
baratas vivas no Tribunal de Tagansky. Mais tarde, ela foi processada no mesmo
prédio por envolvimento na "oração punk" do Pussy Riot. Ela também
participou de uma série de ações, Operação Kiss Garbage , de janeiro a
março de 2011. Este protesto incluiu mulheres beijando policiais nas estações de
metrô de Moscou e nas ruas. Foi principalmente um protesto antigovernamental,
mas também polêmico.
ALGUÉM FALOU: A
escrita é redentora. A escrita faz com que o autor, independentemente do
reconhecimento, tenha uma história de vida magnífica. A ortografia não é uma
pele artificial da expressão verbal, é uma estrutura profunda que se revela na
imagem grafada... Só onde não há amor não há culpa... Pensamento da escritora
portuguesa Lídia Jorge. Veja mais aqui e aqui.
O SONHO ROUBADO - [...]
Todos
os coros são diferentes, mas são pós-pvat de acordo com origens diferentes.Muitos de nossos problemas foram causados por tova - opitvame eis que medimos outros coros
com suas próprias medidas. [...] E com o mesmo
temor e breve momento, o sinal sonoro de tudo limpo soou.
[...] É prejudicial e está mais vivo, está morrendo por causa disso
[...]. Trechos
extraídos da obra El sueño robado (Booket,
2001), da escritora ucraniana Alexandra Marinina (Alekseyeva
Marina Anatolyevna), autora dos livros A Face Radiante da Morte
(Geração, 2003), O Dono da
Cidade (Editorial
Presença, 1999), Sonho Roubado (Editorial Presença, 2002), No Segredo
dos Mortos (Editorial Presença, 2004) e Os Últimos Morrem Primeiro
(Editorial Presença, 2004).
DOIS POEMAS - ONDE
EU FICO - Agora estou sentado em volta da mesa com os inimigos dos meus
antepassados \ Eu aceno e saúdo com consideração, \ mas \ em algum lugar no
fundo \ eu sei onde estou \ Meu coração e cabeça estão abertos \ e como pessoas
bem-educadas \ rimos e comemos juntos \ mas \ em algum lugar no fundo \ eu sei
onde eu estou. UMA MANHÃ DE SEGUNDA-FEIRA AZUL COMUM - era uma manhã de
segunda-feira azul comum \ em algum lugar uma mãe foi identificar o cadáver de
seu filho \ eu lavei, escovei os dentes e terminei meu trabalho de biologia \ na
geladeira havia um bilhete da minha mãe \ me pedindo para não deixar o breyani
muito picante esta noite \ minha irmãzinha estava procurando as meias dela e às
sete e meia tranquei a porta da frente \ e escondi a chave no lugar de costume \
do café comprei dois cigarros soltos \ e os escondi na minha meia \ na esquina
da Wildflower com a Rose Street \ uma garota fez piadas com ela futuros
assassinos \ na minha cabeça Dylan Thomas gritou \ não seja gentil naquela boa
noite, raiva, raiva contra a morte da luz\ na aula de educação
sexual minha melhor amiga grávida começou a sangrar \ lá fora na rua alguns
tiros soaram. Poemas da poeta sul-africana Ronelda Kamfer, autora de
obras tais como Noudat slapende
honde (2011) e grond/Santekraam
(2011)
A PSICOLOGIA E
A FENOMENOLOGIA DE EDMUND HUSSERL - O
filósofo e matemático alemão Gustav Albrecht Edmund Husserl (1859-1938) foi o
fundador da fenomenologia. Ele estudou nas universidades de Leipzig, de Berlim
e de Viena, iniciando a carreira de professor em 1883, abandonando o posteriormente
e se dedicando a escrever seus ensaios. Quando ele morreu em 1938, em Freiburg,
deixou uma vasta gama de ensaios que foram posteriormente reunidos como
Arquivos Husserl. O método de investigação filosófica denominado de
fenomenologia foi formulado, segundo Cotrim (2006), por Edmundo Husserl, com
desenvolvimento na matemática, psicologia e na filosofia. Esse método consistia
na observação e descrição rigorosa do fenômeno, analisando como se forma o
campo da experiência humana. Acrescenta Rafaelli (2004) que essa filosofia
propunha um caminho paralelo entre a fenomenologia e a psicologia. A
fenomenologia, conforme Chauí (1980), Goto (2013) e Moreira (2010), encontra-se
embasada na analise de manifestação da experiência, considerando a forma (noesis) os atos e como o sentido dado
pela sensibilidade ao objeto apreendido; a matéria (a hýle) como os dados sensíveis; e a noema como o significado ideal da coisa e aquilo que é visado pelos
atos. Assim, conforme expresso por Chauí (1980), a fenomenologia é a disciplina
que fundamenta a lógica, estudando as essências da região da consciência, suas
estruturas e atos, tornando-se, por isso, eidética. Nesse sentido, a eidética
procura essências ou significados, sendo, pois, a investigação que define a
essência e estrutura necessária ao estudo do objeto. Acrescentam Padovani e
Castagnola (1978, p. 479) que: O papel da fenomenologia é unicamente o de
conhecer e descrever o mundo eidético (o mundo das puras essências universais
contidas nos dados = fenômenos), prescindindo de todos os elementos referentes
ao sujeito psicológico, à existência individual, à subjetividade empírica. [...] pode servir à metodologia da ciência, à
lógica matemática e harmonizar-se com algumas teorias próprias do
Neopositivismo [...]. Foi na sua obra Investigações Lógicas (1900-1901) na qual
ele definiu sua filosofia como a análise da experiência que está por trás de
todo o pensamento formal. É nela onde aparecem os primeiros sinais do método
fenomenológico que se envolveu com as questões clássicas da filosofia desde
Descartes, quando Husserl travou uma discussão da obra do filósofo francês:
Meditações Cartesianas. A partir disso, a fenomenologia passa a servir de fonte
para vários filósofos, em especial aos ligados ao existencialismo, chegando-se,
inclusive, a se falar de uma sociologia, uma psicologia e uma teoria literária
fenomenológicas. Isto porque o método voltou-se principalmente para as artes,
nas quais proporciona um novo modo de consideração das obras artísticas.
Depois, lança as bases sólidas da teoria da fenomenologia. A partir de uma
revisão na literatura, há que se entender, antes porem, que a Fenomenologia é
uma corrente iniciada por Husserl (1980), ao pretender o estabelecimento de um
método de fundamentação da filosofia e da ciência, baseada no conceito de
fenômeno, ou seja, aquilo que é percebido pela consciência, no sentido de
proceder a investigação da vida perceptiva, defendendo que a percepção tona
possível a consciência dos objetos do mundo, como o juízo, a memória e os atos
subjetivos. Estes, segundo ele, podem ser submetidos ao exame pela faculdade
superior da consciência, entendia pelo autor como o eu transcendental, que é
responsável pela síntese que torna possível a apreensão de objetos. Muitas
transformações ocorreram no pensamento fenomenológico até chegar em
reorganizações conceituais que redundaram na formulação programática feita por
Husserl no começo do século XX, quando, conforme Lyotard (1986), Critelli
(1996), Giles (1989) e Martins e Dichtchekenian (1984), a fenomenologia tornou-se mundialmente
bem–aceita e tem influenciado discussões teóricas até hoje; ela introduziu uma
forma prática no domínio teórico da filosofia, assim como no campo das ciências
humanas e naturais. A partir das investigações lógicas de Husserl, segundo
Salanskis (2006), ficou estabelecido por ele que a investigação deve ater-se ao
modo como as coisas aparecem ao homem, como ele unifica a multiplicidade de
aparições e como projeta significações sobre os objetos percebidos. Para o
fenomenólogo, não existe a consciência pura, mas sempre a "consciência de
alguma coisa". Esse conceito, fundamental para a fenomenologia, é chamado
de intencionalidade. Além disso, a atenção dispensada ao olhar, à percepção, à
imaginação, às coisas e ao outro faz o método fenomenológico ir além das
fronteiras da filosofia. A fenomenologia faz uso de uma série de instrumentos
metodológicos próprios que possibilitam a análise criteriosa dos fenômenos. Um
deles é a redução, dividida nas seguintes modalidades: a epoché, a redução
eidética e a redução trancendental. O termo epoché vem do grego e significa
estado de dúvida. Consiste na suspensão do juízo a respeito de qualquer
opinião; com o propósito de buscar unicamente os fatos, "pomos fora de
ação a tese geral própria da atitude natural e pomos entre parênteses tudo o
que ela compreende". Para ilustrar o método referido, tomemos o exemplo de
como uma cor é percebida: a experiência pessoal da cor é o fenômeno puro, que
se atinge mantendo-se em suspensão os dados científicos a respeito da
composição da cor e os dados advindos da comparação com outras cores. A partir
da leitura de Chauí (2002), observa-se que a atitude natural, segundo husserl,
compreende a aceitação do mundo em que vivemos, formado de coisas, bens,
valores, ideais, pessoas, conforme ele nos é dado.A fenomenologia pretende se
desvencilhar dassa atitude natural, por meio de um questionamento radical sobre
o modo de existência do mundo, que consistiria no ponto inicial da pesquisa
filosófica. A redução eidética analisa a apresentação do objeto a nossa á nossa
(representação) de forma pura, prescindindo da existência do sujeito que
conhece, assim como do objeto conhecido. Trata-se da forma do objeto no
espírito, ou seja, trata- se de analisar a representação sem levar em conta o
âmbito psicológico.Tomando como exemplo uma planta, podemos afirmar que,
levando a cabo tal redução, os seus componentes básicos seriam a cor, as formas
que a compõe e a textura. Na redução transcendental, o fenomenologista
considera apenas o que foi imediatamente apresentado á consciência; todos os
outros elementos, Husserl sugere que sejam excluídos do julgamento. Retomando o
exemplo da cor : uma página impressa em verde é apenas verde, não é feita da
mistura de amarelo e azul, que é um dado cientifico. O interessante de Husserl
está na cor como fenômeno pessoal e subjetivo, que depende de fatores
complexos, como as diferenças de concepção dos sentidos. O que é mais relevante
para os defensores da fenomenologia é aquilo que pode ser experimentado pelos
sentidos. Depois de realizada a redução, o que resiste é o individuo
efetivamente sabe e passa a conhecer, transcendendo os dados científicos: é o
que se designa resíduo fenomenológico. Vê-se, portanto, que Husserl contribui
para a filosofia com a formulação rigorosa e estruturada de um método
fenomenológico, que propõe estudar o objeto do conhecimento de forma livre e
pura, para alcançar a sua essência. Em outras palavras, a fenomenologia procura
tratar do que é dado imediatamente como conteúdo conhecido, sem abordar as
possíveis implicações e desdobramentos, que pertencem a uma construção
posterior do saber. Assim, no processo de conhecimento, ou seja, na relação que
se estabelece entre o sujeito e o objeto, Husserl distingue os seguintes elementos
fundamentais : a noésys ("forma"), a h ‘yle ("matéria") e o
nóema ("conceito"). A noésys consiste no pensamento considerado um
evento psíquico individual; é o conteúdo subjetivo do pensamento que confere
sentido ao objetivo conhecido.A h’ yle trata do dado sensível, do contato
físico com o objeto, que em si mesmo não comporta nenhum significado, a não ser
quando alcançado pela noésys.Por fim, temos o nóema ,totalmente distinto do
objeto físico. É com isso que Husserl (1980) faz uma distinção entre o pensamento
como um evento psíquico individual (noese,ou faculdade do pensar ou
inteligência ) e o pensamento como conteúdo ( noema, ou pensamento,
intenção).Na operação 2 + 2 = 4 existe uma atividade de natureza psíquica, ao
mesmo tempo que há um conteúdo pensado, que se expressa no conteúdo de sentido
ideal independentemente do sujeito pensante.Esse segundo sentido revela que a
estrutura da consciência é intencional e conduz o sujeito na direção do objeto
pensado. O filosofo distinguiu a essência, entendida como a parcela ideal de
significação do objeto, dos aspectos que constituem a nossa experiência, ou
seja, do que designou como conteúdo objetivo do pensamento.Portanto, no seu
método de análise do fenômeno, a essência é a sua dimensão mais relevante. Segundo
Husserl (1980) existe uma intuição da essência, que é o ato ideador , uma
espécie de apreensão imediata da essência juntamente com o fenômeno ; desse
modo, conheceríamos o fato e sua essência, simultaneamente. O conhecimento
ocorreria por semelhanças, que é própria da essência e não da existência; para
Husserl (1980), pensar é, antes de tudo pensar na essência. O passo seguinte a
redução é a análise cognitiva, que consiste na comparação detalhada entre
fenômeno, tal como é apresentado á consciência, é a universal do fenômeno. A
fenomenologia busca conciliar aquilo que experimentamos com aquilo que supomos
saber teoricamente. Há aqui implícita uma diferenciação entre o fenômeno
experimentado e o fenômeno apreendido, que Husserl compara com a relação entre a
aparência e aquilo que aparenta. Recorrendo mais uma vez ao exemplo da cor com
o reconhecimento científico que temos sobre ela. De acordo com Husserl (1980),
através da redução, cada sujeito pode tornar-se observador de si mesmo,
consciente de si. Assim adquirimos conhecimento e podemos aprender sobre nós
mesmos e sobre a nossa volta. Pressupomos a existência de outras pessoas com a
mesma capacidade para conhecer, mas é impossível provar que, de fato, elas
estejam conscientes de si. Não observamos os pensamentos alheios, vemos apenas
as ações do comportamento dos outros. É o que denominamos observação da
"coisa" enquanto fenômeno. Assim, da mesma maneira que aprendemos
sobre o mundo observando fenômenos externos, aprendemos sobre nós mesmos por
meio dos outros. A única forma de observarmos os resultados de nossas emoções e
pensamentos é através das respostas das outras pessoas. É a vida no mundo, que
Husserl denominou Lebenweslt, e que nos permite ver e experimentar sem as
limitações impostas pelas fórmulas e equações do conhecimento científico. Uma
coisa é saber que a água é formada por átomos de oxigênio e de hidrogênio,
outra bem diferente é ver, sentir, sorver a água. A análise cognitiva nos
permite conciliar o conhecimento científico e a observação ; entretanto, só
realizamos essa análise quando nos é solicitado, não se trata de um processo
involuntário. O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) utilizou a
fenomenologia em sua maior obra, Ser e Tempo (1927), para estudar a essência do
ser, a temporalidade e o sujeito sempre em um contexto. Os filósofos franceses
Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) usaram o método para o
estudo das estruturas da percepção, da consciência e da imaginação. Para Chauí
(2002), o filosofo privilegia a consciência reflexiva ou o sujeito do
conhecimento, isto é, afirma que as essências descritas pela Filosofia são
produzidas ou constituídas pela consciência, enquanto um poder para dar
significação à realidade. HUSSERL E A PSICOLOGIA - Conforme Chauí (1980), o
filósofo que se autodenominava neocartesiano, entende a psicologia como uma
teoria do conhecimento, demonstrando tratar-se de uma descrição do
comportamento do sujeito na atividade de conhecer. Já a fenomenologia é uma
descrição da estrutura especifica do fenômeno como um fluxo imanente de
vivências que constitui a consciência e também a descrição da estrutura da
consciência enquanto constituinte, sendo, pois, a condição a priori do
conhecimento. Pretendia Husserl (1980) que a psicologia se aproximasse e se
mantivesse próxima da fenomenologia na análise e estudo da consciência,
entendendo que a consciência empírica é o que interessa para a psicologia,
enquanto que a consciência pura interessa à fenomenologia. A consciência, para
Husserl (1980), é uma atividade constituída por atos, denominado por ele de noesis, e que envolvem a percepção,
imaginação, volição, paixão, entre outras. Em vista disso, a fenomenologia, no
dizer de Husserl (1980) é a ciência fundamental para todas as coisas. Assim,
para ele, a psicologia possui por objeto o estudo do ser humano em seu mundo.
Com isso, ele concebeu a Psicologia Fenomenológica com o objetivo de tratar da
vida interior, descrevendo as estruturas psíquicas na busca do fundamento para
a subjetividade. Suas ideias tornaram-se importante para a psiquiatria e
psicologia clinica, requerendo a subjetividade como fonte originária da vida
humana. Para Husserl (1980), a psicologia fenomenológica é uma ciência a
priori e universal da vida anímica, que se ocupa exclusivamente das
estruturas internas entendidas por ele como as estruturas subjetivas puras, ou
estruturas proto-originárias da própria vida. Desse modo, observa Goto (2007,
p. 187) que, para Husserl “[...] a psicologia não deve se ocupar de
experiências externas como faz a psicologia científica, seguindo o modelo da
física e da fisiologia, mas ao contrário, deve orientar-se exclusivamente para
a vida interna, experiência anímica interna, constituídas pelas vivencias intencionais”.
Ao criticar a metafísica e o positivismo, conforme Fonseca (2014), Husserl
constituiu uma abordagem ontológica e epistemológica fundamentada na vivência
da consciência pré-reflexiva do sujeito cognoscente correlacionado
intrinsecamente com o mundo. Por conta disso, contribui diretamente com a
psicologia e com a psicoterapia trazendo alternativas aos modelos
comportamentais e psicanalíticos. A crítica de Husserl, segundo Raffaelli
(2004) e Silva (2009), é contra o positivismo científico que se inseriu na
Psicologia e de que esta não possui nenhuma necessidade das ciências da
natureza, podendo trilhar seu próprio caminho na compreensão do ser humano e
isso por meio da investigação transcendental psicológica. De acordo com o
pensamento do filósofo, entende Silva (2009) que a Psicologia deve se voltar
para a subjetividade como seu próprio objeto. Dessa forma, o filósofo fazia
restrições aos sistemas psicológicos da época, inclusive a Gestalt por
desconsiderarem a consciência como fenômeno originário dos processos psíquicos.
Há que considerar que a Gestalt foi fundada por alunos de Husserl e foi o
sistema psicológico que mais se aproximou dos seus ideais, consagrando-se ao
estudo experimental da percepção humana, relacionando a experimentação com a
interpretação fenomenológica. A psicologia, segundo Goto (2013), foi a maior
tributária das ideias fenomenológicas, permitindo a constituição de seu método
e fundamento. Com isso, a psicologia se definia no conteúdo e método como uma
psicologia apriorística pura ou fenomenológica, embasada na eidética,
dirigindo-se genuinamente à vida psíquica em si mesma e a suas estruturas. O
filósofo, segundo Fonseca (2014), inspirou-se nas propostas psicológicas de
Franz Bretano, buscando captar a essência mesma das coisas, descrevendo a
experiência tal como se processa de modo a que se atinja a realidade tal como
ela é. A tarefa efetiva da fenomenologia está em analisar as vivências
intencionais da consciência para perceber como aí se produz o sentido dos
fenômenos, o sentido desse fenômeno global que se chama mundo. Por isso, ela
busca ultrapassar as experiências reais, atendo-se aos elementos ideais,
considerados como a essência da experiência. A influência da fenomenologia
husserliana, no dizer de Fonseca (2014) contribuirá diretamente para a criação
de um conjunto de abordagens psicológicas e psicoterápicas originais,
incluindo-se, nessa reunião, a Gestalt de Kohler, Koffka e Wertheimer. Em vista
disso, é a Gestalt que desenvolverá uma psicologia fenomenológica. Assim sendo,
observa-se que a fenomenologia husserliana vai se tornar fundamento
epistemológico e metódico para a psicologia no que concerne à introdução da
subjetividade no seu contexto, permitindo que haja um avanço na constituição do
objeto psicológico na criação do conhecimento psicológico. Vê-se, pois, que não
só contribuiu para a Filosofia, como para Psicologia Terapêutica. Veja mais
aqui e aqui.
REFERÊNCIAS
CHAUÍ, Marilena. Convite à
filosofia. São Paulo: Ática, 2002.
______. Husserl. In: HUSSERL,
Edmund. Investigações lógicas: elementos de uma elucidação fenomenológica do
conhecimento. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos
da filosofia: sistema e grandes temas. São Paulo: Saraiva, 2006.
CRITELLI, D. M. Analítica do
sentido: uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica.
São Paulo: EDUC Brasiliense, 1996.
FONSECA, Afonso. Apontamentos
para uma histórica da psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial
organísmica – dita humanista. Disponível em http://www.apacp.org.br/wp-content/uploads/2012/03/art063.html.
Acesso em 10 mar 2014.
______. A experimentação
psicológica e o experimental na tradição da psicologia fenomenológica de
Bretano. Disponível em
http://www.apacp.org.br/wp-content/uploads/2012/03/art040.html. Acesso em 14 mar
2014b.
GILES, Thomas Ranson. História
do Existencialismo e da Fenomenologia. São Paulo: EPU, 1989.
GOTO, Tommy. A
(re)constituição da psicologia fenomenológica em Edmund Husserl. Campinas: PUC,
2007.
______. Fenomenologia e
psicologia: a constituição da psicologia fenomenológica em Edmundo Husserl. V
Congresso de Fenomenologia da Região Centro-Oeste, maio 2013.
HUSSERL, Edmundo.
Investigações lógicas. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
_____. A Ideia da
Fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.
LYOTARD, J.-F.. A
fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 1986.
MACHADO, Luiz Alberto. Hurssel
& a fenomenologia. Tataritaritatá. Disponível em
http://blogdotataritaritata.blogspot.com.br/2013/03/husserl-fenomenologia.html.
Acesso em 14 mar 2014.
MARTINS, Joel e DICHTCHEKENIAN,
Maria Fernanda S.F. Beirão. (Orgs.) Temas Fundamentais de Fenomenologia. São
Paulo: Moares, 1984.
MERLEAU-PONTY, M.. Ciências do
homem e fenomenologia. São Paulo: Saraiva, 1973.
MOREIRA, Virginia. Possíveis
contribuições de Husserl e Heidegger para a clínica fenomenológica. Psicologia
em Estudo, vol. 15, nº 4, Maringá, out/dez, 2010.
PADOVANI, Umberto; CASTAGNOLA,
Luís. História da filosofia. São Paulo: Melhoramentos, 1978.
RAFAELLI, Rafael. Husserl e a
psicologia. Estudos de Psicologia, vol.9,
nº2, Natal, mai/ago, 2004.
SALANSKIS, Jean-Michel.
Husserl. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
SILVA, Fernando. Fenomenologia
e psicologia: uma relação epistemológica. Psicologia Em Foco, vol. 2 (1),
Aracaju, jan./jun 2009.
PROGRAMA
TATARITARITATÁ – O programa Tataritaritatá
que vai ao ar todas terças, a partir das 21 (horário de Brasilia), é comandado
pela poeta e radialista Meimei
Corrêa na Rádio Cidade, em Minas Gerais. Confira a programação
desta terça aqui. Logo mais, a
partir das 21hs, acontecerá mais uma edição do programa Tataritaritatá – agora
com 2 horas de duração -comemorando os mais de 410 mil acessos do blog,
apresentação da querida Meimei Corrêa e com as seguintes atrações na
programação: Maria Callas, Toninho Horta, Lenine,
Rildo Hora, Luiz Vieira, Accioly Neto, Martinho da Vila, Seu Jorge &
Caetano Veloso, Beth Carvalho, Leila Pinheiro, Petrúcio Amorim, Santana o
Cantador, Juareiz Correya, Mazinho, Ozi dos Palmares, Marcelo Café, Nelly
Furtado, Zenima, Britney Spears, Paulynho Duarte, Fundo de Quintal &
muito mais! Veja mais aqui.
SERVIÇO:
O que? Programa Tataritaritatá
Quando? Hoje, terça, 02 de dezembro, a partir das
21hs
Onde? No MCLAM
Apresentação: Meimei Corrêa
O BACANAL DO BOECHAT –
Aproveitando o embalo do desabafo do jornalista Ricardo Boechat na manhã desta
segunda-feira, uma constatação: pagar a gente paga todos os patos e nem que
seja na marra ou subliminarmente, também todos os impostos. Se há sonegação é
porque tem barnabé que ao invés de autuar e fazer vingar a lei (que são tantas
por sinal, valha-me!), prefere contribuir para disfunção burocrática e, pior
que isso, dificulta todo acesso chantageando o contribuinte para cair com a
espórtula institucionalizada nesse nosso Brasilzão véio, arrevirado e de
porteira escancarada. E se a gente precisa do Judiciário, somos pessimamente
atendidos, mesmo sendo requerentes de Justiça e contemplados com todas as
garantias fundamentais consagradas constitucionalmente, afora sermos
intimidados para ficarmos obedientes e resignados com a plenitude da injustiça.
Precisamos do Legislativo, só somos bem recepcionados em época eleitoral, afora
isso, ninguém nunca acha ou é atendido por um vereador, deputado ou senador que
sequer quer saber da tragédia das nossas comunidades. Precisando do Executivo,
piormente somos pendurados nas filas de espera para nos decepcionar na hora de nunca
vermos atendido o que pleiteamos e, quando atendidos, só depois de meses e
meses a rogar pela boa vontade. Desprotegidos e indignados, vamos adiante,
enquanto muitos ficam só de tocaia para participar do bacanal. Vamos aprumar a
conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui.
DOR DE CABEÇA
- Sentir dor de cabeça com frequência é preocupante
em que medida? O que motiva as crises? Em crises de enxaqueca a dor de cabeça é
um dos sintomas, há pelo menos outros 60; quais serão? Existem curas para
enxaquecas e dores de cabeça crônicas para crianças, adultos e idosos? Para
debater este universo, a 15ª edição de “Dr. Maurício Convida: educação + saúde”
receberá o médico neurologista Dr. Luiz Antonio M. Moreira para um bate-papo
com tricordianos sobre prevenção, diagnóstico e tratamento de dores de cabeça e
enxaquecas. ONDE E QUANDO Dor de Cabeça c/ Dr. Luiz Antônio Mendes Moreira
(médico neurologista) Data: 04/12 (quin) Hora: 19h00 - 21h45 Local: Escola do
Legislativo da Câmara Municipal. Acesso: livre e gratuito, local com
acessibilidade: *Av. Quinto Centenário do Brasil, 1010 – Santa Tereza – prédio
anexo ao da Câmara Municipal. (Info: Meimei Corrêa). Veja mais aqui.
JACQUES
DEMOLAY E O FIM DA ORDEM DO TEMPLO – Acontecerá no
próximo dia 6 de dezembro, a partir das 20:30hs, no Teatro da EsSa, em Três
Corações (MG), a apresentação da peça teatral Jacques DeMolay e o fim da Ordem
do Templo, um espetáculo instigante e dramático apresentado pelo ator John Vaz.
Imperdível (Info: Meimei Corrêa).
Veja mais sobre:
Fecamepa, Torquato Tasso, Georges
Bataille, Ástor Piazzolla, Viviane Mosé, Bernardo Bertolucci & Dominique
Sanda, Mary Louise Brooks & Wanda Gág aqui.
E mais:
Heleieth Saffioti: O poder do macho &
gênero, patriarcado & violência, Ari Lins Pedrosa, Ana Paula Fumian,
Frederico Spencer, Suzana Jardim & Marta Nascimento aqui.
História do Feminismo,
Feminino/Masculino, Pluralidade da Família, Psicologia Escolar &
Educacional aqui.
Jacques Lacan, A Família &
Relacionamentos afetivos pós-modernos aqui.
A aprendizagem de Albert Bandura,
Propriedade & Direito Autoral aqui.
Naná Vasconcelos & William Adolphe
Bouguereau aqui.
DITOS &
DESDITOS - Os nossos gostos
desvanecem-se facilmente com a saciedade e devemos dar graças a Deus por nos
ter dado as provações necessárias para os conservar...
Pensamento da física, filósofa e matemática francesa Émilie du Châtelet (1706-1749). Veja mais aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU: Tio Tomás era completamente fora disto: não
era casado, não tinha filhos, nem família, nem emprego fixo. E, no entanto, ele
era importante para mim. A ideia que eu gostaria de passar – vou ver se consigo
– é que não é preciso fazer nada de extraordinário para se ser excepcional para
alguém. Foi com esse tio que aprendi a desenhar. Eu era pequenina, nós éramos
muito pobres, mas morávamos numa aldeia, onde há espaço, e paredes em casas
abandonadas. Ele ensinava-nos a desenhar nessas paredes, com carvão...
Depoimento da artista visual, cineasta e diretora de animação portuguesa Regina Pessoa.
O SACO &
A NOITE DE VALPURGIS – O dia 30
de abril é uma data consagrada a Santa Valburga ou
Valpurgis (710-777), também chamada de Walpurgisnicht (alemão) ou Valborg
(sueco). Ela nasceu em Devon, na Inglaterra, filha de proeminente família anglo
saxônica, cujo pai era São Ricardo, o Peregrino, e irmã de São Willilbald. Ela estudou
medicina e se tornou missionária cristã na Alemanha, onde fundou um mosteiro
duplo em Heidenhein, que se tornou centro de educação e famoso por ser um
centro de cultura. O seu evangelismo levou as pessoas a se converterem do
paganismo ao cristianismo, repelindo a feitiçaria e quando morreu o seu túmulo,
até hoje, produz um óleo sagrado que dizem curar doenças e são distribuídos pelas
freiras beneditinas. A sua canonização e transferência das suas relíquias
ocorreram em 1º de maio de 870, promovendo a festa de véspera em sua homenagem,
coincidindo com um festival celebrado no norte europeu, como o de Beltane. Na
arte cristã ela é representada com bandagens na mão e historiadores observam
que a sua festa foi uma adaptação das deusas agrárias pagãs, traduzindo a ideia
de que nesta data as bruxas celebravam um sabá e os poderes do mal estavam em
seu auge, como relata o folclore alemão relacionada às bruxas no Brocken, o
pico mais alto das montanhas Harz. Para afastar o mal produzido por essas
bruxas, acendiam-se fogueiras nas encostas. Na Baviera a noite das bruxas é
denominada de Hexennacht. Por conta disso, a santa foi aclamada pelos cristãos
da Alemanha, foi canonizada e o dia a ela consagrado passou a ser feriado e
registrado em 1668 por Johannes Praetorius. Ela passou a ser celebrada justamente
em momentos com bebidas, piqueniques e fogueiras, o ápice da permissividade nos
festivais pagãos que marcam o início da primavera na Europa central e Nórdica. É
costume até hoje que às vésperas desse dia acendam fogueiras para afastar os
maus espíritos e as bruxas, com a oferta de frascos contendo o óleo dela. Esta
data coincidentemente também é importante feriado satânico, cujo fundador da
igreja, Anton Szandor La Vey, afirma na The Satanic Bible, que é na véspera do
feriado de maio que se comemora a fruição do equinócio da primavera,
homenageando no Templo Satânico as vítimas da superstição. Há registros de que
a noite de Valpurgis seja uma feira de vaidades, não somente material ou
sexual, há vaidades intelectuais e que outros tipos retratados e criticados são
as escolas de filosofias, como o Racionalista do Iluminismo (F. Nicolai), o
Dogmático (pré-Kantianos), o Idealista (Fichte e Schelling), o Realista
(empiristas), o Sobrenaturalista (F.H. Jacobi), o Cético (Hume) e os Adeptos
(voláteis). O dramaturgo Edward Albee alude a essa noite no título do segundo
ato da peça “Quem tem medo de Virgínia Woolf” (1962), para denotar os jogos
maliciosos dos personagens. A cena XXII de “Um sonho de Valborga” retrata uma
peça teatral que serve de interlúdio, com alusão a “Um sonho de uma noite de
verão”, de Shakespeare. É mais satírica, com temas menos pesados que a cena
anterior. Oberon e Titânia ensinam como conviver casados. Segue uma procissão
de seres fantásticos, que inspiraria o “Bestiário ou Cortejo de Orfeu” de
Guillaume Apolinaire, que terminam com Ariel e Puck, arautos da primavera. O
FAUSTO: Na obra O Fausto, de Goethe
(1749-1832), inspirado nas lendas antigas e personagens históricos, como os
alquimistas renascentistas Cornelius Agrippa, Paracelso e Johan Faust. Na
primeira parte, Mefistófeles aposta nos céus sobre a integridade de Fausto. Na
Terra, no desespero em saciar sua sede de saber, o erudito Fausto faz uma
aposta com Mefistófeles. A proposta do Maligno é que conseguirá satisfazer o
desmotivado Fausto. No momento em que sua vida estiver plena, perderá sua alma.
O sábio se degringola a uma vida dominada pela sensualidade. De certa forma,
representa uma transição do racionalismo iluminista para o sensualismo
romântico. Com a canalhice que inspiraria a Dorian Gray, Fausto seduz, desgraça
e abandona a inocente Margarida (Gretchen). Depois de deixarem a vida de
Gretchen destruída, Mefistófeles e Fausto vão ao pico do monte Brocken, nos
montes Harz, no centro-norte da Alemanha. Lá, segundo a lenda, na noite de 30
de abril para 1º de maio as bruxas e os espíritos malignos celebram uma bacanal,
representando o clímax da lassidão. A segunda parte de “Fausto”, ele não se
preocupa com a alma. Fausto, o erudito ansioso pelo conhecimento, aparentemente
já teria conquistado seu ápice. É o financista do imperador. Mefisto, então, o
leva para uma segunda noite de Valborga, dessa vez, na Grécia Clássica e em
diferente data. A decadência do indivíduo dá lugar a um repertório histórico,
político, filosófico e psicológico da cultura ocidental. Por essa razão, nessa
segunda noite de Valborga é chamada de a “Valborga clássica”. A cena III do ato
II da segunda parte começa no campo de batalha de Farsalos na guerra civil
entre Júlio César e Pompeu, a Farsália, em 9 de agosto de 48 a.C. Inspirado no
poema de mesmo nome de Lucano, Goethe abre a cena com Erichto, a bruxa
tessália. Nessa cena, recheada de criaturas mitológicas, Fausto, Mefisto e o
Homúnculo – ser criado no laboratório de Fausto – se separam em busca,
respectivamente, de Helena (a beleza), os prazeres sensuais, e a humanidade.
Dessa forma, antecede os temas recorrentes do romantismo. Com um vasto elenco
de personagens históricas e mitológicas, Goethe concilia o passado com o
pensamento de sua época. Temas sérios coexistem com o deboche. Na edição
brasileira da Editora 34 há a inserção do trecho “Saco de Valpurgis”, poema
tido como muito obsceno e foi deixado fora da edição canônica da primeira parte
em 1808. É provável que Goethe se inspirou na ilustração de Michael Herr
(1591-1661) para retratar o fantástico, o mágico e a bruxaria na noite da
Valborga. Retomaria esse tema com Felix Mendelssohn, para quem Fausto fez o
poema da “Die erste Walpurgisnacht”, Op.60. Outro compositor inspirado na obra
foi Berlioz. Outros autores inspirados pelo evento (e talvez, pela cena de
Goethe) foram Bram Stoker, H.P. Lovecraft, Jakob Grimm e Thomas Mann. Apesar do
iluminismo, o imaginário europeu era ainda permeado pela crença nas bruxas,
tendo a última execução por bruxaria ocorrida em 1782 com a morte de Anna
Göldi, na Suíça. Veja mais aqui e aqui.
ACRE DE DEUS - [...]
Pessoal, você não parece notar, filho.
Não é tão importante eu tirar dinheiro do acrezinho de Deus para dar à igreja e
ao pregador, é só o fato de eu ter instalado em nome Dele. Todos vocês parecem
pensar nas coisas que podem ver e tocar, que não estão vivendo. São as coisas
que você pode sentir dentro de você, é para isso que a vida é feita. [...].
Trecho extraído da obra O Pequeno Acre de
Deus: Um Romance (Open Road Media, 2011), do escritor estadunidense Erskine
Caldwell (1903-1987), autor da frase: O
cenário da minha primeira percepção da existência de diferenças de cor entre as
pessoas foi meu local de nascimento em uma casa de fazenda isolada no meio da
floresta de pinheiros das colinas de argila vermelha do Condado de Coweta, no
centro da Geórgia. Também é atribuída a ela a frase: Minha introdução à realidade de uma linha divisória entre pessoas de
pele branca e pessoas de pele negra foi abrupta. Além desta: Um bom governo é como uma boa digestão;
enquanto funciona, mal notamos. Veja mais aqui.
O DESTINO DE UM POETA - Como são abençoados,\ os que não sabem
cantar!\ Suas lágrimas correm - que alívio deve ser \ para que a dor caia como
chuva. \ Há um estremecimento \ sob a pedra do coração. \ Ordenado a cantar
entre as sepulturas, \ nascer poeta é meu destino cruel. \ Davi cantou um
lamento por Jônatas \ mesmo que ele tenha sido partido em dois. \ Se Orfeu não
tivesse descido ao inferno \ ele poderia ter enviado sua voz, \ sua voz sozinha
desceu no escuro \ enquanto ele estava no limiar \ permitindo que Eurydice saia
\ na corda bamba de sua canção. \ Uma caminhada de corda durante o dia. \ Cega
pela luz – ela não conseguia olhar para trás.\ Eu sei se você tem voz de poeta\
todo o resto será tirado de você. Poema da escritora russa Marina Tsvetaeva (1891-1941).
PEQUENA HISTÓRIA DA FORMAÇÃO SOCIAL BRASILEIRA - Uma leitura efetuada na quarta edição da obra “Pequena história da formação social brasileira”, do professor Manoel Maurício de Albuquerque é, substancialmente, passar a considerar uma obra assaz importante, muito esclarecedora e reveladora de observações que demonstram o desenvolvimento brasileiro, a partir da sondagem dos antecedentes históricos que circundam muito antes do nascimento e exploração da colônia até os governos militares que se apossaram ditatorialmente com o golpe de 1964, tendo seu término com o governo do general Figueiredo.
O livro é enriquecido por uma abordagem econômica, jurídico-política e ideológica, acrescido de um rol bibliográfico ao término de cada parte analisada, assaz extensa e profunda, formato este que caracteriza a natureza dos estudos desenvolvidos pelo autor da obra.
O professor Manoel Maurício de Albuquerque ao longo da sua vida desenvolveu uma série de estudos e pesquisas nas áreas de geografia humana, ocupação, colonização e desenvolvimento da república brasileira, bem como longos anos de estudo de história numa teoria de justiça social, inclusive muitos desses estudos resultando na perseguição política, destituição de cargos, prisão e tortura durante o regime militar totalitário da década de 60/70, quando o historiador foi vítima, como de fato ocorreu com diversos intelectuais e artistas progressistas que se opunham ou que realizavam trabalhos conscienciosos que, evidentemente, se tornavam contrários à ditadura militar brasileira da época. Além disso, o historiador professor também, escreveu artigos, ensaios e livros com temas pouco pesquisados, interpretações novas apontando linhas originais de pesquisa, trazendo sempre reveladoras observações acerca da História do Brasil.
É conveniente, então, ressaltar, que a obra do professor Manoel Maurício de Albuquerque, por se encontrar antenada com as transformações contemporâneas, numa observadora visão dos antecedentes que constituíram o registro histórico ao longo dos séculos e, assim, com uma perspectiva realista, é, indubitavelmente, de suma importância para uma análise e avaliação do Brasil de ontem, o Brasil que é hoje e o país que se ver para amanhã.
Na obra “Pequena história da formação social brasileira” o autor efetua uma abordagem, inicialmente, da estrutura econômica da etapa escravista, bem como das estruturas jurídico-política e ideológica com seus agentes sociais desta etapa, fase esta que ele inscreve como sendo etapa que envolve a colonização, o escravismo; depois a etapa colonial, chegando à etapa do capitalismo, após uma observação da transição para o Estado Nacional, a Monarquia, até a era Capitalista que culmina com a República, os anos 80 com o governo do general João Baptista Figueiredo. Cada etapa é acrescida de uma avaliação e análise profunda com os antecedentes e conseqüências históricas, acrescida de uma bibliografia sumária que mostra o tom de seriedade, profundidade, atualidade e firmeza com que o autor analisa as transformações históricas brasileiras.
A primeira etapa abordada é a escravista subordinada à política mercantilista colonial, observando as práticas escravistas tanto indígenas como africana, as atividades produtivas, o extrativismo vegetal e mineral, principalmente o extrativismo do pau-brasil, bem como a agro-manufatura da cana-de-açúcar e de outros produtos agrícolas, passando pelas relações de produção feudal subordinada às práticas escravistas, considerando a pecuária, a manufatura, o comércio, as práticas tributárias, as ideologias, estrutura e agentes socioeconômicos que se impuseram por todo século inaugural da exploração colonizadora brasileira. Nessa parte inicial dos estudos, o autor aborda desde a apropriação do excedente através do monopólio comercial, bem como pela imposição de uma estrutura econômica especializada e dependente por via fiscal, pelo aparelho eclesiástico, até chegar nas práticas escravistas e a escravidão indígena para a africana nas atividades produtoras escravistas, tais como o extrativismo vegetal e de outras práticas extrativas, a partir do pau-brasil e o seu processo de produção, bem como o da agro-manufatura da cana-de-açúcar, as áreas produtoras, a expansão da cultura canavieira, a sua crise e recuperação, além da observação de outros produtos de origem agrícola, passando pelo extrativismo mineral sob o mercantilismo metalista preponderante à época. Neste ínterim, o autor discorre sobre os problemas da prata e a mineração no Brasil recém-descoberto e explorado a partir de bandeiras que tentavam sair do litoral para alcançar o interior com escravização indígena, o sertanismo de contrato, o extrativismo do ouro e do diamante com efeitos desse processo até a Revolução Industrial e sua conseqüência no Brasil em formação a partir do sal e das relações de produção feudal subordinadas às práticas escravistas, inclusive abordando a questão da pecuária, a pesca da baleia, as manufaturas, o comércio colonial, as frotas anuais, as companhias de comércio com seus tratados, o contrabando, as práticas tributárias, as ideologias e a estrutura econômicas que permearam todo período num cenário que compreende o descobrimento e a colonização do Brasil. Observa-se, pois, que o Brasil ao ser descoberto não se encontrava no centro de um planejamento prévio de Portugal, vez que este país apenas estava procurando riquezas para se apossar, não tendo, pois, uma política de colonização consistente, razão pela qual se iniciou com conflitos com os indígenas, em virtude da monocultura da cana-de-açúcar, uma vez que não encontravam aqui, os lusitanos, o que explorar, além do pau-brasil e da cana-de-açúcar exportada. Como o invasor se localizara no litoral, havia a necessidade de se conhecer o interior, principalmente por causa das fugas dos indígenas, dos suspeitos religiosos e dos que fugiam da dureza de sustentação dos colonizadores. Resta, pois, observar dessa primeira parte, que o colonizador, tentando proteger as costas brasileiras da invasão dos holandeses, espanhóis, franceses e ingleses, desenvolveu um modelo escravista, tanto indígena como africano, baseado no pau-brasil e na cana-de-açúcar, tudo atendendo os interesses da metrópole.
Depois da avaliação econômica da etapa do escravismo, o autor parte para a análise da estrutura jurídico-política e ideológica com seus agentes sociais na etapa colonial, considerando, inclusive, o descobrimento, o processo em que se deu a viagem de Cabral e a sua chegada às terras brasileiras, a exploração do litoral, o arrendamento do pau-brasil, passando para as políticas externas da colonização, inclusive a política de Maré Clausum e a competição estrangeira, a expedição de Martim Afonso de Sousa, o sistema das capitanias hereditárias, o governo geral, as disputas, os tratados, a crise e todo aparato de acontecimentos que culminaram com o período colonial brasileiro, que vai desde antes de 1500 até a chegada da família real portuguesa em 1808, ao Rio de Janeiro. Nessa etapa há recortes destacados pelo autor que são extraordinariamente esclarecedores como o fato do tópico “O Estado do Brasil e o Estado do Maranhão”, onde ele aborda os conflitos franceses e lusitanos que já vinham com questões com os espanhóis, desembocando na sedimentação do sistema de capitanias hereditárias. Com isso, o autor vai abordando a forma de realização do governo geral a partir da Bahia, a promissora capitania de Pernambuco, a disputa colonialista, o assédio holandês, francês e espanhol na região, os tratados, notadamente o de Haia, de 1661, de Limites como os de Utrecht, de 1713 e 1715, de Madri, de Santo Ildefonso, de 1777, até a crise do sistema colonial com a Revolta de Beckman, de 1684 até 1645; a Guerra dos Emboabas, de 1707 até 1709; a Guerra dos Mascates, de 1710 até 1714; a Revolta de Vila-Rica, de 1720; a Conspiração Mineira, de 1789; a Baiana, de 1798; a Revolução Pernambucana de 1817 que culminou com a punição dos pernambucanos e instalação da capitania de Alagoas; enfim, todo um cenário de turbulência que se insere no desenvolvimento histórico, social e econômico do Brasil Colônia e vai definindo toda a estrutura de formação do país. Nesse período que compreende desde o descobrimento até a chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, na fuga da sanha de Napoleão, estabelece o período de formação brasileira compreendido por mais de trezentos anos de colonização exploradora, que se baseou na extração do pau-brasil, exploração da cana-de-açúcar e na investida em diversas regiões à procura de metais e minerais, eclodindo com o ouro de Minas Gerais. A chegada da família real ao Brasil confere uma mudança na colônia que vai adquirindo não apenas a fonte inesgotável explorada, como vai ganhando um status de centro de desenvolvimento, a partir da criação de universidades, uma Constituição Federal, além de outras benéficas e importantes ações tomadas.
Em seguida, o autor trata da estrutura econômica da etapa escravista subordinada ao capitalismo mundial, compreendendo o período que vai de 1808 até 1870, abordando desde o livre escambismo e o protecionismo alfandegário vigentes à época, culminando com os Tratados de 1810 e a dominância inglesa, a produção agrícola e suas transformações, o estrativismo mineral, as atividades industriais e de serviços, as finanças, imigração e colonização; a transição do sistema escravista para o capitalismo, compreendendo pois, a chegada e desenvolvimento das atividades da família real portuguesa no Brasil. Segue, pois, o capítulo da avaliação da estrutura jurídico-política da transição para o Estado Nacional que ocorreu entre 1808 até 1822 quando se dá a independência, partindo da sede da monarquia no Brasil, passando pela política externa, notadamente da ocupação da Guiana Francesa, de 1809 até 1817; da banda oriental do Uruguai, de 1811 até 1821; do processo de independência, a regência de D. Pedro até a consolidação e o reconhecimento externo.
Quando em 1808 chegou a família real portuguesa, vê-se que uma série de acontecimentos tornaram o país turbulento, articulado com a turbulência externa, a ponto de deflagrar a campanha pela independência de Portugal, fato que ocorre em 1822, registrando, assim, a 7 de setembro daquele ano, a independência do Brasil de Portugal. Daí parte para a abordagem da estrutura jurídico-política da etapa nacional monárquica, que compreende o período de 1822 até 1889, onde fica patenteada a hegemonia do sudeste em detrimento das outras regiões, sobretudo do Nordeste, e a reação ocorrida ao império unificado que praticamente inexistia, culminando com a organização política do império.
Partindo da independência de 1822, passando pelo período de Império até a República instaurada em 1889, todo um processo conservador teve primazia ao longo dos anos, apoiado pelas oligarquias que, vendo seus interesses na iminência da contrariedade, efetuavam mudanças, a exemplo do processo republicano, bem como com a culminância do movimento de 1930, onde o populismo e um Estado Novo se inseria com ditadura e nova Constituição, além de mudanças radicais, implemento nas atividades industriais, reformulação social e todo um aparato de coisas na retomada de um Brasil reformado, com reformas na educação, saúde, política, legislação, que, enfim, desembocam na década de 1950. Fato marcante foi a assembléia constituinte que desemboca na primeira Constituição, a de 1824; outorgada por D.Pedro I, caracterizada por se manter aos princípios do liberalismo moderado, por fortalecer o poder pessoal do imperador com a criação do poder Moderador acima dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e por determinar que as províncias passassem a ser governadas por presidentes nomeados pelo imperador. Segue, portanto, a abordagem para o advento da Confederação do Equador, marcando o conflito entre os pernambucanos e a hegemonia do Sudeste inviabilizando a proposta unicista; passando pela abdicação, a transição regencial de 1831 até 1840; o ato adicional de 1834; o reforçamento do poder da monarquia unitária de 1835 até 1850, culminando com a Revolução Farroupilha que se deu no Rio Grande do Sul e durou de 1835 até 1845. Observa-se que, sincronicamente ao incidente gaúcho, outros movimentos ocorreram como a Cabanagem que eclodiu na região amazônica e durou de 1835 até 1840; a Balaiada, no Maranhão de 1838 até 1841; a Sabinada na Bahia, de 1837 até o ano seguinte. Não se restringindo a estes conflitos, até a maioridade do imperador ocorreram uma série de movimentos, dentre eles o movimento liberal de 1842, a revolta Praieira, em Pernambuco, a questão cisplatina e a guerra contra as províncias unidas do Rio da Prata, o congresso do Panamá, as questões dinásticas portuguesas, do tráfico, de fronteiras, consolidando a estabilização monárquica e o parlamentarismo que perdurou de 1850 até 1870, com as intervenções contra os governos de Oribe e Rosas, entre 1851 e 1852; contra Aguirre, em 1864; a guerra da Tríplice Aliança, de 1864 até 1870; a ofensiva paraguaia de 1864 até 1866; a contra ofensiva aliada, de 1866 e 1870; as fontreiras e as questões com a Grã-Bretanha, que redundam em ações que possibilitam uma maior ofensiva dos republicanos, culminando, com a transição do império para a república, iniciado em 1870 e, consolidado, em 1889, sob a influência do positivismo comteano.
Nesse cenário, chega-se à etapa capitalista, compreendendo os séculos XIX e XX, onde o autor efetua uma análise da estrutura econômica de então, a partir do liberalismo econômico que se inicia em 1889, com a proclamação da república e se efetiva até 1930, quando se dá a criação do Estado Novo. Nesse período ocorre a segunda Constituição Federal, trazendo um modelo constitucional de espírito liberal, também inspirado na tradição republicana dos Estados Unidos da América, onde estabeleceu a liberdade partidária e instituiu eleições diretas para a Câmara, o Senado e a Presidência da República, com o mandato de quatro anos. Nessa Constituição de 1891, o voto tornou–se universal e não secreto para homens acima de 21 anos sendo vetado o voto das mulheres, dos analfabetos, dos soldados e dos religiosos. Nessa etapa, o autor começa abordando a economia agrária a partir do café e toda a sua oligarquia, passando pela borracha amazônica, o açúcar do Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo, bem como outras agrícolas para chegar no setor industrial que culmina com o intervencionismo estatal em 1930. Com a passagem dos anos 20 e chegando à década 30, o autor passa a observar os antecedentes das finanças brasileiras, a partir do encilhamento, a imigração, a colonização, a viação, para abordar a estrutura jurídico-política da etapa republicana, com a sua ditadura e solução federalista que culminaram a Constituição de 1891, observando assim, as ocorrências da última década do século XIX e as duas primeiras do século XX. É nesse período que ocorreram tensões sociais, tais como a Campanha de Canudos, a política dos governadores e a dominância dos grandes Estados; até chegar a segunda república, com o Estado Novo e Getúlio Vargas, passando pela busca de redemocratização e instabilidade populista, o autoritarismo e a resistência.
Na visão de Manoel Maurício de Albuquerque, a implantação do Estado Novo representava principalmente o resultado da aliança da grande propriedade agrária com uma burguesia industrial historicamente frágil. E durante o Estado Novo, foram realizadas várias iniciativas para atender-se ao crescente setor industrial: o 1o Plano Nacional de Eletrificação; a criação do Conselho Nacional do Petróleo, para controlar os poços descobertos no recôncavo baiano; a Companhia Siderúrgica Nacional localizada na cidade de Volta Redonda, dentre outras. Estas medidas relacionam-se com o aumento da indústria, propiciada pela Segunda Guerra Mundial, num processo de substituição das importações brasileiras de gêneros alimentícios, matérias-primas e produtos da indústria leve. Os contingentes de trabalhadores para essa industrialização eram fornecidos pela liberação de mão-de-obra rural, sobretudo do Nordeste, que migrava, em maioria, para o Sudeste. Na ditadura, a participação da indústria na economia como um todo, continuou a aumentar. Com a indústria, crescia o fosso entre o Norte agrícola e o Sul industrializado, e como a crise de 1929 tivera como efeito secundário a quase paralisia da imigração estrangeira, surgiu um novo dado na vida do país: a mão-de-obra necessária para mover o parque industrial recém criado passou a ser fornecida por migrações internas. Em busca de trabalho, os moradores do campo, sobretudo no Nordeste, passaram a se dirigir para cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, que se tornaram metrópoles industriais. Essa massa de origem rural, sem qualquer proteção, encontrou uma legislação trabalhista que apesar de tudo, garantia alguma coisa ao trabalhador. Controlada pelo Estado, através do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e pelos fracos sindicatos, essa massa, será a base do Populismo e do Trabalhismo.
Nessa época ocorreram também várias reformas político, administrativas: criação do Ministério da Aeronáutica, dos Institutos de Aposentadoria e Pensões (ISPS), do Instituto Brasileiro do Café, o Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), com a finalidade de dar ao Estado um aparato burocrático, racionalizador da administração pública além da CLT.
Nesse período, o país passa por três Constituições. A primeira, de 1934, uma Constituição burguesa liberal que, conforme o professor Manoel Maurício de Albuquerque, não toca no problema da terra, porque é precisamente na posse dela que se baseia o seu domínio. Além disso, observa o autor, que mantém na Constituição abordada, o formato de república federativa, diminuindo–se o grau de autonomia dos estados, estabelecendo eleição indireta para Presidente da República, com mandato de seis anos.
A segunda Constituição deste período é a de 1937 que, dentre seus principais aspectos, valem destacar, assim, a centralização política com o fortalecimento do poder do presidente; a extinção do legislativo, cujas funções passaram a ser exercidas pelo executivo; subordinação do judiciário ao executivo; indicação dos "interventores" (governadores) dos estados pelo presidente; e a instituição da legislação trabalhista. Enfim, a terceira que compreende a Constituição de 1946, que, no conjunto, era a mais democrática até então, vez que restabelecia os direitos individuais, extinguindo a censura e a pena de morte, definindo o voto como secreto e universal, além da existência e da independência dos três poderes, com a devida importância destinada ao legislativo.
É na década de 50 que Juscelino imprime uma política desenvolvimentista, uma nova capital federal e um endividamento que se manterá sempre se avolumando com o passar dos anos, passando pela renúncia de Jânio Quadros, a posse conturbada e deposição de João Goulart, até o golpe militar de 1964, quando uma iniciativa totalitária se faz sob o propósito de rearrumação do país, reordenamento, nova Constituição, nova modelagem pautada no tecnicismo, no conservadorismo e no aproveitamento da mentalidade pragmática norte-americana rumo ao desenvolvimento que se ensaia no Milagre Brasileiro da década de 1970 e estertora nos abusos autoritários das décadas anteriores exigindo o processo de redemocratização instituído nos anos 80.
É com o golpe militar de 1964, que mais uma Constituição, a de 1967, é promulgada pelo Congresso Nacional durante o governo Castelo Branco, institucionaliza a ditadura do regime militar de 1964, mantendo o bipartidarismo criado pelo Ato Adicional no 2 e estabelecendo eleições indiretas para Presidência da República, com mandato de quatro anos.
No período da abertura política, várias outras emendas preparam o restabelecimento de liberdades e instituições democráticas, até que ocorre a Constituição de 1969, endurecendo cada vez mais o regime. Outorgada por três Ministros Militares, embora, formalmente, essa Constituição tenha tomado o aspecto de emenda à Carta de 1967, esta Constituição promoveu uma maior centralização do poder político nas mãos do Executivo Federal, descaracterizou o federalismo, privilegiando a União em detrimento dos Estados Membros e dos Municípios. Devido a uma doença, houve uma reunião onde foi decidido que três ministros militares iriam assumir o governo com tempo indeterminado. E, apresentado como imperativo da Segurança Nacional, foi promulgado a 31 de agosto de 1969 o Ato Institucional nº 12. Ficando determinado o real impedimento por motivo de saúde, foi promulgado o AI nº 16. Enquanto não se realizassem a eleição e a posse do Presidente e Vice; marcadas para as datas de 25 a 30 de outubro de 1969, a chefia do Poder continuaria a ser exercida pelos ministros.
Submetendo o texto já refundido da Constituição com as modificações que julgaram convenientes, foi promulgada a Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969, e que alterava profundamente a redação da Constituição de 24 de janeiro de 1967. verificando-se, pois que, no mesmo dia da posse do Presidente Médici, entrou em vigor a Emenda nº 1, à Constituição de 1967, promulgado no dia 17 de outubro de 1969, pelos Ministros Militares que respondiam pelo Governo. De acordo com os seus termos, 58 artigos foram acrescentados ou substituíram outros, do texto anterior. Alguns de caráter fundamental, como o que estabeleceu a duração de 5 anos para o mandato do Presidente da República. A Emenda facilitou a criação de partidos políticos; aumentou a possibilidade de intervenções nos Estados e Municípios; determinou que, em vez de vetar as decisões do Congresso Nacional, poderá o Presidente da República pedir seu imediato reexame. Grande parte da reforma atingiu pontos relativos ao funcionamento e atribuições de órgãos do Poder Legislativo.
A lúcida e profunda abordagem efetuada pelo professor Manoel Maurício de Albuquerque demonstra que o Brasil sempre fora dominado por forças conservadoras que, inclusive, pode-se constatar na contemporaneidade, quando desde o descobrimento pelos portugueses em conflito ora com espanhóis, franceses, holandeses, ingleses, sempre estiveram com a preocupação de como colonizar o Brasil que sempre fora assolado por essas outras nações em conflito com os lusitanos. Demonstra-se que não havendo um planejamento dos portugueses, pois os mesmos se viam às voltas com problemas na própria Europa, o autor deixa claro que sempre o poder conservador predominou desde a prática escravista, tanto indígena como negreira, bem como na expulsão de holandeses, na exploração de vegetais e minerais, na condução dos rumos de exploração entregues aos degredados e privilegiados para resolverem os conflitos da colônia. O autor baliza sua abordagem sempre com enfoque que passa por uma análise estrutural que sintoniza a visão econômica a jurídico-político e à ideológica com seus agentes sociais, consolidando, pois, uma visão segura de que o país sempre esteve envolto pelas turbulências da insatisfação, por causa do atendimento de interesses corporativos que satisfaziam, apenas, aos privilegiados de Portugal.
Conflitos desde a colonização, exploração, defesa do espaço e manutenção da colônia se sobressaíram, tendo, inclusive, problemas entre o governo geral e a capitania de Pernambuco, entre outras capitanias menos expressivas por três séculos, culminando com uma crise que começa com a chegada da família Real Portuguesa em 1808, ao Rio de Janeiro, favorecendo o Sudeste em detrimento das outras regiões brasileiras. Se havia desentendimentos anteriores que estavam muito longe de sair da esfera conflituosa, com esse fato, agravou-se ainda mais, podendo-se, conforme visto em toda extensão da obra, que o país veio ficar mais ou menos equilibrado alguns anos após a promulgação da Constituição de 1988, onde, mesmo com a supremacia dos conservadores contemporâneos, a sociedade civil conseguiu que sua voz fosse ouvida. Veja mais aqui e aqui.
BIBLIOGRAFIA:
ALBUQUERQUE, Manoel Maurício de. Pequena história da formação social brasileira. Rio de Janeiro: Graal, 1986.
É pra
ela na Crônica de amor por ela, Heitor
Villa-Lobos, Liev Tolstói, Ernesto
Sábato, Pablo Neruda, Rosana Lamosa, Délia Maunás, Magali Biff, Aurélio D'Alincourt,
Alipio Barrio & Michelle Ramos aqui.