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quarta-feira, dezembro 20, 2017

VILLON, RIBEIRO COUTO, BADIOU, JOÃO BOSCO, VOGLER, RUTH BERNARD, OLGA KRIMON, MORELENBAUM, HISTÓRIA & VIOLÊNCIA

HÁ DOIS ANOS FLORESCIA O AMOR – Imagem: Indian Corn, da pintora ucraniana Olga Krimon. - Há dois anos, olhar na escuridão imensa, nenhuma porta aberta, o andar incerto, o sentimento à cata de arrimo, entre simulacros caleisdoscópicos de quem desceu ao inferno, e labaredas nas águas até o pescoço. O que sobrou de mim, um espantalho indômito com todos os fantasmas do passado, remoendo as vísceras do coração despedaçado, roto, desalentado. Um nada de mim restava a se dissolver, como quem a se desmanchar, a vida aos pedaços. Ao longe, quase cego nas últimas, um aceno rutilante e breve, e eu ressurgia das cinzas, fênix dilacerado diante de refulgente emanação. Entreguei-me às suas mãos e só então as altas ondas do mar revolto se apaziguaram, vendaval das nuvens delineando as correntes pro meu caminho perdido. Sabia lá mais o que seria a vida, esquinas desertas no descampado das ruas desaparecidas, nenhuma noção pra quem nada além ao rés do chão, no fundo do poço. E as suas mãos me deram a direção no horizonte, segui seus passos, vivi seu riso de Sol, seu jeito menina de quem me deu outra infância no quintal jamais revisto, a recomeçar do zero, a reaprender do voo, folha seca timidamente revitalizada. Das mãos seu corpo pro meu abrigo, terra firme pra me segurar em pé e retomar o prumo. Não sei quantas noites e dias, embalado por sua voz além dos confins, quantas tardes de sonho no seu jeito abissal, quantas manhãs revividas de desacordado que teimava em desfalecer na solidão, até salvar-me com sua inteira e imprevista chegada, fúria de naja pra me envolver como se não houvesse tanto tempo passado nas errâncias nem depois de esperas em claro e a vida há dois anos insistindo em se revelar mais que a plenitude de tudo. Há dois anos eu me encontrei como quem nem mais sabia de si nem de nada, há dois que eu não tinha nem onde cair morto, agora em suas mãos, carne que refaz a minha, imantado por seus olhos de luz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja também abaixo e mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o show ao vivo do cantor, compositor e violonista João Bosco & Tuscia in Jazz com Paula & Jaques Morelenbaum Trio. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] o amor é irredutível a toda lei. Não há a lei do amor. [...] Há um trabalho do amor, e não apenas um milagre. É preciso estar em movimento, é preciso ter cuidado, é preciso se reunir, consigo mesmo e com o outro. É preciso pensar, agir, transformar. E então, sim, como a recompensa imanente do labor, há a felicidade. [...]. Trechos extraídos da obra Elogio ao amor (Martins Fontes, 2013), do filósofo, dramaturgo e novelista francês Alain Badiou. Veja mais aqui e aqui.

A VIOLÊNCIA –[...] a oposição entre pessoas envolvidas, sua expressão em termos de luta e solução por meio da força, irrompe de relações cujo conteúdo de hostilidade e sentido de ruptura se organizam de momento, sem que um estado anterior de tensãotenha contribuído. A agressão ou defesa à mão armada, da qual resultam não raro ferimentos graves ou morte, aparecem com freqüência entre pessoas que mantêm relações amistosas e irrompem no curso dessas relações. [...] Nestas existências inteiramente pobres, incipientes no domínio da natureza e rudimentares nos ajustamentos humanos, pouco se propõe ao entendimento humano, senão a sua própria pessoa. É ela que sobressai diretamente, solidária e despojada, por sobre a natureza; ela apenas constitui o sistema de referência através do qual, o sujeito consegue perceber-se. Desde que, nas realizações objetivas de seu espírito, quase nulas, dificilmente lograria reconhecer-se, é aquilo que pode fazer de si próprio e de seu semelhante que abre a possibilidade de autoconsciência: sua dimensão de homem chega-lhe, assim, estritamente como subjetividade. Através dessa pura e direta apreensão de si mesmo como pessoa, vinda da irrealização de seus atributos humanos na criação de um mundo exterior, define-se o caráter irredutível das tensões geradas. [...] Em seu mundo vazio de coisas e falto de regulamentação, a capacidade de preservar a própria pessoa contra qualquer violação aparece como única maneira de ser: conservar intocada a independência e ter a coragem necessária para defendê-la são condições de que o caipira não pode abrir mão, sob pena de perder-se. [...]. Trechos extraídos da obra Homens livres na ordem escravocrata (IEP/USP, 1969), da sociológa e professora Maria Sylvia de Carvalho Franco. Veja mais aqui, aqui & aqui.

ARTE & HISTÓRIA – [...] Podemos, sob esta inspiração, nos remeter a imagens pictóricas e a textos literários do passado, que falam de um não acontecido, mas que registram sensibilidades sobre o mundo, sobre os quais o historiador se debruça, com as suas indagações. E essas perguntas fazem dialogar arte e história, nessa twilight zone que aproxima e separa as representações construídas sobre o real. [...]. Imagens pictóricas, discursos poéticos e lendas são representações do mundo que se oferecem ao historiador como portas de entrada ao mundo das sensibilidades da época que as engendrou. [...]. Dessa maneira, se a arte se apresenta como fonte ao historiador – ou seja, como marca de historicidade que guarda uma impressão de vida – ela é uma fonte que diz sobre o seu momento de feitura e não sobre o tempo do narrado ou figurado. [...]. Trecho do artigo Este mundo verdadeiro das coisas de mentira: entre a arte e a história (Estudos Históricos, 30, 2002), da historiadora, escritora e professora Sandra Jatahy Pesavento (1945-2009).

O BLOCO DAS MIMOSAS BORBOLETAS - [...] Encarei-a com piedade e revolta: gordinha, morenota, um leve buço enegrecendo-lhe o lábio superior. E irresponsável, camaradinha, fácil, derrotada nas suas vaidades de princesa de arrabalde por aquele complicado drama de fuga e morte.  Olhando-me a fito, vi nos olhos dela recordação da vida já antiga. [...] Agora, tudo acabado, para nunca mais! Desabou a chorar sobre o meu ombro: que era muito infeliz, que ia sofrer muito, que não sabia como perdera a cabeça, que agora estava perdida, que queria morrer também... Consolei-a como pude, segurando-a pelos pulsos. [...] A rua! A rua deserta, vazia, livre, para os meus passos e para o meu rumo. Corripor ali afora, corri para alcançar o bonmde para desentoprpecer. E enquanto corria levava a sensação de fugir a uma coisa fascinante e ameaçadora, de que eu me libertava enfim... uma coisa suave e horrenda que não poderia mais acontecer na madrugada pura do arrabalde... Trechos extraído da obra Bailarinha e outras mulheres (Anuário do Brasil, 1927), do escritor, jornalista, diplomarta e magistrado Ribeiro Couto. Veja mais aqui.

DUAS BALADAS DE VILLONBalada das damas dos tempos idos: Dizei-me em que terra ou país / Está Flora, a bela romana; / Onde Arquipíada ou Taís, / que foi sua prima germana; / Eco, a imitar na água que mana / de rio ou lago, a voz que a aflora, / E de beleza sobre-humana? / Mas onde estais, neves de outrora? / E Heloísa, a mui sábia e infeliz / Pela qual foi enclausurado /Pedro Abelardo em São Denis, / por seu amor sacrificado? / Onde, igualmente, a soberana / Que a Buridan mandou pôr fora / Num saco ao Sena arremessado? / Mas onde estais, neves de outrora? / Branca, a rainha, mãe de Luís / Que com voz divina cantava; / Berta Pé-Grande, Alix, Beatriz / E a que no Maine dominava; / E a boa lorena Joana, / Queimada em Ruão? Nossa Senhora! / Onde estão, Virgem soberana? / Mas onde estais, neves de outrora? / Príncipe, vede, o caso é urgente: / Onde estão elas, vede-o agora; / Que este refrão guardeis em mente: / Onde estão as neves de outrora? Balada das damas do tempo antigo: Ora dizei-me em que país / Flora estará, bela romana, / Arquipiades ou Taís / que sua prima foi germana. / Eco a falar, quando um som plana / por rio ou lago, e que já tem o / dom de formosa mais que humana? / Mas onde estão neves de antanho? / Onde é mui sábia Heloísa / por quem castrado e monge pena / Pedro Balerdo em S. Dinis? / Amor lhe deu provação plena. / E assim também onde é que reina / essa que a Buridan por banho / mandou deitar num saco ao Sena? / Mas onde estão neves de antanho? / Rainha Branca como um Lis, / voz que a sereia em canto irmana, / Berta pé-grande, Alis, Biatriz, / Aremburgis que foi menana, / e de Lorena a boa Joana / qu’ingrês em Ruão queimou no lenho. / Onde estão, Virgem Soberana? / Mas onde estão neves de antanho? / Senhor, cuidar de ano ou semana / onde elas são, não voz traz ganho, / nem meu refrão a vós engana: / Mas onde estão as neves de Antanho? Poemas do poeta francês François Villon (1431-1463). Veja mais aqui.

BASE PARA UNHAS FRACAS
O curta-metragem experimental erótico Base para unhas fracas: ou a pintura como assunto (2011), dirigido pelo pintor Alexandre Vogler, com a atriz Marcela Maria, conta a história de uma mulher nua que percorre as ruas do centro do Rio de Janeiro, durante a madrugada, intervindo em luminosos e espalhando cartazes autobiográficos pelos muros.

Veja mais:
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Procuramos um lugar digno para chamar de lar, mas só o encontraremos quando o mundo estiver livre de preconceitos. Somos todos iguais independente da cor da pele, da religião, da sexualidade, da necessidade de cuidados especiais ou idade. Dentro de nós o sangue eé vermelho e a alma imortal é Luz.
Poema/foto da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez
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A arte de Vik Muniz aqui.
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A FOTOGRAFIA DE RUTH BERNARD
A arte da fotógrafa alemã Ruth Bernard (1905-2006).

A ARTE DE OLGA KRIMON
A arte da pintora ucraniana Olga Krimon.


segunda-feira, dezembro 04, 2017

CARRERO GIL, REINA, YUJA WANG, ADELINA NISHIYAMA, DIOUF, BRASSE, SANHARÓ, LUCIAH LOPEZ, FOME & ALIMENTAÇÃO

A CIDADE MULHER AMADA – Imagem: arte da pintora e arquiteta Adelina Nishiyama. - Ainda é madrugada na hora incerta da minha insônia revelada e a cidade é uma mulher adormecida e mal coberta, deixando à mostra a sua sedução vulnerável na penumbra. Meus olhos no voo da imaginação se confudem com a cor da noite carregada de nuvens, a esconder a Lua cheia nos passos dos madrugadores ronceiros da sorte a perturbar meu sossego, seguem como eu sempre em busca do amor distante esperando a minha presença. O silêncio abafa opressivamente o deserto das aventuras pela luta da vida, e entre gretas e frestas, cadê o perfume amável das damas ofegantes e bem vistosas para alegria da minha perdição, todas dormem pro meu desconsolo, sequer sabem da minha ânsia de viver no fio da navalha, parido das bússolas e direções. Cem anos antes eu nasço do que sou na descoberta maravilhosa de viver com a idade no ventre materno de todas elas, enquanto sou órfão entre mestiços tropicais que esqueceram rumo e sequer guardam na lembrança quantos amanheceres sem esperança. No horizonte sinais da alvorada distante prestes a me refazer e eu já sinto o dia entre os dedos com os seus cheiros, sons e cor irrompendo no contorno das ruas até saber-me Sol tinindo nas costas queimando o tempo na equivalência mágica de viver entre pernas elegantemente torneadas no realce das saias que emergem como um pé de vento impetuoso a me darem noção da rua à beira do rio com seu verde úmido e a noção de que tudo é possível a partir de agora como sempre foi no meu coração atormentado pelas paixões. A cidade agora é uma mulher esbelta decotada entre os seios e coxas, altaneira estonteante, altiva e linda na manhã fria de dezembro, anunciando a desconfiança do recato na tarde quente e o calor na carestia da vida ao entardecer, a me dizer que tudo passa e sou apenas passageiro a desembarcar em cada ponto de parada para admirar o viço e dizer que volto já e de novo sempre. A cidade é o meu poema à mulher amada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com Gilbertos – Samba ao vivo do cantor e compositor Gilberto Gil & a belíssima pianista chinesa Yuja Wang interpretando obras de George Gershwin &  Scriabin. Veja mais aqui,  aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA - [...] importante parcela das deficiências nutricionais, com destaque para a anemia ferropriva, tanto no Brasil quanto no mundo, também tem na dieta seu principal fator etiológico. Como a dieta é passível de modificação, torna-se necessário o desenvolvimento de políticas para a prevenção, tanto das deficiências nutricionais, quanto das doenças crônicas não transmissíveis. Essa modificação deve ter por base a existência de sistemas que monitorem, de preferência com fluxos de informações já existentes, indicadores do consumo alimentar. Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) constituem fonte valiosa para obtenção de indicadores do consumo alimentar, cujo uso é crescente em países em desenvolvimento. [...]. Trecho do artigo Disponibilidade domiciliar de alimentos no Brasil: distribuição e evolução - 1974-2003 (Revista Saúde Pública, 2005), de Renata Bertazzi Levy-Costa; Rosely Sichieri; Nézio dos Santos Pontes e Carlos Augusto Monteiro. Veja mais aqui e aqui.

ALIMENTOS PARA O FUTURO – [...] Nas próximas quatro décadas, a população mundial crescerá 2,3 bilhões de pessoas e ficará mais rica. Satisfazer a demanda dos 9,1 bilhões de pessoas no planeta em 2050 exigirá produzir 70% mais alimentos do que hoje. Portanto, a menos que tomemos, agora, as decisões adequadas, nos arriscamos a que, amanhã, a dispensa mundial esteja perigosamente vazia. Sobretudo porque, nos próximos anos, o sistema alimentar mundial deverá enfrentar o crescente desafio da mudança climática - que pode reduzir a produção agrícola potencial em até 21% no conjunto dos países em desenvolvimento-, bem como pragas e doenças transfronteiriças mais graves de animais e plantas. Ao mesmo tempo, haverá uma redução da mão de obra agrícola -porque cerca de 600 milhões de pessoas trocarão o campo pela cidade- e uma maior competição pelo uso da terra e dos recursos naturais. Nossa resposta a esses desafios determinará como poderemos alimentar o planeta no futuro. Igualmente importante é garantir que as pessoas estejam bem alimentadas hoje. [...] Porém, considero que é meu dever, assim como é nosso dever como comunidade global, fazer tudo o que está ao nosso alcance para desterrar o fantasma da fome para sempre e assegurar que nossos filhos e netos possam comer dignamente e desfrutar de uma vida saudável. Techos do artigo Alimentos para o futuro (Folha de São Paulo, 2009), do ciplomata senegalês e ex-diretor-geral da Organizalçai das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf.

SANHARÓ – O município de Sanharó tinha suas terras pertencentes à sesmaria de Ororubá, tendo sido fundada a povoação no século XVIII, o distrito criado pela Lei municipal nº 18, de 12 de novembro de 1912, subordinado ao município de Pesqueira. Foi elevado à categoria de município com a denominação de Sanharó, pela Lei estadual nº 375, de 24 de dezembro de 1948, desmembrado de Pesqueira e instalado em 2 de janeiro de 1949. O nome Sanharó veio de uma espécie de abelha negra existente neste local, denominada sanharó, que em vocábulo indígena significa zangado ou excitado. O município é banhado pelo rio Ipojuca e considerado uma das maiores bacias leiteiras do estado pernambucana, conhecida como a cidade do queijo e do leite. Por conta disso realiza-se no mês de setembro a feira do leite, com vaquejadas, concurso leiteiro, rodeios e show ao vivo. Outra atração da cidade é a Festa do Beco, realizada sempre na última semana do ano. Outra festa anárquica/etílico é de "sancoquinho", realizada sempre depois da festa de São Sebastião. No mês de maio acontece a cavalgada das amazonas, reunindo mulheres de todos os municípios vizinhos. No mês de junho acontece a Festa do Curral, que é uma grande confraternização de amigos no curral de gado da cidade onde acontece durante o ano inteiro nas teças feiras a tradicional feira de gado. O município tem forte tradição na música, possui uma das mais antigas e tradicionais bandas de músicas do estado, a centenária Sociedade Musical Santa Cecília, fundada em 1908, pelos grandes e eternos músicos Manuel Fernandes Bezerra e Joaquim Francisco de Assis Aquino. Outra importante manifestação cultural do município é o grupo cultural dos Bacamarteiros de Sanharó, que nos trazem toda a tradição e emoção dos tiros de bacamarte e espalham cultura e por onde passam. Possui também dentre outras coisas, o grupo de Coco da Barriguda; o bloco da porca e as as orquestras de frevo no carnaval; o Palhoção do Povo e as quadrilhas no São João; e a grandiosa Feira do Leite, que acontece todos os anos. Veja mais aqui.

SINFONIA PARA VAGABUNDOS – [...] Ampla é a sala cercada de estantes altas com livros empoeirados, leve a iluminação que entra pelas janelas, tempo impreciso. Silêncio e mansidão. A noite está chegando. O professor Deusdete acredita: este é o momento da criação [...]. Senta-se. Cochila e nãp é mais do que um velho. [...]. Trechos da obra Sinfonia para vagabundos (Bagaço, 1992), do premiado escritor, crítico, editor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero. Veja mais aqui e aqui.

ÂMBAR - Pulseira de pedras quadradas que caem unidas, sustidas. / De cada uma se desprende / o valor de nossa amizade. / Quadrada cidade como contas de muitas cores:/ quadrilátero infernal de colina em colina/ desordenado para chegar a ti. /Como conto estas contas tão dispersas? / O vendedor as pesou bem na balança sem paixão,/ mas foi enganado. / Um desperdício de contas âmbar contra o tempo /que durou nosso encontro. / O resultado de conversar sem ar lá na colina / gera uma inquietude de contemplar tua mão / (larga e cortante contra a borda do corpo de cerveja). / O que ficou de nós mesmos? / A vaidade de mover as pedrasno ar insatisfeito e sem ilusão? / Flocos de milho macio, contaminados pelo vapor / do distrito, já queimados? / Carne crua do Japão, carne faminta / que estremece e entorpece a dobra de minha língua? / Provo o sorvete de chá verde, “é como mastigar jade”, tu dizes, / paralisando meu riso nervoso ao remover com a colherinha de prata / o tremor da terra, / esse tremor de minha boca que recebe de tua mão, a jóia invisível, / a promessa mantida que me dás de comer, de provar, / com a hilaridade de um passado vencido pelo presente outra vez. / “Ele foi a minha juventude”, repito, para reafirmá-lo, / ainda que já saiba. E a colher retine. / Um fecho de prata no pulso para firmar um pacto / com o esforço carbonizado de querer. / Porém, as pedras dizem que voltarás ao começo / (tu, comigo). / Elas retornam agora como uma pulseira fina, /logo voltarão como um laço ao redor do pescoço / ou dentro de um relógio acostumado a mentir. / Infinita caravana de pedras sem contar, / nos rodeando. / De duas em duas, de três em três... / Quadriláteros portáteis / cuspindo cinzas art decó. / — O impulso de viver — disse o vendedor, sempre nos enganando. / Mais um daqueles velhos antiquários / a quem entregamos para a vida toda o valor de nossa amizade, agora / (âmbar negro) para não adquirir nada mais que a proibição. / E eu o trouxe de volta, o escondi debaixo do travesseiro. / Ocultei-o como pude, para não mastigar vinte e quatro horas / cinzas de âmbar. / Porque já te perdi muitas vezes / entre o vermelho solitário do vulcão / eructando sua rocha mais incandescente — tu./ Agora, as pedras que me deste hão de coroar esta erupção. ; Talvez a última erupção sob minha cabeça / friamente. Poema da premiada poeta cubana Reina María Rodríguez, traduzido por Luiz Roberto Guedes

A ARTE DE WILHELM BRASSE
A arte do fotógrafo polonês Wilhelm Brasse (1917-22012), prisioneiro em Auschwirz durante a Segunda Guerra Mundial, conhecido como o fotógrafo do campo de concentração, tema de um documetário de 2005, Portrecista.

Veja mais:
DOIS POEMAS DE LUCIAH LOPEZ
... a felicidade pode sim pousar em nossa mão_________________é só uma questão de interpretação.
MAMULENGO - Eu vou por aqui e acolá, mamulengo que sou nas ruas desta cidade feita de panos de chita e barro queimado. Corro os meus passos sobre as pedras lisas, corro pra longe do escuro, do muro, do medo do fim do mundo. Em cada esquina, dois pares de olhos sem pálpebras, duas bocas sem dentes, duas mãos e uma pedra! Uma lata, um cachimbo, um escambo e dois palitos____um apito e o guarda Belo! Eu corro, eu subo a ladeira, escorrego na ribanceira e me faço broto de bananeira ( yés, nós temos banana!) e a puta que o pariu acende as luzes feito um Zeppelin apocalíptico e chove sobre nós o mijo sagrado de cada dia. E a cidade adormecida entre chitas e tafetás emite sons graves e agudos e padece num orgasmo transcendental pra renascer colorida entre peidos, merdas e mijos e o pão nosso de cada dia - amém!
Poemas e arte da poeta, artista visual & blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui.

O cinema de Godard aqui e aqui
A literatura de Heloneida Studart aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora e arquiteta Adelina Nishiyama.
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...