segunda-feira, julho 15, 2013

POEMAS DE CYANE PACHECO

 
POEMAS DE CYANE PACHECO

Foi retirada do fundo do mar
Ainda sem vida
Inerte alga marinha
Restos de peixes
Uma garrafa com uma carta de amor antiga
Quando todos estavam mortos
Havia quase um século
Deve ter se despreendido de um arrecife
Ostras agarradas à transparência
Quase fosca daquele duradouro envelope de vidro
Quando chegou à areia
Deitou sem vida e gelada
Abriu os olhos e o viu
Rindo com seus olhos tristes
Mirando os seus e os desejando
Não havia partido e a deixado sozinha
Decidiu que o voo
No qual fora abatida
Guardava em si um destino
Se ele era o mar
E ela o oceano
Não poderia morrer novamente
Ajuntou as folhas
Os minúsculos bichos
As conchas
Os sargaços
Como um pássaro morrediço
Teceu novas extensões dos seus abraços
Unindo-as às asas do menino
Então acordou do pesadelo
Postou-se diante das ondas
Fechou os olhos e mergulhou mais fundo
Era uma sobrevivente
E caminhara muitos anos sozinha
Perdera o medo de chorar
Lembrou de ter crescido
Na última rebentação
E não ter vertido nenhum pranto
Sabendo que agora é amor
Cuidou para que o veneno das setas
Não atingisse seus olhos e ouvidos
Mas esquecera que são as palavras
Amarradas numa linha e arremessadas
Com precisão que abatem
Pássaro
Peixe
Gente
Recordou que carregava uma mala vermelha
Quando se perderam em um passado longínquo
Que havia morrido antes
Sabia do havia acontecido
E não queria repetir essas distâncias
Então quis seguir com o menino
Ser o seu deleite e sua dor
Correr e caminhar adiante
Cansar e esperá-lo chegar
Devia ensiná-lo a sobreviver a si
Nos voos cegos
Nas cismas e incertezas
Depois ele poderia voar sozinho
Ou preferir ficar ao seu lado
Sem se voltar para o que viveu
No passado recente
Agora não morrerá mais
Nada e suas asas são boias imensas
É um pássaro invisível
Uma borboleta de fogo
Onde cabem os dois que são um
Podem avançar no tempo
O sonho que urdiram juntos

Porque é humano 
E erra nos caminhos
Que aponta e cumula de desejos
São seus palimpsestos 
De querença e devoção
Como se fosse um menino
O mar ou o próprio tempo
Eu não o imaginaria um dos 36 homens
Nem que Deus pudesse esquentá-lo por mil anos
Até derreter nele
Ou em cada um que sobe
O gelo que os transporta
Nós dois guardamos um vidro
De maldade e de veneno
Que nos impregnou o abraço
Dos nossos antigos conhecidos
Que se perderam de nós
Esse objeto maravilhoso
É o que nos salva da vaidade das feras
Se fosse um deles
Vagando incógnito
Não se destacaria e eu não o veria
Dentre tantos
Tornando-o o único
A receber meu corpo
Minha alma
Minha saliva
Se um deles pudesse ser
Inocente como os outros
Viveria enfim o que sempre quis
Se o soubesse
Morreria
Repartindo o peso em partes iguais
Por 36 homens que se desabem
Os escolhidos na terra
Eu os desenhei e não vi os seus rostos
Mas o rosto dele eu decorei cada traço
Pelo
Ruga
Queixo
Riso
E os olhos de índio
Que me atraem e paralisam
Sobre aqueles que sobem congelados
Até chegarem ao éden
Há alguns que despertam aquecidos
E ainda choram pela humanidade
E eu às vezes choro por ele
Como se estivesse envolta no gelo
Que me ameaçou
Sem saber que lanço-chamas e o derreto
E se o criador adianta em um minuto o relógio
No Dia do Julgamento
Lá está também ele
Ali diante de mim
Culpado e inocente
Nós dois não sabemos o que dizer
Brinca o meu menino
Com suas palavras em brasa
Como se fossem espiras
Que equilibra nas mãos
Enquanto em Andaluzia
Chora um justo
Sua lágrima de pedra

Uma mulher espera por ti
Nada lhes falta
Nem o corpo
Nem o orvalho da manhã
Nem os travesseiros de nuvens
Onde repousas tua cabeça
E vês o sol em seu corpo
Em sua alma
Em tudo
Todos os significados
Estão naquele dia primeiro
Em que choraram
E a contemplastes nua
Sem os trajos dos segredos
Quando a união
Foi além da carne trêmula
Além da lágrima
Além do beijo
Ela segurou tua mão
E te quis para para sempre junto de si
Resultou na delicadeza do gesto
Que nadou em águas superficiais e profundas
Claras e turvas
Te inspira canções
Dita os próprios mandamentos
No mistério do ventre silencioso e morto
Recebe teu sal inocente
Uma mulher espera por ti
Com a paixão despida no meio da praça
Oculta sob teu colchão
Prepara diante da chama o teu alimento
Guarda para ti
O bem
A dádiva
A esperança sadia
O amor único e verdadeiro
Que a atravessou numa idade temporã
Cuida da tua saúde
E te adverte sobre o passado e o futuro
Se faz presente se a recebes nos braços
Te deleita com suas vestes
E a maturidade da beleza
Volta-se para ti
Dando às costas para o mundo perverso
Daqueles que julgam-se deuses
E são títeres insanos
Desse terreno adverso
Ela conhece os caminhos
Que percorres a pé
Lê teus enganos e ri
E ruge para que entendas
E saibas noutros domínios
Distinguir entre o errado e o certo
Ela sabe o que tu queres
Se a queres com carinho
Nessa hora seus olhos acendem
E voa pelo espaço
No lume do teu foguete
Deves escolher
Afastar de ti as frígidas
As numerosas concubinas
As inúmeras mulheres que te acercam
E todas as que manténs junto a ti
Não ouças aquele velho
Ele quer que tenhas um harém
E povoes os continentes
Espalhes rapazes e moças
Para lutarem nas guerras
Se o ouvires
Verás que aquela mulher
Abreviará sua espera
E partirá para longe de ti
Apenas deves ser vigoroso
Não és menor do que ela
Nem ela maior do que és
Vejas que a calmaria dos seus olhos
Ondas altas e revoltas
Podem te tragar para o fundo do oceano
Se esqueces o que de vera deves ser
Dormes abraçado a ela
Que se recusa a despertar
Sem tuas mãos
E de mais nenhum outro homem da terra
Quer a lenta e rude pressão
Do músculo sobre o músculo
Chuva
Trovão
Ela apaga a luz do quarto
E te aguarda no mesmo lugar de sempre
Querendo-te até o último fôlego que tiveres
Não te encantes com chamado
Daquele velho belo e insistente
Pois ele é demasiado louco
E te afastará de quem digo
Quanto rios hão de escoar
No corpo da mulher que te espera
Sob a pote entre o divino e o humano
Ela senta-se diante de ti
E planta outros sonhos em tua espera

Não muda
A garra
Arranha 
De leve seu rosto
Convida
Ao voo
Entre as nuvens
Com asas de aço

No dia em que o sopro
Se extinguir
Nenhuma tristeza irá comigo
Posto que vivi 
O fluxo da vida que me coube
Recusei ser silenciada
Em cada um dos perigos
O mundo não me diz
O que eu me digo
Então apuro o meu faro
Como um cão
E me espanto com o que vejo
Neguei joias e dinheiro
Símbolos obtusos desse tempo
Para não me ajoelhar
Diante do fálico e transtornado poder
Que vige nas ruas
Nas casas e escolas
Nos mares e nos amores
Entrevejo a clivagem impossível
Não há liberdade no leito em brasa
Apenas a condição cativa
Dos abraços daquele menino
Que vadia com as palavras
Desveladamente
Como se estivesse oculto
E convida meus travesseiros
Ao irrequieto pensamento
Como se dessem choques elétricos
No dia seguinte
Há os cães que deitam-se à minha volta
Posso divisar
Seus olhares olhares sinceros
Então não me sinto sozinha
Uso apenas um vestido
Quando ele chega às sextas
Atendendo ao seu pedido
E rimos desse risco
Acendemos as velas
Em cada ponta
Nos olhamos no espelho
Ele sabe que não movo meus olhos
Nem meus músculos
Que naquilo que pensa saber
Sou virtuosa e fria
Sei o que quero e sigo
Tenho amigos que abandonaram
A vaidade
O orgulho
O que é mundano no desejo
A traição e a mentira
Então são meu tesouro
Eu tive uma infância feliz
Não creio nesses apelos do mundo
Sei que há um muro
Entre a liberdade e a fúria
Tenho que vará-lo
Como se fosse um fantasma
Sem aniquilar o lampejo alheio
Então decidi que aquele menino
Terá minhas palavras e meu corpo
Mesmo que não os compreenda
Há um apreço que se recusa
A dormir nas vitrines
Ainda não sou o que quero
Miro essa grande aventura
A construção do entrenós
Que é abrigo
Retina
Precipício
São nossas mãos
Contradizendo a distância
Escapamos sendo o milagre
De escrevermos
Quando ainda estamos ebulindo
Cubro a redoma com várias capas de frio
Assim poderei ser humilde
E levar esse amor aos lugares longínquos
A liberdade é o reverso do medo
Então tremo e avanço os meus desígnios
Ele ainda não olhou à sua volta
Segue grupando dentro de si
As ilusões
Os delírios
Que parecem brinquedos novos
E são semblantes dos afetos tristes
Eu continuo segurando suas mãos
Para voarmos juntos

Só por não temer a morte
Vivo
E a noite com seus dentes de treva
Mastiga
Lacera
Cada um dos meus sonhos
Sim
Ele está aqui e me beija
E onde sua lingua toca
Queima e corrói minha pele
As palavras que decifro
Foram escritas com o seu punho fechado
No meu ouvido
Rompem-se os tímpanos
O sangue escorre em meu travesseiro
Já é tão tarde
E ele segue perfurando os meus olhos
Com minúsculos alfinetes escondidos
Nas horas exatas de sempre
Queria apenas as vertigens de lã
Rasgar as ilusões que apodrecem
No calor das mãos geladas
Eu sei que aquele lampejo
Rastreia a serenidade
Entressonhada e nua
Como ecoa que vivo dentro de si
E ora não estou
Ainda é tão cedo
E o silêncio mutila os intervalos
Entre os selos e os engasgos
Sim
Ele ainda está aqui
E não vê que os meus lumes
Estão opressos entre o que diz
E cada um dos seus gestos
Fala como se estivesse em um púlpito
Para uma platéia ausente e ri
Acordo e ele foi embora
Não o espero
Pressinto e abro o livro de carne e vidro
E engulo qual um cão faminto
Permaneço transparente
Como uma fina parede de gelo
Uma porta rigorosa que atravessa
O que sinto
Sobram as palavras
São um manto e uma cápsula vazia
Na ausência do seu cuidado e tato
São elas que cuidam de mim e voam
E me protegem do frio que provoca
Como aquelas encarceradas do passado
Estou tão só que mal abro os olhos
Para me certificar se já é tarde
Nenhum sono se aproxima
Nenhuma vaga inundando os desvãos da memória
Ele arremessa o arpão na minha boca
Tremulo como um peixe tonto
E o ar continua pesado
Ainda assim eu respiro
Daqui a pouco será noite novamente
E ele estará aqui
Mudo e indiferente
Com os seus olhos fechados ao que sinto

É tão estranha
Recusa os jogos e os desatinos
Abre os próprios caminhos
Segue em frente
A solidão é uma rastro de luz
Sempre deu às costas e partiu
Há muito compreendeu o significado
De um gesto de amor elegante
Engole o sol quando nasce
E deita às noites
Nos alvos travesseiros de espinhos
Lugares do repouso de lã
Que sangra seu peito desde o início
É tão estranha e fina
Como uma lâmina na veia
Segue transcendendo
Todo o amor que sente
Os escombros que resistem e a atingem
Permanece ilesa e sem revides
Seu corpo é cristalino
Ele o torna triste quando se distrai
E esquece o que foi dito
Ela ainda verte sua descompostura
Nunca insistiu para que um homem
A quisesse
O assediando para que ficasse
Ou rogando para que não partisse
Nunca hesitou em dar o corte no instante exato
É tão estranha ao querer os afetos potentes
E recusar o fumo que perfura as paredes de vidro
E atravessa as frestas
Visíveis a si e ao mundo
Quando ele a cega
Tange-a para longe do jardim
Onde voam as borboletas negras do sonho
Onde a velocidade a inscreve nos labirintos
E nos enganos das cidades distantes
Onde ela vê o cadáver do amor antigo
Daqueles dois lassos e imaturos
Convulsionar como se estivesse vivo

Diz-se de uma tribo de homens
Que repartem o afeto em tantas frações 
Que parecem sentir uma voragem indistinta
Escondem-se detrás das novas árvores
Das florestas enfeitiçadas dos seus olhares
Das placas-mães tectônicas
Nunca mitigam a fome das suas mulheres
Para que estejam sempre às suas voltas
Lastimando e duvidando do que dizem
Refletidas e arrebatadas
E nunca se sabe quantas 
Nos fragmentos que destroçam os sonhos

Eu posso mergulhar os pés
Naquele rio escuro e profundo
Que projeto no alto
Sei que é preciso coragem
Para tocar o chão
Ou flutuar nos céus
E emergir sem às dores antigas
Há uma lama viscosa
Onde crescem galhos
Que sobem às margens
Os antigos diziam que eram
Mãos encantadas que agarram-se às pernas
Dos incautos que não sabem atravessá-lo
Nuvens que escondem
Seus corpos para sempre
Mudam de forma
À noite na hora da troca das palavras
Transformam-se em monstros
E espreitam cada passo
Daqueles que se aproximam
Diz-se de homens que escorregam
E são tragados
Ou voam para nunca mais serem vistos
Que enlaçam seus cabelos às folhas
Desenvolvem guelras
Ou criam asas
Não morrem
Também deixam de ser humanos
Os monstros não me vêem
Os híbridos sabem que estou ali
Mas não se aproximam
Uso um colar de anzóis
Eu os assusto e fogem
Projeto o curso d'água na via-láctea
Inverto o mergulho
Voo entre cada sinal de luz
Nessa hora boio na escuridão
Descendo o curso dos dias
Iluminando as bordas do meu sonho

Inseguros solos de lã
Segredos oscilantes de vidro
Enquanto entristeço
A cidade se agita e me inibe
O lasso compromisso
Existe frouxo e elástico
Eu o chamo de cadáver insepulto
Fosse de cera
Acenderia uma chama
O derreteria noutra fôrma
Dessas que necessitam os amores findos
Da mesma matéria do sonho
Incineraria e transformaria em sentimento diverso
Deixando à amizade e os outros afetos
Retirando-lhe o desejo e o sexo
Eu mesma já passei por isso
Atravessei a ponte
Enquanto partia-se em duas
Sobre fundo abismo
Também conheci
A superfície ardente dos desertos
Sozinha com as mãos vazias
Como convém atravessá-los
Guardando na memória
As marcas
Os presságios
As línguas costuradas do afeto
O desespero dos imóveis gestos
Engolindo a mentira
Deitada ao meu lado na cama
Silenciei como quem embala
O precipício de si mesma
E a vontade sem fim do pranto
Preso entre os pés e a garganta
Há dias em que seria melhor
Não ter nascido
Naquele jardim de rosas negras
Pois todas as regiões distantes
Ainda mais se afastam
Até onde não mais alcança a vista
Isolando o corpo do alimento
Recusando água à sede
Marquise à chuva
Arremesso sobre minha cabeça
Das pedras sagradas dos templos
Da fúria de todos os deuses
Que caem sobre os meus ombros
A palavra não é a verdade
E a loucura é o exílio
Os fatos arranham minha janela
Quebram o vidro
E invadem os meus olhos
A clivagem perpétua
Entre a letra, o ato e o verso
Não seria pedir muito à sina
Faróis e setas indicativas
Para se escolher a trilha
No entanto hoje será outra noite
Quando o mistério já não existe
E lastimosa assisto
O dia amanhecer
Como se nada tivesse acontecido
Até novamente a noite cair
E os laços prosseguirem
Seu doentio destino
Diariamente me pergunto por quê
Ainda estou aqui
Só há uma resposta
Que me assusta
Revela e se desdobra
Cansa e espera
Inaugural palavra em minha boca
E verídica no meu íntimo

No dia em que o sopro
Se extinguir
Nenhuma tristeza irá comigo
Posto que vivi 
O fluxo da vida que me coube
Recusei ser silenciada
Em cada um dos perigos
O mundo não me diz
O que eu me digo
Então apuro o meu faro
Como um cão
E me espanto com o que vejo
Neguei joias e dinheiro
Símbolos obtusos desse tempo
Para não me ajoelhar
Diante do fálico e transtornado poder
Que vige nas ruas
Nas casas e escolas
Nos mares e nos amores
Entrevejo a clivagem impossível
Não há liberdade no leito em brasa
Apenas a condição cativa
Dos abraços daquele menio
Que vadia com as palavras
Desveladamente como se estivesse oculto
E convida meus travesseiros
Ao irrequieto pensamento
Como se dessem choques elétricos
No dia seguinte
Há os cães que deitam-se à minha volta
Posso divisar seus olhares olhares sinceros
Então não me sinto sozinha
Uso apenas um vestido quando ele vem
Atendendo ao seu pedido
E rimos desse risco
Acendemos as velas
Em cada ponta
E nos olhamos no espelho
Ele sabe que não movo olhos
Nem os músculo
Que aquilo que pensa saber
Sou virtuosa e fria
Tenho amigos que abandonaram
A vaidade
O orgulho
O que é mundano no desejo
A traição e a mentira
Então são meu tesouro
Eu tive uma infância feliz
Não creio nesses apelos do mundo
Sei que há um muro entre a liberdade e a fúria
Tenho que vará-lo como se fosse um fantasma
Sem tornar aniquilar o lampejo alheio
Então decidi que aquele menino
Teria minhas palavras e meu corpo
Mesmo não os compreendendo
Há um apreço que se recusa a dormir nas vitrines
Ainda não sou o que quero
Miro essa grande aventura
A construção do entrenós
Que é abrigo
Retina
Precipício
São nossas mãos contradizendo a distância
Escapamos sendo o milagre
De escrevermos quando ainda estamos ebulindo
Cubro a redoma com várias capas de frio
Assim poderei ser humilde
E levar esse amor aos lugares longínquos
A liberdade é o reverso do medo
Então tremo e sigo
Ele ainda não olhou à sua volta
Segue grupando dentro de si
As ilusões
Os delírios que parecem brinquedos novos
E são semblantes dos afetos tristes

Não é o tempo dessa morte
Marcada a lápis no caderno
Nem o bilhete
Ainda que a candeia não se extinga
Que nada seja uma miragem vã
Diante da vida
As imagens antigas
Quando teu riso era inocente
E hoje o destino rumina
Te devolvendo até o fim
Fatias do teu próprio corpo
Quase inteiras mas tristes
Ao espelho o que vês
É quase tudo o que conseguistes guardar
Entre as paredes do abandono
Ou desalentos das madrugadas insones
Perdestes às mãos
Amputadas por um rude
E duvidoso golpe
No escuro de tua casa
Recebes um beijo vil
Que nada mais merece
Do que a zombaria na praça
Enquanto tens um frouxo de riso
Como as batidas do salto
E acendes um cigarro
Invertas essa zombaria das palavras
Essa mofa insolente
Adiando então tua morte
Antecipando o dia em que nasces

Duas margaridas me falaram
Sobre minha dor
Flores dizem palavras de pedra
A primeira
Disse-me que eu era
"Um país estrangeiro"
Imaginei-me novamente despistando rotas
Criando encarpas na pele
Espatifando navios invasores
Ou estendendo tenras areias
Ao visitante surpreso
A outra
Disse-me algo que me espantou
Que "É um erro ter razão cedo demais"
Então lembrei-me dele
Queria que soubesse que é longa minha espera
Que não quero ter razão
Apenas velocidade e sossego
E não chorar durante toda a semana
Porque um dia tudo sumirá
Repousarei nalgum canto
Como uma velha caixa de memórias
Que come
Dorme
Chama alguém para pedir um copo d'água
Ou sonha sob a terra
O sonho dos mortos
Que troca os pesados ossos
Por uma leveza mínima
Não haverá mais desejo ou suores
Nem a lâmpada acesa sobre os livros
Será muito tarde
Ser invadida por bárbaros
Ávidos dos meus olhos
Ou ter tido razão muito cedo

Hoje o poema não me acordou
É como se eu ainda estivesse dormindo
Não sei se os ossos do meu rosto
Estão inteiros ou partidos
Ou terei que colar à minha cara
Uma máscara de gesso
Tornando-me enfim um alvo monstro
Uma deformidade que assusta
Uma lousa
Onde palavras são escritas
Ou se morrerei daqui a alguns dias
No cubo branco do meu quarto
Dormindo como um passarinho
Hoje o poema não me acordou
Como de costume para matar sua sede
Beber a água salgada nos meus olhos
Os músculos enfraquecem
Dia a dia dado ao tempo da espera
Exibem seus avarios devido à porta
Forçada nas madrugadas consentidas
Enquanto a sustento e choro
Hoje o poema não me acordou
Porque ando lenta
Uma baleia inerte dentro de um copo
Um rinoceronte de Pietro mastigando feno
Ou uma fêmea de hipopótamo
Nas estreitas ruas do medievo
Hoje eu acordei sozinha

[Poema 10]
Para ti teceste o meu amor, ó Faquir!
Eu dormia, pesado, em meu quarto, e me despertaste,
Acordando-me com tua voz, ó Faquir!
Eu me afogava no oceano deste mundo, e me salvaste,
Soerguendo-me com teu braço, ó Faquir!
Eu estava vinculado aos meus hábitos, e me libertaste,
Dizendo uma palavra, não duas, ó Faquir!

Acordou no meio da madrugada
Procurando os olhos sob a cama
Desconhecendo o que ocorrera com eles 
Devem ter sido arrancados 
Por algum espírito mal
Ou caído enquanto dormia
Não precisava deles
Todas às horas do sonho
Apenas quando queria mirar seu menino
Se fosse apenas um par de olhos
Seria ágil em resgatá-los
Mas era uma catarata que se multiplicava
Leve e velozmente
Os olhos replicados
Espalhavam-se pelos lençóis
Esboravam do corpo
Entornavam pelo assoalho
Desciam às escadas
Eram bolhas iridescentes da infância
Deitavam no jardim
Atravessavam às ruas
Seguiam distinta trilha
E mergulhavam no mar
Que era um nome e um deus
Ali alcançavam os cinco continentes
Do corpo do menino
Costurados à sua pele
Flutuavam e eram vistos de longe
Como pontos iluminados
Faróis dos devires
Serão boias flotando até o fim dos tempos
Exceto os dois olhos
Que abrem-se para dentro
E repousam sob a cama

Na eternidade dos fatos
Como se eles existissem
Ali buscas a verdade 
E ela te trai na razão 
Que não pode abrigar dois amores
Sim
Tu és o único a te tornares
Corda e abismo
Poço fundo e mola de rendenção
Dizes palavras de pedra
E elas são as amas da mentira
Enquanto voo
Te vejo ínfimo
Carregando o feixe de tuas dúvidas
Podemos ser amantes ou amigos
Não ojerizo tua figura
Subir a montanha para morrer de frio
Não é para os fracos
Que choram no caminho
Mas para aqueles que sabem
Ser dura a sorte de não prosseguirem adiante
Aqueles que mastigam as lâminas
E trincam os dentes
Eu te guardo no meu peito bárbaro
Apenas com a visão do oceano
Sem bússola ou terra à vista
Te protejo das minhas vinganças
Que são piores do que as tuas
Por isso sangro a onça
E a deixo morrer lentamente
Os leves escuros da tua consciência
São menos tristes do que aquilo que reputas
Ouço tuas canções distantes
Lamento por aqueles ouvidos moucos
Que não podem ouvir música
Enquanto danço nua
No meio da floresta de símbolos
Não jogo contra ti
Minhas dádivas são os meus afetos potentes

A manhã apenas se inicia
E ela exibe as veias abertas
Deixando o sangue escorrer
O filete faz o percurso das pedras 
Onde transcorreram as batalhas da memória
Dali avistou o campo onde ocorreram
Suas últimas mortes vãs
Quando no passado havido
Ingênua as chamou de quedas
Ali eram os enganos lacrando seus olhos
Impiedosa lâmina que ele
Segurando em cada uma das mãos
O amor e o conflito
Cravara em seu peito
Completa nesse instante
O ciclo de um dia
Que ele se recolheu ao silêncio
Nenhuma palavra além de um aviso
Há rumores que chegam aos seus ouvidos
Pistas
Imagens
Toda a maldade dos desesperos distantes
Os pássaros acorrem e dizem
Que ele partirá para cumprir o prometido
Conhece seus recuos perpétuos
O rápido percurso que faz
Entre o fogo e o gelo
E posta-se trêmula novamente nos seus prantos
Intui a impiedade que a afasta
A tesoura que corta a fita
A decisão final entre o voo e o mal
Ela enfrenta sozinha o bom combate
Muda como uma rosa negra
Enquanto ele também se cala
E permanece suspeito
Como podemos chamar
Aquilo que fecunda seu silêncio
Naufrágio ou salvamento
Senão ondas cansadas da deslealdade
Partindo os alvos blocos dos sonhos

CYANE PACHECO - Reunião de textos, fotos & expressões da artista plástica & visual Cyane Pacheco. Veja mais aqui, aqui,  aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


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Paz na Terra:
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IMRE KERTSZ, MAVIS GALLANT, VERONICA FRANCO, CHARLOTTE YONGE& CLODOALDO CARDOSO

  Ao som do show Almério e Martins gravado ao vivo no Teatro do Parque, Recife, 21 de novembro de 2021.   TRÍPTICO DQP: Isso é aquilo ...