O MUNDO NA
JANELA – Imagem: ArtObjeto em madeira, da
escultora Georgia Gioconda Aguilar. - Abro a janela, é manhã. Sinto que sou como um rio, uma
nascente. E a minha vida é como a doce água na correnteza para o mar em um dia
azul ensolarado de nenhuma nuvem, solto e livre, na companhia de pássaros aos
voos, bem-te-vis, sabiás, canários, a festa dos cardumes. Assim voo vida afora,
horizonte franqueado ao prazer da vastidão. É assim que me sinto nesta manhã, o
mundo da janela. Um sentimento diferente, como se estivesse de ressaca – sempre
estou feliz de ressaca, uma simples felicidade por me ver sem compromissos, ou
afazeres previstos, missão cumprida. Feliz e grato, em estado de graça. Não sei
das horas, pra quê saber? Telefone mudo, nada de noticiário, pra quê? A tevê
desligada, silêncio de máquinas, passantes que saúdo rua acima ou ladeira abaixo,
nada de moral baixo ou vagas amabilidades, passado esquecido, tristeza que nem
sei, mesmo sabendo que os caras de Brasília e tantas outras supostas
autoridades nas mais diversas regiões desse nosso imenso país, ou querem acabar
com o Brasil ou com a gente, o que dá no mesmo, nós somos o Brasil, eles são
apenas mandriões salteadores que assumiram o poder, logo passam, passarão, tudo
passa, quer queira ou não, e amanhã há de ser outro dia e quero manter a paz e
a felicidade de hoje. O mundo em paz pra mim, como se não sucumbisse a tantos
problemas, ah, nem quero saber de problemas, bastam os meus que só quero saber
amanhã ou depois de amanhã, hoje não, hoje é dia de me sentir bem, nem dá pra
pensar o que faz a vida valer a pena, tudo vale a pena, as coisas de infância
relembradas, os sonhos que não nos abandonam mesmo com a idade, a crença de um
mundo melhor para todos, e que o pior de tudo que possa ocorrer, no mínimo a
gente negocia, esquenta as orelhas e depois sorrir só por lembrar os apertos, revertérios,
tudo passa, sem dúvida, até o mais emperrado acaba passando. Alguém passa e
reconheço, não lembro o seu nome, cabeça essa minha, sempre ocupada e falhando
vez em quando, senão sempre, nada demais, é a idade. Ele pergunta: cadê a alma?
Um outro se aproxima e: e eu é que sei? Aceno e aponto pra eles o meu coração.
Não entenderam, levaram como se fosse mais uma mentira escrota dessas que a
gente vê em todo momento só para dispensar certas loas. Foram pra sua agenda,
moldados pelo mundo, tudo é seu negócio, fazer bonito e fugir do flagra pra não
queimar o filme, tudo na manada, padronizados, dependentes do êxito, não há
espaço para fracassados, por isso estou bem porque dos tropeços tirei lições
inenarráveis. Nunca quis só na boa, atalhos, ou deixar retardários ao
retrovisor. Sempre um dia atrás do outro, adiante, passo firme. O que importa é
não sentir cólicas, não enfrentar nenhum fila, remédio algum por paliativo,
apenas o coração crescido de satisfação a vagar pelos corredores e cômodos da
casa, ah, o prazer do banho, depois saborear bananas, laranjas, fatias de mangas,
um copo d’água que nunca sentira o frescor, e belisco o pastelão sempre
delicioso, verduras, legumes, exercícios de respiração e o espírito de
gratidão, isso sim, sempre, agradeço todos os dias pelo amanhecer, pela vida,
pelo Sol aquecendo minha pele, pela Terra minha morada aos meus pés, pelas
árvores e seu oxigênio e por embelezarem a natureza – isso enquanto
dendroclastas de plantão não desertificam tudo com suas ganâncias, pois não sou
estoico pra sofrer de antemão, retribuo em defesa dos verdes campos e assim
aspiro a vida em sua plenitude. Nisso sinto sou maior que a mim mesmo, mesmo
sabendo que sou apenas um homem na janela, nada mais. © Luiz Alberto Machado.
Direitos reservados. Veja mais aqui.Zineblog de Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
sexta-feira, janeiro 26, 2018
CHAPLIN, JORGE DE LIMA, HENRIQUETA LISBOA, TAVITO, SILVÉRIO TREVISAN, PAULA REGO, GIOCONDA AGUILAR, DANNY CALIXTO, ARTUR GOMES & O PARAÍSO BRASIL
O MUNDO NA
JANELA – Imagem: ArtObjeto em madeira, da
escultora Georgia Gioconda Aguilar. - Abro a janela, é manhã. Sinto que sou como um rio, uma
nascente. E a minha vida é como a doce água na correnteza para o mar em um dia
azul ensolarado de nenhuma nuvem, solto e livre, na companhia de pássaros aos
voos, bem-te-vis, sabiás, canários, a festa dos cardumes. Assim voo vida afora,
horizonte franqueado ao prazer da vastidão. É assim que me sinto nesta manhã, o
mundo da janela. Um sentimento diferente, como se estivesse de ressaca – sempre
estou feliz de ressaca, uma simples felicidade por me ver sem compromissos, ou
afazeres previstos, missão cumprida. Feliz e grato, em estado de graça. Não sei
das horas, pra quê saber? Telefone mudo, nada de noticiário, pra quê? A tevê
desligada, silêncio de máquinas, passantes que saúdo rua acima ou ladeira abaixo,
nada de moral baixo ou vagas amabilidades, passado esquecido, tristeza que nem
sei, mesmo sabendo que os caras de Brasília e tantas outras supostas
autoridades nas mais diversas regiões desse nosso imenso país, ou querem acabar
com o Brasil ou com a gente, o que dá no mesmo, nós somos o Brasil, eles são
apenas mandriões salteadores que assumiram o poder, logo passam, passarão, tudo
passa, quer queira ou não, e amanhã há de ser outro dia e quero manter a paz e
a felicidade de hoje. O mundo em paz pra mim, como se não sucumbisse a tantos
problemas, ah, nem quero saber de problemas, bastam os meus que só quero saber
amanhã ou depois de amanhã, hoje não, hoje é dia de me sentir bem, nem dá pra
pensar o que faz a vida valer a pena, tudo vale a pena, as coisas de infância
relembradas, os sonhos que não nos abandonam mesmo com a idade, a crença de um
mundo melhor para todos, e que o pior de tudo que possa ocorrer, no mínimo a
gente negocia, esquenta as orelhas e depois sorrir só por lembrar os apertos, revertérios,
tudo passa, sem dúvida, até o mais emperrado acaba passando. Alguém passa e
reconheço, não lembro o seu nome, cabeça essa minha, sempre ocupada e falhando
vez em quando, senão sempre, nada demais, é a idade. Ele pergunta: cadê a alma?
Um outro se aproxima e: e eu é que sei? Aceno e aponto pra eles o meu coração.
Não entenderam, levaram como se fosse mais uma mentira escrota dessas que a
gente vê em todo momento só para dispensar certas loas. Foram pra sua agenda,
moldados pelo mundo, tudo é seu negócio, fazer bonito e fugir do flagra pra não
queimar o filme, tudo na manada, padronizados, dependentes do êxito, não há
espaço para fracassados, por isso estou bem porque dos tropeços tirei lições
inenarráveis. Nunca quis só na boa, atalhos, ou deixar retardários ao
retrovisor. Sempre um dia atrás do outro, adiante, passo firme. O que importa é
não sentir cólicas, não enfrentar nenhum fila, remédio algum por paliativo,
apenas o coração crescido de satisfação a vagar pelos corredores e cômodos da
casa, ah, o prazer do banho, depois saborear bananas, laranjas, fatias de mangas,
um copo d’água que nunca sentira o frescor, e belisco o pastelão sempre
delicioso, verduras, legumes, exercícios de respiração e o espírito de
gratidão, isso sim, sempre, agradeço todos os dias pelo amanhecer, pela vida,
pelo Sol aquecendo minha pele, pela Terra minha morada aos meus pés, pelas
árvores e seu oxigênio e por embelezarem a natureza – isso enquanto
dendroclastas de plantão não desertificam tudo com suas ganâncias, pois não sou
estoico pra sofrer de antemão, retribuo em defesa dos verdes campos e assim
aspiro a vida em sua plenitude. Nisso sinto sou maior que a mim mesmo, mesmo
sabendo que sou apenas um homem na janela, nada mais. © Luiz Alberto Machado.
Direitos reservados. Veja mais aqui.sábado, julho 01, 2017
JOGO DOS POSSÍVEIS DE FRANÇOIS JACOB, A ESCULTURA DE BEAUVALLET, A ARTE DE JOHN HARDING & APOLOGIA À MENTIRA
APOLOGIA À MENTIRA - Imagem: El arte de mentir, by Axel Zamudio. - Se eu contar ninguém
acredita, destá. Vamos lá. Certa vez estava no aprazível município catendense,
dando cabo de umas pendências com o amigo Marcos Catende, findando na maior cachaçada
numa residência localizada no alto do morro, fora da cidade. Chegando a hora de
ir embora, lá fui acionando o motor da Kombi da emissora que eu trabalhava, debreando,
passando primeira, quando lembrei que faltava acertar algo. Estacionei na
ladeira sem desligar o motor, puxei o freio de mão e fui lá avisar. Dei o
recado e ao voltar, cadê o carro? Saí na carreira e ainda vi o veículo descendo
pra se arrebentar no precipício, lá embaixo. Mãos à cabeça, gritei: ei, pare!
Graças a uma rieira rasa, o automóvel fez a curva, estacionando intacto e
encostado de ré num matagal. Ufa! Benzi-me na hora! Escapei por pouco. Fui
conferir, nem um arranhão, nada. Olhei lá pra baixo e imaginei o desastre que
seria. Fiquei impressionado, demorei pra me restabelecer e parar de tremer.
Todos correram pra me socorrer lívido e transtornado: - Que foi que houve? Quem
viu a minha correria, explicava. Eu estava com o coração nas mãos, foi difícil
voltar ao normal. Ainda hoje, vez ou outra, me passa pela cabeça o utilitário
descendo a ribanceira pra virar um molho de ferro destroçado embaixo. Pois,
foi. Na vera, de mesmo. Doutra feita, era sexta-feira, depois do almoço saí de
casa pra ensaiar. No meio do caminho, uma distinta pessoa me propôs ir ao show
do Lenine, no Festival de Inverno de Garanhuns. A proposta tentadora possuía argumentos
fortíssimos, não havia como recusar. Fui, aliás, fomos, curtimos e nos
esbaldamos. Depois da meia noite eu já estava em casa, empolgado com o
acontecido. Tomei um banho, lalari, lalará, peguei uma cerveja, lalari, lalará,
liguei o computador e fiquei curtindo o som do Lenine no fone de ouvidos,
revivendo o ocorrido. Acessei a rede social para ver as novidades e mensagens
recebidas, quando minha sobrinha, Pauleana, me saudou e, no meio da conversa,
eu disse que tinha chegado do show em Garanhuns. Ela vibrou e, pouco tempo
depois, nos despedimos, até que eu já com a cabeça acompanhando o movimento da
Terra e dos astros, caí na cama pro sono dos cansados. Ao acordar, qual não foi
a minha surpresa receber a ligação da minha irmã Aninha – mãe da Pauleana -,
avisando que estava com o marido em Maceió e não sabia chegar em minha casa.
Fui buscá-la e, ao chegar lá, qual foi a primeira coisa que ela perguntou?
Exatamente: - Quer dizer que fosse pro show do Lenine, em Garanhuns? Minha
filha não deixou nem eu abrir a boca e foi logo dizendo: - Foi nada, ele foi
ensaiar e chegou tarde! Aninha se virou pra mim: - Você disse à Pauleana que
tinha ido pro show! Eu olhei ao redor e respondi de pronto: - Sou um
supermentiroso! Teibei! Foi melhor, evidentemente, do que uma bomba explodir
com radioatividade queimando tudo por dias, meses e até anos, né não? Minha
irmã até hoje me olha de viés e com toda razão. É que desde menino, eu e
Marquinhos, tínhamos um ídolo: Tó Zeca. Pense num cabra fértil das aventuras. Foi
por essa época que eu li as aventuras do Barão de Munchausen e fui contar pra
ele: - Besteira, esse Barão, pra mim, é fichinha, já dei mais de 200 voltas ao
mundo, fui à lua não sei quantas vezes de perder a conta e conheço a galáxia
como a palma da minha mão! Eita! Perto dele o Marco Polo e o Júlio Verne são
pinto mesmo. Pra provocar falei do Moby Dick do Melville: - Ôxe, isso é nada,
já peguei traíra dez vezes maior que essa baleiazinha no Rio Una. Quantas
viessem, ele superava e estufava no peito: - Dei aulas pro Pedro Malasartes, mô
fio! Sou professor e aprendi sem se ensinar! O cara era hors-concours, bateu o recorde de todos os mitômanos e além dos
diagnósticos de pseudologia fantástica, mentira patológica, evasionismo ou
pantomimia. Era imbatível. Pra ele, todo dia era primeiro de abril. Tanto é que
só pra se ter uma ideia leve assim de longe, que ele batia nos peitos por ter
sido abduzido por discos voadores mais de mil vezes, e de ter emprenhado duas
selenitas, três marcianas e uma venusiana que queria casar, dele dar um
carreirão de ser pego pela tropa dela escondido num iglu, esquentando os pés
com uma esquimó. Pode? Procê ver. Eram das boas, não como as deslavadas dos
políticos de hoje ou dos que vivem de intrigas pra desancar a reputação alheia,
não, não dessas, mas das que revelam um mundo incompreensível, cheio das pilherias,
como as do Facetiae de Bebel, do Cortegiano de Castiglione, a utopia de
Beldermann, ou do inocente Pinóquio. Então, recruta de tudo, eu aprendia a
lição me exercitando com Marquinhos no quintal lá de casa: - Quem conta a mais
cabeluda? Sempre levei desacerto, até pra mentir sou imprestável. Mas não me
dei por vencido, buscava nos livros, Alice de Carrol, Monteiro Lobato,
Macunaíma, o Ivan de Dostoievski, o Altamirando e outros parentes do Stanislaw
Ponte Preta, o coronel de José Cândido de Carvalho, a poesia de Zé Limeira, lendas
e folclore, a mula sem cabeça, a perna cabeluda, essas coisas, por aí, até o
dia que o Afonso Paulo, eu ainda adolescente, me deu o livro Informe de Brodie,
do escritor argentino Jorge Luiz Borges, traduzido pelo conterrâneo Hermilo.
Eita! Foi aí que conheci a literatura fantástica latino-americana e, ao mesmo
tempo, as estórias de Guimarães Rosa e Murilo Rubião. O contato com a obra de
Borges foi assaz fascinante, fiquei de queixo caído! Que coisa! Era ainda
adolescente quando entrei pra faculdade e, no meio de uma pesquisa, descobri a
obra Presenças, do Otto Maria Carpeaux que falava de Borges e dos seus “anacronismos
deliberados e atribuições errôneas”, falando de obras inventadas, do Livro de
Areia, de fatos e vultos históricos que nunca existiram, a História da Infâmia,
de Ficções, do Aleph, tudo invenção pura, magistrais. Pra quem já dera de cara
com a mimese platônica e com o fingimento de Fernando Pessoa, estava perdido:
tudo era uma mentira, afinal de contas. Pra lavar a alma, lembro que numa das
entrevistas que fiz com Alceu Valença, na casa dele em Olinda, acompanhado de
Isolda do saudoso Jones Melo, e da escritora Jussara Koury que, nesta época,
presidia a Fundação de Hermilo, ele afirmava ter sido demitido do primeiro
emprego por causa de mentira. Como foi? Ele contou que trabalhava no jornal –
emprego arrumado pelo Jones Melo – e, na obrigação de fazer uma matéria,
apareceu a notícia de um assassinato. Veio o estalo: assassinato vitima
trezentas pessoas e deixa milhares feridos. Entregou a matéria pro editor que
sapecou na primeira página! No outro dia ele soube de um atropelamento em
Afogados, não deu outra: jamanta de não sei quantos pneus desgovernada mata
mais de 600, fere outros tantos, derruba casas e fecha o trânsito por horas.
Resultado: no terceiro dia, o editor chamou por ele, reclamando das barrigas e o
demitindo na hora. Alceu, às gaitadas, dizia: - Não tinha a menor graça isso de
um assassinatozinho de um tiro só e uma vítima, um atropelamentozinho besta, de
nada, coisa mixuruca, aí eu mentia c’a peste, aumentava o negócio pra ficar
mais arretado! Findei demitido pelas mentiras! Maior risadagem da gente com as
contadas de Alceu. Realmente. Ao longo da minha vida sempre fui agraciado de
ter por perto a presença de risíveis figuras, como caçadores, vigias,
pescadores e outros boateiros e aumentadores de fatos e coisas, que nunca
dispensavam uma pinóia como café pequeno, ou soltavam das suas como quem solta
um inofensivo peidinho só pra ver a careta do alheio. Tudo isso serviu pro meu
aprendizado e quase pego jeito. Como sempre almejei ser um escritor, soltava
das minhas, contudo sempre findava flagrado com a cara mais lisa com peta ou
patranha que ousasse. Se não acertei a mão como beletrista, o pior é que até pra
peteiro fui reprovado, avalie. Ainda descarado, boto moral. E foi o próprio
Carpeaux na crítica sobre Borges que me deu a ideia: “Mudando-se a hora e um ou
dois nomes próprios, é o mesmo mundo”. Hehehehehehe. E vamos aprumar a
conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.segunda-feira, janeiro 26, 2015
SUELY ROLNIK, BARBARA KRUGER, JENNY HOLZER, THEA DJORDJADZE, AGOSTINHO NETO & CURUPIRA
AS PEGADAS DA
CURUPIRA – Passeava nas proximidades da mata e ouvi silvos agudos. Lembrei dos
tempos de menino: saiam de bocas e ouvidos por ali haver a entidade das matas, um
dos demônios dos Brasis que eriçam a pele e arrepiam os cabelos. Ninguém nunca
viu, mas contam amedrontados. Segui o apito cada vez mais perto e, realmente, muitas
pegadas na trilha. Sabia dos sinais falsos como se algo me perseguisse,
movimentando as touceiras ao redor, estalidos, pisadas ignotas, algo estranho
acontecia e já esperava dar de cara com um menino montado num Caititu, com seu
cabelo de fogo e corpo coberto de pústulas, sarnas e verrugas, com os pés para
trás, ou mesmo o terrível Pai da Mata como tratavam os daqui, sei lá, coisa que
o valha. Sei, pelo que diziam, que era só para assustar ou levar à loucura. Eu,
realmente notei que havia perdido a noção de rumo. Divisei oferendas de pinga e
fumo deixadas pelos crédulos, coisa mais inusitada: nunca tinha visto aquilo. E
mais adentrei curioso porque, já que errava torto na vida, nada demais tirar a
prova dos nove. E ouvi algo ameaçador: Pronde cê vai, menino, parece um rio sem
leito! Era uma voz que pressupus ser de uma caquética desdentada. Girei o corpo
buscando vê-la, o lugar mais limpo: só matagal, vento brando, zumbidos de
insetos e os característicos sons da mata. Segui adiante e, de repetente,
apareceu-me uma bela e sensual mulher. Sou Kuru’pir, o demônio da floresta. Esbugalhei
os olhos, não era nada daquilo que ouvia desde menino. Fitou-me compenetrada e
seus olhos e cabelos ruivos acenderam realmente. Era fogo. E sua voz rondava
meus ouvidos: sinta o chão e as pegadas dos tantos que antes de você trilharam
essas errâncias. Todos estão aí esperando seus passos para seguirem e guiarem você
para o seu melhor caminho. São muitas direções e é pra isso mesmo a vida:
seguir todos os caminhos, voltar, refazer, reencontrar, se perder, e até mesmo
parar para começar a rodopiar como se fosse um brincado, sabe, que cada um tem
que dançar. Vai, dança, seu menino! A vida é isso: pra dançar mesmo e se
envolver com os que se foram para saber como será com os que virão. Dance e
sinta no chão que pisa o vento que traz a brisa e sopra todas as coisas e tudo
que respira. E mais traz olores, desde da lonjura pra chegar aqui perto e levar
pros redemoinhos daqui, dali e dacolá, porque tudo dança no universo e faz o
chão girar e a gente rodando com tudo. No vento as vozes dos que falaram, dos
que colocam para nos ouvir e ouvir a todos contarem suas próprias hestórias,
cada um a sua vez, os que ficaram, os que passaram, agora é com você, cada tem
sua vez. O vento nos leva a todos os cantos para nos ensinar o Grande Espírito
que está dentro de cada um de nós que somos todos juntos Ele em comunhão, com os
que vieram e que vão, e os que ainda pisarão onde todos já pisaram e você está
pisando. E nos leva para as águas e todos os alagados até a imensidão do mar
que também somos e vamos pela vida que se vive com os que voam, com os que se
arrastam, com os paralisados e os que brotam da terra e dão folhas e frutos, e
nos servem de sombreiro e de alimento para saciar a fome e matar a sede pelo de
cima, de baixo, dos lados ou pra lá no crepúsculo quando entardece e a boquinha
traz a escuridão. Tenha medo não, seu menino, o escuro também faz parte, mesmo
que a gente não veja nada, está tudo escondido, dormindo e sonhando para
acender o fogo do novo dia que virá ao amanhecer, como o Sol que ilumina e
queima dentro da gente para a vida de tudo e todas as coisas. E nos ensina a treva
onde tudo se esconde para renascer, porque será sempre reviver e sonhar deste
muito antes deste chão existir e o tempo era qualquer coisa como o barulho das águas
que nos purifica, o canto dos pássaros, o ronco dos bichos, as folhas que caem e
os rios que nos levam sempre para algum lugar. Era tudo muito mágico e me legou
ao ponto de partida, depois de trilhar ásperas brenhas e chegar ao cume da mais
alta montanha, para lançar os seus açoites a tudo no universo. Foi ali que ela
me disse: sou a guardiã das matas! E desde esse dia meu coração foi envolvido
por sua magia e com ela fui morar. Veja mais aqui, aqui e aqui.
DITOS &
DESDITOS - Em um sonho você viu uma maneira de sobreviver e ficou
cheio de alegria. É do seu interesse encontrar uma maneira de ser muito terno. Torne-se
suave e adorável sempre que tiver oportunidade. Destrua a superabundância. Deixe a carne passar fome, raspe o
cabelo, clareie a mente, defina a vontade, restrinja os sentidos, deixe a
família, fuja da igreja, mate os vermes, vomite o coração, esqueça os mortos. Limite o tempo, renuncie à diversão,
negue a natureza, rejeite conhecidos, descarte objetos, esqueça verdades,
disseque mitos, pare o movimento, bloqueie o impulso, sufoque soluços, engula
tagarelice. Despreze a alegria, despreze o toque, despreze a tragédia, despreze a
liberdade, despreze a constância, despreze a esperança, despreze a exaltação,
despreze a reprodução, despreze a variedade, despreze o embelezamento, despreze
a liberação, despreze o descanso, despreze a doçura, despreze a luz. É uma questão de forma tanto quanto de
função. É uma questão de repulsa. Você é vítima das regras pelas quais vive... Pensamento da artista neo-conceitual estadunidense Jenny
Holzer, que no livro Jenny Holzer: Truisms And Essays (Barbara Gladstone Gallery, 1995), expressou: [...] Se você se comportasse bem, os comunistas não existiriam. [...]. Veja mais aqui e aqui.
ALGUÉM FALOU: No meu começo está o meu fim.
Sucessivamente casas sobem e desmoronam, desmoronam, são ampliadas, são
removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar. Está um campo aberto, ou
uma fábrica, ou um desvio. Pedra velha
para construção nova, madeira velha para fogos novos, fogos velhos para cinzas
e cinzas para a terra que já é carne, pêlo e fezes. Osso de homem e animal,
talo de milho e folha. As casas vivem e morrem: há tempo de construir e tempo
de viver e de gerar. E tempo de o vento quebrar a vidraça solta. E de sacudir o
lambril onde trota o rato do campo e de sacudir as cortinas esfarrapadas
tecidas com lema silencioso.
Expressão da artista alemã-georgiana Thea Djordjadze, autora de obra como MA SA I A LY E A SE – DE (2015), Thea Djordjadze (2014), November
(2013), our full (2012), Lost Promise in a Room (2011), Thea
Djordjadze – His vanity requires no response (2011), Thea Djordjadze.
endless enclosure (2009), Explain away - ე.ი (2009), Un soir, j'ai assis la beauté sur mes
genoux. And I found her bitter and i hurt her (2008), Possibility,
Nansen (2007), History of an Encounter (2007), Fröhliche
Wissenschaft (2003), The Sight of the Conductor (2001), entre
outras.
O CAOS – [...] A
palavra “caos” é das mais pronunciadas na atualidade. Tema cult de congressos,
livros de divulgação científica, artigos de jornal e até programas de TV, fala-se
de caos em todos os campos da cultura. Com certeza, não se trata de um mero
modismo, mas de uma exigência que a realidade contemporânea vem nos colocando:
enfrentar o caos, repensá-lo, reposicionar-se diante dele - mesmo que muitas
vezes a insistente evocação dessa palavra vise, pelo contrário, evitar tal enfrentamento
e conjurar o pavor que o caos certamente mobiliza. Que mudanças se estariam
operando nas subjetividades, hoje, para levá-las a revisar seu conceito de caos
e de ordem, assim como da relação entre ambos? Primeiro, duas palavras acerca
da noção de subjetividade. Todo ambiente sóciocultural é feito de um conjunto
dinâmico de universos. Tais universos afetam as subjetividades, traduzindo-se
como sensações que mobilizam um investimento de desejo em diferentes graus de
intensidade. Relações se estabelecem entre as várias sensações que vibram na
subjetividade a cada momento, formando constelações de forças cambiantes. O
contorno de uma subjetividade delineia-se a partir de uma composição singular
de forças, um certo mapa de sensações. A cada novo universo que se incorpora,
novas sensações entram em cena e um novo mapa de relações se estabelece, sem
que mude necessariamente a figura através da qual a subjetividade se reconhece.
Contudo, à medida em que mudanças deste tipo acumulam-se, pode tornar-se
excessiva a tensão entre as duas faces da subjetividade - a sensível e a formal.
Neste caso, a figura em vigor perde sentido, desestabiliza-se: um limiar de suportabilidade
é ultrapassado. A subjetividade tende então a ser tomada por uma inquietude que
a impele a tornar-se outra, de modo a dar consistência existencial para sua
nova realidade sensível. [...] o caos, hoje, circula de boca em boca, e
que essa insistência em evocá-lo responderia a uma solicitação que a realidade
atual vem nos colocando. De fato, o caos nunca esteve tão presente. Mas se,
neste final de milênio, estamos confrontadas ao caráter precário e incerto da
subjetividade, estamos certamente também - e mais do que nunca - diante de seu
caráter criador. [...]. Trechos do estudo Novas figuras do caos mutações
da subjetividade contemporânea (Face e Fapesp, 1999), da filósofa, escritora,
psicanalista e professora Suely
Rolnik.
PODER, CULTURA
& APARÊNCIAS - [...] Não tenho queixas,
exceto do mundo. [...] Seu
conforto é meu silêncio. [...] Garota \ Não seja burra \ Não seja tímida
\ Não se sinta intimidada \ Não pense que isso não pode acontecer com você \
Faça sexo seguro porque a AIDS mata \ Não morra por amor [...]. Trechos
extraídos da obra Remote Control: Power, Cultures, and the World of
Appearances (Mit
Pr, 1994), da artista
conceitual estadunidense Barbara Kruger, autora de frases como: Se eu trago à tona poder político, poder pessoal, parece que são meus
termos, e não são. Ver não é mais acreditar. A própria noção de verdade foi colocada
em crise. Em um mundo
inchado de imagens, estamos finalmente aprendendo que as fotografias realmente
mentem. Veja mais aqui e aqui.
DO POVO BUSCAMOS A FORÇA - Não basta que seja pura e justa\ a nossa
causa\ É necessário que a pureza e a justiça\ existam dentro de nós.\ Dos que
vieram\ e conosco se aliaram\ muitos traziam sobras no olhar\ intenções
estranhas.\ Para alguns deles a razão da luta\ era só ódio: um ódio antigo\ centrado
e surdo\ como uma lança.\ Para alguns outros era uma bolsa\ bolsa vazia
(queriam enchê-la)\ queriam enchê-la com coisas sujas\ inconfessáveis.\ Outros
viemos.\ Lutar pra nós é ver aquilo\ que o Povo quer\realizado.\ É ter a terra
onde nascemos.\ É sermos livres pra trabalhar.\ É ter pra nós o que criamos\ Lutar
pra nós é um destino -\ é uma ponte entre a descrença\ e a certeza do mundo
novo.\ Na mesma barca nos encontramos.\ Todos concordam - vamos lutar.\ Lutar
pra quê?\ Pra dar vazão ao ódio antigo?\ ou pra ganharmos a liberdade\ e ter
pra nós o que criamos?\ Na mesma barca nos encontramos\ Quem há-de ser o
timoneiro?\ Ah as tramas que eles teceram!\ Ah as lutas que aí travamos!\ Mantivemo-nos
firmes: no povo\ buscáramos a força\ e a razão\ Inexoravelmente\ como uma onda
que ninguém trava\ vencemos.\ O Povo tomou a direção da barca.\ Mas a lição lá
está, foi aprendida:\ Não basta que seja pura e justa\ a nossa causa\ É
necessário que a pureza e a justiça\ existam dentro de nós. Poema extraído do livro Poemas de
Angola (Codecri, 1979), do médico e escritor angolano Agostinho Neto (1922-1979). Veja mais aqui e aqui.
SACADOUTRAS
QUARUP – Uma das obras mais impressionantes da
literatura brasileira é o romance Quarup (Civilização
Brasileira, 1967), do jornalista e escritor Antonio Callado (1917-1997). Conta
a história de um padre de Pernambuco, Nando, que tem o sonho de construir na
Amazônia a sua terra prometida, enquanto se envolve num amor platônico por
Francisca que o faz abandonar a causa e a batina. Uma história vibrante e uma
narrativa riquíssima de engenhosidade literária. Confira um fragmento: [...] Na vida de Nando e Francisca a zona do
Jarina e da cachoeira de Von Martius se transformou em mero divisor de águas. O
dia em que se adotou a resolução de fazer a marcha ficou entregue à fantasia de
cada um. Nando tomou a pequena ubá que vinha no barco de carga e saiu remando,
ali onde o Jarina entre no Xingu. A foz, abaixo da cachoeira de Von Martius,
fica meio oculta por uma ilha. Dando a volta à ilha para melhor pensar em
Francisca, Nando a viu pela primeira vez transferida para o mundo. Desde os
tempos de Olinda, que certas paisagens para Nando a própria Francisca
transposta para outro meio de expressão: oitão de igreja batido de sol com
cajueiro, coqueiro, perto de rede de pescar estendida na areia. Às vezes Nando
sentia mesmo um certo temor de perder Francisca, de disciplinar sua invocação untariatária.
Mas aquele dia na foz do Jarina foi diferente. Remava Nando perdido em sonho de
Francisca, a capacidade de visão tomada pela imagem muito viva daquela com quem
acabava de estar, quando a viu realmente transferida para o mundo. É que por trás
da ilha entrara quase insensivelmente por um mfuro estreito e alastrado de orquídeas
dos dois lados. Mata fendida pelo fio d´água tornado lilás pela contemplação de
tantas orquídeas. Nando remou de volta ao acampamento, encostou a ubá para
chamar Francisca [...] Nando e Francisca não falaram. Apenas se voltaram um
para o outro, braços abertos, e o breve instante em que se separaram foi para
deixarem cair no chão as roupas sobre as quais se deitaram debaixo de orquídeas
pálidas, separados do rio por um cortinado de orquídeas coloridas. Quando veio
o prazer Francisca o fechou em lábios e pétalas quentes sem nenhuma palavra e
Nando descobriu o gozo que é profundo e continuo como mel e seiva que se
elaboram no interior das plantas... Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.
ELA PANTERA NEGRA - A professora e filósofa socialista estadunidense, Angela Yvonne Davis, integrante dos Panteras Negras, do movimento Black Power e militante de organizações políticas dos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial. Por suas atividades, na década de 1979 passou a ser procurada pelo FBI com prisão decretada por ser acusada de conspiração, sequestro e homicídio. Ao ser presa, o seu julgamento durou 18 meses e uma manifestação pública mobilizou o país pela sua libertação. Nos debates do tribunal, a condição negra passou a ser a discussão, sendo, finalmente, inocentada. Ela recebeu homenagens de John Lennon com a música Angela, e dos Rolling Stones que gravaram em sua homenagem Sweet Black Angel. No final da década de 1970, ela foi ganhadora do Prêmio Lêniz da Paz e mantém até hoje suas atividades com discursos e palestras sobre as causas dos negros, latinos e mulheres, concentrando suas atenções para o abolicionista prisional no sistema carcerário dos Estados Unidos. Veja mais aqui e aqui.GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS
Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Fábula dos embeiçados desavindos... ...
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DORO, A TEIBEI & ORÁCULO... – Doro aperreou-se: a situação não estava nada auspiciosa; de promissor mesmo, só a vontade de tom...
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