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sexta-feira, janeiro 26, 2018

CHAPLIN, JORGE DE LIMA, HENRIQUETA LISBOA, TAVITO, SILVÉRIO TREVISAN, PAULA REGO, GIOCONDA AGUILAR, DANNY CALIXTO, ARTUR GOMES & O PARAÍSO BRASIL

O MUNDO NA JANELA – Imagem: ArtObjeto em madeira, da escultora Georgia Gioconda Aguilar. - Abro a janela, é manhã. Sinto que sou como um rio, uma nascente. E a minha vida é como a doce água na correnteza para o mar em um dia azul ensolarado de nenhuma nuvem, solto e livre, na companhia de pássaros aos voos, bem-te-vis, sabiás, canários, a festa dos cardumes. Assim voo vida afora, horizonte franqueado ao prazer da vastidão. É assim que me sinto nesta manhã, o mundo da janela. Um sentimento diferente, como se estivesse de ressaca – sempre estou feliz de ressaca, uma simples felicidade por me ver sem compromissos, ou afazeres previstos, missão cumprida. Feliz e grato, em estado de graça. Não sei das horas, pra quê saber? Telefone mudo, nada de noticiário, pra quê? A tevê desligada, silêncio de máquinas, passantes que saúdo rua acima ou ladeira abaixo, nada de moral baixo ou vagas amabilidades, passado esquecido, tristeza que nem sei, mesmo sabendo que os caras de Brasília e tantas outras supostas autoridades nas mais diversas regiões desse nosso imenso país, ou querem acabar com o Brasil ou com a gente, o que dá no mesmo, nós somos o Brasil, eles são apenas mandriões salteadores que assumiram o poder, logo passam, passarão, tudo passa, quer queira ou não, e amanhã há de ser outro dia e quero manter a paz e a felicidade de hoje. O mundo em paz pra mim, como se não sucumbisse a tantos problemas, ah, nem quero saber de problemas, bastam os meus que só quero saber amanhã ou depois de amanhã, hoje não, hoje é dia de me sentir bem, nem dá pra pensar o que faz a vida valer a pena, tudo vale a pena, as coisas de infância relembradas, os sonhos que não nos abandonam mesmo com a idade, a crença de um mundo melhor para todos, e que o pior de tudo que possa ocorrer, no mínimo a gente negocia, esquenta as orelhas e depois sorrir só por lembrar os apertos, revertérios, tudo passa, sem dúvida, até o mais emperrado acaba passando. Alguém passa e reconheço, não lembro o seu nome, cabeça essa minha, sempre ocupada e falhando vez em quando, senão sempre, nada demais, é a idade. Ele pergunta: cadê a alma? Um outro se aproxima e: e eu é que sei? Aceno e aponto pra eles o meu coração. Não entenderam, levaram como se fosse mais uma mentira escrota dessas que a gente vê em todo momento só para dispensar certas loas. Foram pra sua agenda, moldados pelo mundo, tudo é seu negócio, fazer bonito e fugir do flagra pra não queimar o filme, tudo na manada, padronizados, dependentes do êxito, não há espaço para fracassados, por isso estou bem porque dos tropeços tirei lições inenarráveis. Nunca quis só na boa, atalhos, ou deixar retardários ao retrovisor. Sempre um dia atrás do outro, adiante, passo firme. O que importa é não sentir cólicas, não enfrentar nenhum fila, remédio algum por paliativo, apenas o coração crescido de satisfação a vagar pelos corredores e cômodos da casa, ah, o prazer do banho, depois saborear bananas, laranjas, fatias de mangas, um copo d’água que nunca sentira o frescor, e belisco o pastelão sempre delicioso, verduras, legumes, exercícios de respiração e o espírito de gratidão, isso sim, sempre, agradeço todos os dias pelo amanhecer, pela vida, pelo Sol aquecendo minha pele, pela Terra minha morada aos meus pés, pelas árvores e seu oxigênio e por embelezarem a natureza – isso enquanto dendroclastas de plantão não desertificam tudo com suas ganâncias, pois não sou estoico pra sofrer de antemão, retribuo em defesa dos verdes campos e assim aspiro a vida em sua plenitude. Nisso sinto sou maior que a mim mesmo, mesmo sabendo que sou apenas um homem na janela, nada mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o músico e compositor Tavito Carvalho cantando seus grandes sucessos & com Zizi Possi a música Começo, meio e fim; a cantora, compositora e instrumentista Danny Calixto interpretando seus trabalhos autorais: Oásis, Odum & Do avesso; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido. Trecho do filme O grande ditador (The Great Dictator, 1940), do ator e cineasta inglês Charlie Chaplin (1889-1977), uma comédia dramática e uma sátira crítica ao momento histórico que se desenvolvia no período em que foi criado. Veja mais aqui.

O FECAMEPA & O ILUSÓRIO PARAÍSO BRASIL – [...] Em nenhuma outra região se mostrou o céu mais sereno, nem madruga mais bela a autora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são as mais benignas, e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos, são as mais puras; é enfim o Brasil terrenal Paraiso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios, domina salutífero clima, influem benignos astros e respiram auras novissimas, que o fazem fértil e povoado de inumeros habitantes. Trechos extraídos da obra História da América portuguesa (W.M. Jackson Incorporated, 1952), do historiador, poeta e advogado português Sebastião da Rocha Pita (1660-1738), uma pesquisa realizada em arquivos de ordens religiosas da Bahia, Rio de Janeiro e São Vicente, constituída de dez "livros", que tratam desde a chegada dos portugueses até as minas de ouro de Minas Gerais. Veja mais aqui.

MAIS DO PARAÍSO BRASIL – [...] Estava, agora diante de uma bandeja de queijos variados. - Ah, o Brasil, essa imensa ilha... – dizia o conde Bassuccello, entretido em cortar um pedaço de sbrinz dos Alpes. – De fato – aparteou Nepomuceno – estamos muito isolados na América. A língua mas também... – Oh, não. Não me refiro a isso, que não deixa de ser verdadeiro – retrucou o conde, acabando de mastigar. – Falo de uma dessas ilhas utópcas cuja lenda se perde na noite dos tempos. Os senhores talvez não saibam, mas o nome Brasil em geografia já existe desde o período medieval. – Mas o Brasil só foi descoberto bem depois... Não é mesmo, Herr Nepo? – admirou-se Júlia, entretida com um delicioso queijo stracchino lombardo. – Sim, mas antes do atual Brasil já existia na Idade Média uma ilha chamada Brasil – asseverou Basuccello. – Bem existiam muitas ilhas míticas imaginadas pelos povos de então. Todas representavam o paraíso terrestre, onde não haveria discórdias nem velhice nem doenças ou morte. Eram tão perfeitas que seus habitantes não precisavam sequer trabalhar para comer. Numa dessas ilhas, imaginem, as frutas caiam dope pontualmente às nove horas, para poupar os homens do trabalho de colhê-las. [...]. Trecho extraído da obra Ana em Veneza (Best Seller, 1994), do escritor, jornalista, dramaturgo, cineasta, tradutor e ativista brasileiro João Silvério Trevisan. Veja mais aqui.

O CURURU – Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na semi-escuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes, o barreiro ficou sonoro, como um convento de frades. Vozes roucas, foi-nã0-foi, tãs-tãs, bum-buns, choros, esgoelamentos finos de rãs, acompanhamentos profundos de sapos, respondiam-se. Os bichos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes círculos na flor d’água. [...]. Daí a pouco, da bruta escuridão, surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como dois vagalumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximavam mais e mais, como dois pequenos holofotes na cabeça triangular da serpente. O sapo não se movia, fascinado. Sem dúvida queria fugir; previa o perigo, porque emudecera; mas já não podia andar, imobilizado; os olhos feiíssimos, agarrados aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a cabeça triangular abocanhou a boca imunda do batráquio. Ele não podia fugir àquele beijo. A boca fica do réptil arreganhou-se desmesuradamente; envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava dócil entregando-se à morte tentadora, apenas agitando docemente as patas sem provocar nenhuma reação ao sacrifício. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu lá se foram, ainda vivas, para as entranhas famélicas. O coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. Trecho extraído de O anjo (Agir, 1959), do médico, escritor, tradutor e pintor Jorge de Lima (1893-1953). Veja mais aqui.

OS LÍRIOS - Certa madrugada fria / irei de cabelos soltos / ver como crescem os lírios. / Quero saber como crescem / simples e belos — perfeitos! — / ao abandono dos campos. / Antes que o sol apareça, / neblina rompe neblina / com vestes brancas, irei. / Irei no maior sigilo / para que ninguém perceba / contendo a respiração. / Sobre a terra muito fria / dobrando meus frios joelhos / farei perguntas à terra. / Depois de ouvir-lhe o segredo / deitada por entre lírios / adormecerei tranquila. Extraído da obra Lírica (José Olympio, 1958), da poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Veja mais aqui.

BRASIL - UMA PEQUENA MOSTRA DO ESTADO DE DEGRADAÇÃO DO LITORAL BRASILEIRO
sem meias palavras ando descalço
pra pisar a lavra da palavra chão
Brasil - Uma pequena mostra do estado de degradação do Litoral Brasileiro. Mostra Cinema Ambiental: 27 de janeiro, Estação 353 - Estrada do Estreito, 353 - Macuco - São Francisco do Itabapoana- RJ. Artur Gomes & Fulinaíma MultiProjetos & Studio Fulinaíma Produção Audiovisual.

Veja mais:
Dos destroços pra solidão criativa, a literatura de Fabian Dobles, a música de Rosa Passos, a fotografia de André De Dienes, a pintura de Joan Fullerton & a poesia de Clevane Pessoa de Araújo Lopes aqui.
A mulher na Roma antiga, William Faulkner, Victor Hugo, Jacqueline Du Pre, Helena Saffioti, Brian De Palma, Jean-Baptiste Pigalle, Carmen Tyrrel, Elizabeth Short, Mia Kirshner, Lenita Estrela de Sá & Lia Helena Giannechini aqui.
Antonio Callado, Angela Yvonne Davis, Giovanni Lanfranco, Tavito Carvalho & Jane Fonda aqui.
A violência aqui.
O pensamento de Demócrito aqui.
O pensamento de Anaxágoras aqui.
O pensamento de Empédocles aqui.
O pensamento de Zenão de Eleia aqui.
O pensamento de Parmênides aqui.
O pensamento de Xenófanes aqui.
O pensamento de Heráclito aqui.
A fenomenologia de Husserl aqui.
O pensamento de Pitágoras aqui.
O pensamento de Anaxímenes aqui.
O pensamento de Anaximandro aqui.
Autoestima aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
&
Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora portuguesa Paula Rego. 
Veja mais aqui, aqui e  aqui.

sábado, julho 01, 2017

JOGO DOS POSSÍVEIS DE FRANÇOIS JACOB, A ESCULTURA DE BEAUVALLET, A ARTE DE JOHN HARDING & APOLOGIA À MENTIRA

APOLOGIA À MENTIRA - Imagem: El arte de mentir, by Axel Zamudio. - Se eu contar ninguém acredita, destá. Vamos lá. Certa vez estava no aprazível município catendense, dando cabo de umas pendências com o amigo Marcos Catende, findando na maior cachaçada numa residência localizada no alto do morro, fora da cidade. Chegando a hora de ir embora, lá fui acionando o motor da Kombi da emissora que eu trabalhava, debreando, passando primeira, quando lembrei que faltava acertar algo. Estacionei na ladeira sem desligar o motor, puxei o freio de mão e fui lá avisar. Dei o recado e ao voltar, cadê o carro? Saí na carreira e ainda vi o veículo descendo pra se arrebentar no precipício, lá embaixo. Mãos à cabeça, gritei: ei, pare! Graças a uma rieira rasa, o automóvel fez a curva, estacionando intacto e encostado de ré num matagal. Ufa! Benzi-me na hora! Escapei por pouco. Fui conferir, nem um arranhão, nada. Olhei lá pra baixo e imaginei o desastre que seria. Fiquei impressionado, demorei pra me restabelecer e parar de tremer. Todos correram pra me socorrer lívido e transtornado: - Que foi que houve? Quem viu a minha correria, explicava. Eu estava com o coração nas mãos, foi difícil voltar ao normal. Ainda hoje, vez ou outra, me passa pela cabeça o utilitário descendo a ribanceira pra virar um molho de ferro destroçado embaixo. Pois, foi. Na vera, de mesmo. Doutra feita, era sexta-feira, depois do almoço saí de casa pra ensaiar. No meio do caminho, uma distinta pessoa me propôs ir ao show do Lenine, no Festival de Inverno de Garanhuns. A proposta tentadora possuía argumentos fortíssimos, não havia como recusar. Fui, aliás, fomos, curtimos e nos esbaldamos. Depois da meia noite eu já estava em casa, empolgado com o acontecido. Tomei um banho, lalari, lalará, peguei uma cerveja, lalari, lalará, liguei o computador e fiquei curtindo o som do Lenine no fone de ouvidos, revivendo o ocorrido. Acessei a rede social para ver as novidades e mensagens recebidas, quando minha sobrinha, Pauleana, me saudou e, no meio da conversa, eu disse que tinha chegado do show em Garanhuns. Ela vibrou e, pouco tempo depois, nos despedimos, até que eu já com a cabeça acompanhando o movimento da Terra e dos astros, caí na cama pro sono dos cansados. Ao acordar, qual não foi a minha surpresa receber a ligação da minha irmã Aninha – mãe da Pauleana -, avisando que estava com o marido em Maceió e não sabia chegar em minha casa. Fui buscá-la e, ao chegar lá, qual foi a primeira coisa que ela perguntou? Exatamente: - Quer dizer que fosse pro show do Lenine, em Garanhuns? Minha filha não deixou nem eu abrir a boca e foi logo dizendo: - Foi nada, ele foi ensaiar e chegou tarde! Aninha se virou pra mim: - Você disse à Pauleana que tinha ido pro show! Eu olhei ao redor e respondi de pronto: - Sou um supermentiroso! Teibei! Foi melhor, evidentemente, do que uma bomba explodir com radioatividade queimando tudo por dias, meses e até anos, né não? Minha irmã até hoje me olha de viés e com toda razão. É que desde menino, eu e Marquinhos, tínhamos um ídolo: Tó Zeca. Pense num cabra fértil das aventuras. Foi por essa época que eu li as aventuras do Barão de Munchausen e fui contar pra ele: - Besteira, esse Barão, pra mim, é fichinha, já dei mais de 200 voltas ao mundo, fui à lua não sei quantas vezes de perder a conta e conheço a galáxia como a palma da minha mão! Eita! Perto dele o Marco Polo e o Júlio Verne são pinto mesmo. Pra provocar falei do Moby Dick do Melville: - Ôxe, isso é nada, já peguei traíra dez vezes maior que essa baleiazinha no Rio Una. Quantas viessem, ele superava e estufava no peito: - Dei aulas pro Pedro Malasartes, mô fio! Sou professor e aprendi sem se ensinar! O cara era hors-concours, bateu o recorde de todos os mitômanos e além dos diagnósticos de pseudologia fantástica, mentira patológica, evasionismo ou pantomimia. Era imbatível. Pra ele, todo dia era primeiro de abril. Tanto é que só pra se ter uma ideia leve assim de longe, que ele batia nos peitos por ter sido abduzido por discos voadores mais de mil vezes, e de ter emprenhado duas selenitas, três marcianas e uma venusiana que queria casar, dele dar um carreirão de ser pego pela tropa dela escondido num iglu, esquentando os pés com uma esquimó. Pode? Procê ver. Eram das boas, não como as deslavadas dos políticos de hoje ou dos que vivem de intrigas pra desancar a reputação alheia, não, não dessas, mas das que revelam um mundo incompreensível, cheio das pilherias, como as do Facetiae de Bebel, do Cortegiano de Castiglione, a utopia de Beldermann, ou do inocente Pinóquio. Então, recruta de tudo, eu aprendia a lição me exercitando com Marquinhos no quintal lá de casa: - Quem conta a mais cabeluda? Sempre levei desacerto, até pra mentir sou imprestável. Mas não me dei por vencido, buscava nos livros, Alice de Carrol, Monteiro Lobato, Macunaíma, o Ivan de Dostoievski, o Altamirando e outros parentes do Stanislaw Ponte Preta, o coronel de José Cândido de Carvalho, a poesia de Zé Limeira, lendas e folclore, a mula sem cabeça, a perna cabeluda, essas coisas, por aí, até o dia que o Afonso Paulo, eu ainda adolescente, me deu o livro Informe de Brodie, do escritor argentino Jorge Luiz Borges, traduzido pelo conterrâneo Hermilo. Eita! Foi aí que conheci a literatura fantástica latino-americana e, ao mesmo tempo, as estórias de Guimarães Rosa e Murilo Rubião. O contato com a obra de Borges foi assaz fascinante, fiquei de queixo caído! Que coisa! Era ainda adolescente quando entrei pra faculdade e, no meio de uma pesquisa, descobri a obra Presenças, do Otto Maria Carpeaux que falava de Borges e dos seus “anacronismos deliberados e atribuições errôneas”, falando de obras inventadas, do Livro de Areia, de fatos e vultos históricos que nunca existiram, a História da Infâmia, de Ficções, do Aleph, tudo invenção pura, magistrais. Pra quem já dera de cara com a mimese platônica e com o fingimento de Fernando Pessoa, estava perdido: tudo era uma mentira, afinal de contas. Pra lavar a alma, lembro que numa das entrevistas que fiz com Alceu Valença, na casa dele em Olinda, acompanhado de Isolda do saudoso Jones Melo, e da escritora Jussara Koury que, nesta época, presidia a Fundação de Hermilo, ele afirmava ter sido demitido do primeiro emprego por causa de mentira. Como foi? Ele contou que trabalhava no jornal – emprego arrumado pelo Jones Melo – e, na obrigação de fazer uma matéria, apareceu a notícia de um assassinato. Veio o estalo: assassinato vitima trezentas pessoas e deixa milhares feridos. Entregou a matéria pro editor que sapecou na primeira página! No outro dia ele soube de um atropelamento em Afogados, não deu outra: jamanta de não sei quantos pneus desgovernada mata mais de 600, fere outros tantos, derruba casas e fecha o trânsito por horas. Resultado: no terceiro dia, o editor chamou por ele, reclamando das barrigas e o demitindo na hora. Alceu, às gaitadas, dizia: - Não tinha a menor graça isso de um assassinatozinho de um tiro só e uma vítima, um atropelamentozinho besta, de nada, coisa mixuruca, aí eu mentia c’a peste, aumentava o negócio pra ficar mais arretado! Findei demitido pelas mentiras! Maior risadagem da gente com as contadas de Alceu. Realmente. Ao longo da minha vida sempre fui agraciado de ter por perto a presença de risíveis figuras, como caçadores, vigias, pescadores e outros boateiros e aumentadores de fatos e coisas, que nunca dispensavam uma pinóia como café pequeno, ou soltavam das suas como quem solta um inofensivo peidinho só pra ver a careta do alheio. Tudo isso serviu pro meu aprendizado e quase pego jeito. Como sempre almejei ser um escritor, soltava das minhas, contudo sempre findava flagrado com a cara mais lisa com peta ou patranha que ousasse. Se não acertei a mão como beletrista, o pior é que até pra peteiro fui reprovado, avalie. Ainda descarado, boto moral. E foi o próprio Carpeaux na crítica sobre Borges que me deu a ideia: “Mudando-se a hora e um ou dois nomes próprios, é o mesmo mundo”. Hehehehehehe. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

JOGO DOS POSSÍVEIS DE FRANÇOIS JACOB
[...] Porque não é apenas o interesse que leva os homens a matarem-se mutuamente. É também o dogmatismo. Nada é tão perigoso como a certeza de se ter razão. Nada causa tanta destruição como a obsessão duma verdade considerada absoluta. Todos os crimes da história são consequência de algum fanatismo. Todos os massacres foram cometidos por virtude, em nome da verdadeira religião, do nacionalismo legítimo, da política idónea, da ideologia justa; em suma, em nome do combate contra a verdade do outro, do combate contra Satanás. A frieza e a objetividade, que se reprovam tantas vezes nos cientistas, talvez sejam mais úteis que a febre e a subjetividade para discutir certos assuntos humanos. Porque não são as ideias da ciência que provocam as paixões. São as paixões que utilizam a ciência para sustentar a sua causa. A ciência não conduz ao racismo e ao ódio. É o ódio que faz apelo à ciência para justificar o seu racismo. Podem criticar-se certos cientistas pelo ardor com que por vezes defendem as suas ideias. Mas nenhum genocídio foi ainda perpetrado para fazer triunfar uma teoria científica. No final deste século XX deveria ser claro para todos que nenhum sistema explicará o mundo em todos os seus aspetos e todos os seus pormenores. Ter contribuído para pôr termo à ideia duma verdade intangível e eterna talvez não seja um dos menores títulos de glória do método científico. [...].
Trecho da obra O jogo dos possíveis: Ensaio sobre a diversidade do mundo vivo (Gradiva, 1982), do biólogo francês e Prêmio Nobel de Medicina de 1965, François Jacob (1920-2013),

Veja mais sobre:
Freyaravi & o circo dos prazeres, Cultura de consumo & pós-modernismo de Mike Featherstone, Contos brasileiros de Julieta de Godoy Ladeira, o Kama Sutra de Vātsyāyana, a fotografia de Ralf Mohr, Humanitarian Projects, a música de Marisa Monte, a pintura de Crystal Barbre & a arte de Luciah Lopez aqui.

E mais:
Lualmaluz, De segunda a um ano de John Cage, Técnica & ideologia de Jürgen Habermas, A história da literatura de Nelson Werneck Sodré, a escultura de George Kurjanowicz, Peace on Earth, a música de Sally Seltmann, a pintura de Théodore Géricault & Moisés Finalé, a arte de Marni Kotak & Luciah Lopez aqui.
Devagar e sempre, Monadologia de Leibniz, Estudo do poema de Antônio Cândido, Meu país de Dorothea Mackellar, a música de Alceu Valença, A arte da comédia de Lope de Vega, o ativismo de Emma Goldman, Brincarte do Nitolino, a pintura de Nina Kozoriz, a xilogravura de Gilvan Samico & Amaro Francisco Borges aqui.
Nem te conto, O lobo da estepe de Hermann Hesse, Repensar o mundo de Wislawa Szymborska, Elegias & sátiras de Xenófanes de Colofão, a música de Gluck & Sylvia McNair, o cinema de Phil Karlson & Marilyn Monroe, a pintura de Richard Geiger & Philippe de Rougemont, as gravuras de Osvaldo Jalil & a arte de Bia Sion aqui.
Os princípios de filosofia de Leibniz, As glosas de Manuel Bentevi, a música de Alceu Valença, a arte de Helena Cristina & Programa Tataritaritatá aqui.
O jogo das contas de vidro de Hermann Hesse, O prazer da escrita de Wislawa Szymborska, a música de Christoph Willibald Gluck, A fugitiva de Evelyn Lau, a fotografia de Bárbara Angel & a arte de Daniella Alcarpe aqui.
Uma cachaçada e uma casa no meio da rua & Fecamepa aqui.
O amor engatinhando na noite azul aqui.
A explosão do prazer & Zine Tataritaritatá aqui.
A violência na escola aqui.
Médicos, curaus & outras petas, Charlie Chaplin, Chico Folote & a Besta Fubana, Estupro, O poder humano & as glândulas endócrinas aqui.
A poesia & a arte de Alessandra Cavagna aqui.
O amor entre os animais, Aretusa, o pensamento de Sêneca, a escultura de Francisco Leopoldo da Silva & Ángel López Miñano, a música de Reri Grist, o teatro de Bernadette Peters & o Doro na fila de banco aqui.
Crônica de amor por ela: todo dia é dia dos namorados, Finisterra de Ledo Ivo, A manobra da carreta de Luiz Berto, Diário de Anne Frank, O caráter anarquista de Luce Fabbri, A música de Geraldo Azevedo, o cinema de Solveig Nordlund, a arte de Carmem Verônica, a pintura de Zichy Mihály & Wellington Virgolino aqui.
Além da entrega mais que tardia, Papoulas de julho de Sylvia Plath, A literatura de vanguarda de Guillermo de Torre, A verdade de Jean Cocteau, a música de Sky Ferreira, a pintura de Artemísia Gentileschi, a arte de Tom Wesselmann & Luciah Lopez aqui.
Caraminholas do miolo de pote, O homem pós-orgânico de Paula Sibilia, Escritos de Guillaume Apollinaire, a literatura de Antoine de Saint-Exupéry, a música de Diamanda Galás, a fotografia de Jim Duvall, a pintura de Marie Fox & a arte de Luciah Lopez aqui.
Migrante entre equívocos, Tragédia da cultura de Georg Simmel, Santuário de William Faulkner, a música de Ivan Lins & Sá & Guarabira, Cibertcultura de André Lemos, a pintura de James Mcneill Whistler, a arte de Yosuke Onishi & Lanoo aqui.
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A ESCULTURA DE BEAUVALLET
A arte do escultor e desenhista francês Pierre-Nicolas Beauvallet (1750-1818).

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Neste sábado, 1º/07, Alceu Valença com o show Oropa, França e Bahia (ao vivo) & Valencianas com a Orquestra de Ouro Preto; Joyce ao vivo & Live at the Mojo Club; os grandes sucessos de Tavito Carvalho; e Maria Rita com o show Samba Meu ao vivo. Para conferir é só ligar o som e curtir.
Neste domingo, 02/07, Yuja Wang ao vivo com Rapsody in Blue de George Gershwin, Pantanal ao vivo com Marcus Viana & Transfônica Orquestra, show ao vivo de Eliane Elias & show ao vivo de Arrigo Barnabé. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista britânico John Harding, autor de obras como O que fizemos em nosso feriado (2000), Enquanto The Sun Shines (2002), One Big Damn Puzzler (2005), Florence and Giles (2010) & A menina que não conseguiu ler (2014),
Veja mais aqui.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

SUELY ROLNIK, BARBARA KRUGER, JENNY HOLZER, THEA DJORDJADZE, AGOSTINHO NETO & CURUPIRA

 


AS PEGADAS DA CURUPIRA – Passeava nas proximidades da mata e ouvi silvos agudos. Lembrei dos tempos de menino: saiam de bocas e ouvidos por ali haver a entidade das matas, um dos demônios dos Brasis que eriçam a pele e arrepiam os cabelos. Ninguém nunca viu, mas contam amedrontados. Segui o apito cada vez mais perto e, realmente, muitas pegadas na trilha. Sabia dos sinais falsos como se algo me perseguisse, movimentando as touceiras ao redor, estalidos, pisadas ignotas, algo estranho acontecia e já esperava dar de cara com um menino montado num Caititu, com seu cabelo de fogo e corpo coberto de pústulas, sarnas e verrugas, com os pés para trás, ou mesmo o terrível Pai da Mata como tratavam os daqui, sei lá, coisa que o valha. Sei, pelo que diziam, que era só para assustar ou levar à loucura. Eu, realmente notei que havia perdido a noção de rumo. Divisei oferendas de pinga e fumo deixadas pelos crédulos, coisa mais inusitada: nunca tinha visto aquilo. E mais adentrei curioso porque, já que errava torto na vida, nada demais tirar a prova dos nove. E ouvi algo ameaçador: Pronde cê vai, menino, parece um rio sem leito! Era uma voz que pressupus ser de uma caquética desdentada. Girei o corpo buscando vê-la, o lugar mais limpo: só matagal, vento brando, zumbidos de insetos e os característicos sons da mata. Segui adiante e, de repetente, apareceu-me uma bela e sensual mulher. Sou Kuru’pir, o demônio da floresta. Esbugalhei os olhos, não era nada daquilo que ouvia desde menino. Fitou-me compenetrada e seus olhos e cabelos ruivos acenderam realmente. Era fogo. E sua voz rondava meus ouvidos: sinta o chão e as pegadas dos tantos que antes de você trilharam essas errâncias. Todos estão aí esperando seus passos para seguirem e guiarem você para o seu melhor caminho. São muitas direções e é pra isso mesmo a vida: seguir todos os caminhos, voltar, refazer, reencontrar, se perder, e até mesmo parar para começar a rodopiar como se fosse um brincado, sabe, que cada um tem que dançar. Vai, dança, seu menino! A vida é isso: pra dançar mesmo e se envolver com os que se foram para saber como será com os que virão. Dance e sinta no chão que pisa o vento que traz a brisa e sopra todas as coisas e tudo que respira. E mais traz olores, desde da lonjura pra chegar aqui perto e levar pros redemoinhos daqui, dali e dacolá, porque tudo dança no universo e faz o chão girar e a gente rodando com tudo. No vento as vozes dos que falaram, dos que colocam para nos ouvir e ouvir a todos contarem suas próprias hestórias, cada um a sua vez, os que ficaram, os que passaram, agora é com você, cada tem sua vez. O vento nos leva a todos os cantos para nos ensinar o Grande Espírito que está dentro de cada um de nós que somos todos juntos Ele em comunhão, com os que vieram e que vão, e os que ainda pisarão onde todos já pisaram e você está pisando. E nos leva para as águas e todos os alagados até a imensidão do mar que também somos e vamos pela vida que se vive com os que voam, com os que se arrastam, com os paralisados e os que brotam da terra e dão folhas e frutos, e nos servem de sombreiro e de alimento para saciar a fome e matar a sede pelo de cima, de baixo, dos lados ou pra lá no crepúsculo quando entardece e a boquinha traz a escuridão. Tenha medo não, seu menino, o escuro também faz parte, mesmo que a gente não veja nada, está tudo escondido, dormindo e sonhando para acender o fogo do novo dia que virá ao amanhecer, como o Sol que ilumina e queima dentro da gente para a vida de tudo e todas as coisas. E nos ensina a treva onde tudo se esconde para renascer, porque será sempre reviver e sonhar deste muito antes deste chão existir e o tempo era qualquer coisa como o barulho das águas que nos purifica, o canto dos pássaros, o ronco dos bichos, as folhas que caem e os rios que nos levam sempre para algum lugar. Era tudo muito mágico e me legou ao ponto de partida, depois de trilhar ásperas brenhas e chegar ao cume da mais alta montanha, para lançar os seus açoites a tudo no universo. Foi ali que ela me disse: sou a guardiã das matas! E desde esse dia meu coração foi envolvido por sua magia e com ela fui morar. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Em um sonho você viu uma maneira de sobreviver e ficou cheio de alegria. É do seu interesse encontrar uma maneira de ser muito terno. Torne-se suave e adorável sempre que tiver oportunidade. Destrua a superabundância. Deixe a carne passar fome, raspe o cabelo, clareie a mente, defina a vontade, restrinja os sentidos, deixe a família, fuja da igreja, mate os vermes, vomite o coração, esqueça os mortos. Limite o tempo, renuncie à diversão, negue a natureza, rejeite conhecidos, descarte objetos, esqueça verdades, disseque mitos, pare o movimento, bloqueie o impulso, sufoque soluços, engula tagarelice. Despreze a alegria, despreze o toque, despreze a tragédia, despreze a liberdade, despreze a constância, despreze a esperança, despreze a exaltação, despreze a reprodução, despreze a variedade, despreze o embelezamento, despreze a liberação, despreze o descanso, despreze a doçura, despreze a luz. É uma questão de forma tanto quanto de função. É uma questão de repulsa. Você é vítima das regras pelas quais vive... Pensamento da artista neo-conceitual estadunidense Jenny Holzer, que no livro Jenny Holzer: Truisms And Essays (‎Barbara Gladstone Gallery, 1995), expressou: [...] Se você se comportasse bem, os comunistas não existiriam. [...]. Veja mais aqui e aqui.

 

ALGUÉM FALOU: No meu começo está o meu fim. Sucessivamente casas sobem e desmoronam, desmoronam, são ampliadas, são removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar. Está um campo aberto, ou uma fábrica, ou um desvio.  Pedra velha para construção nova, madeira velha para fogos novos, fogos velhos para cinzas e cinzas para a terra que já é carne, pêlo e fezes. Osso de homem e animal, talo de milho e folha. As casas vivem e morrem: há tempo de construir e tempo de viver e de gerar. E tempo de o vento quebrar a vidraça solta. E de sacudir o lambril onde trota o rato do campo e de sacudir as cortinas esfarrapadas tecidas com lema silencioso. Expressão da artista alemã-georgiana Thea Djordjadze, autora de obra como MA SA I A LY E A SE – DE (2015), Thea Djordjadze (2014), November (2013), our full (2012), Lost Promise in a Room (2011), Thea Djordjadze – His vanity requires no response (2011), Thea Djordjadze. endless enclosure (2009), Explain away - ე.ი (2009), Un soir, j'ai assis la beauté sur mes genoux. And I found her bitter and i hurt her (2008), Possibility, Nansen (2007), History of an Encounter (2007), Fröhliche Wissenschaft (2003), The Sight of the Conductor (2001), entre outras.

 

O CAOS – [...] A palavra “caos” é das mais pronunciadas na atualidade. Tema cult de congressos, livros de divulgação científica, artigos de jornal e até programas de TV, fala-se de caos em todos os campos da cultura. Com certeza, não se trata de um mero modismo, mas de uma exigência que a realidade contemporânea vem nos colocando: enfrentar o caos, repensá-lo, reposicionar-se diante dele - mesmo que muitas vezes a insistente evocação dessa palavra vise, pelo contrário, evitar tal enfrentamento e conjurar o pavor que o caos certamente mobiliza. Que mudanças se estariam operando nas subjetividades, hoje, para levá-las a revisar seu conceito de caos e de ordem, assim como da relação entre ambos? Primeiro, duas palavras acerca da noção de subjetividade. Todo ambiente sóciocultural é feito de um conjunto dinâmico de universos. Tais universos afetam as subjetividades, traduzindo-se como sensações que mobilizam um investimento de desejo em diferentes graus de intensidade. Relações se estabelecem entre as várias sensações que vibram na subjetividade a cada momento, formando constelações de forças cambiantes. O contorno de uma subjetividade delineia-se a partir de uma composição singular de forças, um certo mapa de sensações. A cada novo universo que se incorpora, novas sensações entram em cena e um novo mapa de relações se estabelece, sem que mude necessariamente a figura através da qual a subjetividade se reconhece. Contudo, à medida em que mudanças deste tipo acumulam-se, pode tornar-se excessiva a tensão entre as duas faces da subjetividade - a sensível e a formal. Neste caso, a figura em vigor perde sentido, desestabiliza-se: um limiar de suportabilidade é ultrapassado. A subjetividade tende então a ser tomada por uma inquietude que a impele a tornar-se outra, de modo a dar consistência existencial para sua nova realidade sensível. [...] o caos, hoje, circula de boca em boca, e que essa insistência em evocá-lo responderia a uma solicitação que a realidade atual vem nos colocando. De fato, o caos nunca esteve tão presente. Mas se, neste final de milênio, estamos confrontadas ao caráter precário e incerto da subjetividade, estamos certamente também - e mais do que nunca - diante de seu caráter criador. [...]. Trechos do estudo Novas figuras do caos mutações da subjetividade contemporânea (Face e Fapesp, 1999), da filósofa, escritora, psicanalista e professora Suely Rolnik.

 

PODER, CULTURA & APARÊNCIAS - [...] Não tenho queixas, exceto do mundo. [...] Seu conforto é meu silêncio. [...] Garota \ Não seja burra \ Não seja tímida \ Não se sinta intimidada \ Não pense que isso não pode acontecer com você \ Faça sexo seguro porque a AIDS mata \ Não morra por amor [...]. Trechos extraídos da obra Remote Control: Power, Cultures, and the World of Appearances (Mit Pr, 1994), da artista conceitual estadunidense Barbara Kruger, autora de frases como: Se eu trago à tona poder político, poder pessoal, parece que são meus termos, e não são. Ver não é mais acreditar. A própria noção de verdade foi colocada em crise. Em um mundo inchado de imagens, estamos finalmente aprendendo que as fotografias realmente mentem. Veja mais aqui e aqui.

 

DO POVO BUSCAMOS A FORÇA - Não basta que seja pura e justa\ a nossa causa\ É necessário que a pureza e a justiça\ existam dentro de nós.\ Dos que vieram\ e conosco se aliaram\ muitos traziam sobras no olhar\ intenções estranhas.\ Para alguns deles a razão da luta\ era só ódio: um ódio antigo\ centrado e surdo\ como uma lança.\ Para alguns outros era uma bolsa\ bolsa vazia (queriam enchê-la)\ queriam enchê-la com coisas sujas\ inconfessáveis.\ Outros viemos.\ Lutar pra nós é ver aquilo\ que o Povo quer\realizado.\ É ter a terra onde nascemos.\ É sermos livres pra trabalhar.\ É ter pra nós o que criamos\ Lutar pra nós é um destino -\ é uma ponte entre a descrença\ e a certeza do mundo novo.\ Na mesma barca nos encontramos.\ Todos concordam - vamos lutar.\ Lutar pra quê?\ Pra dar vazão ao ódio antigo?\ ou pra ganharmos a liberdade\ e ter pra nós o que criamos?\ Na mesma barca nos encontramos\ Quem há-de ser o timoneiro?\ Ah as tramas que eles teceram!\ Ah as lutas que aí travamos!\ Mantivemo-nos firmes: no povo\ buscáramos a força\ e a razão\ Inexoravelmente\ como uma onda que ninguém trava\ vencemos.\ O Povo tomou a direção da barca.\ Mas a lição lá está, foi aprendida:\ Não basta que seja pura e justa\ a nossa causa\ É necessário que a pureza e a justiça\ existam dentro de nós. Poema extraído do livro Poemas de Angola (Codecri, 1979), do médico e escritor angolano Agostinho Neto (1922-1979). Veja mais aqui e aqui.

 

SACADOUTRAS

 

QUARUP – Uma das obras mais impressionantes da literatura brasileira é o romance Quarup (Civilização Brasileira, 1967), do jornalista e escritor Antonio Callado (1917-1997). Conta a história de um padre de Pernambuco, Nando, que tem o sonho de construir na Amazônia a sua terra prometida, enquanto se envolve num amor platônico por Francisca que o faz abandonar a causa e a batina. Uma história vibrante e uma narrativa riquíssima de engenhosidade literária. Confira um fragmento: [...] Na vida de Nando e Francisca a zona do Jarina e da cachoeira de Von Martius se transformou em mero divisor de águas. O dia em que se adotou a resolução de fazer a marcha ficou entregue à fantasia de cada um. Nando tomou a pequena ubá que vinha no barco de carga e saiu remando, ali onde o Jarina entre no Xingu. A foz, abaixo da cachoeira de Von Martius, fica meio oculta por uma ilha. Dando a volta à ilha para melhor pensar em Francisca, Nando a viu pela primeira vez transferida para o mundo. Desde os tempos de Olinda, que certas paisagens para Nando a própria Francisca transposta para outro meio de expressão: oitão de igreja batido de sol com cajueiro, coqueiro, perto de rede de pescar estendida na areia. Às vezes Nando sentia mesmo um certo temor de perder Francisca, de disciplinar sua invocação untariatária. Mas aquele dia na foz do Jarina foi diferente. Remava Nando perdido em sonho de Francisca, a capacidade de visão tomada pela imagem muito viva daquela com quem acabava de estar, quando a viu realmente transferida para o mundo. É que por trás da ilha entrara quase insensivelmente por um mfuro estreito e alastrado de orquídeas dos dois lados. Mata fendida pelo fio d´água tornado lilás pela contemplação de tantas orquídeas. Nando remou de volta ao acampamento, encostou a ubá para chamar Francisca [...] Nando e Francisca não falaram. Apenas se voltaram um para o outro, braços abertos, e o breve instante em que se separaram foi para deixarem cair no chão as roupas sobre as quais se deitaram debaixo de orquídeas pálidas, separados do rio por um cortinado de orquídeas coloridas. Quando veio o prazer Francisca o fechou em lábios e pétalas quentes sem nenhuma palavra e Nando descobriu o gozo que é profundo e continuo como mel e seiva que se elaboram no interior das plantas... Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

Imagem: Venus playing the Harp (1630), do pintor do Barroco italiano, Giovanni Lanfranco I(1582-1647).

Ouvindo: Rua ramalhete e outros sucessos do Tavito. Veja mais aqui.

ELA PANTERA NEGRA - A professora e filósofa socialista estadunidense, Angela Yvonne Davis, integrante dos Panteras Negras, do movimento Black Power e militante de organizações políticas dos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial. Por suas atividades, na década de 1979 passou a ser procurada pelo FBI com prisão decretada por ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio. Ao ser presa, o seu julgamento durou 18 meses e uma manifestação pública mobilizou o país pela sua libertação. Nos debates do tribunal, a condição negra passou a ser a discussão, sendo, finalmente, inocentada. Ela recebeu homenagens de John Lennon com a música Angela, e dos Rolling Stones que gravaram em sua homenagem Sweet Black Angel. No final da década de 1970, ela foi ganhadora do Prêmio Lêniz da Paz e mantém até hoje suas atividades com discursos e palestras sobre as causas dos negros, latinos e mulheres, concentrando suas atenções para o abolicionista prisional no sistema carcerário dos Estados Unidos. Veja mais aqui e aqui.

A HEROÍNA BARBARELLA – Tudo começou com os quadrinhos criados pelo escritor e ilustrador francês Jean-Claude Forest (1930-19989). Mas o bom mesmo foi depois, quando em 1968, o diretor Roger Vadim (1928-2000) lança o filme com a heroína Barbarella, protagonizada pela Jane Fonda, tornando-se a maior sensação do universo masculino. Eu mesmo não perdia de rever o filme, sonhando um dia ter uma heroína dessa pra mim. Coisas de infância que se mantiveram na adolescência, quando passou a residir na memória dos sonhos. Veja mais aqui & aqui.


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O reino das águas aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Art by Ísis Nefelibata
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...