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quarta-feira, junho 12, 2019

MURILO MENDES, MANABO SHIMOKAWA, HISTORIA DAS MULHERES & CARTA DE JUNHO


CARTA DE JUNHO - Tudo se pode dizer e é muito cedo, eu sei, escolhi na encruzilhada e às duras penas fiz o que pude para seguir a esperança e enfrentar outras possíveis opções perdidas depois de choros e risos, a renunciar o que passará como antes passou e agora, a dor coagulada dos recomeços. Tudo passa. Não há como dizer outra coisa na banalidade dos que pensam que o instante é eterno e que hoje será para sempre, tudo tão provisório onde vivo tal e qual a hebetude do presente inumano, o fracasso do ocidente e a derrocada da humanidade na glória dos vencedores. Tudo passará. Quanto custa perdas e ganhos no semblante exposto ao abandono e aos gestos repetidos confinados à angustiante hipocrisia, pouco ou quase nada sabe, porque acreditei pulando num pé só pelos infernos. Foi preciso dar fé de tantos dilúvios, não foram poucos os naufrágios e o céu caiu um tanto de vezes com furiosas borrascas para o desastre do dia, quando pervertido pela nódoa do exílio de um mundo com a frase tentadora da infâmia e louros, vi o que pegou carona na correnteza, a vida no relógio para decadência e malogro. Mas não, sou dessas nascentes manhãs: o passado é o poema do presente inventando amanhãs. Só preciso refazer a mim e a vida, a metamorfose e a surpresa, não há tempo a perder, eu já vou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A história das mulheres teve o seu inicio no movimento feminista da década de 1960, a partir das manifestações inflamadas das mulheres que lutavam por seus direitos de igualdade no mercado de trabalho, na vida sexual, na sociedade. [...] Atualmente, a história das mulheres tem cedido espaço, com frequência, aos estudos de Gênero, os quais surgiram como proposta de se estudar um conjunto de categorias que apresentam conexões com os diferentes papeis sociais que, no entanto, são convencionais e arbitrários, variando de uma cultura à outra. O estudo gênero, diferente da história das mulheres, engloba tanto o masculino quanto o feminino, como estes se relacionam, o que se tornou norma e o que é imposto, e como esse conjunto todo varia de uma cultura para outra. Lembrando que, além de ser o Gênero um elemento constitutivo de relações sociais, é uma forma primeira de significar relações de poder. [...].
Trechos de As rainhas de Amarna, extraídos da obra Nefertiti: sacerdotisa, deusa e faraó (Madras, 2012), da historiadora Anna Cristina Ferreira de Souza. Veja mais aqui e aqui.

A MULHER DOS CABELOS DE OURO
Era uma vez uma mulher lindíssima, mas muito estranha, de longos cabelos dourados, finos como fios de ouro. Ela era pobre e não tinha nem pai nem mãe. Morava sozinha no bosque e tecia num tear feito de galhos de nogueira- preta. Um brutamontes, que era filho do carvoeiro, tentou forçá-la a se casar com ele, e ela, numa tentativa para se livrar dele, lhe deu uma mecha de cabelos dourados. Ele, no entanto, não sabia ou não se importou em saber se o ouro que ela lhe dera tinha valor monetário ou espiritual. Assim, quando ele tentou trocar o cabelo por mercadorias no mercado, as pessoas zombaram dele e o consideraram louco. Furioso, ele voltou à noite à cabana da mulher, matou-a com suas próprias mãos e enterrou o corpo junto ao rio. Por muito tempo, ninguém notou a ausência dela. Ninguém perguntava por sua casa, nem por sua saúde. Na sua cova, porém, os cabelos dourados não paravam de crescer. A linda cabeleira abriu o solo negro para subir em curvas e espirais e foi crescendo cada vez mais, em arcos e volteios, crescendo até que sua cova se cobrisse de ondulantes juncos dourados. Uns pastores cortaram os juncos anelados para fazer flautas e, quando foram tocá-las, as flautinhas começaram a cantar sem parar: Aqui jaz a mulher dos cabelos dourados / assassinada e enterrada, / morta pelo filho do carvoeiro / porque tinha vontade de viver. E foi assim que o homem que havia tirado a vida da mulher dos cabelos dourados foi descoberto e levado à justiça para que quem vive nos bosques selvagens do mundo, como nós vivemos, pudesse mais uma vez estar em segurança.
Extraído da obra Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Rocco, 1994), da escritora e psicóloga Clarissa Pinkola Estés. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Pela primeira vez dancei descalça e percebi que era assim. Eu fui atraída pelo fato da liberdade de expressão. No balé, você desempenha um papel. Você é talvez uma princesa, um rei, um palhaço... E a história é uma lei de ferro, escrita por Shakespeare, ou outra pessoa há séculos atrás. Mas na dança moderna, você dança a si mesmo. Você construiu a história da arte, não seguindo a história. Nós dançamos para espelhar a era em que vivemos agora. Em vez de um espartilho, estamos nus. Em vez de sapatos de dedo, estamos descalças. Eu continuo vivendo neste planeta pensando que (talvez) morra amanhã. Quem disse que a morte é algo para se ter medo? Eu estarei lá para abraçar e sorrir.
A arte da bailarina, modelo & artista performática japonesa Manabo Shimokawa. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE MURILO MENDES
Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
A obra do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


sexta-feira, fevereiro 15, 2019

MURILO MENDES, CARLA SALAZAR, IRENA SENDLER, MATA DE PERNAMBUCO & OUTRA PARA NÃO DIZER NADA


OUTRA PARA NÃO DIZER NADA - Tantos caminhos percorridos e o arrastado de malas deram por perdidas viagens, desencontros de goteiras do teto pingando na cabeça e empoçando o piso escorregadio para desastradas venturas. Quantos meses de chuvas e de sol, a quentura do pulso ao peito para tudo e a frieza das portas e fisionomias. Das tentativas o alvo, a mira e o atoleiro: no balanço das águas só se pode nadar, não há quem se segure de pé. Quem sabe pra onde o dedo alheio no gatilho, não há de ser leso de ficar ali feito imã, plantado no meio de campo, se para escapar tem que estalar os dedos e tomar pé da situação, serei um garrancho qualquer na caligrafia de Deus, então. Mas se falo no escuro, teor do anonimato: se fosse para todos seria premiado, um de cada vez, todos; mas não, a implicância dos sonâmbulos tira vantagem de tudo, se ajeita como pode e nem adianta vinte e quatro horas de vigília se às quedas quarenta e oito vezes o aprendizado de dias e noites que se foram para nunca mais. Nem adianta vinte e quatro sonhos se eram apenas um dia a cada dia, refeitos tantas quantas vezes diante da boa vontade de se aprumar para vida e muita má vontade de sobra na má-fé para que nada desse certo nem fosse feito. Dos caminhos percorridos, lições de sobra do cabelo em pé e frio na barriga com as espalhadas nas curvas e as sobradas de nunca chegar a lugar algum, guardando no quengo e toitiço uma após outra cada lapada da vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] índices pouco usuais de concentração fundiária refletem-se em precárias condições de acesso a terra e asseguram às usinas, principalmente, uma situação de quase monopolistas controladores da propriedade do solo, donde derivam relações econômicas e sociais bastante assimétricas. Por outro lado, vale observar que diante do elevado nível de endividamento das usinas para com os bancos oficiais, atualmente existentes, esse elevado índice de concentração de terras entre as usinas pode facilitar, por mais paradoxal que seja, um processo de negociação de dívidas em troca de terras para fins de reforma agrária. [...] Afora isso, boa parte das usinas de açúcar e álcool apresentam hoje problemas de endividamento que já levaram ao fechamento de algumas delas e impedem a recuperação de outras tantas.
Trechos extraídos da publicação Zona da Mata de Pernambuco; estudo de alternativas de geração de emprego e renda no meio urbano (Sebrae/Série Reflexões sobre a Zona da Mata, 1995), coordenado por João Policarpo Rodrigues de Lima, Abraham Benzaquem Sicsú, Osmil Torres Halindo Filho, José Biondi Ney da Silva e Maria Amália Albuquerque Almeida. Veja mais aqui.

A POESIA DE MURILO MENDES
UMA MULHER – Ela estava no círculo familiar como as outras, / folheando um livro de gravuras: / a noite nos cercava com seus abismos azuis / e a ideia de quase uma floresta próxima. / Alguém acendeu um candeeiro de petróleo, / as pessoas presentes recuaram no tempo. / Ela se levantou para abrir uma vidraça, / e muito branca, toda vestida de preto, / seus movimentos ao mesmo tempo lentos e velozes / fizeram nascer um começo de dançarina ou de gaivota, / hélices mexendo, mãos a correr no teclado. / Quando sentou-se era outra vez a mulher.
MULHER – Mulher / ora opaca ora translúcida / submarina ou vegetal / assumes todas as formas, / desposas o movimento. / Sinal de contradição / posto um dia neste mundo / tu és o quinto elemento / agregado pelo poeta / que te ama e te assimila / e é bebido por ti. / Tu és na verdade, mulher, / construção e destruição.
CERTA MULHER – A linha do horizonte / passa pelos teus cílios / tua fonte a inquietação murmura / a alta lâmpada do templo balançou / porque não brincaste nunca mais com o arco / nos lânguidos terraços / a onda vai e volta / na esperança de te ver / o trevo de quatro folhas / achou-te. / Estrelas gêmeas suspiram.
A MULHER ANÔNIMA – Lembra-te daquela mulher / que um dia te acenou do alto de uma varanda, / daquela forma admirável mas sem nome / que uma tarde te disse adeus / enquanto o automóvel parou um minuto na estrada. / Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples / que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço / e que certamente nunca mais tornarás a ver: / lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti / e sê-lhe fiel até o último dia da tua vida.
Poemas extraídos da obra As metamorfoses (Record, 2002), do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da ilustradora chilena Carla Salazar
Veja mais aquiaqui.
&
As ações da enfermeira e ativista polaca Irena Sendler (1910-2008) aqui.
&
muito mais na Agenda aqui.


segunda-feira, agosto 13, 2018

GENET, MURILO MENDES, CUATEMOC, MILTON SANTOS, BETO GUEDES & LEONOR FINI


O AMANHÃ DE ONTEM – Imagem: da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). - Uma mulher amamenta, alguns vão, outros voltam. A cena aurática: dela o olhar perplexo no vazio como se um dedo apontasse oblíquo o fosso da existência. A alegoria da família desfeita, marido perdido, só o chão e a roupa do couro com seus lençóis de marquises suspensas de lua estrelada, fronha de cimento, travesseiro de concreto. Ela olha inquieta pros lados e vacila um tanto assustada como quem perde o canavial da infância, coxas de fora, seios fartos na fome. Quase vejo sua alma e se recompõe alisando o cabelo em desalinho, enquanto a criança inquieta ao colo desarruma suas vestes e mais seduz sem conseguir esconder com seu vestido curtinho de alça, simples e solto na carne alva, a sorrir sem jeito com seus olhos intensos a olhares atentos, face afogueada, quase tão plena quanto desolada. Quem passa logo vê, é o que lhe dão na flor da idade, se embaixo de uma ponte ou de um viaduto com as hortas paternas devastadas, o amparo árido materno, o chão batido pra pisar o asfalto, o coração condoído. Ninguém sabe sua dor, se presente ou futura, apenas uma mãe naquela hora e a vida na lágrima inupta, escapada a deslizar aos lábios salientes e entreabertos. Não há o que fazer nem como pedir, sem ponto de parada ou partida, a sofrer por quilômetros a língua no choro, a cabeça nas paisagens de nuvens e pensamentos superpostos que se confundem ao cenário cruel. Ela lá, no aleitamento, muitos se foram, outros voltaram. A espera de nada, condução inexistente, a chuva sem guarida, a sala das horas a céu aberto e espelhado. Não sabe das margens, só uma pra ficar e do outro lado, tudo acontece. À distância, ela compõe a brumosa paisagem e continua a dar de mamar. Todos sabem para onde vão, ela parece não ter para onde ir nem ficar. Ela me vê como se dissesse: se houver amanhã será ontem. Eu sigo e ela, não sei até quando, na memória. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do cantor, compositor e multi-instrumentista Beto Guedes: Ao vivo, Contos da lua vaga, Dias de Paz e Outros clássicos ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Aqui eu, Cacique Guaicaipuro Cuatemoc, vim encontrar aqueles que participam da reunião. Aqui eu, descendente dos que povoaram a América há quarenta mil anos, vim encontrar os que a encontraram há somente quinhentos anos. Aqui pois, nos encontramos todos. Sabemos o que somos, e é o bastante. Nunca pretendemos outra coisa. O irmão aduaneiro europeu me pede papel escrito com visto para poder descobrir aos que me descobriram. O irmão usurário europeu me pede o pagamento de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei a vender-me. O irmão rábula europeu me explica que toda dívida se paga com bens ainda que seja vendendo seres humanos e países inteiros sem pedir-lhes consentimento. Eu os vou descobrindo. Também posso reclamar pagamentos e também posso reclamar juros. Consta no Archivo de Índias, papel sobre papel, recibo sobre recibo e assinatura sobre assinatura, que somente entre os anos 1503 e 1660 chegaram a San Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América. Saque? Não acredito! Porque seria pensar que os irmãos cristãos pecaram em seu Sétimo Mandamento. Espoliação? Guarde-me Tanatzin de que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue de seu irmão! Genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomé de las Casas, que qualificam o encontro como de destruição das índias, ou a radicais como Arturo Uslar Pietri, que afirma que o avanço do capitalismo e da atual civilização europeia se deve à inundação de metais preciosos! Não! Esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata devem ser considerados como o primeiro de muitos outros empréstimos amigáveis da América, destinado ao desenvolvimento da Europa. O contrário seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito não só de exigir a devolução imediata, mas também a indenização pelas destruições e prejuízos. Não Eu, Guaicaipuro Cuatemoc, prefiro pensar na menos ofensiva destas hipóteses. Tão fabulosa exportação de capitais não foram mais que o início de um plano ‘Marshalltesuma’, para garantir a reconstrução da bárbara Europa, arruinada por suas deploráveis guerras contra os cultos muçulmanos, criadores da álgebra, da poligamia, do banho cotidiano e outras conquistas da civilização. Por isso, ao celebrar o Quinto Centenário do Empréstimo, poderemos perguntar-nos: Os irmãos europeus fizeram uso racional, responsável ou pelo menos produtivo dos fundos tão generosamente adiantados pelo Fundo Indo Americano Internacional? Lastimamos dizer que não. Estrategicamente, o dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em armadas invencíveis, em terceiros reichs e outras formas de extermínio mútuo, sem outro destino que terminar ocupados pelas tropas gringas da OTAN, como no Panamá, mas sem canal. Financeiramente, têm sido incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de cancelar o capital e seus fundos, quanto de tornarem-se independentes das rendas líquidas, das matérias primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo. Este deplorável quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e os juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus as vis e sanguinárias taxas de 20 e até 30 por cento de juros, que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo. Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos adiantados, mais o módico juros fixo de 10 por cento, acumulado somente durante os últimos 300 anos, com 200 anos de graça. Sobre esta base, e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, informamos aos descobridores que nos devem, como primeiro pagamento de sua dívida, uma massa de 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambos valores elevados à potência de 300. Isto é, um número para cuja expressão total, seriam necessários mais de 300 algarismos, e que supera amplamente o peso total do planeta Terra. Muito pesados são esses blocos de ouro e prata. Quanto pesariam, calculados em sangue? Alegar que a Europa, em meio milênio, não pode gerar riquezas suficientes para cancelar esse módico juro, seria tanto como admitir seu absoluto fracasso financeiro e/ou a demencial irracionalidade das bases do capitalismo. Tais questões metafísicas, desde logo, não inquietam os Indo Americanos. Mas exigimos sim a assinatura de uma Carta de Intenção que discipline os povos devedores do Velho Continente, e que os obrigue a cumprir seus compromissos mediante uma privatização ou reconversão da Europa, que permita que a nos entregue inteira, como primeiro pagamento da dívida histórica. Discurso do embaixador mexicano de descendência indígena Guaicaípuro Cuatemoc, na conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul e Caribe, em maio de 2002 em Madri, Espanha.

HERANÇA HISTÓRICA – [...] O Crescimento urbano e as modificações no tipo de atividades dominantes que o acompanharam traduzindo-se na paisagem por destruições, justaposições ou novas utilizações no habitat e no patrimônio mobiliário anteriores [...] Realizados de forma incompleta, as destruições deixaram subsistir testemunhos da cidade primitiva [...] Na maioria dos casos porém, foi instituída uma separação em “bairros históricos”; a separação foi tanto mais forte quanto mais interviram fatores políticos, étnicos ou econômicos, para impor a diferenciação [...]. Trecho extraído da obra Manual da geografia urbana (Hucitec, 1981), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001). Veja mais aqui.

O ATELIÊ DE GIACOMETTI - Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, senão terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição humana, a esse agenciamento inelutável, que devemos a nostalgia de uma civilização que procuraria se aventurar fora do que é mensurável. [...]. Trecho extraído da obra O ateliê de Giacometti (Cosaic & Naify, 2000), do controverso escritor e dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), Veja mais aqui.

TRÊS POEMASSOMOS TODOS POETAS - Assisto em mim a um desdobrar de planos. / as mãos vêem, os olhos ouvem, o cérebro se move, / A luz desce das origens através dos tempos / E caminha desde já / Na frente dos meus sucessores. / Companheiro, / Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma. / Sou todos e sou um, / Sou responsável pela lepra do leproso e pela órbita vazia do cego, / Pelos gritos isolados que não entraram no coro. / Sou responsável pelas auroras que não se levantam / E pela angústia que cresce dia a dia. A MÃE DO PRIMEIRO FILHO - Carmem fica matutando / no seu corpo já passado. / — Até à volta, meu seio / De mil novecentos e doze. / Adeus, minha perna linda / De mil novecentos e quinze. / Quando eu estava no colégio / Meu corpo era bem diferente. / Quando acabei o namoro / Meu corpo era bem diferente. / Quando um dia me casei / Meu corpo era bem diferente. / Nunca mais eu hei de ver / Meus quadris do ano passado... / A tarde já madurou / E Carmem fica pensando. GILDA - Não ponha o nome de Gilda / na sua filha, coitada, / Se tem filha pra nascer / Ou filha pra batisar. / Minha mãe se chama Gilda, / Não se casou com meu pai. / Sempre lhe sobra desgraça, / Não tem tempo de escolher. / Também eu me chamo Gilda, / E, pra dizer a verdade / Sou pouco mais infeliz. / Sou menos do que mulher, / Sou uma mulher qualquer. / Ando à-toa pelo mundo. / Sem força pra me matar. / Minha filha é também Gilda, / Pro costume não perder / É casada com o espelho / E amigada com o José. / Qualquer dia Gilda foge / Ou se mata em Paquetá / Com José ou sem José. / Já comprei lenço de renda / Pra chorar com mais apuro / E aos jornais telefonei. / Se Gilda enfim não morrer, / Se Gilda tiver uma filha / Não põe o nome de Gilda, / Na menina, que não deixo. / Quem ganha o nome de Gilda / Vira Gilda sem querer. / Não ponha o nome de Gilda / No corpo de uma mulher. Poemas do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, designer, ilustradora e autora surrealista argentina Leonor Fini (1907-1996). Veja mais aquiaqui.

AGENDA
Festival Internacional de Compositores – dias 15 a 20 de Outubro,  Solar da Marquesa Av. Joaquim Nabuco, 5, Largo do Varadouro, Olinda & muito mais na Agenda aqui.
&
Marquinhos Cabral: desde menino solto na buraqueira, o pensamento de Jiddu Krishnamurti & Celso Furtado, o mito de Joseph Campbell, As amizades de Barbosa Lima Sobrinho, a literatura de Millôr Fernandes, Rio Una & Jorge de Altinho aqui.


quinta-feira, janeiro 29, 2009

EINSTEIN, ADALGISA NERY, MURILO MENDES, ERIC BENTLEY, JEFFREY WALL & MUSA TATARITARITATÁ

A arte do artista canadense Jeffrey Wall.

LITERÓTICA: ESSA CARNE – Essa carne é o meu repasto: glória e ressurreição. É onde eu me satisfaço e faço história de ódio e paixão. É nessa carne que eu vou do céu ao inferno, de verão a inverno só para me salvar. É nela a minha eucaristia com nossa sintonia e a vida fora do ar. Essa carne é a minha crença: divina presença de sagrado louvor. Porque ela é minha doce bailarina que me salva e ilumina e me esconjura sem nexo crucificada em meu sexo e me faz qualquer um. É meu desjejum, santa profanada que pira agarrada em mim e me faz seu senhor, assim, seu penhor para que eu entenda e receba a oferenda na pira do amor. VIAGEM - É neste corpo que sou um dos irmãos Montgolfer pelos confins das galáxias com o teodolito no alvo, maior rolê por ai. É neste corpo que navego todas as águas de mares e rios, todos os sabores apetecíveis dos pomares e culturas do paladar, todas as terras de todos os continentes e todos os recantos planetários. É neste corpo que vôo na direção do vento de todas as grandes alturas das atmosferas, de todas as camadas superiores do universo e de todas as camadas inferiores da terra. É neste corpo que eu vivo porque significa a vida para mim. FESTA - Bebo do seu caldo toda vez que minha língua insone lambe sua alma entre as pernas com os sabores de vida. E ela madeira que me faz seu cupim se espreme nua como quem canta na voz de Joyce todos os seus desejos, como quem levita insaciável trepadeira, que enlouquece como uma Rita Lee fuviando no cio e eu descascando a Maria-sem-vergonha que se mija toda no orvalho da noite e que me banha com sua baba iluminando o meu sexo que se enfia pelas corredeiras e curvas e quebradas de sua nudez em festa para o meu prazer. E errante afoito eu vou por suas ruas, montes, dorso, púbis e infernos e sou mais que deus no sacrifício do seu ventre anímico. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


DITOS & DESDITOS - Os esforços da maioria dos seres humanos se concentram na luta pelo pão de cada dia, e em sua maioria, graças à fortuna ou a algum presente especial, mesmo aliviados dessa luta, são em sua grande parte absorvidos pelo desejo de melhorar ainda mais suas condições mundanas. Há, felizmente, uma minoria composta por aqueles que reconhecem, desde cedo em suas vidas, que as mais bonitas e gratificantes experiências humanas não são derivadas exteriormente, mas sim vinculadas aos próprios sentimentos, pensamentos e ações dos indivíduos. Os verdadeiros artistas, pesquisadores e pensadores sempre foram pessoas desse tipo. No entanto, discretamente, a vida desses indivíduos segue seu curso e os frutos de seus esforços são as contribuições mais valiosas que podem deixar como legados aos seus sucessores. Pensamento do físico teórico alemão Albert Einstein (1879-1955). Veja mais aqui e aqui.

O TEATRO ENGAJADO – […] Se alguém realmente perdeu a esperança, ele não estaria disposto a dizer isso. A literatura lida com a moralidade, mas não necessariamente, não como literatura, ajuda você a ser mais moral, seja por preceito ou exemplo. Isso torna você mais consciente. O que quer dizer que isso torna você mais humano, tornando a vida mais difícil, não menos. Quando você se torna mais consciente, a área da escolha moral é ampliada. Você pode ser um homem melhor; você também pode ser pior. Literatura não vai determinar qual. Não equivale nem a graça nem as boas obras. [...] Nenhum exército pode suportar a força de uma idéia cuja hora chegou. A nossa era de substitutos: em vez da linguagem, temos o jargão: em vez de princípios, slogans e, em vez de idéias verdadeiras, idéias brilhantes. Nossa é a era dos substitutos: em vez da linguagem, temos os jargões; no lugar de princípios, slogans; e em vez de ideias reais, ideias brilhantes. [...]. Trecho extraído da obra O teatro engajado (Zahar, 1969), do professor, tradutor, escritor, editor e crítico de teatro estadunidense Eric Bentley.

VINTE E DOIS MENOS UM – [...] Quando ficou inteiramente só, começou a sentir uma espécie de presença e domínio da morta. Ouviu nitidamente sua voz repetindo os argumentos de Lídia. O desenho do corpo de Ágata plasmava-se nas paredes, na cama, no chão e, quando Susana olhou para o espaço através da janela aberta, em vez de reparar no céu estrelado, percebeu Ágata, deitada, com a cabeça esfacelada e as pernas nuas. [...] Falar alto ou gargalhar é a mesma coisa. É manifestação de animalidade que a minha natureza não suporta. Vocês conhecem a minha fascinação pelas mulheres. Nada para mim tem um poder de atração maior do que uma mulher. Porém a mulher mais linda, a mais perfeita, a mais fascinante, falando alto ou gargalhando, faz crescer em mim um ímpeto monstruoso e sinto que sou capaz de abrir com as mãos o seu pescoço. Fico desvairado; é uma repulsa incontida. Só os animais se expressam com alarido, só as criaturas desclassificadas, moral e espiritualmente, falam aos gritos e riem com a garganta. [...]. Trechos extraídos da obra 22 menos 1 (Expressão e Cultura, 1972), da poeta e jornalista do Modernismo brasileiro, Adalgisa Nery (1905-1980). Veja mais aqui.

POEMA DE FÃ - Não bebo álcool, não tomo ópio nem éter,/ Sou embriagado de ti e por ti./ Mil dedos me apontam nas ruas:/ Eis o homem que é fanático por uma mulher./ Tua ternura e tua crueldade são iguais diante de mim/ Porque eu amo tudo o que vem de ti./ Amo-te na tua miséria e na tua glória/  E te amaria mais ainda se sofresse muito mais./ Caíste em fogo na minha vida de rebelado./ Sou insensível ao tempo – porque tu existes./ Eu sou fanático de ti,/ Sou fanático de todos os detalhes da tua biografia,/ Da tua graça, do teu espírito, do aparelhamento da tua vida,/ De tu em todas as idades da tua vida./ Eu quisera ser uma unidade contigo/ E me extinguir violentamente contigo na febre da minha, da tua, da nossa Poesia./ Sou teu fã desde o princípio e para toda a eternidade./ Em verdade o poeta é o maior fã de tua musa. Poema do poeta e prosador do Surrealismo brasileiro, Murilo Mendes (1901-1975), escrito em 1954, dedicado à paixão do poeta pela escritora Adalgisa Nery. Veja mais aqui.

 A arte do artista canadense Jeffrey Wall.


Gentamiga,
Deu a maior zonzeira a apuração dos votos da Musa Tataritaritatá 2008Foi mesmo. Tudo começou quando a comissão organizadora – leia-se: eu -, resolveu convocar a comissão julgadora – uma verdadeira banca examinadora com os maiores experts em matéria de mulher -, para a confirmação dos 11 mil 463 votos e meio – este último foi o voto declarado do Afredo Bocoió que por ser meio homem só vale a metade. A colenda banca examinadora fez formal exigência de determinado local para a devida apuração: praia do litoral alagoano. - Lasquei-me! -, aduzi logo. Pois bem, numa dessas paradisíacas praias de Maceió, juntei a mundiça toda que ficou aboletada e pronta para sacramentar os mais esperados e badalados resultados com as vencedoras do certame. A coisa vai mais ou menos encaminhada quando de repente surge, do inopinado, para embucetar tudo, essa santa exuberância! Taí a primeira foto tirada em flagrante:
(Foto enviada por mail sem identificação da autoria pelo remetente)
- Luiz! Luiz! Luiz! Luiz! -, era ela procurando por mim, evidentemente.
Mas a turma não deixou por menos, quando todos armaram a confusão:
- Eu!
- Eu!
- Eu
- Eueueueueueueueueueueueueueueueuuuuuuu!!!
Danou-se tudo. Isso é que é desmantelo! Num é que um avião desse pousou no meu quintalzinho? E ela:
- Luiz Alberto Machado, por favor!
(Foto enviada por mail sem identificação da autoria).
Benzodeus.
Diga se um desembrulhado desse não é de endoidar!
Santa reboculosa.
Eu quase tenho um troço sem conseguir concatenar nada, balbuciei:
- Sim?!Hum?!
- Luiz, qual o resultado do concurso da Musa Tataritaritatá 2008?
Olha só: se eu estava azoadamente zarolho com tanta exuberância, nem a banca examinadora que dizia coisa com coisa.
Busuntaram na hora.
Ah, não!
Eu mesmo virei bocó desde menininho sem saber o que nem tartamudear e balbuciei no meio de óhs, oxes e ihs:
- Éeeeeee.....
A baba descia pescoço abaixo.
A minha só não, virou danação geral.
Tinha nego que até já havia armado o barraco e tava todo serelepe para se aproxegar na maior folgança.
Foi que a turma da segurança da jornalista começou a dar um chega-pra-lá nos mais afoitos, permitindo apenas a minha presença na redondeza desse monumento todo.
(Foto enviada por mail sem identificação da autoria).
Valei-me, minha santa entronchada da peiada boa!
Quanto mais ela perguntava, mais eu perdia nos sim e não, pois é, isso aí, foi, então e sacumé?
Negócio desembrulhado desse não é pra menos, né?
Ela ali interrogativamente lindíssima e eu todo abiscoitado com aquilo tudo.
Nem lembro como foi que findou.
Só pergunto: essa vale ou não vale como Musa Tataritaritatá???
Taí.
Depois dessa, agora, o resultado só na semana que vem - se não chover canivetes! Vamonessa.



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