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domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico e não o excesso de gordura que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.

 


domingo, março 01, 2026

PHILIPPA GREGORY, JANA ORLOVÁ, CAROLYN PORCO, LUIZ FELIPE PONDÉ & JAQUE MONTEIRO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Echolocation (1987), A Delay is Better (2004), A Secret Code (2021), Echolocation - Freedom to Spend (2021) e Simultaneous (2025), da compositora, performer e artista multimedia estadunidense Pamela Z.


 

Cômpito das emoções, desvelo da consanguinidade... - Depois de haver realizado os 12 trabalhos de Hércules e a jornada do herói de Campbell, o andejo Uiruuetê viu-se escolhido sem nem mesmo saber pra quê, errante por um sentido pra sua existência. Afinal, a seu ver, ninguém valia mais que a sua própria morte. E já que era filho da poderosa Uiraçu – a que desde os tempos em que o céu quase esmagou a terra dos Ikolen, salvando-os do desastre e totemizada em símbolo da conexão entre o céu e a terra -, vinha ele de lá degustando paisagens do Paraná, diuturnidades pelo Mato Grosso, alumbramentos pelo Rio de Janeiro, pouso emergencial em Campo Grande, já que repentinamente estava sob escolta e acontecências inexplicáveis. Matutava a querela de ter sido confundido com acauã – ah, por conta do agouro de morte e chamado sinistro da seca, lobrigou -, sendo por isso jogado num ninho de gaviões hostis. Pelava-se de medo, havia no ar a ameaça de ser devorado. Para quem fora abandonado pelo irmão e familiares, era mais uma provação. Uma velha tartaruga veio não se sabe de onde, só cuspir-lhe às faces, punindo-lhe o passado. Insultado ao limite, atacou com vingança até apropriar-se de todas as cores da quelônia. E sua revolta o fez inchar-se peremptório, a ponto de grasnar trovejante e, com toda ferocidade, agitou o brasão do Panamá e nasceu-lhe um penacho na cabeça, a coroa da sua monarquia; seu corpo encheu-se de penas, seus braços eram agora asas possantes e viu-se bípede nas patas com unhas aduncas. Desfez-se o mal entendido e logo foi incorporado à dança dos gaviões do povo Awá-Guajá e, rodopiando entre os Karawara, os espíritos da floresta, tornou-se imediatamente parente dos urubus-buzzards, milhafres-milhanos-queimados, harriers-tartaranhão, buteos e águias. Já estreitado, ele soube da inundação que emergiria dos confins do mundo e teria de partir visando salvar a parentela que deixara longe dali. Chegando lá, a surpresa: foi tratado como a vergonha da família, um pervertido demônio e enxotado aos apupos dos insensatos desafetos. Lamentou-se exilado no meio da tempestade que despencara pro dilúvio dos Tocantins. Sem razão pra viver deu o mergulho fatal e se deixou levar pela correnteza. Sentiu-se envolvido por uma harpia com seus ventos tempestuosos, resfolegou apavorado e, quase afogando-se, usou de sua rapidez, perspicácia e instinto de caça, até desvencilhar-se da morte a cantarolar uma modinha: Voa, voa, voa gavião \ Vai caçar noutro chão \ Vai se embora e volta não... Por um instante respirava aliviado, quando viu lá longe, no topo da montanha, um vulto de mulher. E pra lá se esgueirou apressado: Quem será? Aproximando-se reconheceu Moema, aquela de cujo ventre nasceu o bastardo Brasil, de Adriana Varejão. A nativa Tupinambá havia ressuscitado depois de afogar-se de paixão por seu amado Caramuru, que partiu sem dizer adeus. Tempos depois, um jovem Sioux por ela enamorou-se e, pela segunda vez, desabou em prantos. Estava ali provando da infelicidade: onde sua mãe virou águia para trazer a água e acabar com a seca que assolava. Ledo engano. Por sua incansável faina envelhecera e viera praqui depondo o seu próprio bico, penas e garras, para morrer e ressuscitar. Ainda a viu bicando pedras, mas ela ao avistá-la, logo voou senhora dos ares, rainha do céu, a mãe das aves, para nunca mais. O que fazer então? Assim, noites e dias. Ele, um gavião errante; ela, uma águia enlutada. E a lua era cúmplice das líricas confissões, o Sol esquentava nas veias o teor de arrebatadora paixão. Ali, solidários, o movimento das águas, a dança das estrelas, o mormaço dos corpos, a brisa da paixão. As águas baixavam e o alarme ecoou do monstro Voçoroca, uma ameaça destrutiva e precisavam agir sem demora. Antes, porém, completamente apaixonado, ele ousou indagar: Quem era sua mãe? Uiraçu. Como? Já iminente hora e voaram para cumprir cada qual sua missão. Até mais ver.

 

Wislawa Szymborska: Todo começo nada mais é do que uma sequência, e o livro dos acontecimentos está sempre aberto no meio... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Svetlana Alexievich: Um tempo cheio de esperança foi substituído por um tempo de medo. A era deu uma volta e retrocedeu no tempo. O tempo em que vivemos agora é de segunda mão... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Juliette Binoche: Vivo sempre o presente. Aceito esse risco. Não nego o passado, mas é uma página que preciso virar... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Você se senta diante da morte. \ Está quente e nas alturas \ Você vai arrancar a sua própria pele. \ para atender a uma marca.

II - Tudo é temporário. \ certamente até mesmo que você seja o denominador \ de todos os meus pensamentos \ Em termos de sentimento, há algo \ infantil, e ainda \ É melhor ser um herege do que um santo.

Poemas da poeta, curadora e teórica de arte checa Jana Orlová, autora de obras como: Čichat oheň (2012), Újedě (2017), Падло й інші вірші (2019), Mă fuţi din milă (2019), Choice of Lipstick (2020), Nie uciekniesz (2021), Neutečeš (2022) e Pus (2022).

 

TERRAS MARÉS – […] Ela havia encontrado, incrustada em seu coração, como um poste de campo submerso em um barranco de lama, uma grande determinação para viver. […] Ela permaneceu em silêncio em meio aos sons tranquilos da noite, e a certeza a invadiu. [...] Eram pessoas simples: quando alguém lhes dizia que não tinham nada a temer, sabiam que estavam em apuros. [...]. Trechos extraídos da obra Tidelands (Thorndike Pr, 2019), da escritora e acadêmica anglo-queniana Philippa Gregory, que também se expressa: Acredito em mim, na minha visão de mundo. Acredito na minha responsabilidade pelo meu próprio destino, na culpa pelos meus próprios pecados, no mérito pelas minhas próprias boas ações, na determinação da minha própria vida. Não acredito em milagres, acredito no trabalho árduo... Você precisa escolher o melhor, todos os dias, sem concessões... guiado por sua própria virtude e mais elevada ambição... Veja mais aqui & aqui.

 

NÓS & A TERRAUma poderosa sensação surge dentro de nós quando vemos nosso pequeno planeta azul oceânico nos céus de outros mundos. Num instante, percebemos o quão pequenos, frágeis e solitários realmente somos... Vamos ensinar aos nossos filhos, desde muito pequenos, a história do universo e sua incrível riqueza e beleza. É algo muito mais glorioso, impressionante e até reconfortante do que qualquer coisa que eu conheça, seja encontrada nas escrituras ou em qualquer conceito de Deus... Nós, humanos, embora problemáticos e belicosos, também somos os sonhos, os pensadores e os exploradores que habitam um planeta de beleza comovente, ansiando pelo sublime e capazes do magnífico... Pensamento da planetóloga, astrônoma e acadêmica estadunidense Carolyn C. Porco, que desenvolve o trabalho de exploração do sistema solar, tendo começado no Programa Voyager, nas missões aos planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, nos anos 1980, líder do programa de imageamento da sonda Cassini-Huygens, em órbita de Saturno e atualmente atua na divisão de imageamento da sonda New Horizons, lançada rumo a Plutão, em 2006, e atuando como especialista em anéis planetários e no satélite natural de Saturno, Encélado. Veja mais aqui.

 

LUIZ FELIPE PONDÉ

Sem hipocrisia não há civilização - e isso é a prova de que somos desgraçados: precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva...

Pensamento do filósofo, escritor, ensaísta e professor Luiz Felipe Pondé (Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé), autor de obras como: O homem insuficiente: Comentários de Antropologia Pascaliana (2001), Crítica e profecia: filosofia da religião em Dostoiévski (2003), Contra um mundo melhor: Ensaios do Afeto (2010), Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012), A filosofia da adúltera - Ensaios Selvagens (2013), A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo (2014), Guia Politicamente Incorreto do Sexo (2015), Filosofia para Corajosos (2016), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

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VOU CONTAR ATÉ 100, JAQUE MONTEIRO

Acaba de ser lançado o livro Vou contar até 100 (Uiclap, 2026), da escritora e arte-educadora Jaque Monteiro, reunindo 100 microcontos e todos os microtextos com 100 caracteres. Ela é autora dos livros Estações de humor, do I Oficina de Catadupas do Brasil (2025) e As setigonistas ao quadrado (2026). Veja detalhes e muito mais aqui, aqui & aqui.

 

Luiz Vieira aqui

Arlete Salles aqui, aqui & aqui.

Paulo Bruscky aqui, aqui, aqui & aqui.

Tâmara Dornelas aqui.

Nhô Caboclo (Manuel Fontoura 1910–1976) aqui.

Janaína Esmeraldo aqui.

Irandhir Santos aqui.

Bruna Valença aqui.

Reynaldo Fonseca aqui.

Lourdes Nicácio aqui.

 


quinta-feira, julho 02, 2020

ERIKA MANN, NATALIA TASCHNER, GRACIELA ITURBIDE & GEISIARA LIMA



DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: AUTORRETRATO, ALTER MUITOS EGOS DEMAIS – In actu, entre simulacros e o que se passa por imperativo categórico, voo poema versos escapando pra lá e pra cá, até que um dia acerte a veia e eureka! Quem sabe, nem só de quedas e lapadas se vive. Zélia Gattai que o diga: Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores. Um sorriso engana até a morte.

DUAS: ENTRE INCÊNDIOS DOS ESCOMBROS E ESPALHAFATOS! – Quando o circo pega fogo, lá vou eu bombeiro para ver se dou um jeito. É certo que há coisas que já estão nas emergências hospitalares, quando não dando baixa de quase não ter mais jeito. Quem diria, levo comigo sempre o afeto de Wislawa Szymborska: A vida é tão rica e cheia de variedade que você tem que lembrar o tempo todo que há um lado divertido nisso tudo. Nem me rendo, nem me dou por vencido. Sigo adiante, peito aberto, vida afora.

TRÊS: PELEJANDO MESMO QUE CHOVA CANIVETES! – Faz tempo que as coisas não andam lá muito boas. Duns cinco anos para cá, só revestrés no toitiço. O que fazer, dou meu jeito. Hermann Hesse deixou riscado: Ninguém pode ver nem compreender nos outros o que ele próprio não tiver vivido. Para que resulte o possível deve ser tentado o impossível. Se passei por muitas e boas, durmo sobre os escombros, acordo outro dia, pontapé no zero! E vambora! Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Diante de tantos movimentos anti-ciência, nos deparamos ainda com o criacionismo e as aulas de religião em nossas escolas. E eis que de repente, debaixo dos nossos narizes, o Brasil já não é laico, e as aulas de ciência tornam-se tão facultativas e desvalorizadas como nosso trabalho, e o ensino de evolução nas nossas escolas está ameaçado. Calados e desvalorizados por um governo que não entende a importância da ciência e da tecnologia para a sociedade, nos deparamos também com pesados cortes em nossas verbas. Milhões foram alocados para os testes com a fosfoetanolamina. Milhões foram cortados de nossas bolsas e de nossos projetos de pesquisa. Em meio à calamidade, a comunidade científica tentou falar. Percebemos enfim que a situação tinha ido longe demais. Protestamos. Organizamos marchas. Fomos ao Congresso, mandamos carta para o presidente da República. Mas era tarde. Já fomos todos acometidos pela síndrome de Cassandra. Não temos credibilidade. Ninguém acredita no que temos a dizer. Assim como Cassandra, nós enxergamos o futuro. Sabemos o que vai acontecer com a ciência brasileira se tudo permanecer como está. Mas assim como Cassandra, ninguém acredita em nós. Logo vários de nós estaremos desempregados ou fora do Brasil. Nossos pesquisadores irão embora, assim como nossos alunos. E desenvolverão tecnologias no exterior que o Brasil terá que importar, pois não teremos pessoal qualificado para desenvolvê-las no país, nem para ensinar a nova geração. Demoramos demais para falar com a sociedade. Falhamos quando deixamos de esclarecer o cidadão sobre as propagandas enganosas, as pseudociências e os movimentos anti-ciência, que colocavam em risco sua integridade, seu bolso e sua saúde. Nós não falamos quando foi preciso. E agora não sobrou ninguém para falar por nós. [...]. Trecho do artigo O cientista e a síndrome de Cassandra (Ciência e Cultura ,2018), da bióloga e professora Natalia Pasternak Taschner, fundadora do blog Café na Bancada e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), voltado para o usode evidência científica nas políticas públicas.

O TEATRO DE ERIKA MANN
[...] Sem dúvida que foi esta atração mórbida e satânica pela morte de que ele fala, uma das forças que atraíram os alemães para o Nazismo. Não é por acaso que o símbolo das tropas de elite de Hitler é um crânio (Totenkopf). E por muito dinâmico e vivo que o movimento nazi se tenha vendido na propaganda, a divindade a que eles se rendiam com êxtase era a morte. O romantismo Nazi não tinha qualquer lugar para a "luz" ou o "luminoso". Os seus espíritos eram sombrios. E no entanto o desastre alemão não foi uma capitulação consciente ou intencional perante a catástrofe, apesar de ter havido uma saudade inconsciente para com ela. Foi antes a pelo senhor Clemenceau desaprovada falta fundamental de cultura moral que arruinou a nação. [...]
ERIKA MANN - Pensamento da dramaturga, jornalista e atriz alemã Erika Mann (1905-1969), conhecida por seu cabaré humorístico antifacista na sua companhia de teatro die Pfeffermühle, que atuava regularmente em Munique, ridicularizando os nazistas. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Descobri o mundo das mulheres. Morei na casa delas. E me adotaram. Deram-me acesso a sua vida cotidiana e a suas tradições. Contavam histórias eróticas, faziam troça o tempo todo Não apenas permitiram que eu as fotografasse como tomaram a iniciativa de me mostrar coisas. Passei a descrever Juchitán através dos olhos delas e ao mesmo tempo dos meus.
GRACIELA ITURBIDE - A arte da premiada fotógrafa mexicana Graciela Iturbide. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCULTURARTES
Em agendas-de-presente-de-natal / Deus escreve seus poemas / Ela tenta costurar os versos-holofotes com os versos-nuvens-formadora-de-chuva / Tenta costurar os versos-carros-nos-cruzamentos com os-versos-dia-especial / O problema é que tudo que Deus escreve dá música / E a humanidade plagia e acrescenta seus versos-toscos, faz coreografias-do-bumbum. / Quando Deus descobre, ela fica puta / E solta seus raios-de-TPM em cima das casas / Deus fica muito sentimental nesses dias. / Deus não quer salvar o mundo com seus poemas, / Deus quer cuidar da própria vida / Deus quer suas calcinhas secas para sair à noite / Deus quer a casa sem pó / Deus quer um dia de emprego tranquilo sem assedio / Deus quer curtir uns dias sem ler cartas de pedidos-de-socorro, juramentos-quebrados / De promessa-para-emagrecer, sacrifícios-com-bodes-vivos e virgens- Árabes-mortas, pecados-já-cometidos , deixa para lá, / Deus está cansada de ter que se virar em mil para dar conta de tudo / É muita pressão, até para Deus que é mulher!
Poema da poeta, ilustradora e desenhista Geisiara Lima, que é graduada em Filosofia pela UFPB, autora do livro Corpo em chamas.
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Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido, do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997) aqui.
A guerrilheira perfumada: crônicas do amor diário, do jornalista e escritor Ronildo Maia Leite (1930-2009) aqui.
A música do violonista e compositor Nando Lauria aqui.
Só às paredes confesso, de Vital Corrêa de Araújo aqui.
Neuroeducação & Práticas Pedagógicas no Ensino-Aprendizagem aqui .
Cordel na escola aqui.
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Cortês aqui & aqui.
 

quinta-feira, julho 02, 2015

HESSE, WISLAWA, XENÓFANES, GLUCK, JALIL, GEIGER, MARILYN, BIA SION & BIG SHIT BÔBRAS.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? NEM TE CONTO! - O Doro depois de tanto pelejar pela vida, passou a dar uma de conformado, só na zona de conforto e a tudo referenciado como normal. Parece que o cara definitivamente ficou às sopas, no limbo da ocasião. Não dá outra, seja o que for, ele tasca: - É normal. Para até disco arranhado na radiola. Pra se ter ideia, ele passou duas horas na fila bancária para receber a mixaria, quando um outro revoltado baixou o decoro na maior palmatória do mundo: - Isso é um vitupério! Nesse banco não se respeita o direito do consumidor! -, e virou-se pro Doro com a maior cara de interrogação. E ele, como se não estivesse nem aí para quem pintou a zebra, na maior cara lisa, balbuciou o refrão: - É normal. O cara saiu revoltando xingando todos os seus antepassados. Até o Robimagaiver, pariceiro da mesma laia e moquém, chegou todo trombudo e na maior apertura, reclamando em ponto de bala: - Rapaiz, tô qui nem capim: quando não chove, não nasce; quando nasce o boi come! -, e ele, como se dissesse que quem tem cabeça de cera não se expõe ao sol, simplesmente largou de forma peculiar: - É normal. Deu nos nervos do parceiro. Ninguém aguentava mais aproximar-se dele que tudo, para ele, estava nos conformes da normalidade. Subiu a conta da luz? Normal. Aumento da gasolina? Oxe. Presunto sumido achado no matagal? Comum. Carestia comendo no centro? Nada demais. Foi aí que Zé Corninho apareceu virado na breca pela constatação de que a sua décima segunda esponsal havia lhe coroado com duas de quinhentos. O Doro, como sempre, pra seu consolo, remediou o seu: - É normal. – Normal, uma porra! -, azedou Zé Corninho: - Chifre de corno ninguém vê, mas que desarruma o juízo, isso faz! E saiu jurando que se ele só tinha dois votos, acabou de perder todos. E ele de si pra si: - É normal, eu num mi inlegeria mermo! Será o Benedito? Não, é a hipnose do Big Shit Bôbras, mesmo! E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui e aqui.

Imagem: A reclining female nude, do artista plástico húngaro Richard Geiger (1870-1945).

Curtindo a ópera Orfeo ed Euridice (Philips, 1994), do compositor alemão Christoph Willibald Gluck (1714-1787), performer Sylvia McNair & Monteverdi Choir Orchestra & English Baroque Soloists, conductor John Eliot Gardiner. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A NATUREZA, ELEGIAS & SÁTIRAS - O poeta, sábio e rapsodo grego Xenófanes de Colofão (570-528aC), foi o fundador da escola eleática expondo suas concepções filosóficas em um poema doutrinal A Natureza, do qual só restam fragmentos. Criticou severamente o politeísmo e o antropomorfismo de Homero e Hesíodo, lançando as bases do monismo, acósmico, caracterizada pelos eleatas. A sua filosofia foi toda escrita em versos, entre eles destaco Ateneu X: Agora o chão da casa está limpo, as mãos de todos / e as taãs; um cinge as cabeças com guirlandas de flores, / outro oferece odorante mirra numa salva; plena de alegria, ergue-se uma cratera, / à mão está outro vinho, que promete jamais faltas, / vinha doce, nas jarras cheirando a flor; / pelo meio perpassa sagrado aroma de incenso, / fresca é a água, agradável e pura; / ao lado estão pães tostados e suntuosa mesa / carregada de queijo e espesso mel; / no centro está um altar todo recoberto de flores, / canto e graça envolvem a casa. / É preciso que alegres os homens primeiro cantem aos deuses / com mitos piedosos e palavras puras. / Depois de verter libações e pedir forças para realizar / o que é justo – isto é que vem em primeiro lugar -, / não é excesso beber quanto te permita chegar / à casa sem guia, se não fores muito idoso. / É de louvar-se o homem que, bebendo, revela atos nobres / como a memoria que tem e o desejo de virtude, / sem nada falar de titãs, nem de gigantes, / nem de centauros, ficções criadas pelos antigos, / ou de lutas civis violentas, nas quais nada há de útil. / Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom. Veja mais aqui e aqui.

O LOBO DA ESTEPE – O romance O lobo da estepe (Der Steppenwolf, 1927 - Record, 1995), do escritor alemão e Prêmio Nobel de 1946, Hermann Hesse (1877-1962), conta a história de outsider e misantropo de meia idade, alcoolátra e intelectualizado, angustiado por não ver saída da tormentosa condição e que se envolve em incidentes fantásticos e inesperados que o conduzem ao despertar de um longo sonho ao conhecer uma mulher e um músico, numa história surpreendente. Da obra destaco o trecho: [...] Quando voltei a mim, vi Mozart sentado ao meu lado como antes, tocando-me nos ombros e dizendo-me: — Acabou de ouvir a sentença. Já pode ir-se acostumando a ouvir a música de rádio desta vida. Isso lhe fará bem. O senhor é extraordinariamente mal dotado, não passa de um cabeça-dura; mas irá compreendendo pouco a pouco o que se espera do senhor. Tem de aprender a rir, isso é o que se exige. Tem de compreender o humor da vida, o humor patibular. Mas, é claro, o senhor está preparado no mundo para tudo, menos para o que se lhe pede! Está preparado para matar mocinhas, para deixar-se julgar solenemente, decerto também está preparado para mortificar-se durante cem anos e mesmo flagelar-se, não é verdade? — É verdade! Estou preparado de todo o coração — exclamei em minha miséria. — Naturalmente! O senhor está disposto a qualquer tolice que careça de humor, meu caro; para tudo o que seja patético e destituído de graça. Mas eu não estou disposto a dar-lhe nem wcapfennig por toda a sua romântica penitência. O senhor quer ser julgado, quer que lhe cortem a cabeça, ó sanguinário! Por esse estúpido ideal seria capaz de dar outras dez punhaladas. O senhor está disposto a morrer, seu covarde, mas não a viver. Ao diabo! mas terá de viver! Seria bem merecido que o condenássemos ã pena máxima. — Oh! e qual seria essa pena? — Podíamos, por exemplo, ressuscitar a moça e casá-lo com ela. — Não, a isso não estaria disposto. Seria uma desgraça. — Como se não fosse uma desgraça toda a confusão que o senhor já preparou! Mas vamos acabar de vez com todo o patético e os golpes mortais. Já está na hora de ser razoável. O senhor tem de viver e aprender a rir. Tem de aprender a escutar a maldita música de rádio da vida, tem de reverenciar o espírito que existe por trás dela e rir-se da algaravia que há na frente. É tudo o que exigimos do senhor. Lentamente, por entre dentes cerrados, perguntei: — E se eu não me submeter? E se eu vos negar, Sr. Mozart, o direito de dispor do Lobo da Estepe e de vos imiscuirdes em meu destino? — Então — disse Mozart, calmamente — eu o convido a fumar um dos meus maravilhosos cigarros. Dizendo isto, e enquanto tirava num passe de mágica um cigarro do bolso do colete e mo oferecia, deixou de ser Mozart, e fitando-me calidamente com seus olhos exóticos, converteu-se em meu amigo Pablo, bem assim no homem que me havia ensinado a jogar com as figurinhas no tabuleiro de xadrez. — Pablo! — exclamei, palpitando. — Pablo, onde estamos? Pablo deu-me o cigarro e ofereceu-me fogo. — Estamos — disse rindo — em meu teatro mágico, e se quiseres aprender a dançar o tango ou ser um general ou conversar com Alexandre o Grande, tudo isto estará à tua disposição da próxima vez. Mas devo dizer-te, Harry, que me decepcionaste bastante. Esqueceste horrivelmente de ti, quebraste o humor do pequeno teatro e cometeste uma felonia; mataste a punhaladas e manchaste o nosso belo mundo de imagens com as nódoas da realidade. Isso não foi correto de tua parte Espero, pelo menos, que o tenhas feito por ciúmes, quando viste Hermínia dormindo nos meus braços. Infelizmente, não soubeste manejar essa figura; imaginei que havias aprendido o jogo melhor. Espero que procedas melhor da próxima vez. Apanhou Hermínia, que se havia convertido, de súbito, numa figurinha de xadrez em seus dedos, e guardou-a no mesmo bolso do colete de que antes havia tirado o cigarro. Prazerosamente saboreei o doce e pesado fumo do cigarro, senti-me exausto e disposto a dormir um ano inteiro. Oh! agora compreendia tudo: compreendia Pablo, compreendia Mozart, ouvia algures atrás de mim seu riso espantoso, sabia ter em meu bolso centenas de milhares de figurinhas do jogo da vida, suspeitava emocionado o sentido, tinha a intenção de iniciar de novo o jogo, de voltar a estremecer diante de seus desatinos, de voltar a percorrer o inferno do meu interior, não uma vez, mas sempre. Da próxima vez saberia jogar melhor. Da próxima vez aprenderia a rir. Pablo me esperava. Mozart também. Veja mais aqui, aqui e aqui.

REPENSO O MUNDO – O livro Poemas (Companhia das Letras, 2011), da poeta, critica literária e tradutora polonesa e Prêmio Nobel de Literatura, Wislawa Szymborska (1923-2012), reúne quarenta e quatro poesias da autora, entre as quais destaco Repenso o mundo: Repenso o mundo, segunda edição, / segunda edição corrigida, / aos idiotas o riso, / aos tristes o pranto, / aos carecas o pente, / aos cães botas. / eis um capítulo: / a Fala dos Bichos e das plantas, / com um glossário próprio / para cada espécie. / mesmo um simples bom-dia / trocado com um peixe, / a ti, ao peixe, a todos / na vida fortalece. / essa há muito pressentida, / de súbito revelada, / improvisação da mata. / essa épica das corujas! / esses aforismos do ouriço / compostos quando imaginamos / que, ora, está só adormecido! / o tempo (capítulo dois) / tem direito de se meter / em tudo, coisa boa ou má. / porém — ele que pulveriza montanhas / remove oceanos e está / presente na órbita das estrelas, / não terá o menor poder / sobre os amantes, tão nus / tão abraçados, com o coração alvoroçado / como um pardal na mão pousado. / a velhice é uma moral / só na vida de um marginal. / ah, então todos são jovens! / o sofrimento (capítulo três) / não insulta o corpo. / a morte chega com o sono. / e vais sonhar / que nem é preciso respirar, / que o silêncio sem ar / não é uma música má, / pequeno como uma fagulha, / a um toque te apagarás. / morrer, só assim. Dor mais dolorosa / tiveste segurando nas mãos uma rosa / e terror maior sentiste ao som / de uma pétala caindo no chão. / o mundo, só assim. / Só assim viver. / E morrer só esse tanto. / E todo o resto — é como Bach / tocado por um instante num serrote. Veja mais aquiaqui.

DA PRINCESINHA MIMADA AO TISTU – A atriz, locutora, escritora, cantora e compositora Bia Sion tem desenvolvido uma trajetória nas artes, entre a televisão, o teatro, o rádio e a música – só pra ficar nisso, pois ela é duma versatilidade ímpar e transita por onde o talento der. No teatro ela estreou com A princesinha mimada (1977), depois Festa no Sábado (1978), O girassol mágico (1979), Eu chovo, tu choves, ele chove (1979), Don Quixote de la Pança (1980), Viagem à Imaginação (1981), Band Age (1982), Tistu, o menino do dedo verde (1983), Sapatinho de Cristal (1984), Isadora e Oswald (1984), Feliz Ano Velho (1985), Filumena Marturano (1987), Vira Lats (1989), Ensina-me a viver (1990), Noturno – sonetos e canções de Shakespeare (1991), Antes de ir ao baile (1991), Música divina música (1992), A balada de um palhaço (1993), Os saltimbancos (1984), Fazendo amigos na fazenda (2002) e Tistu (2005). Ela também lançou o disco A levada do Jazz (2008) e tem perseguido sua estrada com muito talento e competência. Veja mais aqui e aqui.

LADIES OF THE CHORUS – O musical Ladies of the Chorus (Mentira Salvadora, - Columbia Pictures, 1948), dirigido pelo cineasta estadunidense Phil Karlson (1908-1985), baseado na história do roteirista russo Harry Sauber (1885-1967), contando a história de uma dançarina que se apaixona por um homem rico. Foi este o primeiro que assisti estrelado por Marilyn Monroe e marcando definitivamente a imagem dessa bela mulher na minha adolescência: ela cantando, ela sorrindo, ela dançando, caminhando, enfim, de todas as formas da sua expressão na tela. Acho que vi e revi o filme na época umas trocentas vezes, ficando marcado na minha memória, a ponto de guarda no nome Peggy Martin muito bem guardado no meu apreço. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 IMAGEM DO DIA
 
Grabados – Serie América & Ex Libri, do artista plástico argentino Osvaldo Jalil. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre:
A lenda do açúcar e do álcool, Educação não é privilégio de Anísio Teixeira, História da Filosofia de Wil Durant, a música de Yasushi Akutagawa, Não há estrelas no céu de João Clímaco Bezerra, Cumade Fulosinha & Menelau Júnior, a pintura de Madison Moore, João Pirahy & Pulsarte aqui.

E mais:
Sorria, Canto geral de Pablo Neruda, A desobediência civil de Henry David Thoreau, O feijão e o sonho de Orígenes Lessa, Revolução na América do Sul de Monteiro Lobato & Brincarte do Nitolino, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Sebastião Tapajós, Marcelo Soares aqui.
Psicologia social e educação, a poesia de Pablo Neruda, a pintura de Amedeo Modigliani, a música de Yasushi Akutagawa, a arte de Regina Espósito & Ju Mota aqui.
Recitando Castro Alves: Navio Negreiro aqui.
Devagar e sempre, A monadologia de Leibniz, Estudo do poema de Antônio Cândido, Meu país de Dorothea Mackellar, A arte da comédia de Lope de Vega, o ativismo de Emma Goldman, a arte de Gilvan Samico, a música de Alceu Valença, a xilogravura de Amaro Francisco Borges, Brincarte do Nitolino & a pintura de Nina Kozoriz aqui.
A vida dupla de Carolyne & sua cheba beiçuda, Psicologia da arte de Lev Vygotsky, a poesia de William Butler Yeats, A República de Platão, a pintura de Raphael Sanzio & Boleslaw von Szankowski, a música de Leonard Cohen, o cinema de Paolo Sorrentino & World Erotic Art Museum - WEAM aqui.
Divagando na bicicleta, Onde andará Dulce Veiga de Caio Fernando Abreu, Os elementos de Euclides de Alexandria, O teatro e seu duplo de Peter Brook, a música de Billie Myers, a fotografia de Alberto Henschel, a pintura de Jörg Immendorff & Oda Jaune aqui.
A conversa das plantas, Memória da guerra de Duarte Coelho, a poesia de Cruz e Sousa, Arquimedes de Siracusa, a música de Natalie Imbruglia, a arte de Hugo Pratt & Tom 14 aqui.
Leitoras de James leituras de Joyce, a fotografia de Humberto Finatti, a arte de Henri Matisse & Wayne Thiebaud aqui.
Incipit vita nuova, As raízes árabes da arte nordestina de Luís Soler, A divina comédia de Dante Alighieri, a música de Galina Ustvolskaya, a pintura de Jack Vetriano & Paul Sieffert, as gravuras de Gustave Doré & a arte de Luciah Lopez aqui.
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Imagem: Nude Woman Reading, do artista plástico francês Philippe de Rougemont (1891-1965).
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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...