Mostrando postagens com marcador Herta Müller. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Herta Müller. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, agosto 17, 2020

DRUMMOND, NAIPAUL, HERTA MÜLLER, ÓSCAR RIBAS, JUN IZUMI, KARA WALKER & ZÉ DANTAS


DIÁRIO DO GENOCÍDIO NO FECAMEPA – UMA: SABE AQUELA... DE OLORES & ODORES - O meu país é das flores mais cheirosas e dos fedores mais catingosos: entre oásis e misérias. Comigo, o que nos reserva o desenrolar dos acontecimentos: se das orquídeas aos lábios delicados das mulheres, das bromélias, ipês e caliandras, das begônias, camélias e alamandas, dos líros, flor-de-maio e jacarandás, flora colorida e perfumada; se das inhacas as dilapidações e trambiques, as assombrações das lêmures de colarinho-e-gravata, a fé sectária e a hipocrisia, tantas escusas intenções na anamorfose que faz do meu país o reino da picaretagem e tresloucado desgoverno. Ouço Naipaul: Como se, naquele mundo de conflitos que havíamos criado, fosse possível simplesmente pular fora e voltar a ordem do passado! O meu coração se espreme com a estupidez dos que não enxergam um palmo além do nariz. Logo o conselho de Herta Müller como alento: Para combater a morte não precisamos de muito da vida, apenas precisamos que ela ainda não esteja acabada. Assim seja e viva todos nós!

DOIS AROMAS DE PAZ NO MEIO DE TUDO ISSO – Entre o isolamento e a tragédia, a inquietação de saber como será depois que tudo passar, como será o beijo, o sexo, o amor, o afeto, se a normose é o disfarce do que será real, se nada mais será como antes. Entre a aflição e tremores, de longe os olores da música: os solfejos pianísticos da japonesa Jun Izumi: Vivo com o lema: Hoje, mas hoje. E o que ela expressa me soa como um verso de Óscar Ribas: Ao luar ou à chama de uma fogueira, não apenas as crianças sunguilam, seroam, mas também os adultos, em narrações de estórias e adivinhas. Quem me dera embalado numa fábula de sobreviver.

TRÊS ODORES & A REPUGNÂNCIA - O que nos acomete no meio da fetidez dos incompetentes, dos que desgovernam e dos que são indiferentes, já não é mais um risco: o meu país desmorona e quantas notícias-crimes serão necessárias, já não sei, resta desmitologizar tudo que nos embota e empala aqui e agora, na junção de muitas estradas. Tenho a sorte de KaraWalker me dizer entre amável e cética: Não há diploma no mundo que o declare como um artista. Não é como se tornar um médico ou algo assim. Você pode se declarar um artista e então descobrir como ser um artista. Sim, eu sei, quero apenas contar histórias, tal Drummond: tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Até mais ver.

O NORDESTE DE ZÉ DANTAS
Seu doutô os nordestino têm muita gratidão / Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão / Mas doutô uma esmola a um homem qui é são / Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão / É por isso que pidimo proteção a vosmicê / Home pur nóis escuído para as rédias do pudê / Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê / Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê / Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage / Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage / Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage / Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage / Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão / Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação! / Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão / Como vê nosso distino mecê tem na vossa mão.
Vozes da seca, a arte do poeta, compositor, médico e folclorista Zé Dantas (José de Sousa Dantas Filho – 1921-1962), cujas canções alcançaram sucesso na voz de Luiz Gonzaga, clássicos do cancioneiro nordestino, retratando em suas letras os costumes do povo, as tradições culturais e o cotidiano de um pedaço do país esquecido pelo poder público. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

sexta-feira, agosto 17, 2018

PAUL & NUSCH ÉLUARD, TEILHARD DE CHARDIN, HERTA MÜLLER, RUBEM ALVES, JOÃO DONATO, ANA MENDIETA & SINCORÁ


OS MORTOS DE SINCORÁ - Imagem: da série Alma Silueta en Fuego (Silueta de Cenizas), da pintora, escultora, performer e vídeo artista cubana Ana Mendieta (1948–1985). - Para quem se perdeu mais de uma vez, outra não seria demais. Quantos descaminhos para quem se desviou de quase tudo, percalços de viés. Uma vida tão remoinhada que nem sei por que fui parar tão desorientado por ali, nem sei onde, quase nunca soube. Cochilo no átimo, acho, só sendo. Por conta disso, tinha de estar vigilante sempre, não pregar o olho, atento a tudo. Tantos umbrais, ah, a escuridão era minha, por isso tanto me perder. Até não saber nem onde me encontrar a esta hora. O que podia discernir era lá longe a barulhada das águas de rio entre montes elevados da cordilheira alcançando o céu. Uma bonita paisagem aparenta margear a serra, como se fosse uma mata revelando uma cidade invisível e abandonada, cujas árvores se me mostravam pessoas aventureiras que se extraviavam zanzando aos encontrões em dilatada peregrinação na busca das minas. Essa era a minha impressão, não sei se tonto sonhando com os olhos abertos, emboscadas de ocasião. Coincidia a um movimento intenso, transparente, em todas as direções, vultos aguerridos chocavam-se e a se digladiavam. Não era impressão minha apenas, havia vestígios de que algo se movia imperceptivelmente. Tinha certeza disso, pra meu temor. Quanto mais andava, mais me via retroceder. Sempre tive a sensação de que mesmo muito tendo feito, sequer saíra do lugar. Só o barulho dos Gecos-de-dedos-nus do Vanzolini rastejando pelo pedregulho. Era o que me assustava mais, dava a noção de pezunhado. Eu sabia que ali não podia ficar, mantinha a pisada cuidadosa entre dois morros, um caminho de pedras soltas que ecoava aos meus ouvidos. Tanto andei e quase exausto cheguei ao mirante, dali uma vasta povoação distante abaixo. Os vultos me seguiam, parece. Pelo menos havia sinal de vida real na localidade avistada. Segui entre campos viçosos das mais diversas vegetações entre escarpas, divisando o vale e cânions com suas encostas íngremes, segui pra lá, sempre em frente. Era longe, suor ensopando as vestes, ardendo os olhos, marcha determinada até visualizar os sobrados em ruínas às margens das largas ruas reviradas com seus quarteirões aos escombros, davam numa praça arruinada e ao centro uma extraordinária coluna de pedra a sustentar uma estátua de mulher nua enorme, a apontar para o arvoredo sombrio das águas do rio, que davam ao longe com rumorosa e caudalosa cachoeira. Não sei se era a minha imaginação pregando uma peça, sei que ali tudo encerrava profundo mistério. O abandono tomava conta, pra meu pavor. Invariavelmente eu ouvia vozes indistinguíveis entre tantas falas e gemidos, gritos e ganidos que passavam por mim sussurrando nomes como Cravada, Esbarrancado, Lapão, Calumbi, Morrão, Garapa, Sobrado, Veneno, Roncador, Rio Preto, Morro do Pai Inácio, Mucugê, Sincorá. Vozes assustadoras, sinistras. Isso me atemorizava porque parecia ostensivo conflito entre aqueles seres de outro mundo, que se golpeavam uns aos outros com ataques de kimberlitos, diamantes nos olhos brilhantes, corpos estirados e agonizantes no sopé das escarpas, algaravias. Não conseguia ver direito, pareciam imagens transparentes que atormentavam meus sentidos. Era um movimento macabro ao meu redor, e eu ignorado naquele fogo cruzado. Ao tentar sair daquela cilada, perceberam minha presença e todos se voltaram para mim que sequer conseguia vê-los direito. Previ a hostilidade, sem pernas pra correr nem onde me abrigar, fecharam na minha direção e desfaleci. De repente, um raio reverberou no ar, alguém abria caminho entre meus algozes. Era ela, a estátua da praça, viva e nua, a determinar que sustassem meus pavores. Foi o que pude identificar do seu ato. A sua brancura iluminava quase tudo, só dando pra ver sinais luminosos de olhos, mais nada. Do seu indicador novos raios atemorizaram os cruéis que retrocederam assustados, distanciavam-se e isso me aquietava. Ela virou-se pra mim e me estendeu a mão. Ao levantar-me quase sem fôlego, ela apontou para uma estrada distante e me encaminhou pra lá. O chão parecia entremeado por pedras de diamantes. Sentia um intenso ar ameaçador por todos os lados, a mão dela era minha segurança, levava-me como se fosse um farol a me guiar. Dava pra sentir os invasores avançando adiante sobre as pedras brilhantes do caminho escurecendo-o. Eu tropeçava e ela me mantinha em pé puxando-me para si. Levou horas essa via crucis quase interminável. Lá chegando, enfim, respirei fundo e pude vê-la melhor. Ela minguava de quase não ver-lhe as feições nem o corpo, quase se desmanchando na escuridão, dela restar apenas uma fagulha num buraco do chão. No instante de se despedir entre as labaredas, senti ouvi-la a mandar seguir, e sua longínqua voz a recitar os versos do poeta Fagundes Varela: Vá... Pelas imensas florestas que falam de Sincorá... PS: Recriação da lenda Sincorá, a cidade fantasma, recolhida da obra O rio São Francisco (Escolas Profissionais Salesianas, 1905), de Teodoro Sampaio. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, compositor e arranjador João Donato: Amazonas, Sambolero, Quem é quem & O piano & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] o que pode haver de mais revelador para a nossa Ciência Moderna é perceber que todo o precioso, todo o ativo, todo o progressivo originariamente contidos no retalho cósmico donde saiu o nosso mundo, se acha agora concentrado na ‘coroa’ de uma Noosfera [...] Para dar ao Homem o seu verdadeiro lugar na Natureza, não basta abrir nos quadros da Sistemática uma secção suplementar, mesmo uma Ordem, mesmo um Ramo mais. Pela hominização, apesar das insignificâncias do salto anatômico, uma nova Idade começa. A Terra ‘muda de pele’. Melhor ainda, encontra sua alma [...] Só o amor, porque só ele prende e junta os seres pelo mais fundo deles mesmos, é capaz - e isto é um fato da experiência cotidiana - de completar os seres enquanto seres, unindo-os [...]. Trechos extraídos da obra O fenômeno humano (Herder, 1965), do filósofo, paleontólogo e teólogo francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955). Veja mais aqui e aqui.

A CIÊNCIA & A VIDA - [...] Todas as vezes que uma teoria morre, tocam os sinos e escreve-se o obituário de um mundo, bem como todos os sacerdotes que o serviam: velhos cientistas – compreende-se que eles se recusem a se converter às teorias novas. Amores novos não combinam com a dignidade dos velhos. Será necessário que eles morram para que a nova teoria triunfe, queimando velhos manuais, mudando a linguagem, invadindo laboratórios, descrevendo novos mundos, construindo novos panteões... Não deveria ser assim se as teorias fossem neutras e se os métodos carregassem consigo a clareza das evidencias. Acontece que o desejo puro de saber é muito fraco diante do desejo impuro de viver. É do desejo que brota a resistência. Para que houvesse um cientista dócil perante as evidencias, seria necessário que seu intelecto tivesse sido castrado de sua capacidade de amar. Morram os fatos. Viva a teoria! [...]. Trecho extraído da obra Filosofia da ciência: introdução ao jogo e as suas regras (Loyola, 2000), do psicanalista, educador, teólogo e escritor Rubem Alves (1933-2014). Veja mais aqui e aqui.

O COMPROMISSO - [...] Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto. Sou convocada cada vez com maior freqüência: às dez em ponto na quinta, às dez em ponto no sábado, na quarta ou na segunda. Como se os anos fossem uma semana, fico imaginando que depois do fim de verão logo teremos outra vez inverno. No trajeto até o bonde os arbustos voltam a emergir através das cercas, com suas frutinhas brancas. Como botões de madrepérola costurados embaixo, talvez até terra adentro, ou como migalhas de pão. Para cabecinhas de pássaros com bicos tortos, as frutinhas são pequenas demais, mesmo assim penso em cabeças de pássaros brancos. E isso dá vertigem. Prefiro pensar em flocos de neve no capim, mas aí a gente se perde, e pensar em giz nos dá sono. O bonde não tem horários fixos. Penso que é ele que chega rumorejando, se não forem os choupos com suas folhas duras. Está chegando, o bonde, e hoje me levará logo. Estou decidida a deixar o velho de chapéu de palha embarcar na minha frente. Quando cheguei ele já estava na parada, sabe lá fazia quanto tempo. Não parece frágil, mas é magro como sua sombra, meio corcunda, e abatido. Não tem bunda para encher os fundilhos, nem quadris, só os joelhos marcam a calça. Mas se no exato momento em que a porta do bonde se abrir ele resolver escarrar no chão, eu embarco antes dele. Quase todos os assentos estão livres, ele os examina com o olhar e fica de pé. Como é que gente tão velha não fica cansada e insiste em ficar de pé mesmo quando se pode sentar. Às vezes, ouvimos os velhos dizerem: Já vamos ficar deitados tempo suficiente no cemitério. Mas nem estão pensando em morrer, e têm razão. Não há uma ordem fixa, jovens também morrem. Sempre que não preciso ficar de pé, eu me sento. Viajar sentado é como caminhar sentado. O homem me examina, é fácil perceber isso no carro vazio. Hoje estou sem vontade de conversar, senão perguntaria o que é que ele vê em mim. Nem se apercebe que seu olhar me incomoda. Lá fora passa metade da cidade, alternando-se entre árvores e casas. Dizem que gente de idade sente mais do que pessoas jovens. Talvez ele até perceba que hoje tenho na bolsa uma toalhinha de rosto e pasta de dentes, além de uma escova. Mas nada de lenço, pois não pretendo chorar. Paul nem percebeu como eu estava com medo de que hoje Albu pudesse me levar para a cela debaixo do seu gabinete. Eu não lhe disse nada; se acontecer, ele vai saber logo. O bonde anda devagar. O chapéu de palha do velho tem uma fita manchada, provavelmente de suor ou chuva. Como sempre, Albu vai me saudar com um beijo na mão molhado de cuspe. O major Albu pega minha mão nas pontas dos dedos e aperta tanto minhas unhas que quase solto um grito. Beija meus dedos com o lábio inferior, o superior fica livre para poder falar. Sempre beija minha mão do mesmo jeito, mas ao falar, cada vez diz uma coisa diferente: Ora, ora, hoje seus olhos estão inflamados. Parece que você está ficando com buço, meio cedo na sua idade. Ora, hoje a mãozinha está gelada, espero que não sejam problemas de circulação. Ora, ora, sua gengiva está murchando como se você fosse a sua avó. Minha avó não envelheceu, eu digo, ela nem teve tempo de perder os dentes. Albu deve saber o que aconteceu com os dentes de minha avó, por isso menciona o fato. Uma mulher sempre sabe como está sua aparência a cada dia. E que um beijo na mão, primeiro, não deve doer, segundo, não deve ser molhado, terceiro, deve ser dado nas costas da mão. Homens sabem ainda melhor do que mulheres como deve ser um beijo na mão, certamente também Albu. Toda a cabeça dele cheira a Avril, um perfume francês que meu sogro, o comunista de perfumaria, também usava. Nenhuma outra pessoa que conheço compraria esse perfume. No mercado negro custa mais do que um terno numa loja. Talvez se chame Setembro, mas eu sempre reconhecerei aquele odor amargo e fumacento de folhas queimando. Quando me sento junto da mesinha, Albu vê que esfrego os dedos na saia, não apenas para voltar a senti-los, mas também para limpar o cuspe. Ele revira seu anel de sinete e dá um sorrisinho. E daí, a gente pode limpar o cuspe, ele seca sozinho e não é venenoso. Todo mundo tem cuspe na boca. Tem gente que cospe na calçada e esfrega com o sapato porque nem mesmo na calçada se deveria cuspir. Albu certamente não cospe na calçada, ele banca o cavalheiro refinado nesta cidade onde não o conhecem. Minhas unhas doem, mas nunca ficaram roxas do seu aperto. Elas acabam se descontraindo, como acontece quando está muito frio e a gente entra num lugar quente. O veneno é eu acreditar que meu cérebro escorrega para a frente, sobre a cara. É humilhante, não há outra palavra, sentir-se descalça no corpo inteiro. Só que, quando a melhor palavra ainda não é suficiente, não se pode dizer muita coisa com palavras [...]. Trecho extraído da obra O compromisso (Globo, 2004), da escritora e ensaísta alemã Herta Müller, Prêmio Nobel de Literatura de 2009. Nesta obra, a autora faz uma espécie de retorno ao passado e às experiências pessoais para mostrar o mundo terrível de adversidades e humilhações que ela mesma viveu na Romênia comunista, um país tomado pelas trevas de um regime repressor, numa sociedade onde a oportunidade é limitada, a delação se tornou uma instituição extraoficial e a confiança no próximo é uma raridade escassa tanto quanto um prato de comida decente ou um belo sapato feminino. Ela descreve uma nação habitada por cidadãos que, em boa parte, recorrem ao álcool para suportar uma rotina burocratizada, onde nada de interessante parece acontecer. Veja mais aqui.

DOIS POEMASLIBERDADE - Nos meus cadernos de escola / Nesta carteira nas árvores / Nas areias e na neve / Escrevo teu nome / Em toda página lida / Em toda página branca / Pedra sangue papel cinza / Escrevo teu nome / Nas imagens redouradas / Na armadura dos guerreiros / E na coroa dos reis / Escrevo teu nome / Nas jungles e no deserto / Nos ninhos e nas giestas / No céu da minha infância / Escrevo teu nome / Nas maravilhas das noites / No pão branco de cada dia / Nas estações enlaçadas / Escrevo teu nome / Nos meus farrapos de azul / No tanque sol que mofou / No lago lua vivendo / Escrevo teu nome / Nas campinas do horizonte / Nas asas dos passarinhos / E no moinho das sombras / Escrevo teu nome / Em cada sopro de aurora / Na água do mar nos navios / Na serrania demente / Escrevo teu nome / Até na espuma das nuvens / No suor das tempestades / Na chuva insípida e espessa / Escrevo teu nome / Nas formas resplandecentes / Nos sinos das sete cores / E na física verdade / Escrevo teu nome / Nas veredas acordadas / E nos caminhos abertos / Nas praças que regurgitam / Escrevo teu nome / Na lâmpada que se acende / Na lâmpada que se apaga / Em minhas casas reunidas / Escrevo teu nome / No fruto partido em dois / de meu espelho e meu quarto / Na cama concha vazia / Escrevo teu nome / Em meu cão guloso e meigo / Em suas orelhas fitas / Em sua pata canhestra / Escrevo teu nome / No trampolim desta porta / Nos objetos familiares / Na língua do fogo puro / Escrevo teu nome / Em toda carne possuída / Na fronte de meus amigos / Em cada mão que se estende / Escrevo teu nome / Na vidraça das surpresas / Nos lábios que estão atentos / Bem acima do silêncio / Escrevo teu nome / Em meus refúgios destruídos / Em meus faróis desabados / Nas paredes do meu tédio / Escrevo teu nome / Na ausência sem mais desejos / Na solidão despojada / E nas escadas da morte / Escrevo teu nome / Na saúde recobrada / No perigo dissipado / Na esperança sem memórias / Escrevo teu nome / E ao poder de uma palavra / Recomeço minha vida / Nasci pra te conhecer / E te chamar / Liberdade. O ÊXTASE - Estou diante desta paisagem feminina / Como uma criança diante do fogo / Sorrindo vagamente de lágrimas nos olhos / Perante esta paisagem onde tudo me convulsiona / Onde espelhos se embaciam onde espelhos se iluminam / Refletindo dois corpos nus estação contra estação / Tenho tantas razões para me perder / Nesta terra sem caminhos e neste céu sem horizonte / Belas razões que ainda ontem ignorava / E nunca mais esquecerei / Belas chaves dos olhares chaves filhas de si-mesmas / Diante desta paisagem cuja natureza é minha / Diante do fogo o primeiro fogo / Boa razão dominante / Estrela identificada / E na terra e sob o céu fora do meu coração e no meu coração / Segundo botão primeira folha verde / Que o mar cobre com as suas asas / E no fim de tudo o sol vindo de nós / Estou diante desta paisagem feminina / Como um ramo mergulhado no fogo. Poemas do poeta francês Paul Éluard (1895-1952). Veja mais aqui.

A ARTE DE NUSH ÉLUARD
A artista surrealista e modelo francesa Nusch Éluard (Maria Benz - 1906-1946) foi musa dos poemas de Paul Éluard, bem como retratada por René Magritte, Pablo Picasso, Man Ray, Lee Miller, Salvador Dali, Joan Miró, Roland Penrose, Vítězslav Nezval,  Dora Maar e do escultor Fenosa, começou a atuar no teatro, revelando-se como atriz, acrobata e em números de hipnotismo. Informações recolhidas da obra Nusch: Retrato de uma musa do surrealismo (Nusch, Portrait d’une muse du Surréalisme - Le livre à la carte, 2010), da escritora francesa Chantal Vieuille
NUSCH NOS POEMAS DE PAUL ÉLUAR & IMAGEM DE MAN RAY
Por ti vou da luz até à luz / Do calor ao calor /É por ti que eu falo e continuas no centro / De tudo como um sol que consente à felicidade.
Recolhidos do livro Facile (GLM, 1935 ), poemas de Paul Éluard, fotografia de Man Ray e ilustrações de Pablo Picasso.

AGENDA
ELA NO FESTA – Ela (Empoderamento, Liberdade & Arte) no 60º Festa (Festival Santista de Teatro), 02 de setembro, 21hs – Praça dos Andradas – Centro – Santos – SP & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, escultora, performer e vídeo artista cubana Ana Mendieta (1948–1985).
Veja mais aqui.
&
A viagem da vida, O teatro de Hermilo Borba Filho, A sobrevivência de Immaculée Ilibagiza, A sexualidade de Rose Marie Muraro, a literatura de Marina Colasanti, a arte de Maria Bonomi, Meio Ambiente, Mestiçagem & Campesinato, Palmares de Luciano França, Mávio Alves & Rádio Cultura dos Palmares aqui.


segunda-feira, agosto 17, 2015

ELBA, HERTA, ARIETA, GARCIA-ROZA, ALTMAN, PSICODRAMA, ALBANI, PSICODRAMA & TABLOIDE NASCENTE!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NASCENTE – A edição nº 10, jan-fev/1998, do tabloide Nascente – dedicada à atriz Suzannah Boyle -, traz como editorial o meu poema O Sol Nasce Para Todos (Trâmite da Solidão. Nascente, 1992/2015). Na seção Bate Papo traz uma entrevista com Djavan. A matéria Recife: o domínio do frevo; A Excelência do Bom Gosto sobre o III Maceió Jazz Festival; uma homenagem à Barra Grande – AL, Uma história de Amor, de Francisco Ferreira Mendes (AL), e na seção Tabuletas, o episódio 3 das Proezas do Biritoaldo: Quem é bom já nasce troncho, apesar da água benta. Na seção registro traz a matéria O cálice da inspiração na terra do vinho, sobre o V Congresso Brasileiro de Poesia, com o V Encontro Latino-Americano de Casa de Poetas e II Mostra Euro-Americana de Poesia Visual, realizados na cidade de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul; a recepção do Re-Insacando a Poesia, Saco I, da Arte Vide/Verso (MG); Prazer Mortal – Çlições de Literatura Brasileira, de Enaura Quixabeira Rosa e Silva (EDUFAL); Escrevi para você, Subsídios sobre Padre Cícero, O Cangaço: ruinas de Jererau (Pequeno Romance) e Baú do Passado, de Aldemar Benevides (CE), a VII Antologia Del Secchi Literária Internacional, organizada por Roberto de Sasrro Del’Secchi (RJ), resultado do IV Concurso nacional de Poesia promovido pelo Notas Literárias, do poeta Ari Lins Pedrosa (AL), Abaretama: a sedução do guerreiro, do jornalista Fernando Vasconcelos (PR), o zine Eram os deuses zineastas? O Zine que é uma loucura, de Denio Alves (MG); o livro As aventuras do garoto, de Leonardo Pedrosa. Na seção Nascente Poético, poemas de Artur da Távola (RJ), Almandrade (BA), Ronaldo Cagiano (DF), Wilmar Antonio Carvalho (PE), Nilto Maciel (DF), Eno Tedoro Wanke (RJ), Leontino Filho (RN), Beatriz E. Chacon (RJ), Gilcia M. Neidart (SC), Belkis C. G. Barros (AL), Luiz Fernandes Silva (PB), Emanoel Fay (AL), Manoel Messuas Filho (AL), Lourdes Melo (MG), Lucila Milanese (SP), Tom (MH), Arita D. Petená (SP), Cecilia Fideli (SP), Magna Alice (MG), Abel B. Pereira (SC). Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Actéon métamorphosé en cerf, do pintor italiano Francesco Albani (1578-1660).


Curtindo o álbum Baioque (BMG, 1997) da cantora e atriz Elba Ramalho.
Há mil cantos no teu seio milumanoites milumamor
Ei-la jogando a sua voz agreste do leste no meu coração
Ei-la no sol que inaugura seu cabelo de guerra de terra & amor
E ela vem despertando furor minultima emoção milágrima
E eu me deliciando com seu jeito cantando o mundo & eu tocantando história de vaqueiro homenino de gente sem cor sem
E ela é um sonho de menina que dorme no quarto com cinturinha de pilão espiando o passado que dorme e os farrapos de esperança os beijos de antípodas e as ocasiões oh não!
Ela vem com seu cheiro matutino voz de língua afiada no meu sexo como o transe que se oferece à emoção ao alcance da mão & eu cantor derradeiro com a certeza do rio corrente armando revés no seu canto agora sim!
Ela vem dos teréns e com a urgência do amor o que significa pra mim a vida da minha fada madrinha.
(Elba, de Luiz Alberto Machado. Trâmite da Solidão. Nascente, 1992/2015)
Veja mais aquiaqui e aqui.

DA COSMOGÊNESE À BIOGÊNESE – O livro Do animal ao humano: uma leitura psicodramática (Ágora, 2007), do psiquiatra, professor e psicodramatista José Carlos Landini, trata sobre o lugar do psicodrama nas escolas psicoterápicas, a evolução humana, o lugar da espontaneidade, a tele-relação e papéis, instrumentos e técnicas, ego-auxiliar, protagonista ou emergente, palteia ou grupo, cenário ou placo, contextos terapêuticos, contexto social e familiar, contexto dramático, aquecimento, dramatização, compartilhamento, bases teóricas, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] No pensamento científico, calcuila-se que a cosmogenese é um fenômeno acontecido há vinte bilhões de anos. Este é o tempo desta formidável aventura. A criação ou o surgimento do universo desafia a mente humana. Do polo místico-religioso ao materialista, gravitam diversas matrizes cienticas e pseudocientíficas. Da concepção mecanicista de Neston, com o seu relógio a funcionar de maneira fatalisticamente previsível, às concepções modernas, antimecanicistas e probabilísticas, existem várias formas de explicação e compreensão do universo. De uma máquina, sabe-se, com antecedência, o que ela pode oferecer. Sua estrutura indica suas propriedades. Não se espera de um gerador de eletricidade outra coisa senão a geração de eletricidade. [...] A biogênese é um fenômeno que surgiu, mas poderia não ter surgido? [...] Pela ótica da física, o mundo da matéria caracteriza-se pela simplificação e não pela crescente complexificação. É assim que a essência da matéria viva é a qualidade de ser autogenerativa. A vida gera vida, sendo sintrópica. Já a matéria não-viva é entrópica. O conceito de vida está ligado a ideia de auto-organização e crescente complexidade. Sendo assim, a noção de vida deve ser entendida como um sistema aberto e, como tal, ela faz trocas com o meio externo, do qual recebe energias e alimentos, e ao qual devolve seus restos metabólicos. Do unicelular ao ser humano, todos têm essa propriedade. É por isso que a noção de vida deve ser ligada à ecologia, um sistema bipolar entre os seres vivos – biocenose – e o espaço físico – biótopo. [...] Veja mais aqui e aqui.

SOBRE FAZER AS MALAS – No livro Tudo o que tenho levo comigo (Companhia das Letras, 2011), da escritora e ensaísta alemã Herta Müller, que foi ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 2009, encontro a parte denominada Sobre fazer as malas, da qual destaco o trecho: Tudo o que tenho levo comigo. Ou: tudo meu levo comigo. Levei tudo o que eu tinha. Meu não era. Ou tinha outra função ou pertencia a outra pessoa. A mala de couro de porco era a pequena caixa de um gramofone. O guarda-pó pertencera ao meu pai. O sobretudo com gola de veludo, ao meu avô. A calça bufante, ao meu tio Edwin. As polainas de couro, ao vizinho, o sr. Carp. As luvas de lã verde, à minha tia Fini. Apenas o cachecol de seda vermelho-vinho e a nécessaire eram meus, presentes dos últimos natais. A guerra ainda não terminara em janeiro de 1945. Apavorados com o fato de que, em pleno inverno, os russos me obrigassem a ir sabe-se lá para onde, todos queriam me dar alguma coisa que talvez fosse útil, já que nada poderia ajudar. Porque nada no mundo poderia ajudar. Como eu estava definitivamente na lista dos russos, cada um me deu alguma coisa, guardando para si os seus próprios pensamentos. E eu aceitei, pensando, com meus dezessete anos, que essa viagem vinha na hora certa. Não deveria ser por causa da lista dos russos; mas, se a situação não ficar muito ruim, para mim será até bom. Eu queria ir embora daquele dedal de cidade onde até as pedras tinham olhos. Em vez de medo eu sentia uma impaciência encoberta. E certa culpa, já que a lista que fazia meus parentes desesperarem-se era para mim uma circunstância aceitável. Eles temiam que algo pudesse acontecer comigo longe de casa. Eu queria partir, para um lugar que não me conhecesse. Algo já havia acontecido comigo. Algo proibido. Era estranho, sujo, desavergonhado e belo. Aconteceu no Erlenpark, bem lá atrás, depois do morro de grama baixa. Voltando para casa, fui até o centro do parque, até o caramanchão redondo onde as orquestras se apresentavam nos dias festivos. Fiquei algum tempo ali sentado. A luz entrava pela madeira finamente talhada. Eu via o medo dos círculos, quadrados e trapézios vazios, unidos por arabescos brancos com garras. Era o desenho do meu desvio. E o desenho do desgosto da minha mãe. Naquele caramanchão, eu jurei para mim mesmo: nunca mais volto a este parque. Quanto mais eu evitava, mais rapidamente eu voltava ali dois dias mais tarde. Para um rendez-vous, era como chamavam aquilo no parque. Eu fui para o segundo rendez-vous com o mesmo primeiro homem. Ele se chamava a andorinha. O segundo era um novo, chamava-se o pinheiro. O terceiro se chamava a orelha. Depois veio a linha. Depois o papa-figos e o boina. Mais tarde o coelho, o gato, a gaivota. Então a pérola. Somente nós sabíamos a quem pertencia cada nome. Era um troca-troca no parque, eu me deixava passar de mão em mão. E era verão, e as bétulas tinham a pele branca, no matagal de jasmins e sabugueiros crescia a parede verde feita de impenetrável folhagem. O amor tem suas estações. [...] Veja mais aqui.

PSICANÁLISE & POESIA – A escritora e psicanalista carioca Livia Garcia-Roza é uma das autoras premiadas e mais recomendadas para leitura na atualidade. Para se ter ideia do seu talento, destaco um poema seu sem título: no fim / a linguagem silenciosa / do jaz / mim. Também Meus queridos estranhos: Manoel foi e continua sendo o grande amor da minha vida. Único, não tive outro. Até recentemente, quando ele disse que precisávamos conversar. Estranhei, ele estava calado, sério, sombrio. Outro homem, de repente. Fomos jantar fora. Assim que entramos no restaurante, sentamo-nos de frente um para o outro. Havia um branco em seu rosto. Senti a angústia chegando, sei bem como vem, pressão, aperto, quentura, como se fosse uma pata de elefante estacionada no peito. Manoel me olhava com firmeza; essa coisa terna, de uma hora pra outra, sempre me deu medo. Acho que depois de voz baixa e doce, vem a crueldade. Girando o gelo no copo, e me encarando no fundo do olho, Manoel disse: “Quero me separar.” Pela primeira vez senti morte instantânea. Me vi despencaando da janela e caindo feito puzzle na calçada. (Quem sabecompondo na eternidade uma paisagem tranquila?). Por fim, Quando jovem: Quando jovem eu gostava de ficar triste. Uma vez passei três dias na cama. Mamãe vinha me perguntar o que estava acontecendo. Nada, eu dizia, e virava de lado profundamente contente. Até que tive que levantar e ser feliz. Que trabalheira. Veja mais aqui.

DOS DIÁLOGOS DAS CARMELITAS PRA TRIBOS – A atriz de teatro, cinema e televisão Arieta Corrêa iniciou sua carreira teatral aos dez anos e já aos dezesseis fazia a sua primeira aparição no palco profissionalmente com a peça Diálogo das Carmelitas. Aí vieram muitos e tantos trabalhos no palco, entre os quais tive oportunidade de vê-la representar em São Paulo, a peça O Canto de Gregório, com direção de Antunes Filho. Aliás, foi justamente sua atuação nesta peça que lhe rendeu os prêmios Shell e APCA de melhor atriz. No cinema pude vê-la em Senhorita Helena (2005), Otávio e as Letras (2007), Um homem qualquer (2009) e Como esquecer (2010). Atualmente ela está em turnê com espetáculo Tribos, de Nina Raine, com direção de Ulysses Cruz, peça indicada a vários prêmios e que teve sua estreia em setembro de 2013. Daqui, meus aplausos presse maravilhoso talento do teatro brasileiro. Veja mais aqui.

DE CORPO E ALMA – O filme De corpo e alma (The Company, 2003), dirigido pelo cineasta estadunidense Robert Altman (1925-2006), com música de Van Dyke Parks e roteiro de Barbara Turner, trata sobre o Joffrey Ballet de Chicago, reunindo histórias recolhidas a partir do dançarinos, coreógrafos, e os funcionários da companhia de ballet, com a maioria dos papéis interpretados por membros da empresa. As muitas histórias são entrelaçadas e expressam a dedicação e trabalho duro que os bailarinos devem colocar em sua arte, embora eles raramente sejam recompensados com fama ou fortuna. O destaque do filme vai para a atriz canadense Neve Campbell que além de atuar, co-escreveu e co-produziu o filme. Veja mais aqui.
 
IMAGEM DO DIA
Foto da bailarina, modelo fitness e capa da Playboy junho 2012, Aline Riscado.


Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Crônica de Amor, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nua, arte da arquiteta e artista plástica Mariana Pabst Martins.
Veja mais aqui



sexta-feira, março 20, 2009

HERTA MÜLLER, CIORAN, AGAMBEN, ANTONIO RUIZ SULAYEZ, JURACY RIBEIRO & LITERÓTICA.

 
A arte do artista mexicano Antonio Ruiz Sulayez.


LITERÓTICA: PERFUME DE MULHER - É dela todo perfume que emana da vida. E vem dela, ah, mulher nua, linda e cheia de graça, o bálsamo do sol no sexo pra gosto nenhum botar defeito ou achar pouco porque é a fragrância caudalosa na sedução da carne de todos os sabores mais apetitosos de todo paladar aguçado de fome. Vem dela o sândalo do amor, mulher nua, linda e cheia de graça que aquece estirada com o nascedouro a dar passagem e faz de mim iluminado deus todo-poderoso a sentir o primeiro cheiro de rosa silvestre de suas entranhas ao embalo dos gemidos manhosos rente ao coração além do universo. Vem dela a alfazema que me faz hóspede no movediço lençol alvacento da poesia, a me ofertar o baú de suas posses secretas com todas as maçanetas arrancadas, todos os trincos destrancados, todas as portas escancaradas para que extremamente amada e querida tanto quanto a minha própria vida possa em sua mágica dádiva seguir abrindo, fechando, prendendo, soltando, tudo disparando a nossa peleja prazerosa no fogo da felicidade. Vem dela nua, linda e cheia de graça, todas as lanternas acesas do seu desejo vigoroso na sua secreta fogueira, de onde me nascem asas e vôo amparado pela égide de sua devotada oferenda. É nela que vou como chama a sua boca, como querem seus braços, como desejam suas perversas coxas erguendo o véu e colhendo as horas no ar da tarde demasiada no mormaço do querer. É nela que vou como um rei apaixonado com todos os versos fesceninos imersos no gozo, adestrando o seu impetuoso desejo até a bifurcação dos destinos da nossa dança perfumada, a me satisfazer com o cheiro gostoso da mulher amada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


A arte do artista mexicano Antonio Ruiz Sulayez.

DITOS & DESDITOS - Os pessimistas não têm razão: vista de longe, a vida não tem nada de trágico, ela só o é de perto, vista em detalhe. A visão de conjunto a torna inútil e cômica. E isso vale para nossa experiência íntima. Pensamento do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995). Veja mais aqui e aqui.

ARQUIVO & TESTEMUNHO – [...] A respeito de que tal língua dá testemunho? Porventura de algo – fato ou evento, memória ou esperança, alegria ou agonia – que poderia ser registrado no corpus do já-dito? Ou da enunciação, que atesta no arquivo a irredutibilidade do dizer ao dito? Não é nem de uma nem de outra coisa. Não enunciável, não arquivável é a língua na qual o autor consegue dar testemunho da sua incapacidade de falar. Nela, uma língua que sobrevive aos sujeitos que a falam coincide com um falante que fica aquém da linguagem. [...] A relação entre a língua e sua existência, entre a langue e o arquivo, exige, por sua vez, uma subjetividade como aquilo que atesta, na própria possibilidade de falar, uma impossibilidade de palavra. Por tal motivo, ela se apresenta como testemunha, pode falar por quem não pode falar. O testemunho é uma potência que adquire realidade mediante uma impotência de dizer e uma impossibilidade que adquire existência mediante uma impossibilidade de falar. Os dois movimentos não podem nem identificar-se em um sujeito ou em uma consciência, nem sequer separar-se em duas substâncias incomunicáveis. Esta indivisível intimidade é o testemunho [...] Que Auschwitz seja aquilo de que não é possível dar testemunho e que, ao mesmo tempo, o muçulmano seja a absoluta impossibilidade de dar testemunho. Se a testemunha dá testemunho pelo muçulmano, se ele consegue trazer à palavra a impossibilidade de falar – se, dito de outro modo, o muçulmano é constituído como testemunha integral – então o negacionismo é refutado no seu próprio fundamento. No muçulmano, a impossibilidade de dar testemunho já não é, realmente, uma simples privação, mas tornou-se real, existe como tal. Se o sobrevivente dá testemunho não da câmara a gás ou de Auschwitz, mas pelo muçulmano; se ele fala apenas a partir de uma impossibilidade de falar; então seu testemunho não pode ser negado. Auschwitz – de que não é possível dar testemunho – fica provado de modo absoluto e irrefutável [...]. Trechos extraídos da obra O arquivo e o testemunho (Boitempo, 2008), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Veja mais aqui e aqui.

O REI SE CURVA E MATA - [...] Conheço de casa, entre os colonos, um modo de vida que não tinha por costume o emprego de palavras. [...] Cada frase só tem sua vez quando a anterior se foi. No calar tudo vem de uma vez só, tudo se acumula ali, o que por muito tempo não é dito e até mesmo o que nunca é dito. [...] Como devo explicar com palavras que a dália me dava uma atitude interna quaseestável frente aos arrepelos de fora, que em uma dália assenta um interrogatório quando se vem do interrogatório, ou uma cela, quando uma pessoa de quem se gosta está na prisão. Que em uma dália está sentada uma criança quando se está grávida e não se quer ter essa criança de modo algum, porque não se tem a cara de pau de oferecer essa vida de merda a ela, mas que, caso seja descoberta, se vai para a prisão por aborto. [...] O falar sai voando, o calar fica e fica e cheira. Cheirava como o lugar na casa em que eu ficava ao lado de mim mesma, junto dos outros. No quintal,o calar cheirava a florescência de acácia ou a trevo recém ceifado, no quarto, a veneno de traça ou a uma série de marmelos sobre o armário, na cozinha, a massa ou a carne. Cada um carregava seus degraus na cabeça, sobre os quais o calar subia e descia. A pergunta “Em que você está pensando agora?” teria sido como um assalto. Era óbvio que se estava cheio de segredos. [...] O vivido enquanto acontecimento não está nem aí com a escritura, não é compatível com as palavras. Os acontecimentos reais nunca podem ser apreendidos equitativamente com palavras. Para descrevê-los, os acontecimentos precisam ser modelados em palavras e completamente reinventados. Aumentar, diminuir, simplificar, complexificar, mencionar, passar por alto – uma tática que segue seus próprios caminhos e que tem o vivido apenas como pretexto. Quando se escreve, arrasta-se o vivido para outro metier. [...] O acontecimento real insiste enquanto aparição periférica; com palavras se lhe dá um choque após o outro. Quando ele mesmo não se reconhece mais, o acontecimento volta ao centro. Precisa-se demolir a presunção do vivido para se escrever sobre ele, desviar-se de cada rua verdadeira para uma inventada, pois só esta pode parecer-se com ela novamente. [...]. Trechos extraídos da obra O rei se inclina e mata (Carl Hanser, 2003), da escritora e ensaísta alemã Herta Müller. Veja mais aqui.

TRES POEMASLENÇOL FLORIDO: leoa dilacerando a caça / colocando com a boca / em sua boca / libélula / levitando / com a libido / transparente
de suas asas. IGNEA: me faça magma / esculpe de vez / essa estátua sem sal / plasme-a / lambe-a / não se preocupe / não se desculpe / não olho pra trás. NAS NUVENS NO CHÃO - nunca tive chão / estou sempre voando / no entanto / estávamos ali / o chão falando mais alto / nunca o chão / foi tão macio
. Poemas da poeta, arte-educadora, contadora de história, professora e terapeuta holística paranaense Juracy Ribeiro. Veja mais aqui e aqui.


A arte do artista mexicano Antonio Ruiz Sulayez.




Veja mais sobre:
A vida, um sorriso, Fernando Pessoa, Charles Chaplin, João Ubaldo Ribeiro, William Shakespeare, Connie Chadwell, Marilyn Monroe, Michael Ritchie, Barbara Feldon, Jeremy Holton & Visão holística da educação aqui.

E mais:
Minha voz aqui e aqui.
Dia Nacional do Riso aqui e aqui.
E se nada acontecesse, nada valeria, Cecília Meireles, Albert Camus, Pierre-Auguste Renoir, Richard Wagner, Sophia de Mello Breyner, Gwyneth Jones, Hal Hartley, Aubrey Christina Plaza, Paul Laurenzi & Princípios de Neurociências de Kandel aqui.
Cordel A chegada de Getulio Vargas no céu e o seu julgamento, de Rodolfo Coelho Cavalcante aqui.
Horário Eleitoral do Big Shit Bôbras, Zé Bilola, Enzonzoamento de Mamão, Ocride, Classificados de Mandús e Cabaços & Previsão meteorológica aqui.
A arte de Karyme Hass aqui.
Dicionário Tataritaritatá – Big Shit Bôbras & Fecamepa aqui.
Richard Bach, Velho Chico, Ísis Nefelibata & Chamando na grande aqui.
Cordel A história de Jesus e o mestre dos mestres, de Manoel D´Almeida Filho aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.




CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...