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sexta-feira, janeiro 17, 2020

ROSA LUXEMBURG, VIRGINIA LEAL, COLIN JOHNSON, MOACIR SANTOS, ARTE DE PERNAMBUCO & OUTRA CARTA DE JANEIRO


OUTRA CARTA DE JANEIRO - Minha cabeça é um badalo vivo no sino das lembranças, a armadilha é lembrar. Quisera esquecimento, já inexiste. Os muitos que habitam em mim, uma pugna sem fim: a cada um sua veleidade. E me estraçalham e me consumo, rasgam do que sou reduzido aos pedaços. Hora a hora, o tempo, o dia e a espera silenciosa do que sequer se sabe. Meus olhos crescem pelos pormenores do que foi dito e calado, tudo perdido no vazio da noite flutuante sobrecarregada de arroubos e assaltos. Quando canso da discórdia, é porque fui exaurido da contenda, fatigado de padecimentos hereditários. Tomo pé da situação, pleno abandono. Ninguém vai ou vem, nenhuma fala ou gesto, beco de ir embora é via sem saída. É lá onde caem noites e dias, sol e estrelas, poço sem fundo e fim, tão rente porque caio sem descanso e desabitado. Sou quem caiu, enfim, por toda parte como qualquer um. Em mim quantas bocas famintas, tantas gargantas pros gritos, abundantes sonhos dissolvidos entre o imediato e jamais, o crivo da queda dia a dia, de dor em dor, o que tive e não, a voz para cantar ditirambos, palíndromos, limeriques, entoando as cidades que são profusas em meu peito, tão desertas à minha chegada. Dentro de mim é inverno e meus passos no verão: sou dos céus nos meus pés pela terra nem sei de onde, entre o despovoado e insólitas miragens. Sobrevivente em qualquer parte, voo incansável pela rua secular que morreu na esquina da minha viagem de tanto tempo, pássaros e ventos, as minhas várias mortes, o meu destino nas mãos. Tudo se acumula: vestígios, pedras e desenganos, argila e avesso, pegadas insuspeitas de anos mortos. A vida passa e envelheço menino que sou e teimo em viver entre agulhas e lâminas, ausência desde ontem. Nem tenho mais o que dizer, estranho ocidente de meus nomes esquecidos e sem sobrenome por folhas caídas do pouco que sempre fui pro tanto que nem me quiseram, inteirado de nada, a buscar o que não se acha, dizer o que não se ouve, amanhãs e regressos entre chuvas e chicanadas. Se uma claridade pela fresta, um fiapo de esperança pronta para retomar seja o que for; se a treva persiste, inquieto exorcizo sombras aniquilando ilusões arrancadas da pele e entranhas. Apenas vivo, até quando. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Como é estranho eu viver sempre numa alegre embriaguês, sem razão particular. [...] A areia estala tão sem esperança sob esses passos, que todo o vazio e a falta de perspectivas da existência ressoam na noite úmida e sombria. E aqui estou eu deitada, quieta, sozinha, enrolada nos véus negros das trevas, do tédio, da falta de liberdade, do inverno - e, apesar disso, meu coração bate com uma alegria interior desconhecida, incompreensível, como se, sob um sol radiante, estivesse atravessando um prado em flor. No escuro, sorrio à vida, como se eu conhecesse algum segredo mágico que pune todo o mal e as tristes mentiras, transformando-os em luz intensa e em felicidade. E, ao mesmo tempo, procuro uma razão para esta alegl1a, não encontro nada, e tenho que sorrir novamente - de mim mesma. Acredito que o segredo não é outro senão a própria vida; a profunda escuridão noturna é bela e suave como veludo, basta somente saber olhar. No estalar da areia úmida sob os passos lentos, pesados da sentinela canta também uma bela, uma pequena canção da vida - basta apenas saber ou vir. [...] Trecho de uma carta da filósofa e economista polaco-germana, Rosa Luxemburg (1871-1919), extraída da obra Rosa Luxemburg, os dilemas da ação revolucionária (Unesp, 1999), da professora do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia c Ciências da Unesp (Marília), Isabel Maria Loureiro. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A POESIA DE VIRGÍNIA LEAL
Oh, marujo, tens,
sim, a chave da  
(l)íngua (babel)ica
a abrir e fechar
o sentir e o falar,
o parar e o mexer...
Oh, marujo, tens  
latência germinal  
à espera do sim
- viagem em nau
de onde se ouve,  
sem cessar, mil
cantos de Circe,..
Não te desviam da obra
primeira e b(ela)
os sulcos do (a)mar
aquela inesperada,
redonda e pálida tez...
Oh, marujo, tens  
nos fios de algodão  
vagas a lembrar  
que o sal do (a)mar,
magmático, arteiro,
marulha sob  
numérica cláusula,
de velha teoria  
dos conjuntos.
Também te dizem  
do puro instante  
- sem um mergulho  
no te(n)so tempo
- quase um relâmpago  
nas íris do vento,
a falar do que
de eterno há num
lavático segundo.
Eu, oh! marujo, ao contrário
da bela e astuta Penélope,
não desmancharei meus
finos bordados e brocados.
Saberei, leniente, prolongá-los
na carícia do teu corpo-quilha,
no ir e vir, ensaios e erros,
fio de prumo, arrasto, fosso
- um mundo a singrar veios
de veia rubra a jorrar de
um erótico col(osso).
VIRGÍNIA LEAL – Poema "Nauta libidinosus" – da Série “Lascivus”, da poeta e professora Virginia Leal. Veja mais aqui.

A ARTE DE COLIN JOHNSON
O trabalho de colagem atual que eu chamei de "hiper-colagem" começou no ensino médio como um estilo de desenho animado. Eu carreguei esse estilo nos meus anos de faculdade e, eventualmente, substitui a colagem por elementos desenhados. O trabalho tornou-se progressivamente mais complexo ao longo dos anos. Em um sentido metafórico, o trabalho de colagem representa tudo “feito pelo homem” em termos de desperdício ou recusa, em contraste com o estilo totalmente pintado do meu trabalho, que representa tudo o que está relacionado à “natureza”. Eu tenho trabalhado duro para integrar esses dois mundos, o contraste que existe e os danos causados pelo lixo "humano" ao mundo "natural".
COLIN JOHNSON - A arte do artista britânico Colin Johnson que trabalha uma técnica denominada de hiper-colagem com intrincadas aventuras visuais. Veja mais aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A música do saudoso arranjador, maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006) aqui, aqui & aqui.
A poesia do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013) aqui.
A literatura do escritor Gilvan Lemos (1928-2015) aqui, aqui & aqui.
A arte do artista plástico Fernando Lúcio aqui.
As obras do historiador, jornalista, lexicógrafo, pesquisador e compositor Nelson Barbalho (1918-1993) aqui, aqui & aqui.
O teatro de Fenelon Barreto aqui, aqui & aqui
A revista de HQ  Ragú, editada por Christiano Mascaro e João Lins aqui.
&
O município de Escada aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, janeiro 08, 2019

LELOUP, DALI, EM NOME DE DEUS & CARTA DE JANEIRO


CARTA DE JANEIRO – Aonde quer que eu vá, vou só. Esquinas, becos, trilhas, o inopinado. A cada dia um Cabo das Tormentas, naufrágios, derivas, gangorras, tobogãs, devires. Ah, santa sorte, o que virá não se sabe, que seja, na base do carteado: servindo-se de paus, copas, espadas, ouros; se deu, deu; se não deu, não deu, vale-se dos naipes, a cartomancia: a Roda da Fortuna, o Louco, o Enforcado, a Morte, o Diabo. Aha! O erro do carteio pra quem não sabe jogar, só se vive. Assim, percorrer o território por toda jornada: a sabedoria é próxima da loucura, ou vice-versa. Foi, não foi, a precisão de ir. Andarilho livre no incansável perambular. Onde vai dar? É só dançar como uma criança até tornar-se viajante maduro, se puder. As surpresas que pregam suas peças, o engano dos bufões: primeiro de abril. O farol, os monstros, os temporais. Encolher os ombros quando nada mais resta da escuridão adâmica, lembrar-se de não esquecer nada. Recorrer ao amor? Além de cego, muitas vezes é surdo, senão incompreensível. Amigos? Todos pularam fora quando não se esconderam: nem sempre a amizade é mútua, quando não covarde. Qual destinatário entre os arcanos vicariantes, epístolas sem correspondência, apelos sem recepção, prólogo sem trama, ninguém a quem possa interessar: rabiscos nas paredes, troncos, folhas, o tempo apagará. Manuscritos bilhetes que se esvairão inúteis, perdidos no fundo das gavetas. Palavras inauditas, gestos aos interditos paralisados no ar. Pra quem vai só, a companhia dos ventos, da escuridão, das estradas sem fim: a expectativa estrangeira de nenhuma chegada, não há porto para ancorar, nem fim da linha, eternamente seguir, recomeçar. A cada dia uma nova estrada, voo por aí. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Partimos em um movimento ascendente: a libido, a paixão, a compaixão. É a mesma energia que ascende e nos atravessa. Observem que os problemas sexuais, algumas vezes, são modos de misturar as formas de amor. [...] Em grego, há diferentes palavras para falar destas etapas do amor. A primeira etapa é Pornéia, o amor voraz e devorador, o amor do bebê por sua mamãe, o amor de consumo. Amo o outro, portanto como-o. [...] Traduzimos a palavra Pathé por paixão e ela está na origem da palavra Patologia. [...] algumas formas de amor são formas de patologia, são formas de possessão, de Manía. [...] Éros, que expressa não somente um amor de solicitação e necessidade, mas também de desejo. [...] Storghé pode ser traduzida como ternura e Harmonia que é uma palavra muito bonita para se falar de amor. É uma maneira de harmonizar o seu ser com o ser do outro. [...] Philia – o amor aos seres humanos. [...] Énnoia quer dizer o dom, a doação e, às vezes, o devotamento. É uma qualidade de amor que manifesta uma grande generosidade do coração. É a libido, a energia vital que se manifesta ao nível do coração. Kháris significa gratidão. [...] Agápe. Podemos traduzi-la como a graça e a gratuidade. [...] A palavra amor tem sentidos diferentes. Não é preciso opô-los uns aos outros. [...] Há em nós uma abertura para todas as outras cores. Mesmo se, para algumas cores, só nos reste sonhar. Há porem sonhos premonitórios e um dia nós amaremos. Não apenas como animais bem vivos, não somente como amantes apaixonados, mas também como deuses apaziguados. [...].
Trechos de A escada dos níveis de amor, extraído da obra O corpo e seus símbolos (Vozes, 1999), do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup. Veja mais aqui e aqui.

ESCULTURAS DE SALVADOR DALI
 [...] Acreditam vocês que seja devido ao acaso que a força dos grandes místicos apresenta-se muitas vezes conjugada à defecação e ao peido? É que o ânus, exaltado por Quevedo no seu Elogio ao buraco do cu, é sobretudo um símbolo que purifica nossos atos de canibalismo. Tudo o que pertence ao humano, transcendido pela espiritualidade da morte, torna-se místico [...].
Trecho extraído da obra As confissões inconfessáveis de Salvador Dali (José Olympio, 1976), do pintor e artista surrealista catalão Salvador Dali (1904-1989) que assim se expressava sobre si próprio: “Todas as manhãs, ao me levantar, experimento um prazer supremo: ser Salvador Dali. Eu me pergunto maravilhado: que coisas prodigiosas ele fará hoje, este Salvador Dalí”. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EM NOME DE DEUS
O drama Em nome de Deus (Captive, 2012), dirigido por Brillante Mendoza, conta a história ocorrida em 2001, no sul das Filipinas, em que um grupo de separatistas islâmicos armados toma cerca de 100 pessoas como reféns, arrastando-as por vários locais por cerca de um ano. O destaque fica por conta da atriz francesa Isabelle Huppert que interpreta a missionária cristã Thérèse Bourgoine, voluntária francesa em missão humanitária e na luta pela sobrevivência. Veja mais aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...