domingo, novembro 21, 2021

ALASDAIR GRAY, ELSE LASKER-SCHULER, EDWARD ELGAR &TONY ANTUNES.

 

 

TRÍPTICO DQP – Mameluquices mulatíndias... - Ao som do Concerto para Cello e orquestra em Si menor, Op. 85 (1919 – CBS, 1976), do compositor inglês Edward Elgar (1857-1934), na interpretação da violoncelista Jacqueline du Pre com a Orquestra Sinfônica de Londres, regência de Daniel Barenboim. – Videncruzilhada, tomei a direção da venta, como sempre. Andejo e só dei fé duma hestória: a ameaça nas imediações de uma certa bonitona, a mais bela de todas quanto já tivesse. Hem? Todos os homens, não tinha um só que a visse e não endoidasse de paixão. Mesmo? Disseram chegada das bandas da Paraíba e tinha lá um feitiço que era segredo só dela. Oi? Aos cochichos: ela vira a onça que matou a menina que foi criada pela velha. É? Ninguém escapa. Como assim? Era uma vez uma menina que cresceu e queria ganhar o mundo, mas não tinha nada. Pediu a velha que lhe desse e, a coitada, só tinha um carvão: eu quero. Com a posse, pé na estrada. Depois de muito andar ela encontrou um ferreiro que do carvão precisava e ela deu. Depois pediu de volta, era tarde, gastou-se e não mais havia. O ferreiro então deu um machado e ela ganhou o mundo. Adiante estava um cancão e precisava do machado para bater pau e ela deu pra ele tirar mel. Foi pá e pei, nisso o machado se quebrou e ela queria de volta: só tenho mel. Então, me dê. Picou a mula e, noutra volta, se deparou com a lavadeira com a trouxa no rio comendo feijão. Ao ver-lhe o mel às mãos dela, pediu e ela deu. Acabou-se o que era doce e ela queria de volta: deu-lhe um pão de milho e picou a mula. Lá na curva da rodagem, um velho pediu-lhe esmola e ela deu o pão de milho, logo devorado. E agora? Só tenho esse ferrão de acuar gado. Ora, quero. E na beira dum cercado, um vaqueiro aperreado para juntar a boiada, ele pediu pra ela e, sem cerimônia, deu: cutucou daqui, dali, e o ferrão partiu-se. E agora, quer uma vaca? Quero. Para lá e para cá com sua vaquinha, a onça apareceu e devorou: Onça, eu quero minha novilha de vaca, novilha que o vaqueiro me deu. Vaqueiro quebrou ferrão, o ferrão que o velho me deu. O velho comeu o pão de milho, o milho que a lavadeira me deu. Lavadeira comeu o mel, o mel que o cancão me deu. Cancão quebrou machado, machado que ferreiro me deu. O ferreiro gastou meu carvão, carvão que minha madrinha me deu. A onça nem pestanejou, lambeu os beiços e a menina no bucho, palitando os dentes, ancha. Foi aí que a fera, sem sabe como, virou uma moça bonita que vive por ai zanzando e seduzindo todos aqueles de juízo, só para endoidecê-los... Ouvia eu atento o relato, enquanto alguém desconhecido mencionou o poeta italiano Arturo Graf (1848-1913): A sabedoria e a razão, falam; a ignorância, ladra. Estranhei, desconfiado. Logo outro do meio deles sapecou Goethe: Não há nada mais terrível que a ignorância. Não falto algum injuriado, até quem invocasse Confúcio: A ignorância é a escuridão da mente! Outro mais desabusado cuspiu Pitágoras: Se me perguntar o que é a morte, respondo: a verdadeira morte é a Ignorância. Quantos mortos entre os vivos! Lá estava eu no meio de uma saraivada discordante de gente pia e incrédula, nem sabiam o que diziam, nem nada, só jogavam conversa fora, repetiam o que ouviram desde infância, apenas... Reproduziam do jeito deles, segundo eles... Foi aí que me apareceu o escritor escocês Alasdair Gray (1934-2019) que me puxou do lado: Não quero enfrentar este mundo, vamos voltar ao inferno que estou imaginando... Eu deveria ter mais amor antes de morrer. Eu não tive o suficiente... Depois de me conduzir para uma esquina na saída da localidade, ele me disse em tom confidencial: Trabalhe como se estivesse nos primeiros dias de uma nação melhor. E se despediu me livrando de zunzunzum tão discordante. Aproveitei a deixa, segui meu caminho...


 

O reencontro na ruína... – Imagem: arte do fotógrafo francês Lucien Clergue (1934-2014). – Andanças noitedia e se era ou não onça, na vera, não sei. O que sei de mesmo é que ao depará-la deu-se o reencontro: era a Vênus do Quintal. Lembra? Ora, se. E logo me disse toda cantatriz mexicana María Félix (1914-2002): Minha lenda começou a ganhar forma sem mover um dedo. A imaginação do público fez tudo por mim... E sorriu sedutoramente como se me revelasse seus segredos, abraçando-me para cochichar ao meu ouvido: Quando eu quiser, será pela porta grande. Não entendi a última frase sussurrada, sei apenas que levou por insólitas paisagens que mais pareciam as cenas do The Black Crown (1951) do Luis Saslavsky: era o milagre, disse-me e confessou: havia perdido a memória há muito tempo e só agora tomou ciência da razão disso: havia matado o marido. Ao me reconhecer tomara ciência de tudo. Para ela parecia que eu a havia curado, não sei, fato inexplicável. Logo fez-se em mim a La Doña – María Bonita. E me narrou detalhadamente sua turbulenta vida amorosa, casamentos desfeitos, de como se tornou a María de Todas las Marías e o motivo de todos cantarem para ela Je l'aime à mourir de Cabrel. Nada disso jamais poderia eu saber, há muito tempo ela havia se tornado apenas uma deliciosa lembrança que eu guardara para que a vida valesse a pena. Não sei se estava ali condenado ou absolvido, sabia apenas que estava agora enredado nos braços da Inés Rojas do La fièvre monte à El Pao, de Buñuel. De fato, em mim a febre aumentava mesmo porque a República do Pecado misturava histórias que me puxavam e, depois de tudo, era como se não mais confiássemos um no outro, enquanto fugíamos da ilha do ditador à beira de uma guerra civil, até chegarmos a uma praia deserta para me dizer que ela era a Diana do Safo’63 de Alcoriza e nos refugiamos ali. Sabia lá o que seria de nós ali isolados de tudo e de todos, só sei que ela me contou que lera a emocionante carta de Kierkegaard para Regine e se emocionou o panegírico apaixonado de Charlotte e Adam. Uma lágrima desceu e a enxuguei com o polegar. Fitou-me, chorosa e desabafou: havia detestado a leitura do Geschlecht und Charakter (‎Losada, 2004), do misógino filósofo austríaco Otto Weininger (1880-1903), repetindo o que ele escrevera: Nenhum homem que pense profundamente sobre as mulheres mantém uma opinião elevada sobre elas. Ou os homens desprezam as mulheres ou nunca pensarão seriamente a respeito delas. Nossa! E prosseguiu protestando o fato de como ele se dedicara à entrega total aos imperativos da genialidade, suicidou-se aos 23 anos. Que tragédia! Para ela, a única coisa de relevante que ele deixara, tão somente foi o impacto que exerceu sobre Wittgenstein: Ver o mundo corretamente em silêncio. Quase sorrindo mencionou o silêncio dos versos do The Second Coming de Yeats: Falta convicção aos melhores / enquanto os piores estão cheios de apaixonada intensidade. Abraçamo-nos com a paradisíaca paisagem. Com o passar dos dias aquele lugar era o espetáculo dela nua e tive que veemente discordar do filósofo suicida que sentenciara: Uma figura feminina absolutamente nua deixa uma impressão de algo deficiente, uma coisa incompleta que é incompatível com a beleza. Ah, não! Prefiro o feitiço dela, mesmo que seja uma completa desconhecida, monstro disfarçado ou anátema indesvencilhável.

 


Prexelândio absoluto.... - Despertei atordoado com a barulheira de uma multidão. Que será? Ao tomar pé da situação, entre os desencontros de ontem, reencontros de amanhã, reconheci uma voz de antanho: do poeta e radialista Tony Antunes (que também se assina professor Gleidistone) e recitava no palco Prexelândios de uma vida. Aplaudi ao final e foi quando percebi que estava sozinho e entre gente que nunca antes tivera sequer visto. Havia um certo desconforto só quebrado que, depois, ele encostou-se com a surpresa e um exemplar do seu Digitais absolutas: poemas escolhidos, para recitar-me o seu poema As letras: As letras que fazem nascer / minhas palavras / são portadoras / de criação infinita. / Nos calcanhares letrados da mente / surgem idiomas / com asas de fênix / reluzindo luz e conhecimento. / Abrindo os olhos à leitura, podemos então / ser descobridores de mágicas metáforas / em semânticas de vida / de luz e / de amor. Aplaudi com um firme aperto de mão de frater e um abraço caloroso com os versos do seu poema Meus quirodáctilos: ... sei do meu passado / não sei do meu porvir. / Sou viajante do cosmo / nos planetas mentais / do tico e do teco / do tosco e do taco / de tudo e de todos. Foi aí que conversamos animadamente por um bom espaço de tempo, até ela reaparecer e nos despedimos com a promessa de revermos em breve. Ela me levou de volta para o seu aconchego que sequer sabia onde que poderia ser, enquanto dizia-me de um poema O fim do mundo, da poeta alemã Else Lasker-Schuler (1869-1945): Há um lamento no mundo, / Como se não mais houvesse o bom Deus, / E a sombra que cai, cortina de chumbo, / Pesa mausoléus. / Vem, escondamo-nos mais de perto... / A vida jaz nos corações / Como nos féretros. / Ei, beijemo-nos até não mais poder / — Pulsa uma saudade no mundo, / E é disso que temos de morrer. Ao final do poema, estávamos no meio do mundo e eu não sabia onde era nem queria saber. Então, abraçou-me com o fervor de sempre, sem que eu soubesse jamais se onça ou benfeitora, apenas: precisamos viver, enquanto podemos respirar. Até mais ver.

 

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domingo, novembro 14, 2021

JHUMPA LAHIRI, BALTASAR GRACIÁN, JULIANA VALVERDE & JUAREIZ CORREYA.

 

 

TRÍPTICO DQP – A palavra calada... - Ao som dos álbuns Um cravo bem variado (Vol. 1,1996 – Vol. 2, 2006) e Um pouco de tudo (A Little bit of Everything, 2016) da pianista Regina Schlochauer. - Lá vou eu dia mais dia menos insulado em minhas próprias ideias e arroubos. Sigo como quem perdeu a vírgula e foi expatriado, quando não estranho em meu próprio país. Apesar de esgotado como se não tivesse mais nada a fazer, não preciso agradar, nem quero, diante de mim só desvios por descaminhos e bifurcações, nenhum pouso certo. Escapo e me seguro como posso para não ser levado de roldão, porque não quero me salvar dessa enlouquecida dissimilitude no meio de dogmas, superstições e notícias falsas - quantas insuficiências, privações. Na verdade, quanta gente ofendida, mal-humorada, umbigocentrista com seus acicates... Vira e mexe, o que rende? Não mais que loas irreveláveis. Vale dizer, o que quer que se faça, a crassa ignorância de acólitos vetores ressentidos, abraçados com seus próprios rancores e a repetirem aos borbotões o que nunca leram do vetusto Oráculo manual y arte de prudência (Sextante, 2006), do escritor espanhol Baltasar Gracián y Morales (1601-1658): Não se vive seguindo uma só opinião, um só costume ou um só século... Não há nada tão amável quanto a virtude, nem tão detestável quanto o vício. Só a virtude basta a si mesma. Faz-nos amar os vivos e lembrar os mortos... Um homem atento percebe que é ou será visto. Sabe que as paredes têm ouvidos e que o que é malfeito acaba sendo conhecido... Ah, não! Quantas máscaras pros seus disfarces de homo habilis, rudolfensis, erectus, heidelbergensis, neanderthalensis, ergasters, sapiens, fabers, communicans, o ludens do Huizinga, o videns do Sartori, – até o Homo Deus de Yuval Noah Harari:... estamos à beira de uma revolução importante. Os humanos correm o risco de perder seu valor econômico porque a inteligência está se desvinculando da consciência... - e o retrocedens (Vixe! Nossa! Será mesmo?). Nada por acaso. É como se um guarda-chuva encontrasse de novo uma máquina de costura sobre a mesa de autópsia para copularem desordenada e explicitamente. E, por causa disso, o tempo parasse de não mais. Sou salvo porque, de repente, ela chega e ao presenciar todo meu espanto, recitou-me um trecho d’O haver de Vinicius de Moraes: Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura / Essa intimidade perfeita com o silêncio / Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo / - Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido... Ah, como é prazeroso tê-la ali, revê-la, ouvi-la. Em retribuição, saquei do violão e entoei a canção que fiz para A palavra calada de Vital Corrêa de Araújo: desfibra a palavra quando cala / quando o caule da árvore da fala / que é vento verbo e alicerce / anoitece / quando as seivas todas são sugadas / e o trêmulo das folhas proibido / quando os discursos são lacrados / dentro das praças sitiadas / e o som negado aos ouvidos / e o grito cortado na garganta / e o medo aberto no meio abrupto do dia / desfibra a palavra quando a árvore da fala / e os frutos dos gritos são demolidos / pelos silêncios vivos. Sim, anoitecia. Ao final, ela me premiou um sorriso, sabia: era a minha forma de escapar da loucura.

 


Não era apenas uma... – Imagem: arte da artista visual Juliana Valverde: Sigo meu caminho rumo a regeneração fazendo colagens, recortando colando ressignificando ideias relações inquietações através arte arquitetura educação. - Sim, ela me salvou da loucura extrema, muito embora eu saiba que não detenho nenhuma sanidade mental no meio desse genocídio que virou o meu país, no meio desse tempo escatológico de últimos instantes. Sim, foi nos braços dela de Vênus restaurada de Man Ray, como se fosse Juba na pele da atriz neozelandesa Kerry Fox, a me envolver nas cenas do Intimité (2001) de Patrice Chéreau, por todas as manhãs, tardes e noites: embaraçados e sem tem ter o que dizer se não sabíamos nada um do outro. Nela, nada se equiparava: a vida é música e sequer sei em que direção sopra o vento. Para quem audiófilo ou melômano tanto faz – afinal, como já dissera o ensaísta e critico literário inglês, Walter Pater (1839-1894): Toda arte aspira à condição de música. E ela era música e nela sequer sabia por quantos anos consecutivos. Era ela, nada mais.

 


A semana passou... – Tudo passou e passa. E era Admmauro Gommes no Congresso Nacional de Escritores que a Semed-Palmares promoveu no meio da exposição da Biblioteca Municipal das artes do Pintando na Praça, oportunidade em que revi amigamigos & outras personagens de décadas passadas. No Teatro Cinema Apolo, o Carlos Calheiros me levou para um bate-papo na Associação dos Artesãos Palmarenses e, todos os dias, sem desgrudar das comemorações da antologia dos 70 Setembros, do poetamigo Juareiz Correya e o seu Poema vago olhando a cidade: Minha cidade / ficará gravada / num poema lívido e vago. / Não será preciso citar becos e ruas / inevitáveis em sua anatomia. / Nem correr com a memória / as lembranças, e os minutos de agora. / Minha cidade / não será vista / num poema sentimental. / Conservarei oculto até o seu nome / neste poema / de amor silente / às suas coisas, a ela mesma. E esta cidade sou eu dedilhando a minha canção para o poema dele Ponte sobre águas turvas e a gente às gaitadas cultuando Ascenso e festejando Hermilo com os versos do Americanto amar América e eu me sentisse abraçado com José Terra e João Guarani ainda meninos na sala da minha casa, com a maior torcida por Mariama, cantando juntos como se eu fosse Paulo Diniz no Poema para Léa. E era a Livro7 e os sonhos do Recife, os amigos e as rodadas dos pileques exaltados por becos e ruas, os versos e os desenganos, a teimosia, o abraço fraterno e a urgência de vida... Saudades demais... E a salvação novamente é dela no meio do meu naufrágio, sussurrando nua Jhumpa Lahiri ao meu ouvido: Há momentos em que me assombro com cada quilômetro que viajei, cada refeição que fiz, cada pessoa que conheci, cada quarto em que dormi. Por comum que pareça, há momentos em que tudo fica além da minha imaginação... Esta é a verdade sobre os livros: eles permitem que você viaje sem mover seus pés. Tudo é vivo, transpira e geme... Até mais ver.

 

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domingo, novembro 07, 2021

YASMINA REZA, ALICIA DUJOVNE ORTIZ, SEAMUS HEANEY, ROQUE DALTON, ANA SANTIAGO & LANGLOIS

 

 

TRÍPTICO DQP – Trevas da noite no céu do dia & vice-versa... – Ao som da pianista austríaca Emma Schmidt, interpretando obras de Busoni, Alban Berg e Schoenberg no álbum 3 Piano Pieces (Naxxo, 2015). – Sempre tive a impressão de que sou o que escapuliu do vão de quatro paredes e pernas no meio destes atordoados dias. Desde quando seja lá o que for dos caminhos inventados pelas palavras, atento a cada instante, o voo. É como se todo dia fosse véspera de um cataclismo e nada desse por conta, porque um holocausto silencioso e nada suave em sua ameaça. Minhas lembranças são como retratantigos na fabulação livre e sei, cioso em toda parte me espalhei pelas ruas e túmulos, entre vivos e mortos – mais mortos que vivos, eram ou são, não sei -, corpestranhos que professam seus repúdios de nada, soterrados pelos desmandos e complôs. Quão vão tudo se parece e não exagero nem superestimo, muita confusão entre a tenacidade e a intolerância, ceticismo e rancor (e o meu nome escondido na boca dum sapo qualquer, disseram e me rio). Na verdade, mais um momento interrompido – para quem lia O elogio ao ócio (GMT, 2002), de Bertrand Russel: A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos... O trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime... Eu penso que o fato de se permitir que essas pessoas sejam ociosas não é nem de longe tão nocivo quanto o fato de se exigir dos assalariados que escolham entre o sobretrabalho e a privação... -, era um zunzunzum a tratar de Emma. Quem? Alguém apontou um saco cheio, logo ali abandonado. Aproximei-me e eram publicações, capas duras, brochuras. Logo deu pra ver o volume da Crônica de Lúcio Cardoso; e, ao remexer hesitante, entre outros, logo embaixo o Diário dele. De quem seria? Eram muitos. Mexer não devia, toda precaução. Alguém havia esquecido ali num canto alguns livros, ou jogado no lixo, parece – era prática que se tornou costumeira no país. Curioso, procurei por quem perguntar a posse daquilo. Ao invés disso, o que ouvi foi a respeito de Emma. De novo, quem? Saí acompanhando e constatei que não era a idolatrada ativista Goldman, nem a Bovary de Flaubert, era outra. Ora, quem? Era uma tal que se passava por Schmidt – só depois soubera, na verdade Anna Ecklund (1882-1941) -, que julgavam possuída por espírito maligno, ou coisa do gênero. Vôte! Disseram chamar por não sei quem, enquanto repetiam que era a Banga da Besta que reapareceu e havia endoidecido. De novo? Esse povo crédulo inventa cada coisa. Ah, como tudo anda tão confuso, de perder o fio. Aos sons e gemidos, apareceu-me a poeta argentina, Alicia Dujovne Ortiz: Quando a água / ferve / é / uma chuva calma que dura toda a / tarde mas / quando / o azeite é / frito / é / um aguaceiro violento no verão grandes / gotas quentes beijos de lábios que arrancam / os poros resposta de beijos grossos ou / gotas de pele e ouço / oh eu ouço a / tempestade das cebolas fritas o gemido da / carne na grelha e às vezes das xícaras sim / das xícaras que docemente choram / baixinho se eu as / encher de chá ai / meu Deus um ovo balança quando vou quebrá-lo meu cotovelo na mesa esmaga / parentes e aumento da / dor / pela minha casa pelos meus gestos uma voz conhecida / ! Devo dizer-lhe secretamente que, / na minha infância, mal / conseguia segurar uma / maçã viva / demais com minhas próprias mãos. Eu também, desde criança tudo me escapa entre os dedos, ou dissolve de nem me dar conta, até o sonho na perda da memória.

 


A vida não poupa ninguém... – Imagem: Cassandra implora vingança de Minerva contra Ajax, do pintor neoclássico francês Jerome-Martin Langlois (1779-1838) – Não demorou muito e mais adiante, novamente só no meio da loucura do trânsito inexorável, semáforos, frenagens, roncos de motores, zoadas sonoras, e lá estava mesmo era envolvido na trama do Deus da carnificina (Âyiné, 2021), da dramaturga francesa Yasmina Reza: crianças às agressões, os pais se envolvendo, incialmente, apaziguadores, até o escandaloso irascível de nenhuma conciliação: desaforos, sangue nas vestes, o risível e o patético, a ruína de gente e mundo. Para mim, ali a Loucura repulsiva, como se eu estivesse deveras nas cenas adaptadas por Polanski do teatro dela: aqueles que não se refazem ou não conseguem superar suas perdas e derrotas. Tento por todos os meios poupar a mãe dos salafrários e dos néscios, sobreviventes do genocídio como eu, quase impossível. Ou melhor, tal como Sobre nossa moral poética, do poeta salvadorenho Roque Dalton: Não confundir, somos poetas que escrevem / da clandestinidade em que vivemos / Não somos, pois, cômodos e impunes anônimos: / de frente estamos contra o inimigo / e cavalgamos muito perto dele, na mesma trilha. / E o sistema e os homens / que atacamos através de nossa poesia / com nossa vida lhes damos a oportunidade de que sejam cobrados / dia após dia. Sim, no fim é tudo muito tristalegre, confusainda, para quem já foi longalém: ainda sofro porque sei que tudo passa, nenhuma dor é maior que a esperança. Esta cidade é a minha – um hospício bizarro a céu aberto -, e algo me diz que ela não mais existe.

 


A mulher-biblioteca... – Imagens: Arte da artista Ana Santiago. - Desfiava então fiapos de sonhos e afazeres por trezentas vezes tantos dias de não deu ou deu não e extrema solidão. Porque a vida é o que vem depois de ser feliz na grama molhada com o cheiro de coisas agradáveis, até que enfim! E soletrava o nome de tudo que via, o mistério de cada ser e objetos. E a artista que soubera, repentinamente emergiu vigorosa e linda, como se me convidasse pelas dependências do seu ateliê. E fui, entrei e era tudo muito belo e ela me ofertou uma rosa e era o poema (para Marie) do poeta irlandês Seamus Heaney (1939-2013): Amor, aperfeiçoarei para você o menino / Que em meu cérebro com diligência manheira / Cava com pá pesada e faz com relva arrimo / Ou patinha no esterco de funda caleira. / Todo ano eu semeava o metro de jardim. / Com camadas de céspede o muro eu erguia / Para ter distantes galinhas e bacorim. / Todo ano, à entrada deles, o monte ruía. / Ou no lodo sugante eu chapinhava / Com gosto e representava fluidez da caleira, / Mas sempre meus bastiões de argila e vasa / Rompiam-se com a vinda da chuva-criadeira. / Amor, aperfeiçoe para mim este menino / De estreitos e imperfeitos limites quebrando ao léu: / Dentro em novos limites agora, ordene o domínio / E quadre o círculo: quatro paredes e um anel. Fiquei comovido e, ao mesmo tempo, surpreso: dos olhos dela os seus quadros e cerâmicas, cores e risos, e eu me deliciando de sua profusa arte no sorriso poético dos seios de versos e páginas que descobriam seu ventre e coxas e pernas e livros - na minha cabeça ela era bailarina estadunidense Trisha Brown (1936-2017) dançando nua para dinamitar meus pensamentos e emoções. E com a oferta de suas mãos livros emergiam e ela, a mulher-biblioteca, a me dispor do que jamais saberia de todas as coisas e me rendia em lê-la e tudo o mais, até detectar entre os volumes os 31 livros de poemas de Vital Corrêa de Araújo (entre eles, eu vi Revérberos do sal sublevado e Céu – estábulo de relâmpago), os 30 livros de Admmauro Gommes (entre eles Cláudio Veras e a alógica poesia de Vital Corrêa de Araújo e Vate Vital: aspectos da obra poética de Vital Corrêa de Araújo), e muitos outros que me ensinaram ser a vida uma pausa de ondas e luto pelos devires e nada mais restava a não ser inteiro na íntegra gratidão daquele momento. Até mais ver.

 

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domingo, outubro 31, 2021

PINTANDO NA PRAÇA, ALEJO CARPENTIER, JULIE MEHRETU, BILL MCKIBBEN & MATTHEW HERBERT

 

 

TRÍPTICO DQP – Acerto de contas... - Ao som do álbum Plat du jour (Accidental Records, 2005), do compositor britânico Matthew Herbert. – As incertezas todas e eu insistindo em ser feliz, como se ainda pudesse no meio dessa tragicomédia paradoxal, e se só restava uma esperança minada pelas lápides, arquivos e fotografias desbotadas. Apesar de tudo, persigo coração pulsante e partido porque carrego comigo o inferno dos outros em carne viva, o delírio de desembaraçar as linhas tênues de um passado perdido na memória. Se me dera a sorrir era porque ali estava Djuna Barnes insistentemente: O que é uma ruína senão o tempo diminuindo sua resistência? Corrupção é a Idade do Tempo. O insuportável é o início da curva da alegria. Um homem só é completo quando leva em consideração sua sombra e também a si mesmo - e o que é a sombra de um homem senão seu espanto ereto? O pior era ter de encarar T. S. Eliot me cuspir na cara o sarcasmo: O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro. O que dissesse ou fizesse depois disso, não adiantava, era como se Arthur Miller me jogasse para protagonizar After the fall (Depois da queda, 1964) e me restasse ecoando: Não posso chorar nem por minha própria mãe... Não sei como sofrer, ao que parece... Deus, por que será a traição a única verdade que se agarra à gente! Tive que acender todas as luzes para não sucumbir inteiro no obscurecimento geral. No meio da minha louca sofreguidão, a surpresa com a emergência radiante de Maria Della Costa, como se fosse a Marilyn Monroe nua de todos os sonhos impossíveis, me trazer de novo, depois da entrega, o que olvidara do escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980): Os mundos novos tem de ser vividos, mais do que explicados. Aqueles que aqui vivem não o fazem por convicção intelectual; acreditam simplesmente que a vida suportável é está e não a outra. Não havia como evitar, era o acerto de contas com todos os meus equívocos edulcorados na incerteza e nada se acabava porque era a verdade que inventei.

 


Todos no mesmo barco... - Imagem: arte da artista etíope Julie Mehretu. - A solidão é o meu refúgio e sei que nunca estarei só, mesmo que tudo se pareça inconsolável. Não sei se ainda posso me salvar da asfixia do tempo, ou se já defuntei e sirvo apenas da lembrança do que vivi. Às vezes duvido, sobretudo ao ouvir o trecho severo do jornalista ambiental estadunidense, Bill McKibben, no The end of nature (Random House, 2014): Embora durante décadas a civilização tenha pilhado e poluído a Terra, no passado esse ataque era relativamente localizados; nos dias atuais, com as mudanças globais causadas pelos gases-estufa e a depleção de ozônio, o homem alterou a maioria dos processos de vida em toda a parte, e o mundo ao ar livre, a natureza em si mesma, tem se tornado o equivalente a uma enorme sala aquecida... Sim, um calor enorme, invencível, irrespirável. A ponto de me pegar a casa incendiada e salvei o fogo de Cocteau. Era o que deveria ter sido feito porque sempre disse sim! Como se conjugasse o verbo de Raymond Queneau: Eu sim, nós gozamos... eles sinzam. E reiterei tal como e.e.cummings: Sim é o mundo. E mesmo que o patético da agonia me mostrasse tantas benemerências escondendo a hipocrisia e que havia mais que um estrondo e tantos suspiros - quanta contrafação nos capítulos teratológicos do presente degenerado, seria preciso dar um basta na cafajestice, tudo é demais em torpezas, sordidez e anestesiados. Sim e assumi o passado porque o presente nunca será impune e o sonho nunca existiu: os testemunhos da solidão. Enfim, estamos todos no mesmo barco.

 


Cant&pintando na praça... - Desta vez não cantamos, mas estávamos lá, eu&Ripe&Linaldo solidários de sempre, como se cochichássemos a nossa Nênia. Desde a minha primeira em 2017, como de costume, o sábado estava lindo! E que ninguém nos ouça mesmo, porque tão lindo estava para a maravilha que não foi pouca, porque coroada pelos alunos da SEMED, inquietos e a postos: traços, tintas & moldes – do papel à tela, mãos à massa! Chega dava vontade de traquinar entre eles! Parecia: ensino, pesquisa & extensão! Tomara, coisa tão boa de ver! Aproveitamos, então, tudo no meio do movimento de curiosos e arteiros, a bela Secretária desfilando um cortejo e enchendo os olhos de uma vontade louca de teimar, o Profeta era a Nalva num sorriso só, enquanto Alexandre Freitas sapecava pinceladas ensinando o que é do talento, Isaac Vieira a cometer belezas na manhã que entardecia mais colorida, Rute Costa com seu tapete de leituras e simpatias para alegria de olhares perdidos, Epifânio trazia recados das suas artesanias, Tylla de Jahfari cantava no meu coração pro Erick Nelson solar tantos tons ao meu ouvido & eu testemunhava ainda ali o Poema vivo de Admmauro Gommes que a Poesia lhe dera. Tudo parecia como se fosse um primeiro passo para a práxis da Ação Cultural para a Liberdade, numa das homenagens tácitas ao saudosíssimo centenário Paulo Freire. Ali eu sabia: na praça central a minha cidade renascia. Até mais ver.

 

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domingo, outubro 24, 2021

LEYLA PERRONE-MOISÉS, ABDULRAZAK GURNAH, GAVIN BRYARS, HELENO ALFONSO & ROGEL SAMUEL

 

 

TRÍPTICO DQP – Entre as mutamorfoses e obsolescência... Ao som do album The Fifth Century (ECM, 2016), do compositor ingles Gavin Bryars, com o coral The Crossing & quarteto de saxofones PRISM, condução de Donald Nally. - Onde estou e pronde voo nenhuma liga, o tempo assina outra, como se minhas digitais dissolvessem a cada instante e desexistisse de vez no caos. Quase dou fé de que inexisto mesmo e tudo não passasse de um sonho por outro sonhado. Assim lá vou eu nas experiências alucinatórias do que se pode entender por mundo contemporâneo: o volátil, o volúvel, a interdição, os simulacros, o terror incógnito, consumo e descarte, os equívocos e segredos recônditos, as distorções e os mal-entendidos de mortos-vivos, os pós-o-quê com todos os pós-ismos tudo ou quase tudo só artifício. Meio atordoado no meio disso tudo, eis que o escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah alerta ao meu ouvido: Foi assim que pessoas como você e eu conhecemos tanto do mundo: lendo sobre isso de pessoas que nos desprezavam... Às vezes, acho que meu destino é viver nos escombros e na confusão de casas desmoronadas. Concordei com o dito e sua presença, ali mesmo era como se eu estivesse metido em carne viva na real Das Leben auf der Praça Roosevelt, da Dea Loher, e me sentisse em casa no reduto miserável das Marias e o mudo Mundo cantarolando Oh! Vos omnis quitransits per viauatendite; atenditeet videte teunsi est dolorsieut dolor meo, e isso depois de muito presenciar acasalamentos de extraterrestres com as insones transeuntes tontas e a loucura de gente que vive só com a roupa do corpo, no meio dos gestos de Aurora provocando desafios a Bingo, enquanto a mãe amargurada com seu choro insistente pelo policial em coma e a memória do filho morto batendo no submundo a denunciar ali não haver vida, nunca foi, qualquer outra coisa que fagulha no meu peito de indignação. E me veio o professor beninense Olabiyi Babalola Yai para cochichar no desalento da minha dor: Os homens são mais eles mesmos quando vivem plenamente suas culturas próprias e são consequentemente capazes de melhor conhecer e viver as dos outros. E naquele estado em que estava jamais poderia concordar com isso, mas o poeta Rogel Samuel me recitou: todo amor é assim, plágio / cópia de cópia de si, no mesmo / sim na sua visibilidade... Quanto mais eu relutava só ouvia a escritora argentina Beatriz Sarlo quase berrando ao meu ouvido: Tem um momento de coincidência entre o que você necessita e o que a vida lhe oferece. Você tem que estar acordado para agarrar essa chance. A coragem aparece quando não há mais solução. Acredito que o crime é igualmente horrível, sejam 10 ou 30 mil... Tento ficar a par de tudo que ocorre no presente - para alguns apenas o futuro do pretérito; outros, só o passado mesmo e de novo -, e posso dizer umas duas ou três coisas outras, não mais que isso, que no meio das mutamorfoses e a obsolescência já sei que não basta apenas dar enter, porque tantos delírios pseudo-intelectuais com suas masturbações e impulsos neognósticos sobrando entre anoréxicos e voyeuristas, craquers, hackers e biomakers na boa, extremófilos e intimistas surfando comigo de mãos dadas com todo mundo pela sci-art e o nano-mundo, atravessando o universo escuro e a extremofilia, teratologias biotecknicas, contatos em níveis nanométricos, territórios do perigo e conflitos, afora polimórficas possibilidades, eita! Ufa! Sei e todos estão carecas de saber que a Terra é redonda e insistem em cagar pelos quatro cantos do mundo. Não sei pra quê tanta lei, apensar da compulsoriedade jamais será cumprida. Por isso chamo de gato ao gato e ao governante de patife, porque estamos na primavera de Ginsberg pelo mote recolhido por Paulo Cavalcante no arremate: De circunlóquios eu nada sei. O caso conto, como o caso foi. Na minha frase de dura lei, o ladrão é ladrão, o boi é boi. E ponto final. Ou melhor, reticências...

 


Pássaro preto, traquinagens da infância... - Imagem: Kein Nachwuchs fir den Champion oder Der Junge der New Jersey erschoB VON Israel Horowitz, in Hörspielle im Westdeustschen Rundfunk 2, Halbjahr 1987. - Era eu apenas um menino da beira do rio, travesso solto na buraqueira, proutras paragens eu ia a me divertir levantando as saias das moças, ou me deitando no chão para ver-lhes as intimidades das calcinhas estufadas, quando não brechando sua nudez pelas fechaduras do quarto ou do banheiro, afora futucar com tudo que me aparecesse pela frente. E meu pai ocupado com as gaiolas da coleção e, entre elas, a da sua estimação: a graúna, o brilho sedoso de sua plumagem negra. Desde que a vi pela primeira vez, sonhei que era a morte, o corvo de Poe que, de repente, se tornara penas brilhantes e com o poder mágico, a me prometer antevisões do futuro, a me aconselhar com orientações para fazer isso ou aquilo e era só sonho. Não só, mesmo. Ao amanhecer, de soslaio, mantinha distância dela, queria aproximação nenhuma. E de tanto temê-la, um dia a soltei aproveitando o descuido paterno. Ela voou longe na fuga, mas retornou e me caçou, pegou-me pelo bico e voamos com a suíte L'Oiseau de feu (1919) de Stravinsky. Foi uma grande viagem e me largou longe, no pico de uma montanha que se transformou num palácio abandonado. Depois, deu-me uma chave para que abrisse a primeira porta: cavalos para minha diversão. Outra chave e no quarto, arreios e selins. Outras mais a cada dia, eram sete: e moças ousadas e sedutoras, mulatinhas safadas a me dengar e eu aos regalos no meio de espadas - Para quê tantas? -, um rio de prata e um rio de ouro. Só não sabia, depois de tudo, do castigo: a graúna vingativa tirou-me a roupa, largou-me no deserto e deu-me uma varinha de condão. Errei sozinho e uma princesa à beira do fogo parecia me esperar, não sabia, mas o pai dela adoeceu e para sua cura só três pássaros de plumas. Usei da varinha: os três pássaros foram encontrados e trazidos a ele que logo se restabeleceu, dando uma festa de três dias, nos quais findei nos braços dela que se deleitava como se fosse a demi-mondaine Méry Laurent – aquela mesma atriz nua Vênus Anadyomene do Théâtre des Variétés, e que fora antes Anne ou Rose ou Suzanne ou mesmo Louviot e que a mãe havia vendido sua virgindade debutante para Canorbert por 500 francos ao mês, afora amantes outros ricaços e da vanguarda francesa, até tornar-se musa da minha paixão Mallarmé no quadro de Manet e Nana de Zola. De repente adúlteros flagrados na noite por minha filha Genevieve, não sabíamos o que fazer, mãos e sexo na botija, completamente desnorteado porque ela se transformara noutra pessoa e o escritor estadunidense Roger Shattuck (1923-2005), me falou de seu Conhecimento proibido (Companhia das Letras, 1998) para me contar que ela era apenas uma senhora vitoriana – na verdade e para meu espanto era a mula sem cabeça -, e relutava agora contra a teoria de Darwin: Descender de macacos! Meu caro, esperamos que não seja verdade, mas se for, rezemos para que não se fique sabendo!... Não era mais aquela, nunca foi, só pode ser outra. E mais insistia na sua Planolândia, como uma senhora de bem, patriota roxa e acima de todos e quaisquer pecados ou suspeitas, e eu fisgado pela veemência de seus seios fartos no desatento desabotoado de sua blusa justa colada naquela excelsa arquitetura de fêmea e a libido acesa e incontrolável com o lascão da saia exaltando suas coxas volumosas e eu clamando pelo amor de Deus para ela se acalmar e poder reconduzi-la à alcova.

 


Apenas escrevo... Imagem: Comovida medida de distância (1988), da videoartista palestina, Mona Hatoum. - Onde estive já não faz o menor sentido, embora não haja como apagar porque o caos piorou o mundo e persistem as cavilações de nem sei quem, talvez de mim mesmo, outros são os motivos e ignoro por completa ausência de significado. Disparo intuições, uma das pernas dos óculos se quebrou e eu precisava ler e reler, agora apenas esperar com os trechos de um poema do livro Oropa França e Bahia (Edizioni della Meridiana, 2004), do poeta Heleno Alfonso Oliveira (1941-1995) na memória : É ser e remar / Na mesma zoada / Na onda arrastada / Do mar sem raiz. / E Deus não se rima / Bem perto ressoa / Ao centro da alma / Perdida e à toa / Enquanto me vejo / Cantando Marina / Cantando Pessoa / Bem fora do templo... E pelos lapsos do esquecimento, o poema suspenso, só conseguia me lembrar doutra parte: Sem um amparo / Sigo a Sophia. ; Luz de Apolo / Dança de Baco? E uma voz feminina com todo seu perfume aprazível invadiu o ambiente. Quem era? Só muito depois pude ver, era a escritora Leyla Perrone-Moisés: A literatura nasce da literatura. Cada obra nova é continuação, por consentimento ou contestação, das obras anteriores. Escrever é, pois, dialogar com a literatura anterior e com a contemporânea... A função revolucionária da literatura não consiste em emitir mensagens revolucionárias, mas em levantar uma dúvida radical sobre o determinismo da história. E mais me falou d’ As Sombras de Olinda (Caminho, 1997), do Clarindo, Clarindo (1990) e do póstumo Se era vera la notte (2003), daquele que um dia dissera: Florença é uma manhã de dezembro / onde cheguei gritando do meu Hades. E já outra, quase irreconhecível camaleoa que sequer adivinhava o nome e propósitos, mas que se fizera mais que felicíssima amante, a me premiar o que da vida mais apetece na festa do seu corpo. Até mais ver.

 

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domingo, outubro 17, 2021

DONNA HARAWAY, CHUCK PALAHNIUK, SAMUEL BARBER & JACI BEZERRA

 

 

TRÍPTICO DQP – O desloucamento na perseguição dos rastros... - Ao som Adagio for Strings, Op. 11 (Sony Music, 1997), do compositor estadunidense Samuel Barber (1910-1981), na interpretação de Leonard Bernstein & The New York Philharmonic – Não sei se vou já ou quando; não é de hoje testemunhar o desassossego geral. O que fazer? Ouvi alguém motejar no escuro e, no esforço de identificá-lo, era o filósofo inglês Alfred Whitehead (1861-1947): A inocente pergunta é a primeira aproximação de um desenvolvimento totalmente novo. Só o reconheci após demorada investigação, pouco o havia visto e até me confundi: era como se fosse Robbe-Grillet debulhando: O tempo de nossas paixões, de nossa vida. Posição nada confortável a minha, era como se estivesse rente ao intangível e entrelugares, o sinuoso e o indistinto. Mas, se valia a pena, não sei, apenas acreditei que sim, apesar de tudo embutido por sete chaves e o descontrole da visceral hostilidade. Eu sei. E mesmo assim, nem deu tempo de me sentir rejeitado por quem quer que fosse, sei que são complacentes além dos meus méritos. Mantenho buliçoso pelos palimpsestos, é líquido e certo: uma vez tupiniquim e nunca mais. Conecto a vida e reconfiguro o quanto posso: tudo é muito débil e indecidivelmente tão frequente quanto impositivo, por isso mesmo o existexperimental, ou experexistencial, tanto faz, porque a gargalhada de Derrida traduzia as aporias e, por conta disso, tomei a decisão perturbadora de encarar o Corpo sem órgãos de Artaud: Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno. Inquieto, também me empenho pela verdadeira e imortal liberdade, e a me reinventar, apesar de atolado nos meus pântanos insuportáveis. Resisto e, diante da América cruel, sou meu próprio laboratório, um atleta afetivo de Grotowski. Ao descentrar sem nenhuma margem, expus minha carne e todas as minhas entranhas, porque o rito peyote dos Tarahuramas me ensinou que só há sentido na Natureza. Perseguir o desloucamento era o mesmo que ter de repisar rastros entre o temor e a imprudência, só assim a promessa da despossessão do juízo. Foi exatamente o que me trouxe, de chofre, o exercício de experimentação insólita expressa por Deleuze & Guattari: Tudo está sobre este corpo incriado, como piolhos na juba do leão. Assim, diante das interrogações do Anti-Édipo e dos Mil Platôs, a risada do escritor estadunidense Chuck Palahniuk quebrou a monotonia: As coisas que você possui acabam por possui-lo. Só depois de perder tudo é que você é livre para fazer qualquer coisa. Você não entende nada e, depois, simplesmente morre. Tenha suas aventuras, cometa seus erros e escolha mal seus amigos - tudo isso cria ótimas histórias. Liberdade é perder toda a esperança… Você olha para uma estrela e desaparece dentro dela. Aos seus olhos tudo me parecia como se o aventado catapultasse o que sabia até então. Não me dei ao vazio, pelo contrário: ainda resta viver. Melhor contar outra história.

 


Corpo que vibra... - Imagem Adansônia III (1977-78), da artista visual, fotógrafa e professora Mara Alvares. - Salomé era bonitona do seu jeito e quando queria, só. Quando não estava escondida e abatumada com suas agruras existenciais, desfilava altiva sua alegria pujante, como se fosse aquela fascinante filósofa Lou ou qualquer atriz do palco de Oscar Wilde. Os de casa, claro, tratavam-na por duas caras; os de fora cobiçavam os seus giros esvoaçantes da atriz Aída Gomez nas cenas de Saura, enchendo as ruas e calçadas com suas pernas de Rita Hayworth, tão bela como nunca da sensualidade daquela retratada por Pierre Bonnaud, ou acendendo a imaginação dos atrevidos ao cantarolar no banho com sua nudez encantadora da soprano alemã Nicola Beller Carbone ou de Karita Mattila nos tons operísticos de Richard Straus. As más línguas nomeavam-na de moicheia e se vangloriaram vingativas ao sabê-la tomada por um tal Índio que nem era nem parecia, só apelidado e que lhe deixou seviciada aos prantos. Diante de sua fraqueza, o Doro, aquele mesmo colecionador de tampas de todos os tipos de garrafas e garrafões, o mesmo que é PhD em porra nenhuma, ao vê-la sucumbir à depressão, adiantou-se: Por essa eu perco a cabeça. E foi. Procurou maliciosamente agasalhá-la. Não sem jeito, tentou de tudo e, depois de tanto pelejar, quase desistindo, resolveu dar uma de Diderot, o que foi um santo remédio: curou-a com a leitura de livros pornográficos. Lá estava ela radiante às voltas com lalarilarás, só se abatendo diante da notícia de emboscada do seu algoz que foi encontrado crivado de balas, enfiado de cabeça pra baixo num buraco fundo do matagal e completamente desfigurado. Não que ela escondesse paixão ou quisesse vingança, não; era dela doer assim nela a dor dos outros, a ponto de deitar a cabeça aos ombros do amigo recém-encontrado. No começo, uma belezura; com o passar do tempo, verdadeiro tormento, dele cantar para si como o sapo desastrado: Léu, léu, léu, se eu desta escapar, nunca mais festa no céu! Quem passava por eles logo dizia: Tome, bem empregado!

 


Tropeços pelos paradoxos... - Imagem: Untitled (Mylar and hot glue, dimensions variable – 2011), da escultora estadunidense Tara Donovam. - As dores dela ecoou em mim, a ponto de sozinho, meu violão de nenhuma plateia, dedilhei sua soturnidade. Restei-me abatido. Sim, porque sempre me arrisquei entre o fértil e o estéril: o que há de incondicional no meio disso tudo, me levou constantemente a reformular tempespaço. Sei de mim coadjuvante apenas, embora protagonize o gesto da desconstrução a decompor dissimulações e dispersões outras dos trópicos: não sei se vale o quanto pesa as desdobradas. Ainda há pouco outro estampido seco e o sangue escorreu de alguém que se foi. Aqui fiquei onde era um poema do saudosamigo Jaci Bezerra, Tatuagem na água: No Recife me perco e me inauguro / pisando acácias e águas machucadas, / no bolso o sol ferido, um sol maduro / escorre, úmido, e acende a madrugada. / Uma árvore brota no meu peito impuro / acalentando a infância que, abismada, / brinca dentro de mim e dói no escuro / sempre por um menino acompanhada. / Nunca a essa cidade fui perjuro / nem nunca a reneguei, talvez por isso / ela me planta e aninha entre os seus muros, / e eu carrego em mim, arrebatado, / apodrecendo nos mangues dos seus vícios / e amando como se nunca houvesse amado. Foi aí que musiquei cantante A lavra da vida e aprendi o canto com a pedra de mó ouradarada para não dividir a vida e dá-la à pedra morta, enquanto ele rascunhava prefácio para A intromissão do meu verso púbere. Ao findar o canto, era a dor dela que ficara e levantei as vistas para presenciar a filósofa estadunidense Donna Haraway com sua acolhida: A vida é uma janela de vulnerabilidades. Ali me dei ao dia no que se fez noite. Ainda sorria mesmo me sentindo à beira do precipício. Sabia: não há felicidade possível neste momento. Só que ao lado dela, a bela Lucia Santaella solidária: Dilatada nessas extensões, é a própria sensibilidade do corpo humano que parece estar passando por uma mudança radical de escala, constituindo-se numa nova dimensão que extrapola a concepção e imagem que tínhamos de nós mesmos como humanos... E ao dito dela era como se eu voltasse ao ciclo do eterno retorno: a vida não para. Se eu me soubesse Fellini diria eu ser um grande mentiroso. Mas não, estava bem aconchegado entre elas, feliz nos livros que li, músicas que ouvi e me deixe levar, afinal: o provisório se eterniza e o compulsório vira pó. Até mais ver.

 

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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...