sábado, junho 28, 2014

MAYA DEREN, ALYSSA WONG, NANCY MITFORD, VIRGINIA JOHNSON, TAWAKEL KARMAN & CÂMARA JR.

 


A ILUSÃO DE MAYA - Seu nome era a água e o véu da ilusão da mãe budista, jamais um espantalho exilado no meu coração erradio. Quantas vezes ela escondida pelo vidro da janela com seus olhos atirados em mim. Não pouparia sequer a ousadia de invadi-la escadarias tortuosas para todos os lados, mergulhando firme na ilusão. Ah, Eleanora, eu a receberia de braços abertos e a envolveria como se fosse aquela judia taurina nascida lá pelas bandas de Kiev, justo na eclosão da Revolução Russa. Alentaria a sua sensação de quem mal completara cinco anos, na fuga dos pogrons antissemitas para New York. Não lhe resistiria jamais, mesmo depois da separação dos pais, quando você foi entregue para um internato na Suíça. Lá eu iria todas as vezes até acompanhá-la nos seus quinze anos, retornando assustada para se tornar ativista das causas socialistas com os estudos em jornalismo e ciência política. E estaria na festa do seu casamento e, logo, saberia da separação repetina a desabrochar-lhe em poesia. E a embalaria com a coreografia ensaística do Religious Possession in Dancing. E estaria ao lado quando emergisse o experimentalismo da parceria no Meshes of the Afternoon, para chegar até Study in Choreography for Camera e o Three Abandoned Films. Engrossaria as fileiras no At Land, testemunhando os aplausos na fotografia do An Anagram of Ideas on Art, Form and Film. Descobriria o seu lirismo underground no Haiti e a iniciação da sacerdotisa do Vodu: Divine Horsemen: The Living Gods of Haiti. Participaria festivo da colagem musical Meditation on Violence. Eu já saberia do seu desejo Medusa pra chegar no The Very Eye of Night. Meus olhos estariam nos seus a todo momento, não fosse aquele indesejável derrame cerebral e suas cinzas no Monte Fuji para sumir como uma temporada de estranhos. O que ficou foi vê-la ressurreta nua, ali deitada na areia da praia dos nossos sonhos. Veja mais abaixo e mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Estamos em um mundo. Somos uma nação. E, portanto, o que há de comum entre nós, o que deveria ser comum entre nós, é o amor e a paz. Temos o sonho e temos a capacidade. E começamos a alcançar muitos dos nossos objetivos. E não vamos parar por aqui. Construiremos nosso país. E não estamos falando apenas do Iêmen. Falando de todas as nações ou de todos os povos que buscam a liberdade. Pensamento da ativista e jornalista iemenita Tawakel Karman, prêmio Nobel da Paz de 2011. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Nascemos homem, mulher e seres sexuais. Aprendemos nossas preferências e orientações sexuais. Pensamento da psicóloga, sexóloga e acadêmica estadunidense Virginia Johnson (Mary Virginia Eshelman – 1925-2013).

 

POESIA & CINEMA - [...] Não creio que estejamos sempre predispostos à poesia; toda a noção de distinguir e, se preferir, rotular as coisas não é uma questão de defini-las, mas sim de dar uma pista sobre o estado de espírito que você traz a elas. [...] Se você estiver observando o que acontece, talvez não entenda o que alguns dos retardados querem dizer, porque eles estão preocupados com a forma como isso acontece. [...] Ora, a poesia, a meu ver, não consiste em assonância; ou ritmo, ou rima, ou qualquer uma dessas outras qualidades que associamos como características da poesia. A poesia, na minha opinião, é uma abordagem à experiência, no sentido de que um poeta está a olhar para a mesma experiência que um dramaturgo pode estar a olhar. Aparece de forma diferente porque eles estão olhando para isso de um ponto de vista diferente e porque estão preocupados com diferentes elementos nele contidos. Ora, as características da poesia, como a rima, ou a cor, ou qualquer uma dessas qualidades emocionais que atribuímos à obra poética, também podem estar presentes em obras que não são poesia, e isso nos confundirá. A distinção da poesia é a sua construção (o que quero dizer com “uma estrutura poética”), e a construção poética surge do facto, se quiserem, de ser uma investigação “vertical” de uma situação, na medida em que sonda as ramificações do momento, e preocupa-se com as suas qualidades e a sua profundidade, de modo que temos a poesia preocupada, num certo sentido, não com o que está a acontecer, mas com o que parece ou com o que significa. Um poema, a meu ver, cria formas visíveis ou auditivas para algo que é invisível, que é o sentimento, ou a emoção, ou o conteúdo metafísico do movimento. Agora também pode incluir ação, mas o seu ataque é o que eu chamaria de ataque “vertical”, e isto pode ficar um pouco mais claro se o compararmos com o que eu chamaria de ataque “horizontal” do drama, que diz respeito com o desenvolvimento, digamos, dentro de uma situação muito pequena, de sentimento para sentimento. Talvez isso ficasse mais claro se você pegasse uma obra de Shakespeare que combinasse os dois movimentos. [...] A mesma coisa se aplicaria às sequências dos sonhos. Ocorrem num momento em que a intensificação é realizada não pela ação, mas pela iluminação desse momento. [,,,]. Trechos extraídos do texto Poetry and Film (Cinema 16 Symposium – Poetry and the Film - Filmculture, 1963), da cineasta, fotógrafa, escritora e coreógrafa rissa Maya Deren (Eleanora Derenkovskaya – 1917-1061). Veja mais aqui e aqui.

 

ESTILÍSTICA – [...] O sujeito falante rege-se por um sistema linguístico de representações intelectivas que estabelece a comunicação pela linguagem, e simultaneamente o utiliza para satisfazer os seus impulsos de expressão. [...] Nestas condições, a estilística defronta-se com três tarefas: 1) caracterizar, de maneira ampla, uma personalidade, partindo do estudo da linguagem; 2) isolar os traços do sistema linguístico, que não são propriamente coletivos e concorrem para uma como que língua individual; 3) concatenar e interpretar os dados expressivos, determinador pela Kundgape [manifestação psíquica, expressividade] e pelo Appell [apelo], que se integram nos traços da língua e fazem da linguagem esse conjunto complexo e amplo de enérgeia psíquica. [...] Não se trata, contudo, de disciplinas a rigor separadas [...]. A personalidade linguística caracteriza-se pelos traços não-coletivos do seu sistema e pela manifestação psíquica que funciona em sua linguagem. Por outro lado, os traços não-coletivos do sistema são fáceis ou, antes, inelutavelmente transpostos para o plano da emoção e da vontade expressiva. A liberdade que a língua faculta num ou noutro ponto permite-nos ser originais continuando, pelo menos, inteligíveis; e essa oportunidade o nosso espírito logo aproveita para o fim das suas exigências expressivas [...]. Trechos extraídos da obra Contribuição à estilística portuguesa (Livraria Acadêmica, 1953), do linguista, pesquisador e professor Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1904-1970).

 

A BUSCA DO AMOR - [...] Duas vezes em sua vida ela confundiu outra coisa com isso; era como ver alguém na rua que você acha que é um amigo, você assobia, acena e corre atrás dele, e não só não é o amigo, mas nem mesmo é muito parecido com ele. Poucos minutos depois, o verdadeiro amigo aparece à vista, e então você não consegue imaginar como confundiu aquela outra pessoa com ele. Linda agora contemplava a face autêntica do amor e sabia disso, mas isso a assustava. Que isso acontecesse tão casualmente, através de uma série de acidentes, era assustador [...] sempre no auge da felicidade ou se afogando nas águas negras do desespero que amavam ou odiavam, viviam em um mundo de superlativos [...] Ela estava cheia de uma felicidade estranha, selvagem e desconhecida, e sabia que isso era amor. Duas vezes em sua vida ela confundiu outra coisa com isso; era como ver alguém na rua que você acha que é um amigo, você assobia, acena e corre atrás dele, mas não só não é o amigo, mas nem mesmo é muito parecido com ele. Poucos minutos depois, o verdadeiro amigo aparece à vista, e então você não consegue imaginar como confundiu aquela outra pessoa com ele. [...] Tenho notado muitas vezes que quando as mulheres se olham em cada reflexo e olham furtivamente para os seus espelhos, dificilmente é, como geralmente se supõe, por vaidade, mas muito mais frequentemente por um sentimento de que nem tudo é tão deveria ser [...]. Trechos extraídos da obra The Pursuit of Love (Vintage, 2010), da escritora britânica Nancy Mitford (1904-1973), que também expressa que: Para se apaixonar você tem que estar no estado de espírito para que isso aconteça, como uma doença... Acho que o trabalho doméstico é muito mais cansativo e assustador do que a caça, sem comparação, mas depois da caça comemos ovos para o chá e fomos obrigados a descansar durante horas, mas depois do trabalho doméstico as pessoas esperam que continuemos como se nada de especial tivesse acontecido... Veja mais aqui e aqui.

 

À FILHA DA JARDINEIRA – Se sou Hades, minha carruagem estilhaçada \ Quando te vi; meu velho esqueleto incendiado\ Com brasa brilhante — no meu peito, invernada\ Através de tempestuosas cidades, meu coração arruinado.\ O calor de seus dedos, seus suspiros, cerziria-os na mão—\ Imprimindo carne e osso com um fio dourado,\ Que talvez faça-os durar mais do que a estação\ Quando apenas sombras frias na cama me dão agrado.\ Agora sementado em mim e rapidamente consumido,\ O solo fértil que eu não me sabia dispor,\ Essa ânsia pelo brilho do sol, indocilmente florescido\ É suficiente para enlouquecer um conquistador—\ Tolo o suficiente para desfazer um reino em ar\ Eu engoliria a morte inteira para te fazer ficar. Poema da premiada escritora estadunidense Alyssa Wong.

 

OUTRAS SACADAS DE SOBREMESA

 

Imagem: Rousseau (painted portrait), in 1753, by Maurice Quentin de La Tour.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU - Quando li o Contrato Social, do filósofo, escritor e teórico político do Iluminismo e precursor do Romantismo francês, Jean-Jacques Rousseau, foi lá pelo final dos anos 1970, quando eu me preparava para fazer o curso de Direito. Hoje relendo, encontro essas sábias palavras: “[...] O povo, por si, quer sempre o bem, mas por si nem sempre o encontra. A vontade geral é sempre certa, mas o julgamento que a orienta nem sempre é esclarecido. É preciso fazê-la ver os objetos tais como são, algumas vezes tais como devem parecer-lhe, mostrar-lhe o caminho certo que procura, defendê-la da sedução das vontades particulares, aproximar a seus olhos os lugares e os tempos, pôr em balanço a tentação das vantagens presentes e sensíveis com o perigo dos males distantes e ocultos. Os particulares discernem o bem que rejeitam; o público quer o bem que não discerne. Todos necessitam igualmente, de guias. A uns é preciso obrigar a conformar a vontade à razão, e ao outro, ensinar a conhecer o que quer. Então, das luzes públicas resulta a união do entendimento e da vontade no corpo social, daí o perfeito concurso das partes e, enfim, a maior força do todo [...]. Veja mais aqui.

 Imagem: The Hermit and Sleeping Angelica (1626) do pintor flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640)

Ouvindo Dream of the return, com Pat Metheny Group.



LUIGI PIRADELLO – Primeiro eu conheci a obra teatral do dramaturgo, poeta e romancista siciliano Luigi Pirandello (1867 – 1936), que começou com Assim é se lhe parece (1918) seguindo-se de outras até a clássica Seis personagens à procura de um autor (1921), esta última contando a história de um grupo de atores em ensaio, sob a supervisão do diretor; o trabalho é interrompido com a chegada de seus pessoas que se apresentam como personagens – nascidas da imaginação de um autor que depois se recursou a escrever sua história – e que pedem aos atores que a representem. A ação se desenvolve em diferentes níveis de fabulação; a luta das personagens com o diretor, transformado em autor. A luta entre as várias personagens em desacordo constante sobre o significado ou mesmo sobre os fatos da história que cada um viveu a seu modo, tudo apresentando os paradoxos e contradições que são imanentes na sua obra. A literatura dele só conheci depois quando comecei a reler as peças, aí foi que encontrei uma de suas obras literárias O falecido Mattia Pascal, a qual destaco essa passagem: “[...] Decerto, alguém desejará lastimar-me (custa tão pouco), imaginando a dor atroz de um infeliz ao qual aconteça, de repente, descobrir que... sim, nada, enfim; nem pai, nem mão, nem como foi ou deixou de ser; e também desejará indignar-se (custa ainda menos) da corrupção dos costumes, dos vícios e da malvadeza dos tempos que podem causar tamanha desdita a um pobre inocente. Pois bem, faça-o, à vontade. [...] Porque, no momento (e Deus sabe quanto o deploro), já morri, sim, duas vezes,mas a primeira, por engano, e a segunda... irão saber”. Veja mais aqui.


MEL BROOKS – Sempre fui apaixonado por cinema. É uma das artes que aprecio sem moderação, talqualmente música, teatro, literatura. Entre os tantos cineastas da minha predileção, um deles me levou às gargalhadas soltas: Mel Brooks (leia-se Melvin Kaminsky). E entre tantos filmes dele, um deles (ou quase todos) quase me fez estourar de tanto rir: História do Mundo (parte 1, porque a prometida parte 2 até hoje não apareceu ou não vi). Ele sempre me traz uma lição: a vida é pra ser levada com muito bom. Salve, Mel Brooks.


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(Art by Ísis Nefelibata)
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