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domingo, março 29, 2026

NORA NADJARIAN, LAUREN WEISBERGER, CAROLINE DEAN, MAGDALE ALVES & CARMEN CAMUSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do álbum The Changing Sky (2025), da violonista e premiada compositora britânica Laura Snowden.

 


Hestorinha da cantoria de passarinho... Não havia tempo ruim para Fulô – Florilândio de batismo e papel passado. Foi assobiando escorreito a revelação do seu talento canoro: sacou dum apito, despertava sua curiosa habilidade. – Simbora no arrasta-pé! Triunfou ajeitando meticulosamente uma folha de papel enrolada jeitosamente num pente, aos assopros de predileto repertório musical das paradas de sucesso, parampampã! - Isso é bom, doido! Segura o trupé! Arroxa baião! De um pífano, um botão de rosa pra paquera timorata: ganhou dela um gracioso sim, sem precisar sequer falar namoro pra ela. Duma corneta, um ramo de lírio branco pra mãe dele: era o dia dela, regozijada. E era sempre cedo na hora pra ele que ia ladeira acima, morro abaixo, no embalo chistoso. - Olha o forró, gente! Tornou-se assim corneteiro, dando as horas certas, convocando o povo pras cerimônias viandeiras, alertando pirraças ou maracutaias, chamando atenção pra isso ou aquilo, com toda sua alacridade. – É hora do xaxado, vambora! Das lições de Zé da Justa foi expulso e reprovado. Procurou outro: Cadê o maestro? O canto mais limpo: queimou as pestanas aprendendo sozinho cifras e partituras, solava desajustado. Por onde ia o mato brotava no chão esturricado, árvores floriam, relva no meio do asfalto, o sertão virava rio e dava pro mar: entrava de sola na vida de músico meio-lá-pra-cá e nos arranjos florais ineivados de plantão, puxando da flauta de Pã, Orfeu das mundividências, qual flautista de Hamelin. Foi buscar emprego na famigerada banda de Mané de Preto, findou quase tição eletrocutado. Levou um toque da vaca dos Assassinos do Frevo. – Ih, fui limado! Esgueirou-se pros Bitus, ajeitou-se Sibito entre rebitos e outros priquitos – Aí, me dei bem! Aprendeu a remexer os quadris com Dermeval, animando o dançado dos fantasmas da biblioteca. – O galope só é bom quando é à beira-mar! Aí, duma flauta doce, uma flor de Quipá; da gaita, uma Estrela da terra; da ocarina, Maracujá do mato; do uruá, uma Rainha do abismo; do berrante, uma Chanana; dum didjeridu, um molho de Erva fantasma; do clarinete, um maço de Planta queijo; do saxofone, um feixe de Boca de leão d’água; do fagote, um galho de Íris da praia; do trompete, um tufo de Enxerto de passarinho; do trombone, uma braçada de Alface d'água; da trompa, um cacho de Rabo de tatu; do oboé, um arranjo de Bredo-da-praia; da tuba, uma Coroa-de-frade-da-praia; e assim distribuía coroas, buquês, guirlandas, grinaldas, ramalhetes, florilégios, até um tussie-mussie de orquídeas, de pequis, cambarás, mangabas, vincas, salsa-da-praia, paqueviras, helicônias, parasitas, antúrios, alpínias, sorvetões e capim-agulha! Era flor na lapela, flores nos penteados, nos decotes, penduradas nas orelhas, ornando espalhafatosas e embecados. Assim, caía de boca desde os toques da alvorada logo cedo e os de se recolher tarde da noite: o Sol sorria, a Lua se exaltava enamorada, a Natureza em festa e o impossível de estrepitoso festejo abanando o calorão, diante das caras carrancudas que carpiam suas dores e flagelos, zoando acenos, vapores de saracoteados, cantoria de passarinho, coral da bicharada. - Houvesse hoje e onde se sacudia ao andar -, trazia chuvada boa, juntava separados, afáveis e enfadonhos. Desdantavante frevava e a cada batida de tom esqueletos saracoteavam e sacudiam seus anjos-da-guarda. Ele só regência no meio da rua, puxando o coreto. Sacudia o braço como se passasse marcha e rompia lonjuras, atravessava funduras e o povo atrás serpenteando num ziguezague. – Eita, que ele vai virado na peste! Era assim, tinha de existir e assim o queria solto na buraqueira das rodagens, moita adentro, estrada fora. – Foi-se! Oxe! Parecia ter ido pros fins da Terra, nem notícias mais, nunca mais voltou. Vôte!  Onde andará? Quem lá sabe! Ó. Pois é, foi. Até mais ver.

 

Elif Shafak: As vozes da nossa terra natal não param de ecoar em nossa mente. Nós as levamos conosco aonde quer que vamos... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Camille Paglia: Precisamos aceitar nossa dor, mudar o que pudermos e rir do resto... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Wangari Maathai: Consegui perceber que, se eu tinha uma contribuição a dar, eu devia fazê-la, independentemente do que os outros dissessem. Que eu estava bem do jeito que eu era. Que não havia problema nenhum em ser forte... A geração que destrói o meio ambiente não é a geração que paga o preço. Esse é o problema... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

MILAGRE

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu olho para o horizonte por um trilhão, trilhões de anos. \ Vai acontecer, talvez, e eu serei testemunha. A Terra será milagrosamente \ curar-se a si mesma. A água vai se transformar em gelo. Hipnotizado, verei as esculturas brancas, \ lembrar o Ártico e sua magnificência, e tremer na costa. O sol vai jogar \ truques em minha mente, gravura no gelo branco puro a sombra de um longo talo. \ Uma única tulipa vermelha. \ Parabéns, esta flor é para você: o único humano ainda vivo, o único que \ ainda acredita em milagres.

Poema da escritora cipriota Nora Nadjarian.

 

QUANDO A VIDA TE DÁ - [...] Como posso explicar que ter a oportunidade de dar uma pausa no meio da vida e avaliar tudo é mais raro do que um arco-íris duplo? [...] Neste momento, tudo está exatamente como deveria estar. [...] Eu jamais puniria a filha pelos crimes da mãe. [...] Vaginas feitas sob medida são as novas bolsas Birkin. [...]. Trechos extraídos da obra When Life Gives You Lululemons (‎Simon & Schuster 2018), da escritora estadunidense Lauren Weisberger, autora de obras como Revenge Wears Prada: The Devil Returns (2013), Last Night at Chateau Marmont (2010), Chasing Harry Winston (2008), Everyone Worth Knowing (2005) e The Devil Wears Prada (2003). Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

CIÊNCIA DAS PLANTAS - [...] Levou muito tempo para desvendar como o inverno estimula a floração, mas partindo de um ponto inicial de quase nenhum conhecimento molecular, agora temos uma boa ideia do mecanismo regulatório. [...] É tão importante que a comunidade internacional de plantas se concentre em uma espécie como organismo de referência. Triagens prospectivas, clonagem baseada em mapas, os extensos recursos de genótipo e sequenciamento, além de descobertas importantes quando grupos que estudam coisas diferentes convergem para um mecanismo – tudo isso é essencial se realmente quisermos entender a base mecanicista de características complexas das plantas. [...] como as plantas usam sinais sazonais para sincronizar seu desenvolvimento. Nessa época, o fenômeno da Arabidopsis estava acontecendo – geneticistas de plantas haviam descoberto a utilidade de se concentrar em uma espécie como organismo modelo, e agora podíamos clonar genes importantes para características complexas por meio de clonagem baseada em mapeamento. Então, quando abri meu próprio laboratório, escolhi abordar a base molecular da vernalização em Arabidopsis. [...] Sinto-me privilegiada por fazer ciência todos os dias – é maravilhoso poder seguir uma paixão e ser pago por isso! É flexível e absorvente. Eu recomendaria a todos [...]. Trechos da entrevista (New Phytologist, 2025), concedida pela premiada bióloga e acadêmica britânica, Caroline Dean, integrante do grupo de estudos que determinou a base mecanística de como as plantas usam sinais sazonais de temperatura para determinar quando vão florescer.

 

A ARTE DE MAGDALE ALVES

[...] polarização é uma bobagem, porque cada um tem o seu pensamento e o respeito deve ser mútuo [...].

Pensamento da atriz e bailarina Magdale Alves, que estreou na dramaturgia com a peça Guarani com Coca-cola (1980) e fez carreira tanto no teatro, como no cinema, atuando em filmes como Quer Tapioca com Manteiga, Freguesa? (1985), Amarelo Manga (2002), Árido Movie (2005), Baixio das bestas (2006), Deserto feliz (2007), Gonzaga de pai pra filho (2012), entre outros. Atuou ainda em novelas televisivas, minisséries e curtas metragens, bem como dubladora, humorista, comediante, locutora, performer e apresentadora de TV. Veja mais aqui.

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MANTO MULHER, DE CARMEN CAMUSO

Recebi alguns mantos da vida \ Que se incumbiram de me fazer mulher \ Uns, enlaçados em fios de proteção \ Outros, treliçados, amarrando minhas mãos \ Mãos desatadas no desejo revelado \ Desnudam-me lentamente \ A pele sensível não mente \ Ao retirar cada manto \ Encontrei minha originalidade escondida \ A espontaneidade pra vida \ Agora, embalada pelo canto \ Pássaros livres que se alimentam em meu ombro…

Poema extraído do livro de poesias Manto Mulher (2026), da poeta, psicóloga e feminista Carmen Camuso, integrante do Movimento Cultural Alvorecer. O livro reúne 48 poemas agrupados em dois capítulos: “O Manto” e “As Palhas”. O primeiro reúne poemas que expressam a relação mulher-mundo a partir das vivências da autora em seus diversos papéis sob o manto do gênero. No segundo capítulo, o que aparece é a relação mulher-outro que, sob palhas, simboliza o que dói ou cura. Veja detalhes aqui.

 

Marcus Accioly aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Santiago aqui.

Raimundo Carrero aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Renata Pinheiro aqui.

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Aoruaura aqui.

Walther Moreira Santos aqui & aqui.

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ARTEXPRESSÃO – TRANSVERSALIZANDO ARTE NA ESCOLA

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terça-feira, abril 01, 2025

GLÓRIA STEINEM, MIN JIN LEE, LINDA SUE PARK & LADY TEMPESTADE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Apimentada (2018) e Nossa Melhor Visão de Mundo (2023), da compositora, pianista e professora Deborah Levy, como parte de um olhar sensível ao processo da humanidade no momento difícil da pandemia, baseado numa visão holística da artista que provoca, por meio da música, a reflexão sobre uma nova visão de mundo. Ela é Bacharel em Música Popular Brasileira - Arranjo Musical na UNIRIO em 2005 e completou o Mestrado na mesma instituição em 2016, com a dissertação O Brazilian Jazz no eixo Rio-São Paulo na década de 1980.

 

Manguaba & o outro lado da existência... - Lugaroutro, mais um dia, nada demais, parecia. Não fosse a margem da lagoa o espetáculo, as águas transbordariam por meus olhos, peito inchado além das vontades e fruindo dos diferentes lugares e instantes dali. Na verdade, me sentia como se renascesse em cada momento, do tamanho de tudo que via: o universo unânime e todas as coisas imortais, o repertório da diversidade da causa primordial e na tarde crepuscular o amanhecer do dia se realizasse imorredouro – e fechasse os olhos para apreender o infinito, livre do que seria a morte e de qualquer lembrança. Dei-me a oportunidade de reviver ali a estadia na Ilha do Sol, com os fios de ouro dos dias estivais e a dançarina Dora de Cachoeiro do Itapemirim era Luz del Fuego, mãos e pernas no alvoroço da vida à flor d’água da Manguaba. Aquilo durava pouco, mas deixava marcas perenes. Por certo não haveria aquela quarta-feira de 19 de julho, muito menos a atroz vingança usurpando todas as margens de erro e ela não teria sido violentada e, seu corpo amarrado pelas pedras, jamais seria lançado ao mar para ser encontrado só dias depois. Jamais aconteceria e, no lugar de sua dança, uma fonte milagrosa brotaria para lavar as heresias civilizatórias e eu escaparia do presente inapreensível no simultâneo desconhecido, das sucessões de golpes inquisitoriais, da direção das vãs incertezas: a vida não se renderia coagida aos silêncios e olhares graves. As horas não seriam agora os que já foram, nem me perderia vencido pela tentação dos fins sinistros da vontade cega - quem à luz da razão enxergasse a hipocrisia e a loucura, o sacrifício de sobreviver aos flagelos mais imprevisíveis, aos disfarces de altruísmo pela dissonância cognitiva geral. Tudo era mais que impensável e poderia sorrir jeito que fosse, até por teimosia, a provar do que melhor ou pior entre a sabedoria e a insensatez. Quem perderia tempo, cada escolha não seria em detrimento de outras alternativas disponíveis. Afinal, a ausência de erros não confirmaria quaisquer acertos, porque até os clamorosos passavam, o difícil era ter de superá-los e distingui-los entre hediondos e fúteis. Quem proscrito suspenso no quase, emoções represadas, sentimentos rasurados, fronteiras borradas, teria a coragem de enfrentar o que o cimento escondia, valendo-se de buracos nas paredes e muros, sem que precisasse aquilatar do ínfimo ou sintomático, ou do sucessivo na analogia do infiel. Viver é acordar dum sonho à beira do abismo. E viva! Até mais ver.

 

Malika Oufkir: Cada dia é um milagre que me intoxica. Eu quero mais. Saúdo cada manhã como um novo prazer. E ainda assim estou profundamente ciente de todos os artifícios da vida... Veja mais aqui & aqui.

Han Kang: Estou lutando sozinha, todos os dias. Luto com o inferno que sobrevivi. Luto com o fato da minha própria humanidade. Luto com a ideia de que a morte é a única maneira de escapar desse fato... Veja mais aqui & aqui.

Camille Paglia: Regra da arte: a hipocrisia mata a criatividade!... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

NENHUM OUTRO LUGAR PARA IR

Imagem: Acervo ArtLAM.

Apague as luzes. \ Use outra camada. \ (Parece um pai.) \ (Parece uma mãe.) \ Você diz "de segunda mão". \ Eu digo retrô. \ Andar. \ Bicicleta. \ Ande um pouco mais. \ Reciclar. \ (Veja o que eu fiz lá, \ bicicleta—reciclar?) \ Seu nome em Sharpie \ em uma boa garrafa de água. \ Mochila. Novos hábitos. \ Não, obrigado, não preciso de uma bolsa. \ O que mais. \ Oh sim. \ Conte a dez amigos \ quem pode contar a dez amigos \ quem pode contar a dez amigos... \ Faça barulho suficiente, \ talvez os adultos \ finalmente ouvirão \ o grito no título.

Poema da escritora estadunidense Linda Sue Park. Veja mais aqui & aqui.

 

A VIDA & O VIVER – [...] Viver todos os dias na presença daqueles que se recusam a reconhecer sua humanidade exige muita coragem. [...] Você quer ver um homem muito mau? Faça um homem comum ter sucesso além da imaginação. Vamos ver o quão bom ele é quando pode fazer o que quiser. [...] A história falhou conosco, mas não importa. [...] Ninguém é limpo. Viver te deixa sujo. [...] O destino de uma mulher é sofrer. [...] A vida faz você pagar...todo mundo paga alguma coisa [...]. Trechos extraídos da obra Pachinko (Intrínseca, 2020), da escritora e jornalista coreana Min Jin Lee.

 

MINHA VIDA NA ESTRADA - [...] Eu mesma chorava quando ficava com raiva, então me tornei incapaz de explicar por que estava com raiva em primeiro lugar. Mais tarde, eu descobriria que isso era endêmico entre seres humanos do sexo feminino. A raiva é supostamente "não feminina", então a reprimimos - até que ela transborde. Eu podia ver que não falar fazia minha mãe se sentir pior. Esta foi minha primeira dica do truísmo de que a depressão é a raiva voltada para dentro; portanto, as mulheres têm duas vezes mais probabilidade de ficar deprimidas. Minha mãe pagou um alto preço por se importar tanto, mas ser capaz de fazer tão pouco sobre isso. Dessa forma, ela me levou a um lugar ativista onde ela mesma nunca poderia ir. [...] Às vezes penso que a única divisão real em dois é entre as pessoas que dividem tudo em dois e aquelas que não o fazem. [...] Quando os humanos são classificados em vez de vinculados, todos perdem. [...] O riso é um resgate [...]. Trechos extraídos da obra My Life on the Road (Random House, 2016), da escritora, jornalista e ativista estadunidense Glória Steinem, que no prefácio da obra The Vagina Monologues (Virago, 2001), de Eve Ensler, expressou que: [...] Não é de se admirar que os líderes religiosos masculinos digam com tanta frequência que os humanos nasceram em pecado — porque nascemos de criaturas femininas. Somente obedecendo às regras do patriarcado podemos renascer por meio dos homens. Não é de se admirar que padres e ministros de saias borrifem fluido de parto de imitação sobre nossas cabeças, nos dêem novos nomes e prometam o renascimento para a vida eterna. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O DIÁRIO DE LADY TEMPESTADE

[...] Deixou claro que só poderei engravidar se deixar de advogar. Meu estado emocional perturba o metabolismo. É por demais cômico, luto pelos filhos dos outros, entram em minha vida, amarguram-me a existência e ainda me privam de ter filhos. [...] Em 1965, recebi um telefonema avisando-me que havia uma ordem de prisão contra mim. Quando desliguei bateram na porta, era a polícia. Abri e disse: vou me trocar. Sentaram-se na sala. No quarto fiz um bilhete para Dona Pepe, mãe de Ivo Valença, coloquei-o numa garrafa, e desci pela varanda recomendando meu filho recém-nascido. Tirei os lençóis do berço, para evitar que meu bebê sufocasse. Fui mais uma vez conduzida para a Secretaria de Segurança Pública. [...].

Trechos extraídos da obra Diários 1973-74 escritos por Mércia Albuquerque Ferreira (Potiguariana, 2023), da advogada Mércia Albuquerque Ferreira (1934-2033), organizado por Roberto Monte e conta que, em 1964, ao testemunhar a tortura pública do líder Gregório Bezerra nas ruas do Recife, decidiu dedicar-se à defesa de presos políticos durante a ditadura militar (1964-1985), sendo reconhecida como a maior advogada nordestina de presos políticos, ao atuar em aproximadamente 500 casos, defendendo indivíduos perseguidos pelo regime militar. Por conta disso enfrentou riscos significativos e foi presa diversas vezes. Após falecer seu acervo, composto por diários, cartas e documentos jurídicos, foi doado ao Centro de Direitos Humanos e Memória Popular (CDHMP), no Rio Grande do Norte. A obra inspirou o monólogo Lady Tempestade (2024), solo da atriz Andréa Beltrão, dirigido por Yara Novaes e roteiro da dramaturga Silvia Gomez, em cartaz no Teatro Poeira, São Paulo: Mércia dizia que era uma contadora de histórias de pessoas que reconstruíram a liberdade. Eu sou uma contadora de histórias. Eu acredito que contar histórias é uma maneira amorosa de pensarmos juntos no nosso passado, nosso presente e nosso futuro. Contar histórias amorosamente, para nunca esquecer. Para tentarmos responder às perguntas que nos fazemos aqui e agora... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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terça-feira, agosto 27, 2019

CONFÚCIO, CAMILLE PAGLIA, JACQUES LIPCHITZ, BAIXIO DAS BESTAS & BIRITOALDO


OS PANTINS & SUMIÇO DO BIRITOALDO – O Biritoaldo não toma mesmo jeito. Não bastou ser escorraçado com um bocado de chifres embelezando o quengo e presenteado gentil e diligentemente pela Munga; de ter sido defenestrado com um chutaço nos glúteos pela Xica Doida, de ficar se arrastando de quatro, todo desconjuntado por um bocado de dia – A mulher tem uma patada atômica ineivada à la Rivelino, meu! -; de ter variado mundo afora numa paixonite descabelada por uma foto desbotada – era da Amy Winehouse antes do sucesso, lascou-se ao saber que ela tinha morrido fazia tempo -; de ter sido barrado depois de uma recaída sentimental das brabas – era pela Rebel Wilson - Ué, esse cabra devia se agarrar com a santa Rita de Cássia, vai gostar de causas impossíveis assim lá no raio que o parta, meu! -; e depois de tanta dor de corno, enfiou o dente com força nas biritas de perder o carnaval e a noção do tempo; e de sair se vingando de formigueiro, ih, danou-se! Parece que agora ele emborcou de vez e ganhou a simpatia da galera: Aê, Birito, já vai, né? Vai pra porra, fresco! E aí Birito? Vai te lascar, viado! Birito, vem cá, conta uma pra gente, vai! Só se rolar uma meiota! Desce aí uma lapada boa pro Birito, meu! Qual é a nova? Ah, não te conto. E arriava peta maior que as aldrabices dos mitômanos. Bote patranha cabeluda, sempre levando a maior. É mesmo, rapaz? Todos se arregalavam na maior das gaitadas. Desce outra carraspana aqui pro Birito, meu! E de gole em engulhos, ele debulhava suas pinoias, cada gazopa maior que a outra, inventando acontecidos de seu próprio heroísmo e macheza. Comigo é assim! Faziam que davam fé só para ver até onde ele ia. Tome corda, dele sair todo pabo, trocando as pernas de tão zarolho dos quequeos, tropicando às topadas, até se arranchar num cantinho duma igreja que fosse; isso, quando não, meio lá e meio cá, arremedar o ofício do pároco - ou pastor, por engano: Estou só me agarrando com Santo Expedito, ora! Não adiantava coroinha que fosse para expulsá-lo, logo voltava. Queria falar com o sacerdote de qualquer jeito. Insistia: Não está ou não pode, saiu, ou sai para lá, pinguço! Até o padre perder a paciência e saber o que ele queria. Diga! Seu padre, como é que se pega doença? Assim: vagabundeando, fazendo coisas erradas, irresponsável todo malabanhado, fedendo, aperreando a família, bebendo feito satanás com sede e atrapalhando a vida dos outros. Calma, cidadão, calma aí, eu só estou preocupado porque soube que o papa estava doente, por isso que vim saber do senhor. Bota esse sujeito para fora, já! E saíam aos empurrões para jogá-lo no meio da rua: Isso é lá coisa que se faça com um sujeito católico que nem eu, seus merdas! Vou virar uma teibei agora! Ninguém sabe como, ele se apossava aprumado de uma garrafa do aperitivo escalafobético, de findar cantarolando no maior berreiro a sua cornice desmedida, aos goles, peidos e soluços. Embeiçava a carraspana de se envultar por dias, só desenvultando dessa vez, por conta dos assopros de um fuleiro tocador dum pife de Hamelim, puxando uma enfieira de ratos que infestaram Alagoinhanduba, feito praga do maior aperreio para a população. Lá foi ele dançando aos tombos, acompanhando o séquito de guabirus para nunca mais dar sinal de vida. Eita! Alguém viu o Birito por aí? É, nunca mais deu as caras. Por onde é que anda aquele estroina cornudo, hem? Rapaz, faz tempo que deu o maior sumiço. Soube que ele foi enfeitiçado pelo pifeiro da ratoeira e se picou. Ah, ele tá roendo a dor de corno dele, deixa para lá. Um dia aparece. Ah, sim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A arte só ganha o noticiário hoje quando uma obra é roubada de um museu ou uma pintura de um artista famoso é vendida por um preço absurdamente alto em um leilão. A arte se transformou em investimento para os super-ricos, em nada diferente de diamantes ou imóveis. Essa ostentação e esse excesso distorceram a percepção popular da arte, que toma a aparência de um jogo narcisista e ganancioso dos poderosos para a maior parte das pessoas. [...] A comunidade artística falhou em reconhecer ameaças à sua existência. Por isso escrevi esse livro (Imagens cintilantes), para tentar demonstrar a complexidade e a dimensão espiritual da arte, que não pode ser totalmente emulada por iPhone. [...] O mercado de arte hoje é um espetáculo grotesco de pretensão e ganância. Obras de arte são tratadas como objetos frios de investimento financeiro, exatamente como diamantes, mansões ou carros esportivos. Artistas de destaque do passado e do presente se tornaram marcas, sendo promovidos como empresas comerciais lucrativas. [...].
Trechos extraídos de Como viver juntos – Libreto (Fronteiras do Pensamento, 2015), da escritora, professora e crítica social estadunidense Camille Paglia. Veja mais aqui.

BAIXIO DAS BESTAS
O premiado drama Baixio das Bestas (2006), dirigido por Claudio Assis, aborda sobre a condição da mulher desprotegida numa dramática situação de prostituição ilegal e exploração sexual de menores. Conta a história da jovem Auxiliadora que é explorada por seu avô moralista, que expõe a neta nua por dinheiro em posto de parada de caminhões na região dos canaviais pernambucanos. Na cidade, um estudante de família classe média, se envolve no final de semana com álcool, drogas e orgias sadomasoquistas com as prostitutas de uma cafetina afamada. A história se complica com o cruzamento dos personagens, envolvendo paixões, desejos e intrigas. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Para mim, escultura é divindade. Esta é a única resposta que eu poderia encontrar para mim mesmo. A arte é o modo distintamente humano de lutar contra a morte. Através da arte, o homem alcança a imortalidade e nesta imortalidade encontramos Deus.
A arte do escultor lituano Jacques Lipchitz (1891- 1973). Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE CONFÚCIO
O silêncio é um amigo que nunca trai.
A obra do filósofo chinês, Confúcio (551 a.C. - 479 aC) aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quarta-feira, fevereiro 10, 2016

DERRIDA, CAMILLE PAGLIA, MUSSET, MARSHALL BERMAN, CARMEN JUAREZ MEDINA, VINICIUS & CARLOS LYRA, SONSA & LITERÓTICA


SONSA – Imagem: Gone, But Not Forgotten (1873), do artista plástico John William Waterhouse (1849 – 1917) - Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, ela agarra no tronco e me diz: toda sua. E se esfrega já nua, anjo e demônio. Maior pandemônio, maior ventania. Faço pontaria nela oferecida a me dá por guarida suas cercanias. Vou pra montaria e nela me atrepar e sem blá, blá, blá, no seu alvo alado. Apruma o rebolado com manha de sonsa, a me dá por responsa seus segredos guardados. E todo malcriado e perito artesão, predador e pagão, batizo os pecados. Nesse campo minado me faz candelabro esfregando o escalavro do seu poço imenso. E já me convenço de sua alma mundana que a safada sacana deixa descoberta. E mais inquieta me dá suas minas que queima a retina e cobiça o capacho. Se atreve o meu cacho, minha flecha na maçã, nem até amanhã não apaga o meu facho. O céu vai abaixo e não há nada igual. Nesse manancial o prazer não tem preço. Ela vira do avesso, o dedo na tomada, que atrevida e aprumada sobe todas as alturas. E cai na fundura me faz seu arrimo, me cobrindo de mimo e toda afogueada. Mais afeiçoada no nosso escambo, ela geme ao meu mando, toda ruidosa. E mais que gulosa arreia atiçada, toda engatilhada dos desejos maiores. E com garras piores, e doido varrido vou impor-lhe o castigo das ousadas vontades. E vou com alarde e com toda ganância vasculhar as instâncias ignotas do corpo. E vou com escopo na entrega gostosa a roubar seu cheiro de rosa e toda a sua essência. Vai fazer diferença pegá-la escrava, como enxada que cava seu lombo e costado. Eu puxo e puxado, arranco ferrolho, e descasco o repolho, do seu dorso o penhor. Eu me faço senhor a fincar as bandeiras nas entradas fagueiras do seu território. Sou dono meritório dessa graça opulenta, mais de oito ou oitenta, sou explorador. E ela só: sim, senhor! Rendida fremindo com tudo tinindo, maior saculejo. E me enche de beijo a quedar minguada, lambida e chupada até o último gole. E seu jeito me bole como bem a merece, me faz sua prece, seu altar e pastor. E do seu alcandor no fogo da paixão, me aperta um tempão a suspirar de amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui, aqui, aqui e aqui.


DITOS & DESDITOS – Uma: O que vai, volta. Só dá erro? Um dia acerta. Desistir? Jamais. Sigo em frente, entre obstinação e firmeza. Eu quero é botar meu bloco na rua! Outra: Se a noite de breu parece eterna, lembre-se: o Sol nasce paratodos!!! (LAM)

ALGUÉM FALOU, SE LIGA – As coisas mais desagradáveis que os nossos piores inimigos nos dizem pela frente não se comparam com as que nossos amigos dizem de nós pelas costas. Pensamento do poeta, novelista e dramaturgo francês Alfred Musset (1810-1857). Veja mais aqui.

MODERNIDADE – [...] Pode acontecer então que voltar atrás seja uma maneira de seguir adiante: lembrar os modernistas do século XIX talvez nos dê a visão e a coragem para criar os modernistas do século XXI. Esse ato de lembrar pode ajudar-nos a levar o modernismo de volta às suas raízes, para que ele possa nutrir-se e renovar-se, tornando-se apto a enfrentar as aventuras e os perigos que estão por vir. Apropriar-se das modernidades de ontem pode ser, ao mesmo tempo, uma crítica às modernidades de hoje e um ato de fé nas modernidades – e nos homens e mulheres modernos – de amanhã e do dia depois de amanhã. [...]. Trecho extraído da obra Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade (Companhia das Letras, 1986), do filósofo e escritor estadunidense Marshall Berman (1940-2013). Veja mais aqui.

A MENTIRA – [...] A mentira comporta uma manifestação de tipo performativa, implicando uma promessa de verdade, mesmo lá onde ela é traída, a partir do momento em que deseja também criar um acontecimento, produzindo um efeito de crença lá onde não há nada a ser aceito, ou, muito menos, lá onde nada se esgota numa constatação. Simultaneamente, porém, essa performatividade implica a referência a certos valores de realidade, de verdade e de falsidade, que são considerados independentes da decisão performativa. [...]. Trecho extraído da obra Breve storia della menzogna (Alberto Castelvecchi, 2006), do filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004). Veja mais aqui.

NÓS, QUEM SOMOS? – [...] De dia, somos criaturas sociais, mas à noite mergulhamos no mundo dos sonhos, onde reina a natureza, onde não existe lei mas apenas sexo, crueldade e metamorfose. [...]. Trecho extraído da obra Personas sexuais - arte e decadência de Nefertite a Emily Dickson (Companhia das Letras, 1993), da professora e crítica social Camille Paglia.

A ARTE DE CARMEN JUAREZ MEDINA
A arte da artista plástica espanhola Carmen Juarez Medina.


MARCHA DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Música de Carlos Lyra & Vinicius de Moraes (E no entanto é preciso cantar - Philips, 1971)

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz
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