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domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico e não o excesso de gordura que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.

 


quinta-feira, fevereiro 18, 2016

WISŁAWA SZYMBORSKA, FLAUBERT, HASLANGER, BARTHES, RICH, PIERCY, PROUDHON, SACHER-MASOCH & ZÉ CORNINHO

 


ERA UMA VEZ ZÉ CORNINHO!... – Era imensamente junho e Zé Corninho estava enfezado: só levava desacerto - o destino desapiedado aos empurrões: Toma jeito, fi-duma-égua! Ingresia inclemente. Ao certo, era notório que ele fugia das contendas, não valia a pena, nada de litigar, pacato. Aos tombos, as advertências castigavam seu toitiço, ele se benzia e abeirava de soslaio a fuga. Vivia daqui pracolá, sem paradeiro, até que chegou em Alagoianhanduba, gostou da comarca e ali dava por escorreito, pau pra toda obra. Laborava com afinco e prosperava, dava pro gasto. Esforçava-se além do tanto, suas aptidões clandestinas obravam milagres, dizia. Com o estandarte dos festejos juninos, uma chance sorria: a lindeza toda frochosa e receptiva. Menino, ele endoidou o cabeção! Atirou-se: Seja lá o que Deus quiser! E a primeira chegou inteira de felicidade, formosura triplicada aos seus olhos, tangidos pela atração. Dias e noites ele franqueava atenções exageradas, abusava das cortesias, cheio de lábias pegajosas, engambelava às cócegas, doido por aconchego. E ela se ria mimosa, pactuando das leseiras dele. Foi vuque-vuque destrambelhado, até que ela: Sai pra lá, infeliz das costas ocas! Desertora! Vou-me! E foi-se. Quem com ela pode? Era levado na pontinha do dedo, quando queria o ajeitado das coxas. Ingrata, desfigurou sua paixão. Ela já era e ele desistia de crer, maldizia, convinha seguir adiante sem olhar para trás. E esqueceu o passado, partiu pra outra, a topar foragidas. Catava, desenrolava afiado com as astúcias malabaristas, dava ao espavento e logo estava nas nuvens guiado pelas juras amorosas doutra reboculosa. Era a desforra avultada à revelia dela, longínquas léguas, com todos os préstimos só pra ficar de boca e barriga cheias, banzeiro, aos regalos. Não demorou muito e ela logo estremeceu com suas olhadelas: Bota o olho gordo pra lá, traste! Estava revogado aos esculachos, escorraçado sem valia. A segunda, também, defenestrava. Sem demora rareou e nem escolheu, outra saia repleta de rosas pra se esquivar, ô valhacouto! Gemeu, impou e se lambuzou todo de ficar na mão: Outra vez! Muitas vieram e se foram, logo elas enjoavam da sua meladeira pegajosa, estragando seus gozos. A cada intervalo irremediável entortava o oco por dentro, sua pouca sorte, dele ficar no alpendre todo embrulhado de cócoras, reincidente espremido, o bico do beiço virado, emburrado, cabeça às voltas dos giros incertos, escapulia o vão querer às escondidas, embaixo de 7 capas. Embuçava irado: Bocado de cria de cobras, tudo coisa mandada! Quantas esposou? Não se rendia aos empecilhos. Renovava o plantel a cada escorregada. Foi acusado de bigamia e muito mais calúnias no vespeiro. Era hora de botar moral e deixou o bigode rabugento cobrindo os beiços, uma costeleta ineivada pruma mandíbula raivosa, franziu o cenho, lubrificou a carequice, abochechou-se raivoso, rangia os dentes, bateu no peito meticuloso, o nariz crispado: Dagora em vante, só na minha lei! Oxe! Bastou um oi e engasgou-se, o sangue esquentado, as vísceras em convulsão pela taradice. Dessa foi descascado do muito, amarelo de vergonha, amargou grossas peiticas, a ponto de estourar, doidice sua não era exclusiva. Achava que era imortal, não era: a cada hora a certeza se esvaía. Do escuro emergia imprevisíveis revertérios: socou o ar com todas as revoltas: Cada uma que me aparece! Exilava-se discordando das batidas do coração, de queixo caído, dessensibizado, destampou seu segredo: Vou buscar a danada! E saiu uma por uma, de porta em porta, levando desaforo na cara. Ele não sabia e era o dito popular: só amealhou chifres, o botão na casa errada, desonra nos seus flagelos, vexame de derrotas escondido pelo gorro na cabeça. Em legítima defesa: Sou, assumo e assino! Quem quiser que venha me destratar, cambada! A brabeza era só sua, todo mundo sabia da mansidão: batesse o pé, carreirão da gota! E deu uma de Hussain Aref Saab: Se gaia virasse dinheiro eu era podre de rico (e olhe que o que ele amealhou de duas de quinhentos não tá no gibi, viu?)... Pobreza é tudo mundiça! Aí deu outra, repara: Parecia que ele não tinha mais um pingo de juízo pra remédio. Achando pouca a bruguelada, inventou de emprenhar a mulher que arranjou de última hora e partiu pra aumentar a filharada. O problema era arrumar padrinho, ninguém queria ser mais seu compadre. Os nascidos eram todos devidamente batizados e apadrinhados, uns trinta e três, acho, coisa que ele não acertava contar, depois dos quinze parecia que tinha mais e se perdia recontando. Danou-se! Era uma tuia de bruguelo aos buás, diziam: nenhum dele de mesmo, tudo resultado da infedilidade das ditas amigadas dele e que fugiam no cangote de outros amantes. E como ele já tinha pra mais de dez casamentos, nem ele sabia, todas embuchavam e sacudiam os recém-nascidos nas costas dele pra criar. É tudo filho meu legítimo!, bate até hoje ele o pé, ninguém acredita e deixam pra lá. Acontece que o caçula estava para rebentar e sem padrinho arranjado pro batismo. Ele saiu angariando a um e a outro, todos se recusaram. Será possível? Ele não desistiu e saiu até estrada afora, quando bateu de frente com a Morte. Olá, comadre, como é que vai? Vou bem, e você? A senhora, por um acaso, não aceitaria ser minha comadre batizando meu filhinho caçula? Claro que aceito, vamos fazer uma grande festa e garantir o melhor futuro pra ele! Oba! E assim foi, no dia certo, a parteira anunciou mais um pra coleção do Zé. A festa corria solta e a Morte chamou o compadre do lado e cochichou: Agora vamos garantir o futuro da criança, você ficará rico, vai curar gente, só você me verá e, então, diante de um doente, se eu estiver na cabeceira é que vai ser curado; se eu estiver no pé da cama, é caso perdido. Certo e ajustado, lá foi Zé-Corninho curando o povo e ficando rico. Um dia lá um ricaço estava pagando uma fortuna para salvar o filhinho dele e quando Zé chegou lá, a comadre estava no pé da cama. Eita! Zé resolveu passar a perna na comadre, mandando virar a cama de ponta cabeça e a comadre ficou na cabeceira, obrigada a salvar. A Morte ficou possessa de raiva e jurou se vingar. Um dia lá a comadre resolveu pegá-lo na virada e foi convidá-lo para ir na casa dela: Eu vou, mas só se você garantir que eu volto. Garanto. E foram. Lá chegando Zé se deparou com um bocado de vela pelo chão, uma atrás da outra, encarreada. O que é isso, comadre? É a vida das pessoas na terra. Eita! Essa é do seu amigo fulano, aquela da sua amiga sicrana, essa outra do seu vizinho beltrano, e no meio da coisa Zé ficou curioso pra saber da sua: Qual? Aquela. Vixe! Um toquinho já se apagando. Ah, comadre, mas a senhora prometeu que eu voltaria. E vai voltar. Lá estava Zé em casa, morre mas num morre, até que fez um último pedido: Permita, comadre, que eu reze um Pai-nosso antes de morrer. Concedido. E ele começou a rezar e parou. Vamos, conclua a reza! Agora não, a senhora prometeu que eu só morreria quando terminasse a reza, só vou findar daqui uns cem anos. A Morte saiu injuriada, Zé estava sabido que só e passou-lhe a perna pela terceira vez. Aí um dia lá, anos e mais anos, Zé teve um desgosto danado e disse: Ah, só queria morrer agora pra não ver uma desgraça dessa! Mal terminou de dizer e a comadre já estava toda feliz do lado dele: Agora você me paga, compadre! Calma, comadre, eu não disse quando, só falei que queria e não quero, ora, ora. Rasgou a boca de novo. E ele: É dum dia pro outro que a gente vai vivendo, do muito que aprendi, confesso, nada sei. E confira mais das desventuras do Zé Corninho aí:

 

ZÉ-CORNINHO: O PINTUDO MAIS GAIÚDO DO MUNDO!

A COMILANÇA DO ZÉ CORNINHO

BATENDO UMA REAL: UNS & OUTROS

A FILHARADA DE ZÉ CORNINHO

FORTE E SADIO QUE NEM O POVO DOTEMPO DO RONCA

CULPA NO CARTÓRIO

AS PEDRAS DE BUTUA

A SEREIA DA LOROTA

ARENGA DE ANTANHO

AQUELE TORNEIO DE CHIMBRA

PESCARIA INEIVADA

COM QUANTOS DESAFOROS SE FAZ UMA ELEIÇÃO

CONTANDO HISTÓRIA

A TRUPE DOS COSCUVILEIROS

PRA QUEM QUER O FIM, A COISA SÓ TERMINA QUANDO ACABA

A SENSABORIA DE ZÉ-CORNINHO

EITA, ZÉ BESTÃO!

AMOR EM ALAGOINHANDUBA

ATÉ TU, ZÉ-CORNINHO!?!

QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA

PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO

A VIDA DUPLA DE CAROLYNE & SUA CHEBA BEIÇUDA

ZÉ CORNINHO NO BIG SHIT BOBRAS

BIG SHIT BÔBRAS

O MARIDO DA MARCELA

A COMADRE MORTE

E A SAÚDE? JÁ ERA, MEU!

AD CAPTANDUM VULGUS

CURIOSIDADE: PRA QUE TANTA GENTE NOCONGRESSO NACIONAL, HEM?

OROPA, FRANÇA E BAÍA!!!!

SORTE GRANDE: DUAS DE 500

E A TAL DA INVEJA, HEM?

O VEXAME NO XAMBREGO

A ZOADA DO PADROEIRO

RESPEITE O SANTO, CABRA!

UMA JACA NA CABEÇA DE NEWTON, POIN!

BRINCANDO DE MORRER

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE!

TESTAMENTO DO BOCÓ


 

DITOS & DESDITOS - Deve haver aqueles com quem possamos nos sentar e chorar, e ainda assim sermos considerados guerreiros... Meu coração se comove com tudo o que não posso salvar: tanto foi destruído que preciso unir meu destino àqueles que, era após era, de modo perverso, sem nenhum poder extraordinário, reconstituem o mundo... Pensamento da escritora, professora e feminista estadunidense Adrienne Rich (Adrienne Cecile Rich –1929-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Uma mulher forte é aquela que anseia por amor como se fosse oxigênio; caso contrário, ela fica azul e sufoca. Uma mulher forte é aquela que ama intensamente, chora intensamente, sente um medo intenso e tem necessidades intensas. Uma mulher forte é forte nas palavras, nas ações, nas conexões e nos sentimentos; ela não é forte como uma pedra, mas como uma loba amamentando suas crias. A força não reside nela, mas ela a manifesta assim como o vento preenche uma vela... Pensamento da escritora e ativista social estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL - [...] É difícil comunicar qualquer coisa com exatidão, e é por isso que é difícil encontrar relacionamentos perfeitos entre as pessoas. [...] O coração das mulheres é como aqueles móveis com esconderijos secretos, cheios de gavetas encaixadas umas nas outras; você tem um trabalhão, quebra as unhas e, no fundo, encontra uma flor murcha, alguns grãos de poeira — ou o vazio! [...] Há homens cuja única missão, entre outras, é servir de intermediários; cruzamos por eles como se fossem pontes e seguimos adiante. [...] Enquanto há vida, há esperança. [...] Sou o tipo de homem condenado ao fracasso, e irei para a sepultura sem jamais saber se eu era ouro de verdade ou apenas ouropel! [...]. Trechos extraídos da obra L'Éducation Sentimetale (Hachette, 2000), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SOB UMA PEQUENA ESTRELA - Peço desculpas ao acaso por chamá-lo de necessidade. \ Peço desculpas à necessidade se, afinal, eu estiver enganado. \ Por favor, não se irrite, felicidade, por eu a considerar como algo que me é devido. \ Que meus mortos sejam pacientes com a forma como minhas memórias se desvanecem. \ Peço desculpas ao tempo por todo o mundo que ignoro a cada segundo. \ Peço desculpas aos amores passados por pensar que o mais recente é o primeiro. \ Perdoem-me, guerras distantes, por trazer flores para casa. \ Perdoem-me, feridas abertas, por furar meu dedo. \ Peço desculpas pelo meu registro de minuetos àqueles que choram das profundezas. \ Peço desculpas àqueles que esperam nas estações de trem por estar dormindo hoje às cinco da manhã. \ Perdoe-me, esperança perseguida, por rir de vez em quando. \ Perdoe-me, desertos, por eu não correr até vocês com uma colherada d'água. \ E você, falcão, imutável ano após ano, sempre na mesma gaiola, \ seu olhar sempre fixo no mesmo ponto no espaço, \ perdoe-me, mesmo que no fim das contas você tenha sido empalhado. \ Peço desculpas à árvore derrubada pelas quatro pernas da mesa. \ Peço desculpas às grandes perguntas pelas pequenas respostas. \ Verdade, por favor, não me dê muita atenção. \ Dignidade, por favor, seja magnânima. \ Tenha paciência comigo, ó mistério da existência, enquanto eu puxo um fio ocasional da sua cauda. \ Alma, não se ofenda por eu só ter você de vez em quando. \ Peço desculpas a tudo por não poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo. \ Peço desculpas a todos por não poder ser cada mulher e cada homem. \ Sei que não serei justificado enquanto viver, \ pois eu mesmo me atrapalho. \ Não me guarde rancor, discurso, por eu tomar emprestadas palavras pesadas e \ depois me esforçar tanto para que pareçam leves. Poema da escritora. Crítica e tradutora polonesa Wisława Szymborska (Maria Wisława Anna Szymborska – 1923-2012), Prêmio Nobel de Literatura de 1996. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MORTE DO AUTOR - [...] A literatura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo para o qual todo sujeito escapa, a armadilha onde toda identidade se perde, a começar pela própria identidade do corpo que escreve. [...] O escritor moderno (*scriptor*) nasce simultaneamente ao seu texto; ele não é, de forma alguma, dotado de um ser que preceda ou transcenda a sua escrita; ele não é, de modo algum, o sujeito do qual o seu livro é o predicado; não há outro tempo senão o da enunciação, e todo texto é eternamente escrito aqui e agora. [...] O leitor é o espaço onde se inscrevem todas as citações que compõem uma escrita, sem que nenhuma delas se perca; a unidade de um texto não reside na sua origem, mas no seu destino. Contudo, esse destino já não pode ser pessoal: o leitor não tem história, biografia ou psicologia; ele é simplesmente aquele que reúne, num único campo, todos os traços que constituem o texto escrito... A crítica clássica jamais prestou atenção ao leitor; para ela, o escritor é a única figura da literatura... sabemos que, para dar um futuro à escrita, é preciso derrubar o mito: o nascimento do leitor deve ocorrer à custa da morte do Autor. [...]. Trechos extraídos da obra The Death of the Author (Hill & Wang, 1977), do sociólogo, escritor, crítico literário, semiólogo e filósofo francês Roland Barthes (1915-1986), autor de obras como Mourning Diary (2009), A Lover's Discourse: Fragments (1977), Camera Lucida: Reflections on Photography (1977), The Pleasure of the Text (1973) e Mythologies (1957), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIFERENÇAS SOCIAIS - [...] Em alguns casos, as diferenças sociais são mascaradas — são consideradas naturais — e a raça é um exemplo perfeito. Existem diferenças na cor da pele entre nós, diferenças na textura do cabelo e assim por diante, mas essas diferenças não correspondem muito bem às raças. Há pessoas de uma determinada ancestralidade que não aparentam ser dessa ancestralidade. Portanto, como a raça também parece estar, pelo menos em parte, relacionada à ancestralidade, não se trata apenas de características superficiais e parece ser algo mais.  O que eu teorizo é: o que poderia ser a raça se não for um conjunto de diferenças puramente naturais entre nós? Pode ser compreendida principalmente em termos de diferença social? Não exatamente, porque existe uma suposta conexão com o biológico. Esses são os tipos de categorias que mais me interessam, onde as diferenças físicas percebidas ou imaginadas são tais que dão origem a diferenças sociais em um contexto específico. A crença ou a percepção de que alguém possui uma determinada cor de pele influencia suas oportunidades sociais e seu posicionamento social em relação aos outros. Na minha visão, tanto raça quanto gênero são posições sociais que os indivíduos ocupam em virtude de seus corpos serem interpretados de uma determinada maneira. [...] Uma questão na filosofia política é como definir justiça. O que conta como justo depende, em parte, do que somos capazes de fazer. Não criamos sistemas educacionais para pedras ou plantas porque isso não lhes faria nenhum bem. Elas não são capazes de serem educadas. Criamos sistemas educacionais para humanos porque temos uma gama de capacidades de aprendizado; Um sistema educacional justo levará em consideração nossas diferentes capacidades e oferecerá oportunidades para desenvolvê-las. Historicamente, acreditava-se que mulheres e minorias careciam de certas capacidades por natureza e, como resultado, não tinham acesso às mesmas oportunidades que os homens brancos. Isso dá origem a duas estratégias no pensamento político feminista e antirracista. Uma estratégia é observar que as diferenças físicas — diferenças consideradas “naturais” — não são fixas. Uma importante diferença física entre homens e mulheres é a capacidade (ou a falta dela) de engravidar. No entanto, o controle da natalidade nos dá certo controle sobre isso, e isso teve um enorme impacto nas oportunidades das mulheres. O mesmo se aplica às deficiências. Temos a capacidade de intervir na natureza. É para isso que serve a tecnologia! Outra estratégia é chamar a atenção para o fato de que as diferenças que são presumidas como naturais são, na verdade, resultado dos tipos de interpretações e suposições problemáticas que acabei de descrever: como se presume que mulheres (ou minorias) tenham ou não certas capacidades com base em suposições (falsas) preconcebidas, elas são tratadas de uma certa maneira e, às vezes, de fato, acabam sendo tratadas dessa forma. E isso reforça as suposições. Se você me considera ineducável e, portanto, me priva da educação, então eu não desenvolverei certas capacidades e poderei me tornar, em alguns aspectos importantes, ineducável, pois pode haver tipos de fluência que não se consegue alcançar após um certo ponto da vida. Se isso ocorrer, a suposição original parece justificada. Mas, é claro, não é. Eu não nasci ineducável, eu me tornei assim. Portanto, a suposta linha divisória entre o natural e o social é de importância crucial para as teorias da justiça: o “natural” não é tão fixo quanto podemos pensar, e o “social” pode ser muito mais fixo do que imaginamos. Algumas diferenças entre nós devem ser respeitadas, mas outras devem ser superadas — mas quais são quais? [...]. Trechos da entrevista O que é 'natural' e o que é 'social'? (MIT News, 2013), concedida pela filósofa Sally Haslanger, diretora do programa de Estudos de Gênero e Feminismo do MIT e autora da obra Resisting Reality: Social Construction and Social Critique (Oxford University Press, 2012), uma coletânea de ensaios sobre gênero e raça. A respeito do tema em questão, ela ainda expressa que: Em vez de nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o que, se é que queremos que sejam alguma coisa. A respeito do tema Justiça Social: alguém pode realmente fazer a diferença?, ela expressa que: Vivemos num mundo onde a injustiça é desenfreada. A injustiça assume muitas formas e é mantida de várias maneiras. Nas últimas décadas, os teóricos reconheceram que o poder de sustentar a injustiça não é apenas um instrumento de controle que alguns indivíduos têm e outros não têm, mas faz parte do campo social para todos os agentes sociais. Sobre isso de poder, estamos todos implicados na supremacia branca, no capitalismo e na dominação masculina à medida que promulgamos práticas cotidianas. Ela também é autora dos estudos Feminism and metaphysics: Negotiating the natural (Cambridge University Press, 2000a), What is a (Social) Structural Explanation? (Philosophical Studies, 2016), What Are We Talking about? The Semantics and Politics of Social Kinds (Hypatia, 2005) e Gender and Race: (What) Are They? (What) Do We Want Them to Be? (Noûs, 2000).

 

MASOQUISMOO amor não conhece virtude, nem proveito; ama, perdoa e sofre tudo, porque é seu dever. Não é o nosso juízo que nos guia; não são as vantagens nem os defeitos que descobrimos que nos fazem abandonar-nos ou que nos repelem. É uma força doce, suave e enigmática que nos impulsiona. Deixamos de pensar, de sentir, de querer; deixamo-nos levar por ela e não perguntamos para onde... Eu via a sensualidade como sagrada, aliás, a única sacralidade; via a mulher e sua beleza como divinas, pois sua vocação é a tarefa mais importante da existência: a propagação da espécie. Via a mulher como a personificação da natureza, como Ísis, e o homem como seu sacerdote, seu escravo; e a imaginava tratando-o com a mesma crueldade da Natureza, que, quando não precisa mais de algo que lhe serviu, o descarta, enquanto seus abusos, aliás, seu assassinato, são sua lasciva felicidade... Quem se deixa açoitar, merece ser açoitado... O homem deseja, a mulher é desejada. Essa é toda a vantagem decisiva da mulher. Através das paixões do homem, a natureza o entregou nas mãos da mulher, e a mulher que não sabe como torná-lo seu sujeito, seu escravo, seu brinquedo, e como traí-lo com um sorriso no fim, não é sábia... O homem é aquele que deseja; a mulher, aquela que é desejada. Essa é a vantagem — total, porém decisiva — da mulher. Por meio das paixões masculinas, a natureza entregou o homem às mãos da mulher; e a mulher que não sabe como torná-lo seu súdito, seu escravo, seu brinquedo — e como traí-lo com um sorriso ao final — não é sábia... Uma maçã verdadeira é mais bonita do que uma pintada, e uma mulher de verdade é mais bonita do que uma Vênus de pedra... Vocês, homens modernos, filhos da razão, não conseguem sequer começar a apreciar o amor como pura felicidade e serenidade divina... Pensamento do escritor e jornalista austríaco Leopold von Sacher-Masoch (Leopold Ritter von Sacher-Masoch – 1836-1895), autor da polêmica obra Venus in Furs (Penguin, 2000), que, em 1869, com sua amante, a Baronesa Fanny Pistor, assinaram um contrato que o tornava escravo dela pelo período de seis meses, especificando que a baronesa vestisse peles com frequência, especialmente quando estivesse se sentindo cruel. Para isso ele adotou o apelido de "Gregor", um nome estereótipo para serventes masculinos, e disfarçou-se de servidor da baronesa. Os dois viajaram de trem para a Itália, em um vagão de terceira classe, enquanto ela ocupava um assento na primeira, até Veneza (Florença, na novela), onde os dois não eram conhecidos e não despertariam suspeitas. Mais tarde, ele pressionou sua primeira esposa, Aurora von Rümelin, com quem se casara em 1873, a viver as experiências do livro, contra as preferências dela. Assim, acabou achando sua vida familiar pouco excitante e terminou por divorciar-se de Aurora, casando com uma assistente. A vida dele foi exposta com a publicação das memórias de Aurora von Rümelin, Meine Lebensbeichte (Confissões de Minha Vida, 1906), sob o pseudônimo Wanda v. Dunajew. Veja mais aqui & aqui.

 

DEVANEIO & JOGO DE LUSÃO – A escritora Ione Perez reúne sua produção literária no Recanto das Letras, expondo seus poemas, textos de humor, contos, prosas infantis e poéticas. Da sua produção destaco inicialmente o poema Devaneio: O pássaro no galho da árvore Fica a cantar, Entre as folhas e flores do maracujá. O vento sopra os cabelos Deixando o tempo passar... Também o seu poema Jogo de ilusão: É pura sedução É frisson É pensar ter na mão a carta certa É vitória cega Intenção É tesão, só imaginação Destino traçado É lençol molhado Frustração É perigo iminente Tentação É preliminar de uma decisão É aceitar e calar Loucura numa noite escura ensolarada É paixão ardente, queima sem cicatrizar Amor que rima com dor, fazendo a gente pecar E não vale tentar persuadir É um jogo e como todo jogo, há regras: Só sai, só perde quem se iludir! Veja mais aqui.

DO PRINCÍPIO FEDERATIVO, DE PROUDHON - [...] A ideia de federação é certamente a mais alta a qual se elevou até os nossos dias 0 genio político. Ela ultrapassa de muito longe as constituições francesas promulgadas desde setenta anos atrás, não obstante, a revolução cuja curta duração tão pouco honra 0 nosso pais. Ela resolve todas as dificuldades que suscita 0 acordo da Liberdade e da Autoridade. Com ela nao temos mais de recear afundarmo-nos nas antinomias governamentais; de ver a plebe emancipar-se proclamando uma ditadura perpetua, a burguesia manifestar a seu Liberalismo levando a centralização ao exagero, 0 espirito público corromper-se nesse deboche da devassidão copulando com o despotismo, 0 poder regressar incessantemente às maos dos intriguistas, como lhes chamava Robespierre, e a Revolurção, segundo as palavras de Danton, ficar sempre para os mais pérfidos. A razao eterna finalmente é justificada, 0 ceticismo vencido. Nao se acusam mais da infelicidade humana a falha da Natureza, a ironia da Providencia ou a contradição do Espfrito; a oposição dos princfpios aparecerá finalmente como a condição do equilíbrio universal. DO PRINCÍPIO FEDERATIVO – O livro Do princípio federativo, do filósofo político, econômico e anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), definido como o socialista utópico por Karl Marx, que defendia o favorecimento de associações de trabalhadores e cooperativas no desenvolvimento da prorpeidade coletiva dos trabalhadores em relação aos meios de produção. Proundhon defendia a revolução social por meio de formas pacíficas. Nessa obra aborda temas como o princípio da federação, o dualismo político: autoridade e liberdade, oposição e coneção destas noções de autoridade e liberdade, concepção a priori da ordem política, o regime de autoridade e de liberdade, as formas de governo, a transação entre os princípios, origem das contradições da política dos governos de fato, dissolução social, posição do problema político, o princípio de solução emengencia da ideia de federação, constituição progressiva, atraso das federações, idealismo político, eficácia da garantia federal e sanção econômica. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIA
PROUDHON, Pierre-Joseph. Do princípio federativo. São Paulo: Nu-Sol - Imaginario, 2001.


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