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domingo, fevereiro 01, 2026

NOEMI JAFFE, MALORIE BLACKMAN, AURITHA TABAJARA, DELANO & RUBENS MATTOS CUNHA LIMA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de As emboladas do norte (1929) e Graúna (1923), do compositor, violonista e violeiro João Pernambuco (João Teixeira Guimarães – 1883-1947), na performance da premiada violonista clássica australiana Stephanie Jones. Veja mais aqui.

 


A cizânia amolestada de Siberiano & Afesireia... - O destemido conquistador Siberiano seguia majestoso pelas tundras e densas florestas: era solstício de inverno e as suas pisadas cruéis e céleres firmavam a demolição de quaisquer obstáculos que se impusessem ou impedissem a direção das ventas. Nascido dos olhos abissais de Marduk, jamais conhecera o gosto do malogro. Invicto, de casta guerreira e longevidade, se alimentava da escuridão e, sobretudo, da Lua Nova. Mais que astuto despedaçava suas vítimas como um Smilodon, mantendo o mesmo ar do seu primo de Bengala. Agressivo shijin Byakko, impôs sua força bruta de Mohan diante do invencível dragão, aniquilando-o por nocaute. Por conta disso foi condecorado pelo espírito dos 5 Tigres do Oráculo da Terra, tornando-se Baihu, o principal guardião dos pontos cardeais e do centro, um geomante no uso das 16 figuras simbólicas para obter respostas a todas as perguntas que o inquietasse, soberano por vencer todas as batalhas. Assim encorajou-se à empreitada de enfrentar a tigresa de Champawat, depois dela ter causado terror na região de Kumaon e na fronteira do Nepal. Vitorioso conduziu a neófita pelos bambus da selva dos pecados, para matá-la e ressuscitá-la numa noite sem Lua. Ao vencê-la desdenhou e seguiu por fechadas brenhas, árvores entre outras, céu de brigadeiro da Lapônia, a ponto de se deparar na sua caminhada com um vulto insolente que batia a cauda na água para fisgar os peixes com suas afiadas garras. Quem era? Ora, triunfante ele olvidou do ditado: quem com ela se depara não corre, nem dá as costas, nenhum movimento brusco: usa da espingarda; se o tiro falhar, recorra ao revólver; escapuliu da mão, ataque de faca; se quebrar, aí fuja; se for perseguido, se atrepe numa árvore; se ela subir, reze: todo mundo é amigo-da-onça. Num átimo ela virou-se e fitou firme, quieta, soberana. Seus olhos revelaram: era a crepuscular caguaçuarana, a solitária Afesireia, filha da Borges, sobrinha da Cabocla, neta da Mão-Torta e prima da Maneta e da Pé de Boi. Era afilhada da Iaiá Cabocla de Xakriabá – investida deusa Kianumaka Manã, quem concedeu pra ela a dádiva do poder ressurreto de Arakuni: a mutação. Ela nadava, rastejava e escalava alturas, transformava-se agigantada e devorando um jacaré inteiro, hirto, hipnotizado; e diante do eclipse, estraçalhava a Jaci e Guaraci ao mesmo tempo, festejando com seus parentes jaguar, pantera, puma, acanguçu, jaguaripina, leopardo, yguaretê, suçuarana, jaguará e jaguaretê. Num relance ela fixou o olhar nele e ele o evitou ciente do sortilégio. Um raio rasgou o céu ameaçador: hora de vida ou morte, sabiam: um deles não sairia vivo do confronto. Não havia como desertar, nem espaço para sedição. Seus olhos faiscaram mútuos relâmpagos letais, outros estrondos açoitavam. Ele trovejou astucioso com estridente assombro, seus sinistros rugidos e o bafejo dava prazo sem aviso. Ambidestro se insinuava, cada movimento milimetricamente calculado, um passo em frente e recuava estratégico, o ronco praguejava, o bafo às ventas dela. Moviam-se táticos, encaravam-se e circulavam, ameaçavam insinuantes, blefavam, cada qual expunha o arsenal de truques em cada jogada. Ele flanqueava, apertava o cerco com todos os recursos disponíveis, a finta dela, bastava ali um salto e pronto, a urgência da hora e qualquer vacilo, o golpe fatal da maldição furiosa, o bote teria de ser certeiro. A vigilância de ambos e a sorte estava lançada. O ousado dissimulava e tanto fascinava pavoroso, o inevitável perigo não a intimidara. Ele evitava cada vez mais os olhos dela, de esguelha, sabia da armadilha e acuava diante do sedento ataque dela. Preparava as emboscadas escondendo sua pelagem de manchas e rosetas pela boca do matagal espesso. Tentou acossá-la e, ao desaforo dele, ela respondeu invocando Charría e um olho dela estrelou vermelha de Antares; o outro refulgiu de Aldebaran, transformou-se na eclipsada Caetana e partiu pro confronto direto. Cravou o olhar e ele foi surpreendido com o avanço decisivo dela, a ofensiva indefensável e travaram luta. Uma revoada de pássaros, a poeira subiu, o chão revolvido pelo botes aos nhaques, as patadas revirando o atrito estremecedor no ambiente e se prepararam para as investidas abrindo as portas dos 9 círculos do inferno dantesco, atravessando o limbo, percorrendo a luxúria, cortando a gula, correndo a ganância, cruzando a ira, rasgando a heresia, singrando a violência, perpassando a fraude e passando a traição no gelo do lago Cócito, para sobrepujarem Aqueronte, Eridano, Flegetonte e o Lete. Venciam Naraka e ela então cravou suas garras e o levou malbaratado pelas trevas de Vilon, percorrendo o abismo de Raki’a, ascendendo às altas nuvens de Shehagim e o fogo do éter empíreo, romperam o umbral de Zebul, a transição de Ma’on, as esferas de Machon e foram celebrados por ofanins e serafins no penhasco da cachoeira do Sertão Zen, no Alto Paraíso da Chapada dos Veadeiros. Depois desse momento episódico se defrontaram diante do Mirante da Janela. O déspota pérfido ousou rondar obliquamente matreiro: era ele Dioniso quase vencido e apaixonado pela ninfa asiática. Ela fascinante o hipnotizou, arrebatada o encurralou numa furna, ele cautelosamente escondeu-se esfregando seu dorso num tronco robusto, rolou no chão e pronto para mordê-la, ali hesitou e foi tomado pela fúria amorosa dela. Ela era agora Nice, o epônimo da vitória e logo fez-se manhã vistosa nos saltos do Rio Preto: a Lua renasceu e a luz retornou. O Sol aqueceu a toada na dança às margens do Opará, ao som duma moda de viola. Ali, naquele ato, não só havia um tigre, nem apenas uma onça, mas muitos deles que se encontravam intermitentemente por milênios sucessivos na eternidade. Até mais ver.

 

Alice Walker: Observe atentamente o presente que você está construindo: ele deve se parecer com o futuro que você está sonhando... Sempre que você cria beleza ao seu redor, você está restaurando a sua própria alma... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Naomi Grossman: Eu estou constantemente destaco os benefícios da yoga (obrigado por me entregar a isso mais cedo) – que se eu pudesse começar um movimento apresentando as pessoas a isso, acho que eliminaríamos a maior parte do conflito do mundo! Se apenas as pessoas passassem mais tempo desafiando seu equilíbrio, força e flexibilidade, e menos tempo desafiando umas às outras, que mundo melhor seria!... Veja mais aqui.

Tawakel Karman: Você precisa ser forte; precisa confiar em si mesmo para derrubar o regime ditatorial que houver e construir um novo país. Você precisa participar da construção do seu país. Sabemos que tudo o que você sonha pode se tornar realidade. Você precisa saber que tem a capacidade de realizar seu sonho. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

POR AMOR À VIDA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Sei que muita gente sofre \ És uma realidade \ Um sintoma perigoso \ Desde a tal ansiedade \ Causando em si uma dor \ A vida perde o valor \ Dentro da sociedade \ Vivemos tempos difíceis \ Mas não podemos falhar \ Quem é mãe de adolescente \ Sabe o que eu quero falar \ Pois o nosso coração \ Se desdobra em aflição \ Ao no seu filho pensar \ Nós que somos mães e pais \ E também sociedade \ Vamos dar mais atenção \ Nossos filhos prioridade \ Sofrer sem deixar de amar \ Só o amor pode evitar \ O fim da humanidade \ Dialogar com paciência \ Humildade, admiração \ Estimula e valoriza \ Exercício de inspiração \ Por favor abra seu olho \ Seu filho és um tesouro \ Não deixe em outras mãos.

Poema da escritora e contadora de histórias Auritha Tabajara, autora da obra Magistério Indígena em Verso e Poesia (2004), cantando seus versos: Sou mulher que ainda chora \ Por tão grande escuridão \ Minha essência está aqui \ Dentro do meu coração \ De um Brasil ensanguentado \ Onde ninguém é culpado \ Mulher da mesma nação! Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

JOGO DA VELHA - [...] Só lembre-se, Callum, quando estiver flutuando cada vez mais alto na sua bolha, que bolhas têm o hábito de estourar. Quanto mais alto você sobe, maior é a queda. [...] É assim mesmo. Algumas coisas nunca mudam. Simplesmente é assim. Mas não acredite neles. [...] Eu costumava me consolar com a crença de que eram apenas certos indivíduos e suas ideias peculiares que estragavam as coisas para o resto de nós. Mas quantos indivíduos são necessários para que não sejam os indivíduos que sejam preconceituosos, mas a sociedade inteira? [...] As notícias mentem o tempo todo. Elas nos dizem o que acham que queremos ouvir. [...]. Trechos extraídos da obra Noughts & Crosses (Minotauro, 2020), da escritora britânica Malorie Blackman, autora de obras como Boys Don't Cry (2010), Checkmate (2005) e Knife Edge (2003). Para ela: Ler é um exercício de empatia, um exercício de se colocar no lugar do outro por um tempo...

 

DOU MINHA PALAVRA - [...] Vida é gasto e estou gasta, o espelho que magnifica mostra a verdade e a verdade é a velhice. [...] O corpo vai pendendo para baixo, e lá embaixo encontro uma menina. Desde que ela descobriu, com quatro ou cinco anos, que seus pais eram sobreviventes de uma guerra contra os judeus e que sua mãe guardava numa caixa dentro do armário um diário escrito na Suécia — um diário que ela só podia olhar mas não ler, já que nem ler ela sabia, e o diário estava escrito em i-u-g-o-s-l-a-v-o —, essas vidas viraram histórias e as pessoas, personagens. A menina vivia nessas histórias e não prestava para a realidade. Sem amigos, perseguida, invejava a prima magra e boa aluna, tinha os pés chatos e se desequilibrava (as irmãs mais velhas não deixaram a mãe colocar botas ortopédicas nela; hoje as irmãs têm pés altos e finos e ela, pés largos e chatos), se isolava nas festas e prometia se suicidar. Assim que aprendeu a ler, seu tio Arthur a presenteava com livros estrangeiros e seu pai lhe deu a Barsa de aniversário e comprava enciclopédias de um vendedor ambulante. A coleção do Monteiro Lobato, Meu pé de laranja lima, Poesia brasileira para a infância, Demian, a Torá (todos os dias, no Renascença), letras do Chico Buarque, O Pequeno Príncipe, gibis da Mônica e os livros de adultos das irmãs dela. Na casa de sobreviventes de guerra, frequentada por refugiados da Rússia, da Polônia, da Romênia, da Iugoslávia e de outros países de nomes estranhos, ela escutava muitas línguas: português, ídiche, alemão, hebraico, húngaro e iugoslavo. A menina não entendia as línguas, mas escutava as palavras [...]. Trechos extraídos da obra Te dou minha palavra (Companhia das Letras, 2025), da escritora, professora e crítica literária, Noemi Jaffe, que noutra de sua obra, Lili- Novela de um luto (Companhia das Letras, 2021), ela traz o seguinte trecho: [...] Quando ela estava morta, eu beijei seu rosto, suas mãos, seu colo. Apertava o pulso, abraçava o corpo, chamava: mãe, mãe. Levantava a mão e a deixava cair. No dia anterior, quando ela ainda não estava morta, mas quase, eu aproximava meu ouvido do seu peito e ouvia a respiração. Era diferente. É diferente estar quase morta de estar morta mesmo. É diferente e só sei disso agora que ela morreu. Se quando ela estava quase morta eu esperava que ela morresse, agora é como se eu a quisesse, se pudesse, quase morta para sempre, só para ouvir sua respiração, a bochecha quente, os dedos da mão se mexendo mesmo que por reflexo, um ronco baixo no peito, o tremor nas pálpebras. Nunca tinha ficado perto de uma pessoa morta e descoberta. Fiquei perto do meu pai, mas ele estava coberto por um lençol e eu tracei com o dedo o contorno do seu nariz, o que repeti com a minha mãe depois que a cobriram. [...]. Já na sua obra O que ela sussurra (Companhia das Letras, 2020), ela expressa: [...] Gosto do som das conversas e gosto de música, mas prefiro sempre o silêncio, agora ainda mais que antes: esse som suro e verdadeiro em toda a sua extensão, mais geográfica do que temporal e que ocupa a paisagem que vejo pela janela e a alma que não vejo mas que fica inteiramente ocupada por ele. [...].

 

A ARTE DE DELANO

Eu sou um observador das pessoas, sempre as observo quando saio... Eu não trabalho pensando em exposição. Não gosto de me expor, mal saio de casa. Às vezes, passo meses sem descer do meu ateliê, botar o pé na calçada. Preciso até que as pessoas levem comida para mim...

Pensamento e arte do pintor, desenhista e gravador, Delano – (Flanklin Delano de França e Silva - 1945-2010), foi ilustrador do Jornal da Tarde, participou de diversas mostras coletivas pelo Brasil afora, integrou o Ateliê + 10, em Olinda, e participou da criação da Oficina Guaianases de Gravura. Veja mais aqui, aqui & aqui.

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A ARTE DE RUBENS MATTOS CUNHA LIMA, 60 ANOS DE TRAJETÓRIA

Desenvolvi projetos de residências e obras. Em 60 anos de carreira fiz mais obras que projetos... Gosto muito da arquitetura... Conheci o Darel. Era uma pessoa muito intensa. Fiz várias gravuras dele...

A arte de arquiteto e artista plástico de São Paulo, Rubens José Mattos Cunha Lima, que fundou a Editora Clube da Gravura, editou a revista Gravura & Gravadores (1980), participou com suas obras da publicação Dareladas (CriaArt, 2024), integra o Gentamiga Atelier e participa da plataforma Ubqub (SP). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

João Cabral de Mélo Neto aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Déa Ferraz aqui & aqui.

Antônio Meneses aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Thina Cunha aqui & aqui.

Barbosa Lima Sobrinho aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Martha Batalha aqui & aqui.

Wellington Virgulino aqui & aqui.

Lucinha Guerra aqui, aqui & aqui.

Mário Souto Maior aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Roberta Cirne aqui.



domingo, agosto 10, 2025

NEIGE SINNO, ARIEL SALLEH, MARÍA NEGRONI, JULIANA XUCURU & BRENDA MARQUES PENA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Não acredito que as poucas mulheres que alcançaram grandeza no trabalho criativo sejam exceção, mas acho que a vida tem sido difícil para as mulheres. Não lhes deu oportunidade, não as tornou convincentes. Uma mulher não tem sido considerada uma força de trabalho no mundo, e o trabalho que seu sexo e suas condições lhe impõem não foi ajustado a ponto de lhe dar um pouco mais de espaço para o desenvolvimento de sua melhor versão. Ela tem sido prejudicada e apenas algumas, por força das circunstâncias ou força inerente, conseguiram superar essa desvantagem. Não existe sexo e arte. Gênio é uma qualidade independente. A mulher do futuro, com sua perspectiva mais ampla e suas maiores oportunidades, irá longe, acredito, em trabalhos criativos de todos os tipos...

Pensamento da compositora e pianista francesa Cécile Chaminade (Cécile Louise Stéphanie Chaminade – 1857-1944), ao som do Concertino for Flute (Sanders Theater, Harvard University, Cambridge, Massachusetts, 2015 - Boston Philharmonic Youth Orchestra, Hayley Miller in flute, Benjamin Zander, conductor) e Suite Callirhoë, Op. 37 (Orquesta Juvenil Universitaria Eduardo Mata, Gustavo Rivero Weber, director Sala Nezahualcóyotl, CCU 2022). Veja mais aqui & aqui.

 

Entrevista com o sicário fantasma... - Na regra de uma, lá se vão duas, depois de três pra mais de quatro, das coisas quase sequer terem fim! Hehehe. Esse era o prefixo na chegada do Zé Puliça, ao largar do expediente noturno pro café matinal no pavilhão de Pedim do Padre. Chegava com seu ar de caboclo do pé de serra, criado na beira de rio ligeiro, atarracado no seu quase metro e meio de estatura, fala mansa de alerta, impávido quasímodo, com mastigado num palito de dentes pelo canto da boca e o olhar de soslaio pra todo mundo. Era naquela hora somente que se dava aos gracejos. No mais era inabalável, devagar do dizer, jeito imperturbável, quase silencioso, ladino. Na sua face a experiência de quem estreou na vida pelos canaviais, corte da cana. E se fez vaqueiro de aboiar lonjuras, de se danar pela Serra da Preguiça, atrás do Rabicho da Geralda, que bebia água no riacho Agudo, da Várzea do Cisco. Foi ele quem amansou o malvado turino Pintadinho, na lagoa das Mofadas. Depois meteu-se num remoinho agitado pra pegar de mão o indomável Jauaraicica. Foi peleja, viu? Depois dessa casou-se primeiro com uma burrinha de padre, achada no meio do caminho e, nos achegados, ela desencantou fogosa. Nem demorou muito e enviuvou. Solitário deu de engrossar as fileiras dos cabras de Lampião, arribando pariceiro do valente Rio Preto, a trocar loas com o topetudo André Tripa, nas farras com Cabeleira e Teodósio e, mais que azogado, viu os milagres da braúna de Conselheiro. Sua fama cresceu de mesmo no dia que um tal de Zé Branquelo, apelidado de Hulk Branco, terrível estuprador gigante escapulia da lei. Quanto me dá preu trazer a cabeça desse safado? Tudo acertado e dias depois lá estava ele: Eu dei voz de prisão, ele não quis se entregar; trouxe a fim da força, taí! E sacudiu a cabeça do libertino no birô do delegado. Susto da pêga, da autoridade quase cagar-se todo! Que é isso, rapaz, cadê as mãos dele? Ah, esqueci as chaves das algemas em casa, não queria perdê-las; mas as digitais do desgraçado estão aqui, tome! Pode conferir se é ele mesmo! E era. A partir disso, onde tivesse meliante odiado ou foragido com a cabeça a prêmio, lá estava ele na caça ao ganso - bastava suspeitar, nem estouvava, resolvia. Assim caçou Megalodon, Tiranossauro, resolveu o caso Taylor v. Taintor, desbaratou uma rede de camicases, enfrentou fera na Oração da Cabra Preta, numa encruzilhada para tirar tudo a limpo; desfeitou em pleno natal um cabuloso que queria lhe enrolar com chá de heléboro negro: Quer me envenenar, fidapeste? Cada uma, hem? Nunca trastejou da coragem diante de alças de mira, garras de bicho, encarou obstáculos, pegou malfeitores na curva do desvio, detonou de véspera um bocado de homem-bomba que apareceu. Só isso? Pra ele: Só poltronice! Ah, assim o senhor acaba com a humanidade! Comigo é assim: Corro pro perigo, cerro os punhos e o enfrento o sopapo! Por causa disso conheceu o Agente 114, caçador de bandidos, o tal do Jonah Hex, ocasião em que flertou e se ajeitou num caso íntimo com a gringa bonitona Domino Harvey. Quando ela partiu, ele foi pegar o dragão da Caverna dos Suspiros e tomou pra si os tesouros do Pirata. Ali viu de longe a Alamoa, na Porta do Pico, e com ela casou-se numa sexta-feira do Espinhaço do Cavalo. Mas tinha de voltar e ela não quis. Pegou a Nau Catarineta e foi dar na Cova da Serpente de Asas, no Serrote da Lapa. Lá tomou um guizo e uma pena da bicha ruim, além de ganhar uma carranca do alcoviteiro Caboclo D’Água, que arrumou pra ele um romance tórrido com a Siana Branca de Correntina. No meio da função descabelada, deu uma ventania repentina e ele se viu atracado com o devorador ciclope Labatut, tendo de pegá-lo na marra pela munheca e sair montado na Cabra Cabriola pra caçar o Carneiro de Ouro, lá na Furna dos Morcegos. Ao capturar o caprino apareceu logo uma jiboia e ele agarrou-se com ela de desencantá-la: era uma princesa frochosa, com quem juntou as catrevagens por um bom bocado de tempo. Tome trupé! E agora? Hoje vivo de apaziguar a noite deste fim de mundo! Acha pouco? Escreva aí: Fim de valentão é cadeia, bala quente e peixeira fria! “Pecador repara que há de morrer”. Há de valer confissão, senão num salva! Não vim praquí só pra contar hestória. Enfrentei quantos ariscos mandacarus de fogo, vali-me do Justo Juiz, não fosse minha devoção, já tinha emborcado faz tempo. Sou o verdadeiro de muitas cópias. Fiz poucos amigos porque não quiseram e também porque não quis. É preciso refazer a humanidade de outro modo: está tudo perdido. Somente parvos, quanta maluquice, Deus meu! Eu sou assim, o mundo assado. E era só vê-lo sentado no tamborete lá na frente da prefeitura, desavindo, com sua jaqueta puída, de relance no bolso o distintivo de detetive, assoprando uma música lúgubre no pente enrolado em papel de cigarro: uma balada de morte. Que bicho mora dentro de mim? Ainda outro dia soube dele agarrado num fuá da peste com a Mulher da Sombrinha. Coisa dele mesmo. Todo mundo tremia, de considerá-lo às escondidas um duende desumano, um sátiro impiedoso, o deslavado monstro do silêncio, um vilão inumano ou algo parecido. Deus me defenda! Culpa tinha? Mais diziam amiúde que ele vasculhava os escondidos só por perversão. Tornou-se agonia do povo, um pária. E ele: Não quero esse veneno, morro de fome; minhas muitas vidas valem cada uma das minhas tantas mortes: para cada medo uma coragem equivalente, não levo ignominia pra casa. Era seu desencanto na sua impiedosa careta só pra assustar: Não acredito em mais ninguém nem em nada. Tudo é tão crepuscular... Morreu por vontade própria, como quem foi cagar no mato a cochilar sonhando vigia dos vivos. Até mais ver.

 

Alice Walker: Ninguém é seu amigo se exige seu silêncio ou nega seu direito de crescer... A maneira mais comum de as pessoas desistirem do seu poder é pensar que não têm nenhum... O que a mente não entende, ela adora ou teme... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Hilary Mantel: Se você ficar preso, afaste-se da sua mesa. Dê uma caminhada, tome um banho, vá dormir, faça uma caminhada, desenhe, ouça música, medite, faça exercícios; faça isso, não fique aí parado, olhando feio para o problema. Mas não faça ligações nem vá a festas; se fizer isso, as palavras de outras pessoas vão jorrar onde as suas palavras perdidas deveriam estar. Abra um espaço para elas, crie um espaço. Seja paciente... Veja mais aqui.

Katherine Mansfield: Estabeleça como regra de vida nunca se arrepender e nunca olhar para trás. O arrependimento é um terrível desperdício de energia; não se pode construir sobre ele; só serve para se afundar... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

A CULTURA DO PAÍS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Alteridade \ esse medo \ que ficou \ escondido na infância \ rouba do que serão \ sensações remotas \ Pior que isso, ele come \ coisas \ que nem vê. \ late \ até não existir mais \ mas um espelho lascado \ onde minha vida ainda é \ feita e contemplada \ e então \ - se houvesse um depois - \ ergue um bastião de palavras \ entre uma língua estrangeira \ e a própria estranheza \ Não sei porque \ essa ferida não me atinge.

II - 0,0016 quilômetros de palavras \ confinadas em um poema \ maneira curiosa de dizer que \ um homem caminhou pela morte \ formas \ ligeiramente arrependidas cruzaram-no \ graduações \ do que ele não tinha \ o ar \ que \ o mundo inala a cada minuto \ cada vez que sente falta de si mesmo \ o resto \ era aritmética superior \ sabendo cair e não cair, evaporar \ como uma ferida transparente.

Poema da escritora e tradutora argentina María Negroni. Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

TRISTE TIGRE - [...] É verdade que ninguém [...] tinha visto o que nós, as crianças e minha mãe, víamos em casa, onde ele se comportava como um tirano. E é isso que se destaca acima de tudo nessa personalidade: alguém que não suporta contradições, que precisa sempre ter controle sobre tudo, que decide, monitora, pune e que nunca compartilha o poder. [...] O que há de libertador na literatura é que ela nos oferece acesso a algo maior do que nós mesmos. Maior do que a nossa dor, maior do que a nossa experiência pessoal, maior do que a intensidade de que falei. Descobrir a literatura é como ter acesso a um mundo de risco extremo, de encontros com a enormidade da vida e da morte, mas em um plano diferente. Pode ser um consolo. Uma forma de consolo, mas nunca o suficiente para salvar uma pessoa. [...] Com uma criança, a porta está sempre escancarada. Uma criança não pode abrir ou fechar a porta do consentimento. Não consegue chegar à maçaneta. Simplesmente, não está ao seu alcance [...] Posso dizer que fiquei feliz, que nós ficamos felizes. Ninguém pode tirar a chuva de verão de nós. [...]. Trechos extraídos da obra Triste tigre (2023), da escritora francesa Neige Sinno, autora de obras como A Vida dos Ratos (2007) e Le Camion (2018).

 

ECOFEMINISMO MATERIALISTA - [...] Ecofeministas materialistas estão falando sobre condições econômicas-biológicas-biofísicas radicais da vida [...] Nos últimos anos, o capitalismo intensificou sua penetração em todos os aspectos da vida cotidiana, como a proeminência dos grandes bancos ou a tendência à digitalização. Os bancos estão comprando enormes quantidades de terras agrícolas ao redor do mundo para uso em tecnologias agrícolas experimentais, como sementes híbridas geneticamente modificadas. Mas a terra para o cultivo de alimentos é a base do sustento das pessoas. É claro que, se você olhar além do capitalismo, encontrará o patriarcado. No sistema patriarcal-colonial-capitalista, a forma originária e mais antiga de poder é a dominação dos homens sobre as mulheres. Em seguida, vem a colonização, invadindo a terra e se apropriando dos recursos de outros povos. Finalmente, a forma econômica capitalista emerge da colonização e é relativamente moderna, com apenas algumas centenas de anos. É importante ver esses três sistemas como sistemas concorrentes, emaranhados e que se reforçam mutuamente. O próprio capitalismo não funcionaria sem as energias patriarcais que o impulsionam. Essas energias são aprendidas e incorporadas nos homens e expressas em práticas sociais e econômicas. Observando os três sistemas, cada um tem vários níveis – do inconsciente às ações cotidianas, às estruturas políticas e à ideologia. [...] A natureza passa pelos corpos, que, uma vez mortos, retornam para fertilizar a Terra. Então, sim, foi uma alegria aprender sobre o sentido relacional de "corpo-território" das mulheres latino-americanas. [...] Um ecofeminismo materialista combina uma resposta feminista, descolonial e socialista ao colapso ecológico do século XXI. Buscamos um Pluriverso – como diz o movimento zapatista, um mundo onde muitas culturas autônomas coexistem. Já mencionei a agricultura comunitária de mulheres chinesas, e há iniciativas semelhantes de Rojava ao Equador. O Pluriverso descreve uma variedade de modelos para viver a sustentabilidade – e no final do livro há um convite para se tornar ativo e participar da Tapeçaria Global de Alternativas, algo que Ashish Kothari e colegas na Índia estão coordenando. Coisas boas estão acontecendo – só que o sistema-mundo do capitalismo colonial-patriarcal é tão agressivo e tão barulhento que nos falta tempo! [...]. Trechos da entrevista Materialist Ecofeminism (Capire, 2025), concedida pela socióloga australiana Ariel Salleh, que escreve sobre relações entre humanidade e natureza, ecologia política, movimentos de mudança social e ecofeminismo: A fotossíntese foliar à luz solar impulsiona o ciclo hidrológico da Terra enquanto retira carbono da atmosfera. Essa análise do clima é precisamente o oposto do que afirmam os agricultores industriais e os fabricantes de alimentos falsificados. Diferentemente da lógica dos aproveitadores e mecanófilos, a chave para curar "o metabolismo do clima" é a água – a corrente sanguínea do planeta. Uma ciência relacional reconhece a influência de múltiplos processos vitais na condução da circulação de resfriamento da Terra, dos ciclos hídricos locais e globais. Biosfera e atmosfera são uma só. Ela é autora dos estudos Ecofeminismo (2017), Ecofeminismo como sociologia (2019) e Teorias e lutas feministas marxistas hoje: escritos essenciais sobre interseccionalidade, trabalho e ecofeminismo (2019), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

A ARTE DE JULIANA XUCURU

Na nossa infância indígena, a arte é fundamental e está presente desde cedo...

Pensamento da artista visual, ativista e pesquisadora indígena Juliana Xucuru, do povo Xukuru de Cimbres, com graduação e mestrado em Artes Visuais, pela UFPB e UFPE. Sua obra se insere a partir da virada decolonial, questionando referenciais hegemônicos eurocêntricos impostos pela invasão colonial sobre as terras indígenas de seu povo e outras etnias; principalmente do Nordeste do Brasil. Os modos de vida em interação com a natureza sagrada e os encantados de luz, princípios da cosmovisão indígena de seu povo Xukuru, e os deslocamentos forçados das mulheres indígenas, bem como as formas de trabalhos análogas à escravidão, são temas constantes em seus trabalhos artísticos. Com sua arte ela recupera referenciais artísticos tradicionais de seu povo, por meio de sua presença corpo- mulher- território Limolaygo Toype, em lugares ainda pouco ocupados pela presença das mulheres indígenas e seus saberes ancestrais. Veja mais aqui.

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CANTALICE E A CIDADE DAS LARANJAS DE BRENDA MAR(QUE)S PENA

Acontecerá no próximo dia 14 de setembro, na Terceira Feira: encontro de literaturas das margens do mundo, Diamantina – MG, o lançamento do romance Cantalice e a Cidade das Laranjas (Infame Ruído, 2025) da escritora ativista-imersiva-poeta-baterista-jornalista, Brenda Mar(que)s Pena, contando a história de uma mulher que luta pela liberdade e justiça em uma cidade provinciana, com memórias e encontros de coragem, resistência, na busca por um futuro melhor em meio à escuridão de um período de guerras e conflitos, relembrando da importância de abraçar a diversidade, valorizar o diálogo e trabalhar por um mundo mais justo. Veja mais aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.


 


quarta-feira, novembro 22, 2023

CONNIE PALMEN, VÂNIA VARGAS, GILVAN LEMOS & MUNDO POR VIR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Bach, the Fly, and the Microphone (2009), Colours of Spain (2015) e Open Sky (2020), da premiada violonista australiana Stephania Jones.

 

MAIS DE TRÊS MILÊNIOS E A METÁFORA QUÂNTICA – Um dia sonhava e o Sol sorria. Seguia ararajuba ao lado de um tamanduá-bandeira. Logo deparei a ariranha às voltas do macaco-aranha-da-cara-preta (não era o boi da infância? Não, não era!). A onça pintada seguia a trilha do mico-leão-dourado, pronde vão, não sei. Parecia mais que o cervo do pantanal guiava o lobo-guará e o cuxiú-preto. E confundiam-me como se eu fosse o boto cor-de-rosa à porta do Inferno de Dante: Abandona toda esperança! Ora, não! Parecíamos mesmo o Die Brücke encarnando o Zaratustra nietzscheano na busca da realidade. Pois sempre desejei nunca correr perigo ao lidar com o impossível, porque havia me tornado uma ponte sobre águas turvas numa viagem pelas cidades invisíveis de Calvino. Todos comigo, então. Uma semana e lá estávamos nós ouvindo Rebecca Solnit: Caminhar… é como o corpo se mede em relação à terra. Escrever é dizer a ninguém e a todos o que não é possível dizer a alguém... Sim. Mais de um mês já se passara, de qualquer modo, quando dei por mim entardecia de manhã e o dia já era outro. Queimei meu filme, arranquei todas as máscaras e não importunei ninguém, longe a sombra de um erro grave e a avareza. Nem deu pra perceber que era fim de ano quando ouvi Arundhati Roy: Hoje, parece que lutamos pela injustiça, aplaudindo-a como se fosse um sonho digno, sagrado pelo sistema de castas... Pois é, uma década e ainda insultam o decoro: o abismo do caos. Restava-me apenas um só olhar, nada mais que isso e um século para que eu entornasse o silêncio com quem vem desde A.E.C. precisando lembrar d’A cor púrpura de Alice Walker. Nunca é demais relembrar, que o diga Ai Weiwei: O mundo é uma esfera. Não há Ocidente nem Oriente. Tudo é arte. Tudo é política. O poder tem muito medo da arte e do poeta. A arte traz a possibilidade de defender os direitos mais essenciais. Os artistas não precisam se tornar mais políticos. Eles precisam se tornar mais humanos... Aí me dei conta de tantos milênios e quantos equívocos para quem segue pela E.C., entre tremores de terra em Rio Formoso e Flores, afora outros abalos sísmicos vez ou outra Nordeste afora. E já que morri anteontem não vi lá muita coisa. O tempo passou e contar três mil é como um piscar de olhos – por isso só contam 2, ou lá, ou loa – repercutindo à revelia de muitos. E só. Quisera tarde antes fosse nunca. Porque a poesia é o sacrifício de quem sonha. E quanta é a metáfora do que cada um de nós somos e não nos damos conta. Sei dos meus pecados, cônscio ou não, todos os meus castigos, tenho lá minha culpas penduradas na garganta do destino. Adivinho um pouco a cada dia. Uma supernova eu dedico como se ficasse suspenso e não me esgotasse com um ponto final, tornando-me vírgula depois de reticências e até mais ver.

 

HÁ COISAS QUE NÃO SÃO COMPARTILHADAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A morte por exemplo \ Ele deveria ir para o inferno apenas \ Quem foge sabe caminhar sem pressa através de cidades fantasmas \ ouça a madeira reclamar \ sinto que dá sob os pés \ Eles conhecem o som que tem expectativa nos passos a ressonância do medo/da emboscada \ Eles sabem que a qualquer momento debaixo do sapato \ você pode encontrar uma peça de roupa / a mão de um inimigo uma arma / um cigarro aceso um cuspe ou apenas poeira \ a poeira que foi feita para fazer os homens chorarem sem dor no peito \ a poeira que mais cedo ou mais tarde está destinada a morder \ Hoje eu sei que estou conhecendo o ritmo da curiosidade e da cautela \ enquanto me movo por um lugar que só me lembro \ quando em sonhos eu sonho \ eu empurro a porta \ minha sombra entra primeiro cai de cara \ ou talvez tenha estado lá olhando para o teto o tempo todo \ e do sonho dele surgiu meu começo \ Seus pés saem dos meus pés e da ponta de um deles \ o canto de uma carta aparece uma das cartas espalhadas pelo chão \ Eu me abaixo para pegá-los e quem estava deitado no chão desaparece \ Eu vou um pouco mais fundo \ Eu o encontro na frente \ seu olhar está esperando por mim \ Ele embaralha o baralho e joga em mim uma primeira carta que me atinge no peito \ A inocência ele diz / olhando nos meus olhos enquanto me força a ver mentalmente a frieza \ desde o momento em que coloquei na mesa como tudo que eu tinha \ sabendo que naquele jogo eu tinha que perder \ A segunda carta cai ao meu lado \ A calma ele diz olhando nos meus olhos enquanto eu sentia novamente o sangue circulando em meu peito \ como aquela primeira vez \ A terceira carta voou em direção ao meu rosto das pontas dos dedos \ A fé ele diz olhando nos meus olhos \ enquanto minhas mãos se lembravam da dor do qual foram feitos os altares demolidos \ A quarta carta roçou meu braço \ O coração ele diz olhando nos meus olhos \ então eu toquei meu peito e eu senti o vazio \ A quinta carta caiu aos meus pés \ E agora? \ pergunta olhando para mim com meus olhos \ O medo eu respondo e eu saio do quarto de costas para o espelho \ com a certeza de que isso é a última vez que vou perder.

Poema da escritora e jornalista guatemalteca Vânia Vargas.

 

SUA HISTÓRIA & A MINHA – [...] um poeta só pode tomar plena consciência de seu eu poético quando se apaixona por uma mulher em quem reside a deusa branca, alguém que une criação e destruição e que trará triunfo e destruição para sua vida. [...] Por que tão poucas pessoas entendem que o desdém dos outros, a condenação daqueles que você ama, na verdade fortalece o seu amor? Eu podia ler a consternação com a minha escolha nos olhos de todos ao meu redor. [...] Os amigos, assim como a família, querem que você permaneça inalterado, enquanto o amor tem a capacidade indecente de transformá-lo, de enriquecê-lo com uma nova visão de tudo o que você já conheceu. Quanto mais ela caía em desgraça com todos, mais obstinado era o meu impulso de protegê-la de um mundo hostil. [...] A memória é literária por natureza. Pega nos acontecimentos factuais e dá-lhes uma carga metafórica, emprestando ao que realmente aconteceu um peso simbólico, numa busca persistente pela segurança de uma história. [...] Eu, o grosseiro homem de Yorkshire, escolhi esta mulher exaltada acima de todas as outras, entreguei meu coração a uma criatura exuberante e excessiva, o protótipo da pretensão e da artificialidade, fanática, exagerada em todas as coisas.[...] Ela queria mais do que qualquer outra coisa amar alguém, mas quando realmente o fez, ela odiou. Ela queria mais do que tudo ser adorada, mas punia impiedosamente qualquer um que a amasse. [...] Não há paraíso sem cobra. [...] Tive que resistir à sensação de que o seu espírito mercantil estava corrompendo a pureza do meu amor pela poesia. [...] Criei coragem para fazer ao nosso mal-educado oráculo a pergunta que presumi — não, sabia — que obcecava minha noiva. Curvei-me sobre o quadro e perguntei se ficaríamos famosos. O impacto foi catastrófico e desafiou todas as minhas expectativas. Com força audaciosa, Pã nos mostrou por que o pânico recebeu seu nome: ele nos deu o maior susto de nossas vidas, como se tivéssemos nos tornado excessivamente familiares e não tivéssemos sido suficientemente respeitosos com sua divindade. Do nada, um marionetista furioso puxou abruptamente a mão de minha noiva, com os olhos cheios de lágrimas de medo, e - tendo desejado apenas agradá-la, perseguindo o sonho americano de uma existência gloriosa como um velho cão pastor obediente - eu escutei, atordoado, enquanto ela falava em línguas. Pan dispensou a lentidão do alfabeto e falou diretamente através dela em um rosnado profundo e sinistro, zombando de seu desejo por aquela exibição vazia, e perguntou se ela percebia que a fama que ela tanto desejava destruiria tudo o que ela tinha. [...] Tudo o que é negado e reprimido, todo conflito varrido para debaixo do tapete e rejeitado, numa cultura ou na existência de um indivíduo, procura uma saída e, em última análise – violento, destrutivo, diabolicamente disfarçado – volta-se contra a vida. [...]. Your Story, My Story (Amazon, 2021), da escritora holandesa Connie Palmen (pseudônimo de Aldegonda Petronella Huberta Maria Palmen). Veja mais aqui.

 

HÁ UM MUNDO POR VIR? - [...] O fim do mundo é um tema aparentemente interminável — pelo menos, é claro, até que ele aconteça. [...] Conforme vai se tornando cada vez mais evidente a gravidade da presente crise ambiental e civilizacional, proliferam novas e atualizam-se velhas variações em torno de uma antiquíssima ideia que chamaremos, em uma simplificação que este ensaio pretende complicar um pouco, “o fim do mundo”. São blockbusters do gênero fantástico, “docuficções” do History Channel, livros de vulgarização científica em vários níveis de complexidade, videogames, obras musicais e artísticas, blogs sintonizados em todas as faixas do espectro ideológico, reuniões científicas, revistas acadêmicas e redes de informação especializadas, relatórios e pronunciamentos de organizações mundiais as mais diversas, as invariavelmente frustrantes conferências de cúpula sobre o clima, simpósios de teologia, ensaios de filosofia, cerimônias da Nova Era e de outros movimentos neo-pagãos, um número exponencialmente crescente de manifestos políticos — toda sorte, enfim, de textos, contextos, veículos, enunciadores, públicos. A presença do tema na cultura contemporânea só tem feito aumentar, e cada vez mais rapidamente, justo como aquilo a que ele se refere, a saber, a intensificação das mudanças do macro-ambiente terrestre. Toda esta floração disfórica se dispõe na contracorrente do otimismo “humanista” predominante nos três ou quatro últimos séculos da história do Ocidente. [...] As coisas têm mudado tão rápido que se tornou difícil acompanhá-las [...] Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele. [...]. Trechos extraídos da obra Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins (Desterro, Cultura e Barbárie\Instituto Socioambiental, 2014), da filósofa Débora Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

 

O DEFUNTO AVENTUREIRO

[...] Lembrou que deixara de consertar as goteiras do quarto, botar água fervendo no formigueiro que aparecera bem debaixo da cama, endireitar a tranca da porta. À noite passada, não pudera dormir, cercado de pingos impertinentes. Graças a Deus, a noite hoje estava bonita. Sem lua, mas sem chuva. A verdade era que estava perdendo o gosto da habitação [...].

Trecho extraído da obra O defunto aventureiro (Bagaço, 2008), do escritor Gilvan Lemos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Interregno das personas... - Havia o que já foi sem que desse nunca pelo que virá: só crescia de noite para ...