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quarta-feira, junho 09, 2021

LEWIS CARROLL, MARY LOU WILLIAMS, VIRGINIA LEAL & ESPELHO DANÇA.

 

 

TRIPTICO DQP – Do nada e outras... - Ao som do performático show de cabaré da lendária compositora, pianista e arranjadora estadunidense de jazz Mary Lou Williams (1910-1981), no Les Mouches em Nova York, 1978. - Ao deparar com o espelho: nem eu nem nada. Pelo menos, não tive que passar pela experiência de ter que dar de cara com um general obtuso, nem um ladrão sorrateiro, muito menos a morte inexorável. Graças! Ainda me pergunto como é que tudo isso foi acontecer justo comigo, logo comigo! Uma coisa estava certa: ou havia me tornado invisível de vez, ou seria um vampiro das costelas ocas. Só sendo. Essa a constatação. Até brinquei cantarolando: Espelho, espelho meu, afinal de contas, o que serei eu? Um delírio ou uma assombração, hehehehe. Vamos nessa. E ao chegar à sala, esta não era a minha: três vultos sentados num sofá que não era o meu. Fui ver quem. Ah, qual não foi a minha surpresa! O primeiro a se virar para mim foi Machado de Assis que logo me falou: A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. Hem? O outro logo interveio, era Guimarães Rosa: Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo. Mal ele terminou de me dizer, logo apareceu Sacha Guitry que foi contando a história de um senhor que, ao sair às compras, virou-se da porta e perguntou à esposa o que ela queria que trouxesse: um pente. Este o pedido. No mercado, ele não se lembrava do pedido dela e adquiriu um espelho. Como ela nunca tinha visto aquilo, ao abri-lo, teve uma surpresa: pensou consigo que o marido havia comprado outra mulher. Com esta constatação, levou o objeto para mãe que também nunca tinha visto um troço daquele. Vôte! E ao fitá-lo, olhou, olhou, olhou, virou de ponta à cabeça, fez careta e... como mãe é mãe (né?): é sábia. Coisa mais sem pé nem juízo, ora. Como é? Bem, diante do trio fiquei sem saber o que fazer. O que sei é que aquela não era a minha sala de estar; era, soube por eles depois, a do deão do Christ Church College, que possuía um grande espelho sobre uma enorme chaminé. Teria eu, conforme as instruções que me foram dadas pelos visitantes, que subir o console da lareira, livrando-me dos vasos de flores secas protegidos por redomas vitorianas, e ao alcançá-lo, consequentemente, ultrapassá-lo para saber onde é que ia dar. Como é que pode uma coisa desta, hem? A minha longa jornada pelo espelho.

 


Dois sustos no imprevisível... - Ao atravessar o espelho, ele se dissolveu como uma bruma prateada. Estava diante de mim, ninguém mais nem menos que Lewis Carroll que, por recepção, foi logo me saudando amável e enigmaticamente: A única forma de chegar ao impossível, é acreditar que é possível. Nem deu para notar direito a ponta de sarcasmo que havia no seu jeito e fui imediatamente acompanhado de uma admoestação para que eu não me espantasse, explicando que ali era a entrada para o país do Espelho (!?!), o qual, quando visto, torna-se impossível descrever o cenário com precisão. Hum? Sim, realmente, impossível ter qualquer noção em um lugar em que foram abolidos tanto o movimento no espaço como a passagem do tempo: a prova tangível da refutação do espaço de Zenão. Eita! Além do mais, ali o tempo de cada um é diferente do tempo de todos: o tempo tanto corre para frente, como para trás. Vôte! Endoidou tudo! Assim, eu podia parar o meu tempo à vontade, independente do tempo do outro e nenhum prejuízo para ninguém. Então o que eu vi e senti não deu para contar, apenas vi e senti sim, nada mais. Coisa de doido, né? Pois é.

 


Três solfejos e nenhuma canção... - Já tive oportunidade de aqui publicar poemas de Virginia Leal: a cada leitura de seus cometimentos poéticos, um prazer indescritível, uma emoção inenarrável: e isso muito me apetece. Tanto é que virei assíduo apreciador de suas postagens e, a cada uma delas, lá estou eu como devotado admirador. Prova disso é que aqui já publiquei de sua autoria o Lascivus – da série Nauta Libidinosos –, afora outros dos seus poemas. Até comecei a musicar um deles e, mal começava a descobrir canções em seus versos, logo outro aparecia e lá ia eu solfejando melodias intermináveis. Cheguei a selecionar uns dez ou doze poemas dela, já definindo a linha melódica para cada um deles e procurando superar minhas limitações musicais para alcançar a grandeza do que expressavam. Fiz, refiz, me enganchei, desenganchando e recomeçando, quem sabe, de repente, eu consiga fazer uma música à altura dos seus poemas, espero, vamos ver. Mas o que quero falar aqui não é a respeito dessas minhas tentativas recorrentes e sim de um conto dela que foi responsável pela potencialização da admiração: o A bailarina, a atriz e a canção, extraído da antologia Contos de oficina – Oficina de Criação Literária (Bagaço, 2004), organizada por Raimundo Carrero, do qual pinço o trecho: [...] O artista esculpiu a sensibilidade da menina, antes enredada pela teia do drama que a fez ameaça, ovelha negra, problema. A menina-atriz ressurgida resgatou as histórias perdidas. Agora, havia interessados em suas verdades. Descobriu que é possível fazer do trabalho diversão. Sentiu-se de volta aos brinquedos infantis, enquanto seu corpo febril descobria outros prazeres. O tempo a lapidar cumplicidade, compreensão. [...]. Pois bem, mesmo que minha teimosia em musicar seus poemas não vingue por minha completa incompetência de alcançar a grandeza de sua arte, pelo menos, vou tentando e mais me deliciando com sua maravilhosa expressão. Até mais ver.

 

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segunda-feira, dezembro 04, 2017

CARRERO GIL, REINA, YUJA WANG, ADELINA NISHIYAMA, DIOUF, BRASSE, SANHARÓ, LUCIAH LOPEZ, FOME & ALIMENTAÇÃO

A CIDADE MULHER AMADA – Imagem: arte da pintora e arquiteta Adelina Nishiyama. - Ainda é madrugada na hora incerta da minha insônia revelada e a cidade é uma mulher adormecida e mal coberta, deixando à mostra a sua sedução vulnerável na penumbra. Meus olhos no voo da imaginação se confudem com a cor da noite carregada de nuvens, a esconder a Lua cheia nos passos dos madrugadores ronceiros da sorte a perturbar meu sossego, seguem como eu sempre em busca do amor distante esperando a minha presença. O silêncio abafa opressivamente o deserto das aventuras pela luta da vida, e entre gretas e frestas, cadê o perfume amável das damas ofegantes e bem vistosas para alegria da minha perdição, todas dormem pro meu desconsolo, sequer sabem da minha ânsia de viver no fio da navalha, parido das bússolas e direções. Cem anos antes eu nasço do que sou na descoberta maravilhosa de viver com a idade no ventre materno de todas elas, enquanto sou órfão entre mestiços tropicais que esqueceram rumo e sequer guardam na lembrança quantos amanheceres sem esperança. No horizonte sinais da alvorada distante prestes a me refazer e eu já sinto o dia entre os dedos com os seus cheiros, sons e cor irrompendo no contorno das ruas até saber-me Sol tinindo nas costas queimando o tempo na equivalência mágica de viver entre pernas elegantemente torneadas no realce das saias que emergem como um pé de vento impetuoso a me darem noção da rua à beira do rio com seu verde úmido e a noção de que tudo é possível a partir de agora como sempre foi no meu coração atormentado pelas paixões. A cidade agora é uma mulher esbelta decotada entre os seios e coxas, altaneira estonteante, altiva e linda na manhã fria de dezembro, anunciando a desconfiança do recato na tarde quente e o calor na carestia da vida ao entardecer, a me dizer que tudo passa e sou apenas passageiro a desembarcar em cada ponto de parada para admirar o viço e dizer que volto já e de novo sempre. A cidade é o meu poema à mulher amada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com Gilbertos – Samba ao vivo do cantor e compositor Gilberto Gil & a belíssima pianista chinesa Yuja Wang interpretando obras de George Gershwin &  Scriabin. Veja mais aqui,  aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA - [...] importante parcela das deficiências nutricionais, com destaque para a anemia ferropriva, tanto no Brasil quanto no mundo, também tem na dieta seu principal fator etiológico. Como a dieta é passível de modificação, torna-se necessário o desenvolvimento de políticas para a prevenção, tanto das deficiências nutricionais, quanto das doenças crônicas não transmissíveis. Essa modificação deve ter por base a existência de sistemas que monitorem, de preferência com fluxos de informações já existentes, indicadores do consumo alimentar. Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) constituem fonte valiosa para obtenção de indicadores do consumo alimentar, cujo uso é crescente em países em desenvolvimento. [...]. Trecho do artigo Disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil: distribuição e evolução - 1974-2003 (Revista Saúde Pública, 2005), de Renata Bertazzi Levy-Costa; Rosely Sichieri; Nézio dos Santos Pontes e Carlos Augusto Monteiro. Veja mais aqui e aqui.

ALIMENTOS PARA O FUTURO – [...] Nas próximas quatro décadas, a população mundial crescerá 2,3 bilhões de pessoas e ficará mais rica. Satisfazer a demanda dos 9,1 bilhões de pessoas no planeta em 2050 exigirá produzir 70% mais alimentos do que hoje. Portanto, a menos que tomemos, agora, as decisões adequadas, nos arriscamos a que, amanhã, a dispensa mundial esteja perigosamente vazia. Sobretudo porque, nos próximos anos, o sistema alimentar mundial deverá enfrentar o crescente desafio da mudança climática - que pode reduzir a produção agrícola potencial em até 21% no conjunto dos países em desenvolvimento-, bem como pragas e doenças transfronteiriças mais graves de animais e plantas. Ao mesmo tempo, haverá uma redução da mão de obra agrícola -porque cerca de 600 milhões de pessoas trocarão o campo pela cidade- e uma maior competição pelo uso da terra e dos recursos naturais. Nossa resposta a esses desafios determinará como poderemos alimentar o planeta no futuro. Igualmente importante é garantir que as pessoas estejam bem alimentadas hoje. [...] Porém, considero que é meu dever, assim como é nosso dever como comunidade global, fazer tudo o que está ao nosso alcance para desterrar o fantasma da fome para sempre e assegurar que nossos filhos e netos possam comer dignamente e desfrutar de uma vida saudável. Techos do artigo Alimentos para o futuro (Folha de São Paulo, 2009), do ciplomata senegalês e ex-diretor-geral da Organizalçai das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf.

SANHARÓ – O município de Sanharó tinha suas terras pertencentes à sesmaria de Ororubá, tendo sido fundada a povoação no século XVIII, o distrito criado pela Lei municipal nº 18, de 12 de novembro de 1912, subordinado ao município de Pesqueira. Foi elevado à categoria de município com a denominação de Sanharó, pela Lei estadual nº 375, de 24 de dezembro de 1948, desmembrado de Pesqueira e instalado em 2 de janeiro de 1949. O nome Sanharó veio de uma espécie de abelha negra existente neste local, denominada sanharó, que em vocábulo indígena significa zangado ou excitado. O município é banhado pelo rio Ipojuca e considerado uma das maiores bacias leiteiras do estado pernambucana, conhecida como a cidade do queijo e do leite. Por conta disso realiza-se no mês de setembro a feira do leite, com vaquejadas, concurso leiteiro, rodeios e show ao vivo. Outra atração da cidade é a Festa do Beco, realizada sempre na última semana do ano. Outra festa anárquica/etílico é de "sancoquinho", realizada sempre depois da festa de São Sebastião. No mês de maio acontece a cavalgada das amazonas, reunindo mulheres de todos os municípios vizinhos. No mês de junho acontece a Festa do Curral, que é uma grande confraternização de amigos no curral de gado da cidade onde acontece durante o ano inteiro nas teças feiras a tradicional feira de gado. O município tem forte tradição na música, possui uma das mais antigas e tradicionais bandas de músicas do estado, a centenária Sociedade Musical Santa Cecília, fundada em 1908, pelos grandes e eternos músicos Manuel Fernandes Bezerra e Joaquim Francisco de Assis Aquino. Outra importante manifestação cultural do município é o grupo cultural dos Bacamarteiros de Sanharó, que nos trazem toda a tradição e emoção dos tiros de bacamarte e espalham cultura e por onde passam. Possui também dentre outras coisas, o grupo de Coco da Barriguda; o bloco da porca e as as orquestras de frevo no carnaval; o Palhoção do Povo e as quadrilhas no São João; e a grandiosa Feira do Leite, que acontece todos os anos. Veja mais aqui.

SINFONIA PARA VAGABUNDOS – [...] Ampla é a sala cercada de estantes altas com livros empoeirados, leve a iluminação que entra pelas janelas, tempo impreciso. Silêncio e mansidão. A noite está chegando. O professor Deusdete acredita: este é o momento da criação [...]. Senta-se. Cochila e nãp é mais do que um velho. [...]. Trechos da obra Sinfonia para vagabundos (Bagaço, 1992), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui e aqui.

ÂMBAR - Pulseira de pedras quadradas que caem unidas, sustidas. / De cada uma se desprende / o valor de nossa amizade. / Quadrada cidade como contas de muitas cores:/ quadrilátero infernal de colina em colina/ desordenado para chegar a ti. /Como conto estas contas tão dispersas? / O vendedor as pesou bem na balança sem paixão,/ mas foi enganado. / Um desperdício de contas âmbar contra o tempo /que durou nosso encontro. / O resultado de conversar sem ar lá na colina / gera uma inquietude de contemplar tua mão / (larga e cortante contra a borda do corpo de cerveja). / O que ficou de nós mesmos? / A vaidade de mover as pedrasno ar insatisfeito e sem ilusão? / Flocos de milho macio, contaminados pelo vapor / do distrito, já queimados? / Carne crua do Japão, carne faminta / que estremece e entorpece a dobra de minha língua? / Provo o sorvete de chá verde, “é como mastigar jade”, tu dizes, / paralisando meu riso nervoso ao remover com a colherinha de prata / o tremor da terra, / esse tremor de minha boca que recebe de tua mão, a jóia invisível, / a promessa mantida que me dás de comer, de provar, / com a hilaridade de um passado vencido pelo presente outra vez. / “Ele foi a minha juventude”, repito, para reafirmá-lo, / ainda que já saiba. E a colher retine. / Um fecho de prata no pulso para firmar um pacto / com o esforço carbonizado de querer. / Porém, as pedras dizem que voltarás ao começo / (tu, comigo). / Elas retornam agora como uma pulseira fina, /logo voltarão como um laço ao redor do pescoço / ou dentro de um relógio acostumado a mentir. / Infinita caravana de pedras sem contar, / nos rodeando. / De duas em duas, de três em três... / Quadriláteros portáteis / cuspindo cinzas art decó. / — O impulso de viver — disse o vendedor, sempre nos enganando. / Mais um daqueles velhos antiquários / a quem entregamos para a vida toda o valor de nossa amizade, agora / (âmbar negro) para não adquirir nada mais que a proibição. / E eu o trouxe de volta, o escondi debaixo do travesseiro. / Ocultei-o como pude, para não mastigar vinte e quatro horas / cinzas de âmbar. / Porque já te perdi muitas vezes / entre o vermelho solitário do vulcão / eructando sua rocha mais incandescente — tu./ Agora, as pedras que me deste hão de coroar esta erupção. ; Talvez a última erupção sob minha cabeça / friamente. Poema da premiada poeta cubana Reina María Rodríguez, traduzido por Luiz Roberto Guedes

A ARTE DE WILHELM BRASSE
A arte do fotógrafo polonês Wilhelm Brasse (1917-22012), prisioneiro em Auschwirz durante a Segunda Guerra Mundial, conhecido como o fotógrafo do campo de concentração, tema de um documetário de 2005, Portrecista.

Veja mais:
DOIS POEMAS DE LUCIAH LOPEZ
... a felicidade pode sim pousar em nossa mão_________________é só uma questão de interpretação.
MAMULENGO - Eu vou por aqui e acolá, mamulengo que sou nas ruas desta cidade feita de panos de chita e barro queimado. Corro os meus passos sobre as pedras lisas, corro pra longe do escuro, do muro, do medo do fim do mundo. Em cada esquina, dois pares de olhos sem pálpebras, duas bocas sem dentes, duas mãos e uma pedra! Uma lata, um cachimbo, um escambo e dois palitos____um apito e o guarda Belo! Eu corro, eu subo a ladeira, escorrego na ribanceira e me faço broto de bananeira ( yés, nós temos banana!) e a puta que o pariu acende as luzes feito um Zeppelin apocalíptico e chove sobre nós o mijo sagrado de cada dia. E a cidade adormecida entre chitas e tafetás emite sons graves e agudos e padece num orgasmo transcendental pra renascer colorida entre peidos, merdas e mijos e o pão nosso de cada dia - amém!
Poemas e arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e arquiteta Adelina Nishiyama.
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segunda-feira, fevereiro 08, 2016

RAIMUNDO CARRERO, MIRCEA ELIADE, MARILDA BEHRENS & EDUCAÇÃO, PAULO VANZOLINI, GEORGE ADE, O FREVO & BILLY ELLIOT


 Imagem: arte da saudosa Derinha Rocha.

O FREVO

Luiz Alberto Machado

Não disfarço: sou amarrado em frevo! Tanto é que além de pular - porque dançar, sempre fui ruim das pernas -, inventei de compor alguns. Isso porque o frevo é uma das expressões mais marcantes da pernambucanidade e nela está enraizada a empolgação de um ritmo musical fogoso e alegre que, normalmente, aparece durante o carnaval. Coisa de louco mesmo. Quando se avizinha o carnaval, logo se destabocam as folias e, inevitavelmente, a liberdade come no centro. Numa breve abordagem histórica, o frevo nasceu em Pernambuco no século XIX e guarda até hoje uma polêmica: quem nasceu primeiro, a música ou a dança? Conforme Valdemar de Oliveira: "Foi, de fato, no Recife dos fins do século XIX, começos deste, que a música foi aparecendo, conduzindo a dança, ou a dança foi tomando corpo, sugerindo a música. É impossível distinguir bem: se o frevo, que é a música, trouxe o passo ou se o passo, que é a dança, trouxe o frevo. As duas coisas foram se inspirando uma na outra - e completam-se". Tanto é que levou José Ramos Tinhorão ao mencionar na sua "Pequena história da música popular" que: "Tal como no caso do maxixe, o frevo do Recife surgiu da interação entre música e dança, a ponto de não se poder distinguir - como tão bem ressaltou o estudioso pernambucano Valdemar de Oliveira [...] Os estudiosos do frevo pernambucano, embora discordando em vários pontos quanto a pormenores de sua história, são unânimes em concordar que as origens do passo (nome atribuído às figurações improvisadas pelos dançarinos ao som da música) se prendem à presença de capoeiras nos desfiles das duas mais famosas bandas de músicas militares do Recife da segunda metade do século XIX". Por causa disso, o melhor mesmo é curtir a música e ver se, ao ouvi-la consegue ficar parado num canto. Para mim, isso é impossível. Uma outra questão interessante é quanto a origem da denominação frevo, que, segundo Tinhorão, o nome serve "[...] para designar a visão dos milhares de recifenses caindo no passo: os saltos da dança, vistos de longe, davam à multidão o aspecto de uma superfície líquida fervendo, e na linguagem popular pernambucana ferver sempre fora frever". Daí a explicação: o nome frevo vem de ferver, de quentura, agitação, efervescência. E, na verdade, não é outra coisa senão tudo isso junto no maior rebuliço. Sim, com o seguinte detalhe: pelo vício de linguagem, ferver era pronunciado "frever", como em "frebento", da expressão "frebe-do-rato", passando, assim, a se denominar frevo à música de composição ligeira, execução vigorosa e, invariavelmente, estridente que, segundo o maestro e estudioso Guerra Peixe, é "[...] a mais importante expressão musical popular", a ponto de levar Carlos da Fonte Filho, no seu livro "Espetáculos populares de Pernambuco", a considerar ser então o ritmo uma alegre mistura de polca e dobrado, com influência do maxixe, do galope, da quadrilha, da marcha e, até do tango brasileiro. Verdadeiro amontoado de coisas. Além do mais, há uma tipologia muito peculiar ao frevo: o frevo-de-rua, que é instrumental, sem letra, que sai levando o povo pelas ruas e tem sua maior representantividade no "Vassourinhas", de Matias da Rocha. Já a marcha de bloco que, segundo Carlos Fonte Filho: "[...] é executada por uma orquestra composta por instrumentos de corda, como violão, cavaquinho e banjo", tem, como exemplo dessa modalidade, a "Evocação n. 1", de Nélson Ferreira e "Saudade", dos irmãos Valença. E, enfim, o frevo-canção que se assemelha às marchinhas cariocas onde são cantadas as letras compostas de rara poesia, como os compostos por Capiba e cantados pela voz do legendário Claudionor Germano, ou mesmo o "Hino do Elefante", de Clídio Nigro. Tudo isso sem contar com o repertório vastíssimo da dança que hoje comporta mais ou menos cento e vinte passos, entre volteios, pulos, gesticulações e até acrobacias, com a maior liberdade na indumentária. Mais outro detalhe: é exatamente na apresentação das mulheres quando o frevo assume uma sensualidade marcante pela utilização de blusas curtinhas e minissaias rodadas, deixando os marmanjos de queixo-caído, levados, pelo entusiasmo a pular cada qual ao seu modo e jeito. Tudo em nome da folia e da liberdade. Pelo visto, não é à toa que o frevo é uma das marcas pernambucanas: bastando aparecer os seus primeiros acordes para todo mundo remexer o esqueleto, caindo solto na frevada e se preparando para se esbaldar com o ritmo que já passou a ser popularmente conhecido como levanta-defunto. E tem essa alcunha porque, para quem conhece, é impossível não mexer nenhum músculo quando executado na rua, nos salões, ou onde eclodir. Realmente o frevo é uma dessas formas musicais contagiantes que leva todo folião ao êxtase no passo, na dança e na folia toda. Mesmo fora do carnaval, quando os acordes introdutórios soam de longe, qualquer desavisado corre logo para ver o que está acontecendo, por isso que também é logo entendido como ajunta-gente, tal seu poder de arregimentar adepto-até-de-um-olho-só. Não posso me furtar a dizer que o frevo já vem no sangue do pernambucano desde seu nascimento, mesmo que seja alheio a esse fato, mas que, indubitavelmente, ao ouvi-lo sentirá nas entranhas a revolução provocadora da música. Veja mais aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS – Uma: quem dorme e acorda todo dia e nunca vê o espetáculo do Sol, nada demais, por isso indiferença é coisa besta. Outra: Existe demente pra tudo. Tem até quem não sente nem a mordida da ocasião – uma facada a mais ou de menos, nada demais -, só se vê mesmo o estrago só muito tempo depois, ora. (LAM).

ALGUÉM FALOU – Com o tempo, qualquer amigo muito próximo e querido acaba se tornando tão inútil quanto um parente. Expressão do humorista e dramaturgo estadunidense George Ade (1866-1944).

O UNO & O HOMEM – [...] O desejo de reencontrar essa unidade perdida que constrangeu o homem a conceber os opostos como aspetos complementares de uma realidade única. É a partir de tais experiências existenciais, despoletadas pela necessidade de transcender os contrários que se foram articulando as primeiras especulações teológicas e filosóficas. Antes de se tornarem conceitos filosóficos por excelência, o Uno, a Unidade, a Totalidade constituíram nostalgias que se revelavam nos mitos e nas crenças, e cumpriam-se nos ritos e nas técnicas místicas. O mistério da totalidadetraduz o esforço do homem para aceder a uma perspetiva na qual oscontrários se anulam. [...]. Trecho extraído da obra Métiphsitophélès et l'androgyne (Gallimard, 1964), do filósofo, professor, cientista das religiões, mitólogo e romancista romeno Mircea Eliade (1997-1986). Veja mais aqui e aqui.

A EDUCAÇÃO – [...] Um dos grandes méritos deste século, sem dúvida, é o fato de os homens terem despertado para a consciência da importância da educação como necessidade preeminente para viver em plenitude como pessoa e como cidadão envolvido na sociedade. Pensar na Educação, implica refletir sobre os paradigmas que caracterizaram o século XX e sobre a projeção das mudanças paradigmáticas no século XXI. [...]. Trecho extraído da obra O paradigma emergente e a prática pedagógica (Champagnat, 1999), da pedagoga e professora Marilda Behrens.

BILLY ELLIOT – O filme Billy Elliot (2000), de Stephen Daldry, conta a história de um menino filho de mineiro ingles que mora numa pequena cidade e que detesta esportes, principalmente box, que é obrigado a praticar. Um dia, descober as aulas de dança dadas para as meninas da escola. Fascinado pelos movimentos, pede que a professora permita-lhe frequentar o curso. Sabendo que sua família operaria não aceitaria sua escolha, mantém aulas e ensaios em segredo. Trabalha arduamente pois seu corpo tem de desaprender o condicionamento dado pelos esportes para adquirir e a flexibilidade e a leveza necessárias à dança. Quando seu descobre o que está fazendo, instala-se um violento conflito em que são revelados inúmeros preconceitos em relação à dança, à sexualidade de quem dança, dando margem a discussões sobre rótulos e papeis sociais tradicionais. O filme aborda questões éticas e estéticas.

DIÁRIO DE UM LOUCO – II – Sonhei com Susie. Repetia-se a cena do filme com mudanças abruptas: primeiro era um quarto de asilo onde nos despíamos e amávamos ternamente depois da Emergência comos loucos aplaudindo e um menino batendo no meu ombro e perguntanto “mamãe vem hoje, mamãe vem hoje” em seguida, Susie vomitando sangue no meu peito: e Manuel Bandeira recitando: A vida, não vale a pena e a dor de ser vivda. Os corpos se estendem mas as almas não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Acordei irritadíssimo. Fora enfeitiçado pelo cavalo branco andando na neve lentamente e me envolvera como corpo em êxtase espiritual de Susie. A cabeça me doía. A boca seca. Decidi não ir ao refeitório para o café da manhã. [...]. Trechos extraídos da obra Os extremos do arco-íris (Bagaço, 1993), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CAPOEIRA DO ARNALDO - Eu sai da minha terra / Me deu lição verdadeira / Por ter sina viageira / Coragem num tá no grito / Com dois meses de viagem / E nem riqueza na algibeira / Eu vivi uma vida inteiraE os pecado de domingo / Sai bravo, cheguei manso / Quem paga é segunda-feira / Macho da mesma maneira / Estrada foi boa mestra. Música do zoólogo e compositor Paulo Vanzolini.



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