domingo, agosto 29, 2021

DUGPA RIMPOCHE, NAOMI SHEMER, SILVIO TENDLER & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO

 

 

 

TRÍPTICO DQP – O retrato de avô... - Ao som da Full Performance (Live on KEXP, 2019) do projeto teatro-musical ucraniano Dakh Daughters, formado pelas artistas Nina Garenetska, Ruslana Khazipova, Tanya Havrylyuk, Solomia Melnyk, Anna Nikitina, Natalia Halanevych e Zo. – O meu avô era eu menino paparicado pelas mulheres da família, verdadeira idolatria, dele e minha. Segui os passos daquele que tornou-se o protótipo de tudo e crescia embalado aos regalos das mãos bobas e buliçosas com cheiradas beijoqueiras de todas as saias e lábios impudentes, afagos de tias, primas, comadres e vizinhas no meu sexo juvenil. Ele o meu ídolo e de todos os que eu conhecia, até vê-lo tombar sepultado nos meus olhos inocentes para o mais honroso dos mausoléus. Homenagens pelos nomes das ruas, bairros, prédios e memórias servis por toda região e nisso adolesci espantado. Ia a vida e por décadas o suntuoso perfil imaculado, nobreza atravessando os anos. Aonde chegasse, ele antes reverenciado até por desconhecidos, antecipava minha recepção: portas escancaradas. Até que um dia alguém maldisse o seu retrato. Quis saber qual a razão. A resposta fulminante na Constituição de Capistrano de Abreu (1853-1927): Todo brasileiro deve ter vergonha na cara. Artigo 2º - Revogam-se as disposições em contrário. Quem? Era o advogado João Roberto A. Neves que reiterava: Todo brasileiro está obrigado a ter vergonha na cara... Os velhacos do serviço público, os magistrados venais, os particulares que enriquecem cometendo os mais diversos atos ilícitos em conluio com agentes públicos, enfim, todos os que usam a máscara da probidade, geralmente tiveram bons professores em casa. E o exemplo de casa vai à praça. Nem sequer entendia direito o que ele falava. Não foi possível qualquer diálogo e procurei os meus a respeito. Fora dos domínios avoengos, o filme era outro: cenas horrorosas, desumanas. Não podia ser, mas era. Aquele a quem venerei era outro e nunca existiu, a não ser na íntima convivência. Fora das vistas e existência, decepcionante. A ponto de repudiar aquela pose no centro da sala.

 


Cenas esclarecedoras... - Era eu muito jovem quando assisti Os anos JK – Uma trajetória política (1980), do cineasta Silvio Tendler. Só aí comecei ligar as coisas e foi tão logo haver sacado as cenas do premiado Castro Alves – Retrato falado do poeta (1999). Liguei as coisas e fui me aboletar na poltrona do primeiro cinema para assistir Jango (1984). A ficha caiu – ah, meu avô. Depois disso, assisti outros: Milton Santos, pensador do Brasil (2001), Memória do Aço (1987), Glauber o filme – Labirinto do Brasil (2003), Utopia e barbárie (2009), Josué de Castro – Cidadão do mundo (1994), Conceição das Crioulas: Vestígios de Quilombo (1996), e muitos outros longas, documentários e series. Dele ouvi: O cinema sempre foi político. E absorvi. (Se quiser, veja mais aqui, aqui e aqui).

 


Desapontamento e consternações... – Imagem: A arte da artista argentina Ides Kihlen. – Mal tinha soletrado páginas dos Princípios de vida (Best Seller, 2004) do lama tibetano Dugpa Rimpoche (1938-1987) e ali grafado: O Universo fica equilibrado quando duas mãos se juntam. Sabia, o solidário me apetece. Foi aí que ele apareceu e me disse ao ouvido: Há um mistério do amor. Aqueles que se amam experimentam no seu coração a força de atração dos astros, a queimadura dos sóis, o começo e o fim dos mundos. Eles morrem e renascem num mesmo corpo. O amor é a outra vertente da solidão, o seu lado iluminado. Parecia restabelecer o ânimo, mas a vida passa entre ventos que vão e voltam...

 


Outras quedas, que coisa!... – Imagem: a arte do escultor, artista plástico e designer gráfico Amilcar de Castro (1920-2002). – A surpresa na cena: era a comédia Seis personagens à procura de um autor. Naquele tempo eu tinha uma vaga ideia a respeito do autor. Logo outra, a Assim é: se lhe parece, me chamou atenção. Tornei-me assíduo, onde entrasse em cartaz ou encontrasse livros, lá estava eu curioso: O conto d’A senhora Frola e o senhor Ponza, o Vestir os nusAh, Ercília nua, a comédia A patente, os relatos d’O falecido Mattia Pascal e o que ele dissera a respeito da arte. Lá estava eu envolvido com o que ele convencionou chamar de teatro do espelho, porque nele retratava a vida real, amarga e sem a máscara da hipocrisia. O inacreditável era que ele havia participado da campanha “coleta de ouro” organizada pelo ditador, doando inclusive a sua medalha de Prêmio Nobel. Como poderia? Tanto ele quanto Pound lá estavam engrossando aquelas fileiras detestáveis. Inacreditável. Era como se revisse o que se dera com meu progenitor.

 


Da desolação ao ânimo ressurreto... – Imagens: a arte do fotógrafo sul-africano Sam Haskins (1926-2009). – Não fosse a chegada inesperada da poeta cantante israelita, Naomi Shemer (1930-2004), não saberia eu o que fazer da vida. Chegou-me com um poema, Ainda não amei o suficiente: Com estas mãos / ainda não construí uma aldeia, / ainda não encontrei água / no meio do deserto, / ainda não desenhei uma flor, / ainda não descobri como / o caminho me levará / ou para onde vou. / Eu ainda não amava / o suficiente o vento e o sol / no meu rosto. / Ainda não amei o suficiente / e se não for agora, quando? / Ainda não plantei erva, / ainda não construí uma cidade, / ainda não plantei vinhas / em todas as colinas, / ainda não fiz tudo / com as minhas próprias mãos, / Eu ainda não tentei tudo que / ainda não amei o suficiente... E suas mãos alisaram-me a face e me abraçou ternamente e me beijou ardentemente para dançar nua, coxas, lábios e sexo por todo meu ser, como se fosse a coreógrafa francesa Janine Charrat (1924-2017), viva entre meus sonhos e divagações pelas ruas e desertos.

 


Mandíbula eleata... – Lá estava eu errante solitário e era uma epígrafe de Octávio Paz (alicerces do poema absoluto): Para o homem moderno, tudo lhe é estranho (inclusive o humano?) e em nada ele se reconhece. Eram as ressonâncias de ontens e amanhãs, o texto no corpo e a crença de que a poesia salva a alma do romance: Amanhã vou roubar um espelho com o sol dentro e dois simulacros de esmeralda distraída além de um turbante e uma chávena. Era o fluxo noturno de inconsciência sem alma, que se tecia num soneto primeiro: Amanhã não é outro dia, é a noite que dorme. E quatro poemas brotaram com outros tantos que eclodiram em seguida porque Sempre morremos à noite. Prove o contrário. E saltaram haicais com todas as náuseas de Sartre e a fórmula do caos Einstein & Freud verdades sem máscaras porque como Rilke O poeta combate com o anjo, ao louco e sublime Holderlin. A poesia é noturna na mandíbula: confesso que costumo roubar crepúsculos e moedas de lua velha (de prata encarquilhada), e eleata: o silêncio de Pitágoras contempla as planícies de alma, olha sais nascendo, é a lua bebendo o leite celeste entre os catetos do universo. E era como se olhos de Heráclito nos sussurros de Parmênides pelas lembranças lascivas das eternidades e mineração de infinitudes, filosofopoemas e naufrágios. E esta mandíbula eleata na dedicatória: Ao ancho côncavo cálice profundo lúcido lustroso e ilustre umbigo estrela do corpo. E Admmauro Gommes foi além da poesia e o Zé Ripe perplexo poema Vital. Nada mais que um Coração de areia num verbete do Dicionário anticrítico de êmbolos e lampejos na Pálpebra de pedra e era a Prosa do futuro arcaico na Insólita clepsidra dos 50 poemas escolhidos peloautor. E se era Borges & Eugénio era um Bando de Mônadas no Dado Acaso e no Catálogo de ângulos, para que se desse o Crepúsculo do pênis no Hímen de Mallarmé, só porque Kant não estuprou a camareira com todas as Confissões de Ave sólida, Ora pro nobis Scania Vabis. E eram as Inesperadas nêsperas na Fractália lírica do Id no Atanor da poesia absoluta do Vate vital. Poesia absoluta sim, Poesia Absoluta no Título provisório em que Ana de Amsterdam inaugurava a Gesta pernambucana em que tudo fosse uma Segunda edição da Semata e da Burocracial exasperação, para que outras tantas Mônadas testemunhassem Palpo a quimera e o tremor. E o poeta olhos acesos pedisse mais que lúcido no meio da noite: Quiçá, menos luz. Porque Só às paredes confesso, porque A poesia salva a alma. E viva a vida! Até mais ver.

 

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segunda-feira, agosto 16, 2021

ELENA PONIATOWSKA, MARIO ARREGUI, LOUISE FARRENC & HELENA LOPES

 

 

TRÍPTICO DQP – UM SÁBADO & OUTRO... Imagem: Artes de Priscila Artes – Priscila Silva, ao som das Symphonies 1 & 3, da compositora francesa Louise Farrenc, na interpretação da Insula Orchesta & Laurence Equilbey. – O primeiro, um sábado ensolarado. A praça estava invadida pela barulhada de um dia de feira. No centro, gente; na verdade, artistas ou quase, ao menos. Um grupo oriundo do Recife dava o tom do evento: eram os renomados. Da terra, outros tantos, cada qual, seus apetrechos e expressões. Estava bonito, como sempre: era dia de homenagear Murillo La Greca! Tudo muito bom. No segundo, outro dia azulado na Biblioteca de Fenelon, a gente conversava sobre Planejamento e elaboração de projetos. Era uma promoção da ABI e as ideias rolando sobre o que fazer desta uma outra cidade mais humana, mais artística, mais Palmares. Assim foram estes e que outros destes sábados possam acontecer.

 


DOIS OLHOS NOS MEUS - Imagem da pintora, gravadora e professora Helena Lopes, ao som da canção Seu olhar do álbum Dia Dorim Noite Neon (WEA, 1985), de Gilberto Gil: - A magia do olhar de quem chega... – Entre a praça e a biblioteca, o olhar dela pousou no meu: faíscas, relâmpagos, o coração era a Terra convulsa. Aproximou-se e o espanto como um raio de Sol, era a premiada escritora, ativista e jornalista mexicana Elena Poniatowska Amor: Hoje não quero ser meiga, calma, decente, submissa, compreensiva, resignada, qualidades que os amigos sempre valorizam. Nem quero ser maternal... As mulheres são desprezadas, consumidas, descartadas, estigmatizadas, enforcadas para sempre na árvore patriarcal e enforcadas lá... Sim, eu sei. Olhou pros lados e, de repente, um sorriso só dela, seus olhos de novo nos meus e...: Pela primeira vez em quatro longos anos, sinto que você não está longe, estou cheio de você, isto é, de tinta... Para esquecer, você deve primeiro lembrar... Você começa a saber o que é um governo, você percebe o que é, quando este governo joga os tanques na rua. Sim, sei, mesmo que seja só escárnio ou impotência, tudo está muito difícil. Deveras, tudo me parece um filme horroroso que na verdade vivi na infância, por toda minha adolescência e quase nem adulteci direito por isso: a revolta no peito pela injustiça de todos os mandos. Por um instante senti um gosto de sangue na boca, como se ouvisse Isaac Asimov: Examinem fragmentos de pseudociência e encontrarão um manto de proteção, um polegar para chupar, umas barras de saia para se agarrar. E o que oferecemos nós em troca? Incerteza! Insegurança! Ela percebeu o tanto de injuriado fiquei naquele momento e voltou a sorrir com um olhar meigo e parecia me dizer aquela frase extraída d’A vassoura da bruxa nos Cavalos do Amanhecer (L&PM, 2003), do escritor uruguaio Mario Arregui (1915-1985): Muitas coisas foram ditas, repito, mas não houve quem fosse capaz sequer uma aproximação daquela frase antiquíssima (nascida na costa oriental do Mar Egeu há quase vinte e cinco séculos) que asseverava que ninguém fica tão unido a ninguém como o homicida a sua vítima. Sim. E é como se o mato queimasse dentro mim, labaredas amazônicas e pantaneiras, e eu tostasse atávica herança como espólio de cinzas.

 


TRÊS VEZES ME FALOU ELA... - E era ela na tarde renascida da manhã sonhada na noite anterior, e eu pudesse vê-la sorrir desnudada entre meus braços e suas outras almas, a me dizer do que lera outro dia e que estava escrito Nas suas veias corria tinta de jornal (AIP, 1980), de Múcio Borges da Fonseca, sobre a trajetória do jornalista Josimar Moreira de Melo (1927-1865), ecoando como se lesse no meu íntimo: Nunca me senti tão cansado em minha vida... Há os que esperam o meu fracasso – um esforço de quatro anos, no decorrer dos quais quase fui largado no meio do caminho e pude contar com a ajuda, a amizade e o apoio de um amigo que agora espera de mim esse esforço... E me sorria como se soubesse o que eu pensava, a me dizer Millôr: Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem. Não devemos resistir às tentações: elas podem não voltar. E gargalhou no meio do tempo com meu tronco entre seu sexo, coxas e pernas. E me fitou enviesada como se quisesse dizer exatamente o que dissera outras vezes Bukowski, e me fazendo de gangorra rodopiante: Não, eu não odeio as pessoas. Só prefiro quando elas não estão por perto. Se você vai tentar, vá até o fim, caso contrário, nem comece. Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo. Adivinhei? E perguntou outras vezes e tantas como se quisesse saber para onde vou, e refaz a indagação com ar de enigmática, como se eu soubesse de algo além daquele momento que ela me premiava e eu só tinha a minha vida e ela para me amparar ali no seu abraço e corpo, nada mais. Até mais ver.

 

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segunda-feira, agosto 02, 2021

GEORGES PEREC, ARATA ISOZAKI, CHOPIN & FERNANDO MONTEIRO

 

 

TRÍPTICO DQP – Fragmentos do caos... - Ao som do álbum Chopin: Complete Nocturnes (Harmonia Mundi, 2010), na interpretação da pianista francesa Brigitte Engerer (1952-2012). – Meus passos perdidos pelas calçadas. À esquina, procurei a direção precisa e percebi a aproximação de alguém. Era o arquiteto japonês Arata Isozaki: Quando eu comecei a ter idade para entender o mundo, minha cidade foi incendiada. Paradoxalmente, a mudança se tornaria meu estilo. Assim também a minha terra, queimadas insanas da monocultura açucareira escondiam o rumo. Nem se despediu e mantive a caminhada até a praça, quando dei com um semblante familiar que me seguia. Ele sorriu e o que fazer, não sabia. Fitei melhor e era Georges Perec que me sussurrou: Je me Souviens... Sim? E continuou: Eu me lembro das horas passadas com minha irmã girando um globo terrestre, os olhos fechados, o dedo apontado acima, e de não mexê-lo até que o globo parasse, quando imaginávamos então viagens e encontros... Eu não me lembro do momento de meu nascimento... Je me souviens... Sentou-se e ao seu lado disse-lhe que também me lembrava de muito coisa, inclusive dele que eu sabia morto há muito tempo, como se ninguém desse por seu sumiço, deixando o inacabado 53 Jours, como única pista de um escritor que desapareceu e o leitor que era eu o único acusado pelo crime no seu romance policial. E mais sorriu como se me falasse do Les Choses: une histoire des années soixante (1965), do W, or the Memory of Childhood (1975) e tantas outras escondidas na memória, a ponto da gente perder a noção do tempo e não perceber que a tarde já era noite, hora de voltar. Um aceno de despedida e seguimos lados opostos, a minha cidade era outra tão estranha quanto nunca vista, assim o meu país que se apagou do mapa e me deixou à deriva, entre dores e delícias da vida perplexa, armadilhas de alto risco.

 


A solidão de Chopin... - Os tons pianísticos de longe seguiam meus passos. Logo me veio à memória que Fryderyk era da aldeia Zelowa Wola, polaco de nascimento incerto e que herdou o piano da sua mãe Tekla Justyna. Era uma criança aluada, pálida e sentimental que na escola fazia a vez do retratista talentoso e escritor mordaz, escrevendo cartas parodiando o noticiário. Com sua irmã nas aulas de piano, repassavam o que ainda menino das duas polonesas e logo a atração nos salões: a gola da camisa da criança prodígio. Já Frédéric era de Paris, aquele mesmo do noivado secreto com Maria Wodzińska, até o escancaro com George, ah, Amandine-Aurore Lucile, a baronesa Dudevant e seus inúmeros casos amorosos, o mosteiro de Valldemossa e os prelúdios, a Spring Waltz – mariage d’amour, os Noturnos, Etudes, quantas músicas que ouvi nos recitais de Olga e na sensualidade de Lola, a carta de amor. Não dava nem para lembrar os diagnósticos dos médicos de Mallorca: o primeiro disse que eu iria morrer; o segundo, que eu tinha um último suspiro; e o terceiro, que eu já estava morto. Dava para imaginar o verão de Nohant, a volta a Paris e a Lucrezia Floriani dela, era o fim e um poema de Proust: Chopin, mar de soluços, lágrimas, suspiros, / que um voo de ágeis borboletas atravessa, / a brincar com a tristeza, a apascentar seus giros / seduz, aquieta, sofre, agita, grita, apressa, / ama ou embala, e faz rolar em meio às dores / o doce olvido do capricho teu, fugaz, / como as borboletas embriagadas de flores. / Tua alegria é cúmplice da dor tenaz, / o alado torvelinho amaina os dissabores / das águas e da lua meigo confidente, / príncipe da aflição ou grão-senhor traído, / quanto mais pálido mais belo, entretido / com o sol a inundar teu quarto de doente, / tu te exaltas com a luz, a bem-aventurança / da luz que chora o seu sorriso de Esperança. Nada mais restava senão prosseguir.

 


De Recife & Fernando Monteiro... - Prossigo minha caminhada de volta e nunca chegar, quando alguém indagou: Você viu Mônica? Não. Pelo sotaque era um lusitano perdido na esquina da Guararapes e que voltou para me perguntar se eu tinha visto A mulher da Alameda Linhas Torres e mais uma vez respondi que não e que ele era Aspades que havia se desencontrado do ET que sumira na imaginação de Fernando Monteiro que, por sua vez, esperava Flaubert não sei onde. De resto eu só sabia desde o poema da Memória do mar sublevado (EdUFPE, 1973), uns do Ecométrica (1984) e da peça teatral O rei póstumo (1975), porque era o tempo que eu zanzava acimabaixo do Cais do Apolo ao Derby e que tinha avisado da chegada do Camilo Cela no premiad’A Cabeça no Fundo do Entulho, e só muito depois soube dos poemas de Hiléiade (Reis, 1984) e d’A interrogação dos dias (Encontro, 1984), d’A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro (2001), d’O Grau Graumann (2002) e d’As Confissões de Lúcio (2006), mais nada e sei que tem muito mais de documentários, de prosas, ensaios e outrartes, porque o Recife é o mundo e muito mais. Vou catar, até mais ver.

 

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sexta-feira, julho 30, 2021

ATTILA JÓZSEF, DOSTOIEVSKI, LOUJAIN ALHATHLOUL, IZA COSTA & GENTIL PORTO FILHO

 

 

TRÍPTICO DQP – Más notícias do Fecamepa... - Ao som dos álbuns Mensageiro (2014) e O convertido (2013), do compositor, instrumentista, arranjador e violeiro Adelmo Arcoverde. – O Norte queima: aos cinquenta graus bafejam as águas quentes do império. O Sul congela e lá se vão estátuas que se dissolvem com o piscar de olhos ao primeiro raio solar. Estou de frente pro Leste e às minhas costoestes a mata é só carbono, não sei como será possível sobreviver, porque o meu país sucumbe à fraude Coisonária em plena festa do Fecamepa e a esperança é um pássaro extinto que, mesmo assim, teima em voar no meu coração entoando aquele verso escatológico do Jayme Griz. Quase me rendo ao desespero, não fosse a linda ativista saudita Loujain Alhathloul a me surpreender: Todos nós temos que perceber que criticar alguns fenômenos em nosso país não significa odiá-los, desejar o mal para eles, nem é uma tentativa de abalar seu equilíbrio, é o oposto total. Qualquer cidadão pode ficar chateado com alguns incidentes que ocorrem por aqui, mas isso é apenas um sinal direto do interesse na melhoria de seu próprio país e da esperança de vê-lo como um líder global. Continuo muito otimista quanto a um futuro brilhante para meu país e seus cidadãos. Eu vou vencer. Não imediatamente, mas definitivamente. Vê-la é o mesmo que ressuscitar num amanhecer ainda escuro. E não satisfeita, recitou-me Attila József: Quando nasci tinha uma faca na mão. / Dizem: é poesia. / Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca. / Nasci para ser homem. / Alguém soluça uma felicidade apaixonada. / Dizem: é amor. / Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas! / Só contigo eu brinco. / Não recordo nada e também nada esqueço. / Dizem: como é possível? / O que deixo cair mantém-se sobre a terra. / Se o não encontro, tu o encontrarás. / A terra me aprisiona, o mar me dilacera. / Dizem: um dia morrerás. / Mas dizem-se tantas coisas a um homem / que nem sequer respondo. Assim, o seu beijo me tocou arrepiando a alma para, entre o verdadeiro e o escatológico, sonhar e fazer.

 


A solidão de Dostoievski – Imagem: arte da desenhista, pintora, professora e gravurista Iza Costa (1942-2021). – Não era eu, mas aquele a quem senti doer na pele o pai alcoólatra, a engenharia entediante, a enfermidade militar – precisava ser gente e deixara o exército para vê-lo assassinado. O único prêmio foi esbanjar a herança com a poesia de Puchkin, a prosa de Balzac, leituras de Fourier, e ouvir de Necrasov: Você sabe o que escreveu? Nem eu sabia, era só gente pobre, os mesmos dos contos d’O Dobro. Senti na pele a sua prisão por traição, condenado à morte. No local da execução, a sentença para ouvi-lo dizer: Não me restava mais que um minuto de vida! Ah, não! Mas, uma bandeira branca e a comutação da pena: trabalhos forçados na Sibéria - triturando pedras, carregando rochas, a epilepsia. As visões de quantos ali desencarnavam, outros enlouqueciam, as cicatrizes das lembranças. Havia Maria, sim, aquela que era Dimitrieva Isaieva, esperou por ela, a desilusão ao vê-la enviuvar: seria a chance de ser feliz, pensara, não era, um desgosto - era ela, o filho e o amante. Chegou a vez de Humilhados e ofendidos. Por remissão, o elogio de Tolstoi: Recordação da casa dos mortos. E o passeio do leão enjaulado pela tardia, com tantos episódios violentos e torturas íntimas no campo de batalha, os pesadelos patológicos e o intolerável sofrimento, o desespero pela salvação, a pobreza e o Livro de Jó, as almas aflitas, a revista censurada, o infortúnio e a perda de memória. Na solidão estava Polina abandonada e morta de fome. A salvação no jogo e lá se foi a esposa que não mais era, o irmão e a depressão: Vivo como um mendigo. Era a vez de O jogador e, depois, Crime e castigo. Não fosse a taquígrafa Ana, a que era Grigorieva Snitquin, jamais haveria a autobiografia lúgubre: Notas do inferno, cartas de além túmulo, o exílio dos credores. Precisava da terra, do seu chão para se salvar da doença sagrada e escrever a vida. O retorno e O idiota e, depois, Os possessos. Foi-se o primeiro filho, segurou como pode o segundo, o sentimento de culpa, os tormentos: base indispensável para O eterno marido e Os irmãos Karamazov. Parecia mais um fanático monge esfarrapado, e a hemorragia na vida lôbrega e desequilibrada: um extravagante contraditório, um intolerante com a indecência de dizer a verdade, as matérias da alma, as confissões, a incontinência verbal. Ouvi-lo dizer: Quanto mais gosto da humanidade em geral, menos aprecio as pessoas em particular, como indivíduos... Às vezes o homem prefere o sofrimento à paixão... A maior felicidade é quando a pessoa sabe por que é que é infeliz. Bem, com ele as inquietações: se Deus existe, não sei; só do amor entre todos! Um raio de Sol, a doença e a morte.

 


Seiscentos&sessenta&seis... – Só sei da vida e quando fui em Floresta pela primeira vez, nem era ainda o Eixo Leste da transposição do Velho Chico, vi na cabeça o navio e o dedo do poeta na única nuvem dos meus avós maternos que já se foram para nunca mais. Dez ou cinco anos atrás, nem lembro direito quando fui de novo e passeei pela margem direita do Pajeú, comendo tomate e melancia, ouvindo os lamentos dos praieiros que fugiam do meu rio no meio do sul da mata. Daquela nuvem eles riam porque eu estava noutra tarde da Pracinha do Diário e ali, o então profeta, começou a me dizer de pedra e de trivialidades por cima e por baixo doutras arestas e era como se eu para lá retornasse seiscentas e sessenta e seis milhões de vezes e soubesse da vidarte na caleidoscopia aplicada e o barulho da queda que vinha de lá do farol de Olinda e ficou como se dois olhos não lembrassem. Seiscentas e outras tantas vezes, meus avós no coração. Com isso tudo, então, segui a teia do Eclesiástico (Autor, 2021), o poemevangelho de Gentil Porto Filho: ... velozes de dia, lentos à noite / recordes de velocidade / recordes de luxúria / recordes de cochilo e insônia / vivendo para bater recordes / conforme as oportunidades / desrespeitando ciclos e estações / sem coordenadas xyt / casas de praia no campo / jangadas e cavalos a postos / horas e dias que passam / uma hora de dois dias / um dia de duas horas / ontem mesmo durou duas horas / hoje, dois dias / se eu fosse sincero, diria uma vida inteira etc... na última linha só me restava saudar o poeta e celebrá-lo desde o Livro Fechado, desdantes! A vida, apesar de tudo, o que nos cabe. Até mais ver.

 

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quinta-feira, julho 22, 2021

OSKAR GRAF, ERNA LENDVAI-DIRCKSEN, BRUNO PAES MANSO, BOSCO BRASIL & LUIS MENDONÇA

 

 

TRÍPTICO DQP – Notícias do Fecamepa: Da peste ao caos... - Ao som da The Brazilian Suite KPM-1071 (1970), de Rogério Duprat. – Desabou? Quase! Eita. Porqueira! É lamentável ver o país devastado e o Fecamepa no balanço festivo da desgraça. No olho do furacão, Coisonário se debate entre bravatas e petas sobre o morticínio de mais de meio milhão de vidas. Como não sabe ler direito, desconhece o que seja lista tríplice (que porra é essa) e reconduz o PostAras quebrando todos os protocolos. Ou melhor, caga na entrada de melar até a saída para as gadociatas nazifascistas, maior meladeiro todo dia e o dia todo. Para deixar seu filme cada vez mais chocho e pior que fiapinho de nada, o General Vice é enxotado de Angola na tentativa de salvar a diabólica UnEdir, enquanto a Amazônia e o resto de vivoverde é queimado para gozo do agronegócio e grileiros desalmados que insistem em extinguir de vez os indígenas, valha-me a desfortuna da rotônica! Além do mais, cada um dos seus desconfiáveis e indigestos ministros e colaboradores cometem cipoadas as mais cabeludas, contam-se aos borbotões do filadpuGuedes, da Doidamares, da esquisitagricultura TetêCricri e os outros desmiolados sabifalidos, que não enxergam seu capitão se afrouxado com as calças arriadas e de quatro pro inescrupuloso Kid Centrão: serão todos enrabados sem dó pelo gigantesco falo melado de areia do algoz; isso ele, as debuputadas e outros prosélitos. Afora isso, vão todos de cara lisa, porque eles nunca viram O interrogatório de Peter Weiss ou sequer leram uma linha que seja do livro A República das Milícias - Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro (Todavia, 2020), do cientista político Bruno Paes Manso. Enquanto isso, vão todos entre pipocos escandalosos de generais, salafrários e estúpidos, a coisa desanda a deixar a gente quase a não ver navio nem nada, só as estatísticas pandêmicas e dos desplantes. Eta Brasilzim véio, arrevirado e de porteira escancarada!

 


A urdidura labiríntica do amor e desfecho... - Imagem: a arte da fotógrafa alemã Erna Lendvai-Dircksen (1883–1962) – Os meus nos olhos dela, livros e desejos ocultos. Assim, lá e cá, ela e eu, tímidos e cautelosos, o cenário nada auspicioso. Se o país derretia, assim nossos corações e nenhum de nós previa onde tudo ia dar. Propositadamente ela sacava Emma Lazarus: Dai-me vossos pobres fatigados, / As multidões que por só respirarem livres zelam, / Resíduos miseráveis dos caminhos fervilhados. / Mandai-os a mim, desabrigados, que a minha vela / Os guiará, calmos, através dos portões dourados! E fechava com a frase da poeta: Até que sejamos todos livres, nenhum de nós é livre. À provocação dela eu respondia com o escritor alemão Oskar Maria Graf (1894-1967): Não mereci esta desonra! Com relação a toda minha vida e toda minha obra, tenho o direito de exigir que meus livros sejam lançados à chama pura da fogueira e não venham parar nas mãos sangrentas e nos cérebros podres dos bandos assassinos marrons. Não sabíamos, mas era como se estivéssemos no enredo d’O acidente, do dramaturgo Bosco Brasil: dois humildes funcionários criadores de uma ideia de cada um e moldando a suas vidas baseados nisso, até a festa do meu aniversário e ela chega, ficamos encurralados: era a paixão latente, a descoberta do idílio, a revelação das verdadeiras identidades e a nossa tragédia. Não era apenas: ...uma peça de cena única, com narrativa fechada, que se passa em tempo real, como dizia o autor, éramos nós desolados entre livros e segredos: nosso mundo está envolvido pelas dores da humanidade e de tudo que nos circunda. Ela não resiste e se vai, esse desfecho me levou à solidão e outra era a cena, a do Ilustríssimo Filho da Mãe, da Leilah Assumpção, depondo inconsolável à mãe ausente imaginária, todo meu desconsolo e fracasso, dúvidas e ressentimentos.

 


A festa popular do teatro... – Era preciso resistir e tomar outra direção. Assim fiz e me deparei com a ilustre arte do ator, dramaturgo, professor e diretor Luis Mendonça (1931-1995), o mesmo que iniciou lá pelos anos 1951 suas atividades teatrais com o Teatro do Estudante Secundário do Recife e que atuou no teatro, cinema e televisão. O maravilhoso da ideia dele era a defesa do teatro para o povo e com o povo, a exemplo da iniciativa com sua mãe, dona Sebastiana Mendonça, a Paixão de Jesus de Nova Jerusalém. A arte, para ele, era a salvação das pessoas. Tanto que em depoimento sobre a experiência do Teatro de Cultura Popular de Pernambuco, reproduzido na Arte em revista, ano 2 n. 3, 1964, dissera: Quase toda a cidade do Recife era servida por Centros e Praças de Cultura, além de 8 Centros Educativos Operários com teatros aparelhados e construídos desde os idos do Estado Novo... A festa... não houve. Foi o maior 1º de abril dos que lutavam no Teatro de Cultura Popular. Era porque ele integrava o MCP, ao lado de Paulo Freire, Hermilo, Abelardo e Ariano, que foi assaltado pelo golpe de 1964, o exílio no Rio de Janeiro. Aí montou Viva o cordão encarnado, de Luiz Marinho, tornando-se a partir de então, arte-educador, ao mesmo tempo em que colocava em cena figuras como Wilker, Tânia Alves e Elke Maravilha, encenando Vital Santos, Osman Lins e Brecht, entre outros. Noutro momento, ele depôs: Os teatros, principalmente os municipais, com toda a sua ostentação, são verdadeiros espantalhos para o público. É difícil levar o povo ao teatro; tem que se levar o teatro ao povo. Além disso, na rua ou no campo, o público é desconfiado. É preciso que organizações de classe ou bairro o levem ou lhe recomendem. Mas, se o teatro for bem feito, o público fica grato e o aplaude. E chegou o espetáculo Auréola, com elenco formado por jovens oriundos da Varginha, interpretando a cena de anjos que desciam à Terra para coroar uma santa, mas que decidem coroar o busto de um traficante morto a tiros, um Robin Hood tupiniquim. Já havia evidenciado que: O importante é assinalar que é preciso partir suas circunstâncias, descer até ele para fazê-lo subir, gradativamente, até a assimilação do que lhe quisermos dar. E dar como teatro, como diversão, como espetáculo; do contrário, engajado ou não, mesmo que fale de coisas que lhe digam respeito, ele não o aceita. Foi com essa garra que dirigiu vários grupos, entre os quais o Teatro de Cultura Popular de Pernambuco, cuja importante experiência transmitiu em depoimento veiculado na Revista da Civilização Brasileira: Teatro e Realidade Brasileira. O que me fez ainda mais feliz foi saber que a sua trajetória instigante foi reunida na obra Luiz Mendonça: teatro é festa para o povo (FCCR, 2005), de Luis e Carlos Reis. Até mais ver.

 

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quarta-feira, julho 21, 2021

MICHAEL CONNELLY, NATALIA OSIPOVA, AMANDA VIEIRA, JORGE GARCIA, A DONZELA & A BAILARIA MORTAL

 

 

TRÍPTICO DQP – A donzela mágica... - Ao som Le Cygne – The SwanLe carnaval des animaux, de Camille Saint-Saëns, na interpretação de Han-Na Chang & Philharmonia Orchestra, conductor Leonard Slatkin & solo The Dying Swan da bailarina russa Natalia Osipova. - Lá estava ela jogada nas pedrarias da ilha do mar de Amadis de Gaula. Não sabia se ferida ou machucada ao pé do penhasco escarpado e árido da imensa altura de tocar as nuvens, acho. Estava desacordada e fiquei sem saber o que fazer. Toquei-lhe o pulso, ainda viva. Vi que tremiam suas pálpebras e lábios, um vago movimento na perna direita, um incerto tatear da mão esquerda tocou-me e afaguei seu braço e a deitei em meu peito alisando seus cabelos. Um sussurro dolorido e se ajeitou em mim, beijei-lhe os cabelos e ali fiquei cuidando dela não sei por quanto tempo. Abriu os olhos, expôs sua boca sedutora e beijou-me como se pedisse socorro. Correspondi ao beijo e a abriguei em meus braços a noite inteira até ao amanhecer. Ela tentou se recompor e despertou sem noção de nada, fitou-me seriamente e me contou que era a filha do mágico de Argos, Finetor, e se chamava Oriana. Versada em necromancia, vivia ali toda a sua vida e sua diversão era acompanhar a passagem de numerosos barcos que vinham ou iam para Irlanda ou Noruega e delas, por artes da magia, atrair os homens para roubar-lhes as cargas, aprisionar os cavaleiros a bordo, provocando-os a lutarem entre si até se matarem. Certa feita, entre os cavaleiros havia um oriundo de Creta, por quem ela apaixonou-se perdidamente. Deu-lhe tudo em troca do seu amor e ele fingiu amá-la, familiarizando-se c0m seus encantamentos até que, um dia, ele inclinou-se no alto do rochedo fingindo abraçá-la, jogou-a da varanda de sua esplêndida mansão. Ali estava. O que ele fez? Libertou todos os prisioneiros e levou consigo muitos tesouros dela, só não conseguindo levar nada da sala mais rica do castelo por causa do encantamento. Ouvi atento a tudo que contara e perguntei como poderia sair dali, respondeu-me que a paragem mais próxima estava a uns seis dias de viagem, a ilha da Torre Escarlate. Vi-a distante, sabia do que dissera o escritor estadunidense Michael Connelly: Eu vejo as pessoas de duas maneiras. Eles são pessoas olho-por-olho ou vira-a-cara. Não importava que guerra fosse travada, voltar para casa era outra batalha. Não há nada que você possa fazer sobre o passado, exceto mantê-lo lá. O que é importante não é o que você ouve dizer, mas o que você observa. E fiquei ali calado, fitando seus gestos e contemplações. Por fim, ofereceu-me por presente e gratidão tudo que houvesse na sala encantada do seu palácio, e me fez seguir o caminho de subida, livrando-me das serpentas e outras criaturas terríveis que hibernavam ao redor da porta da câmara, a qual possui painéis com letras de cor sanguínea, uma escrita misteriosa que contém o nome do cavaleiro destinado a entrar na sala depois de retirar a espada presa na maçaneta. Tudo me contou e agradeci, mas disse-lhe não me interessava riquezas, mas levá-la aos seus aposentos. Subimos o íngreme caminho e nos deparamos com a porta: lá estava inscrito o meu nome. Ela sorriu com um abraço afetuoso, eu tinha que voltar.

 


A bailarina mortal... - Ao retornar reencontrei o meu mundo e não seria fácil sobreviver. Pouco tempo depois ela reapareceu familiar com um verso da Conceição Evaristo: O que os livros escondem, / as palavras ditas libertam. / E não há quem ponha / um ponto-final na história… Estava mais deslumbrante que antes, lívida e estonteante. Não havia há como saber se era setembro de antanho ou fevereiro dagora, só que parecia tão atordoante como um mal que vinha de longe e com muitos nomes, a bordo de um navio e a dizer: salve-se quem puder. Sorria muito e encantadoramente. Logo quando a vi me veio a sensação de um verso de Fernando Pessoa: Ah, o horror de morrer! / E encontrar o mistério frente a frente / Sem poder evitá-lo, sem poder… Era como se ela me levasse por uma dança acasaladora, na qual perdia a memória e a identidade. Ao sobreviver o redemoinho de sua entrega, logo constatei que o Recife estava acometido de uma tanatomorbia e era ela dançando solta com todos os santos, uma espanholada sobre o salubre e a borracha, sem poupar mascarados no seu carnaval. Ela onde chegasse parava tudo a desnudar o precário em seu massacre. E ali José Miguel Wisnik denunciasse: Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus. E era. Tudo muito confuso: mortes, noticiário, disputas e negacionismo faziam a festa da hecatombe no embuste da oferta de curas milagrosas: estávamos todos à sua mercê a ponto de não se saber se era o século passado ou o presente, não fosse a denúncia de Lilia Schwarcz e Heloisa Murgel Starling e quase ninguém ouvia encantado com o espetáculo. Ao ver-me assustado Lilia contou do espetáculo das raças com as barbas do imperador e o triste visionário Lima Barreto. Heloisa, por sua vez, segurou minhas mãos trêmulas e me falou dos senhores gerais, das lembranças do Brasil e dos impasses contemporâneos, dialogando com Lilia sobre a biografia do nosso chão. Eu entendia tudo e quase desentendia de nada, o que sabia é que era uma guerra, uma guerra igual a de ontem e confuso se a primeira, segunda ou sabe-se lá, todo dia aqui é uma guerra e que milhões de pessoas são ceifadas. E ela era a bailarina mortal, imensa, pandêmica. E tudo me levava a crer que se não fosse possível lembrar o que ocorreu durante os mais diversos períodos históricos, não havia outra coisa a fazer, repetir tudo seria a condenação.

 


A dança da cidade... Imagem: a bailarina Amanda Vieira, do Bolshoi Brasil na Companhia da Ópera de Dortmund: Sempre esperei o momento em que eu pudesse viver e me sustentar apenas da dança, e esse momento finalmente chegou! – Nem sabia direito, mas ela me salvou não sei como. Sei que a cidade era a mesma e era outro momento de carnaval perdido e todos mascarados, eu, ela, muitos. Os seus olhos apreensivos me levaram ao coreógrafo e bailarino Jorge Garcia, tão inquieto quanto nós, entre a Cisne Negro, o GRUA e o Balé de São Paulo, num performático improviso, a me contar de Marie van Goethem, e eu nem sabia se tratar da pequena em perpétua quarta posição do balé de Degas e do Little Dancer Aged Fourteen de Camille Laurens. Sim e... Se o pintor, como dissera: encerrei meu coração numa sapatilha de cetim cor-de-rosa, e a sua musa virou um fantasma sem história, para nós era mais que magia pura o que vivíamos na alma do Recife: a dor é que era nossa. Diferente da musa que desaparecera sem deixar nenhum rastro, para onde quer que eu vá, a cidade enche meu coração de esperança por todas as paragens distantes e perdidas. Até mais ver.

 

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