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domingo, julho 26, 2026

MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet. Nem a astronauta patrulheira Barbarella do Vadim de Forest. Nem a poeta Akhmadulina, muito menos outra qualquer matusquela, era só e simplesmente ela, aquela menina Rainha do Milho de todas as festas juninas da escola; aquela que era miss do ginásio e colegial, a mais celebrada Miss Alagoinhanduba, irradiando o frescor juvenil de sua fulgurante lindeza. Ah, chega a cidade se iluminava toda com seus passeios, flores e presentes, deslumbrantemente pudibunda, escorreita, a escolhida para noivados, a preferida esponsal das núpcias engalanadas. Não havia marmanjo que não se inquietasse ambicionando o mínimo que fosse de sua graciosa atenção. Ela sempre gentil sorridente, amável com tudo e todos. Foi no fuzuê desse seu reinado que reapareceu assim do nada o Barãozinho, aquele mesmo – lembra? – que ainda ontem era um pirralho mimado, que cresceu de quase envergar-se e deu na vista: pior que o pai! Morreu uma vez, foi; todo endeusado numa barroada medonha, valha-me! Não, rapaz, foram duas: teve a do paraquedas, doido! Eita! Foi mesmo! Melhor: três, a do submarino que explodiu com ele dentro, se esqueceu? Vixe! Ainda está vivo? Ressuscitou! Glória a Deus! Ora, foram tantas e muitas, renascia não se sabe como. Milagre! Era adorado pelas fanáticas donzelas soçaites, pelos caboetas de todas as hierarquias, por toda população do lugar. E dessa vez quando ele deu as caras, logo soube dela e enrabichou-se todo, com mundos e fundos, tudo pra ela. Bailes, efemérides institucionais, o par perfeito, ele desfilava ao lado dela, lindo casal para os mais simpatizantes. Aí, certa noite, depois de tantas festanças e torcida pelo casório deles, ele foi, criou coragem e falou namoro: ela bambeou, desculpou-se, floreou os argumentos e desconversou: só queria sua vida e compromisso com ninguém. Ah, isso não! Sim. Faça isso não! Isso sim. Tá certo, fazer o quê? Ele não arredou pé. Continuou acompanhando-a aos lugares nas comemorações e convidando-a pra casa grande do Barão todo final de semana. Ela assentia, não se furtava entretenimentos. Aí ele soube dela se engraçando pras bandas da rapsódia do Zé Bunito, que andava taciturno roendo unha aos telengotengos na sofrência pela perdição da Lampioa. Ela, todo dia, dispensava momentos de longo papo com ele, conversa solta, cumplicidade de afetos. Oxe, deram com a língua nos dentes e o enciumado cismou do abilolado de quase desarranjá-lo, capá-lo e deixá-lo inválido pro resto da vida, escapou fedendo – condoído que tivesse fosse se lascar com sua paixonite horrorosa pros quintos dos infernos, ora! Nossa! Foi por pouco. Não fosse a intervenção dela, já estava mortinho da silva. Mas, passou o tempo, quase esquecido dessa, de repente, ficou feia a situação de mesmo: um boato corredor de que ela andava aos idílios com um outro sujeitinho qualquer, que foi colega dela de escola. Ih, essa não! Ah, o coração do enervado possessivo estremeceu, ferveu o sangue: Vou botar isso em pratos limpos; se não é minha, não será de ninguém. Foi lá meio jeitoso dá uma prensa nela: Quem é? Nada, não. Desconfiou sem dar na vista e botou a cabroeira no encalço. Confirmaram: ela aos amassos com o talzinho. Ah é? Ela me paga tudo que me deve e já! Armaram uma cilada, tramaram tudo direitinho no absoluto sigilo. Seguiram seus passos, ligados, noitedias. Depois de um tanto de flagra, deu-se o sequestro: encurralados - ela foi caçada, perseguida, capturada. Três veículos cercaram, fecharam a estrada e dois encapuzados, fortemente armados chegaram, abriram a porta do veículo violentamente e deram uma coronhada no motorista, jogando-o pro banco de trás, desacordado. Nem deu tempo, ela indefesa foi puxada do assento e jogada no porta-malas doutro veículo. E partiram em disparada. Num matagal sinistro, jogaram os dois próximos a um pântano deletério. Eram muitos, todos de arma em riste. Amarraram-na e ficaram atiçando o parceiro. Quando ela viu a chegada doutro veículo, era seu fiel apaixonado e sentiu um alívio: era a salvação. Ele conversou reservadamente com um deles e logo a viu. Ela teve um pressentimento e logo se retraiu ao vê-lo irreconhecivelmente transtornado em sua direção. An-hã! Os dois pombinhos... Ele então deu ordens e uma movimentação estranha começou. Ouviu ironicamente: Ó Belladonna – nem passava pela cabeça dela a tragédia de Jennie do Michelet e Yamamoto. Segurada forçosamente por dois brutamontes assistiu a sessão de torturas: esfolaram até emasculação, seviciaram e, ao vê-lo desmaiar, a sentença: mata! Muitos disparos e sacudiram o corpo dele de volta ao assento do motorista, dentro do automóvel. O desalmado então gritou: Cambada, todo mundo de costas, plantão de vigilância, ninguém se vira! Os capangas se afastaram um pouco, formaram um círculo enorme e se postaram vigilantes protetores, de costas, prontos para ceifar qualquer metido invasor. Um mau presságio escureceu o coração ingênuo dela e o antigo sonho romântico se dissipou quando ele chegou perto, desamarrou-a e obrigou-a a ajoelhar-se diante dele – ali não previa: era a sua vez de tortura. Ela chorou e tentou clemência, o dominador irredutível, parecia fora de si, dionisíaco. Ousou conciliação: Você sempre tão bonito, amável, bondoso, não combina com esse jeito impiedoso. Foi esbofeteada pela astúcia, inclemente: Ajoelhe-se! E mesmo que suplicasse pela fé cristã dele, pelo amor da família e por tudo que fosse de mais sagrado no seu coração, mais inexorável sádico a castigava com requintes de crueldade, degradando-a, ultrajando-a: Sabe o que é amor de verdade, sua quenga chupona, sabe? E mais se irava espancando-a. Ela relutou, resistiu o tanto que pode, mas foi truculentamente vencida. Ele arrancou suas vestes e exigiu dela: Continue a felação, vá! Pressionada rispidamente por duas coronhadas à cabeça e ela cedeu, submissa, quase desnuda, supliciada, às puxadas de cabelos, estapeada, o abuso do ato, os murros nas costas, os socavões, quase sufocada com a invasão garganta adentro, a ânsia de vômito, a violação: Vai, engole, chupa! Ele impaciente e bruscamente arrastou-a para jogá-la sobre o capô do carro, completamente nua na frieza e em decúbito ventral, mais martirizada. Sentiu a brutalidade de ser flagelada em carne viva, violentada. Era o pacto de morte: Não é minha, nem será de mais ninguém. Ouviu a maldizente voz embrulhada de furor e um estampido na nuca, tudo escureceu de vez. Jaziam dois corpos no amanhecer friento, um sonho de casal esquecido no tempo. Até mais ver.

 

Pierre Bourdieu: A menos que seja salvo por um talento excepcional, ele inevitavelmente paga o preço da clareza... A mente é uma metáfora do mundo dos objetos... Veja mais aqui.

Wislawa Szymborska: Este mundo aterrador não é desprovido de encantos, de manhãs que fazem o despertar valer a pena... Eu sou quem eu sou. Uma coincidência tão impensável quanto qualquer outra... E tudo o que eu fizer se tornará para sempre o que eu fiz... Veja mais aqui.

Rebecca Solnit: A esperança não é um bilhete de loteria que você pode segurar no sofá, sentindo-se com sorte. É um machado com o qual você arromba portas em uma emergência. A esperança deve te empurrar para fora, porque será preciso tudo o que você tem para direcionar o futuro para longe de guerras intermináveis, da aniquilação dos tesouros da Terra e da opressão dos pobres e marginalizados. Ter esperança é se entregar ao futuro – e esse compromisso com o futuro é o que torna o presente habitável… Veja mais aqui.

 

POBRE POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu escrevi um poema horrível! \ É claro que ele queria dizer alguma coisa... \ Mas o quê? \ Estaria engasgado? \ Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade \ de quem, sem ler os jornais, \ soubesse dos sequestros \ dos que morrem sem culpa \ dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados... \ Poema, menininho condenado, \ bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo... \ Tomado, então, de um ódio insensato, \ esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável \ verdade, dilacerei-o em mil pedaços. \ E respirei... \ Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Poema do poeta, jornalista e tradutor Mário Quintana (Mario de Miranda Quintana – 1906-1994), conhecido como "o poeta das coisas simples", sua obra poética é marcada pela linguagem simples e pela abordagem de temas cotidianos e contemplativos. Ele tentou por três vezes uma vaga à Academia Brasileira de Letras, mas em nenhuma delas foi eleito; as razões eleitorais da instituição não lhe permitiram alcançar os vinte votos necessários para ter direito a uma cadeira. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A IMORTAL – […] Suponha, por um momento, que as afirmações sobre a inefabilidade da dor sejam historicamente específicas e ideológicas — que a dor seja amplamente declarada inarticulável justamente porque não se espera que compartilhemos uma linguagem para expressar como realmente nos sentimos. [...] Os exaustos são os santos da vida desperdiçada, se é que um santo é alguém que sofre melhor do que os outros. O que os exaustos sofrem melhor é o modo como corpos e tempo entram tantas vezes em conflito na nossa era de cronicidade avassaladora e confusa — quando cada hora é amplificada para além dos ritmos circadianos, quadruplicada na agenda de intervalos de quinze minutos, submetida ao método Pomodoro, hackeada, marcada pela ansiedade do *FOMO* e tornada produtiva. Os exaustos são a prova viva de cada minuto erroneamente visto como um império para as finanças, de cada corpo humano erroneamente visto como um instrumento que deveria tocar mil melodias dóceis ao mesmo tempo. [...] A doença nunca é neutra. O tratamento nunca é ideológico. A mortalidade nunca está isenta de sua política. [...] Meu trabalho é habitar os silêncios com os quais convivi e preenchê-los com a minha própria presença, até que adquiram os sons do dia mais luminoso e do trovão mais estrondoso. [...]. Trechos extraídos da obra The Undying: Pain, vulnerability, mortality, medicine, art, time, dreams, data, exhaustion, cancer, and care (Farrar, Straus and Giroux, 2019), da escritora estadunidense Anne Boyer, autora de obras como The Romance of Happy Workers (2008), The 2000s (2009), My Common Heart (2011), Garments Against Women (2015) e The Handbook of Disappointed Fate (2018).

 

GORDOFOBIA – [...] O corpo não é um objeto de correção, colonização ou consumo. [...] No fim das contas, a neutralidade em relação ao corpo parece, na melhor das hipóteses, um recuo precário diante do julgamento, e não um porto seguro e estável. É como oferecer um zero em vez de um número positivo ou negativo, quando o que se faz necessário é dispensar completamente os números. [...] Quando a positividade corporal é imposta ou parece exercer controle, ela pode minar o senso de agência e autonomia e, consequentemente, gerar o efeito oposto... Enfatizar a positividade enquanto se ignoram sentimentos e experiências negativos cobra um preço da autenticidade e da integração do eu — isto é, da necessidade de sentir-se fiel a si mesmo (e em consonância consigo mesmo). [...] Filósofos citam frequentemente o princípio de que "o dever implica o poder": a ideia de que temos a obrigação moral de fazer algo apenas se formos capazes de fazê-lo ou, de forma equivalente, de que não somos obrigados a fazer algo que não podemos realizar. Segundo uma adaptação plausível desse princípio, a quase impossibilidade de alguém realizar uma ação também torna inútil e injusta a exigência de que ela a execute. Assim, o fato de que a maioria das pessoas gordas não consegue, de forma realista, emagrecer a longo prazo por meio de dieta e exercícios traz implicações morais de grande alcance: não podemos, portanto, ser culpados por não realizar o que é praticamente impossível. [...] Quando se trata da nossa saúde, portanto, há evidências consideráveis de que é o condicionamento físico — e não o excesso de gordura — que mais importa, e de que esse condicionamento atenua muitos, se não todos, os riscos à saúde associados a viver em um corpo maior. E, no entanto, muitos continuam a confundir o excesso de gordura com o maior problema. [...]. Trechos extraídos da obra Unshrinking: How to Face Fatphobia (Penguin, 2024), da filósofa australiana Kate Manne (Kate Alice Manne), autora de obras como Entitled: How Male Privilege Hurts Women (Penguim, 2020) e Down Girl: The Logic of Misogyny (Oxford Press, 2017).

 

DEBATE: POLÍTICA & VIOLÊNCIA

[…] Cada brasileiro vive muito o seu Estado como uma espécie de mini-pátria, pouco antenado – com exceção do momento da eleição presidencial – com o destino do País como um todo. Isso é fundamental no sistema de dominação vigente no nosso Brasil. [...] Porque a partir do momento em que você está dizendo que o racismo se expressa fundamentalmente na esfera da cultura, da subjetividade e da institucionalidade, é natural que o programa de superação disso esteja focado na cultura, na subjetividade e na representatividade das instituições públicas e privadas. Então o problema da questão racial no Brasil seria um problema de integração da parcela negra, “as oportunidades”. Ou seja: é dizer que uma grande parcela da classe trabalhadora brasileira vai ter seus problemas resolvidos com uma modernização capitalista das oportunidades, em que cada um vai disputar seu espaço de uma maneira igualitária dentro de um mercado capitalista sem barreiras raciais. Isso precisa ser combatido e superado para ontem, se a gente quiser ver realmente uma revolução no Brasil. [...].

Trechos recolhidos da entrevista É um absurdo falar de política sem falar de violência (Opera Mundi, 2024), concedida pelo historiador, professor, comunicador, escritor, militante e político, Jones Manoel, autor dos livros A negação do Brasil negro: imperialismo, dependência e questão racial na obra de Guerreiro Ramos (Autonomia Literária, 2024) e A batalha pela memória – reflexões sobre o socialismo e a revolução no século 20 (Baioneta e Ruptura, 2024). Veja mais aqui.



CURUMIM NO MEIO DA TARDE - Imagem: arte de Lú Karyry. – Este é um texto extraído da publicação 11.645 indígenas e diversidade pela paz (Thydewa – Escola Livre Abya Yala, 2024), que reúne o trabalho e o ativismo dos movimentos de retomada indígena no Brasil e na América Latina, voltados para a Educação Infantil e Ensino Fundamental das escolas das redes pública e privada. Confira aqui.


 

ARTEXPRESSÃO - O projeto ArtExpressão: trabalhando arte para a criatividade nos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental, foi desenvolvido como atividade de Arte na Escola, realizado desde 2023, no Observatório de Linguagens, da Semed-Palmares (PE). O projeto tem contemplado inicialmente os professores de Língua Portuguesa e de Artes, com formações e oficinas que versam sobre a arte e os gêneros artísticos. Veja detalhes aqui & aqui.

 


VALUNA – Esta iniciativa compreende um conjunto de projetos que envolvem desde a publicação de uma ficção de viagem, tanto para o público infanto-juvenil, como para o público adulto, pautadas nos objetivos proposto pelo projeto Bacia Artístico-Criativa do Rio Una (Bacuna) e do roteiro de curta-metragem Valuna. As informações a respeito estão aqui, aqui & aqui.

 


PROEZAS DO BIRITOALDO – Trata-se de uma narrativa humorística acerca das presepadas e doidices do personagem Biritoaldo, desde o seu estranhíssimo nascimento, sua adolescência perturbada e o seu desarrumado casamento com uma dondoca ricaça extravagante. Confira essa aventura aqui.

 


E veja mais Pernambuco aqui.

 


segunda-feira, janeiro 26, 2015

SUELY ROLNIK, BARBARA KRUGER, JENNY HOLZER, THEA DJORDJADZE, AGOSTINHO NETO & CURUPIRA

 


AS PEGADAS DA CURUPIRA – Passeava nas proximidades da mata e ouvi silvos agudos. Lembrei dos tempos de menino: saiam de bocas e ouvidos por ali haver a entidade das matas, um dos demônios dos Brasis que eriçam a pele e arrepiam os cabelos. Ninguém nunca viu, mas contam amedrontados. Segui o apito cada vez mais perto e, realmente, muitas pegadas na trilha. Sabia dos sinais falsos como se algo me perseguisse, movimentando as touceiras ao redor, estalidos, pisadas ignotas, algo estranho acontecia e já esperava dar de cara com um menino montado num Caititu, com seu cabelo de fogo e corpo coberto de pústulas, sarnas e verrugas, com os pés para trás, ou mesmo o terrível Pai da Mata como tratavam os daqui, sei lá, coisa que o valha. Sei, pelo que diziam, que era só para assustar ou levar à loucura. Eu, realmente notei que havia perdido a noção de rumo. Divisei oferendas de pinga e fumo deixadas pelos crédulos, coisa mais inusitada: nunca tinha visto aquilo. E mais adentrei curioso porque, já que errava torto na vida, nada demais tirar a prova dos nove. E ouvi algo ameaçador: Pronde cê vai, menino, parece um rio sem leito! Era uma voz que pressupus ser de uma caquética desdentada. Girei o corpo buscando vê-la, o lugar mais limpo: só matagal, vento brando, zumbidos de insetos e os característicos sons da mata. Segui adiante e, de repetente, apareceu-me uma bela e sensual mulher. Sou Kuru’pir, o demônio da floresta. Esbugalhei os olhos, não era nada daquilo que ouvia desde menino. Fitou-me compenetrada e seus olhos e cabelos ruivos acenderam realmente. Era fogo. E sua voz rondava meus ouvidos: sinta o chão e as pegadas dos tantos que antes de você trilharam essas errâncias. Todos estão aí esperando seus passos para seguirem e guiarem você para o seu melhor caminho. São muitas direções e é pra isso mesmo a vida: seguir todos os caminhos, voltar, refazer, reencontrar, se perder, e até mesmo parar para começar a rodopiar como se fosse um brincado, sabe, que cada um tem que dançar. Vai, dança, seu menino! A vida é isso: pra dançar mesmo e se envolver com os que se foram para saber como será com os que virão. Dance e sinta no chão que pisa o vento que traz a brisa e sopra todas as coisas e tudo que respira. E mais traz olores, desde da lonjura pra chegar aqui perto e levar pros redemoinhos daqui, dali e dacolá, porque tudo dança no universo e faz o chão girar e a gente rodando com tudo. No vento as vozes dos que falaram, dos que colocam para nos ouvir e ouvir a todos contarem suas próprias hestórias, cada um a sua vez, os que ficaram, os que passaram, agora é com você, cada tem sua vez. O vento nos leva a todos os cantos para nos ensinar o Grande Espírito que está dentro de cada um de nós que somos todos juntos Ele em comunhão, com os que vieram e que vão, e os que ainda pisarão onde todos já pisaram e você está pisando. E nos leva para as águas e todos os alagados até a imensidão do mar que também somos e vamos pela vida que se vive com os que voam, com os que se arrastam, com os paralisados e os que brotam da terra e dão folhas e frutos, e nos servem de sombreiro e de alimento para saciar a fome e matar a sede pelo de cima, de baixo, dos lados ou pra lá no crepúsculo quando entardece e a boquinha traz a escuridão. Tenha medo não, seu menino, o escuro também faz parte, mesmo que a gente não veja nada, está tudo escondido, dormindo e sonhando para acender o fogo do novo dia que virá ao amanhecer, como o Sol que ilumina e queima dentro da gente para a vida de tudo e todas as coisas. E nos ensina a treva onde tudo se esconde para renascer, porque será sempre reviver e sonhar deste muito antes deste chão existir e o tempo era qualquer coisa como o barulho das águas que nos purifica, o canto dos pássaros, o ronco dos bichos, as folhas que caem e os rios que nos levam sempre para algum lugar. Era tudo muito mágico e me legou ao ponto de partida, depois de trilhar ásperas brenhas e chegar ao cume da mais alta montanha, para lançar os seus açoites a tudo no universo. Foi ali que ela me disse: sou a guardiã das matas! E desde esse dia meu coração foi envolvido por sua magia e com ela fui morar. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Em um sonho você viu uma maneira de sobreviver e ficou cheio de alegria. É do seu interesse encontrar uma maneira de ser muito terno. Torne-se suave e adorável sempre que tiver oportunidade. Destrua a superabundância. Deixe a carne passar fome, raspe o cabelo, clareie a mente, defina a vontade, restrinja os sentidos, deixe a família, fuja da igreja, mate os vermes, vomite o coração, esqueça os mortos. Limite o tempo, renuncie à diversão, negue a natureza, rejeite conhecidos, descarte objetos, esqueça verdades, disseque mitos, pare o movimento, bloqueie o impulso, sufoque soluços, engula tagarelice. Despreze a alegria, despreze o toque, despreze a tragédia, despreze a liberdade, despreze a constância, despreze a esperança, despreze a exaltação, despreze a reprodução, despreze a variedade, despreze o embelezamento, despreze a liberação, despreze o descanso, despreze a doçura, despreze a luz. É uma questão de forma tanto quanto de função. É uma questão de repulsa. Você é vítima das regras pelas quais vive... Pensamento da artista neo-conceitual estadunidense Jenny Holzer, que no livro Jenny Holzer: Truisms And Essays (‎Barbara Gladstone Gallery, 1995), expressou: [...] Se você se comportasse bem, os comunistas não existiriam. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: No meu começo está o meu fim. Sucessivamente casas sobem e desmoronam, desmoronam, são ampliadas, são removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar. Está um campo aberto, ou uma fábrica, ou um desvio.  Pedra velha para construção nova, madeira velha para fogos novos, fogos velhos para cinzas e cinzas para a terra que já é carne, pêlo e fezes. Osso de homem e animal, talo de milho e folha. As casas vivem e morrem: há tempo de construir e tempo de viver e de gerar. E tempo de o vento quebrar a vidraça solta. E de sacudir o lambril onde trota o rato do campo e de sacudir as cortinas esfarrapadas tecidas com lema silencioso. Expressão da artista alemã-georgiana Thea Djordjadze, autora de obra como MA SA I A LY E A SE – DE (2015), Thea Djordjadze (2014), November (2013), our full (2012), Lost Promise in a Room (2011), Thea Djordjadze – His vanity requires no response (2011), Thea Djordjadze. endless enclosure (2009), Explain away - ე.ი (2009), Un soir, j'ai assis la beauté sur mes genoux. And I found her bitter and i hurt her (2008), Possibility, Nansen (2007), History of an Encounter (2007), Fröhliche Wissenschaft (2003), The Sight of the Conductor (2001), entre outras.

 

O CAOS – [...] A palavra “caos” é das mais pronunciadas na atualidade. Tema cult de congressos, livros de divulgação científica, artigos de jornal e até programas de TV, fala-se de caos em todos os campos da cultura. Com certeza, não se trata de um mero modismo, mas de uma exigência que a realidade contemporânea vem nos colocando: enfrentar o caos, repensá-lo, reposicionar-se diante dele - mesmo que muitas vezes a insistente evocação dessa palavra vise, pelo contrário, evitar tal enfrentamento e conjurar o pavor que o caos certamente mobiliza. Que mudanças se estariam operando nas subjetividades, hoje, para levá-las a revisar seu conceito de caos e de ordem, assim como da relação entre ambos? Primeiro, duas palavras acerca da noção de subjetividade. Todo ambiente sóciocultural é feito de um conjunto dinâmico de universos. Tais universos afetam as subjetividades, traduzindo-se como sensações que mobilizam um investimento de desejo em diferentes graus de intensidade. Relações se estabelecem entre as várias sensações que vibram na subjetividade a cada momento, formando constelações de forças cambiantes. O contorno de uma subjetividade delineia-se a partir de uma composição singular de forças, um certo mapa de sensações. A cada novo universo que se incorpora, novas sensações entram em cena e um novo mapa de relações se estabelece, sem que mude necessariamente a figura através da qual a subjetividade se reconhece. Contudo, à medida em que mudanças deste tipo acumulam-se, pode tornar-se excessiva a tensão entre as duas faces da subjetividade - a sensível e a formal. Neste caso, a figura em vigor perde sentido, desestabiliza-se: um limiar de suportabilidade é ultrapassado. A subjetividade tende então a ser tomada por uma inquietude que a impele a tornar-se outra, de modo a dar consistência existencial para sua nova realidade sensível. [...] o caos, hoje, circula de boca em boca, e que essa insistência em evocá-lo responderia a uma solicitação que a realidade atual vem nos colocando. De fato, o caos nunca esteve tão presente. Mas se, neste final de milênio, estamos confrontadas ao caráter precário e incerto da subjetividade, estamos certamente também - e mais do que nunca - diante de seu caráter criador. [...]. Trechos do estudo Novas figuras do caos mutações da subjetividade contemporânea (Face e Fapesp, 1999), da filósofa, escritora, psicanalista e professora Suely Rolnik.

 

PODER, CULTURA & APARÊNCIAS - [...] Não tenho queixas, exceto do mundo. [...] Seu conforto é meu silêncio. [...] Garota \ Não seja burra \ Não seja tímida \ Não se sinta intimidada \ Não pense que isso não pode acontecer com você \ Faça sexo seguro porque a AIDS mata \ Não morra por amor [...]. Trechos extraídos da obra Remote Control: Power, Cultures, and the World of Appearances (Mit Pr, 1994), da artista conceitual estadunidense Barbara Kruger, autora de frases como: Se eu trago à tona poder político, poder pessoal, parece que são meus termos, e não são. Ver não é mais acreditar. A própria noção de verdade foi colocada em crise. Em um mundo inchado de imagens, estamos finalmente aprendendo que as fotografias realmente mentem. Veja mais aqui e aqui.

 

DO POVO BUSCAMOS A FORÇA - Não basta que seja pura e justa\ a nossa causa\ É necessário que a pureza e a justiça\ existam dentro de nós.\ Dos que vieram\ e conosco se aliaram\ muitos traziam sobras no olhar\ intenções estranhas.\ Para alguns deles a razão da luta\ era só ódio: um ódio antigo\ centrado e surdo\ como uma lança.\ Para alguns outros era uma bolsa\ bolsa vazia (queriam enchê-la)\ queriam enchê-la com coisas sujas\ inconfessáveis.\ Outros viemos.\ Lutar pra nós é ver aquilo\ que o Povo quer\realizado.\ É ter a terra onde nascemos.\ É sermos livres pra trabalhar.\ É ter pra nós o que criamos\ Lutar pra nós é um destino -\ é uma ponte entre a descrença\ e a certeza do mundo novo.\ Na mesma barca nos encontramos.\ Todos concordam - vamos lutar.\ Lutar pra quê?\ Pra dar vazão ao ódio antigo?\ ou pra ganharmos a liberdade\ e ter pra nós o que criamos?\ Na mesma barca nos encontramos\ Quem há-de ser o timoneiro?\ Ah as tramas que eles teceram!\ Ah as lutas que aí travamos!\ Mantivemo-nos firmes: no povo\ buscáramos a força\ e a razão\ Inexoravelmente\ como uma onda que ninguém trava\ vencemos.\ O Povo tomou a direção da barca.\ Mas a lição lá está, foi aprendida:\ Não basta que seja pura e justa\ a nossa causa\ É necessário que a pureza e a justiça\ existam dentro de nós. Poema extraído do livro Poemas de Angola (Codecri, 1979), do médico e escritor angolano Agostinho Neto (1922-1979). Veja mais aqui e aqui.

 

SACADOUTRAS

 

QUARUP – Uma das obras mais impressionantes da literatura brasileira é o romance Quarup (Civilização Brasileira, 1967), do jornalista e escritor Antonio Callado (1917-1997). Conta a história de um padre de Pernambuco, Nando, que tem o sonho de construir na Amazônia a sua terra prometida, enquanto se envolve num amor platônico por Francisca que o faz abandonar a causa e a batina. Uma história vibrante e uma narrativa riquíssima de engenhosidade literária. Confira um fragmento: [...] Na vida de Nando e Francisca a zona do Jarina e da cachoeira de Von Martius se transformou em mero divisor de águas. O dia em que se adotou a resolução de fazer a marcha ficou entregue à fantasia de cada um. Nando tomou a pequena ubá que vinha no barco de carga e saiu remando, ali onde o Jarina entre no Xingu. A foz, abaixo da cachoeira de Von Martius, fica meio oculta por uma ilha. Dando a volta à ilha para melhor pensar em Francisca, Nando a viu pela primeira vez transferida para o mundo. Desde os tempos de Olinda, que certas paisagens para Nando a própria Francisca transposta para outro meio de expressão: oitão de igreja batido de sol com cajueiro, coqueiro, perto de rede de pescar estendida na areia. Às vezes Nando sentia mesmo um certo temor de perder Francisca, de disciplinar sua invocação untariatária. Mas aquele dia na foz do Jarina foi diferente. Remava Nando perdido em sonho de Francisca, a capacidade de visão tomada pela imagem muito viva daquela com quem acabava de estar, quando a viu realmente transferida para o mundo. É que por trás da ilha entrara quase insensivelmente por um mfuro estreito e alastrado de orquídeas dos dois lados. Mata fendida pelo fio d´água tornado lilás pela contemplação de tantas orquídeas. Nando remou de volta ao acampamento, encostou a ubá para chamar Francisca [...] Nando e Francisca não falaram. Apenas se voltaram um para o outro, braços abertos, e o breve instante em que se separaram foi para deixarem cair no chão as roupas sobre as quais se deitaram debaixo de orquídeas pálidas, separados do rio por um cortinado de orquídeas coloridas. Quando veio o prazer Francisca o fechou em lábios e pétalas quentes sem nenhuma palavra e Nando descobriu o gozo que é profundo e continuo como mel e seiva que se elaboram no interior das plantas... Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Venus playing the Harp (1630), do pintor do Barroco italiano, Giovanni Lanfranco I(1582-1647).

Ouvindo: Rua ramalhete e outros sucessos do Tavito. Veja mais aqui.

ELA PANTERA NEGRA - A professora e filósofa socialista estadunidense, Angela Yvonne Davis, integrante dos Panteras Negras, do movimento Black Power e militante de organizações políticas dos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial. Por suas atividades, na década de 1979 passou a ser procurada pelo FBI com prisão decretada por ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio. Ao ser presa, o seu julgamento durou 18 meses e uma manifestação pública mobilizou o país pela sua libertação. Nos debates do tribunal, a condição negra passou a ser a discussão, sendo, finalmente, inocentada. Ela recebeu homenagens de John Lennon com a música Angela, e dos Rolling Stones que gravaram em sua homenagem Sweet Black Angel. No final da década de 1970, ela foi ganhadora do Prêmio Lêniz da Paz e mantém até hoje suas atividades com discursos e palestras sobre as causas dos negros, latinos e mulheres, concentrando suas atenções para o abolicionista prisional no sistema carcerário dos Estados Unidos. Veja mais aqui e aqui.

A HEROÍNA BARBARELLA – Tudo começou com os quadrinhos criados pelo escritor e ilustrador francês Jean-Claude Forest (1930-19989). Mas o bom mesmo foi depois, quando em 1968, o diretor Roger Vadim (1928-2000) lança o filme com a heroína Barbarella, protagonizada pela Jane Fonda, tornando-se a maior sensação do universo masculino. Eu mesmo não perdia de rever o filme, sonhando um dia ter uma heroína dessa pra mim. Coisas de infância que se mantiveram na adolescência, quando passou a residir na memória dos sonhos. Veja mais aqui & aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...