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domingo, novembro 21, 2021

ALASDAIR GRAY, ELSE LASKER-SCHULER, EDWARD ELGAR &TONY ANTUNES.

 

 

TRÍPTICO DQP – Mameluquices mulatíndias... - Ao som do Concerto para Cello e orquestra em Si menor, Op. 85 (1919 – CBS, 1976), do compositor inglês Edward Elgar (1857-1934), na interpretação da violoncelista Jacqueline du Pre com a Orquestra Sinfônica de Londres, regência de Daniel Barenboim. – Videncruzilhada, tomei a direção da venta, como sempre. Andejo e só dei fé duma hestória: a ameaça nas imediações de uma certa bonitona, a mais bela de todas quanto já tivesse. Hem? Todos os homens, não tinha um só que a visse e não endoidasse de paixão. Mesmo? Disseram chegada das bandas da Paraíba e tinha lá um feitiço que era segredo só dela. Oi? Aos cochichos: ela vira a onça que matou a menina que foi criada pela velha. É? Ninguém escapa. Como assim? Era uma vez uma menina que cresceu e queria ganhar o mundo, mas não tinha nada. Pediu a velha que lhe desse e, a coitada, só tinha um carvão: eu quero. Com a posse, pé na estrada. Depois de muito andar ela encontrou um ferreiro que do carvão precisava e ela deu. Depois pediu de volta, era tarde, gastou-se e não mais havia. O ferreiro então deu um machado e ela ganhou o mundo. Adiante estava um cancão e precisava do machado para bater pau e ela deu pra ele tirar mel. Foi pá e pei, nisso o machado se quebrou e ela queria de volta: só tenho mel. Então, me dê. Picou a mula e, noutra volta, se deparou com a lavadeira com a trouxa no rio comendo feijão. Ao ver-lhe o mel às mãos dela, pediu e ela deu. Acabou-se o que era doce e ela queria de volta: deu-lhe um pão de milho e picou a mula. Lá na curva da rodagem, um velho pediu-lhe esmola e ela deu o pão de milho, logo devorado. E agora? Só tenho esse ferrão de acuar gado. Ora, quero. E na beira dum cercado, um vaqueiro aperreado para juntar a boiada, ele pediu pra ela e, sem cerimônia, deu: cutucou daqui, dali, e o ferrão partiu-se. E agora, quer uma vaca? Quero. Para lá e para cá com sua vaquinha, a onça apareceu e devorou: Onça, eu quero minha novilha de vaca, novilha que o vaqueiro me deu. Vaqueiro quebrou ferrão, o ferrão que o velho me deu. O velho comeu o pão de milho, o milho que a lavadeira me deu. Lavadeira comeu o mel, o mel que o cancão me deu. Cancão quebrou machado, machado que ferreiro me deu. O ferreiro gastou meu carvão, carvão que minha madrinha me deu. A onça nem pestanejou, lambeu os beiços e a menina no bucho, palitando os dentes, ancha. Foi aí que a fera, sem sabe como, virou uma moça bonita que vive por ai zanzando e seduzindo todos aqueles de juízo, só para endoidecê-los... Ouvia eu atento o relato, enquanto alguém desconhecido mencionou o poeta italiano Arturo Graf (1848-1913): A sabedoria e a razão, falam; a ignorância, ladra. Estranhei, desconfiado. Logo outro do meio deles sapecou Goethe: Não há nada mais terrível que a ignorância. Não falto algum injuriado, até quem invocasse Confúcio: A ignorância é a escuridão da mente! Outro mais desabusado cuspiu Pitágoras: Se me perguntar o que é a morte, respondo: a verdadeira morte é a Ignorância. Quantos mortos entre os vivos! Lá estava eu no meio de uma saraivada discordante de gente pia e incrédula, nem sabiam o que diziam, nem nada, só jogavam conversa fora, repetiam o que ouviram desde infância, apenas... Reproduziam do jeito deles, segundo eles... Foi aí que me apareceu o escritor escocês Alasdair Gray (1934-2019) que me puxou do lado: Não quero enfrentar este mundo, vamos voltar ao inferno que estou imaginando... Eu deveria ter mais amor antes de morrer. Eu não tive o suficiente... Depois de me conduzir para uma esquina na saída da localidade, ele me disse em tom confidencial: Trabalhe como se estivesse nos primeiros dias de uma nação melhor. E se despediu me livrando de zunzunzum tão discordante. Aproveitei a deixa, segui meu caminho...


 

O reencontro na ruína... – Imagem: arte do fotógrafo francês Lucien Clergue (1934-2014). – Andanças noitedia e se era ou não onça, na vera, não sei. O que sei de mesmo é que ao depará-la deu-se o reencontro: era a Vênus do Quintal. Lembra? Ora, se. E logo me disse toda cantatriz mexicana María Félix (1914-2002): Minha lenda começou a ganhar forma sem mover um dedo. A imaginação do público fez tudo por mim... E sorriu sedutoramente como se me revelasse seus segredos, abraçando-me para cochichar ao meu ouvido: Quando eu quiser, será pela porta grande. Não entendi a última frase sussurrada, sei apenas que levou por insólitas paisagens que mais pareciam as cenas do The Black Crown (1951) do Luis Saslavsky: era o milagre, disse-me e confessou: havia perdido a memória há muito tempo e só agora tomou ciência da razão disso: havia matado o marido. Ao me reconhecer tomara ciência de tudo. Para ela parecia que eu a havia curado, não sei, fato inexplicável. Logo fez-se em mim a La Doña – María Bonita. E me narrou detalhadamente sua turbulenta vida amorosa, casamentos desfeitos, de como se tornou a María de Todas las Marías e o motivo de todos cantarem para ela Je l'aime à mourir de Cabrel. Nada disso jamais poderia eu saber, há muito tempo ela havia se tornado apenas uma deliciosa lembrança que eu guardara para que a vida valesse a pena. Não sei se estava ali condenado ou absolvido, sabia apenas que estava agora enredado nos braços da Inés Rojas do La fièvre monte à El Pao, de Buñuel. De fato, em mim a febre aumentava mesmo porque a República do Pecado misturava histórias que me puxavam e, depois de tudo, era como se não mais confiássemos um no outro, enquanto fugíamos da ilha do ditador à beira de uma guerra civil, até chegarmos a uma praia deserta para me dizer que ela era a Diana do Safo’63 de Alcoriza e nos refugiamos ali. Sabia lá o que seria de nós ali isolados de tudo e de todos, só sei que ela me contou que lera a emocionante carta de Kierkegaard para Regine e se emocionou o panegírico apaixonado de Charlotte e Adam. Uma lágrima desceu e a enxuguei com o polegar. Fitou-me, chorosa e desabafou: havia detestado a leitura do Geschlecht und Charakter (‎Losada, 2004), do misógino filósofo austríaco Otto Weininger (1880-1903), repetindo o que ele escrevera: Nenhum homem que pense profundamente sobre as mulheres mantém uma opinião elevada sobre elas. Ou os homens desprezam as mulheres ou nunca pensarão seriamente a respeito delas. Nossa! E prosseguiu protestando o fato de como ele se dedicara à entrega total aos imperativos da genialidade, suicidou-se aos 23 anos. Que tragédia! Para ela, a única coisa de relevante que ele deixara, tão somente foi o impacto que exerceu sobre Wittgenstein: Ver o mundo corretamente em silêncio. Quase sorrindo mencionou o silêncio dos versos do The Second Coming de Yeats: Falta convicção aos melhores / enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade. Abraçamo-nos com a paradisíaca paisagem. Com o passar dos dias aquele lugar era o espetáculo dela nua e tive que veemente discordar do filósofo suicida que sentenciara: Uma figura feminina absolutamente nua deixa uma impressão de algo deficiente, uma coisa incompleta que é incompatível com a beleza. Ah, não! Prefiro o feitiço dela, mesmo que seja uma completa desconhecida, monstro disfarçado ou anátema indesvencilhável.

 


Prexelândio absoluto.... - Despertei atordoado com a barulheira de uma multidão. Que será? Ao tomar pé da situação, entre os desencontros de ontem, reencontros de amanhã, reconheci uma voz de antanho: do poeta e radialista Tony Antunes (que também se assina professor Gleidistone) e recitava no palco Prexelândios de uma vida. Aplaudi ao final e foi quando percebi que estava sozinho e entre gente que nunca antes tivera sequer visto. Havia um certo desconforto só quebrado que, depois, ele encostou-se com a surpresa e um exemplar do seu Digitais absolutas: poemas escolhidos, para recitar-me o seu poema As letras: As letras que fazem nascer / minhas palavras / são portadoras / de criação infinita. / Nos calcanhares letrados da mente / surgem idiomas / com asas de fênix / reluzindo luz e conhecimento. / Abrindo os olhos à leitura, podemos então / ser descobridores de mágicas metáforas / em semânticas de vida / de luz e / de amor. Aplaudi com um firme aperto de mão de frater e um abraço caloroso com os versos do seu poema Meus quirodáctilos: ... sei do meu passado / não sei do meu porvir. / Sou viajante do cosmo / nos planetas mentais / do tico e do teco / do tosco e do taco / de tudo e de todos. Foi aí que conversamos animadamente por um bom espaço de tempo, até ela reaparecer e nos despedimos com a promessa de revermos em breve. Ela me levou de volta para o seu aconchego que sequer sabia onde que poderia ser, enquanto dizia-me de um poema O fim do mundo, da poeta alemã Else Lasker-Schuler (1869-1945): Há um lamento no mundo, / Como se não mais houvesse o bom Deus, / E a sombra que cai, cortina de chumbo, / Pesa mausoléus. / Vem, escondamo-nos mais de perto... / A vida jaz nos corações / Como nos féretros. / Ei, beijemo-nos até não mais poder / — Pulsa uma saudade no mundo, / E é disso que temos de morrer. Ao final do poema, estávamos no meio do mundo e eu não sabia onde era nem queria saber. Então, abraçou-me com o fervor de sempre, sem que eu soubesse jamais se onça ou benfeitora, apenas: precisamos viver, enquanto podemos respirar. Até mais ver.

 

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sábado, janeiro 13, 2018

LYGIA FAGUNDES TELLES, JOHN DONNE, BUÑUEL, RAJNEESH, PAULO BRUSCKY, YES, VALENTINA PLISHCHINA & DATAÍSMO

SEGREDO DAS VOZES INDIZÍVEIS – Imagem: Fantasy, da artista plástica e ilustradora estadunidense Valentina Plishchina.- Quem foi, tanto fui, nunca encontrei o caminho de volta, ou sequer saí de onde estou, essa a impressão que tenho. Nunca tive nada por tanto que quisera, ambicionei talvez, êxito algum. Não me queiram mal, nem me vejam de soslaio. E mais tivesse, tudo perderia na bifurcação da surpresa: o amor e situações aversivas, pêndulos sucessivos. Vi de tudo: um templo luminoso inatingível entre estrelas cadentes na minha solidão – coisa só minha -, a saudade de trilhas misturadas no labirinto da lonjura, o Sol das manhãs incendiando a pradaria do meu riso, a mula no cio da noite sem cabeça rondando minha solidão com seus terrores mais ignotos, o brejo cheio inundando o quintal para expulsar os fantasmas brincando com planetas feitos de chimbras, o lobisomem zonzo teimando artista circense pra morrer de chorar no riso, a Lua enamorada e nua soltando beijos nas minhas quimeras empacotadas de tesão, cavalo de pau a se arvorar enfrentando moinhos de folhas e flores lendárias, mané-gostoso preso na acrobacia do elástico pelo brinquedo da cambalhota e vira a virar, equilibrista no arame farpado e o rio contando história na correnteza da tarde mormaçada, os repentistas nas feiras de lama e pilhéria soltando fuxicos e a maior boataria - inverdades, salvo engano, todas acontecidas no pino do meio dia, coincidências inevitáveis pelas semelhanças de uns e outros. Apenas lembranças que saltam e se dissolvem na parede fria, esvaem-se umas às outras na perda da aventura por subidas lesivas e descidas sombrias. Prevalecem por remissão o sorriso sensual das mulheres com suas apetecidas formas e gestos, vivenciadas no anoitecer de minhas fantasias resvaladas pelo tobogã das horas, pela mão nua das linhas perdidas e apagadas pelos dedos cegos, o braço esquálido e roto, o peito de zis cicatrizes purulentas, olhos de noite a fio, lábios de sede agreste. A vontade é questão adiada e a noite desinventada é menor que o instante do vexame violentado. Sei das coisas contrárias quando menos se espera, motejo da vida pra quem nunca soube a maldição das ruínas no perde e ganha e dá volta por cima, poeira, solado e bunda no chão. Ah, se eu tivesse dobrado lá trás, seria diferente, apenas isso e eu não saberia. Quem me chamou, não ouvi, não sei, soubesse seguia assim mesmo até o reconhecimento. Outra seria, não assim ou assado. Longe o que se fez sábio caído na ignorância. Sem assombro, todo tumulto às vitrines é só o ermo do coração com tudo de novo e outra vez todo dia, tarde e noite intermináveis. E todos apostam na desgraça, torcem pelo algoz, a carne desesperada do recalcitrante desafiador, torcida pende prum lado contra a vantagem e vai pro outro se parecer desfavorável. Essa gente não sabe o que quer, se sabe é só cara ou coroa da vez e a insensatez, a favor do leão e o circo pega fogo, sem importar quem pintou a zebra ou arrancou os olhos do assum preto. Afinal, ele só canta bonito se cego. O artista só obra milagre completamente embriagado de vida e de álcool. Ah, nada demais, sei que sabem melhor que eu de mim mesmo. Amanhã estarei morto, muito provavelmente, e serei apenas um raio de memória pro esquecimento. Tudo é efêmero até sonhar na eternidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a banda britânica de rock progressivo Yes, formada por Jon Anderson (vocal), Chris Squire (baixo), Steve Howe (guitarra), Alan White (bateria), Rick Wakeman (teclados), Tony Kaye (teclados), Peter Banks (guitarra) e Bill Bruford (bateria), com apresentações de concertos e shows ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando estiver com raiva, não se concentre napessoa que despertou sua ira. Deixe-a ficar na periferia. Você apenas ficaria com mais raiva. Sinta a ira em seu todo, deixando que aconteça interiormente. Não racionaliza, não diga: “Este homem me irritou e me fez ficar com ódio”. Não condene o homem. Ele apenas se tornou a situação. Sinta gratidão por ele ter feito com que algho que estava fechado se abrisse às claras. Ele bateu em certo lugar onde uma ferida estava oculta. Agora você sabe tudo. O ódio se dissolverá. [...]. Extraído da obra Tantra, sexo & espiritualidade (Ágora, 1977), do filósofo místico Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A REVOLUÇÃO DATAÍSTA - [...] A revolução dataísta provavelmente vai durar algumas décadas, se não um século ou dois. Mas a revolução humanista não aconteceu da noite para o dia. No inicio, os homanos continuaram a acreditar em Deus e alegavam que eram sagrados porque foram criados por Deus com algum propósito divino. Só muito mais tarde algumas pessoas ousaram dizer que humanos são sagrados por direito próprio e que Deus não existe. Similarmente, a maioria dos dataístas afirma hoje que a internet de todas as coisas é sagrada porque humanos a criaram para servir a necessidades humanas. Porém, eventualmente, ela pode se tornar sagrada por direito próprio. A mudança de uma visão de mundo antropocêntrica para uma datacêntrica não será meramente uma revolução filosófica. Será uma revolução prática. Todas as revoluções realmente importantes são práticas. A ideia humanista de que “humanos inventaram Deus” foi significativa porque teve implicações práticas de longo alcance. Da mesma forma, a ideia dataísta de que “organismos são algoritmos” é significativa devido a suas conseqüências prátricas no dia a dia. Ideias só mudam o mundo quando mudam nosso comportamento. [...] Mas se realmente adotarmos uma visão realmente ampla da vida, todos os outros problemas e desenvolvimentos serão ofuscados por três processos interconectados: 1 A ciência está convergindo para um dogma que abrange tudo e que diz que organismos são algoritmos, e a vida, processamento de dados. 2 A inteligência está se desacoplando da consciência. 3. Algoritmos não conscientes mas altamente inteligentes poderão, em brevem nos conhecer melhor do que nós mesmos. Esses três processos suscitam três questões-chaves, que espero que fiquem gravadas em sua mente muito depois de você ter terminado a leitura deste livro: 1. Será que os organismos são apenas algoritmos, e a vida apenas processamento de dados? 2. O que é mais valioso – a inteligência ou a consciência? 3. O que vai acontecer à sociedade, aos políticos e à vida cotidiana quando algoritmos não conscientes mas altamente inteligentes nos conhecerem melhor do que nós nos conhecemos? Trechos extraídos da obra Homo Deus: uma breve história do amanhã (Companhia das Letras, 2016), do escritor israelense e professor ph.D em História, Yuval Noah Harari.

O ÚLTIMO SUSPIRO DE BUÑUEL – Passei horas deliciosas nos bares. O bar para mim é um local de meditação e de recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível. Hábito antigo que se fortaleceu com o passar dos anos. [...] Grande parte da atividade surrealista se desenvolveu no café Cyrano, na praça Balnche. [...] O bar é, ao contrário, um exercício de solidão. [...] Os que não se interessem por isto – infelizmente eles existem – que pulem algumas páginas. [...] Como certamente compreenderam, não sou um alcoólatra. É verdade que, durante toda a minha vida, em determinadas ocasiões, aconteceu que bebesse até cair. Mas a maior parte do tempo trata-se de um ritual delicado, que não proporciona uma verdadeira embriaguez, mas sim uma espécie de zonzeira, bem-estar tranqüilo que talvez se assemelhe ao efeito de uma droga leve. Isso me ajuda a viver e a trabalhar. [...] elaboramos a ideia de abrir um bar que se chamaria Au coup de Canon e que seria escandalosamente cato, o mais caro do mundo. Só haveria lá bebidas especiais, incrivelmente refinadas, vindas dos quatro cantos do mundo. Seria um bar íntimo,muito confortável, de perfeito bom gosto, é claro, com apenas umas dez mesas. Em frente à porta, a justificar o nome do estabelecimento, haveria uma antiga bombarda, com estopim e pólvora, que daria um tiro violento, a qualquer hora do dia ou da noite, cada vez que um cliente tivesse gasto mil dólares. Esse projeto sedutor, mas muito pouco democrático, nunca se realizou. Fica consignada a ideia. É interessante imaginar um modesto empregado, num prédio vizinho, acordado às quatro da manhã por um tiro de canhão, e dizendo à sua mulher, deitada ao seu lado: “Mais um patife que acaba de pagar mil dólares!”. [...]. Extraido da obra Meu último suspiro (Nova Fronteira, 1982), do controvertido cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

AS HORAS NUAS – [...] Cravo o olhar no baixo-relevo da parede onde há um jovem seminu montado num touro, agarrando-o pelos chifres. Mais próximo o ruído das suas sandálias no mármore polido. Não me volto nem mesmo quando sua mão afasta o pano que me cobre o ombro. Beija esse ombro, me toma pela cintura e colado ao meu corpo ele vai me levando adiante feito um escudo. Tombo de joelhos no leito, os cotovelos fincados no coxim. Agora ele me agarra pelos cabelos e puxa minha cabeça. Vou cedendo, o pescoço distendido em arco. Ainda não posso vê-lo colado assim às minhas costas nem me esquivar quando sua boca voraz mordeu minha nuca, devo ter gemido porque em seguida a boca procurou suavemente a minha orelha, contornou a orelha com a língua. Levantei-me de um salto mas ele me tomou com a mesma ferocidade do jovem do baixo-relevo domindo pelos chifres o touro esgazeado. Minhas pernas vão vergando submissas, escorregadias. Deixei cair a túnica e agora estamos nus e calmos, o suor correndo e se misturando. É a primeira vez, eu quis dizer para justificar minha inexperiência. Não consegui falar, inundado de um gozo tão profundo que em meio do tumulto fui tomado por um sentimento de paz. Nossas mãos se buscaram e se entrelaçaram ao longo dos corpos num aperto forte. E de novo sua voz turbilhonada e os meus soluços explodindo sem motivo, desencontradas as falas mas os corpos se encontrando e se ajustando. Eu te amo. [...]. Trecho extraído da obra As horas nuas (Nova Fronteira, 1989), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A ISCA – Vem viver comigo, sê o meu amor / E alguns novos prazeres provaremos / De areias douradas e regatos de cristal / Com linhas de seda e anzóis de prata. / Aí o rio correrá murmurando, aquecido / Mais por teus olhos do que pelo sol; / E aí os peixes enamorados ficarão / Suplicando a si próprios poder trair. / Quando tu nadares nesse banho de vida / Cada peixe, dos que todos os canais possuem, / Nadará amorosamente para ti, / Mais feliz por te apanhar, que tu a ele. / Se, sendo vista assim, fores censurada / Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás; / E se me for dada licença para olhar / Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti. / Deixa que outros gelem com canas de pesca / E cortem as suas pernas em conchas e algas; / Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes / Com engodos sufocantes, ou redes de calado. / Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso / Arranquem os cardumes acamados em baixios; / Ou que traidores curiosos, com moscas de seda / Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes, / Porque tu não precisas de tais enganos, / Pois que tu própria és a tua própria isca, / E o peixe que não seja por ti apanhado, / Ah!, é muito mais sensato do que eu. Poema do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE PAULO BRUSCKY
A arte do artista multimídia Paulo Bruscky. Veja mais aqui.

Veja mais:
Os véus dos céus & o prazer do amor, a música de Djavan, a arte de Luciah Lopez, o cinema de Christine Jeffs & Kirsty Gunn aqui.
Entrega na Crônica de amor por ela, Cesare Pavese, Theodor Adorno, Antonio Vivaldi, Ítalo Calvino, Ledo Ivo, Chiquinha Gonzaga, Luchino Visconti, Anne-Sophie Mutter, Maria Adelaide Amaral, Julião Sarmento, William Etty, Rosamaria Murtinho, Annie Girardot, Marize Sarmento & Grupo Carochinha – Maceió aqui.
Paul Feyerabend, Gilberto Mendes, Chaim Soutine, Sandra Scarr, Brian de Palma, Edwin Torres & Penelope Ann Miller aqui.
Indagorinha: Educação Brasileira, Reino dos Mamoeiros, Arranca-rabo & a batida Teibei aqui.
Quando Tomé mostrou ao que veio aqui.
O poeta chora aqui.
A menina do sorriso ensolarado aqui.
O que tiver de ser será aqui.
Todo dia é dia da criança aqui.
O equilíbrio mortevida do malabarista aqui.
Marilda Iamamoto & o Serviço Social, Marilena Cahí, Nise da Silveira, Guiomar Namo de Mello & Arriete Vilela aqui.
A cidade das torres & Antônio Cândido aqui.
Proclamação da República aqui.
A Era Vargas & a República aqui.
A Monarquia Brasileira aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica e ilustradora estadunidense Valentina Plishchina.
Veja mais aqui.

segunda-feira, setembro 04, 2017

ASCENSO, PAULO FREIRE, WALTER BENJAMIN, BUÑUEL, JANACÓPULOS, TONI MORRISON, ADRIANA ASTI, MANOEL BENTEVI & CATENDE

VOU DANADO PRA CATENDE – Isso é planta que brilha ou pulga do mato? É o trem das Alagoas, alesado! Eita! Lá vou eu pra terra da morena do cabelo cacheado. – Se assunte, seu cabra! É tupi ou do Congo? Larga de ser folgado, bestão! Ué, homem de Palmares só é macho se tiver furunfado de saia por aqui! Oxe, tais pensando que tais aonde, hem? É cana-caiana, maior canavial, haja cana da boa pra gente chupar! Ih, já chegou! E lá ia eu do Leão XIII pra Árvore da Vida, só pra ver a Mulher da Sombrinha sair meia noite do cemitério, na sexta de Zé-Pereira. Coisa mais bonita de se ver. Ah, como era bão! Saía trocando as pernas pelo arruado da usina até subir pra Serra da Prata e de lá vê o Caudal de Pelópidas, os versos cantados de Bartyra, jogando conversa fora nos copos e meiotas com Marcos Catende, até findar no mundo perdido: - Onde é que eu estou? Isso aqui é bom demais! – Te aquieta, fuleiro! Lá eu namorava as estrelas de todas as constelações! Tinha moça bonita pra passar troco e ficar todo trocado! Uma infieira de moça sestrosa e de tuia! Cada uma mais linda que a outra! Valei-me que assim eu folgo! – Segura o jipe, safado, essa tua cachaça já está passando da conta! Ah, quanto seio bonito, quanta coxa de perna jeitosa, ah, é embaixo duma saia dessa que eu quero me esconder! Eu quero é mandar ver até me perder no trevo pra correr bicho em Lage Grande. – Ah, já passou, tais quase é em Agrestina! Danou-se! Ah, se não tem história, eu invento. Faz a volta, cambiteiro, que o paraíso é lá pra trás. Vambora pra terra de mulher vistosa! Eu só espichando o pixaim, metido a poetar: se o mundo está de pernas pro ar, não sou eu que sozinho vou essa zona consertar. Né, não? E se tudo está troncho de tão desfigurado, é que fazem dum redondo findar mais que quadrado! U-hu! A coisa está bisonha e cheia dos tremeliques, é que não tem nada de sério, vai se ver, é só trambique! O pencó está engrossando, chega mudar de figura! Pois é, tanta chatice tola pra pouca criatura. É gente como a praga de gravata lavada, tem até enxerido sem lenço só dizendo: é descontramantelo da desembestação! É a maior danação! Eu só largando os meus motejos, todo cheio de tantos brocardos, haja quantos adágios entre fogos e ventos, pelos raios dos trovões, pelas clareiras e coivaras, e eu todo bacurau feito flecha entre cunhatãs e cunhãs: quando aparecia a papaceia na boquinha da noite é que as mocinhas biqueiras faziam as onze e eu lá só espiando, mutuca no roçado, só curtindo o cheiro das calcinhas estufadas minando nas intimidades. Ah, quanto cangote cheiroso de moça namoradeira que passa toda reboladeira e eu na tubiba pra fazer sopa. Só se ouvia as mães aflitas gritando: - Segura chinela na sola do pé, menina! E eu só ali amoitando o gingado dela. – Se ajeite, sem-vergonha! Oxe, nunca fui desses mecos! Mentira, foi sim. Vixe! Querem queimar meu filme! Destá! Estou ligado é no percurso dos pés andejos das mocinhas que querem se perder por aí, preu achar agorinha! E quanto mais ela ia pra lá e pra cá, mais eu queria era ficar. E de vez! Nem vontade de voltar dá. Só me perder num fungado e ficar agarrado nela de nunca mais largar, só na cantiga do trem: vou danado pra Catende, Ascenso, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Ascenso Ferreira, Inezita Barroso, Alceu Valença, Brapo: Brasília Popular Orquestra & Manoel Carvalho, Lucinha Guerra & Punhal de Prata- Alessandra Leão & Rafa Barreto. Para conferir é só ligar o som e curtir.

NOS TEMPOS DA PRAIEIRA – O voto livre e universal do povo brasileiro. A plena e absoluta liberdade de comunicar os pensamentos por meio da imprensa; o trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro; a inteira e efetiva independência dos poderes constituídos; a extinção do Poder Moderador, e do direito de agraciar; o elemento federal na nova organização; completa reforma do Poder Judicial, em ordem a assegurar as garantias dos direitos individuais dos cidadãos; extinção da lei do juro convencional; extinção do atual sistema de recrutamento. Princípios estabelecidos no Manifesto de 1º de janeiro de 1849, extraídos da obra Os tempos da Praieira (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981), do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984). Veja mais aqui.

CERTO TEMPO DEPOIS - [...] Durante séculos, um pequeno número de escritores encontrava-se em confronto com vários milhares de escritores. No fim do século passado, a situação mudou. Mediante a ampliação da imprensa, que colocava sempre à disposição do público novos órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais, regionais, viu-se um número crescente de leitores – de início, ocasionalmente – desinteressar-se dos escritores. A coisa começou quando os jornais abriram suas colunas a um “correio dos leitores” e, daí em diante, inexiste hoje em dia qualquer europeu, seja qual for a sua ocupação, que, em princípio, não tenha a garantia de uma tribuna para narrar a sua experiência profissional, expor suas queixas, publicar uma reportagem ou algum estudo do mesmo gênero. Entre o autor e o público, a diferença, portanto, está em vias de se tornar cada vez menos fundamental. Ela é apenas funcional e pode variar segundo as circunstâncias. Com a especialização crescente do trabalho, cada individuo, mal ou bem, está fadado a se tornar um perito em sua matéria, seja ela de somenos importância; e tal qualificação confere-lhe uma da autoridade. [...] A competência literária não mais se baseia sobre formação especializada, mas sobre uma multiplicidade de técnicas e, assim, ela se transforma num bem comum. [...] a exploração capitalista da indústria cinematográfica recusa-se a satisfazer as pretensões do homem contemporâneo de ver a sua imagem reproduzida. Dentro dessas condições, os produtores de filmes têm interesse em estimular a atenção das massas para representações ilusórias e espetáculos equívocos. [...]. Trechos extraídos da obra A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (Brasiliense, 1994), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DA EDUCAÇÃO E DISCERNIMENTO - [...] Nós nos tornamos hábeis para imaginativa e curiosamente “tomar distância” de nós mesmos, da vida que portamos, e para nos dispormos a saber em torno dela. Em certo momento não apenas vivíamos, mas começamos a saber que vivíamos, mas saber que sabíamos e, portanto, saber que poderíamos saber. [...] Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de apreender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito. [...]. Trechos extraídos da obra Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido (Paz e Terra, 2000), do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997), que evidencia na obra Educação e mudança (Paz e Terra, 2014), que: [...] O saber se faz através de uma superação constante. O saber superado já é uma ignorância. Todo saber humano tem em si o testemunho do novo saber que já anuncia. Todo saber traz consigo sua própria superação. [...]. Veja mais aqui e aqui.

PARAÍSO NEGRO - [...] No marulho do mar, uma mulher negra como carvão está cantando. Junto a ela, uma mulher mais nova com a cabeça deitada em seu colo. Dedos estragados desfiam, cabelo castanho, cor de chá. Todas as cores de conchas, areia, rosa, pérola, fundem-se no rosto da mulher mais nova. Seus olhos cor de esmeralda adoram o rosto negro, emoldurado de azul-celeste. Em volta delas, na praia, detritos marítimos rebrilham. Tampas de garrafa cintilam ao lado de uma sandália quebrada. Um pequeno rádio quebrado toca o som das ondas. Nada pode vencer a consolação de que fala a cação de Piedade, embora as palavras evoquem memórias que não são de nenhuma das duas: de envelhecer na companhia de outrem, de palavras partilhadas e pão dividido fumegando no Forno, da plenitude ambivalente de voltar para casa para estar em casa, da simplicidade de retornar para o amor iniciado. Quando o oceano oscila, enviando ritmos de água para a praia, Piedade olha para ver o que veio. Mais um navio, talvez, mais diferente, indo para um ponto, tripulação e passageiros, perdidos e salvos, trementes, pois estão desconsolados há algum tempo. Agora, repousarão antes de enfrentar o trabalho sem fim que foram criados para fazer aqui, no Paraíso. Trecho extraído do romance Paraíso (Companhia das Letras, 1999), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison. Veja mais aqui.

LE FANTÔME DE LA LIBERTÉ – [...] Em o Fantasma da Liberdade, a própria narrativa inicial não surge espontaneamente, já que introduzida ou ligada a um fato histórico: a invasão da Espanha pelas tropas napoleônicas e sua estada e tropelias praticadas em Toledo, em 1812. Feito que, naturalmente, nada tem a ver com a trama fílmica, mas, que, significativamente, é referido no encerramento do filme como parábola da permanente (e até quando?) violência humana. O sinete inconfundível de Buñuel configura-se não só na engenhosidade dessa construção caleidoscópica, mas, principalmente, na elaboração e condução de cada caso. Nada limita imaginação formada ao influxo do anti-convencionalismo surrealista e batizada pelas preocupações e virtualidades inicialmente enumeradas. A surpresa, o insólito, o nonsense e o exato oposto do habitual e do costumeiro se estabelecem, dominam e medeiam as narrativas. O que se tem, então, é o avesso das coisas dirigido com mestria e informado ou formado por acerba visão critica do comportamento humano. Não da condição humana, que não está em causa. Condicionado por atitude otimista, que, apesar e além de tudo, ainda acredita na espécie humana (daí a ternura ou pelo menos a objetividade com que conduz as personagens), concentra Buñuel seu enfoque ou incisão no modo de agir, no convencional e na hipocrisia do ser humano in societas, no seu interrelacionamento social, mesmo que muito dessa performance origine-se ou seja característica congênita dessa condução. Trecho de O fantasma da liberdade: o avesso das coisas, extraído da obra O cinema de Buñuel, Kurosawa e Visconti: ensaios de crítica cinematográfica (Dimensões, 2013), do advogado e escritor Guido Bilharinho, editor da revista internacional de poesia e autor de livros de Literatura, Cinema e História do Brasil e Regional, sobre a obra O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la liberté, 1974), do cineasta espanhol Luís Buñuel (1900-1983). Veja mais aqui e aqui. Veja também a Revista Dimensão aqui.

A ARTE DE ADRIANA ASTI
A arte da atriz italiana de teatro, cinema e voz Adriana Asti.

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Poemas de Ascenso Ferreira aqui.
A mulher da sombrinha aqui.
Caudal do Una de Pelópidas Soares aqui.
A arte de Lucinha Guerra aqui.
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OS MOTES GLOSADOS DE MANOEL BENTEVI
Da bobina para o distribuidor
Há um cabo que passa uma centelha clara.
Meto o pé no arranco, ele dispara.
Toda vez que acelero meu motor,
O combustível entra no carburador.
A entrada de ar transforma o gás.
Com a compressão que ele faz,
Forma o jato, o êmbolo vai subindo
Vai queimar na cabeça do cilindro,
A fumaça da gasolina sai por trás.
(Mote: Toda vez que acelero meu motor, a fumaça da gasolina sai por trás)
O meu carro caiu numa rieira,
Era larga, atolava e era funda.
Passei de primeira pra segunda,
E passei de segunda pra primeira.
A buzina do carro era uma campa.
O radiador esquentou, saltou a tampa.
Vi o abismo e fiquei atarantado.
O ajudante pulou e gritou de lado:
Abra o olho, chofer, agora é rampa!
(Mote: Abra o olho, chofer, agora é rampa!)
Poemas extraídos da obra Desmanchando o nordeste em poesia (Bagaço, 1986),
do poeta popular Manoel Bentevi. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultura Adriana Janacópulos (1897-1978).
Veja mais aqui.

sábado, maio 02, 2015

MARUJA TORRES, JUSTINE, JOHN DONNE, FANNI KAPLAN & IBSEN

 


A DOR DE FANNI – Era ela uma jovem entre sete irmãos de uma família judia camponesa. Precocemente tornou-se revolucionária política aliando-se aos socialistas, tornando-se militante do partido. Não demorou muito e a primeira prisão ocorreu aos 16 anos de idade, por envolver-se com um atentado terrorista em Kiev, enviada para um campo de prisioneiros de trabalhos forçados, a katorga. Dez anos depois foi libertada com a revolução que derrubou o governo imperial. Conflitos entre revolucionários e bolcheviques, levaram-na a se desiludir com o líder, por conta da dissolução da Assembleia Constituinte, uma medida soviética autoritária pela forte intriga entre as facções. A maioria dos partidos foram proibidos por conta da oposição ao Tratado de Brest-Litovski. Decidiu-se então por se vingar e assassinar o traidor da revolução. E ao abordá-lo depois de um discurso na saída de uma fábrica de Moscou, desferiu três tiros ferindo-o gravemente. Deu-se então a perseguição implacável aos oponentes. Foi capturada, presa e, poucos dias depois, foi levada às mãos da Cheka, para ser interrogada: assumiu sozinha a autoria do atentado. Foi sentenciada à morte por fuzilamento. Daí, 4 dias depois do atentado, juntamente com outros tantos acusados oponentes, foi executada sem julgamento. Veja mais abaixo e mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Meu nome é Fanya Kaplan. Hoje eu desafiei Lenin. Eu fiz isso sozinho. Certamente não vou dizer de quem obtive meu revólver. Não darei nenhuma informação. Eu tinha concordado em matar Lenin há muito tempo. Eu o considero um traidor da Revolução. Fui expulso do Akatui por participar de um esforço de assassinato contra um oficial czarista em Kiev. Eu trabalhei duro durante 11 anos. Depois da Revolução, fui libertado. Eu era a favor da Assembleia Constituinte e ainda sou a favor dela. Depoimento da revolucionária russa Fanni Kaplan (Fanni Yefimovna Kaplan – 1890-1918), que tentou assassinar Lenin em 1918.

 

ALGUÉM FALOU: Como eu poderia ter chegado aqui? Eu vou te contar rapidamente. Momento a momento... Pensamento da escritora e jornalista espanhola Maruja Torres (Maria Dolors Torres Manzanera), que em seu livro Mujer en guerra. Más másters da la vida (Suma de Letras, 2000) ela expressou: [...] A reportagem foi enfraquecida, suplantada pelo espetáculo. Os diários Eles imitavam a televisão, o pior da televisão, o sensacionalismo. O leitor se tornaria público e depois um cliente... Fiquei aquém, naturalmente. Eu não tinha ideia do que estava por vir. Nenhum nós tivemos isso [...] As frases mais detestáveis e perigosas que um chefe pode dizer no jornalismo: “O que o público quer…” Até onde eu sei, o jornalismo Ela existe para contar o que está acontecendo, quer o público, seu destinatário, goste ou não. Ou seja: informar. A grandeza do jornalismo é informar apesar da autoridade; mas também fazê-lo mesmo que isso possa causar-lhe trazer impopularidade entre sua clientela [...] O relatório que fiz na África do Sul […] a primeira parte fala sobre a brancos, e como eles se convenceram de sua superioridade racial através de sutis mecanismos messiânico-paternalistas, para encobrir o que que nada mais era do que pura e simples exploração econômica [...] Quero insistir que não devemos culpar apenas os empresários e gestores. da tendência atual do jornalismo se tornar um espetáculo; ter lutar para sobreviver em um mundo confuso onde a competição ficou selvagem. Quero enfatizar que é responsabilidade do jornalista mantém a dignidade do seu produto. É desanimador que pessoas que conseguiram desafiar a censura mais forte, não sejam tão faça o mesmo com o mercado sacrossanto [...] Daquela guerra perdida pela informação surgiu uma forma tão pouco dissidente como a realidade que reflete: um jornalismo que raramente questiona os estereótipos, raramente questiona os confiabilidade das fontes... e que ele aceita como um fato do qual não há a necessidade de bajular e estimular o leitor retorna, hoje convertido em cliente, para aumentar o consumo do produto [...]. A respeito da obra ela expressa que: [...] é a história de como cheguei até aqui fugindo da mulher que queriam que eu fosse. Minha companheira, meu amor, minha amiga, minha professora e minha juíza ao longo desta aventura se chama Jornalismo. Ele me deu países, conflitos, guerras, choques, perdas e, sobretudo, encontros. Tantos ensaios, tantas experiências que não consigo nem enumerá-los neste pequeno texto [...]. Ela é autora de obras tais como: Como una gota (1995), Un calor tan cercano (1998), Mientras vivimos (2000), Hombres de lluvia (2004), La amante en guerra (2007) e Esperadme en el cielo (2009). Veja mais aquí.

 


Imagem: O jardim das delícias (The Garden of Earthly Delights, Museu do Prado, Madrid), do pintor e gravador holandês Hieronymus Bosch (1450-1516). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Curtindo Lunário Perpétuo (2002), do artista e músico pernambucano Antonio Carlos Nóbrega. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

ÉTICA A NICÔMACO - No Dia Nacional da Ética nada mais apropriado que uma leitura à obra Ética a Nicômaco (Martin Claret, 2012), do filósofo grego Aristóteles, no qual o autor investiga o tipo de saber que se pode obter acerca da conduta, levando em conta a situação concreta do homem, um ser que está acima do animal, mas que não pode ser definido apenas pela pura razão. Neste meio-termo se colocará o que se deve entender especificamente por virtude. Da obra destaco os seguintes trechos: Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas. Ora, como são muitas as ações, artes e ciências, muitos são também os seus fins: o fim da arte médica é a saúde, o da construção naval é um navio, o da estratégia é a vitória e o da economia é a riqueza. Mas quando tais artes se subordinam a uma única faculdade — assim como a selaria e as outras artes que se ocupam com os aprestos dos cavalos se incluem na arte da equitação, e esta, juntamente com todas as ações militares, na estratégia, há outras artes que também se incluem em terceiras —, em todas elas os fins das artes fundamentais devem ser preferidos a todos os fins subordinados, porque estes últimos são procurados a bem dos primeiros. Não faz diferença que os fins das ações sejam as próprias atividades ou algo distinto destas, como ocorre com as ciências que acabamos de mencionar. [...] A julgar pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles, e os homens de tipo mais vulgar, parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos. Pode-se dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar, a vida política e a contemplativa. A grande maioria dos homens se mostram em tudo iguais a escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de Sardanapalo [...] Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se. e cresce graças ao ensino — por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; com efeito, nada do que existe naturalmente pode formar um hábito contrário à sua natureza. Por exemplo, à pedra que por natureza se move para baixo não se pode imprimir o hábito de ir para cima, ainda que tentemos adestrá-la jogando-a dez mil vezes no ar; nem se pode habituar o fogo a dirigir-se para baixo, nem qualquer coisa que por natureza se comporte de certa maneira a comportar-se de outra. [...] Numa palavra: as diferenças de caráter nascem de atividades semelhantes. É preciso, pois, atentar para a qualidade dos atos que praticamos, porquanto da sua diferença se pode aquilatar a diferença de caracteres. E não é coisa de somenos que desde a nossa juventude nos habituemos desta ou daquela maneira. Tem, pelo contrário, imensa importância, ou melhor: tudo depende disso. [...] O mesmo acontece com a temperança, a coragem e as outras virtudes, pois o homem que a tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que não teme absolutamente nada, mas vai ao encontro de todos os perigos, torna-se temerário; e, analogamente, o que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se intemperante, enquanto o que evita todos os prazeres, como fazem os rústicos, se torna de certo modo insensível. [...] A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo. E assim, no que toca à sua substância e à definição que lhe estabelece a essência, a virtude é uma mediania; com referência ao sumo bem e ao mais justo, é, porém, um extremo. [...] Após estudar essas coisas teremos uma perspectiva mais ampla, dentro da qual talvez possamos distinguir qual é a melhor constituição, como deve ser ordenada cada uma e que leis e costumes lhe convém utilizar a fim de ser a melhor possível. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

SONETOS DE MEDITAÇÃO – O livro Sonetos de Meditação (Philobiblion, 1985) do poeta metafísico inglês John Donne (1572-1631) reúne seus sonetos divididos em duas partes Coroa de Sonetos e Sonetos Sacros, em edição bilíngue. O autor alcançou sua notabilidade por sua linguagem vibrante, metáfora engenhosa e pela expressão de um estilo realista e sensual que incluía sonetos, poesias amorosas, poemas religiosos, epigramas, elegias, canções, sermões e sátiras. Anunciação é o primeiro dos seus sonetos destacados: A salvação de quem a deseja está perto; / quem anda pelas terras que este mundo comporta, / quem não pode pecar – e os pecados suporta, / quem não pode morrer – e a morte é seu fim certo, / deixa, Virgem fiel, que Todos se acaentem / na prisão de teu ventre; e lá, embora não / possam pecar, e nem lhes dês a carne, vão / tê-la, para que a força da morte experimentem. / Nem criado era o tempo nas esferas, Senhora, / e estavas já na ideia de Deus, teu Filho, e Irmão; / Ele, a quem concebeste, te concebera, e agora, / Criadora do Criador, de teu Pai és mãe, / luz na treva, enclausuras em pequeno guardado / a imensidade toda no ventre abençoado. Natal é o segundo dos seus destacados sonetos: A imensidade toda no ventre abençoado, / Agora deixa o ventre, bem amada clausura / onde, por seu querer, se fez uma criatura / fragílima, e eis no mundo nosso Deus encarnado. / Mas, oh! Para ti, e ele, não há no albergue um pouso? / Na manhedoura estava, e vindo do Oriente, / estrela e magos põem a família ao corrente / do decreto de Herodes, general invejoso. / Minha alma, que teus olhos de fé por ele passes: / Ele enche o espaço todo, e não tem um abrigo? / Não era alta piedade dele para contigo / que lhe fosse preciso que dele te apiedasses? / Beija-o, e com ele foge para o Egito, vai, parte / com sua doce mãe, que a imensa dor reparte. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CASA DE BONECAS – O revolucionário drama em três atos Casa de bonecas (1878 - Veredas, 2007), do dramaturgo do Realismo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), é uma tragédia em que o autor questiona as convenções sociais do casamento retratando a hipocrisia e convencionalismos da sociedade do final do século XIX, causando muitas polêmicas, censura e grande repercussão entre feministas. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] HELMER Está tudo acabado! Você nunca mais vai pensar em mim, Nora? NORA Vou pensar muitas vezes em você, é claro, e nos meus filhos, e na casa. HELMER Posso lhe escrever, Nora? NORA Não! Nunca. Proibo-o de fazer isso. HELMER Ah, mas decerto posso lhe enviar algo. NORA Nada, nada. HELMER Ajudá-la, se você precisar. NORA Não, já lhe disse. Não aceito nada de estranhos. HELMER Nora... nunca passarei de um estranho para você? NORA (segurando a maleta) Ah! Torvald, para isso seria preciso o maior dos milagres. HELMER E qual seria o maior dos milagres? NORA Seria preciso transformarmo-nos os dois a tal ponto... Ah, Torvald! Já não mais acredito em milagres. HELMER Eu, porém, quero crer neles. Diga. Deveriamos nos transformar a tal ponto que... NORA ...que a nossa união se transformasse num verdadeiro casamento. Adeus. (Sai pela porta da saleta) HELMER (caindo numa cadeira junto à porta e cobrindo o rosto com as mãos) Nora! Nora! (Ergue a cabeça e olha em tomo de si) Está vazia, ela não está mais aqui! (Com um vislumbre de esperança) "O maior dos milagres!" Ouve-se, vindo de baixo, o bater do portão. Veja mais aqui & aqui.

JUSTINE: AS DESGRAÇAS DA VIRTUDE – O clássico da literatura erótica Justine: as desgraças da virtude (Justine ou les Malheurs de la vertu), é uma das inesquecíveis obras do escritor francês Donatien-Alphonse-François, mais conhecido como Marquês de Sade (1840-1814), que conta a história de duas damas que se tornam vítimas da bancarrota de seus familiares e se tornam passageiras à mercê da vida. Trago esse trecho inicial da obra: A senhora condessa de Lorsange era uma dessas sacerdotisas de Vênus cuja fortuna é obra de uma figura encantadora, de muito comportamento mau e de muita trapaça, e cujos títulos, por mais pomposos que sejam, não se encontram nos arquivos de Cítera, forjados pela impertinência que lhes dá forma e mantidos pela tola incredulidade de quem os dá. Morena, muito viva, de belo corpo, olhos negros e dotados de uma expressão prodigiosa, muito espírito e, sobretudo, aquela incredulidade da moda que, dando mais chiste às paixões, faz procurar com muito mais cuidado hoje a mulher em quem julgamos encontrá-lo. Filha de grande comerciante da Rue Saint-Honoré, foi criada com uma irmã três anos mais nova que ela, num dos melhores conventos de Paris onde, até os quinze anos, nenhum conselho, mestre, bom livro ou talento lhe foi recusado. Nessa época fatal para a virtude de uma jovem, tudo lhe faltou num único dia. Uma terrível bancarrota atingiu seu pai, precipitando-o numa situação tão cruel que tudo o que pôde fazer para escapar à sorte mais sinistra foi fugir imediatamente para a Inglaterra, deixando as filhas com sua mulher que morreu de tristeza oito dias após a partida do marido. Um ou dois parentes que restavam deliberaram sobre o que se faria com as moças. O que cabia a cada uma eram cerca de cem escudos e eles decidiram abrir-lhes as portas, dar-lhes o que lhes era de direito e torná-las senhoras dos seus próprios atos. A senhora de Lorsange, que então chamava-se Juliette e cujo caráter e espírito estavam apenas quase formados de modo que, aos trinta anos, sua idade quando da história que vamos contar, pareceu impressionar-se apenas com o prazer de estar livre, sem refletir, por instante sequer, nos cruéis reveses que lhes rompiam os grilhões. Quanto à Justine, sua irmã, que apenas completava doze anos, dotada de um caráter sombrio e melancólico e de uma ternura e de uma sensibilidade surpreendentes, tendo em lugar da arte e da finura de sua irmã apenas uma ingenuidade, uma candura, uma boa fé que a fariam cair em muitas armadilhas, esta sentiu todo o horror da sua posição. O rosto desta jovem era totalmente diferente do da Juliette; o que se via de artifício, de astúcia, de coquetismo nos traços de uma, admirava-se o pudor, a delicadeza e a timidez na outra. Um ar de virgem, de grandes olhos azuis cheios de interesse, uma pele resplandecente, um corpo fino leve, um tom de voz tocante, a mais bela alma e o caráter mais doce, dentes de marfim e belos cabelos louros, este o esboço rápido de uma jovem encantadora, cujas graças ingênuas e traços delicados são de um estilo fino e delicado demais para não escapar ao pincel que gostaria de reproduzi-los. As duas receberam um prazo de vinte e quatro horas para saírem do convento, deixando os cuidados de se proverem dos seus cem escudos como bem quisessem. Juliette, encantada com a idéia de ser dona de si mesma, quis por instantes enxugar as lágrimas de Justine, mas vendo que nada conseguia, pôs-se a resmungar em vez de consolá-la, dizendo-lhe que ela era uma besta, e que com a idade e o corpo que tinham, não havia porque seguir o exemplo das jovens que morriam de fome. E falou da filha de um vizinho seu, que fugira da casa paterna e agora era faustosamente sustentada por um fazendeiro e tinha sua carruagem para passear em Paris. Justine sentiu-se horrorizada com esse exemplo pernicioso e disse que preferia morrer a segui-lo e recusou-se decididamente a aceitar morar com a irmã tão logo a viu decidida a seguir um tipo de vida abominável mas que Juliette elogiava. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

EU E MINHA MANEIRA DE SER – A poeta gaúcha de Bagé Marilene Alagia Azevedo, edita o blog Eu e Minha Maneira de Ser e reúne também seus poemas no Recanto das Letras. Da sua lavra destaco Solidão: É o corpo / É a alma / É o grito... / É o coração aflito / Febre / Que queima / O interior / Luxuria / Que nas veias tem / Que grita! / Já muito além / Fazendo ouvir / Ao longe / Chamando por seu amor / Em desespero continuo / Incendiando o ser / Fogo que faz nascer / Gemidos de prazer e dor / Em busca do seu amor / Para poder ir dormir / Desejos que faz sentir / No toque firme das mãos / Gemidos do coração / Madrugadas solidão. Também merece destaque o seu Inexplicável: Explicar/ O inexplicável / Entre o êxtase / E o gozo! / Os sonhadores / êxtases / Os normais / Gozo... / Onde as vezes repouso / Depois do extase profundo/  Onde a alma vagueia / Na silhueta amada / Onde o gozo não nota / Extasiado não está! / Gozo não perde chão / Gozo sabe o que faz / Gozo tem sensações / Gozo... Pouca emoção / Ah! O gozo! / Gozo de ti / Gozo de mim / Pobres criaturas / Sem vida nenhuma / Apenas gozar! / Prefiro o êxtase / O que embriaga / Que arraza e acalma / Atira ao espaço / Navega nos braços / Em todos os espaços / Habita-o num todo / repousa no torso / Depois de saciar / Mas como explicar? / De as vezes precisa / Misturar / êxtase e gozo / Para se completar. / Inexplicável sentir / Transportar / Silhueta tão sua / Lhe deixa prostrada / Sem nunca tocar. Veja mais aqui.

O ANJO EXTERMINADOR – O filme O anjo exterminador (1962) dirigido pelo cineasta espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel (1900-1983), é baseado na peça Los náufragos, do escritor espanhol José Bergamin (1895-1983) e traz as influencias surrealistas que incidiram sobre a obra do autor, na historia de um grupo de burgueses criticando a superficialidade e o baixo nível intelectual e moral do mundo triste dessas pessoas, numa cena em que personagens ricamente esbanjadores se vêem trancafiados numa das salas de uma mansão após um jantar formal, tornados reféns de grades e portas imaginárias, numa postura de idiotia humana. Por isso, sou um assíduo apreciador da obra desse grande cineasta que desde a minha adolescência, tem se delineado por toda minha existência. Não posso, em nenhum momento menor que seja, deixar de aplaudir a grandiosidade de sua obra. Salve, Buñuel! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui , aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem do artista plástico pernambucano Darel Valença Lins.
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Veja mais sobre:
À procura da paternidade, A trombeta do anjo vingador de Dalton Trevisan, Vivendo com as estrelas de Duília de Mello, Lenda & Arte de Ernst Kris & Otto Kurz, a música de Cristina Braga & a pintura de Ernest Descals aqui.

E mais:
Brincarte do Nitolino, a literatura de Hermilo Borba Filho, Estética da criação verbal de Mikhail Bakhtin, Estado de sítio de Albert Camus, a música de Luis Gonzaga & Guerra Peixe, a poesia de Stella Leonardos, o cinema de Ettore Scola & Sophia Loren, a arte de Léon Bakst & a pintura de Patrice Murciano aqui.
A música de Nando Lauria aqui.
Sonetos de Meditação de John Donne, Justine de Marquês de Sade, Ética a Nicomaco de Aristóteles, Casa de bonecas de Henrik Ibsen, a música de Antonio Carlos Nóbrega, O anjo exterminador de Luis Buñuel, a pintura de Darel Valença Lins & Hieronymus Bosch, Ética & A maneira de ser de Marilene Alagia Azevedo aqui.
O amor de Naipi & Tarobá, Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim, a literatura de Luiz Ruffato.Improvisação para o teatro de Viola Spolin, a música de Vivaldi & Max Richter, a fotografia de Fernand Fonssagrives, a pintura de Fernand Léger, a arte de Regina Kotaka & Eugénia Silva aqui.
Penedo, às margens do São Francisco, O princípio da hipocrisia de Georges Bataille, a literatura de Adonias Filho, História da formação social do Brasil de Manoel Maurício de Albuquerque, a música de Bach & Rachel Podger, a arte de Marcel Duchamp, a pintura de Jaroslav Zamazal, a fotografia de Karin van der Broocke Zine Vanguard,& a arte de Kéfera Buchmann aqui.
Ela, marés de sizígia, Tratado da argumentação de Chaïm Perelman & Lucie Olbrechts-Tyteca, a poesia de Yone Giannetti Fonseca, Pensamento crítico de Walter Carnielli & Richard Epstein, Privatte Coletion de James Halperin, a música de Guilherme Arantes, Derek Van Barham & Vaudezilla, a pintura de Tom Pks Malucelli & Luciah Lopez aqui.
As olimpíadas do Big Shit Bôbras – O Big Bode, Os dragões do éden de Carl Sagan, A arte de furtar de Affonso Ávila, a música de Peter Machajdik, Microbiologia dos alimentos, Casa do Contador de História, a pintura de Brian Keeler & Gray Artus aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Vanguarda nordestina de Anchieta Fernandes, A arte poética de Walmir Ayala, Vanguarda e subdesenvolvimento de Ferreira Gullar, a música de Ira Losco, o cinema de Anna Muylaert, a arte de Michael Mapes, a pintura de Károly Lotz & Jean Dubuffet aqui.
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...