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quinta-feira, fevereiro 18, 2016

HERMES, BOURDIEU, BRASHARES, ASHBERY, BLACKMORE, STRUTHERS & ZÉ GULU

 

DOUTOR ZÉ GULU (Imagem: Oscar Gomes) - Do doutor Zé Gulu o que é que se sabe de mesmo? Ora, foi criado pela avó viúva, desde o berço até a adolescência. Filho dum fiscal de renda abastado e duma dondoca vaidosa dos mimos maternos. Cresceu leitor, punheteiro compulsivo. Só tirou o cabaço já quase homem feito, com a feiosa Uga-gogó, a quem chamava carinhosamente de Leonor. E arribou depois disso, porque foi se formar na França, doutorando-se na filosofia nietzschiana, até o pós-doutorado na Alemanha, sobre a fenomenologia e a arte existencialista. Vivia às voltas a suspirar suas raízes no exílio, tomado pela miopia e secura por sexo, coisas que o fizeram dândi por todas as capitais europeias, até o Japão e China, afora perder-se pelo Canadá e Estados Unidos. Só não zanzou pra mais longe porque morreu-lhe o pai repentinamente. Deu um freio de arrumação em tudo e voou pra casa. Lá chegando sua mãe havia surtado e saíra para nunca mais voltar. Deitou-se no colo da avó, aos cafunés e saudades. No outro dia, ela se envultou, rezas e sepultamento. Sozinho: Pronde ir? Saiu pela redondeza e resolveu parar em Alagoinhanduba. Hospedou-se e foi ficando, até comprar um terreno e construir um edifício estranho. Dado por pronto, sumiu; soube-se que vendeu a casa e trouxe umas 10 carregas de caminhão só de livros. Ali arranchou-se. Afora isso, pouco se sabe dele. Só que era um sabichão, dito patafísico polímata, erudito poliglota, solteirão convicto. Só sabiam mesmo dele na zoada lá da casa dele, ouvida pela vizinhança: Óiaaa, pai! U-hu! E batia nos beiços imitando indígenas dos filmes da tevê: U-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u! O doutor tá entusiasmado mesmo, hem? Tá lavando a égua! Ô canibal! Era mesmo doido de pedra pelas milagreiras fêmeas, fetiche por garçonete jeitosa que aparecesse assim do nada. Pegava ar, tomava uma e truviscado mandava ver! Lá estava ele às bicadas, com um rabo de olho no pandeirão da atendente frochosa, acotovelado numa das mesas do boteco do Dudé ou na carne-de-sol do Zé Mago. A cada olhadela, ele tomava nota, virava o gole clareando as ideias para a caligrafia redonda desenhada. A vida ali muitos luares, trechos de tempo nos dias intermináveis, lembranças pueris. Vez em quando era importunado por requerente: O senhor que é 3 vezes doutor, diga lá uma coisa! Obsequiava, nunca rompeu a cortesia, mas aos elogios babados, respondia: Não sou PhDeus, porra nenhuma! E quando botava pra falar, juntava gente: narizes e queixos atentos, ar preso nos bofes, olhares suspirantes. Tolerava ante os disparates às lonjuras, caretas atiçadas e, com seu espirituoso sotaque, contava histórias de suas leituras, riso e susto, fôlego no espírito às desordens, coisas de arregalar; emendava o já pelo depois, às galhofas, antes mesmo de destrançar o carretel das ideias, só se ouvia de outrens: Esse fala bonito no demais, né? É sábio! É. Ele usa uns nomes diferentes, coisa de quem vê o que a gente sequer enxerga. Como é mesmo aquela história daquele que vira besouro? Tratavam-no por conselheiro dos tapados e para todas as mais ínfimas pendengas: O meu filho anda meio apirobado, o que faço? Minha mulher tá enervada da mais brabona, como posso domá-la? Minha filha enrabichou-se por um frebento apaideguado, como dou fim a essa pinoia, hem? Sonhei avoando, qual o bicho do jogo? Hem? O que diz? Vamos todos tomar no cu! Riam daquela cabeça perpétua pelo benigno humor. Não vacilava peremptório apotegma: Jamais será feliz quem não consegue se libertar do seu passado! Tenho dito.  Não convencia, nem era o seu propósito persuadi-los, mas deixava todo mundo avalizando o que dissera: O doutor é que tá certo! Engolia lérias aos montes. Ouvia o barulho da lambreta, irônico: Quem conduz uma Harley-Davidson em South Park é fag. E no Brasil? As poluidoras motos mais parecem panapanás do apocalipse. O que é fag? Ora, viado! O mundo remexia ânsias, deserto do muito. Já excentricamente biritado: Pobreza é cada um por si e ninguém por todos! Quem acudiria? Pois quem às larguras e veemências se deixava levar, como se vivesse fora de engano, ao desafio do mundo respondia estirando as pernas, arregaçando as mangas e, quase excomungado, envergava as coisas tidas por certas, levava à risco: perigo que viesse. Na veneta sumia. Doutra foi demorado: Cadê ele, hem? Sequestrou alguma beldade e tá se lambendo. É mesmo. Desapareceu e só achou de voltar muito depois para em seguida evadir-se misteriosamente. Aparece e torna a pinotar, de quase nem mais dar as caras. Taí suas façanhas, confira:

DE HERÓIS, MITOS & O ESCAMBAU

A TRUPE DOS COSCUVILEIROS

AS TRELAS DO DORO: ESCAMBAU

CONVERSA DE BAR & FILHO NÃO RECONHECE PAI

SUJEITO, INDIVÍDUO, QUEM?

AS PEDRAS DE BUTUA

BURACO SONOLENTO

A SEREIA DA LOROTA

SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA

O TRIO DO FINCAPÉ NO PORTO DOS PATIFES

AD CAPTANDUM VULGUS

PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO

OS DOIS MUNDOS DE QUEM VIVE DE UM LADO SÓ

CRÔNICA NATALINA

A HISTÓRIA SE REPETE!

AS TANTAS & MUITAS DE SALOMÃO

APESAR DE TUDO QUE JÁ FOI FEITO, SOMOS TODOS MÍNIMOS

O MISTÉRIO DA ENCICLOPÉDIA GRIZ

ELUCUBRAÇÕES

AH, DANAÇÃO! TUDO DE CABEÇA PRA BAIXO!

PADRE BIDIÃO & DR. ZÉ GULU

LEGALIDADE SOB SUSPEITA

DESABAFO: A CIVILIZAÇÃO DOS EQUÍVOCOS

OUTRA SOLIDÃO NO PAÍS DO FECAMEPA...

BATENDO UMA REAL: EU & OUTROS EUS

O SUMIÇO & O PACTO DO DOUTOR GULU

O TESTAMENTO DO DOUTOR ZÉ GULU


 

DITOS & DESDITOS - Em vez de nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o que, se é que queremos que sejam alguma coisa... Pensamento da filósofa e professora estadunidense Sally Haslanger.

 

ALGUÉM FALOU: Sinto-me energizada quando estou perto de pessoas jovens e talentosas. Há algo sobre estes miúdos que é incrível. Eu aprendo tanto com eles quanto com eles comigo... Pensamento da atriz e ativista estadunidense Sally Struthers (Sally Anne Struthers). Veja mais aqui.

 

PARA SEMPRE IRMÃS - [...] Talvez você pense que terá direito a mais felicidade no futuro se abrir mão de tudo agora, mas não é assim que funciona. A felicidade exige tanta prática quanto a infelicidade. É vivendo que se vive mais. Ao esperar, você apenas espera mais. Cada dia de espera torna sua vida um pouco menor. Cada dia de solidão faz você se sentir um pouco menor. Cada dia em que você adia a sua vida o torna menos capaz de vivê-la. [...] Você só precisa deixar as pessoas te amarem da maneira que elas conseguem. [...] O que você deixa para trás são as pessoas que você amou. Você se deixa neles. [...] Estou escrevendo isto porque vai ser difícil dizer em voz alta. Porque esta é, provavelmente, a última vez que estamos apenas nós. Veja, consigo escrever isso, mas acho que não consigo dizer. Não estou fazendo isso para me despedir, embora saiba que a despedida faz parte. Estou fazendo isso para agradecer por tudo o que vivemos, fizemos e fomos um para o outro, e para dizer que amo você por ter feito da minha vida o que ela é. Deixar você é a coisa mais difícil que tenho de fazer. Mas a verdade é que as melhores partes de mim estão em você — em vocês três. Vocês são quem eu sou, e aquilo que mais prezo em mim permanece vivo em vocês. [...]. Trechos extraídos da obra Sisterhood Everlasting (Random House, 2011), da escritora estadunidense Ann Brashares, autora de obras como My Name Is Memory (2010), Forever in Blue: The Fourth Summer of the Sisterhood (2007), Girls in Pants: The Third Summer of the Sisterhood (2005), The Second Summer of the Sisterhood (2003) e The Sisterhood of the Traveling Pants (2001). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

E A PICTURA POESIS É O NOME DELA - Você não pode dizer mais assim. \ Incomodado sobre a beleza que você tem que \ Saia para o aberto, para uma clareira, \ E descansar. Certamente o que for engraçado acontece com você \ Está bem. Exigir mais do que isso seria estranho \ De você, você que tem tantos amantes, \ Pessoas que olham para você e estão dispostas \ Para fazer as coisas por você, mas você pensa \ Não está certo, que se eles realmente te conhecessem... \ Tanto para a autoanálise. Agora, agora, \ Sobre o que colocar em seu poema-pintura: \ As flores são sempre agradáveis, particularmente o delfínio. \ Nomes de rapazes que uma vez conheceste e os trenós, \ As brochas são boas – elas ainda existem? \ Há muitas outras coisas da mesma qualidade \ Como aqueles que eu mencionei. Agora é preciso \ Encontre algumas palavras importantes, e muitas discretas, \ Que soam sem graça. Ela aproximou-se de mim \ Sobre comprar a secretária dela. De repente, a rua estava \ Bananas e o clangor dos instrumentos japoneses. \ Testamentos de Humdrum foram espalhados ao redor. Sua cabeça \ Trancado na minha. Éramos uma gangorra. Alguma coisa \ Deve ser escrito sobre como isso afeta \ Você quando escreve poesia: \ A extrema austeridade de uma mente quase vazia \ Colidindo com a exuberante folhagem de Rousseau de seu desejo de se comunicar \ Algo entre as respirações, mesmo que apenas para o bem \ Dos outros e seu desejo de compreendê-lo e abandoná-lo \ Por outros centros de comunicação, para que a compreensão \ Que comecem, e ao fazê-lo sejam desfeitos. Poema do premiado poeta estadunidense John Ashbery (1927-2017), um dos representantes da Escola de Nova Iorque, entre os aos 1950-60, com suas longas logopeias jogando ideias, autor de obras como Flow Chart (1991), Self-Portrait in a Convex Mirror (1975), Some Trees (1956) e Collected Poems 1956–1987 (2008). Veja mais aqui & aqui.

 

A MÁQUINA DE MEMES - [...] Se levarmos a memética a sério, então o "eu" capaz de fazer a escolha é, ele próprio, uma construção memética: um conjunto fluido e em constante mudança de memes instalados em uma complexa máquina de memes. [...] Os humanos são frequentemente creditados por terem uma visão real, em distinção ao resto da biologia que não o faz. [...] Não há como negar que o relojoeiro humano é diferente do natural. Nós, humanos, em virtude de termos memes, podemos pensar em engrenagens, rodas e marcar o tempo de uma forma que os animais não conseguem. Memes são as ferramentas mentais com as quais fazemos isso. Mas o que a memética nos mostra é que os processos subjacentes aos dois tipos de design são essencialmente os mesmos. Ambos são processos evolutivos que dão origem ao design através da seleção e, no processo, produzem o que parece ser uma previsão. [...] Os memes, assim como os genes, são selecionados tendo como pano de fundo outros memes do *pool* de memes. O resultado é que grupos de memes mutuamente compatíveis — complexos de memes coadaptados ou *memeplexos* — são encontrados coexistindo em cérebros individuais. Isso não ocorre porque a seleção os escolheu como um grupo, mas porque cada membro individual do grupo tende a ser favorecido quando seu ambiente é dominado pelos demais. [...]. Trechos extraídos da obra The Meme Machine (Oxford University Press, 1999), da psicologa, radialista e escritora britânica Susan Blackmore (Susan Jane Blackmore), que atua na área de estudo da consciência, memes e experiências paranormais. Na sua definição: “Os memes são instruções para realizar comportamentos, armazenadas no cérebro (ou em outros objetos) e passadas adiante por imitação”. Ela é autora dos livros Zen and the Art of Consciousness (2009), Conversations on Consciousness (2005) e Consciousness: A Very Short Introduction (2005). Veja mais aqui & aqui.

 

AS REGRAS DA ARTE – [...] Eu simplesmente perguntaria por que tantos críticos, tantos escritores, tantos filósofos sentem tamanha satisfação em professar que a experiência de uma obra de arte é inefável, que ela escapa, por definição, a toda compreensão racional; por que estão tão ávidos por admitir, sem resistência, a derrota do conhecimento; e de onde vem essa necessidade irreprimível de menosprezar a compreensão racional, essa fúria em afirmar a irredutibilidade da obra de arte ou, para usar um termo mais adequado, a sua transcendência. [...] O questionamento das formas de pensar predominantes, provocado pela revolução simbólica, e a originalidade absoluta do que ela engendra, são contrabalançados pela solidão absoluta inerente à transgressão dos limites do pensável. Esse pensamento, que assim se tornou sua própria medida, não pode esperar que mentes estruturadas segundo as próprias categorias que questiona sejam capazes de conceber esse impensável. [...] Mas, em sua luta contra a Academia, os pintores (e especialmente aqueles rejeitados por ela) podiam recorrer ao trabalho coletivo de invenção (iniciado com o Romantismo) da figura heroica do artista rebelde em luta, cuja originalidade se mede pela incompreensão que enfrenta ou pelo escândalo que provoca. Receberam também apoio direto dos escritores, há muito libertados da autoridade acadêmica que, desde o século XVII, lhes concedera uma identidade reconhecida, mas lhes atribuía uma função limitada e, em todo caso, definida externamente. Os escritores refletiam para os pintores uma imagem exaltada da ruptura heroica que estavam realizando e, sobretudo, traziam para o âmbito do discurso as descobertas que os pintores faziam na prática, particularmente na arte de viver. [...] do mundo comum, mais ou menos universalmente compartilhado, diferentemente dos mundos particulares, microcosmos fundados, como o universo da literatura ou da ciência, em uma ruptura com o senso comum, com uma adesão dóxica ao mundo ordinário. [...]. Trechos extraídos da obra The Rules of Art: Genesis and Structure of the Literary Field (Stanford University Press, 1992), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), autor de obras como The Social Structures of the Economy (2000), Acts of Resistance: Against the Tyranny of the Market (1999), Sociology in Question (1992), An Invitation to Reflexive Sociology (1992), Pascalian Meditations (1997), Academic Discourse: Linguistic Misunderstanding and Professorial Power (1994), The Weight of the World: Social Suffering in Contemporary Society (1993), Language and Symbolic Power (1991), The Logic of Practice (1980) e Distinction (1979), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


MEETING VENUS – O filme Meeting Venus (Encontro com Vênus, 1991), do diretor húngaro István Szabó, conta a satírica montagem da ousada ópera Tannhäuser, de Richard Wagner, quando o seu condutor se vê diante das armadilhas de egos artísticos, o nacionalismo desenfreado, empresa interna, política sindical e financiamento precário. No filme um elenco sofisticadíssimo conta com a participação de atrizes como Glenn Close, Maria de Medeiros, Marián Labuda, Maité Nahyr, a cantora lírica Kiri Te Kanawa com a Philarmonia Orchestra de Londres, conduzida pelo maestro Marek Janowski, entre outras importantes participações. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


HERMES TRISMEGISTOS: CORPUS HERMETICUM – A obra Corpus Hermeticum e discurso de iniciação com a Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegistos, estabelecido e traduzido por Marcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima, traz Poimandres, , de Hermes a Tat: discurso universal, discurso sagrado de Hermes, a cratera ou a mônada, que Deus é ao mesmo tempo inaparente e o mais aparente, o bem existe apenas em Deus e em nenhuma outra parte, o maior dos males entre os homens constitui a ignorância relativamente a Deus, nenhum dos seres perece e é erroneamente que se chamam as mutações de destruições e mortes, sobre a intelecção e a sensação (o belo-e-bom reside apenas em Deus e em nenhuma outra parte), a chave, de Nous a Hermes, sobre o intelecto comum, discurso secreto sobre a montanha relativo a regeneração e a regra do silêncio, de Deus criador, as definições, Asclépios ao rei Ammon, dos entraves acarretados à alma pelo que sucede ao corpo, discurso de iniciação ou Asclépios, rota da imortalidade, invocação e Tábua de Esmeralda. A OBRA SECRETA – O livro A obra secreta da filosofia de Hermes Trismegistos, de Jean D´Espanet, trata da filosofia natural restituída, a matéria e a forma são os princípios mais antigos das coisas, criação do Sol, a luz é a forma universal, a criação do homem, os três atos de formação da matéria primeira, circulação do úmidos nos mistos, os três segundos elementos, a obra secreta, exortação, as condições da obra, a matéria da pedra, a arte e a natureza, os metais perfeitos, o mercúrio filosófico, prática, os meios e os extremos, as digestões da pedra, as rodas e os círculos, o tríplice fogo, a proporção, os recipientes, o atanor e o elixir. Veja mais aqui.

REFERÊNCIAS
D´ESPAGNET, Jean. A obra secreta da filosofia de Hermes Trismegistos. São Paulo: L´Oren, 1976.
TRISMEGISTOS, Hermes. Corpus herméticum – Discurso de Iniciação, A Tábua de Esmeralda. São Paulo: Hemus, 1978.


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WISŁAWA SZYMBORSKA, FLAUBERT, HASLANGER, BARTHES, RICH, PIERCY, PROUDHON, SACHER-MASOCH & ZÉ CORNINHO

 


ERA UMA VEZ ZÉ CORNINHO!... – Era imensamente junho e Zé Corninho estava enfezado: só levava desacerto - o destino desapiedado aos empurrões: Toma jeito, fi-duma-égua! Ingresia inclemente. Ao certo, era notório que ele fugia das contendas, não valia a pena, nada de litigar, pacato. Aos tombos, as advertências castigavam seu toitiço, ele se benzia e abeirava de soslaio a fuga. Vivia daqui pracolá, sem paradeiro, até que chegou em Alagoianhanduba, gostou da comarca e ali dava por escorreito, pau pra toda obra. Laborava com afinco e prosperava, dava pro gasto. Esforçava-se além do tanto, suas aptidões clandestinas obravam milagres, dizia. Com o estandarte dos festejos juninos, uma chance sorria: a lindeza toda frochosa e receptiva. Menino, ele endoidou o cabeção! Atirou-se: Seja lá o que Deus quiser! E a primeira chegou inteira de felicidade, formosura triplicada aos seus olhos, tangidos pela atração. Dias e noites ele franqueava atenções exageradas, abusava das cortesias, cheio de lábias pegajosas, engambelava às cócegas, doido por aconchego. E ela se ria mimosa, pactuando das leseiras dele. Foi vuque-vuque destrambelhado, até que ela: Sai pra lá, infeliz das costas ocas! Desertora! Vou-me! E foi-se. Quem com ela pode? Era levado na pontinha do dedo, quando queria o ajeitado das coxas. Ingrata, desfigurou sua paixão. Ela já era e ele desistia de crer, maldizia, convinha seguir adiante sem olhar para trás. E esqueceu o passado, partiu pra outra, a topar foragidas. Catava, desenrolava afiado com as astúcias malabaristas, dava ao espavento e logo estava nas nuvens guiado pelas juras amorosas doutra reboculosa. Era a desforra avultada à revelia dela, longínquas léguas, com todos os préstimos só pra ficar de boca e barriga cheias, banzeiro, aos regalos. Não demorou muito e ela logo estremeceu com suas olhadelas: Bota o olho gordo pra lá, traste! Estava revogado aos esculachos, escorraçado sem valia. A segunda, também, defenestrava. Sem demora rareou e nem escolheu, outra saia repleta de rosas pra se esquivar, ô valhacouto! Gemeu, impou e se lambuzou todo de ficar na mão: Outra vez! Muitas vieram e se foram, logo elas enjoavam da sua meladeira pegajosa, estragando seus gozos. A cada intervalo irremediável entortava o oco por dentro, sua pouca sorte, dele ficar no alpendre todo embrulhado de cócoras, reincidente espremido, o bico do beiço virado, emburrado, cabeça às voltas dos giros incertos, escapulia o vão querer às escondidas, embaixo de 7 capas. Embuçava irado: Bocado de cria de cobras, tudo coisa mandada! Quantas esposou? Não se rendia aos empecilhos. Renovava o plantel a cada escorregada. Foi acusado de bigamia e muito mais calúnias no vespeiro. Era hora de botar moral e deixou o bigode rabugento cobrindo os beiços, uma costeleta ineivada pruma mandíbula raivosa, franziu o cenho, lubrificou a carequice, abochechou-se raivoso, rangia os dentes, bateu no peito meticuloso, o nariz crispado: Dagora em vante, só na minha lei! Oxe! Bastou um oi e engasgou-se, o sangue esquentado, as vísceras em convulsão pela taradice. Dessa foi descascado do muito, amarelo de vergonha, amargou grossas peiticas, a ponto de estourar, doidice sua não era exclusiva. Achava que era imortal, não era: a cada hora a certeza se esvaía. Do escuro emergia imprevisíveis revertérios: socou o ar com todas as revoltas: Cada uma que me aparece! Exilava-se discordando das batidas do coração, de queixo caído, dessensibizado, destampou seu segredo: Vou buscar a danada! E saiu uma por uma, de porta em porta, levando desaforo na cara. Ele não sabia e era o dito popular: só amealhou chifres, o botão na casa errada, desonra nos seus flagelos, vexame de derrotas escondido pelo gorro na cabeça. Em legítima defesa: Sou, assumo e assino! Quem quiser que venha me destratar, cambada! A brabeza era só sua, todo mundo sabia da mansidão: batesse o pé, carreirão da gota! E deu uma de Hussain Aref Saab: Se gaia virasse dinheiro eu era podre de rico (e olhe que o que ele amealhou de duas de quinhentos não tá no gibi, viu?)... Pobreza é tudo mundiça! Aí deu outra, repara: Parecia que ele não tinha mais um pingo de juízo pra remédio. Achando pouca a bruguelada, inventou de emprenhar a mulher que arranjou de última hora e partiu pra aumentar a filharada. O problema era arrumar padrinho, ninguém queria ser mais seu compadre. Os nascidos eram todos devidamente batizados e apadrinhados, uns trinta e três, acho, coisa que ele não acertava contar, depois dos quinze parecia que tinha mais e se perdia recontando. Danou-se! Era uma tuia de bruguelo aos buás, diziam: nenhum dele de mesmo, tudo resultado da infedilidade das ditas amigadas dele e que fugiam no cangote de outros amantes. E como ele já tinha pra mais de dez casamentos, nem ele sabia, todas embuchavam e sacudiam os recém-nascidos nas costas dele pra criar. É tudo filho meu legítimo!, bate até hoje ele o pé, ninguém acredita e deixam pra lá. Acontece que o caçula estava para rebentar e sem padrinho arranjado pro batismo. Ele saiu angariando a um e a outro, todos se recusaram. Será possível? Ele não desistiu e saiu até estrada afora, quando bateu de frente com a Morte. Olá, comadre, como é que vai? Vou bem, e você? A senhora, por um acaso, não aceitaria ser minha comadre batizando meu filhinho caçula? Claro que aceito, vamos fazer uma grande festa e garantir o melhor futuro pra ele! Oba! E assim foi, no dia certo, a parteira anunciou mais um pra coleção do Zé. A festa corria solta e a Morte chamou o compadre do lado e cochichou: Agora vamos garantir o futuro da criança, você ficará rico, vai curar gente, só você me verá e, então, diante de um doente, se eu estiver na cabeceira é que vai ser curado; se eu estiver no pé da cama, é caso perdido. Certo e ajustado, lá foi Zé-Corninho curando o povo e ficando rico. Um dia lá um ricaço estava pagando uma fortuna para salvar o filhinho dele e quando Zé chegou lá, a comadre estava no pé da cama. Eita! Zé resolveu passar a perna na comadre, mandando virar a cama de ponta cabeça e a comadre ficou na cabeceira, obrigada a salvar. A Morte ficou possessa de raiva e jurou se vingar. Um dia lá a comadre resolveu pegá-lo na virada e foi convidá-lo para ir na casa dela: Eu vou, mas só se você garantir que eu volto. Garanto. E foram. Lá chegando Zé se deparou com um bocado de vela pelo chão, uma atrás da outra, encarreada. O que é isso, comadre? É a vida das pessoas na terra. Eita! Essa é do seu amigo fulano, aquela da sua amiga sicrana, essa outra do seu vizinho beltrano, e no meio da coisa Zé ficou curioso pra saber da sua: Qual? Aquela. Vixe! Um toquinho já se apagando. Ah, comadre, mas a senhora prometeu que eu voltaria. E vai voltar. Lá estava Zé em casa, morre mas num morre, até que fez um último pedido: Permita, comadre, que eu reze um Pai-nosso antes de morrer. Concedido. E ele começou a rezar e parou. Vamos, conclua a reza! Agora não, a senhora prometeu que eu só morreria quando terminasse a reza, só vou findar daqui uns cem anos. A Morte saiu injuriada, Zé estava sabido que só e passou-lhe a perna pela terceira vez. Aí um dia lá, anos e mais anos, Zé teve um desgosto danado e disse: Ah, só queria morrer agora pra não ver uma desgraça dessa! Mal terminou de dizer e a comadre já estava toda feliz do lado dele: Agora você me paga, compadre! Calma, comadre, eu não disse quando, só falei que queria e não quero, ora, ora. Rasgou a boca de novo. E ele: É dum dia pro outro que a gente vai vivendo, do muito que aprendi, confesso, nada sei. E confira mais das desventuras do Zé Corninho aí:

 

ZÉ-CORNINHO: O PINTUDO MAIS GAIÚDO DO MUNDO!

A COMILANÇA DO ZÉ CORNINHO

BATENDO UMA REAL: UNS & OUTROS

A FILHARADA DE ZÉ CORNINHO

FORTE E SADIO QUE NEM O POVO DOTEMPO DO RONCA

CULPA NO CARTÓRIO

AS PEDRAS DE BUTUA

A SEREIA DA LOROTA

ARENGA DE ANTANHO

AQUELE TORNEIO DE CHIMBRA

PESCARIA INEIVADA

COM QUANTOS DESAFOROS SE FAZ UMA ELEIÇÃO

CONTANDO HISTÓRIA

A TRUPE DOS COSCUVILEIROS

PRA QUEM QUER O FIM, A COISA SÓ TERMINA QUANDO ACABA

A SENSABORIA DE ZÉ-CORNINHO

EITA, ZÉ BESTÃO!

AMOR EM ALAGOINHANDUBA

ATÉ TU, ZÉ-CORNINHO!?!

QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA

PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO

A VIDA DUPLA DE CAROLYNE & SUA CHEBA BEIÇUDA

ZÉ CORNINHO NO BIG SHIT BOBRAS

BIG SHIT BÔBRAS

O MARIDO DA MARCELA

A COMADRE MORTE

E A SAÚDE? JÁ ERA, MEU!

AD CAPTANDUM VULGUS

CURIOSIDADE: PRA QUE TANTA GENTE NOCONGRESSO NACIONAL, HEM?

OROPA, FRANÇA E BAÍA!!!!

SORTE GRANDE: DUAS DE 500

E A TAL DA INVEJA, HEM?

O VEXAME NO XAMBREGO

A ZOADA DO PADROEIRO

RESPEITE O SANTO, CABRA!

UMA JACA NA CABEÇA DE NEWTON, POIN!

BRINCANDO DE MORRER

SE O MUNDO ACABAR, JÁ ACABA TARDE!

TESTAMENTO DO BOCÓ


 

DITOS & DESDITOS - Deve haver aqueles com quem possamos nos sentar e chorar, e ainda assim sermos considerados guerreiros... Meu coração se comove com tudo o que não posso salvar: tanto foi destruído que preciso unir meu destino àqueles que, era após era, de modo perverso, sem nenhum poder extraordinário, reconstituem o mundo... Pensamento da escritora, professora e feminista estadunidense Adrienne Rich (Adrienne Cecile Rich –1929-2012). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Uma mulher forte é aquela que anseia por amor como se fosse oxigênio; caso contrário, ela fica azul e sufoca. Uma mulher forte é aquela que ama intensamente, chora intensamente, sente um medo intenso e tem necessidades intensas. Uma mulher forte é forte nas palavras, nas ações, nas conexões e nos sentimentos; ela não é forte como uma pedra, mas como uma loba amamentando suas crias. A força não reside nela, mas ela a manifesta assim como o vento preenche uma vela... Pensamento da escritora e ativista social estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL - [...] É difícil comunicar qualquer coisa com exatidão, e é por isso que é difícil encontrar relacionamentos perfeitos entre as pessoas. [...] O coração das mulheres é como aqueles móveis com esconderijos secretos, cheios de gavetas encaixadas umas nas outras; você tem um trabalhão, quebra as unhas e, no fundo, encontra uma flor murcha, alguns grãos de poeira — ou o vazio! [...] Há homens cuja única missão, entre outras, é servir de intermediários; cruzamos por eles como se fossem pontes e seguimos adiante. [...] Enquanto há vida, há esperança. [...] Sou o tipo de homem condenado ao fracasso, e irei para a sepultura sem jamais saber se eu era ouro de verdade ou apenas ouropel! [...]. Trechos extraídos da obra L'Éducation Sentimetale (Hachette, 2000), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SOB UMA PEQUENA ESTRELA - Peço desculpas ao acaso por chamá-lo de necessidade. \ Peço desculpas à necessidade se, afinal, eu estiver enganado. \ Por favor, não se irrite, felicidade, por eu a considerar como algo que me é devido. \ Que meus mortos sejam pacientes com a forma como minhas memórias se desvanecem. \ Peço desculpas ao tempo por todo o mundo que ignoro a cada segundo. \ Peço desculpas aos amores passados por pensar que o mais recente é o primeiro. \ Perdoem-me, guerras distantes, por trazer flores para casa. \ Perdoem-me, feridas abertas, por furar meu dedo. \ Peço desculpas pelo meu registro de minuetos àqueles que choram das profundezas. \ Peço desculpas àqueles que esperam nas estações de trem por estar dormindo hoje às cinco da manhã. \ Perdoe-me, esperança perseguida, por rir de vez em quando. \ Perdoe-me, desertos, por eu não correr até vocês com uma colherada d'água. \ E você, falcão, imutável ano após ano, sempre na mesma gaiola, \ seu olhar sempre fixo no mesmo ponto no espaço, \ perdoe-me, mesmo que no fim das contas você tenha sido empalhado. \ Peço desculpas à árvore derrubada pelas quatro pernas da mesa. \ Peço desculpas às grandes perguntas pelas pequenas respostas. \ Verdade, por favor, não me dê muita atenção. \ Dignidade, por favor, seja magnânima. \ Tenha paciência comigo, ó mistério da existência, enquanto eu puxo um fio ocasional da sua cauda. \ Alma, não se ofenda por eu só ter você de vez em quando. \ Peço desculpas a tudo por não poder estar em todos os lugares ao mesmo tempo. \ Peço desculpas a todos por não poder ser cada mulher e cada homem. \ Sei que não serei justificado enquanto viver, \ pois eu mesmo me atrapalho. \ Não me guarde rancor, discurso, por eu tomar emprestadas palavras pesadas e \ depois me esforçar tanto para que pareçam leves. Poema da escritora. Crítica e tradutora polonesa Wisława Szymborska (Maria Wisława Anna Szymborska – 1923-2012), Prêmio Nobel de Literatura de 1996. Veja mais aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MORTE DO AUTOR - [...] A literatura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo para o qual todo sujeito escapa, a armadilha onde toda identidade se perde, a começar pela própria identidade do corpo que escreve. [...] O escritor moderno (*scriptor*) nasce simultaneamente ao seu texto; ele não é, de forma alguma, dotado de um ser que preceda ou transcenda a sua escrita; ele não é, de modo algum, o sujeito do qual o seu livro é o predicado; não há outro tempo senão o da enunciação, e todo texto é eternamente escrito aqui e agora. [...] O leitor é o espaço onde se inscrevem todas as citações que compõem uma escrita, sem que nenhuma delas se perca; a unidade de um texto não reside na sua origem, mas no seu destino. Contudo, esse destino já não pode ser pessoal: o leitor não tem história, biografia ou psicologia; ele é simplesmente aquele que reúne, num único campo, todos os traços que constituem o texto escrito... A crítica clássica jamais prestou atenção ao leitor; para ela, o escritor é a única figura da literatura... sabemos que, para dar um futuro à escrita, é preciso derrubar o mito: o nascimento do leitor deve ocorrer à custa da morte do Autor. [...]. Trechos extraídos da obra The Death of the Author (Hill & Wang, 1977), do sociólogo, escritor, crítico literário, semiólogo e filósofo francês Roland Barthes (1915-1986), autor de obras como Mourning Diary (2009), A Lover's Discourse: Fragments (1977), Camera Lucida: Reflections on Photography (1977), The Pleasure of the Text (1973) e Mythologies (1957), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

DIFERENÇAS SOCIAIS - [...] Em alguns casos, as diferenças sociais são mascaradas — são consideradas naturais — e a raça é um exemplo perfeito. Existem diferenças na cor da pele entre nós, diferenças na textura do cabelo e assim por diante, mas essas diferenças não correspondem muito bem às raças. Há pessoas de uma determinada ancestralidade que não aparentam ser dessa ancestralidade. Portanto, como a raça também parece estar, pelo menos em parte, relacionada à ancestralidade, não se trata apenas de características superficiais e parece ser algo mais.  O que eu teorizo é: o que poderia ser a raça se não for um conjunto de diferenças puramente naturais entre nós? Pode ser compreendida principalmente em termos de diferença social? Não exatamente, porque existe uma suposta conexão com o biológico. Esses são os tipos de categorias que mais me interessam, onde as diferenças físicas percebidas ou imaginadas são tais que dão origem a diferenças sociais em um contexto específico. A crença ou a percepção de que alguém possui uma determinada cor de pele influencia suas oportunidades sociais e seu posicionamento social em relação aos outros. Na minha visão, tanto raça quanto gênero são posições sociais que os indivíduos ocupam em virtude de seus corpos serem interpretados de uma determinada maneira. [...] Uma questão na filosofia política é como definir justiça. O que conta como justo depende, em parte, do que somos capazes de fazer. Não criamos sistemas educacionais para pedras ou plantas porque isso não lhes faria nenhum bem. Elas não são capazes de serem educadas. Criamos sistemas educacionais para humanos porque temos uma gama de capacidades de aprendizado; Um sistema educacional justo levará em consideração nossas diferentes capacidades e oferecerá oportunidades para desenvolvê-las. Historicamente, acreditava-se que mulheres e minorias careciam de certas capacidades por natureza e, como resultado, não tinham acesso às mesmas oportunidades que os homens brancos. Isso dá origem a duas estratégias no pensamento político feminista e antirracista. Uma estratégia é observar que as diferenças físicas — diferenças consideradas “naturais” — não são fixas. Uma importante diferença física entre homens e mulheres é a capacidade (ou a falta dela) de engravidar. No entanto, o controle da natalidade nos dá certo controle sobre isso, e isso teve um enorme impacto nas oportunidades das mulheres. O mesmo se aplica às deficiências. Temos a capacidade de intervir na natureza. É para isso que serve a tecnologia! Outra estratégia é chamar a atenção para o fato de que as diferenças que são presumidas como naturais são, na verdade, resultado dos tipos de interpretações e suposições problemáticas que acabei de descrever: como se presume que mulheres (ou minorias) tenham ou não certas capacidades com base em suposições (falsas) preconcebidas, elas são tratadas de uma certa maneira e, às vezes, de fato, acabam sendo tratadas dessa forma. E isso reforça as suposições. Se você me considera ineducável e, portanto, me priva da educação, então eu não desenvolverei certas capacidades e poderei me tornar, em alguns aspectos importantes, ineducável, pois pode haver tipos de fluência que não se consegue alcançar após um certo ponto da vida. Se isso ocorrer, a suposição original parece justificada. Mas, é claro, não é. Eu não nasci ineducável, eu me tornei assim. Portanto, a suposta linha divisória entre o natural e o social é de importância crucial para as teorias da justiça: o “natural” não é tão fixo quanto podemos pensar, e o “social” pode ser muito mais fixo do que imaginamos. Algumas diferenças entre nós devem ser respeitadas, mas outras devem ser superadas — mas quais são quais? [...]. Trechos da entrevista O que é 'natural' e o que é 'social'? (MIT News, 2013), concedida pela filósofa Sally Haslanger, diretora do programa de Estudos de Gênero e Feminismo do MIT e autora da obra Resisting Reality: Social Construction and Social Critique (Oxford University Press, 2012), uma coletânea de ensaios sobre gênero e raça. A respeito do tema em questão, ela ainda expressa que: Em vez de nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o que, se é que queremos que sejam alguma coisa. A respeito do tema Justiça Social: alguém pode realmente fazer a diferença?, ela expressa que: Vivemos num mundo onde a injustiça é desenfreada. A injustiça assume muitas formas e é mantida de várias maneiras. Nas últimas décadas, os teóricos reconheceram que o poder de sustentar a injustiça não é apenas um instrumento de controle que alguns indivíduos têm e outros não têm, mas faz parte do campo social para todos os agentes sociais. Sobre isso de poder, estamos todos implicados na supremacia branca, no capitalismo e na dominação masculina à medida que promulgamos práticas cotidianas. Ela também é autora dos estudos Feminism and metaphysics: Negotiating the natural (Cambridge University Press, 2000a), What is a (Social) Structural Explanation? (Philosophical Studies, 2016), What Are We Talking about? The Semantics and Politics of Social Kinds (Hypatia, 2005) e Gender and Race: (What) Are They? (What) Do We Want Them to Be? (Noûs, 2000).

 

MASOQUISMOO amor não conhece virtude, nem proveito; ama, perdoa e sofre tudo, porque é seu dever. Não é o nosso juízo que nos guia; não são as vantagens nem os defeitos que descobrimos que nos fazem abandonar-nos ou que nos repelem. É uma força doce, suave e enigmática que nos impulsiona. Deixamos de pensar, de sentir, de querer; deixamo-nos levar por ela e não perguntamos para onde... Eu via a sensualidade como sagrada, aliás, a única sacralidade; via a mulher e sua beleza como divinas, pois sua vocação é a tarefa mais importante da existência: a propagação da espécie. Via a mulher como a personificação da natureza, como Ísis, e o homem como seu sacerdote, seu escravo; e a imaginava tratando-o com a mesma crueldade da Natureza, que, quando não precisa mais de algo que lhe serviu, o descarta, enquanto seus abusos, aliás, seu assassinato, são sua lasciva felicidade... Quem se deixa açoitar, merece ser açoitado... O homem deseja, a mulher é desejada. Essa é toda a vantagem decisiva da mulher. Através das paixões do homem, a natureza o entregou nas mãos da mulher, e a mulher que não sabe como torná-lo seu sujeito, seu escravo, seu brinquedo, e como traí-lo com um sorriso no fim, não é sábia... O homem é aquele que deseja; a mulher, aquela que é desejada. Essa é a vantagem — total, porém decisiva — da mulher. Por meio das paixões masculinas, a natureza entregou o homem às mãos da mulher; e a mulher que não sabe como torná-lo seu súdito, seu escravo, seu brinquedo — e como traí-lo com um sorriso ao final — não é sábia... Uma maçã verdadeira é mais bonita do que uma pintada, e uma mulher de verdade é mais bonita do que uma Vênus de pedra... Vocês, homens modernos, filhos da razão, não conseguem sequer começar a apreciar o amor como pura felicidade e serenidade divina... Pensamento do escritor e jornalista austríaco Leopold von Sacher-Masoch (Leopold Ritter von Sacher-Masoch – 1836-1895), autor da polêmica obra Venus in Furs (Penguin, 2000), que, em 1869, com sua amante, a Baronesa Fanny Pistor, assinaram um contrato que o tornava escravo dela pelo período de seis meses, especificando que a baronesa vestisse peles com frequência, especialmente quando estivesse se sentindo cruel. Para isso ele adotou o apelido de "Gregor", um nome estereótipo para serventes masculinos, e disfarçou-se de servidor da baronesa. Os dois viajaram de trem para a Itália, em um vagão de terceira classe, enquanto ela ocupava um assento na primeira, até Veneza (Florença, na novela), onde os dois não eram conhecidos e não despertariam suspeitas. Mais tarde, ele pressionou sua primeira esposa, Aurora von Rümelin, com quem se casara em 1873, a viver as experiências do livro, contra as preferências dela. Assim, acabou achando sua vida familiar pouco excitante e terminou por divorciar-se de Aurora, casando com uma assistente. A vida dele foi exposta com a publicação das memórias de Aurora von Rümelin, Meine Lebensbeichte (Confissões de Minha Vida, 1906), sob o pseudônimo Wanda v. Dunajew. Veja mais aqui & aqui.

 

DEVANEIO & JOGO DE LUSÃO – A escritora Ione Perez reúne sua produção literária no Recanto das Letras, expondo seus poemas, textos de humor, contos, prosas infantis e poéticas. Da sua produção destaco inicialmente o poema Devaneio: O pássaro no galho da árvore Fica a cantar, Entre as folhas e flores do maracujá. O vento sopra os cabelos Deixando o tempo passar... Também o seu poema Jogo de ilusão: É pura sedução É frisson É pensar ter na mão a carta certa É vitória cega Intenção É tesão, só imaginação Destino traçado É lençol molhado Frustração É perigo iminente Tentação É preliminar de uma decisão É aceitar e calar Loucura numa noite escura ensolarada É paixão ardente, queima sem cicatrizar Amor que rima com dor, fazendo a gente pecar E não vale tentar persuadir É um jogo e como todo jogo, há regras: Só sai, só perde quem se iludir! Veja mais aqui.

DO PRINCÍPIO FEDERATIVO, DE PROUDHON - [...] A ideia de federação é certamente a mais alta a qual se elevou até os nossos dias 0 genio político. Ela ultrapassa de muito longe as constituições francesas promulgadas desde setenta anos atrás, não obstante, a revolução cuja curta duração tão pouco honra 0 nosso pais. Ela resolve todas as dificuldades que suscita 0 acordo da Liberdade e da Autoridade. Com ela nao temos mais de recear afundarmo-nos nas antinomias governamentais; de ver a plebe emancipar-se proclamando uma ditadura perpetua, a burguesia manifestar a seu Liberalismo levando a centralização ao exagero, 0 espirito público corromper-se nesse deboche da devassidão copulando com o despotismo, 0 poder regressar incessantemente às maos dos intriguistas, como lhes chamava Robespierre, e a Revolurção, segundo as palavras de Danton, ficar sempre para os mais pérfidos. A razao eterna finalmente é justificada, 0 ceticismo vencido. Nao se acusam mais da infelicidade humana a falha da Natureza, a ironia da Providencia ou a contradição do Espfrito; a oposição dos princfpios aparecerá finalmente como a condição do equilíbrio universal. DO PRINCÍPIO FEDERATIVO – O livro Do princípio federativo, do filósofo político, econômico e anarquista francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), definido como o socialista utópico por Karl Marx, que defendia o favorecimento de associações de trabalhadores e cooperativas no desenvolvimento da prorpeidade coletiva dos trabalhadores em relação aos meios de produção. Proundhon defendia a revolução social por meio de formas pacíficas. Nessa obra aborda temas como o princípio da federação, o dualismo político: autoridade e liberdade, oposição e coneção destas noções de autoridade e liberdade, concepção a priori da ordem política, o regime de autoridade e de liberdade, as formas de governo, a transação entre os princípios, origem das contradições da política dos governos de fato, dissolução social, posição do problema político, o princípio de solução emengencia da ideia de federação, constituição progressiva, atraso das federações, idealismo político, eficácia da garantia federal e sanção econômica. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIA
PROUDHON, Pierre-Joseph. Do princípio federativo. São Paulo: Nu-Sol - Imaginario, 2001.


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