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sexta-feira, agosto 09, 2019

MAHMOUD DARWICH, VINICIUS, TRACY EMIN, USINA DE JULIO BELO & PARTE DO VOO


PARTE DO VOO – Sou nau, sou sim, até o que nem sei se era dos encontrões e desencontros: penitente peregrino a bater pernas nas pisadas trôpegas e fama de doido de pedra pelos caminhos. As ruas são mares nunca dantes singrados com âncora perdida e leme em todas as direções. Sei que vou a confabular comigo mesmo e, cá com meus botões de rosa ao peito, feito um rojão rasgando os céus sem sair do chão e pés descalços, varando o tempo assustado com a imensidão do horizonte cada vez maior, a duvidar se crepusculares ou alvoreceres. Há muito perdi o medo disso e daquilo, plurais temores esvaídos, quantos fossem nem sei mais, jamais poderia ser contrário de tudo se sou tal e qual quem já foi e irá sempre ao inexistente. Ainda estava ontem em que tudo era e não mais, tampouco lembro o que passou indagora, anos a fio de perder o juízo tão logo a lucidez dera de cara com o desatino que sempre fui e já passei da hora antes de qualquer chegada. São partidas, só de seguir juntando pedaços, cacos e trapos. Ah, sequer sei, nem valerá. Nunca me dei conta de que já nem tinha mesmo para fazer entre miragens desbotadas e solidão desvalida. O que sobrou: uma mão espalmada atrás da outra, dores de talhos supurando das vísceras à pele dos pés à cabeça, como se endeusamento pela coragem do confronto, ou detratadas pela insinuação de fuga. Nada demais, não podia ser diferente. Dos rios os olhos lavaram a alma e para quem fica é tarde demais ter de ir, eu fui e voo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A usina, a grande anônima - para todos a firma comercial do Recife. Eu, na meia fantasia com que muita vez encaro, graças a Deus, as coisas da vida, dou corpo e forma a essa tarasca como se ela fosse uma espécie de imperatriz Catarina, conquistadora insaciável de terras e deportadora terrível dos mujiques coronéis, senhores de engenho. Considero-a, na minha fantasia, como uma pessoa viva, com movimento próprio na trama social. A usina não é para mim como é para todos a firma A ou a firma B. a usina que conquistou as terras e disseminou e deportou os velhos donos, é uma só. Não é uma pessoa ou um grupo de pessoas, que uma conjuntiva comercial une. É um sentimento. É o monopólio, o açambarcamento das terras, quase sem tolerância de uma distribuições mesmo pouco equitativa dos lucros da agricultura pela antiga classe dos cultivadores seculares da gleba. É quase o espirito da avareza. É a justificação daquele conhecido dito popular do “saco de ter que nunca se enche”, daquele outro “das águas que têm de correr todas para o mar”, porque as águas ai são os dinheiros e o mar as grandes arcas de guarda-los dos comerciantes da praça. Como John Bull, como Tio Sam, como Jacques Bonhomme, tipos representativos de povos na caricatura, na minha fantasia – uma grande dama muito gorda e ventruda, uma imensa saia de cauda e brocardos, um formidável chapéu de cano, muito desembaraçada e impertinente, orgulhosa e autoritária – representaria bem essa importantíssima coletiva – a usina. [...]
Trecho da obra Memórias de um senhor de engenho (José Olympio, 1938), do jornalista Julio Belo (1873-1951). Veja mais aqui.

A POESIA DE MAHMOUD DARWICH
Como devo escrever nas nuvens o testamento dos meus? se eles
abandonam o tempo como abandonam os casacos nas casas, se eles
a toda vez que erguem um forte o destroem para erguer em seu lugar
uma tenda de saudades da primeira palmeira... Os meus traem os meus:
nas guerras em defesa do sal. Mas Granada é toda ouro,
seda de falas bordada com amêndoa, prata de lágrimas impressa nas
cordas do alaúde. Granada é a grande ascensão a si mesma...
Pode ser o que se deseja: saudade de
qualquer coisa que passou ou que vai passar: a asa de uma andorinha
roça o seio de uma mulher na cama, e ela grita: Granada é meu corpo.
Alguém perde a gazela nos prados, e grita: Granada é minha terra.
Eu sou de lá. E você, cante para que os rouxinóis façam destas costelas
uma escada que leva ao céu nada distante. Cante o heroísmo de quem sobe o cortejo,
lua após lua, pelo beco da amante. Cante as aves do jardim
em cada pedra. Como eu o amo! Você, que pouco a pouco
me quebrou a caminho da noite quente, cante!
Não haverá mais a manhã para se sentir o cheiro do café, depois da sua partida. Cante, cante a minha saída.
Deixei o arrulho das pombas nos seus joelhos, deixei o ninho da minha alma
nas letras do seu doce nome, Granada do meu canto, cante!
Poema Onze astros: Incidindo na última cena andaluzina – II, do poeta palestino Mahmoud Darwich (1942-2008). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Para mim, ser artista não é só fazer coisas bonitas, ou as pessoas darem palmadinhas nas costas: é uma espécie de comunicação, uma mensagem.
A arte da artista inglesa Tracey Emin. Veja mais aquiaqui e aqui.

A OBRA DE VINICIUS DE MORAES
A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.
Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
A obra do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980) aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
&
Dia dos Povos Indígenas aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, outubro 19, 2017

VINICIUS, MIGUEL ASTURIAS, ORTEGA Y GASSET, CAMILLE CLAUDEL & RICHARD MARTIN

IARA, IARAVI – Um dia Fiietó se apaixonou. E ele com a sua força e firmeza no braço, altivez de porte e agudez de vista, dominava a mataria brava, seguindo a caça e afrontando o inimigo, aremessando o arco de sua flecha certeira cortando as carreiras ou os pulos dos animais, abatendo o voo de carniceiros, estava perdidamente apaixonado. Justo aquele que ao vogar sobre as águas silenciosas do Una, velejava alteroso, braços abertos e, ao passar junto ao barranco do rio, as brisas folionas sacudiam os galhos e derramavam uma chuva de flores sobre seus cabelos negros e todos os peixes, pássaros e demais seres viventes das profundezas e das margens fluviais, saudavam-no nas suas peripécias. Justo ele, estava enamorado. Por conta disso, todas as tardes a sua canoa aparecia no poente, seguindo solitário pelas sombras da noite adentro, pescaria essa que todos interrogavam pela vigência dos fantasmas noturnos saltarem das profundas dos infernos para atomentarem seres viventes que jaziam medrosos escondidos nas suas moradas. Indagavam do intrépido Fiietó se não ouvira os temerosos presságios pelos ventos gemedores com suas dores que matam, ele quase nem ouvia sua mãe aos prantos pela audácia do filho de desafiar os gênios malignos que se aproveitavam da indomável juventude de suas presas nas horas mortas. Contavam pra ele histórias repetidas vezes de quantos não houveram encontrados insones com seus olhos fundos e tristes, cotovelos fincados nos joelhos, pernas pendentes da rede selvagem, aprisionados pela má sorte, pungentemente hipnotizados na escuridão. Até sua mãe lamentava com enternecidas palavras, meu filho, não vejo alegria nos seus olhos, só vagos gestos de quem fora picado no coração, aquele a quem as moças admiravam, os velhos e guerreiros festejavam as astúcias com seus cantos entoando seu nome que um dia gozaria supremo na mansão dos bravos. O que está havendo, meu filho? Estou amando, mãe, quero encontrá-la. Não me diga que é a Iara! Mãe, quero encontrá-la. Não, meu filho, a Iara não, ela envenenou seu coração? Mãe, eu a vi, eu a vi, mãe, boiando em flor, linda como a lua nas noites claras, eu vi, mãe, os cabelos de flores, brilho do Sol, era ela, mãe! Meu filho! As suas faces, mãe, são formosas que ninguém jamais viu! Ela olhou pra mim, mãe, estendeu-me os braços, repartiu as águas e me levou encantado pelas estrelas do céu. Meu filho! Foge, meu filho, foge! Aquela que você viu é a Iara, aquela que canta a agonia e dos seus olhos só a morte espia. Mãe, eu vi, é linda! A mãe chorava a perda de filho tão valoroso. Não vá, meu filho, fuja, fuja enquanto pode, foge da Iara. E ele resoluto, pisou na água e começou a deslizar mansa e tranquilamente, estava decidido, estava verdadeiramente apaixonado. E todos na tribo caeté viram-no passar como quem vai pescar nas trevas. E seguia sozinho no espelho das águas. Logo depois, ouviam-se gritos: Vem ver, gente! Vem ver, corre, gente, vem ver! Todos pararam atônitas à beira do Rio Una, Fiietó fendendo as águas, braços abertos como se fosse voar, quando surgiu ao lado do jovem guerreiro, enlaçando-o a beijá-lo, completamente ensolarada com sua majestade e corpo harmonioso coroado por sua beleza indescritível de tão grandiosa maravilha, cabelos esvoaçantes e a jurar de amor por ele, aquela que cativara o seu coração. A Iara! É ela, a Iara! Todos gritavam estupefatos com a cena, em uníssono: É Iara! É ela mesmo! E todos correram para acompanhar o trajeto do casal que iluminava todos os arredores, escondendo-se para não serem flagrados pela deusa. Dali mais um pouco, Fiietó abraçou-a e beijaram-se ardentemente, provocando faíscas, relâmpagos e trovões vindos dos céus e retumbando por toda redondeza. Beijavam-se e o amor celebrava a festa dos amantes, enquanto os nativos fugiam para mais distante, amedrontados com a cena e tudo que acontecia. Era Iara, na verdade, era Iaravi, a índia caingang que é bela como as frescas manhãs de Sol nas águas do Una, transformada em Iara para demonstrar o seu amor e para ser aquela a quem Fiietó, perdidamente apaixonado, jurava morrer de amor. (Recriação a partir de A Iara (Selva, 1947), de Afonso Arinos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do cantor e compositor Geraldo Azevedo: De outra maneira, A luz do solo, Inclinações musicais, Adoro você & Tanto querer; da pianista e compositora Fernanda Chaves Canaud interpretando Radamés Gnatali & Lua Branca de Chiquinha Gonzaga; do compositor e educador musical Mario Ficarelli: Parasinfonia, O poço e o pêndulo & Tempestade óssea; da cantora Joan Baez: Al star 75th Birthay Celebration Live, Live Concert & Line in the New York. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAO importante é a lembrança dos erros, que nos permite não cometer sempre os mesmos. O verdadeiro tesouro do homem é o tesouro dos seus erros, a larga experiência vital decantada por milénios, gota a gota. do filósofo e ativista político espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955). Veja mais aqui.

SONETO DA MULHER AO SOL
A bordo do Andrea C, a caminho da França
Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.
Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.
Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce
E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...
Extraído do livro Para viver um grande amor (Companhia das Letras, 1984),
do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui, aqui & aqui.

SENHOR PRESIDENTE - [...] A cidade grande, imensamente grande para a sua fadiga, foi ficando pequena para a sua aflição. Noites de espanto, seguidas por dias de perseguição. Acossado pela gente que, não satisfeita em gritar-lhe: “Bobalhãozinho, domingo você vai casar com sua mãe... aquela velhinha... seu pirado... animal, vagabundo!”, batiam nele, arrancavam-lhe a roupa a pedaços. Perseguido pela molecada, refugiava-se nos bairros pobres, mas ali sua sorte era pior; ali, onde todos andavam às portas da miséria, era não só insultado, mas quando o viam correr apavorado atiravam-lhe pedras, ratos mortos e latas vazias. Vindo de um desses bairros, chegou ao Portal do Senhor num dia qualquer, na hora da missa, ferido na testa, a cabeça descoberta, arrastando a rabiola de uma pipa que, arremedando um remendo, haviam-lhe grudado atrás. Assustava-se com as sombras dos muros, os cachorros passando, as folhas que caíam das árvores, o rodar desigual dos carros... Quando chegou ao Portal, quase de noite, os mendigos, virados para a parede, contavam e recontavam seus ganhos do dia. Mulamanca discutia com o Mosquito, a surda-muda esfregava a mão na barriga, para ela inexplicavelmente grande, e a cega se remexia, sonhando-se dependurada em um gancho, coberta por moscas, como carne de açougue. [...] E mais não disse. Arrancado do chão pelo grito, o Bobalhão saltou em cima dele e, sem lhe dar tempo para usar suas armas, enterrou-lhe os dedos nos olhos, despedaçou-lhe o nariz a dentadas e golpeou-lhe as partes com os joelhos, até deixá-lo inerte. Os mendigos fecharam os olhos horrorizados, a coruja passou de novo e o Bobalhão fugiu pelas ruas escuras enlouquecido e tomado por espantoso paroxismo. Uma força cega acabava de tirar a vida do coronel José Parrales Sonriente, vulgo o homem da mulinha. Amanhecia. [...]. Trechos da obra O senhor presidente (Mundaréu, 2016), do escritor, jornalista, diplomata guatemalteco Miguel Angel Asturias (1899-1974), ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1967. Veja mais aqui.

ARTE DE CAMILLE CLAUDEL
A arte da escultora francesa Camille Claudel (1864-1943). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte do artista plástico australiano Richard Martin.
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sábado, agosto 06, 2016

BACHELARD, VINICIUS, BENCICOVA, NECKER, WEBERN, NELINA, OELZE & VERMEER

O PALHAÇO DOIDO - Selerino Freitas era fogo! E bote fogaréu nisso. O cabra era sonso se aproveitando de incautos para armar de seus ardis. Tirava proveito de qualquer abestalhado. Todo faceiro, cheio de manha, pintava e bordava. De algumas refregas fora escaldado. Não podia tapiar mais ninguém, estavam vacinados de seu desazo. Não quero aqui macular a imagem de artista dele, não, nada disso. Reconheço que se tratava do mais genuíno artista, daqueles capazes de se criar as mais lendárias das existências celebradas até em folhetos de repentistas e emboladores. Prova disso era o seu controvertidíssimo jeito de escapar das situações mais vexatórias que se tenha notícia. Ora, nisso ele era perito, prova de sua inconteste veia artística digna de muitas homenagens e maldições. Pois bem, quando a maior parte da população abriu o olho para as suas artimanhas, foi aí que Selerino, sabido ineivado, não tendo como enrolar mais a ninguém, deu corpo ao seu alter ego. Seu intento era o seguinte: se ele não conseguia mais aplicar das suas nos brocos, outro, nele mesmo, o faria. Foi aí que ele entocou-se por uns dias, cerziu uma roupa colorida e larga, arrumou uns sapatos imensos, idealizou uma maquiagem com cores vivas, exercitou sua habilidade física de ginasta, construiu uma careca de pano reluzente com cabelos de lã colorida pelos lados, ensaiou chistes e gags resultado de uma pesquisa profunda copiando Foottit, Chocolat, Grock, os Fratellini, Rastelli, Zavatta, Kopov, Lazarenko, Piolim, Arrelia, Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Loyd, Oscarito, Grande Otelo, Mazzaropi, Coronel Ludugéro, Os Trapalhões, os irmãos Max, Os três Patetas, O Gordo e o Magro, Jerry Lewis, Rowan Atkinson, Chico Anísio, Golias, Costinha, Fafy, Bemvindo Serqueira, Saulo Laranjeira, Pedro Bismark, sem esquecer de passar noites sem pregar os olhos lendo Sérgio Porto, Leon Eliachar, Luis Fernando Veríssimo, Ary Toledo e Henfil. Dizia-se ancho: - Ora, isso é moleza, também faço! O bicho tava com um repertório bom, tendo cursado uma eventual oficina teatral e circense promovida pela Associação dos Artistas Biriteiros, onde se assenhoreou da commedia dell arte, pantominas, saltimbancos, mambembes e, daí, saiu armando das suas. O bicho era presepeiro mesmo. E dos bons. Foi aí que entre muita bravata e sacolejo nascia o seu alter-ego: palhaço Pirulitino. Vale salientar que tudo que conseguira fora ou à custa de muito sacrifício ou mesmo adquirido pelas suas atividades escusas deslustrando sua vocação e o êxito pessoal. Ou seja, como ele mesmo dizia: - Como só tem tu, vai tu mesmo. Conseguiu a fim da força e de um bocado de azucrinamento abundante, um espaço num programa radiofônico dominical. Peiticou tanto o juízo do produtor da rádio que, finalmente, conseguira trinta minutos de horário infantil. Virara logo símbolo de sucesso, não antes haver tropeçado em algumas apropriações indébitas que lhes fustigaram a alma e a dignidade. Mas estava lá no programa que escancarara as portas em batizados, aniversários, festinhas, inventando espetáculos infantis e induzindo a criançada às maiores gargalhadas. Era o ídolo local da meninada e ápice do desconfiômetro dos adultos. Já era requisitado até pela alta sociedade para entretenimento da gurizada durante reuniões várias, festivais do guaraná, vesperais, matinês, animação em lojas de artigos infantis, virado na breca. Muitas e muitas vezes era interrompido durante suas apresentações por credores infames que lhe cobravam débitos retardatários. Acusavam-no de velhaco, ora. Por isso, ora empenhava a vestimenta numa festa acabada sob ameaça de credores e contratantes que prometiam nunca mais trazê-lo para nada. Outras, era a vez do som que conseguira emprestado do primo que só não matou-lo de cacete por sentimento cristão no meio da ira. E muitas e muitíssimas outras tantas macacadas que provocavam decepção em todos. O desgraçado não tomava jeito, vendia o que era e o que não era seu, tapiando aqui e ali ao se apropriar de resultados de outrem. E não só isso: fiava de tudo que precisasse, conseguia avais de condescendentes simpatizantes que depois caíam na real e já era tarde; envolvia terceiros nas suas mazelas; assinava cheques que não eram seus; adulterava documentos visando tirar proveito da situação; era a gota, avalie! Eis que, no meio desse cabrunco todo, certa sexta-feira fora contratado por um bom cachê para animar o aniversário do filho de seu Joaquinildo, um próspero comerciante local. Fora requisitado pela esposa do mesmo, dona Filadelfa, uma gorducha simpática que era bastante ingrizienta com as coisas. Estava tudo marcado para o dia seguinte, sábado, às dezesseis horas, na residência opulenta deles, à beira da piscina. Tudo programado, menino que só a praga. Os endiabrados empurravam-no, tiravam dedada nele, puxavam sua indumentária, chutavam suas pernas, jogavam o que lhes viessem à mão na cara dele, faziam dele gato e sapato na maior hostilidade. Aqueles capetinhas estavam envenenados objetivando destituí-lo da liderança na festa. - Isso não é menino não, gente, são uns diabinhos de pais desalmados, só sendo!!!! Ôxe, vou lascá-los também, ah, se vou! Castigado em demasia, passou disfarçadamente a revidar as arteirices dando umas beliscadas, uns empurrões fora de propósito, uns safanões maledicentes, uns cascudos malcriados, umas puxadas de orelhas proeminentes, uns corretivos repressores, umas rasteiras bem dadas, que quando o moleque chorava ele cobrava dos outros mangação reprovativa para que o mesmo não levasse ao conhecimento da mãe iludida. Toma lá, dá cá. Presepada pura. - Eita, gota! Isso não é festa, é a ingrezia de pervertidos mirins! Pirulitino lá. E quando algum pai aparecia ele provocava a criançada a dar uma vaia nele para que saísse do mundo deles. O pai aplaudia a irreverência envolvedora. Depois, castigava os endiabrados que lhe surravam o tempo todo. À certa altura da festa ele já estava com as vestes rasgadas, esmulambado pela violenta participação dos audaciosos bexiguentos, virado na porra e se trocando com eles. Quando chegou a hora para cantar os parabéns ele teve que refazer a maquiagem e restituir o espírito do palhaço que residia dentro de si. Esperava a vingança. - Vamos cantar os parabéns! Juntou-se a todos e lá cantarolou a canção natalícia não antes receber dos intrépidos maloqueirinhos umas quinhentas dedadas no furico, milhares de alfinetadas nas costas, na bunda e nas pernas; estourada de peido de véia no corpo todo; ovo podre nas fuças; traque de sala no quengo; cabada de vassoura na testa; bolada no pau da venta; chute nos culhões; estrupiado todo, resolveu acender a vela. Aí, uma tesuda mãe de um dos garotos, parente do aniversariante, usava um vestido de napa colado mostrando sua graciosidade corporal, num decote que lhe mostrava mais da metade dos seios, um glúteo bem desenhado que enervara a cupidez do Pirulitino, a ponto de tremer-lhe o fósforo aceso, incendiando os arranjos postos na mesa, ao que intervindo por apagar o fogo teve a atração da chama investida na roupa da sedutora mãe, fagulha na cabeleira da anfitriã, pavio aceso jogado na ornamentação, fogueira geral, o Pirulitino endoidou, empurrou a dona e a de napa na piscina numa pesada grande, afugentou todo mundo à base de pernadas e braçadas, largou os sapatos grandes em cima do fogo, provocando a maior quebradeira no recinto. Prejuízos muitos. Eita! - O palhaço tá doido! Peraí! Foi aí que alguns pais presentes e providentes acalmaram o endoidado a safanões, porradas e cacetadas. Vôte! - Para, acho que já voltou ao normal! Estava o Pirulitino descascado, meleguento e desacordado. Presenciaram todos o seu estertor. Era o fim de sua triunfante carreira artística. Já era uma vez um palhaço. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

6 DE AGOSTO DE 1945
Veja aqui.

Curtindo o álbum Lieder Anton Webern (Deutsche Grammophon, 1995), do compositor austríaco Anton Webern (1883-1945), na interpretação da soprano alemã Christiane Oelze.

PESQUISA:
[...] Para que o conhecimento tenha toda a sua eficácia é preciso agora que o espírito se transforme. É preciso que ele se transforme nas suas raízes para poder assimilar nos seus rebentos. As próprias condições da unidade da vida do espírito impõem uma variação na vida do espírito, uma mutação humana profunda. Em suma, a ciência instrui a razão. [...].
Trecho extradído do livro A filosofia do não (Presença, 1991), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

LEITURA
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Rosa de Hiroshima (Antolio Poética – José Olympio, 1984), do poeta, dramaturgo, jornalista, compositor e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
Vejam dois tolos conversando. Eles não se escutam, mas riem continuamente. Enquanto um fala, o outro permanece num ponto de vista que o maravilha, o situado entre o que ele disse e o que dirá. Eles se prometem, na despedida, voltar à mútua expansão, ambos acreditam piamente ter produzido, com suas graçolas, toda a alegria do seu amigo.
Trecho de Réflexions sur le bonheur des fous, do economista e político suíço que ministro das finanças na França, Jacques Necker (1732-1804).

IMAGEM DO DIA
Ecce Homo, projeto da artista e fotógrafa alemã Evelyn Bencicova, retratando motivos artísticos comuns com origens bíblicas, representações de violência e guerra, narrativa de mistério e questionamentos. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Fecamepa, Ouspensky, Herberto Sales, Gianfrancesco Guarnieri, Andy Warhol, Baden Powell de Aquino, M. Night Shyamalan & Bryce Dallas Howard aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora impressionista ucraniana Nelina Trubach-Moshnikova.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
A arte da pintora, ilustradora e designer holandesa Karin Vermeer.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



sexta-feira, fevereiro 12, 2016

TARSILA DO AMARAL, AULNOY, ANI DIFRANCO & VALSINHA


TODO DIA É DIA DA MULHER: TARSILA DO AMARAL - A pintora brasileira Tarsila do Amaral (1897-1973), começou a estudar pintura em 1917, seguindo para Paris, em 1920, para estudar na Academie Julien, ocasião em que estruturou uma personalidade artística a partir das influências cubistas, oportunizando a sua participação, em 1922, no Salão dos Artistas Franceses. Acompanhada de Blaise Cendrars, percorreu o Brasil e assimilou a tradição barroca brasileira às teorias e práticas cubistas, criando uma pintura denominada de Pau-Brasil, inspirando o movimento de mesmo nome e a obra de Cândido Portinari, integrando-se ao movimento modernista. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 

DITOS & DESDITOS

Quando olho para baixo, sinto falta de todas as coisas boas. E quando olho para cima, simplesmente tropeço nas coisas... Não gosto que minha linguagem seja diluída, não gosto que minhas arestas sejam arredondadas... Eu não criei este jogo; não dei nome às apostas. Acontece que eu gosto de maçãs; e não tenho medo de cobras... A arte é a razão pela qual acordo de manhã, mas a definição termina aí. Não me parece justo viver por algo que nem consigo definir.

Pensamento da cantora & compositora estadunidense Ani DiFranco, um ícone dos direitos das mulheres e do feminismo.

 

VALSINHA

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar \ Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar \ E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar \ E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar \ Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar \ Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar \ Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar \ E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar \ E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou \ E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou \ E foram tantos beijos loucos \ Tantos gritos roucos como não se ouvia mais \ Que o mundo compreendeu \ E o dia amanheceu \ Em paz.

Música da parceria de Vinicius de Moares & Chico Buarque. Veja mais da dupla aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

FEITIÇOS DE ENCANTAMENTO – [...] Era uma vez uma grande rainha que, tendo dado à luz duas filhas gêmeas, convidou doze fadas que moravam perto para virem e presenteá-las, como era o costume naquela época. De fato, era um costume muito útil, pois o poder das fadas geralmente compensava as deficiências da natureza. Às vezes, porém, elas também estragavam o que a natureza havia feito de tudo para aperfeiçoar, como veremos em breve. [...] Embora as fadas fossem bastante ricas, sempre gostaram que as pessoas lhes dessem algo. Em todo o mundo, esse costume foi transmitido desde aquela época até os nossos dias, e o tempo não o alterou em nada [...]. Trechos extraídos da obra Spells Of Enchantment - Wondrous Fairy Tales Of Western Culture (Viking Adult, 1991), da escritora farncesa Madame Aulnoi (Marie-Catherine Le Jumel de Barneville, Baronesa d'Aulnoy – 1652-1705), que ficou famosa por seus contos de fadas e por uma conspiração acompanhada por sua mãe e cúmplices, que proporcionou a acusação de crime de lesa-majestade do barão d’Aulnoy, passível de pena de morte. Preso, o marido barão foi solto e os amigos dela foram condenados à decapitação por calúnia. Com o malogro da conspiração, a baronesa perpetrou uma fuga em circunstâncias rocambolescas, por uma escada secreta e refugiando-se sob o cadafalso de uma igreja. Constrangida pelo exílio, ela viajou pela Europa para escapar da condenação. Já no seu livro Fiabe d'Amore (Giunti, 2013), ela expressou que: [...] Seus olhos roubavam corações, e sua doçura os mantinha presos. [...].


PSICOPATOLOGIA: A CONSCIÊNCIA E SUAS ALTERAÇÕESCONSCIÊNCIA: Para Paim (1993), a consciência é um complexo de fenômenos psíquicos elementares ou complicados, afetivos e intelectivos, que se apresentam na unidade de tempo e que permitem conhecimento do próprio eu e do mundo exterior. O termo consciência, para Dalgalarrondo (2008), origina-se da junção de dois vocábulos latinos: cum (com) e scio (conhecer), indicando o conhecimento compartilhado com outro e, por extensão, o conhecimento “compartilhado consigo mesmo”, apropriado pelo indivíduo. As definições de consciência, segundo Dalgalarrondo (2008), são consideradas sobre três aspectos: 1 - A definição neuropsicológica emprega o termo consciência no sentido de estado vígil (vigilância), o que, de certa forma, iguala a consciência ao grau de clareza do sensório. Consciência aqui é fundamentalmente o estado de estar desperto, acordado, vígil, lúcido. Trata-se especificamente do nível de consciência. 2. A definição psicológica a conceitua como a soma total das experiências conscientes de um indivíduo em determinado momento. Nesse sentido, consciência é o que se designa campo da consciência. É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito que se volta para a realidade. 3. A definição ético-filosófica é utilizada mais frequentemente no campo da ética, da filosofia, do direito ou da teologia. O termo consciência refere-se à capacidade de tomar ciência dos deveres éticos e assumir as responsabilidades, os direitos e os deveres concernentes a essa ética. Assim, a consciência ético-filosófica é atributo do homem desenvolvido e responsável, engajado na dinâmica social de determinada cultura. Trata-se da consciência moral ou ética. Do ponto de vista da psicologia, segundo Paim (1993) é um processo de coordenação e de síntese da atividade psíquica. Nesse processo se encontra a consciência do eu, como conhecimento que se tem da existência como individualidade distinta das demais coisas do mundo, e da consciência dos objetos, significado tudo que é apreendido ou que se encontra, em dado mento, no campo da consciência, seja uma percepção, uma representação ou um conceito. A consciência subjetiva é a propriedade de serem os fenômenos conscientes conhecidos pelo individuo. A consciência objetiva por seu conteúdo, que se reflete no plano subjetivo sob a forma de percepções, representações e conceitos. Ao campo da consciência chega também uma série de sensações cinestésicas que orientam o individuo sobre a própria personalidade. A consciência é um todo único e indivisível. O INCONSCIENTE - O inconsciente, para Paim (1993) designa os processos nervosos que escapam inteiramente ao conhecimento pessoal, como a maior das regulações orgânicas; em sentido amplo, é tudo quanto num determinado momento escapa à consciência, sem diferenciar entre o subconsciente e o inconsciente essencial; e no sentido de Freud, qualifica os processos dinâmicos que atuam eficazmente sobre a conduta sem que atinjam a consciência. Em psicologia, o inconsciente é empregado como adjetivo para qualificar determinado fato psicológico que escapa ao conhecimento do individuo, sendo, pois, o conjunto de processos psicológicos que estão fora da consciência. A maior parte da vida anímica se desenvolve no inconsciente. O inconsciente, segundo Dalgalarrondo (2008), funciona regido pelo princípio do prazer por meio do processo primário em forma de condensação e  deslocamento. É isento de contradições mútuas e não possui referência ao tempo: 1. Atemporalidade = No inconsciente, não existe tempo; ele é atemporal. Os processos inconscientes não são ordenados temporalmente, não se alteram com a passagem do tempo, não têm qualquer referência ao tempo.  2. Isenção de contradição = no sistema inconsciente, não há lugar para negação ou dúvida, nem graus diversos de certeza ou incerteza. Tudo é absolutamente certo, afirmativo. 3. Princípio do prazer = o funcionamento do inconsciente não segue as ordens da realidade, submete- se apenas ao princípio do prazer. Toda a atividade inconsciente visa evitar o desprazer e proporcionar o prazer, independentemente de exigências éticas ou realistas. A busca do prazer se dá por meio da descarga das excitações, diminuindo-se ao máximo a carga de excitações no aparelho psíquico. 4. Processo primário = as cargas energéticas (catexias) acopladas às representações psíquicas, às ideias, são totalmente móveis. A repressão, para Paim (1993), é um processo que se inicia na primeira infância, sob a influencia dos princípios éticos dominantes no ambiente, perdurante durante toda a vida do individuo. O inconsciente contém apenas as partes da personalidade que poderiam ser conscientes se o processo da cultura não as tivesse reprimido. Para Paim (1993), existem dois tipos de inconsciente: um latente, capaz de tornar-se consciente; e outro reprimido, que não é, em si próprio e sem mais trabalho, capaz de tornar-se consciente. ALTERAÇÕES DA CONSCIÊNCIA - As alterações da consciência – patologia – são devidas a perturbações da atividade fisiológica dos hemisférios cerebrais. Para Dalgalarrondo (2008), a obnubilação ou turvação da consciência é o rebaixamento da consciência em grau leve a moderado. Para Paim (1993) os estados patológicos da consciência são obnubilação, coma, delírio oniróide, amência ou confusão mental, estados crepusculares e onirismo. OBNUBILAÇÃO - A obnubilação da consciência é um desvio mórbido do curso normal dos processos psíquicos. Caracteriza-se, essencialmente, pela diminuição do grau de clareza do sensório, com lentidão da compreensão, dificuldade da percepção e da elaboração das impressões sensoriais. Os processos psíquicos são fragmentários e os sentimentos muito imprecisos, sem que possam conduzir à execução de qualquer ato volitivo.  A obnubilação da consciência representa um sintoma obrigatório na maior parte dos transtornos mentais sintomáticos. Nesses casos, a obnubilação tem valor de sintoma objetivo, visto que ela se reflete na expressão fisionômica da conduta do enfermo. COMA - Para Dalgalarrondo (2008), o coma é o grau mais profundo de rebaixamento do nível de consciência. No estado de coma, não é possível qualquer atividade voluntária consciente. Além da ausência de qualquer indício de consciência, os seguintes sinais neurológicos podem ser verificados: movimentos oculares errantes com desvios lentos e aleatórios, nistagmo, transtornos do olhar conjugado, anormalidades dos reflexos oculocefálicos (cabeça de boneca) e oculovestibular (calórico) e ausência do reflexo de acomodação. Para Paim (1993), o coma, em grego quer dizer sono profundo, é o estado mais acentuado de perda da consciência, que se acompanha, geralmente, de perturbações neurológicas e somáticas gerais. O enfermo conserva apenas a vida vegetativa, estando bastante alterados, de acordo com a intensidade do estado, os automatismos reflexos da vida de relação. No estado comatoso a consciência se acha profundamente alterada ou quando abolida, tanto assim que o enfermo não dispõe da capacidade de se manter aberto ao mundo externo e, desse modo, ter consciência do vivo. Os estados de coma são observados em todas as formas diretas ou indiretas de lesão cerebral. DELÍRIO ONIRÓIDE – Para Paim (1993), o delírio oniróide é uma síndrome observada no curso de doenças febris, intoxicações crônicas e enfermidades cerebrais orgânicas. Em sua fase de pleno desenvolvimento, caracteriza-se por estes sintomas fundamentais: obnubilação da consciência, desorientação e alucinações. Após uma fase premonitória, de curta duração, em que o doente apresenta mal-estar, sono inquieto, sensações imprecisas, intranquilidade, cefaleia e hiperestesia, surge no quadro clinico a excitação psicomotora. A percepção do mundo exterior está completamente deformada pelas ilusões. As reações afetivas são muito vivas e adequadas ao conteúdo da consciência. O enfermo participa ativamente das cenas produzidas pela imaginação, as quais, geralmente, são angustiosas. O delírio oniróide apresenta-se no curso de enfermidades tóxicas e infecciosas. AMÊNCIA - A amência ou confusão mental é uma perturbação caracterizada principalmente por turvação mais ou menos acentuada da consciência, acompanhada de fenômenos de excitação psicomotora. É uma manifestação sintomática que se desenvolve de forma aguda com um quadro de confusão fantástica, acompanhada de transtornos ilusórios e alucinatórios, e inquietação motora. O quadro clínico corresponde em grande parte à loucura alucinatória do puerpério. A amência aparece nas doenças infeccionais e evolui para cura dentro de poucas semanas. ESTADOS CREPUSCULARES - Os estados crepusculares, segundo Dalgalarrondo (2008), são os estados patológicos transitórios nos quais uma obnubilação da consciência (mais ou menos perceptível) é acompanhada de relativa conservação da atividade. Nos estados crepusculares, há, portanto, estreitamento transitório do campo da consciência, afunilamento da consciência (que se restringe a um círculo de ideias, sentimentos ou representações de importância particular para o sujeito acometido), com a conservação de uma atividade psicomotora global mais ou menos coordenada, permitindo a ocorrência dos chamados atos automáticos. Para Paim (1993), os estados crepusculares são um estreitamento transitório da consciência, com a conservação de uma atividade mais ou menos coordenada. Acompanha-se de falsa compreensão da situação. Em geral, a percepção do mundo exterior é imperfeita ou de todo inexistente. Em alguns casos é possível observar a presença de alucinações e ideias deliroides. A conduta do enfermo durante o episódio pode parecer ordenada, principalmente quando a obnubilação da consciência não é muito acentuada. Costumam desaparecer rapidamente, mas em alguns podem durar muitos dias, apresentando-se e terminando de modo súbito, acompanhando-se de amnesia em relação às vivências acessuais. ONIRISMO - O onirismo é empregado para designar os estados de sonho patológico, caracterizado pela predominância extraordinária das representações imaginadas sobre as perturbações sensoriais e sensitivas, que são acentuadamente deformadas e amplificadas. No onirismo muitas imagens aparecem como nitidamente alucinatórias, isto é, com uma contribuição sensorial nula, mesmo quando são experimentadas como estéticas. O problema se coloca então na origem dessas estasias. Os estados de onirismo costumam apresentar-se nas perturbações mentais exógenas e na esquizofrenia. ALTERAÇÕES DA CONSCIÊNCIA DO EU - As alterações da consciência do eu são relacionadas com a identidade pessoal, incluindo-se os transtornos de êxtase, vivência de transformação do eu. ÊXTASE - O êxtase representa o mais elevado grau do sentimento vital. É a vivência de sentir-se fora-de-si, uma transformação da consciência do eu e da consciência do mundo que, em estado normal, se caracteriza pelo conhecimento das limitações da própria existência pela individualização do confinamento em um corpo e uma consciência individual. Como fenômeno psicopatológico é observado em alguns enfermos histéricos e esquizofrênicos. Na maior parte dos casos de êxtase psicogênico muito contribui para a autossugestão. O êxtase é observado com maior frequência em enfermos histéricos e mais raramente na esquizofrenia. A VIVÊNCIA DE TRANSFORMAÇÃO DO EU - A vivência de transformação do eu são sentimentos de transformação intima e interna, de metamorfose dos pensamentos e sentimento, como algo vago e indefinido do eu empírico e sente o seu eu mudado ou transformado sobrevém a vivencia de transformação da própria pessoa, que consiste no fato de que o enfermo já não pensa, não sente e nem age como antes, pois experimentou uma profunda mutação de sua personalidade, fenômeno observado no inicio da esquizofrenia. O mesmo pode ocorrer em alguns quadros neuróticos, quando o paciente se queixa de experimentar sentimentos de transformação dos traços característicos de sua individualidade, especialmente durante o tratamento pela psicoterapia. TRANSITIVISMO - O transitivismo é o fenômeno que consiste em o enfermo sentir-se transformado em outra pessoa. Em psicopatologia, o termo serve para designar as alterações observadas em alguns enfermos, que consistem no desaparecimento da relação entre o corpo e os objetos do meio exterior. trata-se da impossibilidade de estabelecer a distinção entre aquilo que é próprio do individuo e aquilo que pertence ao meio exterior. POSSESSÃO - A possessão, segundo Paim (1993) é a alteração da consciência do eu caracterizada pelo fato de individuo sentir-se possuído por entidades sobrenaturais, especialmente, espíritos ou pelo demônio. Possui um caráter universal e é explicado em termos de sugestão e como resultado de múltiplos desdobramentos do eu. A crença em espíritos desempenha papel importante no aparecime3nto da possessão, sendo, portanto, através da provocação artificial da possessão, o homem primitivo até certo ponto apossou-se dela para procurar voluntariamente a presença consciente do metafisico, e o desejo de gozar essa consciência da presença divina oferecendo forte incentivo para cultivar estados de possessão. Na clinica, observa-se que a possessão é acompanhada do sentimento de desdobramento da personalidade e se manifesta em sua forma típica no delírio e possessão demoníaca. As manifestações de possessão são encontradas habitualmente nos médiuns espíritas e os casos que chegam ao hospital psiquiátrico estão relacionados com enfermos histéricos e epilépticos. Existem casos de possessão demoníaca em enfermos que havia padecido de encefalite letárgica. TRANSE - Para Dalgalarrondo (2008) é o estado de dissociação da consciência que se assemelha a sonhar acordado, diferindo disso, porém, pela presença de atividade motora automática e estereotipada acompanhada de suspensão parcial dos movimentos voluntários. O estado de transe ocorre em contextos religiosos e culturais (espiritismo kardecista, religiões afro-brasileiras e religiões evangélicas pentecostais e neopentecostais). Os estados de transe e possessão culturalmente contextualizados e sancionados são fenômenos muito difundidos nas várias culturas em todo o mundo, vistos, na atualidade, como um recurso religioso e sociocultural que permite às pessoas, sobretudo às mulheres, lidar com as dificuldades da vida por meio de estratégias religiosas socialmente legitimadas. ESTADOS SEGUNDOS - Para Dalgalarrondo (2008) é o estado patológico transitório semelhante ao estado crepuscular, caracterizado por uma atividade psicomotora coordenada, a qual, entretanto, permanece estranha à personalidade do sujeito acometido e não se integra a ela. Para Paim (1993), os estados segundos é uma alteração da consciência vigil que surge em consequência de acontecimentos desagradáveis. O enfermo vivencia estados de consciência alternantes, correspondentes a duas personalidades distintas: a consciente e a inconsciente ou reprimida, sem que uma conserve lembrança da outra. CONVICÇÃO DE INEXISTÊNCIA PESSOAL - A convicção de inexistência pessoal é uma convicção do próprio corpo ou de certos órgãos, ou de que o enfermo não se encontra vivo e sim morto. O paciente apresenta uma forma de aniquilamento da própria corporalidade. Encontra-se essa anomalia em enfermos esquizofrênicos ou em casos de depressão grave. ALCOOLISMO - Os transtornos mentais alcoólicos ou embriaguez patológica observam-se habitualmente alterações da consciência. Nos casos graves, verificam-se a obnubilação muito acentuada, alucinações e impulsos patológicos. No delirium de abstinência alcoólica, além do cortejo sintomático constituído pelas alucinações visuais e táteis, desorientação alopsiquica, ideias deliroides e alterações de humor, notam-se profundas alterações do sensório. A síndrome de Korsakov acompanha-se de ligeira obnubilação da consciência. EPILEPSIA - Na epilepsia observam-se as alterações características da consciência. A supressão rápida da consciência é uma das mais frequentes formas de inicio da crise generalizada. A ausência se caracteriza, essencialmente, pela perda súbita e momentânea da consciência. ESQUIZOFRENIA - Nos casos de esquizofrenia, observam-se alguns sintomas típicos como a vivência de transformação do eu. Verifica-se, ainda, no transitivismo, que representa um sintoma de primeira ordem para o diagnóstico da enfermidade. EXPERIÊNCIA DE QUASE-MORTE – Segundo Dalgalarrondo (2008), a experiência de quase-morte, EQM (near death experience –NDE) é um estado especial de consciência é verificado em situações críticas de ameaça grave à vida, como parada cardíaca, hipóxia grave, isquemias, acidente automobilístico grave, entre outros, quando alguns sobreviventes afirmam ter vivenciado as chamadas experiências de quase-morte (EQM). São experiências muito rápidas (de segundos a minutos) em que um estado de consciência particular é vivenciado e registrado por essas pessoas. ALTERAÇÕES NORMAIS DA CONSCIÊNCIA - O sono normal. Para Dalgalarrondo (2008), o sono é um estado especial da consciência, que ocorre de forma recorrente e cíclica nos organismos superiores. É também, ao mesmo tempo, um estado comportamental e uma fase fisiológica normal e necessária do organismo. Dividem-se as fases do sono em duas, o sono sincronizado, sem movimentos oculares rápidos (sono NREM), e o sono dessincronizado, com movimentos oculares rápidos – rapid eye movements (sono REM). O SONHO – Para Dalgalarrondo (2008), o sonho, fenômeno associado ao sono, pode ser considerado uma alteração normal da consciência. É, sem dúvida, uma experiência humana fascinante e enigmática. Os sonhos são vivências predominantemente visuais, sendo rara a ocorrência de percepções auditivas, olfativas ou táteis. Veja mais aqui, aqui e aqui.
REFERÊNCIAS
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.
PAIM, Isaías. Curso de psicopatologia. São Paulo: EPU, 1993.

PROTEÇÃO DO CONSUMIDOR NO COMÉRCIO ELETRÔNICO – Para tratar sobre este assunto num trabalho acadêmico, faz-se conveniente efetuar uma revisão da literatura por meio de uma abordagem histórica da proteção das relações de consumo, o CDC como lei de ordem pública e de interesse social, a defesa do consumidor como direito fundamental, a relação de consumo no comércio eletrônico, a responsabilidade no âmbito civil e a formação dos contratos eletrônicos, conceito e objeto dos contratos celenrados na internet, classificação dos contratos, legislação, direito de arrependimento, princípios da proteção, princípio da vulnerabilidade e da hipossufiência, princípio da boa-fé objetiva e da transparência e da informação, destacando-se a importância do sistema nacional de defesa do consumidor, as regulações administrativas dos serviços públicos, composição e competência dos órgãos e aplicabilidade das sanções administrativas. Veja mais aqui e aqui.


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