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domingo, fevereiro 15, 2026

LEÏLA SLIMANI, JANICE REBIBO, NARGES MOHAMMADI & AGUINALDO SILVA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Piano Concerto In E Flat Major & Violin Concerto in G Minor, da compositora, pianista e violinista britânica Alma Deutscher (Alma Elizabeth Deutscher), com a Orchestra of St. Luke's, sob a regência da maestrina Jane Glover, no Carnegie Hall (2019).

 


 Amorarte de Sabicaná... – O cantador violeiro, Ze Canário, vivia de xotes e toadas, na companhia de sua inseparável cadela, Caralâmpia, sua exclusiva ouvinte e vocal de apoio – enquanto ele se esgoelava blem blem, ela uivava uhuuu -, formando um duodeceto diuturno com a Lua – sua inquestionável Selenita - e o coral dum punhado de estrelas refulgentes. Assim, como um príncipe de poa, ensaiava com fibra a sua cantata narrando hestórias de alertas aos gases tóxicos e baixos níveis de oxigênio, dos quais alguns não resistiam finando emborcados. Porém, naquela noite, a despedida: Vou ganhar o mundo! Terras por conhecer, paisagens por explorar. Saudava a todos com o forró da dupla Carvalho & Zapata: Não precisa de dinheiro \ Pra me ouvir cantar \Eu sou canário do reino \ E canto em qualquer lugar... Presentes ali os sobreviventes de sempre: o Mineiro, DuReino, o Belga, Guirá-nheengatu, Turuna, Mutuca, incluindo o Azul Rejeitado da Fábula de Ledo Ivo e o seu primo que veio do estrangeiro, Harzer Roller, trazendo notícias do parente Cinzento: escondia-se da gata que ameaçava devorá-lo, mas não teve sorte, infelizmente foi capturado e preso numa gaiola, sofrendo muito de adoecer e morreu. Valha-me! Lamentaram a alma perdida e, logo em seguida, foram embalados com sua cantoria às batidas, trinados e rolos alternados. Muitas palmas e folia folgada. Ao final da seresta confessou ser aquele da antiga lenda celta do The Torn Birds da Colleen McCullough: cantaria pela última vez, a única na vida. E taciturno: Vou procurar um espinheiro alvar onde houver, para me empalar no acúlio mais comprido e agudo, no qual vou lançar meu lamento superlativo entre os galhos selvagens e um espinho cravado no peito sublimando a agonia para descansar em paz. Assim, pagarei meu preço, o mundo inteiro me ouvirá a pulso e Deus sorrirá no céu, quitando minha existência. Efusiva salva de palmas aos abraços solidários e tão abatumados com o frio da madrugada. Antes do nascer do Sol, ele partiu saudando o dia como um passarinho do açúcar. O último aceno no terminal rodoviário e, decidido a seguir em frente, ele a viu: olhos dela nele e vice-versa, fixados. Cruzaram mútuos, fisgados às passadas, viraram-se convergentes, ambos voltaram, um ao outro, defrontaram-se espantados, um sorriso recíproco. A iniciativa dela: Conheço você de algum lugar... E ele: Você também me é familiar. De onde? Nenhuma exatidão, especulavam e nisso ficaram: Será que... Não era. Por acaso... Nem, também. Checavam, nenhuma constatação plausível, nada batia. Nela o útero se revolvia; nele, um frio na barriga subindo pela coluna vertebral assanhando ideias. Aí, um verso de cá, uma rima de lá, ele dali e ela dacolá às estrofes e quadras. Ela puxava o mote, ele glosava, perguntas e respostas, vírgulas e pontos. E nisso iam tentando conversar. Mas eis que chegara a hora dele ir e dela ficar. Ele: Tenho de ir; e ela: Preciso prosseguir. Ele antecipava a saudade: Sua presença me trouxe bons presságios, quero escutá-la mais vezes pra valer a primavera. Ela: Será que ainda nos veremos? Quem sabe! É, quem sabe... Lamentaram a sorte, cada qual seguiu seu caminho, a sua sina: ela reconstruindo o passado, ele errando mundo afora. E se foram. Ele cantarolando: Sabiá canta na mata, descansa no pau agreste, um amor longe do outro, não dorme sono que preste! E invocou Catulo da Paixão Cearense: Sabiá lá no alto, da ingazeira serena, chorava como se fosse, uma viola de pena... E dizia pra si que precisava aprender a comer pimenta que nem sabiá. Ele se foi com suas perspectivas pelos 4 cantos do mundo; ela revolvendo memórias, desenterrando raízes, outros rizomas. Cada qual muitas noites e dias solitários, pensamento um no outro, inarredável, arrastavam-se esticando lonjuras. Batia a saudade nele e era Tom&Chico: Eu hei de ouvir cantar uma sabiá... Mas quem era ela? Menina achegada às pimenteiras, agarrada aos enviuvados passos da mãe carpideira, adolesceu no coral da igreja, enturmou-se no canto orfeônico, cantora lírica no conservatório, Diva estrelando espetaculares palcos de plateias estrangeiras. Nossa! Prali retornara para rever vivências antigas esgarçadas no tempo, os que se foram e o que restaria de seus laços íntimos, revolvendo ossos nas catacumbas das lembranças de seus entes queridos, desenterrando monturos no afã dum piso firme para sustentar seu lastro combalido. Nos baques da vida, fora iludida por um enrolão abastado, escapando de um aborto. Assim, um ano se passou e, num piscar de olhos, uma ou quase duas décadas, já era 5 de outubro de novo, aniversário dela, surpreendida pela reunião presencial de parentes longínquas de sabe-se lá quanto mais tempo: a Ponga, a Cavalo, Coca, Barriga-vermelha, Guaçu, Laranjeira, Una, Piranga, Gongá, Sabiacica, Sabiapiri, Sabiapoca, Sabiaúna, a do Peito-Roxo e a Da-Praia, todas as Túrdidas, até a prima Tordo-zorzal que veio da Patagônia. Ali juntaram transbordantes lágrimas emotivas e restos mortais, revivendo tempos de plantio e colheita, num culto à fertilidade, em louvor da Deusa-Mãe. Ao amanhecer, o momento zorzal: invocaram as ancestrais deusas Zoryas, as servas de Dazbog. A Utrennyaya logo abriu os portões celestiais da alvorada, era a estrela da manhã protegendo o mundo do escatológico cão Simargl. E delataram confidências ao meio dia e revelaram escondidos segredos ao entardecer. Ao crepúsculo, Vechernyaya, a estrela da noite, fechou os portões com o sexteto de Julian Cochran, enclausurando-as em sua festa noturna. Logo soaram as doze badaladas noturnas e trouxeram Polunochnaya, a Estrela da Meia Noite de Neil Gaiman, anunciando o regresso do amado. Ele ali retornara com os versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: Minha terra tem palmeiras, onde canta a sabiá... Ela sorriu felizarda, estava coroado seu presente de aniversário. E se atraíram exultantes e foram embalados pelo júbilo de uma sonata triunfal, um ensaio à dança nupcial. Suas mãos pegaram-se, seus corpos ascenderam estreitados e, agarrados cúmplices, levitaram aos ventos, flutuaram às alturas de nuvens oníricas e se deitaram entre árvores de folhagens densas na Lua minguante, como se reunissem arbustos, gravetos, flores, capim e cachos de banana para o ninho. Assim amaram e renasceram desejando o mesmo de Philemon e Baucis, nas Metamorfoses de Ovídio: seriam assim um carvalho e uma pessegueira entrelaçados de pé no terreno pantanoso da convivência a dois, voluntariamente consentidos pelos devires. Até mais ver.

 

Rebecca Goldstein: O que é o amor? Quando você ama alguém, quero dizer, todos nós queremos que coisas boas aconteçam conosco e que as ruins fiquem longe. Quando você ama alguém, você quer isso tanto para essa pessoa, ou até mais, do que para si mesmo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Helen Fielding: Está comprovado por pesquisas que a felicidade não vem do amor, da riqueza ou do poder, mas sim da busca por objetivos alcançáveis...Veja mais aqui, aqui & aqui.

Toni Morrison: Em algum momento da vida, a beleza do mundo se torna suficiente. Você não precisa fotografá-la, pintá-la ou mesmo se lembrar dela. Ela basta... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PREPARANDO-ME PARA O ROSH HASHANÁ

Imagem: Acervo ArtLAM.

O que estou perdendo\ Uma porta de banheiro, \ um vidro \ na porta do box, \ um varão de cortina de chuveiro, \ a janela entre minha cozinha e a área de serviço, \ uma lâmpada fluorescente, \ painéis solares , \ um terço \ do trilho da porta de correr da varanda da frente, \ um apêndice e duas amígdalas – uma velha história \ (exame do útero) \ (e dois seios), \ um carinho , \ as crianças, \ dinheiro, \ um cartão de crédito… \ o enfeite da grade, \ minha antena, \ minha tampa de gasolina.

Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015). Veja mais aqui.

 

SEXO & MENTIRAS - [...] Tornar-se mulher é uma jornada repleta de humilhações. Diante da polícia, do sistema judiciário e da esfera pública, ser mulher é uma desvantagem. [...] Um fardo pesado, de fato, para metade da população carregar. Idealizada e mitificada, a virgindade é claramente uma ferramenta de coerção concebida para manter as mulheres em casa e submetê-las à vigilância constante. É um objeto de preocupação coletiva, e não uma questão privada. Também se tornou uma dádiva econômica para aqueles que realizam dezenas de reconstruções de hímen todos os dias e para certos laboratórios que comercializam hímenes artificiais, supostamente projetados para sangrar durante a relação sexual. A miséria sexual, como veremos, é uma forma de capitalismo como qualquer outra. [...] Não se trata apenas de os direitos sexuais fazerem parte dos direitos humanos: sabemos que foi explorando a falta deles que os homens chegaram a dominar tantas civilizações. [...] Uma mulher cujo corpo é submetido a tal controle social não pode desempenhar plenamente seu papel como cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Sexe et mensonges: La vie sexuelle au Maroc (Les Arenes, 2021), da escritora e diplomata marroquina Leïla Slimani, que no seu livro Le parfum des fleurs la nuit (Stock, 2021), ela expressa que: […] Na minha opinião, nem o discurso que glorifica a riqueza da herança mista, nem aquele que se preocupa com ela, capta a complexidade de uma identidade dupla. Ela é, simultaneamente, um desconforto e uma liberdade, uma tristeza e uma fonte de exaltação. [...] As pessoas me perguntam de onde sou, e às vezes respondo que, não sendo nem um pedaço de carne nem uma garrafa de vinho, não tenho uma origem, mas uma nacionalidade, uma história, uma infância. Nunca exatamente daqui, nem exatamente de lá, por muito tempo me senti como se tivesse sido despojado de toda a minha identidade. Como um traidor, também, porque nunca consegui me integrar completamente ao mundo em que vivia. Eram sempre os outros que decidiam por mim quem eu era. [...] A dominação colonial —que acabou sendo entendida— não moldou apenas as mentes, mas também os coerpos, os constriñes e os encierra. O dominado não ousa mover-se, rebelar-se, ultrapassar os limites… ou os do seu bairro. Para expressar. [...]. Ela também é autora das obras La Baie de Dakhla: Itinérance Enchantée Entre Mer et Désert (Malika, 2013), Dans le jardin de l'ogre (Gallimard, 2014), Chanson Douce (Gallimard, 2016), Le diable est dans les détails (Éditions de l'Aube, 2016), Paroles d'honneur (Les Arènes, 2017) e Simone Veil, mon héroïne (Éditions de l'Aube, 2017). Veja mais aqui & aqui.

 

ATIVISMO CIVIL - Continuarei meus esforços até que alcancemos a paz, a tolerância à pluralidade de opiniões e os direitos humanos... Como ativista civil, sou uma das milhares de vítimas dessas torturas horríveis. Cheguei a esta conclusão: o objetivo do confinamento solitário é a lavagem cerebral, para que os prisioneiros, privados de condições normais de vida, percam suas características humanas únicas, seu raciocínio e suas ideias, e sua saúde física e psicológica. Tenho fé no caminho que escolhi, nas ações que tomei, assim como nas minhas crenças. Estou determinado a tornar os direitos humanos uma realidade e não me arrependo de nada. Se aqueles que dizem estar propagando a justiça são firmes em seu julgamento contra mim, eu também sou firme na minha fé e nas minhas crenças. Não vacilarei diante de punições tirânicas que limitam minha liberdade às quatro paredes de uma cela. Suportarei este encarceramento, mas jamais o aceitarei como legítimo, humano ou moral, e sempre me manifestarei contra esta injustiça. Não perdi a esperança, nem a motivação. Não podemos desistir. Ainda tenho esperança e acredito profundamente que os esforços incansáveis ​​dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos... Pensamento da ativista iraniana Narges Mohammadi, Prêmio Nobel da Paz de 2023 e vice-presidente do Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC). Em 2016 ela foi condenada a 16 anos de prisão em Teerã, por sua campanha pela abolição da pena de morte, contra a opressão das mulheres no Irã e pela sua luta na promoção dos direitos humanos e a liberdade para todos. Foi libertada e novamente presa em meados de dezembro de 2025, durante uma cerimônia fúnebre em Mashhad, quando iniciou uma greve de fome em protesto contra a detenção, denunciando ter permanecido em isolamento absoluto e sem qualquer contato externo. Agora, em 2026, um tribunal do Irã condenou a mais sete anos e meio de prisão, ampliando a série de sentenças impostas à ativista desde 2021. A nova condenação ocorre em um contexto de repressão intensificada após protestos registrados no país entre dezembro e janeiro, desencadeados inicialmente pela desvalorização da moeda iraniana e que evoluíram para manifestações contra o regime. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE AGUINALDO SILVA

[...] Meus pais eram pobres. Meu pai trabalhava num posto de gasolina da cidade, onde vendia peças para carros. Era um homem de pouca cultura e educação, mas tinha uma preocupação muito grande com a minha educação [...] Quando nos mudamos para o Recife, no bairro Aflitos, ao lado de minha casa morava um senhor. A filha dele, uma moça chamada Gleice – eles tinham uma biblioteca enorme que era possível ver do meu quintal –, um dia me notou e perguntou se eu gostava de ler. Quando respondi que sim, ela disse que me emprestaria os livros do pai dela. Foi aí que li tudo que se possa imaginar, inclusive coisas que não eram para a minha idade. Daí comecei a escrever [...] Fui preso no dia 5 de novembro de 1969 e solto no dia 10 de fevereiro de 1970. Daí, voltei para O Globo e fui aceito como se nada tivesse acontecido. Fizeram até uma feijoada numa sexta-feira esperando que eu contasse alguma coisa, mas não contei merda nenhuma. Fiquei traumatizado durante muito tempo [...] Mas não tenho a ilusão de que influencio de alguma maneira o universo, de que estou ajudando a mudar o mundo. Não, não é nada disso. Faço o meu trabalho, sou um profissional e dou tudo de mim. Sempre! [...].

Trechos da entrevista Do brincar de escrever na infância ao sucesso na TV: 80 anos de Aguinaldo Silva (Itaú Cultural, 2023), concedida pelo dramaturgo, escritor, roteirista, jornalista, cineasta e telenovelista Aguinaldo Silva (Aguinaldo Ferreira da Silva), autor de obras como Redenção para Job (1960), Cristo partido ao meio (1965), Canção de sangue (1968), Geografia do ventre (1972), Primeira carta aos andróginos (1975), O crime antes da festa: a história de Ângela Diniz e seus amigos (1977), República dos assassinos (1979), A história de Lili Carabina (1983), Inimigo público (1984), 98 tiros de audiência (2006), Turno da noite: memórias de um ex repórter de polícia (2016) e Vendem-se corações despedaçados (2021), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

Osman Lins aqui.

Beth da Matta aqui.

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segunda-feira, setembro 04, 2017

ASCENSO, PAULO FREIRE, WALTER BENJAMIN, BUÑUEL, JANACÓPULOS, TONI MORRISON, ADRIANA ASTI, MANOEL BENTEVI & CATENDE

VOU DANADO PRA CATENDE – Isso é planta que brilha ou pulga do mato? É o trem das Alagoas, alesado! Eita! Lá vou eu pra terra da morena do cabelo cacheado. – Se assunte, seu cabra! É tupi ou do Congo? Larga de ser folgado, bestão! Ué, homem de Palmares só é macho se tiver furunfado de saia por aqui! Oxe, tais pensando que tais aonde, hem? É cana-caiana, maior canavial, haja cana da boa pra gente chupar! Ih, já chegou! E lá ia eu do Leão XIII pra Árvore da Vida, só pra ver a Mulher da Sombrinha sair meia noite do cemitério, na sexta de Zé-Pereira. Coisa mais bonita de se ver. Ah, como era bão! Saía trocando as pernas pelo arruado da usina até subir pra Serra da Prata e de lá vê o Caudal de Pelópidas, os versos cantados de Bartyra, jogando conversa fora nos copos e meiotas com Marcos Catende, até findar no mundo perdido: - Onde é que eu estou? Isso aqui é bom demais! – Te aquieta, fuleiro! Lá eu namorava as estrelas de todas as constelações! Tinha moça bonita pra passar troco e ficar todo trocado! Uma infieira de moça sestrosa e de tuia! Cada uma mais linda que a outra! Valei-me que assim eu folgo! – Segura o jipe, safado, essa tua cachaça já está passando da conta! Ah, quanto seio bonito, quanta coxa de perna jeitosa, ah, é embaixo duma saia dessa que eu quero me esconder! Eu quero é mandar ver até me perder no trevo pra correr bicho em Lage Grande. – Ah, já passou, tais quase é em Agrestina! Danou-se! Ah, se não tem história, eu invento. Faz a volta, cambiteiro, que o paraíso é lá pra trás. Vambora pra terra de mulher vistosa! Eu só espichando o pixaim, metido a poetar: se o mundo está de pernas pro ar, não sou eu que sozinho vou essa zona consertar. Né, não? E se tudo está troncho de tão desfigurado, é que fazem dum redondo findar mais que quadrado! U-hu! A coisa está bisonha e cheia dos tremeliques, é que não tem nada de sério, vai se ver, é só trambique! O pencó está engrossando, chega mudar de figura! Pois é, tanta chatice tola pra pouca criatura. É gente como a praga de gravata lavada, tem até enxerido sem lenço só dizendo: é descontramantelo da desembestação! É a maior danação! Eu só largando os meus motejos, todo cheio de tantos brocardos, haja quantos adágios entre fogos e ventos, pelos raios dos trovões, pelas clareiras e coivaras, e eu todo bacurau feito flecha entre cunhatãs e cunhãs: quando aparecia a papaceia na boquinha da noite é que as mocinhas biqueiras faziam as onze e eu lá só espiando, mutuca no roçado, só curtindo o cheiro das calcinhas estufadas minando nas intimidades. Ah, quanto cangote cheiroso de moça namoradeira que passa toda reboladeira e eu na tubiba pra fazer sopa. Só se ouvia as mães aflitas gritando: - Segura chinela na sola do pé, menina! E eu só ali amoitando o gingado dela. – Se ajeite, sem-vergonha! Oxe, nunca fui desses mecos! Mentira, foi sim. Vixe! Querem queimar meu filme! Destá! Estou ligado é no percurso dos pés andejos das mocinhas que querem se perder por aí, preu achar agorinha! E quanto mais ela ia pra lá e pra cá, mais eu queria era ficar. E de vez! Nem vontade de voltar dá. Só me perder num fungado e ficar agarrado nela de nunca mais largar, só na cantiga do trem: vou danado pra Catende, Ascenso, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, com vontade de chegar. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ: 24 HORAS NO AR!!!
Hoje na Rádio Tataritaritatá: Ascenso Ferreira, Inezita Barroso, Alceu Valença, Brapo: Brasília Popular Orquestra & Manoel Carvalho, Lucinha Guerra & Punhal de Prata- Alessandra Leão & Rafa Barreto. Para conferir é só ligar o som e curtir.

NOS TEMPOS DA PRAIEIRAO voto livre e universal do povo brasileiro. A plena e absoluta liberdade de comunicar os pensamentos por meio da imprensa; o trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro; a inteira e efetiva independência dos poderes constituídos; a extinção do Poder Moderador, e do direito de agraciar; o elemento federal na nova organização; completa reforma do Poder Judicial, em ordem a assegurar as garantias dos direitos individuais dos cidadãos; extinção da lei do juro convencional; extinção do atual sistema de recrutamento. Princípios estabelecidos no Manifesto de 1º de janeiro de 1849, extraídos da obra Os tempos da Praieira (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981), do advogado, jornalista, historiador e político brasileiro Costa Porto (1909-1984). Veja mais aqui.

CERTO TEMPO DEPOIS - [...] Durante séculos, um pequeno número de escritores encontrava-se em confronto com vários milhares de escritores. No fim do século passado, a situação mudou. Mediante a ampliação da imprensa, que colocava sempre à disposição do público novos órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais, regionais, viu-se um número crescente de leitores – de início, ocasionalmente – desinteressar-se dos escritores. A coisa começou quando os jornais abriram suas colunas a um “correio dos leitores” e, daí em diante, inexiste hoje em dia qualquer europeu, seja qual for a sua ocupação, que, em princípio, não tenha a garantia de uma tribuna para narrar a sua experiência profissional, expor suas queixas, publicar uma reportagem ou algum estudo do mesmo gênero. Entre o autor e o público, a diferença, portanto, está em vias de se tornar cada vez menos fundamental. Ela é apenas funcional e pode variar segundo as circunstâncias. Com a especialização crescente do trabalho, cada individuo, mal ou bem, está fadado a se tornar um perito em sua matéria, seja ela de somenos importância; e tal qualificação confere-lhe uma da autoridade. [...] A competência literária não mais se baseia sobre formação especializada, mas sobre uma multiplicidade de técnicas e, assim, ela se transforma num bem comum. [...] a exploração capitalista da indústria cinematográfica recusa-se a satisfazer as pretensões do homem contemporâneo de ver a sua imagem reproduzida. Dentro dessas condições, os produtores de filmes têm interesse em estimular a atenção das massas para representações ilusórias e espetáculos equívocos. [...]. Trechos extraídos da obra A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução (Brasiliense, 1994), do filosofo alemão Walter Benjamin (1892-1940). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DA EDUCAÇÃO E DISCERNIMENTO - [...] Nós nos tornamos hábeis para imaginativa e curiosamente “tomar distância” de nós mesmos, da vida que portamos, e para nos dispormos a saber em torno dela. Em certo momento não apenas vivíamos, mas começamos a saber que vivíamos, mas saber que sabíamos e, portanto, saber que poderíamos saber. [...] Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de apreender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito. [...]. Trechos extraídos da obra Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido (Paz e Terra, 2000), do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997), que evidencia na obra Educação e mudança (Paz e Terra, 2014), que: [...] O saber se faz através de uma superação constante. O saber superado já é uma ignorância. Todo saber humano tem em si o testemunho do novo saber que já anuncia. Todo saber traz consigo sua própria superação. [...]. Veja mais aqui e aqui.

PARAÍSO NEGRO - [...] No marulho do mar, uma mulher negra como carvão está cantando. Junto a ela, uma mulher mais nova com a cabeça deitada em seu colo. Dedos estragados desfiam, cabelo castanho, cor de chá. Todas as cores de conchas, areia, rosa, pérola, fundem-se no rosto da mulher mais nova. Seus olhos cor de esmeralda adoram o rosto negro, emoldurado de azul-celeste. Em volta delas, na praia, detritos marítimos rebrilham. Tampas de garrafa cintilam ao lado de uma sandália quebrada. Um pequeno rádio quebrado toca o som das ondas. Nada pode vencer a consolação de que fala a cação de Piedade, embora as palavras evoquem memórias que não são de nenhuma das duas: de envelhecer na companhia de outrem, de palavras partilhadas e pão dividido fumegando no Forno, da plenitude ambivalente de voltar para casa para estar em casa, da simplicidade de retornar para o amor iniciado. Quando o oceano oscila, enviando ritmos de água para a praia, Piedade olha para ver o que veio. Mais um navio, talvez, mais diferente, indo para um ponto, tripulação e passageiros, perdidos e salvos, trementes, pois estão desconsolados há algum tempo. Agora, repousarão antes de enfrentar o trabalho sem fim que foram criados para fazer aqui, no Paraíso. Trecho extraído do romance Paraíso (Companhia das Letras, 1999), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison. Veja mais aqui.

LE FANTÔME DE LA LIBERTÉ – [...] Em o Fantasma da Liberdade, a própria narrativa inicial não surge espontaneamente, já que introduzida ou ligada a um fato histórico: a invasão da Espanha pelas tropas napoleônicas e sua estada e tropelias praticadas em Toledo, em 1812. Feito que, naturalmente, nada tem a ver com a trama fílmica, mas, que, significativamente, é referido no encerramento do filme como parábola da permanente (e até quando?) violência humana. O sinete inconfundível de Buñuel configura-se não só na engenhosidade dessa construção caleidoscópica, mas, principalmente, na elaboração e condução de cada caso. Nada limita imaginação formada ao influxo do anti-convencionalismo surrealista e batizada pelas preocupações e virtualidades inicialmente enumeradas. A surpresa, o insólito, o nonsense e o exato oposto do habitual e do costumeiro se estabelecem, dominam e medeiam as narrativas. O que se tem, então, é o avesso das coisas dirigido com mestria e informado ou formado por acerba visão critica do comportamento humano. Não da condição humana, que não está em causa. Condicionado por atitude otimista, que, apesar e além de tudo, ainda acredita na espécie humana (daí a ternura ou pelo menos a objetividade com que conduz as personagens), concentra Buñuel seu enfoque ou incisão no modo de agir, no convencional e na hipocrisia do ser humano in societas, no seu interrelacionamento social, mesmo que muito dessa performance origine-se ou seja característica congênita dessa condução. Trecho de O fantasma da liberdade: o avesso das coisas, extraído da obra O cinema de Buñuel, Kurosawa e Visconti: ensaios de crítica cinematográfica (Dimensões, 2013), do advogado e escritor Guido Bilharinho, editor da revista internacional de poesia e autor de livros de Literatura, Cinema e História do Brasil e Regional, sobre a obra O Fantasma da Liberdade (Le Fantôme de la liberté, 1974), do cineasta espanhol Luís Buñuel (1900-1983). Veja mais aqui e aqui. Veja também a Revista Dimensão aqui.

A ARTE DE ADRIANA ASTI
A arte da atriz italiana de teatro, cinema e voz Adriana Asti.

Veja mais sobre:
Poemas de Ascenso Ferreira aqui.
A mulher da sombrinha aqui.
Caudal do Una de Pelópidas Soares aqui.
A arte de Lucinha Guerra aqui.
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OS MOTES GLOSADOS DE MANOEL BENTEVI
Da bobina para o distribuidor
Há um cabo que passa uma centelha clara.
Meto o pé no arranco, ele dispara.
Toda vez que acelero meu motor,
O combustível entra no carburador.
A entrada de ar transforma o gás.
Com a compressão que ele faz,
Forma o jato, o êmbolo vai subindo
Vai queimar na cabeça do cilindro,
A fumaça da gasolina sai por trás.
(Mote: Toda vez que acelero meu motor, a fumaça da gasolina sai por trás)
O meu carro caiu numa rieira,
Era larga, atolava e era funda.
Passei de primeira pra segunda,
E passei de segunda pra primeira.
A buzina do carro era uma campa.
O radiador esquentou, saltou a tampa.
Vi o abismo e fiquei atarantado.
O ajudante pulou e gritou de lado:
Abra o olho, chofer, agora é rampa!
(Mote: Abra o olho, chofer, agora é rampa!)
Poemas extraídos da obra Desmanchando o nordeste em poesia (Bagaço, 1986),
do poeta popular Manoel Bentevi. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultura Adriana Janacópulos (1897-1978).
Veja mais aqui.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

ÁGOTA KRISTOF, EWA LIPSKA, HÉLÈNE METZGER & DYLAN THOMAS


 

A SOLIDÃO DE DYLAN... - Ainda criança ouvia do seu pai, que era professor de escola primária, o costume de Shakespeare. Essa audição o fez, ainda menino a escrever mais de duzentos poemas. Logo dirigiu o jornal da escola e, na adolescência, largou tudo para ser repórter júnior no Dailly Post. Abandonou o trabalho para se concentrar na poesia em tempo integral. Mal completara 20 anos e seguiu para Londres, ganhador do prêmio Poet’s Corner, publicando seus 18 poems – um volume composto de cadernos de poesia escritos na adolescência. Começou a abusar do álcool, sem se preocupar com questões intelectuais ou sociais, mergulhado nas influências célticas, românticas e surreais. Quis servir à guerra, mas não foi convocado pelo comitê de recrutamento por conta de seus problemas de saúde. Esta uma grande decepção e somava-se às características da morbidez, pois já acreditava que não viveria muito. Era um mar voraz, indomável como as ondas de seu país. Não reconhecia nenhum limite em sua autodestruição e indisfarçável egoísmo. Aliciado por seus próprios excessos, o divertimento com sua obsessão, produzia e desperdiçava tempo, refugiando-se nos pubs. Tornou-se roteirista de cinema, fez documentários, uma celebridade: sua voz seduzia milhares de ouvintes, atraia novos admiradores; sua irreverência impressionava o mundo atônito. Um profundo solitário apaixonado pela sonoridade das palavras e estilo incrivelmente pessoal. Não tinha um tostão no bolso levado por suas fundas raízes telúricas, uma nostalgia pelo passado. Comportava-se como um perdulário, muito embora demonstrasse para todos não possuir nenhuma forma de usura ou de apego a bens materiais: um poeta puro, absoluto! Foi pros Estados Unidos com sua romântica teatralidade e porres homéricos, tornando-se figura lendária: um ídolo pros Beat. Arrebatou plateias com sua grave voz ao ler seus versos, influenciando um jovem compositor: Robert Allen Zimmerman – que tomaria seu nome para si. O inconformista que não deu certo com secretos desígnios na escolha nada fortuita e tão imoderado na música das ideias: A morte e a vida deixam de ser antíteses... Era visível seu declínio, os atritos com a esposa mais se agravavam, deteriorando-se rapidamente. Implorava por meio cartas desesperadas e pungentes uma reconciliação. E violentava-se a si mesmo e às palavras: sofria paroxismos de culpa. Deixou cadernos de poemas para trás e ingeriu quarenta canecas de cerveja: Este adorável planeta vai arder sob os efeitos da hecatombe nuclear... O poeta que simbolizava a vanguarda passou a ser visto como um personagem fora de moda e, com o declínio de sua reputação, não ficou impune às sequelas das bravatas alcoólicas ou ao insulto cerebral, nem a devastação perseguidora de uma legião de ninfomaníacas e, com os versos da longa e magnífica Elegia inacabada, sucumbiu de vez como um enfant terrible no Chelsea Hotel, subjugado pelo cansaço em Laugharme, de onde sua alma talvez jamais tenha saído. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - A vida sempre lhe oferece uma segunda chance. Isso se chama amanhã... Um bom poema é uma contribuição à realidade. O mundo nunca mais é o mesmo depois que um bom poema é adicionado a ele. Um bom poema de ajuda a mudar a forma do universo, ajuda a ampliar o conhecimento de todos sobre si mesmos e sobre o mundo ao redor... Gosto de pensar na poesia como declarações feitas a caminho do túmulo... Eu carrego uma fera, um anjo e um louco dentro de mim. Aquele que busca descanso encontra tédio. Aquele que busca trabalho encontra descanso. Alguém está me entediando. Acho que sou eu. O amor é a última luz falada. Embora enlouqueçam, eles permanecerão sãos; embora afundem no mar, eles se levantarão novamente; embora os amantes se percam, o amor não se perderá; e a morte não terá domínio. Pensamento do poeta gales Dylan Thomas (1914-1953), que ao nascer recebeu o seu nome extraído do Mabinogton, uma coletânea de manuscritos em prosa escritos em galês medieval, baseados em eventos históricos, no qual cada um dos quatro contos termina com um colofão que diz: “Assim termina este ramo do mabinogi" e que consta: “Nomearei este criança, e o nome que lhe darei será Dylan”. Assim, conforme Ivan Junqueira, no texto de Dylan Thomas, um perfil, da obra Dylan Thomas: poemas reunidos (1934-1953) (José Olympio, 1991), assinala: Assim foi chamado o menino de cabelos de ouro, e dirigiu-se diretamente para o mar. E, quando alcançou a praia, tornou-se de imediato parte do mar, compartilhou de sua natureza e nadou tão longe quanto a salamandra aquática. E, por essa razão foi por ele chamado Dylan Eil Ton, filho marinho das ondas. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O pensamento expansivo é aquele que corre ruidosamente e simultaneamente em todas as direções onde pode abrir caminho, que irá constantemente e irregularmente adiante sem parar um momento para contemplar com um olhar o terreno percorrido, e sem tentar construir um monumento doutrinário... Pensamento da filósofa francesa Hélène Metzger (1889–1944), que no seu estudo La méthode philosophique en histoire des sciences: Textes 1914–1939 (Fayard, 1987), expressou que: [...] penetrar com maior certeza e simpatia mais ativa o pensamento criativo do passado no qual ele infunde nova vida, que ele revive por um momento. Além disso, há um fator pessoal, subjetivo … que é impossível eliminar completamente; é melhor admiti-lo honestamente do que negá-lo a priori . Os historiadores, como todos os filósofos, como todos os cientistas e como todos os humanos, têm tendências inatas, modos de pensar individuais, mas imperceptíveis, que ainda não são opiniões ou mesmo sistemas de pensamento, mas que podem engendram tais opiniões e sistemas. [...]. Ela também é autora dos estudos La genèse de la science des cristaux (1918), Les doctrines chimiques en France du début du XVIIe à la fin du XVIIIe siècle (1923), Les Concepts scientifiques (1926), Newton, Stahl, Boerhaave et la doctrine chimique (1930), La chimie (1930), La Philosophie de la matière chez Lavoisier (1935), Attraction universelle et religion naturelle chez quelques commentateurs anglais de Newton (1938), La Science, l'appel de la religion et la volonté humaine (1954), La Méthode philosophique en histoire des sciences(1987), entre outros.

 

ONTEM – [...] Eu tinha apenas um desejo: ir embora, andar, morrer, tanto faz. Eu queria fugir, nunca mais voltar, desaparecer, derreter na floresta, nas nuvens, não ter mais memórias, esquecer, esquecer. [...]. Trecho extraído da obra Yesterday (Random House, 1997), da escritora húngara Ágota Kristof, que no seu livro Le grand cahier (Points, 1995) expressou que: [...] Para decidir se é “Bom” ou “Não Bom”, temos uma regra muito simples: a composição deve ser verdadeira. Devemos descrever o que é, o que vemos, o que ouvimos, o que fazemos. [...] Já no livro La prevue (Points, 1995), expressou que: [...] A dor diminui, as memórias desaparecem. O insone olha para Lucas: — Para diminuir, para esmaecer, eu disse, sim, mas para não desaparecer. [...]. Por fim, no seu livro Claus y Lucas (Booket, 2014), expressou que: [...] Tenho convicção que todo ser humano nasce para escrever um livro, só para isso. Um grande livro ou um livro medíocre, não importa, mas quem não escreve nada é um ser arruinado, que passou pela terra sem deixar vestígios. [...]. Veja mais aqui.

 

DOIS POEMASABISMO - Às vezes você vê gesso \ caindo das cabeças. \ A fachada da razão se desfazendo. \ História novamente. \ Por que voltar a isso, \ já que tudo está à nossa frente de qualquer maneira. \ Está feito. Não pode ser desfeito. \ Sento-me sob qualquer céu antigo \ e ouço o que a mediocridade tem a dizer. \ Nos livros de orações, \ um marcador anunciando \ aves anti-rugas. \ De todas as nações vocês sabem que \ Assassinos podem ser eliminados. ESTUDE A MORTE - Estude a morte. Aprenda de cor. \ Seguindo as regras de ortografia \ de palavras mortas. \ Soletre-os juntos \ como comunidade ou linho. \ Não divida \ entre os mortos. \ Você é o escolhido dos deuses. \ Estude a morte cedo. \ O amor ao país \ também pode ser mortal. \ Estude a morte \ no amor. \ Estude a morte não apenas \ para matar o tempo. \ O tempo pode ser suicida \ e ficar pendurado em uma árvore por horas. \ Teste você mesmo. \ Um verdadeiro teste ao vivo. Poema da poeta polonesa Ewa Lipska. Veja mais aqui.

 

SACADOUTRAS

 

NADJA – O escritor francês André Breton (1886-1966) que em 1924 lançou o Manifesto do Surrealismo pregando a liberdade total da imaginação como base para a liberdade total do ser humano. Líder do movimento surrealista, ele pretendeu que se gire em torno de três ideias básicas: o amor, a liberdade e a poesia. É no livro Nadja (1928) que ele apresenta mencionado que: Se, ao longo deste livro, o simples ato de escrever, para não mencionar o de publicar qualquer espécie de livro,já era classificado na categoria das vaidades, que seria de pensar da complacência do autor em querer, tantos anos depois, melhorar pelo menos um pouco a sua forma! Contudo convém distinguir, para o bem ou para o mal neste caso, entre o que se refere ao registro afetivo e se prende exclusivamente a ele - o que é, sem dúvida, o essencial -, e o que representa, no dia-a-dia, tão impessoal quanto possível, a inter-relação dos mínimos acontecimentos numa forma determinada (Feuille de charmille, de Lequier, sempre voltamos a ti!). Se é inevitável que a tentativa de retocar à distância a expressão de um estado emocional sem que se possa revivê-lo no presente, resulte em dissonância e frustração (Já o vimos bastante em Valéry, quando um insaciável anseio de rigor o levou a rever seus "versos antigos"), talvez não seja interdito querer obter um pouco mais de adequação de termos e também de fluidez. [...] Subjetividade e objetividade travam, ao longo de uma vida humana, uma série de combates, nos quais a primeira costuma sair-se inteiramente mal. Ao cabo de trinta e cinco anos (a fuligem não é brincadeira), os leves cuidados com que resolvo cercar a segunda testemunham apenas certa preocupação quanto à melhor forma de expressar, que só a esta dizem respeito, de vez que o maior valor da outra - que continua a me importar muito mais - reside precisamente na carta de amor crivada de erros e nos "livros eróticos sem ortografia".Veja mais aqui.

Imagem: Danae with Shower of Gold, do pintor sueco Adolf Ulrik Wertmüller (1751-1811)

Ouvindo Yanomami, op 47 (1980), do compositor erudito Marlos Nobre com o Coro Cervantes de Londres, condução de Carlos Fernandes Aransay, violão Fabio Zanon e o tenor Julian Stocker. Veja mais aqui.

DA ODISSEIA E DA ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO – O escritor grego Nikos Kazantzákis (1883-1957) é autor de umas das mais obras que se encontram no panteão da literatura universal. Tive a oportunidade de ler seus livros Zorba, o grego, Cristo recrucificado e A última tentação de Cristo, este último que virou filme homônimo dirigido pelo cineasta Martin Scorcese, em 1988. Numa antologia da poesia moderna da Grécia, o escritor José Paulo Paes alguns fragmentos do poema Da Odisseia, dos quais destaco o IX: “Minha mente, eu a deixo livre para anelar em segredo, desejar o que não tem mais, querer aquilo que perdeu; digo-te que seguro as rédeas, firme, com as duas mãos, mas meu cavalo solto sem temor nas pastagens do sonho. Eu te agradeço, Deus[...] o insaciável coração que me deste: ele festeja tudo sobre a terra e não se apega a nada”. Veja mais aqui, aquiaqui.

DO APRENDIZADO DO AR – O poeta, critico literário e letrista carioca Tanussi Cardoso já foi destacado Poeta do Mês no meu Guia de Poesia, ocasião que me concedeu uma entrevista quando do lançamento da antologia Rios. Entre os seus muitos poemas, destaco Do aprendizado do ar: imaginemos o ar solto na atmosfera / o ar inexistente à luz dos olhos / imaginemos o ar sem senti-lo / sem o sufocante cheiro de abelhas e zinabre / o ar sem cortes e fronteiras / o ar sem o céu / o ar de esquecimentos / imaginemos fotografá-lo / fantasma sem textura / moldura inerte / quadro de sugestões e aparências / imaginemos o ar / paisagem branca sem o poema / vácuo impregnado de Deus / o ar que só os cegos vêem / o ar silêncio de Bach / imaginemos o amor / assim como o ar. Veja mais dele aqui.

JAZZ – O livro Jazz (Companhia das Letras, 2009), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison narra uma história instigante. Para se ter ideia, ela começa o livro assim: Xi, eu conheço essa mulher. Ela morava com um bando de pássaros na avenida Lenox. Conheço o marido dela também. Ele ficou caído por uma garota de dezoito anos, um daqueles amores de espantar, lá do fundo, que fez ele ficar tão triste e feliz que matou a moça para o sentimento continuar. Quando a mulher, o nome dela é Violet, foi ao velório para ver a moça e cortar a cara dela, foi jogada no chão e para fora da igreja. Ela correu, então, no meio de toda aquela neve, e quando voltou para o apartamento tirou todos os passarinhos de dentro das gaiolas e botou na janela para eles congelarem ou voarem para longe, inclusive o papagaio que dizia “eu te amo”. Vale a pena ler. Confira mais aqui, aquiaqui.


SOMBRAS DE GOYA – Dos maravilhosos filmes que assisti do premiadíssimo cineasta tcheco Milos Forman, entre eles Um estranho no Ninho (1975), Hair (1979), Amadeus (1984), entre outros tantos, um deles me chamou mais ainda a atenção: Goya´s Ghost (Sombras de Goya, 2006), no qual destaco a atuação da belíssima atriz Natalie Portman, já destacada aqui pela sua sempre marcante atuação em diversos filmes. Veja detalhes desse filme aqui.
 


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