Ao som do álbum Avant l’Aube (Timespan Recordings, 2022), da violonista italiana Cristina
Galietto.
Reduto da migração... - À beira do rio vagava gente: a dança do imprevisível noitedia. Uns desafinavam
descompassos; outros, valsavam torvelinhos intérminos. Prestativo, desde menino,
Zé Calunga por ali - não tinha instrução, mas tirocínio. E ajudava quem
chegasse pro embarque, avisava o horário da travessia do caudal ou da condução pela
rodagem. Para isso ajeitava tamborete em troca de moedas ou do que dispusessem,
evitando quem arrastasse as malas e perdesse a viagem das águas ou dos caminhos.
Oxe! Perdeu a hora? Ora, ora. Captava bigus para desprovidos, carregava malas
dos precisados, levava recados distantes, conduzia enfermos às emergências, servia
de moletas pros pernetas e guia para cegos, ensinava destinos, dava a direção
aos perdidos, servia de companhia para desencontrados, dava jeito em tudo que
desafiasse resolução. Será o absurdo? Mas, tá! Assim cresceu enquanto as
pessoas surgiam como coisas inventadas na hora: iam e vinham aos borbotões,
migravam como lagartixas tontas fugitivas de suas incógnitas inexatidões. Eita,
lasqueira! Motivo do alvoroço? Havia guerra remexendo os restos das ninharias,
aos ensurdecedores pipocos: o mundo enorme se apequenava, todos proutras
paragens na outra margem. E já! Deu o créu! Maior vexame! Foi assim que ganhou
a simpatia do jangadeiro Caronte, que ia de Alagoinhanduba pelo Una, para
alcançar Opará, Estige, Aqueronte, até o abismo profundo do Tártaro, nos
confins do mundo. O navegante cobrava uma dânaca pelo traslado, bastava pagar
ao seu vigilante escudeiro, o cachorro Cérbero, que as guardava permitindo acesso.
Quando não, virava um feroz demônio do poço, acaso alguém contrariasse seu dono:
com raiva tornava-se tricéfalo, fogo saindo pelo pescoço com serpentes
cuspidoras e cauda de dragão. Que desgraceira é essa? Até comia gente: era uma
vez Pirítoo. Valha-me! Era tratado na mão firme do dono, bastava jogar um bolo
de farinha e logo se aquietava manso – o curioso era que o cão dormia com olhos
abertos e andava de olhos fechados, ô danado, no geral era uma criatura
adorável, fazendo festa balançando o rabo pra quem chegasse. Havia outra
possibilidade: Lá vem Tua Mãe Bigoduda! Ela vai até o fim do mundo? Ora, se! E
o cata-corno do severo Maalik, cara fechada de quem nunca sorriu, entupido até
o tampo levava dessa pra melhor, ou do ruim pro pior, quem sabe, estradafora,
todos que vinham das redondezas e dali queriam sair às pressas. E eram muitos
os viajantes: Dioniso procurava por sua mãe Sêmele, Psiquê atrás do Asno de
Ouro de Apuleio; Orfeu buscando por Eurídice que foi
picada por uma cobra; Enéas ansiando pelo reencontro do pai, Ulisses segurava Tirésias
para voltar pra casa na Odisseia de Homero; Rimbaud à cata de
toda vidência poética; Otto
escapando da Noite dos Cristais dos nazistas pelas páginas de Boschwitz; os passageiros de Agualusa, os seguidores da Katábasis de Kuang e
espiões do bode verde da ISI paquistanesa. Ufa! Ainda havia Pedro, o porteiro
do paraíso, inviabilizando aquela entrada: ou correnteza redemoinhada, ou os catabís
das trilhas pelo itinerário aos pés dos morros, mais nada. E enchia a pança
obesa com a farofada, mangando da magreza de Calunga: Pronto! O diabo foi pro
céu! Que foi? Ivan Karamazov devolveu o bilhete: Não há retorno, só os
despojos do Ozymandias de Shelley, crianças empaladas e um maltrapilho
Jesus condenado pelo vazio de todos os crucificados pelo livre-arbítrio e pelas
múltiplas opções consumistas do paradoxo da escolha de Schwartz, o Se questo
è un uomo de Primo Levi. Num diga! A coisa piorou quando Héracles
saltou da jangada trazendo Teseu e queria levar Cérbero para Euristeu. Aí não! Como
assim? Conversa vai, toma lá, dá cá, desavenças - cada qual sua catábase.
Quem apartou a briga e acordou tudo no tom apaziguador foi Maalik, que deu uma
freada de levantar poeira e desceu com os Zabaniyah que todo dia eram levados pra
Jahannam. E como passava por muitas entradas, levava mais quem quisesse. Entre eles,
o profeta Muhammad que ia pra Meca pegar o Buraq pra Isra e ser guiado por
Gabriel até chegar em Masjid al-Aqsa e ascender para Mi’rai, também interveio
engrossando o buruçu, ampliando o deixa disso que, finalmente, chegou a bom
termo: resolvido, tudo certo. Foi no meio disso e de muitas outras, que Zé
Calunga foi tomando jeito: tornou-se cobrador, vendedor de passagens, recebia e
entregava encomendas, passava o pule do jogo do bicho pros apostadores, fazia
triagens e dava norte pras coisas, atendendo avexados párias, imigrantes,
exilados, nômades, refugiados, estrangeiros, metecos, degredados, expatriados,
proscritos, banidos; os que queriam visitar
os Moais de Rapa Nui, os que iam brincar na flora alienígena da Ilha de Socotra
do Iêmen, outros que iam ver as cores do Fly Gleyser, os que desejavam virar
estátua no Lago Natron da Tanzânia, ou iam pro deserto do Salar de Uyuni, ou mesmo pra Ilha Sentinela do Norte, ou bisbilhotar os arquivos secretos do
Vaticano, os gigantescos geoglifos das linhas de Nazca; as cidades fantasmas de
Chernobyl e Priapyat, as ruínas apocalípticas da Ilha Hashima, a fantasmagoria da colina de Craco, a submersa Kolmanskop
no deserto da Namíbia, a ruina das pedras de Kayaköy, as labaredas eternas de
Centralia, as bonecas velhas de Xochimilco, os ossos da capela de Évora; o
suicídio na floresta Aokigahara, as assombrações noturnas do Bhangarh Fort, o Triângulo das Bermudas e lá vai teibei! E havia até quem queria ir pro
fervedouro do Jalapão e os cânions de Cambará do Sul, pra Serra da Capivara, pros
Lençóis Maranhenses, pro portal da Serra do Roncador, pra solidão do abandono
de Fordlândia, pra vila ferroviária de Paranapiacaba, pra
Ilha das Cobras da Queimada Grande, ou mesmo pra Planolândia! Eita,
coisa medonha! Desde que ficasse longe dali! Danou-se tudo! E tinham os que procuravam pelo porteiro de Jackson Ribeiro, os que queriam ir pela Les Portes de l'Enfer de Rodin, os que
passaram pela agonia do passageiro Lúcio Flávio – apareceu
até o porteiro Maximiliam na noite de Liliana Cavani à procura da
sobrevivente Lucia
Atherton, afora os desejosos pela descida de Ishtar
ou do descensus ad inferos de Oyá e o escambau. Quem é doido de esperar
por tempo ruim? Pé na bunda! O certo era que os que iam nunca voltavam,
pareciam mais que desapareciam na neblina da noite de Resnais. Ou
raramente, retorno minguado, gente estranha sem saudade, mulheres esquisitas,
homens sombrios - cada qual sua sordidez. E ele desde menino insone testemunhava
a emigração e recreava, às horas vagas que eram brevíssimas, catando mensagens
no fundo das tantas garrafas jogadas e assim entretinha de nem se dar conta que
o tempo passou e nele se foi. Até mais ver.
Anne Lamott: A idade me deu o presente de mim mesma; me deu o que eu sempre desejei, que era me tornar a mulher que sempre sonhei ser. Alguém que sabe descansar, trabalhar duro e ser uma companheira constante, uma esposa carinhosa e dedicada a mim mesma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Jennifer
Esposito: Às vezes, tudo
precisa explodir para ser reconstruído... Se você não apostar em si mesmo, quem
diabos vai apostar em você?... Me dê civilização. Não quero ser mimada... Veja mais aqui & aqui.
Shiori Teshirogi: Minhas
oscilações de humor eram praticamente insuportáveis para todos ao meu redor.
Peço desculpas porque foi um período muito difícil da minha vida... Veja mais aqui.
O TOQUE
Imagem: Acervo ArtLAM.
da sua mão no meu \ seio traz pequenas
agulhadas e \ primeiro deixo cair uma gota, depois outra, e \ então, quando
estou sentada em você, sobre você, \ o fluxo é constante e o leite está por
toda parte. \ Acho que não é bem um desperdício, porque \ sempre tem mais, mas
eu te ressinto um pouco porque \ não é seu e você acha engraçado, e \ acho que
é mesmo, e eu só preciso deixar ir. \ Você checa se eu tenho dentes lá embaixo
e \ se consegue passar para o outro lado. \ Você acha que eu sou uma deusa e \ as
crianças nos separam, eu na terra, você \ no ar, ou será o contrário? E \ nossas
pontas dos dedos mal conseguem se tocar e eu choro em você, \ ou você chora em
mim? \ As crianças me pisoteiam, ou \ é você? \ Vale, colinas, rios e cavernas.
Poema da poeta neozelandesa Helen Heath.
QUEM NÃO GOSTARIA?
- [...] Assim, cada um tinha seu
mérito, e méritos são muito difíceis de dividir. [...] Criado para
encobrir uma dor ou resolvê-la para sempre. [...] Você nunca imagina que
aquilo que deixa para trás se transforma. No exílio, os conhecidos não
envelhecem, as casas não se deterioram, as árvores não crescem. [...].
Trechos extraídos da obra Quién no (Alfaguara, 2019),
da escritora, roteirista e dramaturga argentina Claudia Piñeiro. Veja mais aqui.
LIÇÕES ATIVISTAS - Quando há um
conflito, significa que existem verdades que precisam ser abordadas por ambos
os lados. E quando há um conflito, o processo de resolvê-lo é educativo. Para
isso, é preciso envolver as pessoas de ambos os lados para que possam
dialogar... Cada momento é uma oportunidade de organização, cada pessoa um
ativista em potencial, cada minuto uma chance de mudar o mundo... Se as pessoas
não votarem, tudo continua igual. Você pode protestar até o céu ficar amarelo
ou a lua ficar azul, e nada vai mudar se você não votar... Pensamento da
ativista estadunidense Dolores Huerta (Dolores Clara Fernández Huerta),
ex-líder sindical cofundadora da Associação Nacional de Camponeses, que mais
tarde se juntou ao Sindicato Geral de Camponeses (United Farm Workers), atuando
na defesa dos direitos dos trabalhadores, dos imigrantes e das mulheres. Veja
mais aqui, aqui & aqui.
A ARTE DE JOÃO PERNAMBUCO
Livro João Pernambuco – clássicas e
inéditas (Legato, 2022),
álbum de partituras reunindo a obra de João Pernambuco (João Teixeira
Guimarães - 1883-1947), pesquisa e texto de Jorge Mello, prefácio de Flávia
Prando e curadoria de Celso Faria. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.
Álvaro Lins aqui.
Renata Santana
aqui.
João Câmara aqui, aqui, aqui, aqui, aqui
& aqui.
Zabé da Loca aqui.
Fábio Xavier aqui.
Maria Oliveira aqui.
Adelmo Arcoverde aqui, aqui & aqui.
Daniel Aragão
aqui.
Marilourdes Ferraz
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