DOUTOR ZÉ GULU (Imagem: Oscar Gomes) - Do
doutor Zé Gulu o que é que se sabe de mesmo? Ora, foi criado pela avó viúva,
desde o berço até a adolescência. Filho dum fiscal de renda abastado e duma
dondoca vaidosa dos mimos maternos. Cresceu leitor, punheteiro compulsivo. Só
tirou o cabaço já quase homem feito, com a feiosa Uga-gogó, a quem chamava
carinhosamente de Leonor. E arribou depois disso, porque foi se formar na
França, doutorando-se na filosofia nietzschiana, até o pós-doutorado na
Alemanha, sobre a fenomenologia e a arte existencialista. Vivia às voltas a
suspirar suas raízes no exílio, tomado pela miopia e secura por sexo, coisas
que o fizeram dândi por todas as capitais europeias, até o Japão e China, afora
perder-se pelo Canadá e Estados Unidos. Só não zanzou pra mais longe porque morreu-lhe
o pai repentinamente. Deu um freio de arrumação em tudo e voou pra casa. Lá chegando
sua mãe havia surtado e saíra para nunca mais voltar. Deitou-se no colo da avó,
aos cafunés e saudades. No outro dia, ela se envultou, rezas e sepultamento.
Sozinho: Pronde ir? Saiu pela redondeza e resolveu parar em Alagoinhanduba.
Hospedou-se e foi ficando, até comprar um terreno e construir um edifício estranho.
Dado por pronto, sumiu; soube-se que vendeu a casa e trouxe umas 10 carregas de
caminhão só de livros. Ali arranchou-se. Afora isso, pouco se sabe dele. Só que
era um sabichão, dito patafísico polímata, erudito poliglota, solteirão
convicto. Só sabiam mesmo dele na zoada lá da casa dele, ouvida pela
vizinhança: Óiaaa, pai! U-hu! E batia nos beiços imitando
indígenas dos filmes da tevê: U-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u! O doutor tá
entusiasmado mesmo, hem? Tá lavando a égua! Ô canibal! Era mesmo doido de pedra
pelas milagreiras fêmeas, fetiche por garçonete jeitosa que aparecesse assim do
nada. Pegava ar, tomava uma e truviscado mandava ver! Lá estava ele às bicadas,
com um rabo de olho no pandeirão da atendente frochosa, acotovelado numa das
mesas do boteco do Dudé ou na carne-de-sol do Zé Mago. A cada olhadela, ele tomava
nota, virava o gole clareando as ideias para a caligrafia redonda desenhada. A vida
ali muitos luares, trechos de tempo nos dias intermináveis, lembranças pueris. Vez
em quando era importunado por requerente: O senhor que é 3 vezes doutor, diga
lá uma coisa! Obsequiava, nunca rompeu a cortesia, mas aos elogios babados,
respondia: Não sou PhDeus, porra nenhuma! E quando botava pra falar, juntava
gente: narizes e queixos atentos, ar preso nos bofes, olhares suspirantes. Tolerava
ante os disparates às lonjuras, caretas atiçadas e, com seu espirituoso sotaque,
contava histórias de suas leituras, riso e susto, fôlego no espírito às
desordens, coisas de arregalar; emendava o já pelo depois, às galhofas, antes
mesmo de destrançar o carretel das ideias, só se ouvia de outrens: Esse fala
bonito no demais, né? É sábio! É. Ele usa uns nomes diferentes, coisa de quem
vê o que a gente sequer enxerga. Como é mesmo aquela história daquele que vira
besouro? Tratavam-no por conselheiro dos tapados e para todas as mais ínfimas
pendengas: O meu filho anda meio apirobado, o que faço? Minha mulher tá enervada
da mais brabona, como posso domá-la? Minha filha enrabichou-se por um frebento
apaideguado, como dou fim a essa pinoia, hem? Sonhei avoando, qual o bicho do
jogo? Hem? O que diz? Vamos todos tomar no cu! Riam daquela cabeça perpétua pelo
benigno humor. Não vacilava peremptório apotegma: Jamais será feliz quem não
consegue se libertar do seu passado! Tenho dito. Não convencia, nem era o seu propósito
persuadi-los, mas deixava todo mundo avalizando o que dissera: O doutor é que
tá certo! Engolia lérias aos montes. Ouvia o barulho da lambreta, irônico: Quem
conduz uma Harley-Davidson em South Park é fag. E no Brasil? As poluidoras
motos mais parecem panapanás do apocalipse. O que é fag? Ora, viado! O mundo
remexia ânsias, deserto do muito. Já excentricamente biritado: Pobreza é cada
um por si e ninguém por todos! Quem acudiria? Pois quem às larguras e veemências
se deixava levar, como se vivesse fora de engano, ao desafio do mundo respondia
estirando as pernas, arregaçando as mangas e, quase excomungado, envergava as
coisas tidas por certas, levava à risco: perigo que viesse. Na veneta sumia.
Doutra foi demorado: Cadê ele, hem? Sequestrou alguma beldade e tá se lambendo.
É mesmo. Desapareceu e só achou de voltar muito depois para em seguida
evadir-se misteriosamente. Aparece e torna a pinotar, de quase nem mais dar as
caras. Taí suas façanhas, confira:
CONVERSA DE BAR & FILHO NÃO RECONHECE PAI
SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA
O TRIO DO FINCAPÉ NO PORTO DOS PATIFES
PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO
OS DOIS MUNDOS DE QUEM VIVE DE UM LADO SÓ
APESAR DE TUDO QUE JÁ FOI FEITO, SOMOS TODOS MÍNIMOS
O MISTÉRIO DA ENCICLOPÉDIA GRIZ
AH, DANAÇÃO! TUDO DE CABEÇA PRA BAIXO!
DESABAFO: A CIVILIZAÇÃO DOS EQUÍVOCOS
OUTRA SOLIDÃO NO PAÍS DO FECAMEPA...
BATENDO UMA REAL: EU & OUTROS EUS
O SUMIÇO & O PACTO DO DOUTOR GULU
O TESTAMENTO DO DOUTOR ZÉ GULU
DITOS & DESDITOS - Em vez de
nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho
que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o
que, se é que queremos que sejam alguma coisa... Pensamento da filósofa e
professora estadunidense Sally Haslanger.
ALGUÉM FALOU: Sinto-me
energizada quando estou perto de pessoas jovens e talentosas. Há algo sobre
estes miúdos que é incrível. Eu aprendo tanto com eles quanto com eles comigo... Pensamento
da atriz e ativista estadunidense Sally Struthers (Sally Anne Struthers).
Veja mais aqui.
PARA SEMPRE IRMÃS - [...] Talvez
você pense que terá direito a mais felicidade no futuro se abrir mão de tudo
agora, mas não é assim que funciona. A felicidade exige tanta prática quanto a
infelicidade. É vivendo que se vive mais. Ao esperar, você apenas espera mais. Cada
dia de espera torna sua vida um pouco menor. Cada dia de solidão faz você se
sentir um pouco menor. Cada dia em que você adia a sua vida o torna menos capaz
de vivê-la. [...] Você só precisa deixar as pessoas te amarem da maneira
que elas conseguem. [...] O que você deixa para trás são as pessoas que
você amou. Você se deixa neles. [...] Estou escrevendo isto porque vai
ser difícil dizer em voz alta. Porque esta é, provavelmente, a última vez que
estamos apenas nós. Veja, consigo escrever isso, mas acho que não consigo
dizer. Não estou fazendo isso para me despedir, embora saiba que a despedida
faz parte. Estou fazendo isso para agradecer por tudo o que vivemos, fizemos e
fomos um para o outro, e para dizer que amo você por ter feito da minha vida o
que ela é. Deixar você é a coisa mais difícil que tenho de fazer. Mas a verdade
é que as melhores partes de mim estão em você — em vocês três. Vocês são quem
eu sou, e aquilo que mais prezo em mim permanece vivo em vocês. [...]. Trechos
extraídos da obra Sisterhood Everlasting (Random House, 2011), da escritora
estadunidense Ann Brashares, autora de obras como My Name Is Memory
(2010), Forever in Blue: The Fourth Summer of the Sisterhood (2007), Girls
in Pants: The Third Summer of the Sisterhood (2005), The Second Summer
of the Sisterhood (2003) e The Sisterhood of the Traveling Pants
(2001). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
E A PICTURA POESIS É O NOME DELA - Você não pode
dizer mais assim. \ Incomodado sobre a beleza que você tem que \ Saia para o
aberto, para uma clareira, \ E descansar. Certamente o que for engraçado
acontece com você \ Está bem. Exigir mais do que isso seria estranho \ De você,
você que tem tantos amantes, \ Pessoas que olham para você e estão dispostas \ Para
fazer as coisas por você, mas você pensa \ Não está certo, que se eles
realmente te conhecessem... \ Tanto para a autoanálise. Agora, agora, \ Sobre o
que colocar em seu poema-pintura: \ As flores são sempre agradáveis,
particularmente o delfínio. \ Nomes de rapazes que uma vez conheceste e os
trenós, \ As brochas são boas – elas ainda existem? \ Há muitas outras coisas
da mesma qualidade \ Como aqueles que eu mencionei. Agora é preciso \ Encontre
algumas palavras importantes, e muitas discretas, \ Que soam sem graça. Ela
aproximou-se de mim \ Sobre comprar a secretária dela. De repente, a rua estava
\ Bananas e o clangor dos instrumentos japoneses. \ Testamentos de Humdrum
foram espalhados ao redor. Sua cabeça \ Trancado na minha. Éramos uma gangorra.
Alguma coisa \ Deve ser escrito sobre como isso afeta \ Você quando escreve
poesia: \ A extrema austeridade de uma mente quase vazia \ Colidindo com a
exuberante folhagem de Rousseau de seu desejo de se comunicar \ Algo entre as
respirações, mesmo que apenas para o bem \ Dos outros e seu desejo de
compreendê-lo e abandoná-lo \ Por outros centros de comunicação, para que a
compreensão \ Que comecem, e ao fazê-lo sejam desfeitos. Poema do premiado
poeta estadunidense John Ashbery (1927-2017), um dos representantes da
Escola de Nova Iorque, entre os aos 1950-60, com suas longas logopeias jogando
ideias, autor de obras como Flow
Chart (1991), Self-Portrait
in a Convex Mirror (1975), Some Trees (1956) e Collected Poems
1956–1987 (2008). Veja mais aqui & aqui.
A MÁQUINA DE MEMES - [...] Se levarmos a memética a sério, então o "eu"
capaz de fazer a escolha é, ele próprio, uma construção memética: um conjunto
fluido e em constante mudança de memes instalados em uma complexa máquina de
memes. [...] Os humanos são frequentemente
creditados por terem uma visão real, em distinção ao resto da biologia que não
o faz. [...] Não há como negar que o relojoeiro humano é diferente do
natural. Nós, humanos, em virtude de termos memes, podemos pensar em
engrenagens, rodas e marcar o tempo de uma forma que os animais não conseguem. Memes
são as ferramentas mentais com as quais fazemos isso. Mas o que a memética nos
mostra é que os processos subjacentes aos dois tipos de design são
essencialmente os mesmos. Ambos são processos evolutivos que dão origem ao
design através da seleção e, no processo, produzem o que parece ser uma
previsão. [...] Os memes, assim como os genes, são selecionados tendo
como pano de fundo outros memes do *pool* de memes. O resultado é que grupos de
memes mutuamente compatíveis — complexos de memes coadaptados ou *memeplexos* —
são encontrados coexistindo em cérebros individuais. Isso não ocorre porque a
seleção os escolheu como um grupo, mas porque cada membro individual do grupo
tende a ser favorecido quando seu ambiente é dominado pelos demais. [...].
Trechos extraídos da obra The
Meme Machine (Oxford
University Press, 1999), da psicologa, radialista e
escritora britânica Susan Blackmore (Susan Jane Blackmore), que atua na área de estudo
da consciência, memes e experiências paranormais. Na sua definição: “Os memes
são instruções para realizar comportamentos, armazenadas no cérebro (ou em
outros objetos) e passadas adiante por imitação”. Ela é autora dos livros Zen and the Art of Consciousness (2009),
Conversations on Consciousness (2005) e Consciousness: A Very Short
Introduction (2005). Veja mais aqui & aqui.
AS
REGRAS DA ARTE – [...] Eu
simplesmente perguntaria por que tantos críticos, tantos escritores, tantos
filósofos sentem tamanha satisfação em professar que a experiência de uma obra
de arte é inefável, que ela escapa, por definição, a toda compreensão racional;
por que estão tão ávidos por admitir, sem resistência, a derrota do
conhecimento; e de onde vem essa necessidade irreprimível de menosprezar a
compreensão racional, essa fúria em afirmar a irredutibilidade da obra de arte
ou, para usar um termo mais adequado, a sua transcendência. [...] O
questionamento das formas de pensar predominantes, provocado pela revolução
simbólica, e a originalidade absoluta do que ela engendra, são contrabalançados
pela solidão absoluta inerente à transgressão dos limites do pensável. Esse
pensamento, que assim se tornou sua própria medida, não pode esperar que mentes
estruturadas segundo as próprias categorias que questiona sejam capazes de
conceber esse impensável. [...]
Mas, em sua luta contra a Academia, os pintores (e especialmente aqueles
rejeitados por ela) podiam recorrer ao trabalho coletivo de invenção (iniciado
com o Romantismo) da figura heroica do artista rebelde em luta, cuja
originalidade se mede pela incompreensão que enfrenta ou pelo escândalo que
provoca. Receberam também apoio direto dos escritores, há muito libertados da
autoridade acadêmica que, desde o século XVII, lhes concedera uma identidade
reconhecida, mas lhes atribuía uma função limitada e, em todo caso, definida
externamente. Os escritores refletiam para os pintores uma imagem exaltada da
ruptura heroica que estavam realizando e, sobretudo, traziam para o âmbito do
discurso as descobertas que os pintores faziam na prática, particularmente na
arte de viver. [...] do mundo comum, mais ou menos universalmente
compartilhado, diferentemente dos mundos particulares, microcosmos fundados,
como o universo da literatura ou da ciência, em uma ruptura com o senso comum,
com uma adesão dóxica ao mundo ordinário. [...]. Trechos extraídos
da obra The Rules of Art: Genesis and Structure of the Literary Field (Stanford
University Press, 1992), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002),
autor de obras como The Social Structures of the Economy (2000), Acts
of Resistance: Against the Tyranny of the Market (1999), Sociology in
Question (1992), An Invitation to Reflexive Sociology (1992), Pascalian
Meditations (1997), Academic Discourse: Linguistic Misunderstanding and
Professorial Power (1994), The Weight of the World: Social Suffering in
Contemporary Society (1993), Language and Symbolic Power (1991), The
Logic of Practice (1980) e Distinction (1979), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui,
aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.












