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domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico e não o excesso de gordura que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.

 


segunda-feira, março 19, 2018

KAFKA, LELOUP, GISELA PANKOW, COUNTEE CULLEN, EUMIR DEODATO & BJÖRK, HUANG YAN, CYANE PACHECO, LAMPIOA & ZÉ BUNITO

LAMPIOA & ZÉ BUNITO – Tudo começou quando ela encarou os matutos pais: Vou perder a virgindade! Teibei. E pra que vocês não sofram a desonra, a partir de agora sou Lampeoa, sem eira nem beira. Ocultarei minha identidade e seguirei errante. Juntou seus trapos num alforje com tudo dentro, inclusive o Asdrubal, seu sapo cururu de estimação e esperança dela de um dia se transformar num príncipe encantado. Tanto é que todo dia beijava o batráquio, tratado com rapadura, cuscuz, rolete de cana e coisas dessas da culinária sertaneja. Foi pro terreiro, amontou-se no toitiço do jumento Aderaldo, que ao rinchar tanto anunciava as horas, como anunciava a hora do ataque; e deu um assobio convocando o guenzo Cheira-peido, a sua principal arma para desancar reputações, pois, vivia de encostar o focinho no furico de qualquer algoz e aí tirava a prova dos nove; e saiu sem rumo com sua trupe. Lá adiante, ainda voltou-se e acenou pros pais que pranteavam sua partida pra nunca mais. No meio do caminho, achou de ajustar umas contas com o coronel Caga-raio: Quais as suas intenções? O homem deitava olhares libidinosos pra cima dela, estalou o dedo e juntou a capangada toda: Agora você vai ver, sua danada! Deu ordem pros cheleleus aprisioná-la, sem esperar pelo ataque do guenzo, das duas uma: ou acendia a fluorescente, ou ia ser desmoralizado pra sempre. Deu a segunda. Do alforje dela, sob a batuta do Asdrubal, saiu uma nuvem com um bando de muriçocas carniceiras, com todo tipo de lacrau, dengue e o escambau. Embate vencido em dois tempos, todo mundo rendido. Chegava a hora do teste: Ou virava rancolho, ou passava para eunuco, era a escolha. Qual que é, hem? Mais da maioria já assumida bandeou pro seu lado, missão cumprida. Foi ter com o coronel Treme-Terra, esse tinha uma conta das grandes por ser responsável pelo descabaçamento de muita donzela: Vamos ver se ele é homem de mesmo! Não era, cagou na vela. E assim foi ela fazendo justiça contra os maiorais abastados de todo lugar. Sua fama chegou longe, em muitas paragens era sinônimo de justiceira, a ponto de anunciar lá vem Lampioa, toda macharia saía com o pé na bunda. E assim era, entrava de sopetão num bar lotado, não ficava ninguém, escapoliam, envultavam-se. De tanto pegar os cabras de surpresa, certo dia, quando entrou pra pegar pra capar, teve um que ficou: Pelo jeito, esse é macho! Como é a sua graça? Engrolando a língua, meio lá, meio cá, disse: Sou Zé Bunito, o pueta do sertão! Mostre cá seus versos! E quanto mais ele virava o copo, mais abusava das estrofes, ela virando os olhos. Não era o que ela esperava, mas dava pro gasto: assentou o bebo na sela do jumento e saiu pra lugar incerto e não sabido pra dar conta da virgindade. Numa das curvas do destino, escondeu-se com o seu amado e ficou esperando que o cara reagisse. Não deu, foi então que a cobra Zefinha entrou em cena, deixou o cabra em ponto de bala, mas de tão bebaço não acertava o lugar, foi preciso que o Cheira-peido desse uma mãozinha, toim, e a muriçoca rainha desse uma ferroada no testículo esquerdo dele, toim, pronto, era uma vez um cabaço e ela no maior vuque-vuque, a coisa pegou no tranco. Não sei direito, nunca mais soube nada deles, mas dizem que foram felizes para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com o pianista, arranjador e produtor Eumir Deodato: Europa Xpress, Super Strut Live, Rapsody In Blue; a cantora, compositora, atriz, instrumentista e produtora islandesa Björk: Live at Royal Opera House, Vulnicultura Live & Voltaic Paris Live; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Uma igrejinha na ilha de Aran, na Irlanda... me lembrou um koan japonês: “Minha casa pegou fogo, nada mais me oculta a Lua deslumbrante”. Minha vida está em ruinas, não há mais obstáculo à visão daquilo que é. À pergunta: “Se sua casa pegasse fogo, o que você salvaria?” – Jean Cocteau respondeu: “O fogo!”. Se o mundo pegasse fogo, o que eu salvaria? Esta chama! Esta centelha de amor, a única coisa que jamais nos será tirada. O amor é o único Deus que não é um ídolo; só o possuímos quando o damos... se minha vida pegasse fogo, o que eu salvaria? Para o céu, nada se leva... a não ser o que se deu. [...]. Pensamento extraído da obra Se minha casa pegasse fogo, eu salvaria o fogo (EdUnesp/UEPA, 2002), do PhD em Psicologia Transpessoal, doutor em Teologia e professor de Filosofia, Jean-Yves Leloup. Veja mais aqui.

O HOMEM & SEU ESPAÇO – [...] Toda dualidade desprovida de ligação entre as duas partes leva à destruição. A partir do momento em que uma parte é rejeitada e que a outra se transforma em todo absoluto, toda e qualquer “comunicação” se torna impossível: resta apenas a destruição, para que o mundo do absoluto seja o único universo [...] Como e por que este homem, tão duramente castigado no corpo e tão fortemente tomado por um pensamento filosófico abstrato, não caiu no abismo do absoluto [...] Utilizar a razão, ter a coragem de pensar sempre foi muito perigoso. [...] Quem quiser viver em paz deve se esforçar por não pensar [...]. Trechos extraídos da obra O homem e seu espaço vivido (Papirus, 1988), da neuropsiquiatria e psicanalista francesa Gisela Pankow (1914-1998).

A METAMORFOSE – [...] Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas inúmeras pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconteceu comigo?, pensou. Não era um sonho. Seu quarto, um autentico quarto humano, só que um pouco pequeno demais, permanecia calmo entre as quatro paredes bem conhecidas. Sobre a mesa, na qual se esplhava, desempacotado, um mostruário de tecidos – Samsa era caixeiro viajante -, pendia a imagem que ele havia recortado fazia pouco tempo de uma revista ilustrada e colocado numa bela moldura dourada. Representava uma dama de chapéu de pele que, sentada em posição ereta, erguia ao encontro do espectador um pesado manguito de pele, no qual desaprecia todo o seu antebraço. [...]. Trecho extraído da obra A metamorfose (Brasiliense, 1985), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

CERTA SENHORA QUE CONHEÇOEla imagina que no céu da sua classe / vão dormir tarde e roncam enquanto os pobres / e pretos querubins acordam às sete / para arrumar a casa celestial. Poeta do poeta estudunidense Countee Cullen (1903-1946).

A ARTE DE HUANG YAN
A arte do artista taoísta multimídia Huang Yan.


Festival de Invento de Garanhuns – FIG 2018 & muito mais na Agenda aqui.
&
Aos quatro cantos e ventos minha vida, o pensamento de Jacob Boehme, a música de Esther Scliar, a escultura de Jo Ansell, a pintura de Tamara de Lempicka, a fotografia de Jonathan Charles & Dene Ramos aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da poeta e artista visual Cyane Pacheco aquiaquiaqui, aqui,  aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. aqui, aqui e aqui.
 

MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...