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quinta-feira, fevereiro 18, 2016

HERMES, BOURDIEU, BRASHARES, ASHBERY, BLACKMORE, STRUTHERS & ZÉ GULU

 

DOUTOR ZÉ GULU (Imagem: Oscar Gomes) - Do doutor Zé Gulu o que é que se sabe de mesmo? Ora, foi criado pela avó viúva, desde o berço até a adolescência. Filho dum fiscal de renda abastado e duma dondoca vaidosa dos mimos maternos. Cresceu leitor, punheteiro compulsivo. Só tirou o cabaço já quase homem feito, com a feiosa Uga-gogó, a quem chamava carinhosamente de Leonor. E arribou depois disso, porque foi se formar na França, doutorando-se na filosofia nietzschiana, até o pós-doutorado na Alemanha, sobre a fenomenologia e a arte existencialista. Vivia às voltas a suspirar suas raízes no exílio, tomado pela miopia e secura por sexo, coisas que o fizeram dândi por todas as capitais europeias, até o Japão e China, afora perder-se pelo Canadá e Estados Unidos. Só não zanzou pra mais longe porque morreu-lhe o pai repentinamente. Deu um freio de arrumação em tudo e voou pra casa. Lá chegando sua mãe havia surtado e saíra para nunca mais voltar. Deitou-se no colo da avó, aos cafunés e saudades. No outro dia, ela se envultou, rezas e sepultamento. Sozinho: Pronde ir? Saiu pela redondeza e resolveu parar em Alagoinhanduba. Hospedou-se e foi ficando, até comprar um terreno e construir um edifício estranho. Dado por pronto, sumiu; soube-se que vendeu a casa e trouxe umas 10 carregas de caminhão só de livros. Ali arranchou-se. Afora isso, pouco se sabe dele. Só que era um sabichão, dito patafísico polímata, erudito poliglota, solteirão convicto. Só sabiam mesmo dele na zoada lá da casa dele, ouvida pela vizinhança: Óiaaa, pai! U-hu! E batia nos beiços imitando indígenas dos filmes da tevê: U-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u-u! O doutor tá entusiasmado mesmo, hem? Tá lavando a égua! Ô canibal! Era mesmo doido de pedra pelas milagreiras fêmeas, fetiche por garçonete jeitosa que aparecesse assim do nada. Pegava ar, tomava uma e truviscado mandava ver! Lá estava ele às bicadas, com um rabo de olho no pandeirão da atendente frochosa, acotovelado numa das mesas do boteco do Dudé ou na carne-de-sol do Zé Mago. A cada olhadela, ele tomava nota, virava o gole clareando as ideias para a caligrafia redonda desenhada. A vida ali muitos luares, trechos de tempo nos dias intermináveis, lembranças pueris. Vez em quando era importunado por requerente: O senhor que é 3 vezes doutor, diga lá uma coisa! Obsequiava, nunca rompeu a cortesia, mas aos elogios babados, respondia: Não sou PhDeus, porra nenhuma! E quando botava pra falar, juntava gente: narizes e queixos atentos, ar preso nos bofes, olhares suspirantes. Tolerava ante os disparates às lonjuras, caretas atiçadas e, com seu espirituoso sotaque, contava histórias de suas leituras, riso e susto, fôlego no espírito às desordens, coisas de arregalar; emendava o já pelo depois, às galhofas, antes mesmo de destrançar o carretel das ideias, só se ouvia de outrens: Esse fala bonito no demais, né? É sábio! É. Ele usa uns nomes diferentes, coisa de quem vê o que a gente sequer enxerga. Como é mesmo aquela história daquele que vira besouro? Tratavam-no por conselheiro dos tapados e para todas as mais ínfimas pendengas: O meu filho anda meio apirobado, o que faço? Minha mulher tá enervada da mais brabona, como posso domá-la? Minha filha enrabichou-se por um frebento apaideguado, como dou fim a essa pinoia, hem? Sonhei avoando, qual o bicho do jogo? Hem? O que diz? Vamos todos tomar no cu! Riam daquela cabeça perpétua pelo benigno humor. Não vacilava peremptório apotegma: Jamais será feliz quem não consegue se libertar do seu passado! Tenho dito.  Não convencia, nem era o seu propósito persuadi-los, mas deixava todo mundo avalizando o que dissera: O doutor é que tá certo! Engolia lérias aos montes. Ouvia o barulho da lambreta, irônico: Quem conduz uma Harley-Davidson em South Park é fag. E no Brasil? As poluidoras motos mais parecem panapanás do apocalipse. O que é fag? Ora, viado! O mundo remexia ânsias, deserto do muito. Já excentricamente biritado: Pobreza é cada um por si e ninguém por todos! Quem acudiria? Pois quem às larguras e veemências se deixava levar, como se vivesse fora de engano, ao desafio do mundo respondia estirando as pernas, arregaçando as mangas e, quase excomungado, envergava as coisas tidas por certas, levava à risco: perigo que viesse. Na veneta sumia. Doutra foi demorado: Cadê ele, hem? Sequestrou alguma beldade e tá se lambendo. É mesmo. Desapareceu e só achou de voltar muito depois para em seguida evadir-se misteriosamente. Aparece e torna a pinotar, de quase nem mais dar as caras. Taí suas façanhas, confira:

DE HERÓIS, MITOS & O ESCAMBAU

A TRUPE DOS COSCUVILEIROS

AS TRELAS DO DORO: ESCAMBAU

CONVERSA DE BAR & FILHO NÃO RECONHECE PAI

SUJEITO, INDIVÍDUO, QUEM?

AS PEDRAS DE BUTUA

BURACO SONOLENTO

A SEREIA DA LOROTA

SCHILDA, OUTRO NOME DO FECAMEPA

O TRIO DO FINCAPÉ NO PORTO DOS PATIFES

AD CAPTANDUM VULGUS

PRA QUEM SÓ VÊ SUPERFÍCIE, TODO RIO É SEMPRE RASO

OS DOIS MUNDOS DE QUEM VIVE DE UM LADO SÓ

CRÔNICA NATALINA

A HISTÓRIA SE REPETE!

AS TANTAS & MUITAS DE SALOMÃO

APESAR DE TUDO QUE JÁ FOI FEITO, SOMOS TODOS MÍNIMOS

O MISTÉRIO DA ENCICLOPÉDIA GRIZ

ELUCUBRAÇÕES

AH, DANAÇÃO! TUDO DE CABEÇA PRA BAIXO!

PADRE BIDIÃO & DR. ZÉ GULU

LEGALIDADE SOB SUSPEITA

DESABAFO: A CIVILIZAÇÃO DOS EQUÍVOCOS

OUTRA SOLIDÃO NO PAÍS DO FECAMEPA...

BATENDO UMA REAL: EU & OUTROS EUS

O SUMIÇO & O PACTO DO DOUTOR GULU

O TESTAMENTO DO DOUTOR ZÉ GULU


 

DITOS & DESDITOS - Em vez de nos preocuparmos com o que é gênero, de fato, ou o que é raça, de fato, acho que deveríamos começar perguntando (tanto no sentido teórico quanto político) o que, se é que queremos que sejam alguma coisa... Pensamento da filósofa e professora estadunidense Sally Haslanger.

 

ALGUÉM FALOU: Sinto-me energizada quando estou perto de pessoas jovens e talentosas. Há algo sobre estes miúdos que é incrível. Eu aprendo tanto com eles quanto com eles comigo... Pensamento da atriz e ativista estadunidense Sally Struthers (Sally Anne Struthers). Veja mais aqui.

 

PARA SEMPRE IRMÃS - [...] Talvez você pense que terá direito a mais felicidade no futuro se abrir mão de tudo agora, mas não é assim que funciona. A felicidade exige tanta prática quanto a infelicidade. É vivendo que se vive mais. Ao esperar, você apenas espera mais. Cada dia de espera torna sua vida um pouco menor. Cada dia de solidão faz você se sentir um pouco menor. Cada dia em que você adia a sua vida o torna menos capaz de vivê-la. [...] Você só precisa deixar as pessoas te amarem da maneira que elas conseguem. [...] O que você deixa para trás são as pessoas que você amou. Você se deixa neles. [...] Estou escrevendo isto porque vai ser difícil dizer em voz alta. Porque esta é, provavelmente, a última vez que estamos apenas nós. Veja, consigo escrever isso, mas acho que não consigo dizer. Não estou fazendo isso para me despedir, embora saiba que a despedida faz parte. Estou fazendo isso para agradecer por tudo o que vivemos, fizemos e fomos um para o outro, e para dizer que amo você por ter feito da minha vida o que ela é. Deixar você é a coisa mais difícil que tenho de fazer. Mas a verdade é que as melhores partes de mim estão em você — em vocês três. Vocês são quem eu sou, e aquilo que mais prezo em mim permanece vivo em vocês. [...]. Trechos extraídos da obra Sisterhood Everlasting (Random House, 2011), da escritora estadunidense Ann Brashares, autora de obras como My Name Is Memory (2010), Forever in Blue: The Fourth Summer of the Sisterhood (2007), Girls in Pants: The Third Summer of the Sisterhood (2005), The Second Summer of the Sisterhood (2003) e The Sisterhood of the Traveling Pants (2001). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

E A PICTURA POESIS É O NOME DELA - Você não pode dizer mais assim. \ Incomodado sobre a beleza que você tem que \ Saia para o aberto, para uma clareira, \ E descansar. Certamente o que for engraçado acontece com você \ Está bem. Exigir mais do que isso seria estranho \ De você, você que tem tantos amantes, \ Pessoas que olham para você e estão dispostas \ Para fazer as coisas por você, mas você pensa \ Não está certo, que se eles realmente te conhecessem... \ Tanto para a autoanálise. Agora, agora, \ Sobre o que colocar em seu poema-pintura: \ As flores são sempre agradáveis, particularmente o delfínio. \ Nomes de rapazes que uma vez conheceste e os trenós, \ As brochas são boas – elas ainda existem? \ Há muitas outras coisas da mesma qualidade \ Como aqueles que eu mencionei. Agora é preciso \ Encontre algumas palavras importantes, e muitas discretas, \ Que soam sem graça. Ela aproximou-se de mim \ Sobre comprar a secretária dela. De repente, a rua estava \ Bananas e o clangor dos instrumentos japoneses. \ Testamentos de Humdrum foram espalhados ao redor. Sua cabeça \ Trancado na minha. Éramos uma gangorra. Alguma coisa \ Deve ser escrito sobre como isso afeta \ Você quando escreve poesia: \ A extrema austeridade de uma mente quase vazia \ Colidindo com a exuberante folhagem de Rousseau de seu desejo de se comunicar \ Algo entre as respirações, mesmo que apenas para o bem \ Dos outros e seu desejo de compreendê-lo e abandoná-lo \ Por outros centros de comunicação, para que a compreensão \ Que comecem, e ao fazê-lo sejam desfeitos. Poema do premiado poeta estadunidense John Ashbery (1927-2017), um dos representantes da Escola de Nova Iorque, entre os aos 1950-60, com suas longas logopeias jogando ideias, autor de obras como Flow Chart (1991), Self-Portrait in a Convex Mirror (1975), Some Trees (1956) e Collected Poems 1956–1987 (2008). Veja mais aqui & aqui.

 

A MÁQUINA DE MEMES - [...] Se levarmos a memética a sério, então o "eu" capaz de fazer a escolha é, ele próprio, uma construção memética: um conjunto fluido e em constante mudança de memes instalados em uma complexa máquina de memes. [...] Os humanos são frequentemente creditados por terem uma visão real, em distinção ao resto da biologia que não o faz. [...] Não há como negar que o relojoeiro humano é diferente do natural. Nós, humanos, em virtude de termos memes, podemos pensar em engrenagens, rodas e marcar o tempo de uma forma que os animais não conseguem. Memes são as ferramentas mentais com as quais fazemos isso. Mas o que a memética nos mostra é que os processos subjacentes aos dois tipos de design são essencialmente os mesmos. Ambos são processos evolutivos que dão origem ao design através da seleção e, no processo, produzem o que parece ser uma previsão. [...] Os memes, assim como os genes, são selecionados tendo como pano de fundo outros memes do *pool* de memes. O resultado é que grupos de memes mutuamente compatíveis — complexos de memes coadaptados ou *memeplexos* — são encontrados coexistindo em cérebros individuais. Isso não ocorre porque a seleção os escolheu como um grupo, mas porque cada membro individual do grupo tende a ser favorecido quando seu ambiente é dominado pelos demais. [...]. Trechos extraídos da obra The Meme Machine (Oxford University Press, 1999), da psicologa, radialista e escritora britânica Susan Blackmore (Susan Jane Blackmore), que atua na área de estudo da consciência, memes e experiências paranormais. Na sua definição: “Os memes são instruções para realizar comportamentos, armazenadas no cérebro (ou em outros objetos) e passadas adiante por imitação”. Ela é autora dos livros Zen and the Art of Consciousness (2009), Conversations on Consciousness (2005) e Consciousness: A Very Short Introduction (2005). Veja mais aqui & aqui.

 

AS REGRAS DA ARTE – [...] Eu simplesmente perguntaria por que tantos críticos, tantos escritores, tantos filósofos sentem tamanha satisfação em professar que a experiência de uma obra de arte é inefável, que ela escapa, por definição, a toda compreensão racional; por que estão tão ávidos por admitir, sem resistência, a derrota do conhecimento; e de onde vem essa necessidade irreprimível de menosprezar a compreensão racional, essa fúria em afirmar a irredutibilidade da obra de arte ou, para usar um termo mais adequado, a sua transcendência. [...] O questionamento das formas de pensar predominantes, provocado pela revolução simbólica, e a originalidade absoluta do que ela engendra, são contrabalançados pela solidão absoluta inerente à transgressão dos limites do pensável. Esse pensamento, que assim se tornou sua própria medida, não pode esperar que mentes estruturadas segundo as próprias categorias que questiona sejam capazes de conceber esse impensável. [...] Mas, em sua luta contra a Academia, os pintores (e especialmente aqueles rejeitados por ela) podiam recorrer ao trabalho coletivo de invenção (iniciado com o Romantismo) da figura heroica do artista rebelde em luta, cuja originalidade se mede pela incompreensão que enfrenta ou pelo escândalo que provoca. Receberam também apoio direto dos escritores, há muito libertados da autoridade acadêmica que, desde o século XVII, lhes concedera uma identidade reconhecida, mas lhes atribuía uma função limitada e, em todo caso, definida externamente. Os escritores refletiam para os pintores uma imagem exaltada da ruptura heroica que estavam realizando e, sobretudo, traziam para o âmbito do discurso as descobertas que os pintores faziam na prática, particularmente na arte de viver. [...] do mundo comum, mais ou menos universalmente compartilhado, diferentemente dos mundos particulares, microcosmos fundados, como o universo da literatura ou da ciência, em uma ruptura com o senso comum, com uma adesão dóxica ao mundo ordinário. [...]. Trechos extraídos da obra The Rules of Art: Genesis and Structure of the Literary Field (Stanford University Press, 1992), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), autor de obras como The Social Structures of the Economy (2000), Acts of Resistance: Against the Tyranny of the Market (1999), Sociology in Question (1992), An Invitation to Reflexive Sociology (1992), Pascalian Meditations (1997), Academic Discourse: Linguistic Misunderstanding and Professorial Power (1994), The Weight of the World: Social Suffering in Contemporary Society (1993), Language and Symbolic Power (1991), The Logic of Practice (1980) e Distinction (1979), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


MEETING VENUS – O filme Meeting Venus (Encontro com Vênus, 1991), do diretor húngaro István Szabó, conta a satírica montagem da ousada ópera Tannhäuser, de Richard Wagner, quando o seu condutor se vê diante das armadilhas de egos artísticos, o nacionalismo desenfreado, empresa interna, política sindical e financiamento precário. No filme um elenco sofisticadíssimo conta com a participação de atrizes como Glenn Close, Maria de Medeiros, Marián Labuda, Maité Nahyr, a cantora lírica Kiri Te Kanawa com a Philarmonia Orchestra de Londres, conduzida pelo maestro Marek Janowski, entre outras importantes participações. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


HERMES TRISMEGISTOS: CORPUS HERMETICUM – A obra Corpus Hermeticum e discurso de iniciação com a Tábua de Esmeralda, de Hermes Trismegistos, estabelecido e traduzido por Marcio Pugliesi e Norberto de Paula Lima, traz Poimandres, , de Hermes a Tat: discurso universal, discurso sagrado de Hermes, a cratera ou a mônada, que Deus é ao mesmo tempo inaparente e o mais aparente, o bem existe apenas em Deus e em nenhuma outra parte, o maior dos males entre os homens constitui a ignorância relativamente a Deus, nenhum dos seres perece e é erroneamente que se chamam as mutações de destruições e mortes, sobre a intelecção e a sensação (o belo-e-bom reside apenas em Deus e em nenhuma outra parte), a chave, de Nous a Hermes, sobre o intelecto comum, discurso secreto sobre a montanha relativo a regeneração e a regra do silêncio, de Deus criador, as definições, Asclépios ao rei Ammon, dos entraves acarretados à alma pelo que sucede ao corpo, discurso de iniciação ou Asclépios, rota da imortalidade, invocação e Tábua de Esmeralda. A OBRA SECRETA – O livro A obra secreta da filosofia de Hermes Trismegistos, de Jean D´Espanet, trata da filosofia natural restituída, a matéria e a forma são os princípios mais antigos das coisas, criação do Sol, a luz é a forma universal, a criação do homem, os três atos de formação da matéria primeira, circulação do úmidos nos mistos, os três segundos elementos, a obra secreta, exortação, as condições da obra, a matéria da pedra, a arte e a natureza, os metais perfeitos, o mercúrio filosófico, prática, os meios e os extremos, as digestões da pedra, as rodas e os círculos, o tríplice fogo, a proporção, os recipientes, o atanor e o elixir. Veja mais aqui.

REFERÊNCIAS
D´ESPAGNET, Jean. A obra secreta da filosofia de Hermes Trismegistos. São Paulo: L´Oren, 1976.
TRISMEGISTOS, Hermes. Corpus herméticum – Discurso de Iniciação, A Tábua de Esmeralda. São Paulo: Hemus, 1978.


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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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sábado, novembro 07, 2015

KANDEL, AUBREY, CAMUS, CECÍLIA, WAGNER, SOPHIA BREYNER, RENOIR & LAURENZI.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? E SE NADA ACONTECESSE, NADA VALERIA – Como diz o ditado: nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio, madrugada adentro até o raiar de um novo amanhecer. Basta perceber que para alguns o entardecer é o sinal de vida: porque a noite é de descanso do trabalho estafante. Outro dia amanhece e tudo de novo. Prosseguir na árdua labuta, sem estímulos, sem incentivos, a rotina entediante, a chatura dos que são piores que pisada proposital no calo dolorido, que futucada na ferida mal sarada, que cipoada no pau da venta para desnortear o que já está confuso e perdido. O pior: estar na profissão e não sê-la. Nenhum prazer nas tarefas, nenhuma alegria nos relacionamentos, tudo avolumando situações aversivas. Tudo isso vai juntando naquelas quantas vezes se acerta errando a tropeçar de novo no erro por pensar que está certo; naquelas situações qual Sísifo subindo morro pra conquistar o desejado e quando se chega no topo, não estava lá, o prêmio está lá em baixo, e fulo da vida, praguejando aos céus e aos ventos, desce tudo de novo embolando ribanceira abaixo. Aí se tropeça, porra! Que coisa! Vai ao fundo do poço. Dali não há mais pra onde cair, se resta recomeçar tudo de novo na subida íngreme até o cúmulo dos mínimos, para se alcançar o que nem se sabe por duvidoso alcançável. É, eu mesmo quando fui, estava só; ao voltar, todos iam. Sempre assim, ledo engano. É como aqueles que sofreram mais que David Copperfield na mão do Uriah Heep das autobiografias de Dickens, ou que exasperou como Dédalus no Joyce quando jovem, ou que se viu como o Rastaquera na Foto da Capa: não mirava algum futuro. Nem um fiapinho de luz pra indicar o caminho a seguir. Pois é, quem não almejou a vitória, lutou, sangrou, persistiu e quando viu o pódium de perto, amargou a mais tremenda e vergonhosa derrota. Desabou-se tudo, o mundo caiu. Resta recolher os escombros e reorganizar tudo de novo. Assim é a vida. Valorizamos tão pouco os nossos pequenos êxitos de só nos lembrarmos das quedas com seus arranhões que nos fissuram o íntimo e nos deixam sempre com o sabor de beijo partido. Assim é a vida, não há final feliz – pelo menos para o que se entende por felicidade pela acumulação. Haverá sempre desafios a vencer. Cada êxito, novo desafio. Será que Shakespeare alcançaria a glória nos tempos de hoje? A vida passa, assim é a vida. E se nada acontecesse, nada valeria. E veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Young Girl Bathing, do pintor impressionista francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Veja mais aqui.


Curtindo o dvd Tannhäuser (Tannhäuser und der Sängerkrieg aus Wartburg, 1845), do compositor, maestro, diretor de teatro e ensaísta alemão Richard Wagner (1813-1883), conductor Colin Davis & Chor und Orchester der Bayreuther Festspiele, soprano Gwyneth Jones. Veja mais aqui. 

AS CÉLULAS NERVOSAS & O COMPORTAMENTO – No livro Princípios de Neurociências (Artmed, 2014), do neurocientista austríaco Eric Richard Kandel et al, encontro o capítulo que trata das células nervosas e do comportamento, do qual destaco o trecho: [...] Os seres humanos são imensamente superiores a outros animais por sua capacidade de explorar seu meio ambiente. A notável variedade de comportamentos humanos e a complexidade do ambiente que 0 ser humano tem sido capaz de criar para si depende de um sofisticado arranjo de receptores sensoriais conectados a uma "maquinaria" neural altamente flexível, um cérebro, que é capaz de discriminar uma enorme variedade de eventos no ambiente, afluxo contínuo de informação a partir desses receptores e organizado pelo encéfalo em percepções (algumas das quais são armazenadas na memoria para referencia futura) e depois em respostas comportamentais apropriadas. Tudo isso é efetuado pelo cérebro usando células nervosas e as conexões entre elas. As células nervosas individuais, unidades básicas do encéfalo, tem uma morfologia relativamente simples. Apesar de 0 encéfalo humano conter um número extraordinário dessas células (da ordem de milhares de neurônios), que podem ser classificadas em pelo menos mil tipos diferentes, todas as células nervosas compartilham a mesma arquitetura básica. A complexidade do comportamento humano depende menos da especialização de células nervosas individuais e mais do fato de que muitas dessas células formam circuitos anatômicos precisos. Um dos principios-chave da organização do encéfalo, portanto, é que células nervosas com propriedades basicamente similares podem produzir acoes muito diferentes por causa do modo como estão conectadas umas as outras e aos receptores sensoriais e músculos. [...], Veja mais aqui, aqui e aqui.

A SAGA – No livro Histórias da terra e do mar (1972 – Figueirinhas, 2013), da escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner (1919-2004), encontro o conto A saga, do qual destaco os trechos a seguir: O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo de tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com os fatos inchados de vento, caminhou até ao extremo do promontório. O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como urna boa orquestra, afinava os seus instrumentos. Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quando escutava o cântico do órgão da igreja luterana, na igreja austera, solene, apaixonada e fria. Para resistir ao vento, estendeu-se ao comprido no extremo do promontório. Dali via de frente o inchar da ondulação cada vez mais densa como se as águas se fossem tornando mais pesadas. Agora as gaivotas recolhiam a terra. Só a procelária abria rente à vaga o voo duro. À direita, as longas ervas transparentes, dobradas pelo vento, estendiam no chão o caule fino. Nuvens sombrias enrolavam os anéis enormes e, sob uma estranha luz, simultaneamente sombria e cintilante, os espaços se transfiguravam. De repente, começou a chover. A família de Hans morava, no interior da ilha. Ali, o rumor marítimo só em dias de temporal, através da floresta longínqua, se ouvia. Mas ele vinha muitas vezes até à pequena vila costeira e, esgueirando-se pelas ruelas, caminhava ao longo do cais, ao lado de botes e veleiros, atravessava a praia e subia ao extremo do promontório. Ali, no respirar da vaga, ouvia o respirar indecifrado da sua própria paixão. Nesse dia, quando ao cair da noite entrou em casa, Hans curvou a cabeça. Pois aos catorze anos já tinha quase a altura de um homem e, em Vig, as portas de entrada são baixas. Assim é desde o tempo antigo das guerras quando os invasores que ocupavam a ilha penetravam nas casas de cabeça erguida mas exigiam que a gente da ilha se curvasse para os saudar. Então, os homens de Vig baixaram o lintel das suas portas para obrigarem o vencedor a baixar a cabeça. Sören, pai de Hans, era um homem alto, magro, com os olhos cor de porcelana azul, os traços secos e belas mãos sensíveis que mais tarde, durante gerações, os seus descendentes herdaram. Nele, como na igreja luterana, havia algo de austero e solene, apaixonado e frio. A casa e à família imprimia uma inominada lei de silêncio e reserva onde o espírito de cada um concentrava a sua força. De certa forma Sören reconhecia o risco que corria: sabia que é no silêncio que se escuta o tumulto, é no silêncio que o desafio se concentra. Mas ele impunha a si mesmo e aos outros uma disciplina de responsabilidade e de escolha dentro da qual cada um ficava terrivelmente livre. Havia porém algo de taciturno e ansioso em Sören: ele pensava talvez que a integridade humana, mesmo a mais perfeita, nada podia contra o destino. Do dever cumprido, da liberdade assumida, não esperava sucesso nem prosperidade, nem mesmo paz. Os seus irmãos mais novos - Gustav e NieIs - tinham morrido no naufrágio de um veleiro que lhe pertencia. Sören sabia que o seu barco era um bom barco onde ele próprio inspecionara com minúcia cada cabo e cada tábua, sabia que os seus jovens irmãos eram perfeitos homens do mar e hábil e competente o capitão a quem tudo entregara. No entanto, o navio naufragou quando a experiência e o cálculo não mediram exatamente a força e a proximidade do temporal. Mal a notícia do naufrágio foi confirmada pelo cargueiro inglês que dois dias depois recolhera ao largo os destroços do veleiro desmantelado - o mastro partido, as bóias, o bote virado - Sören vendeu os seus barcos e comprou terras no interior da ilha. Dizia-se mesmo que nunca mais olhara o mar. Dizia-se mesmo que nesse dia tinha chicoteado o mar. No entanto Hans suspirava e nas longas noites de Inverno procurava ouvir, quando o vento soprava do sul, entre o sussurrar dos abetos, o distante, adivinhado, rumor da rebentação. Carregado de imaginações queria ser, como os seus tios e avós, marinheiro. Não para navegar apenas entre as ilhas e as costas do Norte, seguindo nas ondas frias os cardumes de peixe. Queria navegar para o Sul. Imaginava as grandes solidões do oceano, o surgir solene dos promontórios, as praias onde baloiçam coqueiros e onde chega até ao mar a respiração dos desertos. Imaginava as ilhas de coral azul que são como os olhos azuis do mar. Imaginava o tumulto, o calor, o cheiro a canela e laranja das terras meridionais. Queria ser um daqueles homens que a bordo do seu barco viviam rente ao maravilhamento e ao pavor, um daqueles homens de andar baloiçado, com a cara queimada por mil sóis, a roupa desbotada e rija de sal, o corpo direito como um mastro, os ombros largos de remar e o peito dilatado pela respiração dos temporais. Um daqueles homens cuja ausência era sonhada e cujo regresso, mais navio ao longe se avistava, fazia acorrer ao cais as mulheres e as crianças de Vig e a história que eles contavam era repetida e contada de boca em boca, de geração em geração, como se cada um a tivesse vivido. Sören e Maria jantavam com os filhos, Hans e Cristina, em redor do círculo luminoso da lâmpada. Lá fora as madeiras da janela batiam, através da floresta arfava o rumor marinho da tempestade. Por entre as agulhas dos pinheiros e os ramos das bétulas perpassavam ecos, sibilâncias, gritos e, contra o céu baixo de nuvens, ressoava o longínquo tumulto da rebentação. - Sören, que notícias ouviste hoje na vila? - perguntou Maria. - Más notícias. O Elseneur devia ter entrado a barra a meio da tarde mas, ao pôr-do-sol, ainda não se avistava. Vão ser obrigados a passar o temporal e a noite no mar. - É um bom barco - disse Hans que conhecia o Elseneur palmo a palmo. - É um navio que aguenta muito mar. - Deus os guarde - murmurou Maria. Pois o Elseneur era o melhor navio de Vig e a sua tripulação era formada por gente da ilha, homens jovens que ela conhecia desde o berço, ou velhos lobos-do-mar que a conheciam desde a própria infância. Porém, nessa noite, enquanto Hans dormia, o Elseneur naufragou contra os rochedos negros das falésias. Nenhum homem se salvou. O vento espalhou os gritos no clamor da escuridão selvagem, a força das braçadas desfez-se nos redemoinhos, a água tapou as bocas. Nem os que treparam aos mastros se salvaram, nem os que se meteram nos botes, nem os que nadaram para terra. O mar quebrou tábua por tábua o casco, os mastros, os botes e os marinheiros foram rolados entre a pedra e a vaga. [...] Veja mais aqui e aqui.

CANÇÕES –No livro As canções (Portugal, 1956), da escritora, pintora, professora e jornalista Cecília Meireles (1901-1964), destaco as canções: Inesperadamente, / a noite se ilumina: / que há outra claridade / para o que se imagina. / Que sobre-humana face / vem dos caules da ausência / abrir na noite o sonho / de sua própria essência? / Que saudade se lembra / e, sem querer, murmura / seus vestígios antigos / de secreta ventura? / Que lábio se descerra / e - a tão terna distância! - / conversa amor e morte / com palavras da infância? / O tempo se dissolve: / nada mais é preciso, / desde que te aproximas, / porta do Paraíso! / Há noite? Há vida? Há vozes? / Que espanto nos consome, / de repente, mirando-nos? / ( Alma, como é teu nome?) / * / Venturosa de sonhar-te, / à minha sombra me deito. / (Teu rosto, por toda parte, / mas, amor, só no meu peito!) / -Barqueiro, que céu tão leve! / Barqueiro, que mar parado! / Barqueiro, que enigma breve, / o sonho de ter amado! / Em barca de nuvem sigo: / e o que vou pagando ao vento / para levar-te comigo / é suspiro e pensamento. / -Barqueiro, que doce instante! / Barqueiro, que instante imenso, / não do amado nem do amante: / mas de amar o amor que penso! De um lado cantava o sol, / do outro, suspirava a lua. / No meio, brilhava a tua / face de ouro, girassol! / Ó montanha da saudade / a que por acaso vim: / outrora, foste um jardim, / e és, agora eternidade! / De longe, recordo a cor / da grande manhã perdida. / Morrem nos mares da vida / todos os rios do amor? / Ai! Celebro-te em meu peito, / em meu coração de sal, / ó flor sobrenatural, / grande girassol perfeito! / Acabou-se-me o jardim! / só me resta, do passado, / este relógio dourado / que ainda esperava por mim... / * / Ó noite, negro piano, / - os sonhos soam longe, / num teclado caído / pelo fundo horizonte. / À música se inclina / o pensamento insone: / em que clave se escreve / o itinerário do homem? / (Mas as brisas celestes / que se abraçam na noite ; porém folhas de silêncio / na vaporosa fonte...) / Ó música sonhada, / - por que não corresponde / o desenho que vives / à vida que te sonhe...? Veja mais aqui e aqui.

ESTADO DE SÍTIO – A peça teatral em três partes, Estado de Sítio (1948 – Civilização Brasileira, 2002)), do escritor, dramaturgo e filósofo francês Albert Camus (1913-1960), conta uma história ocorrida numa pequena cidade litorânea assolada pela peste e dominada pelo medo. Da obra destaco o Prólogo: Abertura musical, em torno de um tema sonoro, lembrando a sirena de alerta. O pano abre-se, com a cena completamente escura. A abertura musical termina, mas o tema de alerta permanece, como um zumbido longínquo. Subitamente, ao fundo, surgindo do lado do pátio, um cometa se desloca em direção do jardim. Ilumina, em sombras chinesas, os muros de uma velha fortificação espanhola e a silhueta de vários personagens que voltam as costas ao público, imóveis, as cabeças estendidas em direção ao cometa. Soam quatro horas. O diálogo é mais ou menos incompreensível, como um resmungo. – Fim do mundo! – Não, homem! – Se o mundo acabar... – Não, homem! o mundo, mas não a Espanha! – Mesmo a Espanha pode morrer. – De joelhos. – É o cometa do Mal! – Não a Espanha, homem, não a Espanha! (Duas ou três cabeças voltam-se. Um ou dois personagens se deslocam, com precaução. Depois tudo volta à imobilidade. O zumbido torna-se, então, mais intenso, mais estridente e se desenrola, musicalmente, como uma palavra inteligível e ameaçadora. Ao mesmo tempo, o cometa cresce desmesuradamente. Bruscamente, um grito terrível de mulher, que súbito, faz silenciar a música e reduz o cometa a seu tamanho normal. A mulher foge, ofegante. Balbúrdia na praça. O diálogo, mais sibilante e mais perceptível, não está, ainda, nitidamente compreensível). – É sinal de guerra! – Certamente que é. – Não é sinal de nada. – Depende. – Basta. É o calor. – O calor de Cádiz. – Basta! – Ele sibila forte demais! – Ensurdece, sobretudo. - É uma praga, sobre a cidade! – Ai! Cádiz! Uma praga sobre ti. – Silêncio! Silêncio! (Fixam, de novo, o cometa, e, então, se ouve, desta vez, distintamente, a voz de um oficial das guardas civis). [...] Veja mais aqui e aqui.

NED RIFLE – O drama independente Ned Rifle (2014), do cineasta estadunidense Hal Hartley, é a reunião de uma sequência dos acontecimentos do filme Fay Grim, contando a história de um personagem que passou quatro anos na prisão por supostas atividades terroristas e é transferido para uma penitenciária federal para atender a uma sentença de prisão perpétua. O filho Ned Rifle, foi colocado em proteção a testemunhas com uma família cristã devota. O filme segue a intenção de do filho querer matar seu pai, por arruinar a vida de Fay Grim. Posteriormente, Ned encontra Susan, que tem uma ligação com o passado de seu pai. Trata-se de um filme que teve uma recepção favorável da crítica especializada, passando a ser bastante festejado nos meios cinematográficos. O destaque do filme vai para a belíssima atriz e comediante estadunidense Aubrey Christina Plaza que centraliza pra si todas as cenas da obra. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
O universo das mulheres de Paul Laurenzi.
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...