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domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico e não o excesso de gordura que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.

 


quarta-feira, novembro 22, 2023

CONNIE PALMEN, VÂNIA VARGAS, GILVAN LEMOS & MUNDO POR VIR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Bach, the Fly, and the Microphone (2009), Colours of Spain (2015) e Open Sky (2020), da premiada violonista australiana Stephania Jones.

 

MAIS DE TRÊS MILÊNIOS E A METÁFORA QUÂNTICA – Um dia sonhava e o Sol sorria. Seguia ararajuba ao lado de um tamanduá-bandeira. Logo deparei a ariranha às voltas do macaco-aranha-da-cara-preta (não era o boi da infância? Não, não era!). A onça pintada seguia a trilha do mico-leão-dourado, pronde vão, não sei. Parecia mais que o cervo do pantanal guiava o lobo-guará e o cuxiú-preto. E confundiam-me como se eu fosse o boto cor-de-rosa à porta do Inferno de Dante: Abandona toda esperança! Ora, não! Parecíamos mesmo o Die Brücke encarnando o Zaratustra nietzscheano na busca da realidade. Pois sempre desejei nunca correr perigo ao lidar com o impossível, porque havia me tornado uma ponte sobre águas turvas numa viagem pelas cidades invisíveis de Calvino. Todos comigo, então. Uma semana e lá estávamos nós ouvindo Rebecca Solnit: Caminhar… é como o corpo se mede em relação à terra. Escrever é dizer a ninguém e a todos o que não é possível dizer a alguém... Sim. Mais de um mês já se passara, de qualquer modo, quando dei por mim entardecia de manhã e o dia já era outro. Queimei meu filme, arranquei todas as máscaras e não importunei ninguém, longe a sombra de um erro grave e a avareza. Nem deu pra perceber que era fim de ano quando ouvi Arundhati Roy: Hoje, parece que lutamos pela injustiça, aplaudindo-a como se fosse um sonho digno, sagrado pelo sistema de castas... Pois é, uma década e ainda insultam o decoro: o abismo do caos. Restava-me apenas um só olhar, nada mais que isso e um século para que eu entornasse o silêncio com quem vem desde A.E.C. precisando lembrar d’A cor púrpura de Alice Walker. Nunca é demais relembrar, que o diga Ai Weiwei: O mundo é uma esfera. Não há Ocidente nem Oriente. Tudo é arte. Tudo é política. O poder tem muito medo da arte e do poeta. A arte traz a possibilidade de defender os direitos mais essenciais. Os artistas não precisam se tornar mais políticos. Eles precisam se tornar mais humanos... Aí me dei conta de tantos milênios e quantos equívocos para quem segue pela E.C., entre tremores de terra em Rio Formoso e Flores, afora outros abalos sísmicos vez ou outra Nordeste afora. E já que morri anteontem não vi lá muita coisa. O tempo passou e contar três mil é como um piscar de olhos – por isso só contam 2, ou lá, ou loa – repercutindo à revelia de muitos. E só. Quisera tarde antes fosse nunca. Porque a poesia é o sacrifício de quem sonha. E quanta é a metáfora do que cada um de nós somos e não nos damos conta. Sei dos meus pecados, cônscio ou não, todos os meus castigos, tenho lá minha culpas penduradas na garganta do destino. Adivinho um pouco a cada dia. Uma supernova eu dedico como se ficasse suspenso e não me esgotasse com um ponto final, tornando-me vírgula depois de reticências e até mais ver.

 

HÁ COISAS QUE NÃO SÃO COMPARTILHADAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

A morte por exemplo \ Ele deveria ir para o inferno apenas \ Quem foge sabe caminhar sem pressa através de cidades fantasmas \ ouça a madeira reclamar \ sinto que dá sob os pés \ Eles conhecem o som que tem expectativa nos passos a ressonância do medo/da emboscada \ Eles sabem que a qualquer momento debaixo do sapato \ você pode encontrar uma peça de roupa / a mão de um inimigo uma arma / um cigarro aceso um cuspe ou apenas poeira \ a poeira que foi feita para fazer os homens chorarem sem dor no peito \ a poeira que mais cedo ou mais tarde está destinada a morder \ Hoje eu sei que estou conhecendo o ritmo da curiosidade e da cautela \ enquanto me movo por um lugar que só me lembro \ quando em sonhos eu sonho \ eu empurro a porta \ minha sombra entra primeiro cai de cara \ ou talvez tenha estado lá olhando para o teto o tempo todo \ e do sonho dele surgiu meu começo \ Seus pés saem dos meus pés e da ponta de um deles \ o canto de uma carta aparece uma das cartas espalhadas pelo chão \ Eu me abaixo para pegá-los e quem estava deitado no chão desaparece \ Eu vou um pouco mais fundo \ Eu o encontro na frente \ seu olhar está esperando por mim \ Ele embaralha o baralho e joga em mim uma primeira carta que me atinge no peito \ A inocência ele diz / olhando nos meus olhos enquanto me força a ver mentalmente a frieza \ desde o momento em que coloquei na mesa como tudo que eu tinha \ sabendo que naquele jogo eu tinha que perder \ A segunda carta cai ao meu lado \ A calma ele diz olhando nos meus olhos enquanto eu sentia novamente o sangue circulando em meu peito \ como aquela primeira vez \ A terceira carta voou em direção ao meu rosto das pontas dos dedos \ A fé ele diz olhando nos meus olhos \ enquanto minhas mãos se lembravam da dor do qual foram feitos os altares demolidos \ A quarta carta roçou meu braço \ O coração ele diz olhando nos meus olhos \ então eu toquei meu peito e eu senti o vazio \ A quinta carta caiu aos meus pés \ E agora? \ pergunta olhando para mim com meus olhos \ O medo eu respondo e eu saio do quarto de costas para o espelho \ com a certeza de que isso é a última vez que vou perder.

Poema da escritora e jornalista guatemalteca Vânia Vargas.

 

SUA HISTÓRIA & A MINHA – [...] um poeta só pode tomar plena consciência de seu eu poético quando se apaixona por uma mulher em quem reside a deusa branca, alguém que une criação e destruição e que trará triunfo e destruição para sua vida. [...] Por que tão poucas pessoas entendem que o desdém dos outros, a condenação daqueles que você ama, na verdade fortalece o seu amor? Eu podia ler a consternação com a minha escolha nos olhos de todos ao meu redor. [...] Os amigos, assim como a família, querem que você permaneça inalterado, enquanto o amor tem a capacidade indecente de transformá-lo, de enriquecê-lo com uma nova visão de tudo o que você já conheceu. Quanto mais ela caía em desgraça com todos, mais obstinado era o meu impulso de protegê-la de um mundo hostil. [...] A memória é literária por natureza. Pega nos acontecimentos factuais e dá-lhes uma carga metafórica, emprestando ao que realmente aconteceu um peso simbólico, numa busca persistente pela segurança de uma história. [...] Eu, o grosseiro homem de Yorkshire, escolhi esta mulher exaltada acima de todas as outras, entreguei meu coração a uma criatura exuberante e excessiva, o protótipo da pretensão e da artificialidade, fanática, exagerada em todas as coisas.[...] Ela queria mais do que qualquer outra coisa amar alguém, mas quando realmente o fez, ela odiou. Ela queria mais do que tudo ser adorada, mas punia impiedosamente qualquer um que a amasse. [...] Não há paraíso sem cobra. [...] Tive que resistir à sensação de que o seu espírito mercantil estava corrompendo a pureza do meu amor pela poesia. [...] Criei coragem para fazer ao nosso mal-educado oráculo a pergunta que presumi — não, sabia — que obcecava minha noiva. Curvei-me sobre o quadro e perguntei se ficaríamos famosos. O impacto foi catastrófico e desafiou todas as minhas expectativas. Com força audaciosa, Pã nos mostrou por que o pânico recebeu seu nome: ele nos deu o maior susto de nossas vidas, como se tivéssemos nos tornado excessivamente familiares e não tivéssemos sido suficientemente respeitosos com sua divindade. Do nada, um marionetista furioso puxou abruptamente a mão de minha noiva, com os olhos cheios de lágrimas de medo, e - tendo desejado apenas agradá-la, perseguindo o sonho americano de uma existência gloriosa como um velho cão pastor obediente - eu escutei, atordoado, enquanto ela falava em línguas. Pan dispensou a lentidão do alfabeto e falou diretamente através dela em um rosnado profundo e sinistro, zombando de seu desejo por aquela exibição vazia, e perguntou se ela percebia que a fama que ela tanto desejava destruiria tudo o que ela tinha. [...] Tudo o que é negado e reprimido, todo conflito varrido para debaixo do tapete e rejeitado, numa cultura ou na existência de um indivíduo, procura uma saída e, em última análise – violento, destrutivo, diabolicamente disfarçado – volta-se contra a vida. [...]. Your Story, My Story (Amazon, 2021), da escritora holandesa Connie Palmen (pseudônimo de Aldegonda Petronella Huberta Maria Palmen). Veja mais aqui.

 

HÁ UM MUNDO POR VIR? - [...] O fim do mundo é um tema aparentemente interminável — pelo menos, é claro, até que ele aconteça. [...] Conforme vai se tornando cada vez mais evidente a gravidade da presente crise ambiental e civilizacional, proliferam novas e atualizam-se velhas variações em torno de uma antiquíssima ideia que chamaremos, em uma simplificação que este ensaio pretende complicar um pouco, “o fim do mundo”. São blockbusters do gênero fantástico, “docuficções” do History Channel, livros de vulgarização científica em vários níveis de complexidade, videogames, obras musicais e artísticas, blogs sintonizados em todas as faixas do espectro ideológico, reuniões científicas, revistas acadêmicas e redes de informação especializadas, relatórios e pronunciamentos de organizações mundiais as mais diversas, as invariavelmente frustrantes conferências de cúpula sobre o clima, simpósios de teologia, ensaios de filosofia, cerimônias da Nova Era e de outros movimentos neo-pagãos, um número exponencialmente crescente de manifestos políticos — toda sorte, enfim, de textos, contextos, veículos, enunciadores, públicos. A presença do tema na cultura contemporânea só tem feito aumentar, e cada vez mais rapidamente, justo como aquilo a que ele se refere, a saber, a intensificação das mudanças do macro-ambiente terrestre. Toda esta floração disfórica se dispõe na contracorrente do otimismo “humanista” predominante nos três ou quatro últimos séculos da história do Ocidente. [...] As coisas têm mudado tão rápido que se tornou difícil acompanhá-las [...] Falar no fim do mundo é falar na necessidade de imaginar, antes que um novo mundo em lugar deste nosso mundo presente, um novo povo; o povo que falta. Um povo que creia no mundo que ele deverá criar com o que de mundo nós deixamos a ele. [...]. Trechos extraídos da obra Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins (Desterro, Cultura e Barbárie\Instituto Socioambiental, 2014), da filósofa Débora Danowski e do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

 

O DEFUNTO AVENTUREIRO

[...] Lembrou que deixara de consertar as goteiras do quarto, botar água fervendo no formigueiro que aparecera bem debaixo da cama, endireitar a tranca da porta. À noite passada, não pudera dormir, cercado de pingos impertinentes. Graças a Deus, a noite hoje estava bonita. Sem lua, mas sem chuva. A verdade era que estava perdendo o gosto da habitação [...].

Trecho extraído da obra O defunto aventureiro (Bagaço, 2008), do escritor Gilvan Lemos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 



TATIANA DE ROSNAY, VERONIKA KIVISILLA, NIALL FERGUSON & MARIA LAURA LOPES

  Imagem: Fluxo dos devires , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula porcina na cabeça!... -...